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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
ÉPICO
Vivi em locais importantes, em tempos
De grandes decisões. Quem ficaria
Com meio hectare de rocha, terra de ninguém
Reivindicada de forquilha em riste.
Ouvi os Duffys bradarem “Maldito sejas”
E o velho McCabe despido até à cintura, vi
Dividir terras que desafiavam o aço fundido –
“Marcharemos ao longo destas pedras de ferro”.
Foi no ano da confusão em Munique. O que
Era mais importante? Estava inclinado
A perder a fé em Ballyrush e Gortin quando
O fantasma de Homero ciciou na minha mente.
Ele disse: Criei a Ilíada de um caos local
Similar. Os deuses determinam seu próprio valor.
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF.
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Os mestres e as criaturas novas,
Patrick Kavanagh,
Versões
domingo, 22 de janeiro de 2012
EM MEMÓRIA DE MINHA MÃE
Não penso em ti jazendo no barro húmido
De um cemitério em Monaghan; vejo-te
A caminhar por uma ruela entre os álamos
A caminho da estação, ou indo alegremente
À segunda Missa num domingo de Verão —
Tu encontras-me e dizes:
“Não te esqueças de tomar conta do gado” —
Entre as tuas telúricas palavras vagueiam os anjos.
Penso em ti caminhando ao longo de uma península
De aveias verdes em Junho,
Tão tranquila, tão cheia de vida —
E vejo-nos a encontrarmo-nos por acaso num dia claro
No termo de uma cidade, depois de
Os negócios estarem fechados e nós podermos andar
Juntos entre as lojas e as tendas e os mercados
Livres nas ruas orientais do pensamento.
Ó, tu não estás jazendo no barro húmido,
Pois agora é noite de colheita e nós
Estamos a descascar o trigo à luz da lua
E tu sorris para nós — eternamente.
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF.
domingo, 15 de janeiro de 2012
INOCÊNCIA
Eles escarneciam do que eu amava —
A colina triangular suspensa
Por baixo do Big Forth. Diziam
Que eu estava cativo das sebes de acácias
Da pequena quinta e que desconhecia o mundo.
Mas eu sabia que a entrada do amor para a vida
É a mesma entrada em qualquer lugar.
Envergonhado com o que amava
Afastei-a de mim e chamei-lhe vala
Embora ela continuasse a sorrir-me com violetas.
Mas agora regressado aos seus braços agrestes
O orvalho de uma manhã de Verão Indiano jaz
No talo branquejado das batatas —
Que idade tenho eu?
Não sei que idade tenho,
Não sou eterno;
Nada sei de mulheres,
Nem de cidades,
Não posso morrer
A não ser caminhando fora destas sebes de acácias.
Patrick Kavanagh
A colina triangular suspensa
Por baixo do Big Forth. Diziam
Que eu estava cativo das sebes de acácias
Da pequena quinta e que desconhecia o mundo.
Mas eu sabia que a entrada do amor para a vida
É a mesma entrada em qualquer lugar.
Envergonhado com o que amava
Afastei-a de mim e chamei-lhe vala
Embora ela continuasse a sorrir-me com violetas.
Mas agora regressado aos seus braços agrestes
O orvalho de uma manhã de Verão Indiano jaz
No talo branquejado das batatas —
Que idade tenho eu?
Não sei que idade tenho,
Não sou eterno;
Nada sei de mulheres,
Nem de cidades,
Não posso morrer
A não ser caminhando fora destas sebes de acácias.
Patrick Kavanagh
sábado, 14 de janeiro de 2012
MEMÓRIA DO CONFRADE MICHAEL*

Jamais será manhã, sempre noite,
Pôr-do-sol dourado, idade de ouro —
Quando Shakespeare, Marlowe e Jonson escreviam **
O futuro da Inglaterra página a página
Uma vala de urtigas selvagens foi o palco da Irlanda.
