No decorrer de uma conversa, dizemos muitas vezes: boa pergunta. Porém, raramente nos perguntamos sobre o que faz a pergunta ser boa. Talvez uma boa pergunta seja aquela que se responde a si mesma, ou talvez aquela que nos obriga a fazer mais perguntas, desbravando o caminho da dúvida e da interrogação, talvez a boa pergunta seja um paradoxo ou, pela clareza e pertinência, ponha o dedo na ferida, como as perguntas que raramente se colocam em cima da mesa e, por isso, os problemas arrastam-se indefinidamente. Eis uma pergunta: é possível colocar uma pergunta em cima de uma mesa? Uma boa pergunta pode ser, quem sabe, aquela que põe termo a uma discussão, aquela que abre uma discussão, a que solta problemas antes presos, a que revela o que estava recalcado ou, pelo menos, ajuda a vir à superfície o que mantínhamos imerso no inconsciente, uma boa pergunta pode ser uma pergunta inconveniente, pode desmascarar ou inflectir noutras direcções. O que é uma coisa?, perguntava Heidegger, para 300 páginas depois explicar que uma coisa é uma coisa. E, no entanto, não demos o tempo por perdido ao lê-lo. A história do pensamento jamais se faria sem perguntas: o que é a morte? a vida depois da morte existe? isto faz sentido? Deus existe? para onde vamos depois de morrermos? a liberdade, o que é? e o amor? Os diálogos platónicos partem sempre de perguntas e desenvolvem-se através delas, as perguntas são o combustível do pensamento na busca da verdade. O que é a verdade? Eis uma pergunta. Será boa? «O que é uma boa pergunta?», pergunta Augusto Baptista (1946) a páginas 37 do seu "EniGmatóGrafo" (Edições Húmus, Maio de 2026), vasto e generoso inventário de perguntas coleccionadas ao longo de anos no weblog “azul-canário”. São 221 páginas de perguntas, interrogações, enigmas que mostram, também, o discorrer dos dias, da história, do tempo, pois a pergunta acompanha o tempo em que se inscreve, como no conjunto final com a pandemia de Covid-19 em pano de fundo: «Se a pandemia é uma guerra, não se conseguirá negociar uma trégua, assinar um armistício?» (p. 221) Muitas das perguntas coligidas neste divertido volume aplicam-se na desconstrução de frases feitas, desmontando com graça e sentido de humor expressões populares: «Quem não tem onde cair morto morre de pé?» (p. 74) Saber fazer perguntas talvez seja uma arte maior num tempo cheio de respostas, as pessoas, por estes dias, parecem ter resposta para tudo. Ao contrário, raramente as vemos fazerem perguntas acertadas, as perguntas que devem ser feitas. Nas televisões, nas redes sociais, nas páginas dos jornais em que a doxa venceu a episteme, as perguntas raramente têm lugar, o palco é todo ele oferecido aos detentores de respostas, respostas que surgem sem o estímulo das interrogações, são invariavelmente formatadas por convicções pessoais, por crenças indiscutíveis, pela total ausência de reflexão crítica, pela ausência de diálogo e debate, porque isto é o que eu penso e, se é o que eu penso, logo não se discute. Eis o pensamento reduzido ao gosto, que, sendo discutível, quer o povo que não se discuta.. Ora, o que este "EniGmatóGrafo" demonstra é precisamente a comédia em que estamos atolados num mundo sem perguntas. Fá-lo por excesso, como convém quando em tempos de desmedida verborreia, sabotando a semântica, brincando com o aspecto gráfico das palavras - «Y: um T assaltado?» -, obriga amiúde o leitor a um esforço de compreensão do sentido da pergunta, obriga-o a parar, a reflectir, recorrendo ao nonsense e ao absurdo na busca desse efeito de suspensão introduzido pelo gesto lúdico de ressignificação. Às tantas, sentimos vontade de começar a responder às perguntas, mas logo o trocadilho, o divertimento, a farsa, nos ensina que estamos diante de um universo semelhante ao de uma criança diante da descoberta do mundo. As crianças fazem as perguntas mais inesperadas, como muitas destas que Augusto Baptista nos oferece: «O que é vencer na vida?» (p. 94), «Quando tiras sangue para análise, não sentes saudades daquela parte de ti?» (p. 97) Muitas perguntas revelam, não surpreendentemente, uma inclinação poética acentuada, como, de resto, o pensamento mágico na infância. Algumas dessas perguntas remetem-nos para a concisão, a capacidade de síntese, a precisão que conhecemos sobretudo na poesia oriental. «Como cabe a árvore na semente, o poema na palavra?» (p. 15), «Poema: um punho a abrir-se?» (p. 19), «Quantas lágrimas esconde um sorriso?» (p. 26), «Onde se agarram as árvores para treparem ao céu?» (p. 65) «Quanta luz mora por detrás de uma sombra?» (p. 79) E há ainda os desenhos, mais ou menos ilustrativos, as experiências gráficas ao tipo da poesia visual, num livro que é todo ele um compêndio de sabedoria sem ponta de exibicionismo, um livro contra este tempo mediático de respostas feitas, um livro que testa a resistência do leitor pela ausência de qualquer tipo de linearidade narrativa, um livro que nos indaga e inquieta por, de modo discreto, se situar nos antípodas da palavrosa mediocridade reinante. Uma pergunta: «Quantas pessoas passaram pelo planeta, cientes da grandeza da experiência que viveram?» (p. 155) Alguém tem resposta?

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