quinta-feira, 14 de outubro de 2021

PÃO & VINHO - VIII

 
   Quando Miguel de Cervantes nasceu, em 1547, já o nosso Luís de Camões (1524-1579?) levava uns anitos de boémia nas tabernas envolvendo-se em arruaças por razões de coração. Em 1550 alistou-se para viajar até à Índia, partindo na nau São Bento três anos depois. Ainda que sendo o poeta do amor, também nele o desconcerto do mundo não ficou por mãos alheias: «Os bons vi sempre passar / no mundo graves tormentos; e, para mais me espantar, / os maus vi sempre nadar / em mar de contentamentos.» A despeito do tom encomiástico que percorre Os Lusíadas (1572), começado a escrever durante o périplo indiano, é notável a forma como Camões critica, em passagens diversas, a cobiça, a ambição, o vício da tirania. A obra é sobre os feitos dos portugueses no estrangeiro, os quais merecem inúmeros elogios contra a casta de infiéis da maligna gente Serracena.
   Muito ao estilo renascentista, respigando personagens mitológicas tanto da Roma como da Grécia antigas, no Canto IX o poeta coloca os portugueses de regresso a casa. Vénus resolve presentear esse bom povo com «algum deleite, algum descanso». Vai ao encontro de Cupido, seu filho, para lhe pedir que abrase umas Ninfas que ficariam ao dispor dos marinheiros lusitanos. Pelo caminho, vê coisas. Entre as quais, esta:
 
E vê do mundo todo os principais,
Que nenhum no bem púbrico imagina;
Vê neles que não têm amor a mais
Que a si somente, e a quem Filáucia ensina;
Vê que esses que frequentam os reais
Paços, por verdadeira e sã doutrina
Vendem adulação, que mal consente
Mondar-se o novo trigo florecente.
 
   Camões atira-se assim à casta de arrivistas que, no seu tempo, pululava nos «reais paços», levando uma vida hipócrita e nada produzindo em favor da nação e do seu povo. Antes pelo contrário, egoístas e usurários, faziam leis discriminatórias para caírem nas boas graças da aristocracia: «Leis em favor do Rei se estabelecem, / As em favor do povo só perecem.» O trigo surge aqui como metáfora da renovação e da regeneração, já não de um ponto de vista meramente ontológico, mas também numa perspectiva política. Talvez não fosse mal que atingisse o herói Vasco da Gama e seu séquito, então encaminhado pela Deusa dos Amores para uma Ilha onde seriam brindados com o maior dos regalos:
 
Ali, com mil refrescos e manjares,
Com vinhos odoríferos e rosas,
Em cristalinos paços singulares,
Fermosos leitos, e elas mais fermosas,
Enfim, com mil deleites não vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
De amor feridas, pera lhe entregarem
Quantas delas os olhos cobiçarem.
 
   Camões bem que pode chamar odioso a Baco, não se livra da fama de ter sido um seu fiel discípulo. Mulheres e vinho aos navegadores numa «fermosa Ilha, alegre e deleitosa», adornada com «claras fontes», verdura viçosa, «pedras alvas», «claras águas» e «fermosos limões ali, cheirando, / Estão virgíneas tetas imitando.» Que outra coisa temos aqui senão um vislumbre dessas bacantes executadas na fogueira da hipócrita Inquisição? E sobre vinhos, já no Canto X, prossegue o vate:
 
Os vinhos odoríferos, que acima
Estão não só do itálico Falerno,
Mas da ambrósia, que Jove tanto estima
Com todo o ajuntamento sempiterno,
Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,
Crespas escumas erguem, que no interno
Coração movem súbita alegria,
Saltando coa mistura de água fria.
 
