Leio num poema do Pedro Teixeira Neves qualquer coisa sobre mapas em branco, as superfícies da pintura e da escrita. Lembro-me de uma canção do Dylan que pode ser interpretada à laia de carta aberta, sem refrão, publicada isoladamente, como single, fora de qualquer álbum onde pudesse ser parte integrante de um conjunto que lhe conferiria necessariamente outro significado. Foi, no entanto, um single de sucesso, acabando por figurar em várias colectâneas do singer songwriter nobelizado em 2016. A associação por mim produzida entre o poema e a canção tem que ver com dúvidas pessoais acerca da asserção encontrada nos últimos quatro versos do Pedro e, quanto a mim, desmentida pela canção do Bob. Diz o poema: «escrevemos e pintamos sempre / a página em branco / o vazio aguardando o fulgor da voz / o lugar da mão». Diz a canção: traíste-me, és um hipócrita, põe-te nos meus sapatos. É um recado. Ora, escrever é, sem dúvida, uma espécie de pintura. A gente literalmente mancha a brancura da página com a tinta de uma esferográfica ou o carvão de um lápis, os caracteres virtuais das páginas potenciais. A palavra paisagem pode por si só não ser uma paisagem, mas acompanhada de montanhas e regatos e passarinhos a cantar é como um quadro ou uma fotografia. Há uma sugestão imagética nas palavras, mas também a há sonora. A diferença estaria na cor se as cores não fossem sons. Eu estou convencido de que são. De resto, o Jimi Hendrix também estava. O que a canção me parece confirmar é que não escrevemos sempre a página em branco. O que escrevemos é uma reescrita, a página já foi escrita antes de a escrevermos. E, na verdade, julgo que estamos sempre a escrever sobre o já escrito. A página em branco é a morte. Aquele tratamento que se dá às telas é já uma pele cromática sobre a qual vamos espalhar cores. Há pintores que passaram a vida a pintar sobre pinturas, sobrepondo tintas e traços, rasurando, tentando refazer o feito ou buscando um fim para o que iniciaram sabendo que tudo quanto se começa não tem fim. Não sei se estão a ver, mas imaginem uma tela sobre a qual se pintaria uma pedra sobre a qual se pintaria um rio sobre a qual se pintaria um monte sobre a qual se pintaria um cavalo sobre a qual sucessivas camadas de tinta sobrepostas formassem uma espessa e densa textura rochosa. É como hoje por acaso me disse a Ana Biscaia, desculpando-se por uma frase que não tem fim. Escrevemos frases que não têm fim e pintamos frases que não têm fim sobre brancos que só existem enquanto ideia, isto é, enquanto verdade anterior à expressão ou à representação. Uma frase que não tem fim, escreveu ela. E eu rescrevi agora e é provável que venha a rescrevê-lo algures.
terça-feira, 1 de junho de 2021
domingo, 30 de maio de 2021
BLOWIN’ IN THE WIND (1962)
Fosse tão fácil como gostar ou não de favas e teríamos o problema resolvido, mas não é. O gostar pouco determina quando está em causa um mundo. Gostas do mundo? Dir-me-ão que sim, em parte, algumas coisas não, outras sim, adoráveis coisas mundanas. O que é uma coisa? O mundo será uma coisa? Será possível habitar numa coisa? O mundo é uma encruzilhada e são múltiplos os caminhos para se chegar a lugar nenhum. Também se dá o caso de certos apreciadores de ópera detestarem westerns. Experimentem contar-lhes o argumento de um Ford como se fosse uma ópera de Verdi e é quase certo virem a ter uma surpresa. Formam-se no pensamento novelos de conceitos como cotão no umbigo, superstições quanto ao canto nasalado e o diafragma rachado, que num ápice metamorfoseiam a sabedoria em abusão. É como perceber que o tratamento às dores nas costas pode degenerar em problemas no estômago e então da dor nasce outra dor e ficamos tomados pelo desconforto como se não fosse possível libertarmo-nos dele. Somos monstruosas criaturas reféns de dores fantasma. Quando me meteram uma guitarra nas mãos, eu comecei por tocar Blowin’ In the Wind, The Times They Are A-Changin’, Knockin’ On Heaven’s Door, I’ll Be Your Baby Tonight, Quinn the Eskimo, All Along the Watchtower, e nunca mais escapei a esse labirinto, como uma dor que leva a outra dor. Portanto, se fosse fácil como gostar ou não de picante no esparguete, se assim fosse, de nada valeria caminhar sobre a Terra. Ela gira por si mesma, à volta de uma estrela, a mais de 100 000 quilómetros por hora. Era deixá-la girar. Seja como for, não chegaremos a lado algum. Certo como a Terra girar à volta do Sol.
