segunda-feira, 29 de junho de 2026

UMA CRIA

 
Entalado entre as tiras dum tapete de alumínio
a cria caída do ninho bate insistentemente as asas
tentando sobreviver no hostil universo dos homens
Fico a olhar para aquele ser frágil e inofensivo
sem saber qual o melhor procedimento
Devolvo-a ao ninho ou deixo que a natureza se cumpra?
É da natureza das crias caírem dos ninhos
mas será natural ficarem entaladas entre tiras de alumínio
como criminosos condenados por crime nenhum?
Que crime cometeu aquela criatura? Tentar voar?
E enquanto rastejo em cogitações inúteis
a desafortunada ave perece sem ninho nem voo

(Vila Real.)

6 comentários:

  1. Não sei se o passaroco sobreviveu ou não, a minha perplexidade e a pergunta que te dirijo vai noutro sentido: este poema satisfaz-te? Em quê? Confundes situação com poesia e limitas-te a administrar a carga emocional que o episódio da ave já contém (o poema confia plenamente na situação, pior, confia que a situação fará o trabalho pelo poeta); não há um único verso que obrigue o leitor a parar porque a linguagem produziu um pensamento novo ( pelo contrário, o poema não pensa, explica-se), um desvio, uma surpresa sintática, lexical ou imagética; limita-se a contar uma pequena parábola moral pela ordem correta (episódio, dilema, reflexão, conclusão) de uma forma não apenas previsível mas inteiramente dedutível.

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  2. Jorge, já tinha saudades. Obrigado pelo comentário. Quem lhe chama poema és tu, para mim é só uma entrada num diário. Quanto a satisfações, o problema é mais complexo. Nada me satisfaz, sou insatisfeito por natureza. É uma tristeza.

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  3. Deixa lá a ironia falhada, Henrique, é um ligar demasiado fácil para fugir, até para ti. Pareces o beato Domingos com esse balofo "Obrigado pelo comentário". Às questões que te coloquei preferiste responder com a costumeira pose do "quase tão mau como, por exemplo, ter uma obra ou conquistar a santidade". Olha, tenho aqui uma entrada num diário que te veste bem, a ti e ao Quevedo.
    Enquanto a aversão fingir comedimento
    não serei eu nunca tido por misantropo,
    que a idiotia própria, se trabalhada a escopo,
    faz do assombro alheio valimento.
    Que assim a todos acuda o juízo zopo
    em que a feliz providência aqui resvala,
    a mesma finura, a mesma acerada gala
    com que a estultícia passa por piropo.
    E que denodo então, que ágil desembaraço
    põe em tudo o resoluto despautério
    se ao andamento humano alinha o passo.
    Tudo o resto é despeito, acerbo vitupério,
    tão malquerer a tão benquisto enlaço
    quando afinal só à estupidez sobra critério.

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  4. É bom saber que continuas em forma. Abraço.

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  5. Excelente artigo!
    Se tiverem oportunidade, convido-vos também a visitar o meu blog: noite.blix.pt
    Se o seguirem, terei todo o gosto em retribuir e seguir o vosso também. 😊

    Obrigada!

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