   Diz ele mal de Baco?! Em Camões o vinho reaparece num contexto erótico, o da Ilha dos Amores, e proporciona alegria. É símbolo de voluptuosidade e de divertimento, descanso, uma oferta dos deuses. Não nos podemos esquecer que já em Eurípedes assistimos a tal associação, vindo ela a repetir-se ao longo dos séculos até aos tempos contemporâneos. Um poema extraordinário de Anne Carson no livro A Beleza do Marido reenvia-nos, precisamente, para esse universo onde vinho e erotismo se interpenetram. Citemos as primeiras estrofes:
 
Cheiro
Nunca me hei-de esquecer.
Lá fora através da vinha.
Um lugar de pedra talvez uma arrecadação ou uma câmara frigorífica em desuso.
Outubro, algum frio. Feno no chão. Tínhamos ido à quinta do avô dele para dar uma ajuda
 
a pisar
as uvas para o vinho.
Não podes imaginar como é se nunca o fizeste —
como bolbos endurecidos de seda vermelha e molhada a explodir debaixo dos teus pés,
entre os dedos dos pés e pernas acima braços cara salpicando por todo o lado —
Atravessa logo pela roupa adentro sabes foi o que ele disse enquanto calcávamos para cima e para baixo
 
na cuba.
Quando as despires
vais estar toda suja de sumo.
Os olhos dele levantaram-se para mim e disse Vamos conferir.
Nua no lugar de pedra era verdade, manchas pegajosas, pele, eu deitei-me no feno
e ele lambeu.
Lambeu tudo.
Correu lá fora e trouxe nas mãos mais borras e espalhou-as
nos meus joelhos pescoço barriga lambendo. Mordiscando. Mergulhando.
Língua é para mim o cheiro de Outubro. Lembro-me que foi
como nadar num rio com uma corrente forte porque continuava a mexer-me e era difícil mexer-me
 
enquanto tudo à minha volta
se mexia também, aquele cheiro
de terra revirada e plantas arrefecidas e a noite a cair e
a velha cuba a fumegar ao de leve lá fora no crepúsculo e ele,
 
a crueza do sumo nele.
(…)
 
   Menos dado ao erotismo do que ao humor negro, o anglo-irlandês Jonathan Swift (1667-1745), autor de As Viagens de Gulliver (1726), foi um satirista implacável dos ingleses. Chegou a deão da catedral de Saint Patrick, em Dublin, mas nem por isso se eximiu de caricaturar em textos incisivos o poder eclesiástico. A posição de Swift em diversas matérias permite-nos até afirmar que o seu ponto de vista era sempre o de quem estando do lado dos privilegiados mais facilmente os desmascarava, assumindo a causa daqueles que eram as principais vítimas dessa caterva de papas, sobrinhos e parentes que se acotovelava nos corredores do poder. As manias da sociedade do seu tempo, enterrada num lodaçal de frivolidades de salão onde os senhores se entretinham com intrigas enquanto as gentes humildes morriam à fome nas ruas, era outro dos seus alvos. Em Preceitos para uso do pessoal doméstico (1731) ele ocupou-se de conselhos aos criados. É óbvio que estes conselhos têm mais em vista ridicularizar as manias dos senhores e das senhoras do que educar a criadagem. Começa logo pelo mordomo:
 
   Ao torrar o pão, não perca tempo a olhar por ele; ponha-o sobre as brasas e vá à sua vida. Ser, ao voltar, o vir queimado de um lado, raspe a parte estorricada e sirva.
 
Ainda sobre pão, agora a lacaio:
 
   Se sobrar pão ao jantar, ponha-o nos pratos sujos e coloque outros por cima, para que ninguém lhe toque; podem ser uma boa gorjeta para o moço dos recados.
   (…) Auxilie os seus irmãos deserdados da fortuna: tome um deles sob as suas ordens para lhe fazer recados da senhora, se lhe apetecer ir à taberna; dê-lhe, uma vez por outra, uma bucha de pão com carne, o que não arruinará seu amo (…).
 
