domingo, 7 de agosto de 2022

GOLDEN RESTLESS AGE (2021)

 


Os dias estão a mudar, nota-se no modo como o pó passeia sob as estantes. Também dizem que os dias estão mais curtos, mas basta contar os segundos por um relógio a corda para constatarmos exactamente o oposto. Os dias estão longos como atacamas. Fecho-me em casa a ouvir Kings of Leon na esperança de que o sono me dê tréguas. Num ponto menos sombrio deste universo, um jovem cheio de certezas ditará ao mundo, através das redes, mais um dos seus textos cheios de certezas, confiante de si mesmo enquanto se julga capaz de dar lições de sobrevivência às baratas. Enfim, não há pachorra para betos nem para ratos de biblioteca. Tenho dentro de mim um médico inverosímil que recomenda outro exemplar daquele syrah testado há dias em Vila Viçosa. Fiquei a saber que a uva terá sido roubada a terras iranianas e essa, sim, é uma informação digna de nota, sublinhado e apontamento. Quanto a poesias, olhem, está tudo um pouco como a argamassa no castelo de Évora Monte, camadas sobre camadas de tempo que, às tantas, os originais começam a perder graça ainda antes de serem dados à estampa. Também tem estado um vento dos diabos, mas não leva nada com ele, só traz aquele cheiro enjoativo a fumo que paira no ar afagado pelas chamas dos incêndios dados como extintos.

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