quarta-feira, 6 de junho de 2018

TRÊS VEZES BRASIL


Os números não enganam, o interesse recente pela poesia contemporânea brasileira trouxe-nos livros de Angélica Freitas (Pelotas, 1973), Fabiano Calixto (Garanhuns, 1973), Carla Diacov (São Bernardo do Campo, 1975), Ricardo Domeneck (Bebedouro, 1977), Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979), Adelaide Ivánova (Recife, 1982), Diego Moraes (Manaus, 1982), Nina Rizzi (Campinas, 1983), Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984), Luca Argel (Rio de Janeiro, 1988)… A este inventário acelerado devemos ainda acrescentar as antologias “Naquela Língua — Cem Poemas e Alguns Mais”, organizada por Francisco José Viegas, e “É Agora Como Nunca”, da responsabilidade de Adriana Calcanhoto. Mais abrangente no tempo e restrita no tema, temos a “Antologia da Poesia Erótica Brasileira”, de Eliane Robert Moraes. Sintomático também que tenham sido essencialmente pequenas editoras, tais como a Douda Correria e a Mariposa Azual, a recuperarem este interesse pela poesia brasileira, certamente mais movidas pelas relações de aparente proximidade proporcionadas pelas redes sociais do que por qualquer interesse comercial. De resto, está por verificar se à difusão de novos poetas brasileiros entre nós corresponde um real interesse dos leitores portugueses. O que não é necessário verificar é a variedade de registos que esta poesia nos oferece, comprovável nos três livros que estimulam este texto.
Ninguém vai poder dizer que eu não disse – Vol. I (Douda Correria, Setembro de 2016), de Carla Diacov, subtrai o sentido ao ímpeto de dizer. Fragmentários, os poemas surgem-nos cifrados pela urgência do que se diz. As maiúsculas irrompem da prosa como gritos, sugerindo automatismos, instantes de fúria, histeria, que mandam às favas o lirismo da poética amorosa: «quero que você se foda. diferente do mundo . também /quero que o mundo se foda. o mundo: PIADA DE BOM / GOSTO. inda esses idiomas de infrutífera búfala: QUERO / QUE VOCÊ FODA TODO O TEU SORRISO CAVALAR / ROÇANDO A MINHA PALMA o mundo que se foda sem / você por umas horas: UMA CADEIRA SOBRE A OUTRA / UMA CADEIRA SOBRE A OUTRA UMA CADEIRA / SOBRE A OUTRA SOBRE A MESA SOBRE A FESTA DE / DESANIVERSÁRIO: assim o mundo se fodendo todo na / espera de uma colisão que não que nunca que cão que merda / que hora e que buraco: QUEM É VOCÊ QUE TANTO SE / FODE E NUNCA DEBULHA A RESPEITO?» (s/p). Talvez faça sentido associar a este dizer a noção de catarse, entendida não apenas como “purificação”, mas como a própria dramatização de um sentimento expresso pela palavra, ou seja, libertação da palavra aprisionada no espaço silencioso do recalcamento. Carla Diacov disse, e ninguém vai poder dizer o contrário.
Já Ricardo Domeneck, de quem havíamos lido "Medir com as própriasmãos a febre" (Mariposa Azual, Outubro de 2015), remete-nos para um território que lembra o "Manual de Civilidade para Meninas", da autoria de Pierre Louÿs (n. 1870 – m. 1925). Só que no Manual para Melodrama (Douda Correria, Março de 2017), dedicado a Adelaide Ivánova, rosto reproduzido na capa, a civilidade foi substituída por «técnicas de sobrevivência ao abandono» (o «método medeico», inspirado na figura mitológica de Medeia, o «método didoico», a partir de Dido, rainha de Cartago) e outras sugestões de utilidade inquestionável para quem tenha sido traído, abandonado, esquecido, preterido… Com estes aforismos de inclinação irónica, Domeneck coloca a mulher num patamar de superioridade ante a figura opressora do amante desleal. A vingança é um prato que pode e deve ser servido com subtileza. Tanto este livro como o de Carla Diacov podem colocar-nos perante um tipo de texto que não identificamos de imediato como poesia. O primeiro desafio é formal. Aforismos? Fragmentos? Axiomas? O que os torna poéticos, mesmo não o sendo intencionalmente, é o uso da linguagem, o ímpeto de dizer anterior à precisão de sentido:  «Deste mesmo peito será você a expectorada» (s/p).
Não será também assim com Um útero é do tamanho de um punho (Douda Correria, Setembro de 2017), de Angélica Freitas? A condição feminina, transversal a estes três livros, é tanto aqui a da mulher-cão, de Paula Rego, como a da mulher social e culturalmente espartilhada num universo patriarcal, que facilmente identificamos com a poesia de Adília Lopes. O recurso a canções populares e a formatos clássicos surge-nos, precisamente, como modo de questionamento dessa tradição cultural, aqui contestada, subvertida, rejeitada pela figura da «mulher limpa» que deseja, que peca, que deita para o lixo as imagens de pureza artificial disseminadas pelos media e cultivadas num figurino de beleza que reduz a mulher à condição de servente: «eu me sinto tão mal / eu vou lhe dizer eu me sinto tão mal / engordei vinte quilos depois que voltei do hospital / quebrei o pé / eu vou lhe contar eu quebrei o pé / e não pude mais correr eu corria 10 km/dia / aí um dia minha mãe falou: regina / regina você prexcisa fazer um regime você está enorme / você fica aí na cama comendo biscoito / e usando essa roupa horrível que aprece um saco de batatas / um saco de batatas com um furo pra cabeça / também não precisava óbvio que fiquei magoada / primeiro fiquei muito magoada depois pensei: ela tem razão / daí eu comecei regime porque me sentia mal / eu me sinto mal eu me sinto tão mal / troquei os biscoitos por brócolis queijo cottage e aipo / coragem eu não tenho de fazer uma lipo / eu me sinto tão mal por tudo que comi esse tempo todo / tão mal e tem tanta gente passando fome no mundo» (s/p). In mulher regime. A identidade de género, também retratada nestes poemas sob a perspectiva de condição feminina, parece-nos especialmente pertinente no momento que o Brasil atravessa, momento de retrocesso civilizacional plasmado nas afirmações de Marcela Temer, mulher do presidente Michel Temer, acerca do lugar da mulher na sociedade brasileira. Ecoam nestes poemas sinais de um tempo detergente, alicerçado numa hipocrisia consentida e promovida. A linguagem banal e quotidiana aqui plasmada não é apenas um reflexo desse tempo, é um modo de o retratar revolvendo-lhe as entranhas, dissecando-o, aproveitando ressonâncias que estilhacem a autoridade da hipocrisia. Chamemos-lhe ironia, chamemos-lhe cinismo, será sempre uma poética da desconstrução do discurso vigente.

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