   O pão era, então, alimento de pobre. Ia à mesa dos senhores para ser desperdiçado. Os cereais que consumiam serviam para outras iguarias, nomeadamente papas, doçaria, alimentação do gado. Daí que não fizesse mal ir à mesa estorricado, desde que a parte de cima disfarçasse o estado em que se encontrava. Interessava a aparência, não a essência. De aparências vivam os senhores. O desperdício, porém, matava a fome a moços de recados. Tal leviandade ficou plasmada na célebre frase atribuída a Maria Antonieta (1755-1793), a rainha que a Revolução Francesa decapitou. Se o povo não tem pão, que comam brioches, terá dito a esbanjadora insensível. Toda a França estava convencida disso mesmo, daí a ovação da multidão ao ver a cabeça da rainha rolar aos pés do verdugo. Contudo, é pouco provável que a tal frase tivesse sido por si proferida. O responsável terá sido Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que no Livro Sexto das suas Confissões conta a história seguinte:
 
(…)
 
   Em casa de Mamã havia perdido o gosto dos pequenos furtos, visto que, sendo tudo meu, nada tinha a roubar. Aliás, os princípios elevados que me havia imposto deviam tornar-me daqui por diante muito superior a tais baixezas, e é certo que ordinariamente e fui desde então: menos, porém, por haver aprendido a vencer as minhas tentações do que por lhes haver cortado as raízes, e recearia grandemente roubar se, como quando era criança, fosse sujeito aos mesmos desejos. Tive disso a prova em casa de Monsieur de Mably. Rodeado de pequenas coisas que facilmente podia roubar, mas para as quais nem sequer olhava, lembrei-me de cobiçar um certo vinhito branco d’Arbois, belíssimo, que alguns copos bebidos de vez em onde à mesa me tinham feito apreciar grandemente. Era um pouco turvo; eu julgava saber clarificar bem o vinho; gabava-me disso, pelo que mo confiaram; clarifiquei-o e estraguei-o, mas só à vista; continuou sempre muito agradável ao paladar, e a ocasião proporcionou-me reservar de tempos em tempos algumas garrafas para beber à minha vontade no meu quartito. Infelizmente, nunca pude beber sem comer. Que fazer para arranjar pão? Era-me impossível fazer reserva dele. Mandá-lo comprar pelos criados era denunciar-me e quase insultar o dono da casa. Comprá-lo eu mesmo, nunca me atreveria a fazê-lo. Podia lá um lindo cavalheiro, de espada à ilharga, ir à padaria comprar um bocado de pão? Lembrei-me por fim do último recurso de uma princesa, a quem diziam que a gente do campo não tinha pão, e que respondeu: Que comam broinhas. Comprei broinhas. Mesmo assim, o que não foi preciso! Nesta intenção saí só, percorrei várias vezes a cidade inteira, e passei em frente de trinta pastelarias antes de me decidir a entrar em qualquer. Necessário era que houvesse apenas uma pessoa na loja, e que a sua fisionomia me atraísse bastante, para me atrever a passar o rebate. Mas também quando, uma vez na posse da minha broinhazita, e, bem fechado no quarto, ia buscar a garrafa ao fundo de um armário, que belas patuscadas eu não fazia sozinho, lendo algumas páginas de um romance! Porque ler enquanto como foi sempre a minha fantasia, à míngua de parceiro, é o complemento da sociedade que me falta. Devoro alternadamente uma página e um naco: e como se o livro jantasse comigo.
 
