quinta-feira, 13 de agosto de 2026

AUTORRETRATO DE ODISSEU

(...)
Nada há em que eu seja fraco, nas contendas atléticas dos homens.
Na verdade, eu sei bem manejar o arco bem polido:
era sempre eu o primeiro a atirar e a acertar contra a multidão
de inimigos, embora muitos companheiros estivessem
ao meu lado e atirassem com seus arcos contra os homens.
Só Filoctetes me superava com o seu arco na terra
dos Troianos, quando nós Aqueus disparávamos as setas.
Mas de todos os outros declaro ser eu o melhor:
de todos quantos são mortais e se alimentam de pão.
Porém não quereria rivalizar com homens do passado,
com Héracles ou com Êurito da Ecália,
que até com os mortais competiram como archeiros.
Foi por isso que logo morreu o grande Êurito: à velhice
não chegou no seu palácio. Encolerizado, Apolo
matou-o, porque ousara desafiá-lo com seu arco.
À lança atiro eu mais longe do que outro atira uma seta.
Na corrida é que receio poder vencer-me algum dos Feaces,
pois fui quebrantado pela força de muitas ondas;
e na embarcação onde seguia faltavam mantimentos,
pelo que meus membros estão agora amolecidos.
(...)

Homero, Odisseia, tradução, notas e comentários de Frederico Lourenço, Quetzal, Março de 2021, p. 244.


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