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quinta-feira, 23 de abril de 2026

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS # 40

 


Temos tempo, o futuro há-de chegar, está sempre a chegar, pelo que não valerá a pena acelerar no relógio as horas que do outro lado do horizonte aguardam por nós. Todavia, aconteceu ler há dias no livro de um autor português que em 2060 teremos de ir ao dicionário procurar o significado da palavra “escritor”. Será? O mundo está a mudar rapidamente. Por mundo entendemos a vida dos homens na Terra. Os homens, capturados pela tecnologia, têm vindo a transformar-se por dentro e por fora, nas relações que estabelecem uns com outros e de si para si. Vocês sabem como é, saberão melhor do que eu como é, nasceram já com monitores no lugar de janelas. O esforço foi, desde cedo, fazer com que percebessem mais do que os olhos captam, indo ao encontro daquilo que vemos, tocando nas coisas, cheirando-as, mergulhando nelas se for o caso, para não ficarmos erradamente convencidos de que a realidade não tem textura e que os textos, por não terem textura, não têm realidade. Estes livros que vos deixo de herança são feitos de muitas realidades num tempo em que ainda não é preciso buscar o sentido da palavra escritor, embora já sintamos não faltar muito para que tal se verifique. Em 1953, terminada a Segunda Grande Guerra, a ameaça nuclear levava os homens à rua, obrigava-os a pensar no que seria se viesse a ser essa amostra de apocalipse experimentada no Japão. A imaginação, fértil como nada mais, produziu imensos futuros, uns plausíveis, outros menos, mas muitas vezes certeiros enquanto alegorias ou metáforas de um tempo que agora se encarrega de confirmar o que só a imaginação alvitrava. Em “Fahrenheit 451”, temperatura a que um livro se inflama e consome, Ray Bradbury imaginou um futuro sem livros, com bombeiros que em vez de apagarem fogos se encarregavam de ateá-los, fazendo como Savonarola fez no século XV com as suas fogueiras de vaidades. Nesse futuro imaginado pelo escritor norte-americano a alegria era obrigatória e os livros proibidos, pois os livros inspiram tristeza, melancolia, nostalgia, sentimentos e sensações prejudiciais ao comprazimento com a realidade. «O homem via, mas sem ver o que via o Olho.» Intoxicados com pílulas, comprimidos, sedativos, os homens eram protegidos por cães-robot, animais mecânicos que atacavam quando era necessário atacar, entretidos por clowns, preenchiam papéis vagos em peças de um parágrafo, ligavam-se aos monitores e tinham joke-boxes com que se divertir para que não doesse respirar. O entretenimento, como sabeis, distrai-nos e, por nos distrair, é tão querido de quem não nos quer atentos e vigilantes. Um homem, de seu nome Montag, terá percebido isso ao começar a recolher, pela calada, alguns livros destinados à fogueira, obras que o inquietavam e desassossegavam enquanto à sua volta discutir política resumia-se a considerações sobre o aspecto físico dos candidatos a um qualquer cargo. «Não temos necessidade de que nos deixem sossegados. Temos necessidade de sermos seriamente incomodados de vez em quando», dizia Montag à sua mulher. Mas ela não compreendia, era apenas mais uma individualidade subsumida nas massas que se encarregam de usurpar identidades modelando, uniformizando, regulando, em nome da «paz de espírito.» Montag descobriu por si a importância da desobediência, foi ela que o levou a encontrar outros homens, exilados dessa sociedade padronizada, que transportavam dentro de si livros inteiros, eram cada um deles um clássico completo, garantiam através da memória que as chamas não reduziriam o passado a cinzas. Talvez vos questioneis sobre as vantagens da memória neste tempo desmemoriado, tão negligente da história que abdica do exemplo passado na interpretação do facto presente. É que se o erro se nos apresenta vantajoso, já Descartes o dizia e Beckett corroborou, não menos vantajosa será a consciência do erro, a capacidade de aceitar a falha pelo entendimento que dela fazemos. Só os estúpidos não reconhecem que são estúpidos, certos que estão de tudo. É neste campo que a memória vinga: dando-nos a ver como foi para que compreendamos como é, de modo a que no futuro possa ser melhor. Temos tempo, o futuro há-de chegar.

domingo, 17 de setembro de 2023

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #39

 