quarta-feira, 26 de maio de 2021
BODY AND SOUL (1930)
Estranhos delírios nos
assomam como as marés, num vaivém que há-de ter suas causas e razões. Na companhia de um ex-amigo, calcorreava
campos em busca de cerejas. Eis algo que não me recordo de alguma vez ter
feito, apanhar cerejas. Ia também connosco o meu falecido cão, o Basquiat. À
solta, como tão fácil era andar com ele. Mais obediente do que a Nala, não
causava cuidados desprendê-lo da trela. Deparei com algumas árvores de fruto pelo
caminho, nenhuma dava cerejas. A dado momento, reparo num arbusto onde reluziam
uma espécie de pimentos muito pequenos. Apanhei alguns que fui atirando para o
interior de um saco de plástico. Quando me levanto e volto, abria-se atrás de
mim um imenso vale com uma cerejeira carregada bem no centro. Nós estávamos no
cume de um monte recortado por socalcos e patamares, como aqueles que por vezes
se vêem cobertos de vinhas, mas em vez de vinhas tinha construções de cimento, levadas,
escadarias, habitações abandonadas. Tínhamos de descer, encontrar o melhor
caminho para chegar à cerejeira. As construções em cimento eram labirínticas e
acidentadas. Vi o Basquiat afastar-se rapidamente. Preocupado com ele,
separei-me do meu ex-amigo e desci no encalço do cão. Gritava sem obter
resposta. O cão prosseguia indiferente, agora obedecendo a uma mulher de aspecto rural, cabeça coberta por um lenço, saia cinzenta, avental à cintura. O
cão desapareceu atrás da mulher. Aflito, eu gritava em vão, descia
apressadamente, metendo-me por caminhos desconhecidos até dar por mim preso num
beco sem saída. Não tinha como libertar-me, estava completamente só e entregue à
sorte. Quando acordei, com a Nala aos pés da cama, a primeira coisa que fiz foi
procurar no telemóvel fotografias da Sarah Vaughan. A mulher do sonho era
igual, mas branca. E vestia-se como as minhas avós. E não cantava. Mas era
igual.
Nota adicional e
irrelevante: Body and Soul foi escrita por Edward Heyman, Robert Sour e Frank
Eyton, com música de Johnny Green, para a actriz britânica Gertrude Lawrence. Chegou
a estar banida da rádio por alegadas referências sexuais, mas tornou-se um
standard interpretado e gravado por inúmeros artistas.
terça-feira, 18 de maio de 2021
MINOR IMPULSE (1961)
A cabeça dividida entre um turista bêbado e um emigrante do Causse. «Ando na minha terra como um estrangeiro», diz o segundo. E não custa dar-lhe corpo, é como se fosse eu a falar. Perdido, exilado, estrangeiro na minha própria terra, na minha própria respiração, desenraizado, a esmo. Já ninguém diz a esmo. O turista é número, gag, enrola palavras, ronca. Penso nos ingleses distribuídos pelas ruas algarvias, nos holandeses aterrados no oeste, como aqueles com quem convivi na adolescência e não deixaram saudades. É claro que preferia fazer de músico de jazz. A ter de representar um papel que não o meu, que me atribuíssem qualquer coisa ao estilo o que gostavas de ter sido se chegasses a ser grande. Gostava de ter sido Ike Quebec, viciado em heroína, morto aos 44 com cancro na língua, era o que gostava de ter sido. Já vivi mais 3 anos do que devia. Em boa verdade, acho que levo 20 de desperdício. Agora não há nada a fazer, o mal está feito, a quebra aos cinco minutos de Don’t Take Your Love From Me, posso entrar pelo palco adentro aos berros, fingir que sou feliz e amado, posso imitar um quadrúpede, andar de quatro, ganir como um cão desesperado, posso arrancar a carne com as unhas e vomitar desespero pelo poros que ninguém dará por isso. Fingir-me sereno, feliz, está tudo bem, não se passa nada. O que é que se passa? Nada. Serei apenas mais um a fazer número na peça ensaiada pelo destino, a sala vazia, luzes baças, projectores desligados, acção imóvel. Ike Quebec e Grant Greene no estúdio a gravarem Blue and Sentimental, eu à escuta, ouvido encostado à parede, do lado de fora, ainda antes de ter nascido. Do lado de fora.
