A relevância de Frank Zappa na história da música ainda está por ser
reconhecida no nosso país. Aí estão o primeiro a solo, após a dissolução dos
The Mothers of Invention, e o derradeiro dos registos de um génio que fez da
música também um meio de ultrapassar fronteiras e desfazer o muro do
preconceito. Entre Hot Rats (1969) e The Yellow Shark (1993), considerado por
Tom Waits um dos seus álbuns preferidos, muita coisa aconteceu, mas o jazz no
primeiro e a influência da música clássica no segundo servem e bastam para
entender o alcance de Zappa enquanto compositor. Hot Rats reúne seis temas,
apenas um com voz. A de Captain Beefheart, em Willie The Pimp, num registo rock
psicadélico muito ao sabor daqueles tempos, com um extraordinário solo de
guitarra do próprio Frank Zappa. O primeiro tema, Peaches en Regalia, desloca-nos
para o jazz de fusão com uma das melodias mais bem-dispostas de que há memória.
Todos os restantes temas são autênticas obras de arte, nomeadamente The Gumbo
Variations, com extraordinários solos de sax, por Ian Underwood, e violino, por
Don “Sugarcane” Harris, um tema que estará na base daquilo a que 30 anos depois
se deu o nome de post-rock. Se The Yellow Shark foi descrito pelo próprio Zappa
como um dos seus projectos mais representativos de composição para orquestra,
Hot Rats é magistral no modo como aproximou o rock do jazz, abrindo caminho
para inúmeras experiências posteriores de fusão, encontros, cruzamentos,
misturas, miscigenação musical. Uma pessoa olha para os EUA actualmente e pressente
a falta que faz um Frank Zappa em cada esquina daquele inferno.

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