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quarta-feira, 2 de junho de 2021

O LAVRADOR DA BOÉMIA

 

   Santo Agostinho relata a perda de um amigo no Livro Quarto das Confissões. A violência da dor, que apenas o tempo apazigua, leva à dúvida: «o homem tão querido que perdera, era mais verdadeiro e melhor que o fantasma em que lhe mandava ter esperança». É dor do mesmo tipo aquela que ecoa no pranto do Lavrador concebido por Johannes von Saaz (n. 1350 – m. 1415), também conhecido como Johannes von Tepl. Pouco se sabe acerca da sua vida. Viveu a maior parte do tempo na Boémia e escreveu um poema de índole humanista que está na origem da peça agora publicada pelo Teatro da Rainha e a Companhia das Ilhas, com tradução de Isabel Lopes a partir da versão cénica francesa de Dieter Welke.
   O Lavrador da Boémia é um diálogo entre um Lavrador amargurado pela perda da amada e a Morte que lha roubou, um pouco à semelhança do que o realizador sueco Ingmar Bergman veio a conceber no magnífico O Sétimo Selo (1956) — embora aqui a morte jogasse xadrez com um cavaleiro de regresso das Cruzadas em tempo de peste. A discussão entre o Lavrador e a Morte, escrita num estilo filosófico muito comum em toda a Idade Média, estava ainda longe de possibilitar um jogo entre adversários tão desiguais. A desolação de um homem a tentar ultrapassar o luto da amada não tem argumentos à altura do todo-poderoso Senhor da Morte, mas, ainda assim, é de uma ousadia retórica imperturbável. A perda atiça-lhe a fúria, alimenta-lhe a raiva, impele-o a acusações que se misturam com lamentos em busca de um conforto fugidio. São uivos que ecoam desde que o homem se confronta com a finitude, mas neste caso sobrecarregados pela ausência de sentido.
   Distinguimos amiúde a morte por causas naturais das mortes inesperadas. Entre estas, as dos jovens são as que mais pesam por serem as mais absurdas. Porque morre alguém que ainda não viveu o tempo que julgamos justo viver? Porque desaparece precocemente quem aparenta estar a meio de um trajecto? O choque advém tanto da constatação do carácter contingencial da vida, sujeita ao acaso e ao acidental, logo sabotadora de uma ciência fundamentada no previsível, como da efemeridade do que vive. A dúvida impõe-se a quem parta de princípios como aqueles que vigoravam em 1401, ano em que o texto de Johannes von Saaz surgiu, e predominam em 2021: se Deus existe, qual a razão para levar tão cedo as suas criaturas? Por que razão permite Deus que uma criança morra? Neste caso, a jovem e virtuosa Margarida, a décima segunda letra, a Letra M, como no espectáculo levado a cabo pelo Teatro da Rainha em 2009, não seria merecedora de outra longevidade?
   São dúvidas legítimas, talvez mais hoje do que outrora, pois hoje podemos erguer-nos contra a vontade de Deus. Mesmo sabendo do fim inevitável reservado a tudo quanto vive, é possível questionar a ausência de sentido e especular sobre as razões de ser assim. As explicações desta Morte do humanista von Saaz são surpreendentemente racionais. A Morte racionaliza o espaço, é uma gestora de stocks, há nela uma função de organização da vida na Terra que justifica a economia da dor sugerida ao pobre Lavrador: «Quanto mais amor te derem, maior será o teu desgosto. Se tivesses amado menos, menor seria o teu desgosto». É um argumento perigoso, pois este amor pode não ter como objecto apenas o outro, mas também o próprio e até, em último caso, a vida em sentido geral. Pode a dor ser superada pelo desamor?
   Numa coisa a Morte tem razão, a sua metodologia corresponde a uma inexorabilidade que está no princípio da própria vida. É do húmus que medra a flor. O Lavrador tem dúvidas, questiona: «Quem sois vós? Donde vindes? Onde estais? Para que servis?» E a morte responde: «somos o fim da vida, o fim da existência, o fim do ser, e a origem do mundo». Eis uma ontologia da morte, se tal coisa for possível, que ainda hoje preservamos sem direito a grandes desvios. A Morte torna-se então sarcástica, impõe as suas razões a um Lavrador desesperado. O Lavrador é a vida, lavra e semeia. A Morte ceifa. Lavrar e ceifar são, no fundo, a essência do dinamismo que permite a renovação e a renovação é imprescindível para que o Tempo não cesse. Em cessando o Tempo, pois que tudo cessaria.
   Não devemos pois ser tão cruéis para com a Morte, mesmo quando ela parece ser implacável para connosco. Não tendo do homem a melhor das opiniões, como questionar-lhe a vaidade que nos aponta e a tolice que desvela sempre que se nos apresenta? O pranto do Lavrador é compreensível, mas inútil. É aceitável, mas infrutífero. Pelo menos em aparência, porque, na realidade, é desse pranto que brota aquilo a que podemos chamar uma clarividência da Morte. Ela desmente o princípio de não contradição, a sua natureza é ambivalente e dúbia, a morte é e não é ao mesmo tempo, rodeia-nos sem que a vejamos, acompanha-nos sem que a sintamos. Só a nossa própria morte não choraremos, pois quando ela chegar o medo terá partido. E o que leva ao choro, na verdade, é o medo, nada mais senão o medo. O medo do desconhecido, o medo da solidão, o medo do abandono, é o medo que nos faz chorar. O medo da morte, da morte nossa descoberta na morte dos outros.

terça-feira, 1 de junho de 2021

UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES

 


APRENDER A LUZ

a espessura do cabelo mais fino
é uma brincadeira quando comparada
a um nanómetro

soube hoje pelo jornal

é agora possível apertar a luz
até à espessura de um átomo.

tomo um copo de água
apago a luz.

amanhã irei cortar o cabelo
e o mundo seguirá
entre um aperto e outro
por entre a luz seguiremos.

entre prender ou libertar a luz
prefiro gastar as minhas energias
a tentar aprendê-la

aprender a luz
com a paciência milenar do mar
no tecer dos líquenes e dos corais
aprender a luz
no lento fossilizar dos horizontes
ou como quem aprende a idade dos glaciares
a linguagem das pedras
o segredo dos rios num corpo de mulher

é preciso aprender a luz
como o amante que só com os olhos fala
e nesse brilho se enamora.