sábado, 15 de maio de 2021
LIMEHOUSE BLUES (1921)
Figurante em dois documentários, entretanto promovido a actor, estou capaz de digerir as palavras dos outros sem necessidade de as vomitar imediatamente noutras que sejam minhas. Papéis fugazes desempenhados com gozo, o das experiências raras. Talvez tenha actuado em palcos de falas espontâneas, falsas falas espontâneas, e finja agora não me recordar de quão actor hei sido de mim mesmo. Talvez. Isto agora é diferente. Eu, que nunca me senti confortável a fazer sala, sou pago para organizar folhas de sala em peças onde é audível a respiração dos mortos. Talvez um dia venha a fazer de general curvado pelo peso das condecorações. Que esbanjamento, essa coisa de distinguir a alegria de viver quando nem às solas dos ídolos chegámos. Philip Braham, por exemplo, e Douglas Furber, por exemplo, terão sido condecorados pela homenagem que fizeram à chinatown londrina? Quem homenageia o trabalho nos bordéis? Quem distingue aquelas que entre as demais foram as melhores putas? E os melhores chulos? Quanto a mim, mereciam outra consideração no dia da cidade: «Rings on your fingers / And tears for your crown / That is the story / Of old Chinatown». Hoje queria ser Sidney Bechet, calcorrear as ruas de New Orleans a assobiar 2:19 Blues, andar de cidade em cidade espargindo a saliva do improviso, queria atravessar oceanos transportado pelo silvo de uma melancolia que ri, não me importaria sequer de ter alvejado aquela mulher no lugar errado, alegadamente por não ter sido disparada na sua direcção a bala fatídica, mas na do músico rival com o desplante de acusar um acorde ao lado, uma nota desacertada, uma bala falhada. Dançar Big Butter and Egg Man agarrado aos braços de Lil Armstrong, sim, isso eu queria de verdade, não estas manhãs, tardes, noites simulando que sou quem sou.
sexta-feira, 14 de maio de 2021
MILES RUNS THE VOODOO DOWN (1969)
Até quando aguentar esta violência? Cansaço, can-sa-ço, dito assim, repetidamente, sílaba a sílaba, cuspido para o ar como se nada fosse ou significasse, can-sa-ço. Tinha escutado a palavra no fim do amor, depois em viagem, entretanto à refeição, ricocheteando repetidamente como uma bola no interior da cabeça, disparada por uma força qualquer que a leva de uma parede à outra do cérebro, formando uma teia de sangue no interior do cérebro, do corpo caloso ao cerebelo, deste às circunvalações, daqui ao telencéfalo, na ponte, medula, oblonga, espinal, uma bola de can-sa-ço disparada de um lado ao outro com a velocidade dos neurónios. E depois um sorriso actor fingindo nada haver que perturbe, alegria dissimulada em horas passadas ao telefone falando de tudo quanto não interessa, este can-sa-ço às voltas na cabeça, dito assim, de rompante, após o orgasmo, à sobremesa, do acordar ao deitar, arrastando-se como um bêbado sozinho no meio da estrada. Que violência maior pode alguém aguentar? O preliminar cansaço, o liminar cansaço, o cansaço absoluto das alianças esquecidas nos cinzeiros, nos bolsos, nas gavetas, junto a meias e cuecas, cansaço. Um rótulo estampado no peito, a bula na caixa de medicamentos, uma etiqueta: agora sorri, como as hospedeiras da Francisca, não, sorri antes como a Lillian dos lírios quebrados, agora enfeita, agora finge, agora representa, agora levanta as patas, agora rebola, agora dança cansaço.
