segunda-feira, 6 de setembro de 2021

MY SWEET PASSION (1963)


 

Há tempos um amigo sugeriu-me que publicasse uma antologia da minha poesia. Devolvi-lhe um sorriso, mas fiquei a matutar no assunto. Concluí entretanto que a sugestão só pode ter uma de duas razões: ou esse meu amigo não leu de todo os meus livros ou não percebeu absolutamente nada do que neles ficou gravado. Podem estar mais ou menos bem escritos, podem ter erros, lapsos, gralhas, certamente revê-los-ia a todos com um rigor que nunca mereceram em matéria de revisão, mas foram severamente ponderados, pensados, montados. Cada livro tem uma estrutura e conta qualquer coisa que seria ingrato desmembrar. Não se mistura um poema em prosa de Suicidas (título de que já me arrependi um milhão de vezes) com um poema em verso de A Dança das Feridas, o caminho percorrido em Estação 2012 não se pode baralhar com a sequência intitulada A Grua. Transferir um poema desses livros para uma antologia seria retirar-lhe o sentido fundamental de serem partes integrantes de um corpo com um sentido próprio e exclusivo. Não me interessa nada ser lido por ser lido, e muito menos estou preocupado em agradar a quem quer que seja com o que escrevo. O problema inicial já foi colocado por Manuel Gusmão: viesses tu ao teu encontro e quem estaria lá? É ainda o velho filósofo quem ecoa nestes versos. Conhece-te a ti mesmo, dizia, para que em saindo de nós próprios nos pudéssemos reconhecer ao largo. Escrever um livro tem essa dimensão de sairmos de nós próprios. Jamais me reconheceria numa amálgama de virtudes, prefiro conservar o reflexo da virtude de mãos dadas com o vício. A ideia de perfeição repugna-me, a adoração repele-me, a obra completa traz-me a melancolia dos mortos. Porque nos fixamos num lugar? Quem o escolheu, nós ou as circunstâncias? Aqueles que antes de nós povoaram a paisagem, como aqui chegaram? De onde vinham? Têm saudade? Porque abandonaram o lugar de origem e escolheram este para habitar? Que terão visto aqui, que terão encontrado? Que esperamos nós ainda descobrir? O pianista Duke Pearson, que tinha a minha idade quando faleceu, vítima de esclerose múltipla, compôs a maioria dos temas do álbum Little Johnny C. É um álbum atribuído ao trompetista Johnny Coles, que não tem uma única composição sua no alinhamento. Isto, em literatura, seria o quê? De quem é o poema, de quem o assina ou das vozes escondidas por detrás da assinatura?

4 comentários:

Anónimo disse...

Concordo muito! Mas estou relendo uma antologia do Manuel Bandeira, organizada pelo próprio autor, que editou o volume em extensos capítulos nomeados com os títulos dos livros que ele havia publicado até então (1977). Não li ainda toda a obra do Bandeira, mas os livros que li, me parecem bem contextualizados ali na antologia. Algo mesmo raro nessas publicações. Daniel Ricardo Barbosa.

hmbf disse...

Abraço.

Anónimo disse...

Abraço!
.
P.S.: mas cá estive eu a pensar, como sempre lento de raciocínio, mas bem da memória... rs.
Se achei os livros que li do Manuel Bandeira, bem contextualizados na antologia que estou a reler, só pode ser por que os li, antes de ler a antologia. :-)

hmbf disse...

Pois, faz a diferença.