Amo os amadores. O pior que pode acontecer a um profissional é deixar de amar, passar a fazer tudo por obrigação, dever, cumprindo regras, respeitando rigorosamente as convenções. O amador aventura-se, questiona, quando ama verdadeiramente ele é um autêntico filósofo, um amante do conhecimento. A não ser que seja tonto e em vez de amar o outro ama-se apenas a si mesmo, fechando-se no reflexo da sua vanitas. Esses não entendem sequer a efemeridade que os condena, que nos condena a todos. Sempre que regresso à História da Literatura lembro-me disto, tantos sãos os nomes com que me cruzo que hoje nem chegam a meras curiosidades. Afundaram-se no esquecimento como se nunca tivessem existido. Mas existiram, fizeram coisas, algumas delas até valerá a pena desenterrar, ao contrário de outras que por aí se vão fazendo, ocupando páginas e páginas de jornais, que melhor seria enterrar quanto antes.
antologia do esquecimento
domingo, 1 de fevereiro de 2026
AMADORES
Amo os amadores. O pior que pode acontecer a um profissional é deixar de amar, passar a fazer tudo por obrigação, dever, cumprindo regras, respeitando rigorosamente as convenções. O amador aventura-se, questiona, quando ama verdadeiramente ele é um autêntico filósofo, um amante do conhecimento. A não ser que seja tonto e em vez de amar o outro ama-se apenas a si mesmo, fechando-se no reflexo da sua vanitas. Esses não entendem sequer a efemeridade que os condena, que nos condena a todos. Sempre que regresso à História da Literatura lembro-me disto, tantos sãos os nomes com que me cruzo que hoje nem chegam a meras curiosidades. Afundaram-se no esquecimento como se nunca tivessem existido. Mas existiram, fizeram coisas, algumas delas até valerá a pena desenterrar, ao contrário de outras que por aí se vão fazendo, ocupando páginas e páginas de jornais, que melhor seria enterrar quanto antes.
sábado, 31 de janeiro de 2026
VOZ HUMANA
Peça de tipo neo-romântico com banda sonora de
Durutti Column e Dead Can Dance. Uma mulher, de seu nome Júlia, é assaltada por
pensamentos suicidas. Um amor falhado abre-lhe a porta da desilusão. Um
barqueiro, evocação de Caronte, tenta seduzi-la para o seu mundo. Se o amor não
faz parte do seu vocabulário no início, acaba no fim por lhe servir de
argumento: «serei eu, o teu novo amor...» Numa espécie de diálogo desprovido de
argumentação retórica, Júlia e o Barqueiro oferecem-nos retratos de dois mundos
paralelos. Estão ambos num limbo, cada um no seu, talvez se encontrem na morte.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
TEMPOS DE INDIGÊNCIA
Vamos aos solavancos. No Renascimento, ainda houve quem nos lembrasse: a natureza somos nós. Os do Romantismo perguntaram: que é feito dos Deuses gregos? Agora estamos nesta era deserdada, a das tecnologias que fazem parecer tudo tão fácil até se tornar óbvia a fragilidade de que somos feitos e nunca ultrapassámos. Se aprendêssemos alguma coisa com isto. Mas nada, dentro em breve repetiremos os mesmos erros, voltaremos a comportar-nos como se não houvesse História. Quem era o autor que mais descria da humanidade?
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
JOÃO CANIJO (1957-2026)
Realizador de Mal Viver e Viver Mal, ambos de 2023, arriscou uma espécie de western à portuguesa com a série Alentejo Sem Lei (1991). Sapatos Pretos (1998) surpreendeu, é talvez o meu filme preferido de João Canijo.
KRISTIN
Árvores arrancadas ao chão, troncos partidos, casas destelhadas, cheias, zonas balneares atapetadas de areia, montras quebradas, postes de alta tensão dobrados, publicidade espalhada pelo chão, lixo, muito lixo, campos de cultivo destruídos, um cenário de quilómetros e quilómetros de destruição. Sem água, sem luz, sem telecomunicações, as pessoas lembram-se de que são pessoas. «Sejam férteis e cresçam; encham a terra e dominem-na; dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» Assim fizemos, esquecendo de que mais do que dominar a terra seria importante preservá-la, prestar-lhe culto, protegê-la, porque, feitas as contas, concluímos que somos parte integrante da terra. Não estamos separados, estamos dentro. Deus que se foda.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
A HORA AZUL
Cristina Ferreira Parente, in A Hora Azul, com ilustração de Ana Vasco, Menção Honrosa Prémio Literário José Luís Peixoto, 2019.