Pedro Teixeira Neves, in Uma Vírgula Depois, com Ivo Machado, Glaciar, Janeiro de 2019, p. 65.

sábado, 29 de maio de 2021

DIZER

 

Em Rostos da Morte, o filósofo Byung-Chul Han propõe uma onomatanatologia que procure responder à questão: «porquê dar um nome a um homem?» «O nome é a marca da fugacidade», diz, acrescentando que «ter nome próprio designa que se tem um destino e uma história». Esta mesma problemática pode ser vislumbrada no mais recente livro de poesia de Yvette K. Centeno (n. 1940), o qual se organiza em torno de um verbo fundador escolhido para título: Dizer (Eufeme, Fevereiro de 2021). Organizado em três conjuntos de poemas, cremos que o primeiro, intitulado Dizer (o mundo existe), e o terceiro, com o título Agora, se ligam de modo espontâneo, sendo o conjunto intercalar, escrito sob a égide da pintura de Pedro Chorão, uma espécie de intermezzo que não descontinua a corrente interpelativa acerca disto que dizemos ser o estar aqui. Martin Heidegger, evocado mais do que uma vez neste livro, definiu a presença, o estar aqui, como um ser para a morte, sendo a morte, antes de mais, a consciência que dela temos através da experiência da finitude e da experiência da temporalidade, ruína que leva ao desaparecimento. «A morte é, no entanto, apenas o “fim” da presença e, em sentido formal, apenas um dos fins que abrangem a totalidade da presença. O outro fim é o princípio, o nascimento», afirma Heidegger em Ser e Tempo. Ora, é precisamente no princípio, ao nascermos, que um nome nos é atribuído. Para quê? Para o outro nos identificar?
   O nosso nome não foi por nós escolhido, não é sequer uma conquista de que nos possamos orgulhar ou um estádio que se alcance por via do desenvolvimento da personalidade. É uma marca, isto é, um estigma submetido por um outro que nos é exterior. Podemos talvez dizer: o que nós somos é o outro do nosso nome. Este apresenta-se como uma espécie de sombra, a que Peter Schlemihl, também convocado por Yvette K. Centeno, vendeu. O nome não chega sequer a ecoar-nos, apenas nos persegue como uma sombra. Carregar um nome é também carregar uma história anterior à nossa própria existência. O nosso nome próprio não reflecte a nossa própria história, mas antes uma história que nos precede e liga a um passado, uma história que nos enraíza noutras histórias precedentes, raiz de uma genealogia carregada de nomes dos quais o nosso provém. Um nome cai na terra como um fruto maduro, funde-se com a terra, é húmus e semente de outros nomes.
  Seremos nós, a dado momento, quem nomeia. Começar a falar é começar a nomear. Ao poeta cabe renomear o mundo. No poema Alquímico, o último do primeiro conjunto deste Dizer, o jardim da primeira estrofe renomeia o Éden. O ciclo da vida cumpre-se caminhando: «Não abras o portão / desse jardim / nem fiques de fora / à espera // Segue / vê onde enterras os pés / procura onde deixaste / os teus sapatos / mesmo velhos e rotos / terão de ser calçados // O homem tem o teu nome / e já abriu na terra a vala / dos descalços» (p. 49). Os descalços estão por nomear, o que de certo modo quer dizer que estão por nascer, mas já a morte os aguarda pois é da natureza do gerado vir a perecer. Nomear é, então, fazer aparecer, nascer, mas é também dar ao desaparecimento, já que nascer é estar à morte. Quantas palavras esquecidas e desaparecidas neste mundo cada vez mais estreitado no ruído dos mesmíssimos vocábulos permanentemente repetidos? Adão torna-se mortal através do nome, que significa terra ou humanidade. Não há diferença. Nascer é abrir-se à morte, ou, como noutro poema deste livro se diz, «Risco de vida é estar vivo, / Tudo o resto é fantasia» (p. 44). Trata-se de um koan, textos que no budismo zen têm o propósito de iluminar espiritualmente os praticantes. Além dos koan, a Autora recorre também, de um modo muito informal, ao haiku como síntese poética privilegiada de reflexões invariavelmente relacionadas com esta interpelação da existência, da presença, do estar e ser aqui: «o que sou eu afinal, / o já caído / que a terra amortalhou / e tu, / o esplendoroso, / entre estes mundos?» (p. 25). 
   Mas por que razão «dizer o nome / é entregar a vida», como se sugere no poema Deméter-Perséfone (p. 40)? É como se o nome fosse uma coisa que se desse através do dizer. Pronunciar um nome é dar algo, há como que uma transferência do sentido que o nome incorpora. Assim sendo, o dizer é, antes de mais, uma doação, uma dádiva, um legado. No dizer há, assim, uma pro-criação. A poesia é essa interpelação que provoca as coisas. Nomear não é apenas oferecer ao esquecimento, é também gerar a possibilidade de relembrar. Não será por acaso que este livro oscila tanto entre a interrogação e a declaração, nele repousa uma espécie de súmula ao mesmo tempo extraordinariamente simples e complexa. Yvette K. Centeno, cujo primeiro livro foi publicado em 1961, mas a quem a história da literatura portuguesa tem reservado parcas linhas, lega-nos aos 80 anos de vida um dos melhores livros que por certo leremos este ano, vivo, inteligente e desafiante como poucos. A relação de proximidade com a pintura, arte por excelência do silêncio, seria outro tema a explorar. Fique o poema, o último deste belíssimo livro:
 
O PINTOR E A SOMBRA
 
(para o Pedro e a Graça)
 
Estava sempre a seu lado,
tão discreta
que se não fosse a luz
carregada de azul
ninguém diria
que estava ali a Sombra,
a Protectora
da alma dividida:
não se podia vislumbrar
e apenas emergia do silêncio
para afastar o Anjo
negro reverso da luz
que lhe fechava as portas
e se o deixasse sozinho
lhe secaria as cores
nas bisnagas escolhidas
cada dia

 
(Lisboa, 1 de Fevereiro de 2021)

terça-feira, 25 de maio de 2021

FICAR NO PATAMAR

 


À excepção de O Patamar, os cinco caprichos teatrais de José Gomes Ferreira pareceram-me agora datados e menos interessantes do que quando os li pela primeira vez. Talvez à época ainda me entusiasmasse certo discurso entretanto ultrapassado pelas circunstâncias. São peças políticas sobre diferentes modos de receber a notícia de uma revolução, ecoam já distanciamento, porventura desconfiança quanto ao rumo tomado, e algum desencanto. Falar do 25 de Abril de 1974 como se fala em Manhã Morta ou Os Novos e os Velhos exala o mofo das meras curiosidades arqueológicas. Nem tudo é antiquado. Os cenários sugeridos nas didascálias têm em comum as escadas, aspecto que não é de todo desinteressante. A escada permite uma ocupação do espaço que não é meramente decorativa, apela a movimentos ascensionais e descensionais que podem favorecer a acção. Na peça O Patamar os lances de escadas são acompanhados por iluminações que inspiram sentimentos diferentes, conforme o vermelho ou azul insinuados. Continuo a encontrar piada no velhinho que bate à porta do Sr. X, testemunha do pregador da salsicha sagrada, missionário com o sonho de converter alguém à causa do Divino Salsicheiro. Ainda tem um sonho, o velhinho. Diríamos que, fosse vivo, venceria na vida. Com o passar dos anos Portugal foi completamente ensalsichado. Chamam-lhe americanização ou hegemonia capitalista. O que quer que seja que lhe chamem é cada vez mais um facto, reforçado pelo ilusionismo hipnótico de uma rede que cativa porque aparvalha, que captura porque infantiliza, que seduz porque facilita, que aprisiona porque desprotege. Isto é, uma rede que esgota o discernimento crítico que podia ajudar cada um de nós a tomar posições conscientes. Creio que tendem a rarear neste contexto de entretenimento industrial massivo que, como outros previram há muito, faz de cada um de nós um artista de variedades. O segredo do sucesso está na técnica do esvaziamento, a qual pressupõe um vazamento (esgotar lembra esgoto, é isso a rede). Quanto mais vazio, mais deslumbrante. Quanto mais fugaz, efémero, descartável, ligeiro, mais estético. Nunca o lixo foi tão apreciado, nunca a porcaria foi tão valiosa, nunca os dejectos foram tão aglutinadores. Nunca as salsichas tiveram tanto sucesso. O velhinho da peça acaba por se acomodar num patamar. Gosto da solução: «Prefiro ficar no patamar. Bem vê: casa tenho eu prometida no céu e na terra. Já lhe disse que, quando deitaram abaixo o bairro de lata onde vivia, me prometeram um palacete para daqui a cinquenta ou cem anos com colunas e tudo? Prefiro o patamar. Estou convencido de que até, quando morrer, nunca passarei do patamar. Ui! O medo que eu tenho de Deus. Atrevia-me lá a pisar o céu. Tropeçava logo na primeira nuvem do caminho.» É um exemplo a ter em conta, mesmo que ao subir ele vá ponderando criar uma nova religião. «Céu nosso que estás na Terra e só falta aos homens coragem e audácia para o agarrarem e não o largarem mais», responde-lhe o irónico Sr. X.