Começamos a morrer no momento em que somos concebidos, não sendo desdenhável que só comecemos verdadeiramente a pensar quando damos por isso. Até lá, aprendemos a ler e a escrever, tacteamos o mundo, fazemos contas, imaginamos amigos e ficcionamos a realidade. A descoberta da morte talvez corresponda à descoberta do pensamento. É nesse momento, nesse preciso instante, que nos questionamos sobre o sentido: o que fazemos aqui, neste mundo? Porque e para quê nascemos? Haverá resposta? Que sentido faz nascer para morrer? Qual o valor de uma vida humana? Porque perdemos tempo a fazer coisas se, dentro em breve, deixaremos de desfrutar daquilo que fazemos? Que proveito retira alguém de uma descoberta como esta? Vem a seca, uma trovoada, o relâmpago, vem um incêndio, um tremor de terra, vem o acaso, e já éramos. Eis o absurdo, eis-nos enredados na teia da dúvida, o sem sentido por horizonte. É para lá que olhamos, sentados à beira do abismo que impele o ser para a morte.

Albert Camus (1913 – 1960) diz que «Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio.» Aceitar o suicídio enquanto problema filosófico recentra o pensamento na sua matriz fundadora, não sendo tão relevante determinar porque se mata uma pessoa como parece ser a hipótese dela não se matar. De facto, se vamos morrer, se damos por adquirido esse fim, porque nos mantemos vivos? Porque não nos matamos, antecipando o inevitável? Porque insistimos na vida? Há pessoas que abdicam de viver pelas mais diversas razões, umas cortando radicalmente com a vida, outras apartando-se lentamente, recolhendo-se num isolamento que equivale a morrer. São pessoas que se apagam. Outras há que a tudo se sujeitam para se manterem vivas, suportando dores, sacrificando-se, tudo fazendo para evitar a morte. Gostarão assim tanto de viver? Será por amor à vida que se sacrificam, sabendo, lá está, quão parcos serão os louros do seu esforço? Mesmo sabendo que a vida é efémera e a morte certa, há pessoas que tudo fazem para se conservarem vivas. Até morrerem. «Ganhamos o hábito de viver, antes de adquirirmos o de pensar», afirma Camus. É verdade. Mas será o hábito assim tão forte, tão mais determinante do que a lógica do pensamento?

Talvez a esperança, essa fantasia cómica, sirva de resposta. É por ela que chegamos aos deuses, fintando o destino. A esperança é cartão-de-visita para o Carnaval da vida eterna, a vida num além incognoscível, apreensível apenas através da fé, algo que está para os adultos como a imaginação para as crianças. A fé, o estado mais avançado da fantasia cómica a que chamamos esperança, é muito útil a quem se dispõe a existir sem viver. Para quê desesperar diante da finitude? Porquê tanto incómodo com a efemeridade? Camus fala de um desejo de unidade, isto é, da necessidade sentida por qualquer homem de oferecer ordem ao caos em que se apanha imerso. Existir, a consciência de que estar vivo é estar à morte, é, sem dúvida, o equivalente a mergulhar no caos, como o corpo enrolado nas ondas que procura a sua natural verticalidade. O desejo de unidade, a nostalgia da unidade, não é senão o pensamento que aspira à sua negação, um pensamento anterior ao pensamento, como se ainda fosse possível organizar a confusão do mundo de que somos parte integrante.

“O Mito de Sísifo” não nos ensina a aceitar pacificamente a nossa condenação, nenhum interesse há em dizer a um homem: conforma-te. «É preciso imaginar Sísifo feliz», conclui Camus. Este Sísifo feliz corresponde já ao homem revoltado«todas as revoluções são metafísicas» —, cuja lógica de pensamento e, por consequência, de acção, já não é a do ser que se amedronta com o fim a que está destinado, antes aceitando-o com a mesma alegria com que se aceita o nascimento e se parte para a criação. «Viver é fazer viver o absurdo», acrescenta, viver fazendo viver, multiplicando a vida. Proponho, portanto, minhas filhas, que considereis o «aventureiro do quotidiano» como aquele que forma a sua própria moral na multiplicidade de experiências que vai tendo, tantas e tão diversas a ponto de tornar absurda a própria consciência da morte. A pergunta deixará de ser “porque não nos matamos”, para passar a ser “porque não vivemos o máximo possível de experiências”. Isto: porque evitamos os riscos que o caos oferece e a vida propõe? Porquê deixar de viver o possível com o pensamento no impossível? A alegria da finitude está na poesia que oferecemos ao quotidiano, poesia no seu sentido originário que é o de fazer e criar. «Havia em Atenas um templo consagrado à velhice. Levavam-se lá as crianças.» Não era má ideia.