UM SONHO
Um sonho: tento colocar um bebé numa dessas cadeiras auto que me parecem bastante confortáveis. Só que a cadeira está repleta de fios, um emaranhado de fios eléctricos, cabos que eu tenho de descobrir onde encaixam e não consigo. O bebé tomba, cai, curva-se como um boneco de trapos. A certa altura ameaço-o com um murro, olha-me enraivecido. E eu embrulho-me nos fios, nos cabos, naquele emaranhado indecifrável de fibras e filamentos.
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
77
Fui ver o debate. André Ventura proferiu 77 vezes o nome do seu adversário nas respostas às perguntas que lhe eram feitas. António José Seguro proferiu 20 vezes, sendo que 9 foram a pedir para que Ventura não o interrompesse. Seguro tentou falar do país, Ventura passou o tempo a falar de Seguro chamando-lhe rainha de Inglaterra, miss Portugal, arrogante, entre outros epítetos fundamentais para o nosso futuro. Ventura engoliu em seco quando Seguro expôs o seu exemplo pessoal em matéria de subvenções, nas propostas que no passado fez para combate à corrupção. E à pergunta sobre quantos desempregados há no país, Ventura respondeu: "Eu respondo a seguir." Ainda estamos à espera. Em matéria de imigração, face ao exemplo espanhol de legalizar 500 mil imigrantes, André Ventura confundiu deixar entrar mais imigrantes com regularizar a situação dos imigrantes que já estão no país. Em matéria de política internacional, disse, sem se rir nem ter nenhuma crise esofágica, que devemos ser amigos de democracias como Israel e EUA. São, não haja dúvidas, óptimos exemplos de democracia na actualidade. Ventura diz esta coisa extraordinária: "Portugal não se deve vergar perante os nossos antigos palops". Os nossos antigos palops, diz ele, acrescentando que não temos de pedir desculpa pelo nosso passado e que prefere enganar-se a deixar tudo na mesma, entre outros chavões costumeiros. Ventura acha que o socialismo mata, mas quando um jornalista lhe diz que o que está a defender podia ser dito por um socialista não só não discorda, como anui. E lá vai dizendo que está de acordo com Seguro em algumas matérias de lei de bases da saúde, legislação laboral, entre outras. Portanto, Ventura está por vezes de acordo com Seguro ao mesmo tempo que o acusa de não ter ideias nenhumas e querer que tudo fique na mesma. Já Ventura tem ideias muito boas, como entregar a nomeação do Procurador-Geral da República, sei lá, tipo a uma corporação de procuradores, ó isso. Gostei do debate, ouvir André Ventura dizer 77 vezes António José Seguro deixou-me confortável quanto ao meu sentido de voto.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
CHICO-ESPERTO
O chico-esperto tem sempre histórias para contar e é, invariavelmente, o herói das histórias que conta. Vinga-se, assim, dos pés chatos, da marreca, da saliva em excesso numa boca incapaz de se calar. Faz-se esquecido nas contas que não salda, toma os outros por parvos, ironiza. Ele não te diz que está mal ou que está bem, diz aos outros e espera que esbarres para, vendo-te caído, dar-te a mão. Depois cobra. O chico-esperto não é parvo nenhum, por isso inspira cautela e distância. Creio que finará afogado na própria saliva.
domingo, 25 de janeiro de 2026
SEIS HISTÓRIAS PARALELAS
Em Seis Histórias Paralelas (Companhia das Ilhas, Setembro de 2023), Nuno Dempster (1944-2026) ocupou-se das sobras de uma ruralidade que já não merece olhares contemplativos. Seja através da enjeitada de Vasconha, nome de aldeia no sopé da Serra do Caramulo, seja através das visões em Nave dos Sobreiros, nome de aldeia desconhecida, as seis histórias introduzidas por epígrafes de Plutarco (duas), Catulo, Homero, Ovídio e Sófocles, não opõem os vícios da vida urbana às virtudes da ruralidade, antes preferem abordar esta a partir de um prisma crítico que vai muito melhor com a mudança dos tempos. Agradou-me particularmente O Caminho, uma história de vindima com os explorados da imigração em pano de fundo. A vida no campo está longe de ser um paraíso e tanto os vícios como as virtudes são humanos, não escolhem geografias.
