Associo-me a esta causa de valter hugo mãe, propondo dois livros publicados pelas Edições Mortas: morte com dedos em ferida (2000), de m. parissy (n. 1969), e Excrementos (2002), de A. Dasilva O. Na verdade, não sei ao certo se os dois títulos ainda se encontram disponíveis. O primeiro, foi-me oferecido pelo autor há dois anos. O segundo, adquiri-o numa livraria do Porto, salvo erro, chamada Utopia. Não são os únicos livros das Edições Mortas que possuo, mas são dois que me agradam por razões bem distintas.
No caso do livro de m. parissy, temos dois conjuntos de poemas, o que dá título ao livro e um outro intitulado levas de mar, que, como é apanágio deste autor, podem ser lidos, cada um dos conjuntos, como sendo dois únicos poemas fragmentados em várias partes. O primeiro fragmento de morte com dedos em ferida é revelador do género de poesia praticado por parissy, uma poesia com múltiplas referências a um imaginário geográfico muito pessoal, nomeadamente no que respeita à presença daquilo a que eu chamaria uma “signografia marítima”, assim como uma espécie de conflito entre os ritmos da cidade e os ecos da memória. Ainda assim, resistem estes versos a um pessoalismo de tipo confessional e realista tão em voga nos dias de hoje. Ou seja, a memória está presente sob a forma disfarçada de um fôlego poético que parece mais da ordem da imaginação do que das ordens da observação e da rememoração. Não obstante, estes poemas possuem outros epicentros que não apenas o da imaginação. Eles apresentam-se-me como resultado duma confluência, por vezes dispersiva, do real com o imaginário, dos afectos com os efeitos, da desilusão com a ilusão: «eu quero imaginar o amor em ti / pelo menos sei a morada // a mãe do porteiro guardou / saudades e vícios // a borboleta pede licença para entrar / os cristais não deixam» (p. 7). Esta é uma poesia onde tudo parece aparente, uma poesia que nos vai deixando rastos e rastilhos, amiúde alucinatórios e delirantes, sobre o inexplicável: «os versos / são feitos de coisas inexplicáveis» (p. 8). Mas é também uma poesia que dá lugar às vozes do explicável, sejam elas «a mãe do porteiro», «o carteiro», «a padaria», a «taberna», «as vendedeiras de tabaco», ou seja, personagens e imagens de um património concreto que, retratados no poema, assumem contornos mais abstractos.
Bem menos abstracta, assim aparenta, é a poesia de A. Dasilva O., autor de alguns dos livros mais iconoclastas de que há memória em Portugal. Se o título Excrementos não chegar para convencer, raparem em alguns dos títulos de poemas que compõem esta colectânea: Assim Fodeu Zaratustra, Ode a Coisíssima Nenhuma, Dança do Quinto Caralho, Ide Mamar na Quinta Pata de Heidegger, Striptease de Pã. Sem fazer quaisquer cedências às concepções mais estereotipados de belo, esta é uma poesia que se afirma precisa e mormente por desprezar o Belo. A dimensão política (de cariz anarquista), senão mesmo panfletária, é evidente na toada acusatória que vislumbramos em alguns poemas – sejam eles mais ou menos satíricos, mais ou menos violentos: «Não sei quantas pessoas morreram em Sarajevo / Desde que comecei a escrever este poema / Impossível / Impossível porque desde Auschwitz / Continua a ser possível / O poema impossível» (p. 54). É óbvio que há nisto tudo uma pose anti-cultura voluntáriamente provocatória, mas é uma pose de facto, não se lhe podendo extrapolar a autenticidade. Os poemas mais eficazes, quanto a mim, são os mais breves. A brevidade torna-os mais incisivos, ao passo que nos poemas mais longos perdem-se corrosibilidade e energia. É como se no alongamento das estrofes e dos versos o ímpeto, conceito não necessariamente romântico, se perdesse em favor do jogo linguístico e de uma vertente lúdica menos espontânea e, por isso, mais desinteressante. Resta dizer que estes excrementos de A. Dasilva O. foram sendo largados, ao longo dos anos, pelas páginas de várias revistas (Bíblia, Canal, Vértice, aguasfurtadas, etc.). Reuniram-se neste livro, para gáudio dos leitores de poesia mais corajosos e menos preconceituosos.