domingo, 19 de junho de 2022

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #38

 


   Poderá parecer-vos inadequado legar-vos um livro de contos do mais relevante poeta português do século XX, havendo tantos e tão diferentes de poesia que poderiam ser proveitosos na descoberta desse que um dia cortou relações com o sol e as estrelas. Dá-se que estes Contos Completos (Antígona, Maio de 2012), organizados por Zetho Cunha Gonçalves, que na edição da Bonecos Rebeldes (2008) eram Contos, Fábulas & Outras Ficções, poderão ser-vos mais úteis enquanto preâmbulo a um poeta cheio de armadilhas do que os seus próprios versos. Desde logo, por deverdes ter cautela sempre que a Pessoa alguém associar o adjectivo completo, já que, se há ensinamento legado pelo tempo nesta matéria, esse ensinamento é estar sempre incompleta a completude num universo que se caracteriza, antes de mais, por ser fragmentário e, sendo fragmentário, manter eternamente aberta as múltiplas possibilidades de organização dos fragmentos originalmente guardados numa arca, posteriormente depositados em arquivos e finalmente disseminados em livros sem fim. Não está sequer em causa o problema de ser múltiplo ou uno esse que nasceu já mascarado no apelido, questão de heteronímia e pseudonímia e alter-egos e semi-personalidades e quejandos, mas tão-somente o de incompleta ser sempre a matéria que se diz de Pessoa por não ser da sua natureza completar-se.

   Indisciplinador da banalidade quotidiana, chama-lhe Zetho, sublinhando-lhe a ironia cáustica, o humor despudorado e inaudito, o sarcasmo e o absurdo, o tom perversamente lúdico, qualidades contrárias a quem sempre o quis sorumbático e obscuro, místico e esotérico, hermético ou simplesmente louco, sério, demasiado sério, tão sério que seria crime de lesa pátria imaginá-lo alcoólatra e fazedor de quadras populares, inventor de jogos de tabuleiro e criador de textos publicitários cómicos como esse O Automóvel Ia Desaparecendo neste volume recuperado à laia de conto. Poupai-vos, pois, a tristezas, minhas filhas, sempre que vos instigar o discurso contraditório, metafísico sem metafísica nenhuma, reflexivo e tantas vezes dolorosamente revelador, revelador como um parto de verdade no mais fundo do pensamento, desse que cantou a melancolia e a solidão e o vazio e o desassossego e o desespero e a angústia como mais ninguém entre nós. Se há angústia na angústia é senti-la percebendo quão inútil ela nos é.

   Atentai-vos a estas Fábulas para as  Nações Jovens, à Rosa de Seda e a esse A Varina e a Lógica, a O Segredo de Roma, Eu, o Doutor ou O Burro e as Duas Margens, peças curtas que permitem entender quanto de comédia há no trágico da vida passageira e quanto de tragédia há no cómico dos absolutos com que procuramos disfarçar a nossa efemeridade. Este é o Fernando Pessoa que pretendo deixar-vos, para que com ele possais fazer o que mais vos aprouver, o Pessoa que resolveu a efemeridade não com verdades absolutas, não com Deus nem com a Eternidade nem com o Infinito, mas com aporias de Zenão e paradoxos que, implodindo o infinito, o transformam em fragmentos, como quem destrói à martelada a estátua de uma verdade absoluta para se entreter a contemplar-lhe os cacos.

   Bastaria O Banqueiro Anarquista para que se justificasse esta passagem e testemunho. Ah, e como vem tão a propósito esse inimigo da burguesia nela instalado para dela colher o suco, esse inimigo das ficções sociais que se empenha em resolvê-las, não destruindo-as, mas delas tirando proveito na medida em que as supera dominando-as: «O que saiu das agitações políticas em Roma? O império romano e o seu despotismo militar. O que saiu da Revolução Francesa? Napoleão e o seu despotismo militar. E você verá o que sai da Revolução Russa… Qualquer coisa que vai atrasar dezenas de anos a realização da sociedade livre… Também, o que era de esperar de um povo de analfabetos e de místicos?...» Se a espaços vos parecer cínico o discurso, então é porque o é de verdade. E é bom. Porque é sobre a liberdade num tempo em que a não havia, porque é, à maneira de Maquiavel (lá iremos), sobre o que é, desmascarando-o para superá-lo, “despessoando-o” para expurgá-lo de toda e qualquer espécie de hipocrisia.