domingo, 23 de maio de 2021

3 DEMISSIONETOS E UMA ODE

 


pública forma de 3 demissionetos em papel selado

44.

João Pedro Grabato Dias, lá
assinado abaixíssimo de tudo,
natural de Inhaminga, mas cria.
do no seco chão duriense, mudo

mas prolixo de sons, quando lhe dá
pr'aí, trinta e sete anos feitos, rudo
João, como um penedo pedro, ma-
gro de andar a dias ao grabato, bo-

çal sem sal, pro môr dos trinta e tal
milhões de companhias más, casado
com todas que me queiram, e bastardo

dum beberrão nado morto e duma tal
viuva virgem, milaneto enfartado
de judas, de asterix, e de um bardo

45.

merdólicoso hindú e ainda mais
com sangue escravo mas disfarçadíssimo,
morador (com geleira) rua Pais
da Pátria (e telefone) num baixíssimo

número (nem digo, por pudor), Olhais
de baixo, (e talvez, por tal, miopíssimo)
África, Costa a leste irreais,
hemisferiado neste sul quentíssimo,

junto a Vossa Excelência solicita,
mui respeitosamente, e etecetera,
por motivos tais como : pouca guita

de papagaio e trôpa vulva asceta,
se digne aceitar a ida súbita
deste terceiro oficial marmota.

46.

Allranço Mortos, vinte e sete, Agosto,
um milhar novecentos e setenta
anos depois do Objector do Gosto.
(com o assim natura reconhisedenta)

(Nota a vermelha sangue vaca :) Posto
o impróprio tom, mais língua na pimenta
ou véce virsa, e baixe-se de posto.
(assim nado :) governo a dor Pimenta.

(Nota baça a lápis respeitoso : )
Ouso notar a vóscelência a dura
punição, e lembrar-lhe que este moço

é primo, por tabela, da Doutora
Joaninha A. Boa. (Em azul-tremoço :)
Promova-se. (lápis :) Ligue à doutora.


ODE PRESSAGA
dois fragmentos de uma 1.ª versão

I

haverá um lugar onde a flor do pranto
tenha calmas raízes sob névoa e torpor
haverá um lugar onde endormido e brando
já me estarei esperando rociado de horror
haverá um lugar onde pensá-lo seja
estar dos medos além sem a rota suspeita
haverá um lugar de rosmano e carqueja
ninho dum teu amor onde ninguém se deita
haverá um lugar onde a soma das coisas
se divida por si sem agonia em resto
haverá um lugar onde o brilho da loiças
possa evocar o lar onde esperas meu rosto
haverá um lugar com cadeiras de enfim
esperar o tempo todo que os tempos se resolvam
haverá um lugar onde o começo é fim
e os ciclos ordenados a malícia confundam
haverá um lugar com cadáveres tranquilos
ornadando as paredes e regalando a vista
e haverá um cadáver com um lugar de trilos
ocupando nas órbitas um odor de lentisco
haverá um lugar onde as avós se riam
num dentilhar postiço um riso verdadeiro
haverá um lugar com rebanhos que fiam
a própria lã nas fáuces do ogre carniceiro
haverá um lugar onde morreram todos
os anões do remorso e os truões da baixeza
haverá um lugar onde os uivos dos lobos
sejam serzidos nões no zumbir das abelhas
haverá um lugar com papaias de cobre
rachoadas do odor que as palavras tilintam
haverá um lugar onde o pranto se dobre
sobre as recordações que os meus linhos consintam
haverá um lugar de tâmaras nos dentes
e um aprovar suave de franjas sob as copas
haverá um lugar todo em pãezinhos quentes
com vozes de manteiga sobre a toalha posta
haverá um lugar onde unção seja cio
de faminta amizade sobre terra lavrada
haverá um lugar de cães e desfastio
aninhados no bafo de uma tarde coalhada
haverá flores de dentes pelas jarras quietas
e uma cama de mãos ternurinhas e cócegas
haverá um lugar com sossego em gavetas
e de perpétua boda sândalos e cânforas
haverá um lugar de escaninhos secretos
de tempestades peixe a bransequir os ossos
haverá um lugar de triturar infestos
aconteceres de mágoa em ecos pelos paços
haverá um lugar de aprovadoras pedras
na lagariça calma do nosso esperar tudo
haverá um lugar onde carnes e sedas
germinem no teu ventre um deslizar sizudo

II

haverá um lugar habituado aos usos
que já demos às coisas em que tínhamos fé
haverá um lugar de protótipos lusos
pouco mais interessados que em manter-se de pé
haverá um lugar dois lugares três lugares
na geral no balcão na coxia no palco
haverá um lugar com vulcões em andares
sobrepostos de tédio cuerinhos e talco
haverá um lugar sem lugar a mais nada
que aconteceram coisas guardadas pra exemplo
dum lugar a alugar na lôbrega fachada
deste comércio engano desenganado a tempo
haverá um lugar onde um irmão nos derrube
com a só força do pranto com a só força da fome
haverá um lugar onde um irmão nos assome
impedindo no gesto o navegar da mão
haverá um lugar com videiras e palmas
para que a transição seja nossa e suave
haverá um lugar com lugar para as almas
já liofilizadas no tutano da cave
haverá um lugar um lagar um lagarto
um logro um odre um ogre um óptico logradoiro
um lugre alegre um lúgubre post-parto
um lupanar de linces uma mortalha de oiro
um lagarto um lagar de lugares de haverás
de logros ôdres ógres òpticamente certos
de lugres aportando em chávenas de chá
de amostrar às visitas em recintos discretos
haverá um cansaço um bocejo um adeus
uma guitarra ao canto um último cigarro
haverá uma pausa e alguma coisa-deus
por um cerrar de porta por um escarrar de sarro


João Pedro Grabato Dias, in Sonetos de Amor e Circunstância, 2.ª edição, corrigida e aumentada, Lourenço Marques, edição de Académica Lda, 1975, s/p.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES

 


A TARTARUGA DE BOB WILSON

não tenhas pressa
não tenhas pressa
a eternidade pode esperar
repara
a tragédia do homem sobre a terra      desde sempre
guardada a sete chaves junto ao mistério do tempo
para onde vai o tempo?

