ELEGIA PRATEADA PARA RUI COSTA
A morte é uma bicicleta
Rui Costa
Sim, a morte é uma bicicleta
e a ladeira que não acaba de esfolar a infância
com quedas que não custavam o que hoje custa
erguer os ossos
e saber ao espelho este presente interminável,
puramente indicativo,
em frias torres de vidro - ó quem dera abolidas!
Que será de nós, hóspedes inconsoláveis de Aquitânica?
Não mais nos será dado enviuvar da única estrela?
Erguer a taça à indomável Natura,
partilhar o pão e o vinho pré-industriais?
Ficheiros, relatórios, folhas de cálculo,
para tais misérias é que somos fadados?
Que é da pedra, do peixe, da planta,
do pássaro? Saberão os vindouros o que são?
Sim, havemos de imprimi-los a três dimensões,
descarregá-los nos olhos, sóis negros
a pairarem sobre jazidas de gigabytes,
tudo vagamente olvidado e vagamente lembrado
como as coisas longínquas que nos perseguem os sonhos
e o éter da manhã desfaz em fumos
pestanejantes.
Sim, a morte é o passado,
talvez um adro, sinos,
o futuro infundado, o valor
e a virtude, rochedos a refundar.
Ainda ontem pela raiz nos arrancavam ventanias
e sobre nós mesmos caídos
mordíamos o pó sob as lápides da lembrança,
as bocas ensanguentadas de símiles vetustos.
E tudo pela pátria: não foi sempre ela,
essa puta velha, a arrastar a voz
do outro lado da linha?
Oh dias quietos envidraçados
de sol a sovar o rio.
Continuamos encarcerados em nuvens graves.
Como nos achas, vistos daí?
Sim, vistos daí onde a água não canta ao saltar
entre as pedras?
Mochila às costas, livros, cachaça:
teremos aprendido alguma coisa?
Teremos aprendido a não escrever poemas?
Sim, é preciso deserdar a felicidade
antes que nos morra na sala, de boca ao lado.
Do mais não vale tirar sentido: pelintras da unidade,
somos ainda o chão.
A morte é uma bicicleta.
Continuamos por aqui a pedalar.
Rui Lage, in Física Espiritual - antologia pessoal, posfácio de Arnaldo Saraiva, Assírio & Alvim, Janeiro de 2026, pp. 202-204.

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