terça-feira, 18 de junho de 2019

JOHN BERRYMAN


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   Quando aqui cheguei confundia sonhos com números. Em Minneapolis os sonhos têm números, nem sequer são autocarros, podem ser 55, mas nunca carreiras. Quando cheguei ainda tinha o aconchego das mantas a aquecer-me o corpo. Rapidamente percebi que de nada me valeria mudar o sotaque. Um homem é o que nasce. Eu conhecia o Peter, mas não aquele que todos queriam conhecer. Eu saía sozinho, subia às pontes, descia aos portos, trocava balcões com bêbados e os que eu julgava serem marginais, até um dia ter entrado numa poça de água turva e aí ter descoberto um infinito mundo subaquático.

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   Não gosto de Minneapolis, não quero ir para esse lugarejo, nessa furna de esperas com as costas largas, nesse lugar de gente sem gente, foi-me dado ver apenas o pior que é dado ver a quem vê. Atacado de psicose maníaco-depressiva, vim parar ao mistério que me traz por perto uma velha cigana, de mãos encardidas, falando para a terra, com a terra, o que alguns dizem ser diálogo de si para consigo. Vem devagarinho para a minha beira, vem cigana, vem como os amigos que nunca vieram sem vontade de partir, sem a urdidura de uma traição, vem cigana, o mundo é bola de fogo, nem todos ficam a arder.


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, pp. 57-59. Nota: o pai suicidou-se quando Berryman tinha 11 anos, facto que o marcou para a vida. Alcoólico, deprimido, saltou da ponte Washington Avenue no dia 7 de Janeiro de 1972. Ficou conhecido pelas suas Dream SongsO primeiro verso da Dream Song 55 é: «Peter's not friendly. He gives me sideways looks.»

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