sábado, 21 de maio de 2022

BARK FOR BARKSDALE (1952)

 


Dei por acaso com a fotografia nos arquivos de um endereço postal electrónico antigo. Tive de conter as lágrimas. Estávamos tão felizes, com o sol a pôr-se nas nossas costas, o teu braço a enrolar-me, encostados a sorrir para a câmara com que desajeitadamente registámos o momento. O que foi feito daquela alegria? A data não engana, doze anos passaram sobre o último sorriso que nos aproximou numa praia do oeste. Não sei se a comoção é pelo tempo perdido, pela ausência entretanto intrometida entre os dois corpos, pelo vazio que nos separou um do outro para nem sequer hoje sabermos se ainda temos coração, ou se, por outro lado, é apenas o horror de olhar para dentro de mim ao ver-me a teu lado e não encontrar nada senão desalento. Fiquei só e nunca mais me encontrei, só de estar fechado em mim à procura de mim. Invejo a raiva com que outros parecem dedicar-se ao mundo, pelo menos esses souberam libertar-se de um modo ainda que dissimulado do vácuo aterrador que a certa altura se abre na alma como uma fenda numa parede e vai, com o tempo, alargando até o nosso ser se transformar num lugar vago de nós. Lembro-me que nesse dia, ao final do dia, regressei a casa a ouvir Gerry Mulligan, o volume do carro no máximo e o cheiro da tua pele tão presente que parecia povoar o espaço absoluto da noite caindo devagar sobre a terra. Nunca mais senti senão sofrimento de não me voltar a sentir assim. Pelo menos posso dizer que fui feliz. Tenho a certeza de que pelo menos por momentos, breves instantes, a felicidade foi possível, independentemente da realidade ter escavado entretanto este buraco de desânimo sobre o qual me debruço aos berros a perguntar: está aí alguém? Se nem um eco o vazio me devolve, em que deverei eu acreditar?

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