segunda-feira, 10 de maio de 2021
MELANCHOLY MOOD (1958)
No spam misturam-se convites para páginas de livros, sites de pornografia, pedidos de amizade, a mesma farinha. «Eu sou uma mulher que precisa de satisfação», assina o bot Mia. Eu sou um homem desapaixonado, respondo-lhe. Perdi o que em mim havia de paixão ao aprender que o amor implica — medo de ser traído, abandonado, deixado sozinho com botões de punho esfarelados. Ser amado sem medo, a incumbência de uma vida. Ou arranjar 15 pseudónimos, como Germain Nouveau, que se amem uns aos outros. O segredo para a felicidade está em não atribuirmos importância ao amor, negá-lo como a sapos feitos príncipes, foder como bestas que satisfazem necessidades muito básicas. Puta que pariu o amor mais as manhãs de Maio a ouvir Horace Silver. Maio invernoso de tardes cinzentas, manhãs de luz esboroada à passagem das horas, céu carregado de nuvens atravessadas por relâmpagos silenciosos, mês de primaveras tristes, funeral de andorinhas enlutadas, as janelas das casas escancaradas para uma chuva estéril, o soalho carente, enegrecido pelos passos amestrados de quem se levanta para ver morrer a alegria de um dia ainda por nascer. Pela manhã, as ruas enchem-se de gente estúpida que parece não perceber estar já morta. Depois regressam a casa fingindo-se vivos. Comentam as notícias com os olhos saturados de realidade, respondem ao spam crendo poder ser essa uma aventura desviante na unissonância dos carris que levam ao tédio. «Ir depressa é morrer mais cedo.» Quem dizia isto? Um francês esquecido, se bem me lembro.
terça-feira, 4 de maio de 2021
PHARAOH’S DANCE (1970)
Deveras amado depois de ameaçar partir, a chave largada sobre o tampo da mesa redonda, fechaduras de corações aflitos, abertos como se não houvesse ladrões. Olhou-os com pena, direi compaixão, porventura misericórdia, não, respeito, olhou-os mortificados de angústia, palpitações de medo, olhou-os com mágoa, ternura, olhou-os com pranto e estancou inerte na cadeira onde para sempre. Não para sempre, provisoriamente, até quando, para provisoriamente sempre, olhou-os com pranto e estancou inerte na cadeira onde até hoje permanece sentado com os olhos colados nas chaves que abriram corações que eram prisões. Felizmente, o santuário ficou em repeat. Se há vozes que não se cansa de ouvir, essas vozes são as de Bitches Brew.
quinta-feira, 29 de abril de 2021
THE EVERYWHERE CALYPSO (1972)
O que falta dizer, perguntam-me. Falta dizer que, regressado o movimento às ruas, novas possibilidades se abrem, um pouco como no céu a luz se anuncia através de abertas impossíveis de discernir por não sermos adivinhos. Não basta o azul à espreita, essa cor enganosa da melancolia que tinge de tristeza as almas. Defronte, um mapa do mundo com marcações nos lugares visitados demonstra quanto espaço ficou por explorar. É quase todo ele azul, por ser essa a cor que atribuímos aos oceanos e ser o mar o sangue da terra. Quero lá saber do passado, quero lá saber do futuro. O passado é excelente para decoração de paredes, o futuro só serve para erigir muros de angústia, Sonny Rollins está vivo. Faltou dizer que as flores envelhecem mal, malmequer, bem-me-quer, as flores funcionárias como bois cansados, delicadas como pérolas, tão predominantemente rústicas e necessitadas de consolo. Ah, faltou dizer que não estamos de pé para decorar salões, como de pé se dispõem flores mortas no interior de jarras vivas. Por vezes penso que talvez fosse preferível o sol pleno, mas com o tempo também o corpo aprende a tolerar o frio. Faça o tempo que fizer, não fique por dizer quanto há para fazer em matéria de verdade, isto é, honestidade, quero dizer, liberdade, pois não é de agora essa noção de que ser livre é superar a mentira que aprisiona por levar ao pior dos crimes: a traição. A nossa e a dos outros. Malmequer, bem-me-quer? Que diferença faz?
quarta-feira, 28 de abril de 2021
AUM (1988)
Diga 33 com Adolfo Luxúria Canibal. Fiquei a saber que a frase derradeira de Aum — O tempo não espera por mim! — surgiu por acaso, depois de os olhos depararem com as páginas de um daqueles livrinhos de cowboys que também eu li na infância. Isto anda tudo ligado. Entretanto a notícia da morte de Anita Lane, paixão antiga. Lembro-me dela ao lado de Nick Cave, mas também no álbum com que Mick Harvey homenageou Serge Gainsbourg. Não pude deixar de reparar que nasceu no mesmo ano de Adolfo. É isto, o tempo não espera por nós. Disse isso mesmo à Matilde quando a fui deixar a Óbidos, após ter sido questionado sobre qual a idade para termos preocupações. Tinha-lhe dito antes que já não tenho idade para me preocupar. É esta consciência de que o tempo não espera. Como ultrapassá-la? Passei o dia a ouvir Goela Hiante, objecto que não espera pelo tempo. Com suporte sonoro ideado por Marta Abreu a partir de aplicações num iPad, o vocalista dos Mão Morta lê três textos seus entre outros de Manuel de Castro, Maiakovski, António José Forte, Ferlinghetti, Mário-Henrique Leiria, João Damasceno. Gosto de ouvi-lo, mais ainda de pensar que isto foi realizado em pleno confinamento emergencial calamitoso, quando meio mundo olhava os passarinhos pela janela e deitava-se a encarar o tecto de casa onde um arco-íris utópico se formava com a legenda: vai ficar tudo bem. Os textos seleccionados são pertinentes, respeitam um imaginário acerca do qual já quase tudo se disse. E de facto, um dia tudo irá ficar bem. Não é Anita?