a tartaruga de bob wilson atravessando o palco
em longos trinta e dois minutos de lenta lentidão
que lhe interessa o tempo
sequer para onde vai na sua solidão?

escrever      escrever      pois sim
mas saber realmente o que dizer não interessa
interessa ser a tartaruga sem o saber
interessa o poema enquanto acontecer
ao poema não interessa o tempo
nem para onde o tempo vai
ou mesmo se vai a tempo de o ser

interessa ser a tartaruga
e reservar quando muito alguns instantes
para a meio da cena parar e apenas
perguntar      perguntar      perguntar

interessa saber que as ondas se repetem
que só o mar não se extingue no seu eterno desenhar

um dia      sabe      a tua mão será tão longe
tão longe que não mais te pertencerá
um dia a tua mão será uma nuvem
reflectida na superfície dos versos
e já não haverá perguntas a fazer

limitar-te-ás a ser tartaruga atravessando o palco

e ninguém se afastará ao teu passar
ninguém irá parar para te lembrar
tu tartaruga de bob wilson
alheia ao teu próprio atravessar de cena
como quem se retira para um não lugar.

Pedro Teixeira Neves, in A Tartaruga de Bob Wilson, Glaciar, Dezembro de 2018, pp. 14-15.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

DUAS ESTREIAS

O ano ainda não vai a meio, mas já podemos congratular-nos com algumas estreias no caminho. Dois livros próximos em múltiplos aspectos marcam o primeiro trimestre do ano. Ambos escritos por mulheres, ambos vinculados a uma poesia do corpo, ambos assumindo em epígrafes de Herberto Helder um patronato, sublinhe-se, nada epigónio, fazem um uso diferente da linguagem poética para expressarem visões distintas do mundo organizadas também de modo dissimelhante. Maria F. Roldão (n. 1965), formada em Sociologia, publicou alguns poemas em revistas e edita a Nervo (n.º 11, Maio/Agosto de 2021). Ana Freitas Reis (n. 1981) é psicóloga. Conhecemos alguma da sua poesia através de partilhas nas redes sociais e de dispersos surgidos em publicações colectivas on-line.


Pequeno Sangue (volta d’mar, Fevereiro de 2021) colige um conjunto de poemas que, não estando, aparentemente, subordinados a um tema comum, se ligam em torno da carga simbólica transportada pela palavra sangue. Veículo de vida e de paixões, o sangue é, antes de mais, o líquido que anima o corpo. Ainda que tenha uma identidade, um tipo, não é mensurável como um sólido, daí que o uso do adjectivo “pequeno” a ele associado gere um efeito de estranheza que de algum modo anuncia uma das características mais evidentes nestes poemas: a insistente subversão das leis que determinam perspectivas científicas do mundo. Neste sentido, a poesia de Maria F. Roldão participa de um pressuposto que confere à linguagem poética uma expressão da realidade alternativa ao rigor da razão e à percepção empírica. E este pressuposto concretiza-se, principalmente, de dois modos: através da recorrência a imagens paradoxais e de uma constante experimentação que faz de cada poema uma unidade isolada. 
As imagens paradoxais verificam-se ao longo do livro quer em formulações alegóricas de experiências concretas, quer através da combinação de palavras pertencentes a campos semânticos opostos, alcançando-se, desse modo, uma representação ambígua ou mesmo absurda da realidade. Logo no Preâmbulo damos com «uma vaga ciência nas / metades boas do sangue» (p. 9), para a seguir a água acabar arrumada numa gaveta, os líquidos do corpo serem cosidos, a água ser distribuída em estreitas fatias, a saliva dobrada, o sangue engomado, etc. A referência ao físico Denis Papin no poema intitulado Castanhas tem um significado irónico, já que nestes poemas as leis da física são o mero contraponto de um paradigma absurdista que a palavra delírio no pequeno poema introdutório logo instaura. O impulso experimental nota-se, precisamente e mais evidentemente, em poemas minimalistas tais como Pequeno Corte na Urgência ou Sôpro, onde um lúdico manuseamento gráfico e semântico salienta o erotismo subjacente ao tratamento de uma língua que aqui se confunde com corpo:
 
ARTESANATO
 
Forja-língua-bilro
 
O vime o barro
O muco
 
No ar tesão
 
Mais sóbrio em termos formais é o primeiro livro de Ana Freitas Reis, o qual obedece a uma distribuição rigorosa dos poemas que leva a pensar nesta obra como num longo poema em gestação. A palavra Cordão (Abysmo, Março de 2021) do título desperta, desde logo, inúmeras imagens, sendo a mais intensa aquela que acaba por advir da epígrafe final pedida de empréstimo a Herberto Helder: «cordão de sangue à volta do pescoço». Tratar-se-á, então, de um cordão umbilical, algo que, de resto, é sugerido no poema inicial que encena um parto, repercutido posteriormente nos pequenos poemas distribuídos por páginas ímpares através de um complexo lexical assaz sugestivo desse «rebento milagre» inaugural: coração, sangue, sopro, útero, pulmões, raiz. 
Não andaremos longe da verdade se situarmos esta poesia no campo de uma representação do corpo feminino e da mais essencial das suas funções, albergar a geração de um ser. Nisso é possível estabelecer um paralelismo com a própria natureza do poema, hospedeiro de uma entidade e de uma identidade que resulta da relação apaixonada entre quem escreve e quem lê. Mas nesse caso estaríamos já numa dimensão metafísica que não me parece ser a mais adequada à singularidade deste cordão, o qual me chega nitidamente enquanto elo ao «assombro de estar vivo» (p. 11). O que ressalta do umbigo é a ligação a uma anterioridade que em cada ser perpetua o mistério da vida. Espantosa é a forma como esse mistério acaba celebrado nestes poemas publicados num tempo obnubilado pela ameaça persistente da morte, a qual, não tendo sido omitida, serve para lembrar que «Ainda tens coisas acesas no teu corpo» (p. 58). Penso pois neste livro como na gestação de um poema, e penso no poema como na gestação de um ser. Poesia indelevelmente ligada ao corpo, às possibilidades de representação do corpo, por um cordão que vai sendo desatado de verso a verso através de uma sensibilidade rítmica notável que aborda a respiração como uma doação. O recurso insistente a anáforas pontua o movimento sincopado de um coração, na demanda de uma musicalidade que reverbera uma meticulosa selecção verbal. Não faltam sequer alusões mitológicas (o barro que se molda, Adão e Eva) ou ao paganismo organizado em torno dos ciclos da natureza (referências ao correr dos meses, à Primavera enquanto momento de renovação). O Verão é a estação privilegiada desta poesia solar, a qual se desvia da melancolia repisada e da soturnidade elegíaca mais corriqueira optando pelo fulgor das chuvas que fertilizam a terra enquanto «possibilidade na alegria» (p. 25). Há neste Cordão uma reaproximação do homem à natureza que supera a ruptura operada por um racionalismo castrador e cristalizador, o mesmo que nos usurpou toda a possibilidade de espanto e de mistério, toda a hipótese de milagre. Saúde-se a coragem de num livro de poesia fascinado com a vida, neste início de século tão dado à morte:
 
MINTO SOBRE O ESTATUTO CONTEMPORÂNEO
 
todos somos, finalmente, aspectos vagabundos da natureza
Maria Gabriela Llansol
 
Continuamos a procurar o espanto
nas montanhas, insistimos
nos cumes altos, miradouros
frívolos ao serviço dos registos.
Saio para sentir o odor lunar,
procuro sinais de nascença pelo solo.
 