   Pode o desejo de liberdade compadecer-se com opressões e humilhações? Será a liberdade compatível com as mais corriqueiras formas de tirania instaladas entre os homens, sejam elas a imposição de uma ideia ou a incapacidade de a discutir? Não. Por isso são tão pertinentes as asserções deste banqueiro anarquista que, propondo aos seus camaradas o fruto das suas conjecturas, em resposta aos seus argumentos não recebeu senão «lixo, coisas como essas que os ministros respondem nas câmaras quando não têm resposta nenhuma… Então é que eu vi com que bestas e com que cobardões estava metido! Desmascararam-se. Aquela corja tinha nascido para escravos. Queriam ser anarquistas à custa alheia.» Chegará o dia, minhas filhas, se não chegou já, em que neste verbo desmascarar ireis encontrar o poder de um programa estético que não seria possível concretizar senão recorrendo a uma imensidão de máscaras. Isso devemos a Fernando Pessoa, por isso lhe devemos estar gratos.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #37

 


Alguém que desconheço escreve no Twitter algo como isto: «Engraçado ver as pessoas entrarem na Padaria Portuguesa para beberem um copo antes de descerem a Avenida. Revolucionários ma non troppo.» É o tipo de sentença que deve inspirar arrependimentos… ma non troppo. Como fomos dos que passaram pela Padaria para beber uma mini e comer uma empada, talvez devêssemos autoflagelar-nos e pedir perdão pelo revolucionarismo aburguesado. Não somos puros, queridas filhas. Sucede que a sentença foi proferida no Twitter, essa ferramenta revolucionária criada pelos americanos a favor da união do proletariado. Quem decretou o veredicto não o fez, por certo, dando uso a um gadget qualquer. Só pode tê-lo feito num smartphone ecológico, com ecrã táctil em vidro da Marinha Grande e bateria de pilhas recarregáveis. No corpo, nem uma peça de roupa proveniente do Bangladesh, garantia absoluta de que nenhum trabalho infantil foi explorado na confecção das cuecas ou das meias ou do sutiã ou de outra treta qualquer. Ao contrário, como sabeis, das tretas que vimos expostas em montras luxuosas ao longo da Avenida.
 
Estamos em Abril de 2022, é difícil ser revolucionário sem o ser ma non troppo. De repente damos connosco a lutar contra o imperialismo usando ferramentas imperialistas ou a criticar as fábricas de cretinos digitais colados ao smartphone durante uma mesa redonda onde se abordam essas e outras matérias como essas. Estamos sempre a cair em contradição, sobretudo quando dizemos: olhem para nós, que bem estamos em comparação com os outros. É uma tentação adorarmo-nos. Eu há muito meti na cabeça que a revolução começa na autocrítica, nessa capacidade de desconfiar das nossas próprias certezas. Não se trata de vacilar nas convicções. Trata-se, antes pelo contrário, de não as trair prescindindo de fundamentá-las no confronto com o tempo e com o outro. Trata-se de uma convicção inabalável: é na dúvida e no contraditório que aprendemos e, aprendendo, nos fazemos humanos. Um homem que seja sempre a mesma coisa é uma pedra. Nem uma pedra é, que também essa está sujeita à erosão. É um fóssil.
 
Nada que nos abrevie a alegria de havermos visto um mar de gente gritando loas à liberdade em allegro vivace. Antes de descermos, uma delegação da Techari – Associação Nacional e Internacional Cigana encheu-nos de contentamento revolucionário. Serão eles, esses, aqueles, os outros, suficientemente revolucionários para descer a Avenida reivindicando justiça para todos independentemente da etnia, fim ao racismo e à xenofobia, mais oportunidades e menos precariedade? Quem é mais revolucionário, o deputado obediente às regras do parlamentarismo ou o precário que desobedece ao patrão? Não sei, minhas filhas, sei que sobre os ombros aqueles carregam uma história mais onerosa do que qualquer um de nós poderá sequer imaginar. É por isso que vos lego este livro, “Homo Sacer e os Ciganos” (Antígona, Abril de 2014), um conjunto de considerações sobre anticiganismo organizadas em volume pela alemã Roswitha Scholz.
 
