Ontem:
Estreia de A Paz, comédia de Aristófanes, pelo Teatro da
Rainha. A Matilde no pequeno papel de uma das filhas de Trigeu, lavrador
ateniense que sobe ao Olimpo, montado num escaravelho, para questionar os
deuses sobre as guerras que dividam os helenos. Hermes responde-lhe, tentado
pelas ofertas que lhe testam a gula. Aprisionada no fundo de uma caverna, a Paz
é finalmente libertada pelos camponeses. Trigeu casa com a Abundância, companheira
da Paz. Esta, quase esquecida no final, é a maior inimiga dos fabricantes de
armas, os únicos que ganham com a guerra. Ontem como hoje, a comédia ática enquanto representação do tempo histórico (digo do, não digo de um). Do passado, ressoa o eco do riso
essencial, humano, demasiado humano, tragicamente humano. A comédia de
Aristófanes é tragicamente humana, a despeito dos figurinos dionisíacos, das
vestes fálicas, do olhar dirigido aos espectadores, da paródia orgíaca, da
dança licenciosa do “córdax”. Emergindo da galhofa, a crítica pública do
Estado, a censura dos modos e dos indivíduos, o espírito da populaça a
chegar-lhe como o reflexo num espelho. Daí que Werner Jaeger tenha pressentido
na comédia de Aristófanes um papel censório que era central na educação
ateniense. «Em Atenas, a função censora pertencia à comédia». Ela colocava em
jogo os modelos, «as forças opostas da comunidade e do indivíduo, da multidão e
da inteligência, dos pobres e dos ricos, da liberdade e da opressão».
Recuperada para o nosso tempo histórico, é trágico que não perca a urgência
inicial. Como se nada tivesse mudado, ao fundo do cenário os muros da nossa
vergonha podem ser os que separam a Europa dos refugiados, Israel da Palestina
ou a América de Trump do México. Montados num escaravelho, os trigeus actuais
vão a Fátima engordar os representantes de Deus na Terra e lamentar os
infortúnios enquanto se esquecem da paz à mesa farta de um Carnaval que alterna
a rotina da servidão com o fausto de festas sazonais. Ontem como hoje, hoje
como ontem, Aristófanes mostra-nos o caminho. Se alguém lhe presta atenção,
isso é outra história.
Hoje:
Chego ao cinema do russo Aleksandr Rogozhkin (n. 1949)
pela mão do R.A.. Chekist (1992) coloca em cena os tempos desgraçados da Cheka,
polícia secreta russa fundada por Felix Dzerzhynsky nos tempos da Revolução. De
origem polaca, conhecido como Félix de Ferro, ofereceu à Revolução uma ferramenta
de vigilância e repressão da opinião pública responsável pela execução de
centenas de milhares de pessoas. Camponeses rebeldes, detractores da Revolução
bolchevique, antigos oficiais do exército czarista, traficantes que punham em
causa os novos princípios económicos, padres, intelectuais contestatários,
foram algumas das vítimas deste terror cruamente representado no filme de Rogozhkin.
A rotina das execuções, a burocracia, a arbitrariedade das condenações, os
automatismos de uma máquina de execução que normaliza o terror, são o pano de
fundo sobre o qual assistimos à perda de controlo emocional dos verdugos. Numa
das cenas que lhes retrata o quotidiano, assistimos mais uma vez ao
desfile de nomes e consequente condenação. Há um ritmo que pauta o trabalho,
uma rotina de morte dividida entre três elementos. Um diz o nome e a
acusação, o outro sugere a condenação, o terceiro confirma-a. Tudo rápido e
repetitivo como quem recita um mantra, como quem distribui carimbos numa repartição de finanças. A determinada altura, o primeiro
elemento do processo resolve quebrar a monotonia. Pronuncia o nome de um dos
camaradas na sala e subsequente acusação: chequista. Ao que o segundo responde automaticamente,
sem sequer se aperceber que era a si mesmo que condenava: fuzilamento. A
loucura normalizada sob a autojustificação consciente de que “a revolução não é
filosofia” levará alguns verdugos a sucumbirem perante a consciência das suas
acções, tentando suicídio quando pouco mais lhes resta. Sequências montadas como
terapia de choque, numa revisitação da história que não vale a pena contestar.


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