Não temo o chão da terra.
 
É noite ainda.
Caem flechas por entre os ramos secos
de um sobreiro.
Trincamos os espinhos da navalha.
As cabeças movem-se em direcção ao centro
da fornalha.
 
Porque sim,
Pela indolência da seiva que sabe
de uma revolução nocturna.
Encarno o perfume desgraçado desse lírio silvestre
quando afinal repouso nos seios da natureza.
 
Fica de dia.
Uma chuva opulenta inunda o nosso quarto,
certos beijos prolongam o voo,
sem temer a existência.
 
Hoje só conheço a terra,
a única que não esquece a persistência
e a possibilidade na alegria.

terça-feira, 11 de maio de 2021

UM POEMA DE FRANCISCA CAMELO

 


o último estudo das gaivotas
 
as gaivotas
são o meu medo escatológico
 
fizeram ninhos mesmo em cima
do meu quarto rosa
 
quando me acordam pelas quatro da manhã
imagino-me a esgrimir um bastão de basebol
esmagando as cabecinhas
das gaivotas bebés
que guincham agudas sob o sol que nasce
mas são espécie protegida
e nunca matei bicho nenhum
maior que um mosquito
não sei se ia gostar
imagino que não
 
de dia berro com elas
suplico que se calem
a verdade é que param
por uns segundos, como os
gatos em época de cio
quando são interrompidos
odeio-as e quero-as mortas
passou-me contudo pela cabeça
a ideia de adoptar uma
preferia um gato
mas uma gaivota que não mordesse
assim pousada no meu ombro
nem seria mau demais
 
loucura
gaivotas
solidão
 
teorizar sobre as últimas coisas
implica sempre decidir
qual delas nasceu primeiro.
 

Francisca Camelo, in O Quarto Rosa, Exclamação, Agosto de 2019, pp. 27-28.
 

domingo, 9 de maio de 2021

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #32

 

Apresento-vos Lázaro de Tormes, filho de Tomé e de Antona, naturais de Tejares, aldeia de Salamanca. Dele sabemos o que autor anónimo do século XVI legou à posteridade. Lazarillo de Tormes, suas poucas venturas e incontáveis desventuras, há muito vem merecendo por cá atenções de tradutores distintos. A versão de Aníbal Fernandes encontra-se disponível na Sistema Solar, a de José Bento na Assírio & Alvim, mas outras foram sendo dadas à estampa ao longo dos tempos. O que houve de especial na vida de Lazarinho, minhas filhas, é o que de mais essencial vislumbramos na vida de todos quantos à face da Terra podem ser chamados de homens: fome. Nenhuma necessidade motiva a acção como a fome, deslocando-nos tanto à condição de animais selvagens como à de artistas. Vós, que graças à fortuna do meio em que nascestes nunca tivestes de passar fome, ficai sabendo quanto de indigno há na virtude quando a fome ataca alguém. Perseguido, preso e torturado, o pai de Lázaro partiu deste mundo 'inda ele era criança. Teve a mãe de se prostituir com um negro para sobreviver, até descobrir-se que os bens que este lhe trazia eram furtados ao patrão. Com pai, mãe e padrasto condenados, foi o nosso desgraçado herói encontrar desenrascanço em patrões sucessivos, qual deles pior que o outro, exploradores da miséria alheia. Um mal nunca vem só, diz o povo e não temos razões para discordar, particularmente quando calha o mal recair sobre quem já desventurado é. Eis algo que podeis conservar entre os axiomas desta vida, a miséria atrai miséria. Assim é, desde logo, porque os miseráveis tendem a ser inimigos de si mesmos, voltando-se mais facilmente uns contra os outros do que contra quem os explora. Assim é, também, por haver sempre gente disponível para colher ganhos e proveitos da fome alheia, fazendo-se patrão de quem nada tem acenando com promessas retardadas e paraísos ilusórios. Desesperando por vida melhor, os Lazarinhos deste mundo tornam-se servos sem ingenuidade nem inocência, antes com a manhosice e a esperteza que leva a patinar na avareza dos Senhores. Para chegarem a algum lado não saem do mesmo sítio, roem unhas na vã esperança de assim conseguirem matar a fome, aceitam a indigência como salário duma pobreza ainda mais funda. Tudo quanto façam para escapar dos fojos será tomado como aldrabice de trapaceiros desprevenidos, os quais se denunciam tanto por não reconhecerem o seu lugar no mundo como por desperdiçarem tempo a sonhar com lugares reservados aos outros. Estarei a ser demasiado fatalista, minhas filhas? Vede como salivam por esmolas os imigrantes que ao redor de nós chegam para apanhar pêras, matar frangos, amassar pão, colher framboesas, vede como no campo, curvados, eles são as vítimas de um chicote invisível que os açoita diariamente sob o silêncio astuto de quem com eles lucra. Quem com eles lucra? Todos nós, sim, todos quantos entre nós se calam à vileza desta economia do desamparo. A isto leva tanto a fome de uns como a ganância de outros, mas igualmente a indiferença da maioria que assobia para o lado enquanto puder aproveitar-se das fraquezas de uns e das malfeitorias dos outros. Lázaro chorou a sua desgraçada vida passada e as suas próximas mortes futuras ao serviço de cegos trapaceiros, clérigos oportunistas, escudeiros violentos, frades sovinas, buleiros intrujões, capelões hipócritas e aguazis pretensiosos. Naquele tempo eram estes os poderes que exploravam. Passados cinco séculos, não é diferente se por uns substituirdes banqueiros e por outros directores executivos, administradores e gestores, agiotas, usurários. Assim é, minhas filhas, que a lição a retirar desta Vida de Lazarinho Tormes se preserva actual como ao longo dos séculos os rochedos não perdem validade. Mais do que um destino que determina as aflições é o lucro que delas obtêm os Senhores aquilo que as perpetua entre os desgraçados. Se quiserdes livrar-vos disto, deixai de dar lucro. Eis o conselho que tenho para vos oferecer.

sábado, 8 de maio de 2021

UM POEMA DE FRANCISCA CAMELO

 


photoautomat

dizem-te que a vida
não tem tamanho
que também não tem
preço mas pedem
que a registes
num espaço concentricamente
isolado dos outros: inscrevem-te
numa cidade com regras
estranhas pedir desculpa
muitas vezes não sorrir
demasiado falar
alto em transportes
públicos nem pensar
quem decide que posso morar
aqui não sou eu
são algoritmos de leis
incompreensíveis quem
escolhe onde arquivar
o meu corpo quem
define onde cabe o meu
tamanho em que casa
fico com o quarto mais
pequeno ocupar o canto
que incomoda menos
pagar para não ser
notada, sim
eu já assinei contractos
que não tinha como ler
e com honestidade,
é mais ou menos isso
estar viva: assinar
acordos nunca
traduzíveis, corpos impossíveis
de cumprir gente desfigurada
porque a solidão fez 
de todos
o que quis e
um dia entendemos
quando obrigados a
beijar fronteiras que
há um peso, sim, para
todas as medidas:
a minha vida
por exemplo
pesa setenta e um quilos
distribuídos por cinco
caixotes tamanho L
roupas sapatos livros e o que sobra
- photoautomats
um caderno algum dinheiro -
carego comigo como quem
dá a volta ao mundo
ou atravessa a rua para
tomar um café. a minha vida
custa cento e quarenta e cinco
euros e noventa e cinco cêntimos
para ser transladada
dois mil e oitenta e quatro
quilómetros, talvez mais,
nunca medi o valor exacto
do desapego. quanto custará
um caixão para um metro e
cinquenta e oito centímetros
sem sapatos? imagino que seja
apesar de tudo
mais barato existir
e como no ringue de boxe
(flash)
alimento a antecipação
de mais um murro
(flash)
bem no fundo do estômago
(flash)
o branco
violento
e imponderável
(flash)
daquela
photoautomat
no primeiro dia de neve do ano
às duas da manhã
em kottbusser tor.