domingo, 26 de fevereiro de 2006
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006
QUE COMBOIO É ESTE
sábado, 18 de fevereiro de 2006
MUNICH
Já anteriormente me confessei «fã absoluto de Steven Spielberg». Talvez eu seja um sentimental, talvez aprecie filmes populares (não necessariamente populistas), talvez vá ao cinema mais para sentir do que para pensar. Talvez, talvez, talvez. Porém, o que me levou a apreciar (bastante) o seu mais recente Munich (2005) não tem nada que ver com isso. Abstraiamo-nos das razões políticas, sempre más conselheiras em matérias de arte. Munich aparece depois de um Guerra dos Mundos sobre ameaças obscuras e formas de lidar com o medo. Apesar de o motivo ser factual, o sequestro e a chacina de 11 atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de 1972, a intriga assume contornos tendencialmente ficcionais que apenas convencerão quem se quiser deixar convencer. Temos pois um filme que é mais sobre as consequências trágicas do acto do que sobre a tragédia do acto em si. Mais uma vez, no centro do turbilhão dramático: a família. Tal como outros realizadores de monta, que não são para aqui chamados, Spielberg vive obcecado pelo conceito subjacente à ideia de família. Desta feita, a família aparece enquadrada em planos metafóricos (a família política) e planos realistas (a família biológica), ainda que esses planos muitas vezes se entrecruzem, de forma bastante evidente, na ideia de pátria, na noção de territorialidade que subjaz aos conflitos. De um lado (judaico) e do outro (árabe), o que parece estar em evidência é a noção de territorialidade enquanto família social/cultural/civilizacional. Daí que ambos façam tudo pela sua pátria como se o estivessem a fazer pela sua família. Spielberg opta por filmar os acontecimentos privilegiando os actos em detrimento da eloquência narrativa, o que, por si só, faz deste um dos melhores filmes do autor de Schindler’s List. A depuração dos efeitos, num tom mais realista do que fantasioso, coloca-nos, através do confronto com o personagem central, na situação de alguém que, a pouco e pouco, vai descobrindo não dominar o que julgava ser do seu domínio. Esta perspectiva torna-se, quanto a mim, das mais interessantes do filme, pois a sensação que me provocou foi a de no decorrer da narrativa sentir-me mais dominado por ela do que dominador da mesma. Como aquele grupo de homens, encarregados, sem saberem claramente por quem, de assassinar os supostos autores morais do acto terrorista de Munique, nós vamos a pouco e pouco ficando com a sensação que, no cruzamento obscuro de informações, não sabemos nada do que se passa, somos meros espectadores manipulados pelas tais forças obscuras, as que ficam sempre por explicar, que o filme anterior de Spielberg já esmiuçava. A mim pareceu-me, sobretudo, uma perspectiva sentida e desencantada do mundo da política, onde acima dos valores morais que deveriam mediar os confrontos estão os interesses de “submundos” cujos negócios ficarão sempre por esclarecer aos olhos do espectador comum. Como se a política tivesse deixado de se fazer em nome dos cidadãos, para se fazer antes em nome dos interesses, por vezes tão subjectivos, daqueles que lideram os cidadãos. A História não se repete, ela é o que é. O que muda são os agentes. Onde dantes tínhamos a intriga e a conspiração entre os homens do senado romano, agora temos a intriga e a conspiração entre os homens do senado universal. A globalização tem destas coisas.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006
AGORA
Na sala dos trabalhos, com os computadores voltados para as paredes, elas ficam de costas voltadas para mim. Observo-lhes os ombros dependurados nas alças, tão frágeis e lisos. Desejo-lhes os braços finos, à medida de uma fome insaciável. Depois deslizo os sonhos sobre o tronco e paro nas ancas, cinturas descaídas, fio dental à espreita. Quero-lhes as nádegas, as coxas, as pernas escondidas por trás dos trapos, escarpas abissais. Sei que esta vontade tão concreta e física é a metáfora possível de uma outra coisa: uma coisa que só sei quando a campainha nos chama para o intervalo. Metáfora de um intervalo de mim, o desejo acorda. E eu saio.