segunda-feira, 26 de abril de 2021
UP & DOWN (1961)
Talvez ofertando um salto de pára-quedas, para depois saltar e não o abrir. Ou esperar que um comboio surja inesperadamente na linha desactivada. Talvez beber até sufocar no próprio vómito, como naquele filme em Las Vegas. Ele há tantas maneiras de compor uma solução. Talvez deitar-se a ouvir Horace Parlan enquanto rememora a origem da decadência das pessoas peninsulares. Uma noite em que ficas à espera do tal comboio que não chega e às tantas desesperas e apercebes-te que ninguém virá ao teu encontro. Estás só. O comboio não chegou a sair de Paris. Voltas-te para o lado com resignação e dizes: o fim começou. Não te enganavas. Depois, uma repetida sensação de nojo, asco nas bocas, lábios que se tocam mais por dever, obrigação, representação do que por ser sua natureza encontrarem-se. Lábios que são como insectos repelidos pela voragem do tempo. O que custa mais é cada qual permanecer no palco a representar papéis vegetais para uma plateia de fantasmas, actores medíocres numa tragicomédia com dores de facto. Esta insistência, talvez por ser demasiado pesado o fardo da desilusão, é o que mais dói. É estranho, quando a alegria mendicante não encontra no outro senão esmolas de apreço. A felicidade é uma extravagância, a liberdade um luxo, ninguém crê possível poder ser-se feliz e livre amando. As contas por pagar rasuram a palavra amor. De resto, nesse rasurado sobram queixas e rancores, pontos de vista, mentes desavindas fechando-se como que num jogo onde, é sabido, todos acabarão derrotados, transformados em sobras. O que até podia ser bom, não lidassem tão mal com a derrota. Que tédio. Talvez começar a correr sem parar, como no filme com o Tom Hanks. Um salto para o abismo, uma corda no pescoço, ou simplesmente quedar a ouvir Horace Parlan. Um blues. Afinal, que esperar de gente educada para educar? Uma casa melhor que a anterior, um carro melhor que o antigo, férias melhores que as férias do ano passado, e, por amor de Deus, nem sequer ponderar a possibilidade de reverter papéis, nem sequer admitir como hipótese a impossibilidade da rotina. Há que parar, inflectir, aceitar caminho divergente. A fausto conquistado não se ri com dente cariado. Ah, os problemas das pessoas. São tão efémeras, as pessoas. E tão perecíveis as dentaduras.
sexta-feira, 23 de abril de 2021
ANNOBON (1993)
quarta-feira, 21 de abril de 2021
THE LONESOME ROAD (1927)
Foi ainda dentro do útero que ouvi cantar pela primeira vez, a emissora nacional ressoava em todos os bairros e condomínios, casas e apartamentos, solares e quintas, anunciando um futuro para quem, até então, só conhecera passado. Entorpecido pelo álcool, Stan Kenton morreria 5 anos depois. Não deve ter dado por nada, estava do outro lado do oceano a tentar reconciliar-se com Leslie, a primeira filha, que mais tarde revelaria três anos consecutivos de abusos sexuais perpetrados pelo próprio pai. Quem diria, o charmoso Kenton, líder de bandas com mais de quarenta músicos, o homem que transportou o jazz dos salões de dança para as salas de concertos. Dignificador do jazz, estuprador da filha. Estou a ouvi-lo debaixo da voz de June Christy, num clássico da música popular composto por Nathaniel Shilkret e Gene Austin (o primeiro dos crooners) que conheceu versões de meio mundo: «Look down, look down that lonesome road / Bebore you travel on.» Vá-se lá entender as pessoas. Em plenos anos 50, dava um concerto por terminado, chegava a casa bêbado e abusava da filha. Mas fez uns arranjos tão bonitos para a canção de Shilkret & Austin.
