domingo, 30 de maio de 2021

POEMAS AO SACRO

 
I
(canal sacral)
 
Em silêncio a dor insinua
a postura incorrecta
do descrente
 
Prostrando-o de joelhos
no chão frio
para que aprenda
à força da tortura sem algoz
o poder da fé
 
Na homeopatia
 
 
II
(forames sacrais dorsais)
 
O mal começa quando 
nos querem de pé 
 
De quatro seriam outras
as dores talvez
como as de quem sonha 
quando deitado acorda
arfando horizontalmente 
 
A verticalidade só 
traz desconforto 
o horizonte mente
a curva desmente
 
E o homem é
um quadrúpede de fé 
com deslocamento 
do sacro
 
O que resta do rabo símio
não é passado
de que me orgulhe
 
 
III 
(forames sacrais pelvinos)
 
Galardoado pela arte sacra
na base da coluna esculpida 
o homem gritou de raiva
ou de dor
 
Não dá para perceber 
 
A doença é uma humilhação 
incapacitante 
que tudo confunde
 
Só quem habita o corpo 
conhece os enigmas do templo
 
 
IV
(promontório)
 
Em vista de mim mesmo 
uma maré de dores vagas
que arrastam o sono
e inundam a paciência
com os detritos da escrita
 
Em vista de mim mesmo
nem uma nota de conforto
 
Tudo corpo
 
Tudo torto
 
 
V
(face articular lombossacral)
 
O sofrimento assoma ao rosto
fazendo-te engolir as palavras
 
Ficas com a barriga cheia
de vocábulos impronunciáveis
 
Cada letra é uma vértebra fora do lugar
 
Caligrafia desalinhada
que só fora das margens
adquire sentido
 
 
VI
(processos articulares superiores)
 
Deite-se de barriga para baixo
Expire fundo
 
Já não moro no meu corpo 
Terei vendido a alma? 
 
Coloque-se de lado
Do outro
 
Estou do avesso dentro de mim
 
Sacramente inflamado 
Espiritualmente extinto
 
Sacrílego?
Deus não é dado a pormenores
 
 
VII
(crista sacral mediana)
 
Tive um galo que cantava
canto gregoriano 
Da sua crista cristã sacral
evolavam padecimentos 
 
E agora sobra-me esta mediania
acamada num silêncio 
pesaroso 
 
Nem galo nem fortuna
apenas uma dor que percorre a coluna
do sacro à cabeça
 
 
VIII
(faces auriculares do sacro)
 
Quantos rostos são os teus Senhor 
que em nenhum encontro conforto? 
 
Perdoa-me o ouvido interno surdo
a mesmidade do si-mesmo repetida
como alarme que a hora incerta
indica ao corpo as vias do alívio 
 
Poderá a tua face Senhor ser redonda
e branca e lisa como a do comprimido?
 
 
IX
(ápice do sacro cóccix)
 
Lá fora as asas dos pássaros
enxotam o vento
Vejo-os daqui pela janela
que dá para o fim do mundo
E escuto os motores
em movimento
as nuvens que passam
como o tempo 
lentamente
e tropeçam nas sombras dos astros
e caem por terra como cometas
 
Lá fora o movimento mudo
da Terra
coberta pelo sal dos oceanos
e pelo sangue dos homens
 
Estou deitado e escuto e vejo
e tento não pensar na demora
desta existência convalescente
num ápice aparecida
de súbito esquecida
enquanto lá fora até as árvores
parecem caminhar sobre raízes
e as rochas me surgem felizes
em torno de um eixo
fixo
deslocado
 
 
X
(processos transversos do cóccix) 
 
Sorriam-lhe as lágrimas
pelas faces pálidas
li por lapso numa história
do século XIX
e logo me ocorreu cevar
nesta raiva
uns versos travestidos de dor
 
São transversos o que escrevo
para não gritar
 
Em silêncio ninguém me ouve
só a mim a dor perturba
e nestes versos que ninguém lerá
sobra o consolo que por lapso
a doença inventa
para se fingir saudável
 
 
XI
(cornos do cóccix) 
 
O mais fácil seria dizer
há que pegar o cóccix pelos cornos
ou elaborar trocadilhos 
entre cornos e corpos 
Mas eu não estou para piadas 
falta-me riso à paciência 
 
Lá está 
o quão espirituosa logra ser
a ciência das palavras 
a doença que nos atinge 
como Deus a marrar-nos por dentro
e o corpo feito arena
sem público 
 
Isto é sobre a dor incapacitante
que atinge a coluna
esse pilar da consciência
que mantém de pé um corpo
diante da adversidade
 
Nada disto tem graça alguma
 
A piada estará em haver quem por acaso
compreenda a chama
que excita o pirómano
a falta de ar que agita
o peixe fora de água
o corno que perfura
o bandarilheiro
 
Não há nobreza na dor
mesmo quando disfarçada de prazer
exalta o submisso
ou provoca o martírio
a dor é uma ruptura
uma fractura
 
Nobre é o músculo que inquieta o osso
e faz caminhar na direcção do outro
não isto que nos prende dentro de nós
como se nada mais houvesse
além do corpo que sentimos
sofrer
 
Levanta-te e anda
 
Quem nunca perdoou
que fracture a primeira vértebra

3 comentários:

PJ Nelson disse...

Yoga
Pilates

PJ Nelson disse...

Yoga
Pilates

hmbf disse...

Com Jesus Cristo não resultou. É a minha Via Sacrossanta.