Que nos diz ela que valha a pena sublinhar? Que há muito, no fundo desde que nos sedentarizámos e organizámos as nossas sociedades em torno do trabalho e da produção e do consumo, pelo menos desde esses tempos que o estigma sobre o povo cigano foi marcado a ferros. Incivilizados, preguiçosos, marginais, selvagens, fora-da-lei, bandidos, primitivos, bruxos e ladrões, parasitas, batoteiros, cidadãos de segunda e de terceira, párias, porque, na raiz, ameaçavam com o nomadismo os pilares de uma civilização assente na fixação dos povos, na exploração do trabalho, no pagamento de impostos, na submissão e na subserviência e na servidão. Foram objecto tanto de um ódio abjecto e discriminatório, que os arrumou em guetos e exterminou em fornos, como de uma romantização que neles celebra o resquício do selvagem resistente às mordaças do capitalismo. Para alguns, representam tudo quanto adoraríamos ser não fôssemos revolucionários ma non troppo.
 
Começaram a ser perseguidos na transição para a Modernidade, informa Roswitha Scholz, ou seja, quando o trabalho se tornou o símbolo da máxima virtude no mundo civilizado e a preguiça, que já era um pecado capital, se transformou num vício execrável à luz dos civilizados padrões ocidentais. «A partir desse momento opera-se uma etnicização do estereótipo: de ora em diante, os ciganos são vistos como uma raça primitiva.» Associais, «lumpemproletariado avesso ao trabalho», foram perseguidos por leis racistas ainda antes dos judeus na Alemanha nazi. Porajmos é o nome que se dá ao holocausto cigano, ainda hoje menos falado do que a Shoa. Porquê? Talvez por razões de empatia. Talvez por serem humanos como nós, ma non troppo. Será? Serão os índios de cá, talvez. E no entanto foram submetidos a esterilização forçada, classificados como imbecis e incapazes, foram proibidos de casar com pessoas de sangue puro, internados em campos de concentração, deportados, também para eles inventaram reservas especiais: «Até as pessoas com um bisavô considerado cigano eram classificadas mestiças de ciganos.» Logo, eram ciganas. Logo, segregadas, exterminadas.
 
Cito: «Desde 1989, a situação dos roma piorou de forma dramática, nomeadamente nos antigos Estados do bloco de Leste. As expulsões e os progroms estão na ordem do dia, o que provoca movimentos migratórios. No entanto, estas realidades são menos noticiadas na Alemanha do que os pedidos de asilo, alegadamente injustificados, furtos em lojas e crianças a mendigar. De um modo geral é possível detectar desde 1989 um recrudescimento dos estereótipos anticiganistas junto das instituições estatais, dos média, etc.: chamam-lhes criminosos, dizem que mendigam e procriam «que nem coelhos», que são sujos, supersticiosos, primitivos e por aí adiante.» Tantos são os defeitos, que fica difícil perceber as virtudes. Podemos começar, quem sabe, pelos males que não lhes devemos, nem progroms, nem porajmos, nem shoas, nem atómicas, nem mães de todas as bombas, nem aculturações de crucifixo em riste. Já é qualquer coisa, esta mania de não pretender governar para fora mais do que interessa governar para dentro. Talvez pudéssemos começar a revolução por aí, quero dizer: por de uma vez por todas metermos na cabeça e no coração e no estômago e onde mais caiba essa resistência à tentação de pretender impor ao outro o que nós somos e pensamos, permitindo que cada ser se faça e construa na descoberta e no intercâmbio de, mais do que opiniões, exemplos fortalecidos por acções concretas. Sem fascínio nem desprezo, saber dizer liberdade sem esperar que rime mais com igualdade do que rima com fraternidade.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #36

 


