quarta-feira, 21 de julho de 2021

MUSICAIS

 


   Ontem, durante a conversa em torno do Discurso sobre o filho-da-puta saiu-me esta: não gosto de musicais. É coisa que digo muitas vezes, sai-me, sem reparar na parvoíce que estou a dizer. A minha mais velha, que gosta de musicais — ofereci-lhe há tempos um livro sobre o tema —, teria apreciado ver o que eu vi: os olhos de algumas pessoas na assistência a revirarem-se naqueles rostos mascarados que agora são só olhos. Temi o pior, pelo que me desculpei com um "não podemos gostar todos do mesmo".
   Esta generalização é estúpida como a maioria das generalizações no domínio da estética. A tragédia grega era musical. Não gosto? E de ópera, não gosto? Burlesco? Esta embirração com o musical vem das revistas que ia ver com os meus pais quando era puto. Um tédio. Vem de filmes americanos que me estragavam as tardes de domingo. Aqueles com o Elvis. Não tinha sensibilidade para tais cantorias. As pessoas não andam por aí a cantar e a dançar umas com as outras em coreografia, julgava. O realismo pesou sempre muito nesta cabeça, até ter lido o Kafka da Metamorfose. Que é realista à sua maneira, embora subverta a lógica determinista a que submetemos o pensamento.
   Vim para casa a lembrar filmes musicais de que gostei. São vários. Até de um malogrado Western me lembrei, Paint Your Wagon/Os Maridos de Elizabeth (1969), o derradeiro filme de Joshua Logan. Com Lee Marvin, Clint Eastwood e, imagine-se, a belíssima Jean Seberg. Desatei a rir da parvoíce que tinha dito: não gosto de musicais. Não estava ali eu para falar de um musical? Não é o Discurso sobre o filho-da-puta encenado pelo Fernando Mora Ramos com composição musical do Miguel Azguime um musical iconoclasta, heteróclito, heterodoxo? É. Com que então o menino não gosta de musicais? Pensasse duas vezes antes de parolar e evitaria muitas vergonhas.

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