Jamais será Primavera, sempre Outono
Após uma colheita sempre perdida,
Quando Drake conquistava mares para a Inglaterra ***
Nós navegávamos em charcos do passado
Perseguindo o fantasma do mastro de Brendan. ****
As sementes entre o pó foram menos que poeira,
Poeira procurámos, ruína,
O jovem rebento erguendo-se nela asfixiado,
Amaldiçoado por estar no caminho —
E o mesmo ainda hoje é verdade.
A cultura é sempre qualquer coisa que foi,
Qualquer coisa que os pedantes podem avaliar,
Caveira de vate, fémur de chefe,
Profundidade de um rio seco.
Teremos de ser assim para sempre?
Teremos de ser assim para sempre?
Patrick Kavanagh
* Mícheál Ó Cléirigh (1590-1643): cronista irlandês, autor de Annals of the Kingdom of Ireland.
** William Shakespeare (1564-1616), Christopher Marlowe (1564-1593) e Benjamin Jonson (1572–637): dramaturgos ingleses.
*** Sir Francis Drake: (1540–1596): navegador inglês.
**** Saint Brendan of Clonfert (484–577): chamado de O Navegador, é um dos primeiros santos monásticos irlandeses.
sábado, 12 de novembro de 2011
ADVENTO

Já tanto saboreámos e experimentámos, amada –
Que sem surpresa nos surge através de uma fenda larga.
Mas aqui, na escura sala do Advento,
Onde o pão preto seco e o chá sem açúcar
Da penitência voltarão a encantar o luxo
Da alma de uma criança, nós devolveremos ao Juízo Final
O conhecimento roubado que não pudemos usar.
E a frescura que estava em todas as coisas bolorentas
Quando as olhávamos na infância: o espírito chocando
Com o espanto numa negra colina inclinada do Ulster
Ou o assombro profético na conversa entediante
De um velho palerma, despertarão para nós e irão
Levar-nos ao portão do jardim para vermos as urzes
E as crateras, carreiros, velhos redis onde o Tempo começou.
Ó, após o Natal não será preciso buscar
O sentido que define uma velha frase em chamas –
Vamos escutá-lo no argumento sussurrado pela batedeira
Ou nas ruas onde os rapazes da aldeia cambaleiam.
E também o escutaremos entre homens decentes
Que estrumam as árvores nos jardins,
Onde quer que a vida comum flua em abundância.
Não seremos ricos, o meu amor e eu, e se Deus
Quiser não teremos de cobrar justificações sobre
A pungente singularidade das sebes inclinadas
Nem de analisar o hálito de Deus nas declarações vulgares.
Lançámos no caixote do lixo os soldos em barro forjado
Do desejo, do conhecimento e dos momentos de consciência –
E Cristo surgiu com uma flor de Janeiro.
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF
domingo, 30 de outubro de 2011
CAMPAINHAS PARA O AMOR

Crescerão campainhas sob as grandes árvores
E tu e eu estaremos lá em Maio;
Por algum motivo ambos teremos de adiar
A noite em Dunshaughlin –para agradar
Uma qualquer imaginária relação,
E então ambos iremos caminhar naquela plantação.
Estaremos interessados na erva,
Num velho balde de nora, na hera que tece
Uma incongruente verdura entre folhas mortas,
Deixaremos em espanto as carroças que passarem –
Olhando por vezes de soslaio as campainhas na plantação
Evitando assustá-las com bravia exclamação.
Seremos prudentes, não deixaremos perceberem
Que estamos a observá-las ou farão uma pose
De mera fachada como rapazes
Apanhados na naturalidade da virtude.
Não vamos impor às campainhas na plantação
Muita da nossa desejosa adulação.
Teremos outros amores – ou isso irão pensar;
Os narcisos ou os fetos ou as sarças,
Ou mesmo os desmaiados arames enferrujados,
Ou as violetas no bronzeado talude de azedas-bravas.