TODOS CONTRA MIM, DIZ O BULLY
Ventura acha que está no caminho certo porque estão todos contra ele. Na verdade, não estão todos contra ele. Mais de 1 milhão de palermas votaram nele. Ele próprio, nas eleições anteriores em que foi candidato, todas e mais algumas, tem vindo a gabar-se de arrasar com este e com aquele porque os portugueses estão do seu lado. Ora, há nesta lógica propagandística uma contradição que não é de admirar. Ventura diz e desdiz a cada hora que passa. O que me parece interessante, desde já, sublinhar é a importância de estarmos todos contra as pragas de ratos, independentemente do caminho que elas sigam. O discurso dos estão todos contra mim é ainda interessante por vir de um bully que passa a vida a estar contra tudo e todos, nomeadamente o PSD e PS, que ele faz equivaler em cartazes sobre corrupção, ou os ciganos, assim generalizados como se no interior da comunidade não houvesse tanta gente diferente. Ventura está constantemente a pôr-se no centro do mundo, as televisões ajudam. Também por isto é tão importante ir votar contra ele, para que finalmente ele perceba que os que estão com ele não são assim tantos como ele apregoa. O que está em causa nas próximas eleições não é a direita versus a esquerda, é indecência versus a decência, não é o socialismo versus as democracias liberais, é o respeito pela Constituição da República versus o desrespeito por uma Constituição que se pretende mudar para favorecer elites contra os direitos de todos, o que está em causa não é 52 anos de corrupção versus três Salazares para acabar com a mama, é a possibilidade de o país continuar a progredir versus um cheque em branco aos pardais das mamadas.
sábado, 24 de janeiro de 2026
50 x 39
"25": Lokomotiv
Há algo comum a todos estes CDs, a guitarra de Mário Delgado. E só num deles não escutamos o contrabaixo de Carlos Barreto, substituído pela tuba de Sérgio Carolino no excelente TGB III (2018). Fui ouver os Lokomotiv a A-da-Gorda na passada sexta-feira, num suposto armazém dos vinhos onde ficámos a seco. Não havia vinho. Belíssimo concerto, celebrando 25 anos de trio (Carlos Barreto, Mário Delgado e José Salgueiro), agora em formato quarteto (Ricardo Toscano no saco alto). São ambientes sonoros dissemelhantes, aqueles que encontramos nestas cinco gravações. Na versão Suite da Terra nota-se a influência das chamadas músicas do mundo, que é como quem diz música enraizada nas tradições mais ancestrais. Os títulos dão conta das diferentes geografias: Terra do N’gumbé, Let’s Goa, Mediterrâneando. Em Filactera, quarteto liderado por Mário Delgado, o mote são as “histórias aos quadradinhos”. Além de Carlos Barreto no contrabaixo e de Alexandre Frazão na bateria, tocam o polaco Andrzej Olejniczak no saxofone tenor e soprano, e Claus Nymark no trombone. O que me agrada nestes músicos, de que a guitarra de Delgado é aqui uma constante, tem que ver com a multiculturalidade oferecida através de uma música que, tendo a sua identidade própria e singular, resulta sempre de encontros com o diverso e da assimilação do que melhor podemos colher nas mais diversas manifestações musicais. Não há nenhuma ditadura estética capaz de usurpar a Terra de Ninguém (de Carlos Barreto) a sua extraordinária beleza ecuménica, devedora tanto das tais músicas do mundo, como do rock... e isso é jazz. Acho que devemos muito a estes músicos. Eu faço a minha parte, vou aos concertos, compro os CDs, escrevo estas coisitas.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
TUMBA LAKA MUNA KIRA TÁKA PIRÍ
JE SUIS VOLKSVARGAS
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
DESCONCERTO DO MUNDO
