quinta-feira, 22 de setembro de 2022

HETERÓNIMO VEGETAL

 

"Eu sou Tu", diz Novalis num conhecido fragmento. "Je est un autre", dirá Rimbaud. E depois virá Mário de Sá-Carneiro com "Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio", mais Fernando Pessoa com uma catrefa de heterónimos. Kierkegaard também os tinha, uns 20, ou talvez fossem pseudónimos. Para sermos honestos, esta brincadeira começou muito antes. No politeísmo Deus desdobra-se em muitos e até no monoteísmo temos o problema da trindade. Deus é pai, filho, espírito santo. Deus são três. Essa coisa das personalidades é interessante e tem as suas raízes, mas seria mais desafiante que o Uno, em vez de se multiplicar em muitos unos à imagem e semelhança do original, se multiplicasse no diverso. Uma dobrada de personalidades e de identidades, portanto. Dobrada à moda do Criador. Afinal, Deus é a origem de todas as coisas. Não só do Fernando, do Ricardo, do Álvaro, do Alberto, mas também da oliveira e do carvalho, da carraça e da barata. Porque não ser cão ou árvore? Terá Fernando Pessoa imaginado um heterónimo gato ou galinha ou jacaré? E um heterónimo eucalipto? E escrever poemas como um eucalipto? Isso é que era.

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