(…)
 
   É pouco plausível que a cabeça de Maria Antonieta tivesse rolado por causa desta pueril confissão, mas não podemos deixar de notar a forte probabilidade de as cobiças de Rousseau terem alimentado um boato. Tanto o vinhito como o pão para acompanhar, que isto de beber com o estômago vazio não traz saúde a ninguém, estão assim irremediavelmente ligados a um dos períodos mais importantes na história da humanidade. Não foi sempre assim? Não foi assim na fundação de Roma?
   Mas regressemos a Swift, agora por causa dos vinhos. O destinatário dos conselhos é o mordomo da casa:
 
   Chego aqui a uma parte muito importante das suas obrigações, o engarrafamento do vinho, para que recomendo três virtudes: asseio, frugalidade e fraternidade. Que as rolhas sejam das mais compridas, o que poupará vinho em cada garglo. Quanto às garrafas, escolha as mais pequenas que consiga encontrar, o que aumentará o número de dúzias e agradará a seu amo, porque uma garrafa de vinho é sempre uma garrafa de vinho, tenha a quantidade que tiver, e se seu amo conseguir o número de dúzias que deseja, nada terá de que se lamentar.
   Cada uma das garrafas deve ser enxaguada com vinho, não vá ter ficado depósito na lavagem. Certas pessoas, por mal entendida economia, enxaguam uma dúzia de garrafas com o mesmo vinho, mas eu dou-lhe de conselho, para maior segurança, que o mude de duas em duas garrafas; aí meio copo deve ser bastante.
   Tenha umas tantas garrafas prontas a pôr de lado, para venda, ou para as beber na companhia da cozinheira.
   Não vaze a pipa demasiado depressa, e não a incline, para não turvar o vinho. Quando começar a correr lentamente, antes de se turvar, sacuda a vasilha e leve um copo a seu amo, que lhe gabará a prudência e lhe dará o resto, como bem merecida gratificação: pode inclinar a pipa no dia seguinte e, nuns quinze dias, tirar uma ou duas dúzias de garrafas, para delas dispor conforme lhe apetecer.
   Ao engarrafar, encha a boca com rolhas e um bom pedaço de tabaco, o que dará à bebida o seu verdadeiro paladar, tão do agrado dos bons conhecedores.
   Mandam-lhe decantar uma garrafa suspeita? Quando estiver aí a meio, dê-lhe uma sacudidela a preceito e mostre, num copo, que o conteúdo começa já a aparecer turvo.
   Ao engarrafar uma pipa de vinho ou de outro líquido qualquer, lave imediatamente as garrafas, sem as secar; com esta feliz operação, economizará para seu amo uns tantos galões de pipa.
   É então que, para honra da casa, deve mostrar a sua generosidade para com os colegas, em especial para com a cozinheira. O que são umas tantas garrafas, numa pipa inteira? Mas faça-os beber na sua presença, para que as garrafas não sejam oferecidas a outros e seu amo não seja prejudicado. Aconselhe-os, se ficarem com um grão na asa, a meterem-se na cama e a mandarem dizer que estão doentes: esta última precaução, recomendo-a eu a todos os criados, tanto homens como mulheres.
   Se o seu amo achar que a pipa não deu tanto como esperava, a resposta deve vir na ponta da língua: o barril estava furado, o comerciante de vinhos não o encheu em tempo devido, o tanoeiro vendeu-lhe um que não era de medida.
 
