quinta-feira, 18 de abril de 2019

ANTONIA POZZI


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   Foi no dia em que acordei invisível, a três de Dezembro. (...)
   Então vi Antonia passar. Fui atrás dela. Não como que perseguindo-a, porque não a perseguia. Na verdade, pouco me ralava onde iria, o que fazia, apenas queria saber se estava bem. E invisivelmente persegui Antonia até uma nova realidade. Antonia tinha uma caminhada encantadora. Entrou numa imagem, e dessa imagem saltou para outra imagem, atravessou túneis longínquos de imagens fantasiosas, tinha a voz de um anjo, o rosto engenhoso de quem sonha e não se importa de oferecer alegria aos olhos. Eu amava Antonia, amo-a. Penso nela a todas as horas do dia. Mas não quis fazê-la sofrer, deixei-me ficar invisível e meti-me por atalhos obscuros, pensei que talvez pudesse ser salvo pela tristeza.De uma atmosfera assim, tudo o que podemos esperar é indiferença.

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Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Junho de 2013, pp. 18-19.Nota: no dia 2 de Dezembro de 1938, com 26 anos, Antonia Pozzi tomou uma dose excessiva de barbitúricos. Morreu no dia seguinte. A família disse que tinha morrido de pneumonia, o pai destruiu-lhe o testamento e incumbiu-se de alterar-lhe fortemente os poemas que se mantinham inéditos em pequenos cadernos de apontamentos.

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