domingo, 27 de setembro de 2026

UM POEMA DE YANNIS RITSOS

 


A NOSSA VIDA EM FARÉS

Muito supersticiosos ficamos após tantos fracassos -
damos atenção às sombras dos pássaros e às folhas,
escutamos sons nunca antes ouvidos, caminhamos para trás,
entramos, tarde, ao anoitecer, no templo, em pontas de pés,
queimamos incenso na fogueira, deitamos azeite nas lâmpadas,
pomos no altar a nossa moeda de cobre,
aproximamo-nos do ouvido de Zeus e murmurando perguntamos-lhe:
«Quando?», «De onde?», «Com qual?». E de seguida
tapamos bem os ouvidos, vamo-nos. Quando passamos o mercado
destapamos de repente os ouvidos -
a primeira palavra que nos chega é a resposta
que nos manda Zeus. Nunca a palavra coincide com
aquela que desejávamos que fosse - talvez não a tenhamos ouvido bem. E
de novo damos início ao mesmo enfadonho processo -
o templo, as lâmpadas, a moeda e o mercado, até ao momento
em que se fecham as lojas e se apagam as lamparinas
e nós, na rua, sós, indo de muro em muro,
examinando aquela palavra letra a letra, pondo as sílabas
ao contrário, sem que nunca cheguemos à conclusão que desejávamos ter.
Assim, pois, gastamos a nossa vida em Farés,
entre o mercado deserto e o oráculo de maus augúrios.

Yannis Ritsos, in Compreendo que Sou Mudo e que Me Escutam - Poemas Escolhidos, versão de Amadeu Baptista, Contracapa,  Março de 2025,  p.105.


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