   Comecemos por apontar a gravidade do discurso, a importância atribuída a esta obrigação do mordomo. Todos os conselhos de Swift, bons, diga-se de passagem, vão no sentido de uma economia do consumo pelo patronato em prol da sede trabalhadora. Asseio, frugalidade e fraternidade, diz ele e nós não podíamos estar mais de acordo tendo em conta as circunstâncias. No que respeita à frugalidade, porém, temos qualquer coisa a acrescentar. Entre os sete pecados capitais, como é de todos sabido, encontramos logo a gula. Sobre tal vício discorreu acertadamente Dante Alighieri. Da mesma forma discorreu sobre a avareza, nomeadamente a dos Senhores que exploravam a plebe esfaimada. «A pobreza do povo é o escudo da monarquia», sentenciou Tomás Morus.
    Seja como for, a diabolização do vinho, por razões já esmiuçadas, nunca conseguiu vingar na cultura ocidental. Presumo mesmo que em nenhuma cultura tal coisa tenha acontecido, ao contrário do que sucede com outras drogas. E, de facto, é de uma droga que estamos a falar. Uma droga ao serviço das nações, transformada com o passar dos tempos em produto nobre e moda de largo especto. «O vinho inicia-nos nos mistérios vulcânicos do solo, nas riquezas minerais escondidas», dizia Adriano pela voz de Yourcenar. Mas acrescentava: «o pedantismo dos grandes conhecedores de bebidas impacienta-me.» Somos dois. Eis-nos chegados a um vício que devia ser capital, mas escapou: o pedantismo.
   A Revolução Francesa teria, na sua origem benigna, essa intenção de decapitar o pedantismo das monarquias absolutas, dos privilégios feudais e aristocráticos, da Igreja colada que nem sombra a esses poderes e regalias. Os camponeses, explorados até ao tutano, passariam a ter voz. A liberdade, a igualdade e a fraternidade seriam os novos pilares da organização social e da actividade dos mordomos educados por Swift. Um sonho bom, alimentado pelos ideias iluministas que haviam desabrochado do humanismo renascentista. O homem finalmente teria direitos e o pão chegaria para todos. Assim como o vinho. Entusiastas da revolução, os românticos alemães viam nela um regresso a valores ancestrais algures perdidos na velha Grécia. O grande inspirador desse idealismo e romantismo alemão foi Goethe, de quem já aqui falámos a propósito de um passeio do Dr. Fausto na companhia de Mefistófeles. Escutemo-lo agora nas Elegias Romanas:
 
XII
 
Ouves, amor, as vozes alegres na Via Flaminia?
São ceifeiros que regressam a casa,
Longe daqui. Terminaram a colheita do Romano,
Que desdenha tecer ele mesmo a coroa de Ceres.
Já não se dedicam festas à grande deusa
Que, em vez de bolota, dava por alimento o trigo dourado.
Celebremos nós a festa em alegre intimidade,
Que dois amantes são um para o outro um povo inteiro!
Já ouviste falar daquela celebração mística
Que, vinda de Eleusis, acompanhou até aqui o vencedor?
Os Gregos a iniciaram, e eram sempre os Gregos que clamavam,
Mesmo entre os muros de Roma: «Vinde à noite sagrada!»
Não havia lugar para o profano; o neófito, expectante, tremia,
Envolto em vestes brancas, símbolo de pureza.
O iniciado deambulava depois, maravilhado, por círculos
De estranhas figuras. Parecia andar em sonho: pois aqui
Serpentes contorciam-se no chão, um cortejo de virgens transportava
Pequenos cofres fechados, enfeitados com grinaldas de espigas,
Os sacerdotes murmuravam, graves, em gestos simbólicos;
Impaciente e temeroso, o noviço aguardava a luz.
Só depois de muitas provas e ritos lhe era revelado
O que o círculo sagrado escondia em suas estranhas figuras.
E qual era o mistério? O de Deméter, a grande,
Que um dia cedera também aos desejos de um herói,
Ao conceder a Jasão, o vigoroso rei cretense,
As delícias ocultas do seu corpo imortal.
Rejubilou Creta! O leito nupcial da deusa encheu-se
De espigas e, pujante, o grão esmagava os campos.
Mas o resto do mundo sofria privações, pois o prazer
Do amor fez esquecer a Ceres a sua alta missão.
Cheio de espanto, o iniciado ouviu a fantástica história,
E acenou à amada. — Entendes tu agora, amor, o meu aceno?
A sombra daquele mirto frondoso é um recanto sagrado!
E o nosso prazer não traz perigo algum ao mundo.
 
