sábado, 4 de setembro de 2021

BLUES WITH HELEN (1938?)

 


Para a Marina Tadeu.

 

Fui aos CTT enviar dois livros. Um, para pessoa que não conheço senão via Facebook. Outro, para pessoa que admiro e tive o prazer de conhecer na última Festa do Avante. E isto fez-me lembrar Helen Humes. Ninguém fala dela, a rapariga que aprendeu a cantar no coro da igreja e aos 14 anos de idade gravava os primeiros blues. 10 anos a estudar economia e a trabalhar num banco afastaram-na da música. Foi Al Sears quem a resgatou do tédio, acompanhando-a no The Cotton Club. Count Baise, na plateia, ouviu-a cantar e logo sugeriu que substituísse Billie Holiday na orquestra atómica. Humes permaneceu 4 anos na orquestra de Basie, “Blues with Helen” data desses tempos gloriosos com Lester Young no saxofone tenor. O stress acumulado nas digressões voltou a afastá-la. Continuou a cantar, acompanhada pelo genial Art Tatum ao piano, gravando bandas sonoras, participando discretamente em musicais. Esta opção por uma carreira mais sóbria gerou especulação, mas Humes defendeu-se em grande: «I'm not trying to be a star! I want to work and be happy and just go along and have my friends – and that's my career.» Não a imagino em grandes discussões sobre arte, mas acredito que lá no fundo também julgasse que toda a arte é uma máquina reprodutora de espanto. Agora um blues, a voz das privações a intrometer-se para que coisas sejam ditas. A sintaxe das horas também não é rectilínea, a despeito das medidas tomadas para que de 24 em 24 horas novas esperanças esmoreçam e velhas angústias futurem. Há que improvisar verbos, palavras que substituam desabafos, pois ruinosa é a imaginação de quem tanto diz. O blues, na sua simplicidade repousa e irrompe, tal um vulcão cutâneo, aquilo que há de essencial se essencial houvesse. E é alguma coisa, nada de socalcos e vinhas em terrenos escarpados com vides imaginárias trepando as paredes do ar. Pevides não dão sumo, uvas não dão sangue. Que nome atribuir à voz que semeia emoções profundas nas terras lavradas do peito? Que nome para os edifícios azuis florescendo nos olhos com raízes robustas, mais que imagens indecifráveis e indefiníveis com que povoamos páginas boas para arder? Livros há que dariam óptimas acendalhas de cinza. O blues chega para eles, tão espontaneamente desabrochado na boca de quem canta. Agora a exaustiva prestação dos vocábulos ambiciosos: a página no jornal, o prémio, admiração boquiaberta de moscas ignorantes, vaidade. Porque no fim de tudo a vaidade activa o motor de arranque nos homens que não desejam e nas mulheres que desistiram dos homens que não desejam e dos filhos que não compreendem a potência inerente à solidão. Ela disse: «I'm not trying to be a star! I want to work and be happy and just go along and have my friends – and that's my career.» Quantos desses actores de revista já caídos em esquecimento teriam inteligência para tal?

1 comentário:

Marina Tadeu disse...

Oh. Será que mereço? Também foi para mim um prazer conhecer-te. Effortless. Quanto à Helen, suspeito que ela cantava o blues a sorrir porque achava a posteridade ainda mais caricata do que os homens. Abraço e força por aí.