Sá de Miranda já falava do desconcerto do mundo, Camões aprofundou o desconcerto do mundo, Vieira sentiu na pele o desconcerto do mundo, Nicolau Tolentino denunciou em versos autocomplacentes o desconcerto do mundo, o desconcerto do mundo persegue-nos. Do renascimento ao barroco, da arcádia lusitana ao romantismo, do modernismo ao surrealismo, passando pelo neo-realismo e demais ismos, sempre o desconcerto do mundo, sempre esta sensação de injustiça, de premiação do mal e desprezo do bem. Ainda hoje, o desconcerto do mundo. Uma guilhotina suspensa por fios débeis sobre as nossas consciências.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
RELÓGIO ATRASADO
O cansaço manteve-me em casa a arrumar livros e ideias. Fomos sempre, enquanto nação, produto de influência estrangeira. Não há um verdadeiro e autêntico, genuíno pensamento português. O relógio atrasado pela Inquisição, como denunciou o Cavaleiro de Oliveira, e, posteriormente, pelo Estado Novo. Só com os estrangeirados conseguimos, a espaços, olhar-nos de fora e, a pouco e pouco, aproveitar esse olhar para um exercício de autocrítica que nunca nos libertou por completo das coleiras que nos levam a reboque. Alguma emancipação a partir da segunda metade do século XX, talvez, mas tudo como um fogo-fátuo. Agora, com a inteligência natural rendida à inteligência artificial, talvez consigamos finalmente ver-nos ao espelho e repensarmo-nos pelo mal e pelo bem que fizemos.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
MOMENTOS
Nunca pensei que isto fosse durar tanto. 8 anos passados, são
breves e escassos os momentos colados à memória, a despeito das inúmeras horas despendidas
a preparar conversas e a materializá-las. Há gente que nos fica na memória pelo
que pede à mesa, por um gesto, por uma palavra, outros há que nos oferecem
momentos inesperados com os quais alimentamos a vontade de continuar.
Ultimamente têm-me ocorrido, em particular, os lapsos, as falhas, as ocasiões
confrangedoras, momentos que envergonham e preferiríamos recalcar tivéssemos esse
poder. Chego a sonhar com esses momentos, atormentam-me. Arrependo-me de os ter
vivido de me arrepender de os ter vivido. Afinal, são meros instantes que de
nada valerão dentro em breve.
O GORDO
BUKOWSKI E O CINEMA
- No Céu Tudo é Perfeito.
- No Céu Tudo é Perfeito?
- Sim.
- E em segundo lugar?
- Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
LEMA DE VIDA
DIZ-ME COM QUEM ANDAS...
domingo, 18 de janeiro de 2026
DESASTRE À VISTA
TRANSFORMAR EM QUÊ?
A necessidade de transformação do mundo, tal como Brecht a coloca no domínio do Teatro Épico, não me seduz particularmente, desde logo por não vislumbrar nela algo de verdadeiramente inovador. Também aqui, parece-me, foi o dramaturgo mais consequência do seu tempo do que impulsão de ruptura. Modificar e transformar, pois bem. Mas em quê? Tenho sérias dúvidas quanto ao poder transformador da arte, mas mais do que modificar ou transformar importa decidir quem e o quê. Não vale a pena pressupor capacidades transformadoras na criação artista, se for para transformar em algo pior. E aqui talvez devamos supor um tipo de avaliação que faça coincidir o estético com o ético. Os artistas, os criadores, estão imersos num tempo que é o seu. A história dos movimentos, o modo como se foram negando uns aos outros, ou, pelo menos, impondo, não é muito diferente da dinâmica epistemológica dos paradigmas. Mais importante, creio, é a arte estar permanentemente em crise, recusar a cristalização de todo e qualquer paradigma, conflituando com o seu tempo sem se fechar ou isolar num qualquer reduto antissocial. O que mais se observa é uma criação fechada sobre si mesma, individualizada, elitista como desde as raízes mais profundas, do mecenato à subsidiação, o que mais se observa é uma criação transformada em modo de ganhar a vida, em vez de a transformar, à vida, à daquele que cria e dos que frequentam o seu círculo, geralmente mais e mais e mais criadores, e à daqueles que se aventurem no desconhecido, já tão poucos, já tão pouco disponíveis para serem transformados, já tão formatados pela família, pela escola, já tão uniformizados pelas dinâmicas capitalistas, pelos discursos sedutores da publicidade, pelas modas, pelas tendências.