UM BEIJO QUE TIVESSE UM BLUE
domingo, 12 de fevereiro de 2006
OS DIAS NÃO ESTÃO PARA CORAÇÕES PARTIDOS
Os dois livros de poesia que inauguram a editora Livramento, Os dias Não Estão Para Isso e Heartbreak Hotel, respectivamente de Nuno Costa Santos (n. 1974) e Alexandre Borges (n. 1980), manifestam relações entre si que não ficam somente pelo aspecto gráfico. A distingui-los, está, à partida, a extensão dos poemas. Mais longos, no caso de Alexandre Borges, mais breves, no caso de Nuno Costa Santos. Aparte esse pormenor, os defeitos e as virtudes dos dois livros podem ser interpretados de modo similar. Ainda que nada nos informe acerca disso,
Os Dias Não Estão Para Isso colige poemas anteriormente publicados no weblog melancómico, na sua grande maioria entre os meses de Junho e Julho de 2005. A divisão do livro em quatro partes temáticas (Para os queixumes; Para os outros; Para os afectos, memórias; Para os conselhos), permite perceber algum esforço na organização. Esforço esse, quanto a mim, perfeitamente conseguido. Há poemas, porém, que não fazem muito sentido aqui. São poemas de tipo aforístico, onde o verso se transforma em prosa e a acção os faz resvalar na micronarrativa. Exemplos disso podem ser Um homem parado na pista, Andar às codornizes, Duas notícias sem relação, entre outros. Bem sei que as epígrafes de Fernando Assis Pacheco, Alexandre O’Neill, Raymond Carver, não deixam espaço para grandes dúvidas. O que se trabalha nestes poemas é a "ninharia", a economia discursiva, o prosaico, um certo absurdo tão ao gosto do humor mais melancólico. Mas a questão que coloco é de outra ordem: a fazer sentido a inclusão desses poemas, dezenas de outros aforismos do mesmo autor poderiam também constar no mesmo livro. Daí que me pareçam excessivos ao lado de textos poéticos mais ou menos conseguidos, onde a quebra de verso imprime a cadência poética (sem desprimor do prosaico). Naturalmente, é nos poemas que não podem ser outra coisa senão isso mesmo que a poesia de Nuno Costa Santos melhor se revela. Por exemplo, no poema que dá título ao livro: «Cansado do ranço dos meses horizontais / sinto falta disso / a que se convencionou / chamar a transcendência // não / não é vontade / de visitar os templos // continuo a preferir uma relação sem interposto / à maneira de Kierkegaard (e dos indolentes) // quinze minutos de leitura / um passeio / a história de alguém / podiam ajudar // os dias não estão para isso // então / chegada a noite / rezo com demasiada pressa / a oração que minha mãe / me ensinou em segredo / à beira da cama / e então posso voltar / plano como o tempo / à intermitência do sono» (p. 18).
Também Heartbreak Hotel enferma de alguns excessos similares, conquanto as tonalidades poéticas sejam, pelo menos em aparência, distintas. Neste caso, o que há em excesso são algumas imagens vulgares - «gotejar da chuva dos beirais» (p. 12) e «ténues gotículas já secas» (p. 19) -, certos efeitos discursivos demasiado previsíveis - «(Não me trates assim, não notes em mim, / não toques, não notes, não noites, não deites / promessas de hoje aos erros de agora)» (p. 12) ou «as derrotas que tive / nas guerras a que não fui» (p. 26) -, comparações redundantes, como, a título de exemplo, esta: «no mar mora a chuva que não chegou a chover / como na terra o fogo que não ardeu» (p. 36). No entanto, há qualquer coisa que encanta em Heartbreak Hotel. Os poemas, cujos títulos equivalem a números de quartos de hotel (à excepção de dois, intitulados Recepção e Elevador), sucedem-se à maneira de sequências cinematográficas. É este, definitivamente, um filme de amor. Mas é um filme de amor trágico, desses filmes onde o amor se mistura com a dor dos dias comuns, com uma recusa (in)voluntária do mundo, com a solidão, com uma espécie de sentimento de deslocação permanente, com: «A cegueira dos vizinhos, os gritos na cozinha, todas / as pequenas luzes que se acendem perto / onde dois homens se reúnem em seu nome; / os placards, os outdoors, os néons, / todas as palavras que não souberam inventar; / a ponte, a estrada, o bilhete que diz / que ninguém dormirá hoje em casa / e o pedido de desculpas do farmacêutico à mulher / pelo fármaco para as dores / de ter de ser» (p. 43). Mais do que a música de Elvis Presley, vem-nos à memória o cinema de Wong Kar-Wai, talvez induzidos que somos pela presença constante da chuva num hotel «donde se avista o mundo possível» (p. 45).
terça-feira, 7 de fevereiro de 2006
RESTOS DE QUASE NADA
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
POEMAS
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