segunda-feira, 19 de abril de 2021
CHEGA DE SAUDADE (1958)
Mesmo à nossa frente, do outro lado da rua, vivia o Tom. Era jogador do União Desportiva de Rio Maior, tinha um carro vermelho que fazia lembrar o Dodge Charger dos três duques. Durante muitos anos todos os carros vermelhos me faziam lembrar o modelo da mais estúpida série televisiva de que há memória, pelo que assumirei a reiterada associação como uma espécie de trauma de infância ainda hoje mal resolvido. Uma rua pacata, a nossa. Não tinha saída. Agora que penso nisso, ter crescido num beco sem saída pode ter sido mau agouro. O Tom tinha um carro vermelho, conheceu o destino da imensa maioria das vedetas dos clubes de província. Com as pernas saturadas de levar caneladas, casado com uma moça que se queixava às vizinhas de maus tratos, sem que qualquer consequência adviesse de tais queixas, arranjou trabalho como porteiro no único bar da cidade. Começou a beber, muito, tanto que rapidamente se lhe formou um capacete na zona do umbigo. A última vez que o vi servia à mesa, estava careca, barrigudo, pernas arqueadas. Quando saí do restaurante não contive o olhar e ofereci um relance pelo parque automóvel a ver se descortinava o saudoso Dodge Charger. Nada. Dos velhos tempos, Tom conservava apenas o bigode, sombreado entre lábio superior e a ponta do nariz, a fazer notar o ridículo dos Tom que não chegam a Jobim. Há muitos, conheci uns tantos, craques da bola peneirentos como araras, ultrapassados pelo tempo e traídos pelas circunstâncias. Estouram os trocos em futilidades, um pouco como nós, aqui, agora, quiçá a mais inteligente das opções que tomaremos na vida.
sábado, 17 de abril de 2021
CANTALOUPE ISLAND (1964)
E para terminar, dizer não deixa-me desconfortável. Ultimamente tem sido mais frequente do que desejaria. Fico com a sensação de que devia fazer um esforço suplementar, escalar muralhas com as unhas, afinar com os dentes as cordas vocais do arrependimento. O que fazer? Qualquer coisa excepto essa exposição pública do estômago a que diariamente assisto com embaraço. É difícil compreender quem se confessa a um padre, quanto mais quem desabafa com o mundo. Não me habituo. Para quê inquietar (não inquietas nada) ou entediar (deixa-te disso) os outros com os meus problemas pessoais tornando-os públicos? Há uma ilha onde é possível levantar uma cabana de palha que nos proteja do frio e de outros inimigos nocturnos. Durante o dia, a pessoa senta-se ora numa pedra, ora na areia, ora nas ervas daninhas da esperança e fala com árvores, o céu, paredes, uma lesma que se atravessa à nossa frente com a velocidade exacta do amor. Tenho relido Debord, um canalha que nos profetizou há meio século. Chego a desconfiar que aquilo tenha sido escrito há tanto tempo, muito antes desta rede que nos apanhou a todos de arrasto como arraia-miúda num oceano que já não tem brechas por onde escapar. No fundo, um aquário. E do lado de lá do vidro, a salvo dos microplásticos, umas poucas retinas ampliadas a perseguirem as voltas que damos de um lado para o outro até nos empanturrarmos com côdeas de pão. Ainda será possível a felicidade? Creio que sim, fechando os olhos, dormindo, esquecendo um dia de cada vez.
