A apresentar mensagens correspondentes à consulta Gogol Bordello ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta Gogol Bordello ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

#65



Para a Filipa e para o Nuno.

Penso ser pacífica a opinião segundo a qual parte do sucesso da filmografia de Emir Kusturica se deve à colaboração com o músico Goran Bregovic, fazendo recordar outras parcerias congéneres com resultados brilhantes tais como a de Sergio Leone com o enorme Ennio Morricone. Eugene Hütz, a excêntrica alma ucraniana por detrás dos Gogol Bordello, aproveitou a boleia de Kusturica e Bregovic e pegou na tradição cigana dos Balcãs para experimentar algo festivo, alienante, satírico, grotesco, capaz de sacar ao ouvinte, em doses excessivas, esgares de hilaridade e de loucura com canções que têm tanto de protesto como de pura diversão. No tema American Wedding, denunciador do espírito capitalista sensaborão, com casamentos sem vodka, nem copo de água nem fanfarra, surgem versos muito a propósito: «So be you Donald Trump / Or be an anarchist / Make sure that your wedding / Doesn’t end up like this». Numa espécie de punk cigano, Gogol Bordello retrata freneticamente a vida da diáspora que espalha pelo mundo a tradição do seu lugar de origem. Um lugar algo transfronteiriço, diga-se, que pode incluir tanto a Ucrânia como a Hungria, a Áustria como a Polónia, a Itália como a Sérvia… Super Taranta! (2007), porventura o mais consistente dos seus álbuns, congrega estilos, faz com a música cigana o que bandas como os The Pogues fizeram com a tradição irlandesa em décadas anteriores. Mais provocador é impossível:


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

A PROPÓSITO DE MÚSICA CIGANA #3



   Ivo Papasov é um clarinetista búlgaro que pratica uma música onde se aliam as tradições ciganas dos Balcãs e o jazz norte-americano. Lidera uma banda que se chama Wedding Band. Há muita coisa dele disponível no Youtube que vale a pena explorar, sobretudo quem goste de jazz. 
   Numa outra vertente, os Gogol Bordello lembraram-se de juntar a música cigana ao punk rock. O resultado é estonteante, pura desbunda. Mencionei aqui um álbum deles. Por detrás da banda está um senhor chamado Yevgeniy Aleksandrovich Nikolayev, ou seja, Eugene Hütz, nascido na Ucrânia numa família de ascendência cigana.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

#87



Rock Extravaganza (2016) é o mais recente trabalho de Kubik, designação por detrás da qual se esconde o músico Victor Afonso. Oriundo da Guarda, Kubik insiste em dar continuidade a uma produção à margem do mainstream. Embora o método criativo utilizado tenha por base um exercício de colagem, fazendo-se valer da manipulação electrónica de fontes sonoras diversas, percepcionamos amiúde elementos vocais e instrumentais que oferecem ao todo uma peculiaridade que extravasa o domínio da montagem. Tal como o título indica, este disco caracteriza-se pelo eclectismo das composições. O primeiro tema remete-nos para o universo de um Gogol Bordello, o que já de si nos diz da multiplicidade de géneros mesclados sob a designação genérica de extravaganza. Quando se reduz ao instrumental, Kubik envereda por trilhos cinematográficos assaz sugestivos. É o caso de um excelente tema intitulado Nihil Aut Mors ou do magnífico The Lodger, este último acompanhado de uma voz feminina que funciona como instrumento solo sobre uma estrutura rítmica que nada fica a dever às investidas downtempo de uns Tosca ou de uns Peace Orchestra. Mas as vozes que aqui e acolá povoam os temas de Rock Extravaganza desviam-se, de um modo geral, do ambiente suscitado por The Lodger, enveredando por uma atitude burlesca que pouco tem que ver com o romantismo, por assim dizer, das batidas downtempo. Outra excepção, pela clareza pop que sugere, seria o tema Dirty Philosophy. Mas escutemos Nihil Aut Mors:



O álbum está integralmente disponível on-line: aqui.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