   A guerra. A guerra é um charco sem fundo, imundície à tona para que não nos esqueçamos de que essência é feita a substância humana. Terá sido por acaso que a história da literatura começou pela guerra? Gilgameš a recrutar jovens para o exército, Vale de Sidim, gregos contra troianos, a guerra santa no Bhagavad-Guitá… Que santidade poderá haver numa guerra? Os homens matam-se uns aos outros pelos mais fúteis motivos, dentro de cada um de nós há uma besta adormecida pelo antibiótico amestrador. Ambição de poder, ganância, cobiça e inveja ou simplesmente o prazer de matar como quem joga um jogo de tabuleiro são razões, minhas filhas, que não deveis descurar neste mundo que é o nosso. Que posso eu dizer-vos deste tempo que não tenha já sido dito em tempos remotos?
   A história dos homens confunde-se com a história das guerras, de tal modo que somos levados a crer não haver sobre a Terra nenhuma conquista sem rastros de sangue. Se vos soarem onerosas tais considerações, não ajuizeis precipitadamente o estado de alma por detrás delas. Muitas foram as guerras que vi acontecer e nenhuma delas me dissuadiu desta convicção inabalável de que a par da maldade o bem é possível. Cultivemo-lo, com arte e sabedoria. Jamais com esse elenco miserável dos reality shows, mães de todas as bombas e ladys morte, fantasmas de Kiev e lobos cinzentos, heróis de uma banda desenhada com ossos, agora softwarizada em tempo real para entretenimento de multidões que são, já dizia o bom Alfred Jarry (1873-1907), «uma massa inerte e incompreensiva e passiva que de vez em quando é preciso agredi-la para detectar pelos seus grunhidos de urso onde está — e em que ponto está».
   Falemos, pois, de bonecos de madeira articulados, marionetas de varão, fantoches de luva, pantins. Acerca de Ubu, disse o seu maior cultor: «O senhor Ubu é um ser desprezível, razão pela qual se assemelha (por baixo) a todos nós». Obeso como o Pantagruel de François Rabelais, tem «merdra» ou «mérdia», conforme as traduções, como palavra de ordem, um piaçaba como ceptro, tudo nele aponta para um poder fecálico que é o poder em si mesmo nesse charco de que vos falava. Rei Ubu data de 1888, o cenário já era o mesmo: Polónia, Ucrânia, Lituânia, Rússia. Há coisas que nunca mudam, por diferentes que sejam os cus. 
   Dom Ubu, capitão de dragões, mata o rei da Polónia depois deste o recompensar, pelos muitos serviços, tornando-o conde de Sandomir. O apetite, porém, nunca se dá por satisfeito em corpulências insaciáveis, pelo que Dom Ubu congemina uma conspiração contra o rei e mata-o. Da família, escapam a rainha, que pouco durará, e o filho Parvolau, que acorrerá ao czar da Rússia para conseguir retomar as suas terras. Chegado a rei, Ubu fará o que por regra fazem quase todos os reis: apanha uma indigestão, apoderando-se das riquezas dos nobres, dando-lhes cabo do canastro, reformando a justiça, atirando os magistrados para um alçapão, tomando conta das finanças. Onde é que já teremos visto tal coisa?
   «Viva a guerra!», dizem todos quantos se acercam do tirânico Ubu. Por gostarem dela? Por serem fiéis ao rei que os explora? Vá lá a gente entender esses oficiais que em movimentos na Ucrânia obedeceram a Ubu, rei dos empaladores. A única coisa que daremos por certa nesta história é que «Se não houvesse Polónia, não haveria polacos!» A tal lógica deverá ser reduzida a filosofia — ou a patafísica, que é a ciência do que se acrescenta à metafísica —, de Dom Ubu. 
   Neste Ubu (Campo das Letras, 2005) que ora vos ofereço ides encontrar outros Ubus noutras condições que não apenas a de rei, como esse hilariante Ubu Agrilhoado que tudo fez para ser escravo mas nem para escravo serviu. Era demasiado gordo. «Vejo que perdes qualidades, estás feito homem honesto», diz-lhe a Dona Ubu. «Viva a escravatura!», exclamará o antigo rei que nem promovido a escravo perderá manias antigas: «Estou farto daquelas marchas atrás dos meus exércitos, pela Ucrânia fora. Não me mexo mais, pancichouriça! Agora recebo em casa e as bestas têm autorização de nos vir visitar nos dias marcados.» 
   Ficai pois sabendo, queridas filhas, que há escravos do poder que podem chegar a reis. Desses, nada esperamos porque nada têm para oferecer que mereça confiança ou finança. Estamos como Guinhol nesta história: «Bebo pois, para ter cada vez mais cara de pau e assim chegar à ciência infusa.» Outra ciência não nos convém. Vai uma taça de Beaujolais?

terça-feira, 29 de março de 2022

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #35

 


