sexta-feira, 11 de junho de 2021

OS ACTORES

 


Experiência nova, esta de assistir por dentro à construção do edifício. Estar no meio, observar, com espanto e admiração, o trabalho inimaginável do encenador e da produção e dos técnicos e dos actores e demais em torno de um texto. De ir assistindo vão surgindo versos pouco vigiados, coisas repentinas em posição de aprendiz. Registo-os num caderno à laia de impressões. Aqui ficam estes, dedicados a todos quantos tenho tido o privilégio de ver trabalhar em “Lázaro, também ele sonhava com o Eldorado”.
 
OS ACTORES
 
Os actores esculpem a pedra bruta das palavras.
Dão forma ao vapor do texto.
Nomeiam com gestos a língua inominável da impersonagem.
Vestem o rosto bárbaro cómico trágico
dos animais inquietos na floresta densa.
Dançam com o silêncio uma escrita
por tentativa e erro trauteada.
Experimentam respirar debaixo do pensamento
enquanto caminham sobre as águas.
E voam sem rede na direcção dum eclipse.
A luz que baixa a luz que sobe.
Cortina que abre e fecha.
O pano. O palco.
E o dia na noite começa
a noite que no dia acaba
com os actores a cinzelar a palavra
pétrea de um nome próprio.
 
Os actores compõem o nome. Moldam a fera.
Fundem o ferro da estrutura inabalável.
Eles incorporam a pintura rupestre
há 40 mil anos esboçada na parede duma caverna.
São a sombra que da luz se liberta
para à luz estender novamente os pulsos rendidos.
Agitam-se ao redor da fogueira
ateada pelo ritmo. Marcam os tempos
como domadores espontaneamente rendidos
ao animal selvagem
que em cada sopro brota.
 
Os actores são uma fonte de sombras
rebentando no palco improvisado
da ternura.
Já não é deles a face maquilhada
nem a carne revestida
de pronomes.
São a palavra que se junta ao nome e diz:
põe-te no meu lugar.
Os meus olhos perseguem-nos enquanto rodopiam
sob si mesmos
como um pião lançado pela criança
no trilho mágico e imaginário de um esgar.
Vejo-os assim sombrios e luminosos
como relâmpagos desferidos
por nuvens carregadas de cinza.
 
Os actores são o útero do sonho.
Sorriem contra a face de Deus
um monólogo lacrimejante
e o diálogo impossível da treva consigo mesma.
Do sangue dos actores
irrompe o fumo.
E a lava da acção vulcânica
arrasta o público para dentro da dúvida:
serão reais os actores?
ou serão a verdade fingida
do reflexo em que nos afogamos
como náufragos do tédio quotidianamente repetido?
Seus semblantes questionam-nos.
Suas vozes interpelam-nos.
Observo-os com o olhar cegado de espanto
sentindo pontear-se na pele
as emoções
de uma pele desconhecida.
 
Sim, os actores ateiam a boca, depois os cabelos.
Ardem da cabeça aos pés até deles restar
o corpo renascido do papel.
Mergulham no chão e é como se chão não houvesse.
Repercutem vezes sem conta a fala
para que a fala deixe de ser fala
e se transverta em ar.
Escuto-lhes a respiração assombrada
e admiro-me de não saber quem neles respira.
Quem respira no actor?
No pulmão dos actores reverberam
as notas unidas do acorde exacto
em que duas vozes ressoam.
O público respira na voz dos actores.
 
É o espectador quem respira na voz do actor.

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