quinta-feira, 15 de abril de 2021
AND WHAT IF I DON’T? (1963)
Continuando. O que se toca numa jam session com amigos? Lou Reed, Neil Young, Jorge Palma, Bob Dylan, Pink Floyd, Jimi Hendrix, blues… Poetry can heal depression, li há tempos num jornal. Mais recentemente, uma cadeira de Introdução à Poesia passou a fazer parte de um mestrado de Medicina. Ontem li esta: estão a chegar poemas às caixas de correio dos portugueses, a iniciativa visa combater a solidão e religar a comunidade. O Zé tem razão, transformaram a poesia em auto-ajuda. Mas há também uma dimensão religiosa nisto de religar a comunidade através dos poemas. Não é coisa que eu entenda, os meus poetas preferidos foram todos pouco saudáveis. Vê-los convertidos em ben-u-rons e chás de tília causa-me algum desconforto. Por outro lado, compreendo que nem toda a gente saiba tocar um instrumento e tenha amigos na companhia dos quais possa exorcismar os seus demónios. Tocar guitarra é o meu xarope antidepressivo, uma forma agradável de passar o tempo que hoje calhou à volta de uma mesa recheada de cerveja artesanal e amendoins. Terminada a desbunda, regressei ao carro e meti a tocar Herbie Hancock. Pensei que também a poesia há-de ressentir-se de tantos praticantes encerrados numa redoma onde só se fala e discutem poemas, gente tão embrenhada em questões abstractas e académicas que se esquecem quanto de terra, viagem, respiração, vida, aventura, foda, se espera encontrar num poema. As palavras inventaram-se para representar as coisas, fecharmo-nos num mundo em que as únicas coisas são as palavras há-de ser triste. Já devo ter mencionado algures Gracham Moncur III e Grant Green, que acompanham Hancock no álbum que estou agora a escutar. Que relação terão tido com a música nas suas vidas? Terá a música contribuído para que fossem pessoas saudáveis, menos sós, ligadas à comunidade?
terça-feira, 13 de abril de 2021
NEW SONG #3 (1978)
Comecemos pelo avô a responder às dúvidas dos netos sobre a revolução. Tudo gravado a pensar no próximo 25. No final, a dúvida: acham que estive bem? E a constatação: esqueci-me de falar disto e daquilo. É sempre assim, pai, confortei, o essencial ficou. Terá ficado? A memória é traiçoeira. Partamos do princípio segundo o qual a matéria mais relevante é-nos oferecida sem imposto, sendo de menor relevância o que permanece por detrás da cortina. Recalcamentos não são esquecimentos, são memórias desactivadas. Por vezes, um acontecimento, um cheiro, uma palavra bastam para reactivar esse material trazendo-o à superfície. Se resolvêssemos fazer uma árvore genealógica das memórias, como as elaboramos de famílias, até onde conseguiríamos chegar? Tenho uma irmã crente em terapias regressivas, está convencida de que conseguimos lembrar-nos de vidas passadas. Há documentários espantosos sobre o tema, ainda há dias vi um. Não me impressionou, pelo menos não tanto como parece ter impressionado os restantes elementos do agregado. Era sobre crianças que desde cedo mencionavam vivências anteriores ao dia em que vieram ao mundo, com referências concretas a lugares, factos, os quais se comprovavam mediante investigações aparentemente objectivas. Não digo aparentemente para menosprezar a hipótese em causa, apenas porque tanto em matéria de investigações científicas como de memórias tudo me surge envolto em aparências. Entretanto, uma outra irmã dedicou-se à genealogia de facto, descobrindo do lado da mãe uma Quitéria do Paraíso provavelmente nascida em 1770. Ter-me-á falado? Seria cigana? O que têm Ron Carter, Herbie Hancock e Tony Williams que ver com isto? Estavam no Japão a gravar 1 + 3.
segunda-feira, 12 de abril de 2021
ESTEEM (1972)
Cada opção tem os seus infortúnios, pântano melindroso de aparentes rejeições. Há quem se precipite para dentro do charco e aí se deixe afundar até não mais se fazer ouvir, outros limitam-se a suspender o curso natural dos factos sem antever em cada decisão um selo definitivo de recusa. Dou-me bem com o crepitar da lenha em chamas, enquanto os cães manifestam alegria em corridas circulares e Steve Lacy, o tenor, toca Esteem. A primeira versão datará de 1972, gravada em Paris aquando do périplo europeu. Começou no dixie, acabou no free. Era um espírito aberto como sempre são os melhores. Queria que o jazz se desse bem com outras artes, a pintura e a poesia, mas também a dança e o teatro de Beckett, por exemplo. Nada prezo mais actualmente do que esta interdisciplinaridade, a aprendizagem que advém do eclectismo e o gozo que se pode retirar do sincretismo são bens essenciais neste mundo cada vez mais afunilado na cagança. Em Portugal a desgraça é tanto mais evidente quanto a pequenez do território se reflecte na mentalidade dos seus habitantes, que vistos de Paris, como dizia o outro, têm todos aspecto de saloios (com estudos, acrescento eu). Não levo a mal o silêncio dos monges, até o respeito. Pessoas determinadas e coerentes como rectas, mas só quando isso vem do carácter. Nunca enquanto construção de um remorso. Constato haver gente que fala demasiado de outra gente na sua ausência. Nem sempre por intriga ou maldade, acontece assim. É defeito de não se pensarem. Concentro atenções nos rostos que diante de mim se perfilam. Não acredito em espectros. Irritava-me tanto a ex-jornalista que passava o tempo a falar-me de terceiros como me irritam os cretinos que só falam de si mesmos. Não seria melhor fazer como os cães? Tal e qual como os cães, correndo aos pulos, em círculos ou aos esses, com a língua de fora e as orelhas ao alto embandeirando contentamento? It’s freedom life. Alguém que saiba em que álbum aparece, comunique por favor.