   Cá estamos mais uma vez, minhas filhas, enredados nos limites de humor. Não há nada como uma chapada num humorista para nos desviar as atenções da guerra na Ucrânia, da fome no Iémen e de outros assuntos menores. Estando vós familiarizadas com o tema, ou não tivesse sido a “Antologia do Humor Negro” o primeiro destes 100 livros que vos deixo, permiti-me que vos justifique esta retoma de problemática tão batida e debatida. No decorrer da cerimónia dos Óscares de 2022, como sabeis de interesse nulo para quem vos escreve, um conhecido humorista foi esbofeteado por um conhecido actor na sequência de uma piada. Há quem diga que a piada era sobre a alopecia da mulher do ofendido, embora a vítima de agressão tenha esclarecido de que a piada era sobre “G. I. Jane” (uma xaropada de 1997 deveras desaconselhável). Vá lá alguém saber. Certo é que, entretanto, já se recuperou o próprio ofendido a fazer piadas, no passado, sobre a mesma doença, sendo igualmente curioso que haja rido da piada que o ofendeu.
   Algumas ofensas só são perceptíveis a posteriori. Conheci um badocha que passava o tempo a chamar badocha aos outros e ficava muito ofendido quando lhe chamavam badocha a ele. Acontece muito, até com os mais magros. Mas não é do badocha que vos quero falar, é de um outro indivíduo que também conheci, um indivíduo cujo caso particular me remeteu para o livro que hoje vos ofereço. Não direi o seu nome por ser escusado dizê-lo, resumirei antes a sua história respeitando os princípios básicos de uma narrativa:
 
1) empatia: determinado sujeito amava muito a mulher com quem casou, gabando-lhe os vícios como se fossem virtudes a ponto de parecer que nela não havia defeitos;
2) conflito: um dia esse sujeito descobriu que a mulher o traía;
3) acção: o sujeito separou-se da mulher;
4) transformação: depois de se separar da mulher, o sujeito só via defeitos e vícios na ex-mulher, ela passara de santa a energúmena;
5) conclusão: o sujeito passou a desconfiar de todas as mulheres.
 
   Acontece aos melhores serem traídos, mas só os piores generalizam a todos os membros de um conjunto as características particulares de um dos seus elementos. Podia ser esta a moral da história, houvesse moral nestas histórias. A vida, como sabeis, é uma paleta infindável de cores, ainda que muita gente opte por viver só uma delas. Muitas pessoas nem sequer se apercebem que entre duas cores tão distintas como o preto e o branco se intrometem imensos cinzentos, tornando quase inevitável que a existência não passe de um crepúsculo, um limbo, onde somos impelidos a tomar opções e a escolher caminhos delimitados ora pela vontade, ora pelas circunstâncias.
   Charles Fourier (1772-1837), de quem pretendo falar-vos, foi um notável utopista com uma percepção arguta da espécie humana. Isso mesmo tê-lo-á levado a dizer, a propósito do seu humorístico “Quadro Analítico da Corneação”, que «O que acima de tudo os Civilizados temem é a verdade, e a minha escala dos adultérios tem contra si o defeito de ser verídica.» O adultério, eis o assunto deste pequeno livro já merecedor de, pelo menos, duas traduções distintas para língua portuguesa (uma de Aníbal Fernandes, para a &etc, outra de Helder Guégués, para a Cavalo de Ferro). Porque vos trago eu semelhante livro nas actuais circunstâncias? Ora, haverá tema mais difícil de encarar em termos humorísticos do que a traição?
   Colocai-vos no lugar do traído, que em Fourier, infelizmente, é quase invariavelmente do género masculino. Limitações que o tempo se encarregou de corrigir. Traído no contexto doméstico ou político, traído no trabalho ou na amizade, é sentimento, o da traição, acerca do qual difícil se torna o riso. E no entanto Luigi Pirandello (1867-1936) desmentir-nos-á. Lá iremos. Por ora pergunto-me em que tipo de cornudo encaixa o perfil do indivíduo acima descrito? Nos mais de 70 sugeridos por Fourier não aparece nenhum que se lhe aproxime, nem o humilhado ou perplexo ou ensimesmado, nem o misantropo, sendo talvez plausível que a determinado momento se aproxime do cornudo corneta:
 
Cornudo corneta é o que espalha ao público as suas lacrimosas confidências, precisando: «Apanhei-os com a boca na botija, meus senhores!» A tais palavras é costume responderem-lhe que talvez não passe tudo de um gracejo e não devemos acreditar tão facilmente no mal, o que não basta para evitar os prejuízos pessoais de uma divulgação tão farta e feita a quem quis ouvi-la. De boa vontade este cornudo usaria corneta para reunir mais auditores e mobilizá-los contra a injustiça da sua mulher.
 