   Repare-se como o último verso nos introduz numa nova mentalidade, ou talvez numa mentalidade que então se procurava recuperar após vários séculos de perseguição ao prazer. Da imagem bucólica dos ceifeiros a regressarem do trabalho até à declaração desta lei universal, passando pela recuperação dos mitos de Deméter/Ceres como forma de regresso a uma visão mitológica do mundo que reconciliasse o homem com a natureza, há todo um programa idealista neste poema que irá inspirar os autores românticos que se seguiram. Antes de irmos àquele que é o poema central deste excelso movimento artístico e filosófico, detenhamo-nos por segundos em mais uma peça de Goethe. Agora o vinho, ainda numa vertente moderada que as xénias se encarregarão de extravasar:
 
SAKI NAMEH
LIVRO DA TABERNA
 
Sentado sozinho,
Onde posso estar melhor?
O meu vinho,
Sozinho o vou beber,
Ninguém me põe peias,
Deixo correr as minhas próprias ideias.
 
*
 
Mulei, o ladrão, um milagre fazia:
Bêbedo é que tinha a melhor caligrafia.
 
*
 
Enquanto sóbrios estamos,
O pior nos agrada;
Se bebemos, queremos
O melhor, e mais nada;
Mas o excesso está sempre
Logo à mão;
Hafis, ensina-me tu
Esta lição!
 
Pois minha opinião é,
Sem exagerar:
Quem não sabe beber
Também não deve amar;
Mas não penses, bebedor,
Que és melhor:
Pois quem não sabe amar
Também não deve beber.
 
   Explica João Barrento que este poema faz parte de um longo ciclo, escrito a partir de 1814, depois de o poeta alemão ter conhecimento da colectânea de poesia do poeta persa do século XIV Mahomed Chemseddin Hafis. Aqui se alarga o campo poético das Elegias Romanas com uma incursão pela poesia do oriente. Diz Barrento: «Através da sua declarada intenção de se assumir como livro do encontro da literatura e culturas do Ocidente e do Oriente, o Divã transforma-se num dos melhores exemplos de Weltliteratur (literatura universal), um conceito que Goethe iria cunhar alguns anos mais tarde.» Por Divã, palavra persa, entenda-se, precisamente, colectânea poética. Foi, pois, uma das maiores conquistas desse tempo, essa multiculturalidade que passava agora a ser defendida no plano literário através de encontros e já não de processos de aculturação assassinos. É óbvio que no plano político ainda estávamos (estamos, estaremos?) longe de concretizar tal encontro, mas a literatura começa, sem dúvida, a proporcioná-lo a partir destas experiências que já não se fecham única e exclusivamente sobre as tradições grega e latina.
   Curiosamente, o que se ouve neste poema é a «voz do vinho.» A expressão é de Galeano para se referir a Omar Khayyam, o autor de poemas clandestinos que andavam de boca em boca pela Pérsia e chegaram até nós como exemplo de liberdade. «Ninguém me põe peias», escreve Goethe, assim como antes tinha advertido que o «prazer não traz perigo algum ao mundo.» É o valor da Liberdade, consagrado na Revolução Francesa, que entusiasma este autor. A efemeridade da vida impunha outra relação com os prazeres do corpo, mantidos em espartilhos sufocantes e castradores durante toda a Idade Média. O poema maior deste tempo, não obstante, foi outro.
 
#1#2#3#4#5#6, #7
 
(continua)

4 comentários:

atalhos disse...

Nunca fui do género de me entregar ao mosto
Fui muito mais de me entregar ao desgosto.

Isto é uma piada ao antes e ao depois do poema da Anne Carson, que, se calhar, não teve desgosto nenhum. Sobre as peias, sim, sei falar: já vi morrer uma ovelha, que gostava de saltar, com gangrena nas patas.

hmbf disse...

O poema completo:

http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2021/09/um-poema-de-anne-carson.html?m=1

atalhos disse...

Já fui ler. Surpreendente, sem dúvida, o volte-face do poema. Há que ler tudo, para pasmar perante a suprema forma de inteligência.

hmbf disse...

Sim, o final é surpreendente. Deixa um nó na garganta.