Francisca Camelo, in Photoautomat, Enfermaria 6, Agosto de 2019, pp. 50-52.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

DESVIOS

 

   «— Daniel, a tua pobre mãe ainda teve a sorte de morrer instantaneamente.
   — Sim, pai.
   — Mas tu, se te quisesses matar?»
   Aquilo que eu ia dizer em maneira de resposta era grave, muito grave, mas um demónio já me forçava. «Meu pai, eu escolheria um modo discreto, para não prejudicar aqueles que usam o meu nome. Uma tisana em cima do fogão a gás; a janela bem fechada, abro a torneira de segurança; esqueço-me de usar fósforos. Reputação salva e o tempo de dizer o confiteor
   No dia seguinte, a criada do meu pai veio informar-me de que o senhor fora vítima e uma acidente.
   Tinham-no encontrado na cozinha, a cara pintada de azul, uma caçarola em cima do fogão que ele se esquecera de acender.
 
Vem nas páginas 42-43 de Desvios, primeiro romance de René Crevel (1900-1935) agora editado em português, com tradução de Diogo Paiva, pela Livraria Snob. São palavras que ressoam como um oráculo. Crevel suicidou-se exactamente da mesma forma, já depois de lhe haverem diagnosticado tuberculose. O pai enforcara-se quando o escritor tinha apenas 14 anos, experiência evocada nas páginas de O Meu Corpo e Eu, segundo livro, editado por cá pela Sistema Solar, em 2014, com tradução de Aníbal Fernandes. Em língua portuguesa estão ainda disponíveis A Morte Difícil (Sistema Solar, 2018) e As Irmãs Brontë, Filhas do Vento (Assírio & Alvim, 2005).
   Nascido e criado no seio de uma família burguesa, tornou-se um autor de culto depois de se juntar aos surrealistas. A primeira aproximação deu-se, precisamente, no ano da estreia com Détours (1924). Antes, tinha o Autor privado com Tristan Tzara partilhando os entusiasmos da revolução Dada. O diagnóstico da tuberculose data também desse período, pelo que não é de espantar a pressa de viver incutida na realização de uma obra fulgurante. Exílios frequentes em sanatórios terão alimentando um sentimento de solidão que atravessa todos os seus escritos, enquanto marca existencial que nunca se permitir submergir na melancolia. Antes pelo contrário, a prosa de Crevel, e isso nota-se bem neste Desvios, está cravejada de tiradas irónicas e cínicas, um humor muito ao gosto surrealista, certo, com as pontas afiadas aos hábitos e costumes da sociedade burguesa. A propósito do convite para uma vernissage nas Tulherias, Daniel, o jovem no núcleo da narrativa, não deixa escapar a oportunidade para desmascarar parte do ambiente cultural da sua época (e da nossa, que há vícios que perduram sem remédio): «Noutro tempo, eu teria pedido a Léila que me acompanhasse, ela conseguia nunca passar despercebida, e eu teria tido o prazer de me encontrar com uma dessas mulheres pelas quais, ao que parece, têm lugar as exposições, bem mais do que pelas telas ou esculturas» (p. 133).
   Não obstante, este escritor de olhar cortante foi figura pouco pacífica no movimento surrealista. Parece ter tido um papel relevante nas tentativas de aproximação do surrealismo ao comunismo, mas sobre ele pesavam também outras preocupações. Os livros desmontam a hipocrisia latente das origens burguesas — logo no início de Desvios, a mãe de Daniel é descrita como encarnando, «no género medíocre, a burguesa dita com cabeça» (p. 11) —, expõem a bissexualidade através de uma hábil desconstrução dos mitos ligados quer à feminilidade, quer à masculinidade, mergulham nas raízes do suicídio tornando-o tema recorrente e assumindo-o como solução para o desespero (a esperança de Daniel é tida como «hábito cobarde»), exploram as relações amorosas sem lhes negar o que quer que seja a que tenham direito: paixão, traição, violência, dores de corno. E, mais significativo, assumem perante a vida um lapidar poder de síntese: «A primeira vez que me olhei num espelho, vi duas rugas na minha cara; temi descobrir-me velho de repente, sem nunca ter sido novo» (p. 62). Entalado como um castiçal no centro de um triângulo amoroso, Daniel é aquele que descobre liberdade na solidão. Desviando-se de si? Dos outros? Não custa ler o livro para perceber.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

UM POEMA DE JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA

 21

(de edifico esse lugar)

Agradeço às ilusões
toda a verdade que escondem
agradeço a esta porta
pela angústia dos meus passos.
Também agradeço ao tecto
pelo céu que se abrirá;
às paredes, agradeço
a paciência com que prendem
o silêncio, dentro e fora;
agradeço às aparências
só o verbo aparecer;
agradeço as que sabem
porque almoçar é preciso,
e agradeço aos que ignoram
por tudo o que hei-de aprender.

João Paulo Esteves da Silva, in Notas à Margem, Amores Perfeitos, Maio de 2002, p. 29.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

PARA UMA ESTÉTICA DO DELÍRIO

 


Na verdade, todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esses belos poemas; e igualmente os bons poetas líricos, tal como os Coribantes não dançam senão quando estão fora de si, também os poetas líricos não estão em si quando compõem esses belos poemas; mas, logo que entram na harmonia e no ritmo, são transformados e possuídos como as Bacantes que, quando estão possuídas, bebem nos rios o leite e o mel, mas não, quando estão na sua razão, e é assim a alma dos poetas líricos, segundo eles dizem. Com efeito, os poetas dizem-nos, não é verdade, que é em fontes de mel, em certos jardins e pequenos vales das Musas que eles colhem os versos, para, tal como as abelhas, no-las trazerem, esvoaçando como elas. E falam verdade! Com efeito, o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir oráculos. Assim, não é pela arte que dizem tantas e belas coisas sobre os assuntos que tratam, como tu sobre Homero, mas por um privilégio divino, não sendo cada um deles capaz de compor bem senão no género em que a Musa o possui: um nos ditirambos, outro nos encómios, outro, ainda, nos hiporquemas; este na epopeia, aquele no jambo. Nos outros géneros, cada um deles é medíocre, porque não é por uma arte que falam assim, mas por uma força divina, porque, se soubessem falar bem sobre um assunto por arte, saberiam, então, falar sobre todos. E se a divindade lhes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas e dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nós que ouvimos, que não é por eles que dizem coisas tão admiráveis - pois estão fora da sua razão -, mas que é a própria divindade que fala e que se faz ouvir através deles. A melhor prova a este respeito é Tínico de Cálcis, que nunca fez um poema digno de ser recordado, excepto o péan que todos cantam, talve zo mais belo de todos os poemas líricos, um verdadeiro «achado das Musas», como ele próprio diz. Parece-me, com efeito, que, com este exemplo, a divindade demonstra-nos, de um modo que não deixa dúvidas, que estes belos poemas não são humanos nem são obras de homens, mas que são divinos e dos deuses, sendo possuídos pela divindade, de quem recebem a inspiração. É para o demonstrar que a divindade faz, propositadamente, cantar o mais belo poema lírico pela boca do mais medíocre poeta. 