quarta-feira, 7 de abril de 2021
CATHOLIC BLOCK (1987)
O Emanuel acusou a recepção do Embate com Bull in the Heather, deixando-me a pensar na possibilidade de mensagens subliminares. Talvez ouvindo o tema de trás para a frente descubra alguma coisa. Quase à mesma hora, 12:52 de ontem, um transportador tocava à campainha para entregar uma caixa com livros enviada pelo Pedro. Tudo coisas boas que faltavam cá em casa. Uma biblioteca também se faz com gestos generosos, ou julgam que nado em dinheiro para andar por aí a gastá-lo em livralhada? De quando em vez, lá encomendo um título a este e àquele, passo por uma livraria jeitosa ou visito as bancas de velharias, onde me afortuno com pechinchas de 1 a 5 euros. Mais não posso, tenho um fígado para rebentar. E pronto, regressei aos Sonic Youth. Sister (1987) foi o meu primeiro, o quarto de estúdio deles (se bem me lembro). Já pariam álbuns desde 82, a banda do casalinho Thurston Moore & Kim Gordon. Depois separaram-se, 30 anos de vida em conjunto pelo esgoto. Ela escreveu um livro que não li, ele terá sido o elo mais fraco no mito propalado da fidelidade: «I got a catholic block do you like to fuck? / I got a catholic block guess I'm out of luck». Têm uma filha chamada Coco. Gostava de os ver juntos e estava-me nas tintas para a vida conjugal, que tivessem continuado com a banda após a separação é que era. Parvalhões. Tudo gente artística e libertária, mas quando toca ao coração revelam-se do mais conservador que há. Devíamos nascer sem coração, quero dizer, não devíamos inventar um coração dentro e nós, devia ser tudo criação, nada de corações a impedirem a criação. O amor é uma merda, só nos traz tristezas.
terça-feira, 6 de abril de 2021
DUMB (1993)
Encurralados que andamos nas agendas universais, difícil seria não reparar que Kurt Cobain morreu há tantos quantos os que contava quando resolveu estourar com os miolos. Já passaram 27 anos, perguntaste com admiração. Sim, 27 sobre a última vez que fodemos. Vê tu bem para o que estávamos guardados. Parece que foi ontem e calçávamos botas da tropa e vestíamos camisas de flanela aos quadrados, abertas no Verão, escondidas sob malhas da Nazaré no Inverno. E fumávamos ganzas, muitas, de comboio a caminho de cidades onde houvesse bandas a tocar e aldeias vivas e prenhes de tártaro nos balcões de pedra. Agora esta coisa asséptica de dores de cabeça às segundas e infecções às terças. Talvez devêssemos contratar um perpétuo vigário, honesto e de boa vida, que por nossas almas rezasse às quartas, velasse às quintas e cantasse às sextas, letrado se pudesse ser, acompanhado de três capelães de boa voz, alimentados a pão cozido e vinho e trigo providenciados por um tesoureiro rodeado de alqueires e almudes como nós de agendas mediáticas, mais um provedor que não fosse frade nem comendador nem poderoso de cavaleiro para cima, um almoxarife fiel com seu diligente servidor e um escrivão de muita verdade e boa consciência, que são raros, assim um físico e um boticário capaz de montar mezinhas contra nossas infecções, maleitas, malárias, e um hospitaleiro e três enfermeiros e um barbeiro e um sangrador e uma cristaleira mais suas escravas amassadeiras, cozinheiras, lavandeiras, outro a carretar necessidades, um hortelão capaz de tratar tão bem de couves quanto de vacas, cabras e ovelhas mais uns tantos assoldados com nome de pessoa. Que para bulas, escambos e aforamentos já bastam os poetas.



















