terça-feira, 2 de agosto de 2022

EVERYTHING NOW (2017)

 


Qual é o segredo? — perguntou a mais velha. Respondi eu, falo sempre mais do que a prudência determina. Inventei umas coisas, a paciência, o respeito, a disponibilidade, saberes colocar-te no lugar do outro. Nada de amor nem lealdade, tretas inventadas para amestrar corações selvagens. Em rigor, devia ter-lhe respondido com uma única palavra: comodismo. Uma pessoa acomoda-se e pronto. Mas bastará? Talvez não chegue. É preciso dar uma oportunidade ao Verão, aproveitar a paixão antes que ela expire como o pavio numa vela. Chegarão os dias em que a gente descobre que é fósforo com pólvora húmida. Beckett usa amiúde a expressão in vain. Vão, deve ser a palavra que mais vezes li em Beckett. Essa percepção de que a vida é in vain e que a via para viver in vain é, levou-me a valorizar a respiração. Não é em vão que uma pessoa respira, percebe-se isso quando se tem um ataque de asma. Ou quando mergulhamos e tentamos manter-nos debaixo de água como um peixe. Fomos dando oportunidade ao Verão, talvez seja esse o segredo, dançando e aproveitando a alegria de viver na medida do que nos é possível e, mais importante que tudo, regista o segredo, acima do que nos é possível. Viver acima das possibilidades devia ser um direito inalienável, se por isto entendêssemos a alegria de viver sem sentir necessidade de luxo. Evita-se muito desperdício prescindindo de luxos patéticos, colocando como medidas de sucesso o sorriso e a foda, cingindo a fama aos limites de uma cama.

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