Além de todos, só as campainhas na plantação
Terão significado para a nossa negra contemplação.
Aprenderemos o amor a pouco e pouco, olhar a olhar.
Ah, o barro debaixo destas raízes é tão castanho!
Roubaremos o Paraíso enquanto Deus estiver na cidade –
Apanhei um anjo a sorrir fortuitamente
À espreita através dos troncos das árvores na plantação
Enquanto tu e eu caminhávamos lentamente para a estação.
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF
domingo, 23 de outubro de 2011
PÉGASO

A minha alma foi um velho cavalo
Oferecido para venda em vinte feiras.
Ofereci-o à Igreja – os compradores
Eram homenzinhos tementes da sua aura invulgar.
Um disse: “Deixe-o estar naturalmente
Ao vento e à chuva e à fome
Do pecado que nós ficaremos com ele −
Com as palas aplicadas – a troco de nada”.
Então o homem do Estado viu
O que eu tinha trazido para venda.
Um ministro, pretendendo saber se
Um outro corpo de cavalo ajustar-se-ia à cauda
Que ele reservara por sentimento –
A relíquia da sua própria alma –
Disse: “Vou apascentá-lo no lugar do trabalho”.
Emprestei-o por uma semana ou duas
E ele regressou com problemas nos ossos,
Faminto, esgotado, em desespero.
Alimentei-o na erva à beira da estrada
Tentando pô-lo em forma para mais uma feira.
Baixei o preço. Mantive-o ao pé dos atacados
Pela pulmoeira, esparavonado ficou
E comerciantes desonestos disseram que ele
Talvez aguentasse uma temporada na terra –
Mas não para trabalhos bem pagos nas cidades.
Faria a vez de um trolha, possivelmente.
Supliquei: “Ó, fazei agora uma oferta,
Uma alma é a tragédia de um homem pobre.
Ele puxará a carroça do estrume”, disse,
“Mostra-vos atalhos para a Missa,
Ensina o saber do tempo, à noite recolhe
Dívidas perdidas da erva dos homens pobres”.
.........................................................E eles nada.
............................Onde os
Trolhas porfiam desci eu
Com o meu cavalo, a minha alma.
Gritei: “Quem me oferece meia coroa?”
Daquele regateio ruidoso
Ninguém respondeu. “Alma”, orei,
“Eu tenho-te apregoado através do mundo
Da Igreja e do Estado e dos negócios mais mesquinhos.
Mas esta noite, cabresto retirado,
Não mais continuarei a apregoar-te.
No lado sul das valas
Há o pastoreio do sol.
Não mais discutirei com o mundo…”
No momento em que eu dizia estas palavras cresceram-lhe
Asas no dorso. Agora posso montá-lo
Por todas as terras que a minha imaginação conheça.
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF
sábado, 8 de outubro de 2011
EM BUSCA DE UM IDEAL
Novembro está a chegar e eu ainda espero por ti
Ó lesta ninfa que me escapaste quando
Te avistei entre alguns homens tolos
E com a força do meu desejo te ataquei.
Precipitadamente o fiz, gerei uma morte apaixonada,
Muito fácil, demasiado fácil, chorei então,
Não merecias uma gota pela minha caneta derramada.
Ó flor da luz comum, a emoção
Das coisas vulgares elevada à angélica condição
Saltou das tuas sedutoras pernas, segui-te
De Abril a Maio e de Junho até Setembro,
E tu mantiveste o comando até o alimento da paixão
Ficar bolorento dentro do meu alforge. Agora galanteio
As pegadas por ti deixadas através de Novembro.
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
PAZ

E por vezes lamento que quando a erva
Cresce sobre as pedras em vales tranquilos
E o panasco se inclina ao longo dos sulcos da carroça
Eu não seja a voz dos camaradas do campo
Que estão agora de pé nalgum promontório a falar
Sobre nabos e batatas ou milho novo
Ou rampas de relva debulhadas para a vitória.