Platão, in Íon, introdução, tradução e notas de Victor Jabouille, Editorial Inquérito, 1988, pp. 49-55.

sábado, 24 de abril de 2021

UM POEMA DE PAUL ÉLUARD

 


HOJE

A padaria não é feita de pão branco
Nem está a rua aberta ao sol aberto
As tascas mais pequenas
Recebem raramente o alimento de um bêbado
Têm dentes estragados
E têm más maneiras apesar dos seus lucros

Rua cinza padaria desdoirada cafés frios
Bocas amargas frontes que se fecham
Três transeuntes na pressa de regressar a casa
Que casa já lá estive
Conheço-a funda lúgubre
Que mal instalados estamos

Rua cinza onde a virtude se bebe como água salobra
A ventura não tem raiz na minha rua
Rua cinza veia cinza sobre um braço doente
Onde se bebe e come e anda o menos que é possível
Vive-se sobre a fuligem e o tédio da vida

Névoa de rua ideia de rua ideia nada
Onde no entanto e de tempos a tempos os camiões esmagam um ciclista uma criança
E que acontecimento ver sangue sobre as pedras
Ver um ser vivo em mutação na lama
Vê-lo reverdecer antes de se murchar

O sol eu nada arrisco apenas falei dele
Falar é quase nada o gás a electricidade a água
Matar a fome tinha muito mais luz
Ter a pele bronzeada matar a fome e a gula
Nem sequer falei disso

E pensar que houve quem cantasse deus é glória
Houve aqueles que se amavam nus e sem pedestais
Mas onde está então a poética muralha do bem-estar
Para que a derrubemos
E lancemos raízes nesse mundo impossível
Onde se sorri sempre pela boca dos outros

A fadiga nos enche de calor e não é o do sol
Dá-nos a esmola o mês de Maio
Dá-nos a esmola o lilás branco e o lírio do vale
Mas a nossa mulher desaparece
Ela que no entanto nos queria com paixão
É com inteligência que é necessário querer

Estivemos na nascente e o mar não fica longe
Ah pudéssemos saber todos que está cheia a medida
Não queremos mais ter frio
Na carne e no pensar
Ganhemos cor contra infortúnio e ventura contra o que é injusto
Tudo é eterno nada é eterno nós existimos

Desenraizaremos a nossa rua inútil
E carregá-la-emos para aí morrer
Delirante no santuário dos nossos amos e senhores.

Paul Éluard, in Poemas Políticos, prefácio de Louis Aragon, trad. Carlos Grifo, Editorial Presença, s/d, pp. 63-65.


quinta-feira, 22 de abril de 2021

UM POEMA DE SEBASTIÃO BELFORT CERQUEIRA

 


BONZO DOG DOO DAH BAND

we are normal
and we want our freedom
Aí vêm os normais
Perguntar-me porquê

Aí vêm os normais
Vender-me calças

Aí vêm os normais
Em sentido contrário
Devagar
Presos no trânsito
Todos a condizer

E eu digo-lhes adeus

Aí vêm
Aí vêm os normais
Tão bem vestidos
(No meio deles alguns amigos meus)

Aí vêm os normais
Angariar-me

Aí vêm os normais
Dizer
Que até sou bem parecido

Aí vêm os normais
Apalpar o tecido
E conduzir minuciosas pesquisas

No roupeiro da minha alma
Na secção que diz camisas.


Sebastião Belfort Cerqueira, in Música Normal, Companhia das Ilhas, Janeiro de 2021, pp. 37-38.

terça-feira, 20 de abril de 2021

UM POEMA DE HARRYETTE MULLEN

 


NÃO NOS RESPONSABILIZAMOS

Não nos responsabilizamos pelos seus familiares perdidos ou sequestrados. Não garantimos a sua segurança caso desobedeça às nossas instruções. Não apoiamos as causas nem as reivindicações dos indivíduos que pedem subsídios. Reservamo-nos o direito de recusar serviço a quem quer que seja. O seu bilhete não significa que lhe garantimos as reservas. A fim de facilitar os nossos procedimentos, é favor limitar os seus comportamentos. Antes da descolagem, é favor extinguir quaisquer rastilhos de rancor. Se não compreende inglês, será removido. Em caso de perda, o melhor é desembaraçar-se. A sua apólice foi cancelada porque deixámos de tratar das suas pretensões assustadoras. Os nossos expedidores perderam a sua bagagem e não conseguimos encontrar a chave para o seu caso legal. Não lhe assiste a presunção de inocência se a polícia tiver razões para suspeitar que traz consigo uma carteira escondida. Não temos a culpa de ter nascido com a cor de um gangue. Não temos a obrigação de o informar dos seus direitos. Ponha-se de lado, por favor, enquanto o nosso agente revista a sua atitude censurável. Não lhe assistem direitos que devamos respeitar. Por favor mantenha a calma, ou não podemos ser responsabilizados pelo que lhe venha a acontecer. 

Harryette Mullen, in Lisbon Revisited - Dias de Poesia, trad. Margarida Vale de Gato, Casa Fernando Pessoa, Junho de 2018, p. 38. 


segunda-feira, 19 de abril de 2021

ESPECTÁCULO E ESPECTADOR

 


Jamais a censura foi tão perfeita. Jamais a opinião daqueles a quem se faz crer ainda, em certos países, que são cidadãos livres, foi tão pouco autorizada a tornar-se conhecida, cada vez que se trata de uma escolha que afectará a sua vida real. Jamais foi permitido mentir-lhes com uma tão perfeita ausência de consequência. O espectador é suposto ignorar tudo, não merecer nada. Quem olha sempre, para saber a continuação, jamais agirá: e tal deve ser o espectador.
 
p. 35.
 