A VELHA E OUTRAS HISTÓRIAS

Ando há dias às voltas com um texto sobre A Velha e Outras Histórias, colectânea abrangente do trabalho literário de Daniil Harms, traduzida e organizada por Nina Guerra e Filipe Guerra. Não me é fácil escrever sobre o autor, muito menos sobre as palavras que deixou escritas. Acontece-me sempre com autores que admiro para lá do que a razão logra sustentar. É assim com a obra de Harms, a qual exige, julgo, uma grande dose de paixão ao leitor que ouse entregar-se nas suas mãos. Não se trata de um autor hermético, nem de um surrealista pouco mais que indecifrável. Trata-se, antes, de um dos grandes mestres do absurdo, mas daquele absurdo com um cunho existencialista que põe constantemente à prova os nossos preconceitos lógicos e morais, a nossa fé e a nossa vontade. Se não me engano, tomei conhecimento da sua existência através da extinta Periférica. Procurei o que havia disponível do autor em língua portuguesa e encontrei as Crónicas da Razão Louca (1994) – grande título – na colecção memória do abismo da Hiena Editora. Com a leitura desse pequeno volume, seleccionado e traduzido por Sérgio Moita, adensou-se o espanto e a admiração pelo universo harmsiano. O que há na obra de Daniil Ivánovitch Iuvatchov (1905-1942) que o justifique? Nada. Quando justificados, o espanto e a admiração perdem significado, deixam de ser espanto e admiração para passarem a ser outra coisa qualquer que, muito simplesmente, resulta na banalização do que apenas faz sentido enquanto resiste à banalidade. Alguns aspectos da vida do homem são significativos. Nasceu e sobreviveu, até poder, na opressora sociedade soviética; integrou um grupo de poetas experimentais, do qual se afastou para fundar uma não menos experimental – se relativizarmos o conceito – associação de artistas: a OBERIU (Associação da Arte Real); sofreu o ostracismo que muitos, como ele, sofreram naqueles tempos em que a arte ainda era temida, tendo, em consequência disso, vivido miseravelmente; foi preso duas vezes, a última das quais culminando no seu misterioso desaparecimento num hospital psiquiátrico. Filipe Guerra, na introdução, informa-nos que: «As raízes artísticas de Harms estão bastante bem estudadas pelos especialistas, e são sobretudo Gógol, Dostoiévski, Saltikov-Chedrin, Hamsun, Carrol. Pode ter-se também a ousadia de se considerar Harms o representante russo – casual ou não – do surrealismo» (p. 10). Talvez não menos ousadamente o possamos considerar um dos maiores representantes da chamada literatura do absurdo – no que ela se toca com o existencialismo -, juntamente com Samuel Beckett (1906-1989), Albert Camus (1913-1960) ou Eugène Ionesco (1909-1994). A verdade é que a obra de Harms, tal como todas as grandes obras, excede as fronteiras delimitadoras dos géneros que, ao longo dos tempos, vão permitindo organizar o caótico mundo da criação humana. Podemos apenas ter em conta a novela que Nina Guerra e Filipe Guerra destacam no título desta colectânea, para facilmente chegarmos a algumas conclusões: o humor (geralmente negro), o absurdo, o caricato, a alucinação, o grotesco, o fantástico, a justaposição de planos onde o real se confunde com o onírico, são apenas um recurso para confrontar o leitor com a ausência de sentido que se esconde por detrás da manta lógica com que nos protegemos da verdade mais gélida e cruel, ou seja, a de que a nossa existência é ilógica. Tudo se passa deste modo nas historietas, nos pequenos dramas, nas poesias de Daniil Harms. Se algum sentido almeja a nossa existência, então esse sentido apenas pode ser apontado na liberdade com que cada um constrói o seu mundo. Chego a esta conclusão e reparo que há uma curiosa coincidência entre as obras que mais me marcaram no decorrer de 2007. Quer estejamos a falar do filme As Vidas dos Outros, da música dos Gogol Bordello ou das histórias de Daniil Harms, assalta-nos sempre a vontade de, quebrando as regras (lógicas, sociais, culturais), rasgando as leis, conseguirmos conquistar a síntese única e irrepetível que nos distinguirá dos demais. Uma síntese que seja, acima de tudo, a prática de uma liberdade sempre ameaçadora, porque indomesticável. Uma síntese esclarecedora no limite das suas propostas. Resta dizer que as outras histórias que se juntam à novela A Velha são muitas e bastante diversificadas, entre as quais vários pequenos dramas, alguns anexos de manifesto interesse e, no final, três poemas.