Aqui a Paz ainda vende pelas ruas
Os seus pentes coloridos e cachecóis e contas de corno.
No alto de um promontório junto a uma sebe chorosa
Uma lebre senta-se a observar um regaço de folhas lavradas,
Há uma velha charrua num cume coberto de ervas daninhas
E alguém carrega aos ombros para casa a sela do arado.
Fora desta terra da infância quem são os loucos que sobem
Para lutar com os tiranos Amor e Vida e Tempo?
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF
terça-feira, 4 de outubro de 2011
SHANCODUFF
As minhas negras colinas nunca viram o nascer do sol,
Olham eternamente para norte na direcção de Armagh.
A mulher de Ló não teria salinado se tivesse sido
Indiferente como as minhas negras colinas, felizes
Quando a aurora coroa a capela de Glassdrummond.
As minhas colinas guardam os luminosos xelins de Março
Enquanto o sol inspecciona todos os bolsos.
São os meus Alpes e eu escalei o Monte Cervino
Com um molho de feno para três bezerros agónicos
No cambo abaixo do Big Forth de Rocksavage.
Os ventos glaciais afagam as juncosas barbas de Shancoduff
Enquanto os boieiros, abrigados no Bosque de Featherna,
Olham para cima e dizem: “Quem detém as colinas famintas
Que a galinha-d’água e a narceja terão abandonado?
Um poeta? Por deus, ele deve ser pobre.”
Pode o meu coração não ser abalado por estas palavras?
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF
Sobre o título do poema, remeto o leitor interessado para esta nota: Shancoduff is an anglicised spelling of the Irish Shanco Dubh (possibly coming from "sean" - pronounced shan - meaning old in Irish and "dubh" - pronounced dove, like the bird - meaning black). The name refers to Kavanagh's north-facing farm in County Monaghan that he inherited. The title is very relevant as it conveys the poet's personal use of placenames and his remarkable sense of ownership, which serve to make the poem more accessible to the reader.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
AO HOMEM ATRÁS DO ARADO
Deixa as gamarras no descanso,
Hoje a semente voa distante −
Assemelha-se às estrelas contra a negra
Eternidade das terras de Abril.
Esta semente é forte como a semente
Do conhecimento no Livro Hebraico,
Portanto conduz os teus cavalos como
Um fardo no credo de Deus Pai.
Esquece os homens na colina de Brady.
Esquece o que o filho de Brady possa dizer.
Pois o destino não se cumprirá
Se não deixares o arado folgar.
Esquece igualmente a opinião do verme
Sobre cascos e pontiagudas cavilhas de arado,
Pois tu estás a conduzir os teus cavalos através
Da neblina onde o Génesis começa.
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF
sábado, 24 de setembro de 2011
ESTRADA INNISKEEN: NOITE DE JULHO
As bicicletas passam aos pares e trios −
Esta noite há baile no celeiro do Billy Brennan,
Onde os mistérios semi-conversarão por códigos
E o prazer falará pelos cotovelos sem pestanejar.
São oito e meia, e não há vivalma
Num quilómetro de estrada, nenhuma sombra
Que possa pôr na rua um homem ou uma mulher,
Nem um passo pontapeando segredos de pedra.
Tenho o que qualquer poeta odeia apesar de
Toda a conversa solene da contemplação.
Ó, Alexander Selkirk conhecia a condição
De ser rei e governo e nação.
Uma estrada, um quilómetro de reino, eu sou rei
Das margens e das pedras e de todas as coisas florescentes.
Patrick Kavanagh (1904-1967)
Nota: Alexander Selkirk (1676 – 1721) foi um marinheiro escocês que passou quatro anos como náufrago após ser abandonado numa ilha deserta. Supõe-se tenha inspirado Daniel Defoe a compor Robinson Crusoe (aqui).
Versão de HMBF
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