O fluxo de imagens domina tudo, e é igualmente qualquer outro que governa a seu gosto este resumo simplificado do mundo sensível; que escolhe aonde irá esta corrente, e também o ritmo daquilo que deverá manifestar-se nela, como perpétua surpresa arbitrária, não deixando nenhum tempo para a reflexão, e em absoluto, independentemente do que o espectador possa compreender ou pensar. Nesta experiência concreta da submissão permanente, encontra-se a raiz psicológica da adesão tão generalizada àquilo que lá está, que vem a reconhecer-lhe ipso facto um valor suficiente. O discurso espectacular cala evidentemente, além de tudo aquilo que é propriamente secreto, tudo aquilo que não lhe convém. Daquilo que mostra ele isola sempre o meio, o passado, as intenções, as consequências. É, portanto, totalmente ilógico. Já que ninguém pode contradizê-lo, o espectáculo tem o direito de contradizer-se a si mesmo, de ratificar o seu passado. A altiva atitude dos seus servidores quando têm de fazer saber uma versão nova, porventura mais mentirosa ainda, de certos factos, é de ratificar rudemente a ignorância e as más interpretações atribuídas ao seu público, ainda que sejam os mesmos que na véspera se apressavam a difundir esse erro, com a sua habitual certeza. Assim, o ensino do espectáculo e a ignorância do espectador passam indevidamente por factores antagónicos quando nascem um do outro. A linguagem binária do computador é igualmente uma irresistível incitação a admitir em cada instante, sem reservas, aquilo que foi programado como muito bem quis qualquer outro, e que se faz passar pela fonte intemporal duma lógica superior, imparcial e total. Que ganho de rapidez, e de vocabulário, para julgar de tudo! Político? Social? É preciso escolher. O que é um não pode ser o outro. A minha escolha impõe-se. Sopram-nos, e sabe-se para que são estas estruturas.
 
pp. 41-42.
 
É necessário que haja desinformação, e que ela se mantenha fluída, podendo passar por todo o lado. Lá onde o discurso espectacular não é atacado seria estúpido defendê-lo; e este conceito, contra a evidência, usar-se-ia rapidamente par ao defender a respeito de assuntos que, pelo contrário, devem evitar chamar as atenções.
 
p. 62.
 
O conceito confusionista de desinformação foi posto em alerta para refutar instantaneamente, ao simples sussurro do seu nome, toda a crítica que as diversas agências de organização do silêncio não foram capazes de fazer desaparecer. Por exemplo, poder-se-ia dizer um dia, se isso se revelasse desejável, que este escrito é um empreendimento de desinformação sobre o espectáculo; ou então, o que é a mesma coisa, de desinformação em detrimento da democracia.
 
p. 63.
 
A imbecilidade crê que tudo é claro, quando a televisão mostrou uma bela imagem e a comentou com uma audaciosa mentira.
 
p. 75.
 
Há em toda a parte muitos mais loucos que outrora, mas o que é infinitamente mais cómodo é que pode falar-se disso loucamente.
 
p. 84.
 
O destino do espectáculo não é certamente acabar em despotismo esclarecido.
 
 
Guy Debord, in Comentários sobre A Sociedade do Espectáculo (1988), trad. Fernando Silva e Edmundo Calado, mobilis en mobile, 1995.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

4 LAURENTINAS & OUTRAS COUSAS

 


Nascido em Inhaminga em 1933. Mestiço de hindustano, celta, judeu e com prováveis avós nos Concheiros de Muge. Parte da infância e adolescência em Santiago de Galapitões, por onde leu muito Hugo, Camilo, Poison do Terrail e S. Cipriano. Herbanário e colector de pedrinhas. Gago mas muito dotado para o fado e para a ociosidade. Funcionou em várias profissões, tais como a pública e a privada, e é actualmente conselheiro para a África Leste do Comptoir d’Hygiène et Beauté, no sector de Shampoos e desfrisodorizantes. Volta nos anos sessenta à África, muito documentado em Edgar Burro — (ughs!). Acha que a realidade é aqui a sopeira da fissão. Sem vícios, com hábitos simples mas não mesquinhos. Também já esteve em Paris.
 
Livros publicados:
- 40 e tal sonetos de amor e circunstância e uma canção desesperada.
- O Morto. Ode didáctica.
- A Arca. Ode didáctica na 1.ª pessoa.
 
Laurentina desagravada
 
termos fígado é termos moral
sermos importantes é bem bom
evitemos as rimas em al
cala-se a voz que turbada,
já de si mesmo etc. … bom!
 
estavam os suicidas todos à janela
a gabarem uma vista significativa
que vinha à cabeça da comitiva
que vinha no meio da comitiva
que vinha na cauda da comitiva
e o ainda mexerem era a única coisa bela
e o ainda mexerem era a única coisa viva
para bem dela.
 
O marido a fingir que não vê
boa perna e papeira flá
cida do souflé do souflé
e do amor dum pequinois.
 
e enganemo-nos a achar glorioso
o passado desfuturado
vamos arranjem um papão a falar grosso
já temos um menino medroso
e um cueiro branco mijado.

 
*
 
Laurentina matinal
 
Bem assentadinho
no trono de louça
estou que nem um lorde!
Digiro e acto contínuo
(que ninguém me ouça)
tracteio ford!
 
De roupão de dragos
escreve-lhe aos rapazes
a mandar coragem.
entre dois caragos
currangindo gases
apoio a mensagem.
 
(quero cá saber
se a prosa é manhosa
se a mim me auxilia!
sim, que eu cá sei ler
para alguma coisa
isto serviria)

 
*
 
Fabulírio 2
Rumor

 
Um berbigão apaixonado
por uma ostra de portimão
fez uma aposta com um limão
e foi juiz a salsa. O alho
ficou de fora enxovalhado
e foi queixar-se ao rodovalho
vá pró… lixar-se! disse este ao alho
vá pró você, seu porcalhão!
 
Eu nada sou mais que um escriba
e não desejo, claro pois,
fazer de queijo entre estes dois.
A dona ostra estava cativa
lá dum percebe que percebia
de engenharia. O atum queria
também queria molhar a sopa
com a garopa… claro pois!
 
E é muito ingrato ser-se cronista
dos baixos fundos. Pausa, grabato,
poupando a vista poupas profundos
aborrecinazos à tua lista.
e, episódico, algum flato!

 
*
 
Ronda dos leques ou terapêutica da ocupação
Laurentina a partir do litoral

 
Para as loiras vou-me de alfa
para o sommershield dos betas
retiro o brazão das malvas
e anteponho duas letras
mariconas marialvas
ao meu silva de pobretas.
 
Para as oxigenadas
fico à carreira de tiro
e visto as cores encarnadas
do meu porsche que é mais giro.
Na polana das coutadas
em spraite dou um giro
que as louras acastanhadas
inda merecem um tiro.
 
Para tranças e cravés
maxaquene é um regalo:
mercedes e capilés
na princesa ou na pigale!
Vestem sedas do chinês
usam mesas pé de galo
lavam, o bastante, os pés
e têm pernas de estalo.
 
Para mulatas monhés
vou de fiate na virgem
até ao alto maé
ver os produtos na origem.
Mais incenso ou mais rapé
mais espinha ou mais impingem
rapazes isto é que é
ir mais perto da origem!
 
Para setins e pelezinhas
com dentes fora do riso
vou de simca rolinha
às portas do paraíso
de xipamanime. A linha
com que coso o meu consiso
paladar, é muito minha
que tem o doutor com isso?
 
Para entrar no outro mundo
de silêncio e aceitação
vou de jip que é fecundo
íman de admiração.
Em palavras gastei tudo
com silêncio é que me quero.
Vou de carrinho ao entrudo
dos silêncios em som estéreo…

 
João Pedro Grabato Dias, in Uma Meditação, 21 Laurentinas e dois fabulírios falhados, introdução de Maria de Lourdes Cortez, edição do autor, capa de António Quadros, Lourenço Marques, 1971.