segunda-feira, 7 de junho de 2021

OS GRANDES TEMAS

As grandes questões, os grandes temas, já estavam no Génesis. Nada de novo foi inventado, apenas mudaram as formas de ir dizendo. Em todas as épocas encontramos o intelectual enfadado com o presente e desconfiado do futuro, aquele que sem o dizer é como se dissesse ou pensasse "a juventude está perdida". Nada o entusiasma, nada senão a sua própria decadência o motiva. Acontece também a quem envelhece mal, convencido de que tudo à sua volta não faz justiça à sua incomensurável sabedoria, ter-se numa conta que falha, desde logo, na equação básica da insignificância universal. Acho que era o César Monteiro quem dizia: "vistos de Paris somos todos saloios". E, em certa medida, está certo. Todos. Mas o que dirão de si mesmo aqueles que estão em Paris? Também podemos dizer "vistos de Homero todos os escritores actuais são medíocres". Mas o que terão dito esses que viveram no tempo de Homero, se é que tal tempo alguma vez existiu? Há um poema de Juraan Vink que é sobre isto e de algum modo ainda me agrada. Traduzi-o, na medida das minhas possibilidades. Ficou assim:

 

PREVISÕES METEOROLÓGICAS
 
Não podem as ondas prender as pernas
com as correntes das marés
que o mar não prende
arrasta para um fundo silêncio o náufrago
 
Da profundidade um rumor à superfície
a célula o osso o pó
 
E alguém encostado à parede saturada
de um estômago queixando-se
da baleia que o cuspiu como a um escarro
 
O tempo tem vida própria
Raramente não andamos desencontrados

 

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