sábado, 12 de junho de 2021

HERANÇA

 

As necessidades de uma vida são exactamente as mesmas desde Platão: comida e bebida para saciar fome e sede, roupas que nos protejam do frio, um abrigo onde nos sintamos seguros. Todas as demais necessidades, sobre estas geradas, são secundárias e, por isso mesmo, dispensáveis. A propriedade não é apenas uma coisa que se possui, é também a angústia de perder. O acumulador existe sufocado sob quanto tem e irá perder, o proprietário é servo daquilo que detém. Torna-se ele mesmo propriedade do seu património material. No fundo, as coisas é que o têm a ele. Satisfazer o básico é quanto basta a uma liberdade essencial, é quanto exige a alegria de viver e aquele estado de felicidade que consiste em não haver preocupações. Poucos são os que o experimentam, pois foram educados para o contrário, ou seja, para o sacrifício da liberdade em nome da riqueza que confundem com sucesso e do sucesso que confundem com progresso. Chega-se ao termo da existência e a conclusão impõe-se com clarividência. Em tudo quanto deixamos a quem nos sobrevive pouco resta que não seja absolutamente dispensável e descartável. O que foi a nossa vida perecerá em antiquários bafientos e feiras de velharias. Seremos transaccionados como pechinchas, na melhor das hipóteses. Na pior, seremos directamente atirados para o lixo.
 
Juraan Vink, "Diários".
(tradução minha)

5 comentários:

sonia disse...

Concordo inteiramente com o que está no texto. A cada mudança que fiz descartei muita coisa, doando à casa de respouso minhas quinquilharias. Venho pensando até no que ainda posso descartar, para que a minha morte não signifique um peso a meus filhos.

hmbf disse...

Saúde.

Evandro disse...

Olá, Henrique. Nesta sexta-feira irei lançar pequeno livro de poesia, são sonetos para os profetas do Aleijadinho. Gostaria de mandar um convite. Mando por aqui?

Transhümantes disse...

Está bonito o texto vou roubar umas palavras...Tudo de bom!

hmbf disse...

Evandro, o email do weblog: universosdesfeitos@yahoo.com.br