   Que posso eu dizer-vos senão que melhor teria sido adoptar o cornudo os conselhos do auditório, isto é, ver tudo como um gracejo sem acreditar tão facilmente no mal? Se algum dia vos sentirdes traídas, fazei com a dor o que dos ofendidos se espera ser feito com piadas de mau gosto: virai-lhe as costas, continuai em frente. O tempo que nos resta não merece ser desperdiçado com o mal que nos fazem. Muito menos fazendo nós próprios o mal.

domingo, 24 de outubro de 2021

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #34

 

   Falemos de livros. Quando era criança, acontecia-me amiúde, como por certo já vos terá acontecido, adormecer a imaginar que os brinquedos espalhados pelo quarto adquiririam vida quando eu estivesse a dormir. Imaginava-os a fazerem as coisas que fazemos quando estamos acordados, as coisas que fazemos quando somos crianças. A brincar, a imaginar, a experimentar. Um recado a pedido da mãe? Agora, já crescido, adormeço por vezes a pensar nos livros arrumados nas estantes, em segundas e terceiras filas, amontoados em pilhas no chão, dentro de caixas e caixotes, engavetados, livros que fui acumulando ao longo da vida na esperança de que me pudessem oferecer alguma coisa. Dentre milhares, escolhi 100 para vos oferecer. Espero que pelo menos esses não morram comigo e perdurem vivos nas vossas mãos. Ocasionalmente, fecho os olhos e fico a imaginá-los com vida própria. Como os livros de Uma Noite na Biblioteca, a peça de Jean-Christophe Bailly (n. 1949) que o Fernando me ofereceu.
   Nunca fui frequentador de bibliotecas, confesso. Recorria à itinerante da Gulbenkian quando era miúdo, servia-me de pretexto para escapar à catequese. Eram umas bibliotecas com rodas, andavam de cidade em cidade transportando livros em busca de leitores. Mais tarde, o vício da leitura foi sendo acrescentado de outros vícios, tais como escrever nos livros, sublinhá-los, marcá-los, acrescentar-lhes índices próprios com referência às páginas que me são mais queridas. Por vezes, soltam-se-me palavrões e descarrego-os nas margens. Falo com os autores sem que me ouçam, chamo-lhes nomes. Nem sempre maus. As bibliotecas ainda hoje me causam ansiedade, por isso evito-as. Como não posso dar aos livros das bibliotecas a atenção que dou aos meus, afastei-me e fui fazendo a minha própria biblioteca. Uma biblioteca caótica, sem catálogos nem numerações, organizada à imagem e semelhança da minha desorganização interior.
   «Cada biblioteca, por muito que tenha havido colecção, arrumação, intenção, estende-se em torno daquilo que lhe escapa», diz Bertoli, o primeiro dos livros em forma de homem a intervir na peça de Bailly. Acho que concordo com ele, e talvez seja essa a principal mensagem a retirar desta obsessiva acumulação de páginas encadernadas, memória e tempo enclausurado entre capa e contracapa. Terão vida própria, os livros? Aproveitarão o nosso silêncio, a nossa ausência, para falarem uns com os ouros? Quando morrer o último dos homens, o que será feito dos livros? E hoje, com tantos homens por aí ocupados com milhentas tarefas, deves e haveres, contas e dívidas, de que valem os livros? «A nós, só nos resta o esquecimento, quer dizer um perfurar lento e fundo», diz Ragionello, o segundo livro em forma de homem na biblioteca nocturna.
   Que pensam vocês, minhas filhas, destas coisas? Como será a vida dos livros nas prateleiras? Pacífica? Estática? Eterna? Infinita? Turbulenta? À medida que crescemos, creio, em todos nós se amplifica o nostálgico silêncio de uma imaginação capaz de ver vida onde ela não existe. Obcecados com a realidade, os homens tendem a julgar-se sós no mundo como se não houvesse vida para lá das suas existências banais. Alegoria, o terceiro livro com voz na biblioteca, olha pela janela e vê o mundo acontecer. É ela quem afirma: «Tudo o que eles chamam real, donde vimos, e onde nunca iremos.» Eles somos nós. E a pergunta que me ocorrer é se serão os livros a não vir ao real ou se, por outro lado, passados todos estes milénios de literatura, não estaremos nós equivocados. Poderá isto a que chamamos real ser fruto da nossa imaginação? Afinal, que realidade há em dizer real? O real fala? «O que existe é só uma rede de histórias e de ilusões que se agitam num vazio em que a verdade anda errante», continua Ragionello.
   Talvez os livros também se sintam sós, talvez lhes façamos companhia quando nos amparamos neles contra a nossa solidão. Os livros lêem-se uns aos outros, o desafio que nos colocam é precisamente que adquiramos essa capacidade de também nos lermos uns aos outros. Como? Através dos livros. Um livro, minhas filhas, é o outro escancarado à nossa frente. Não o confundam com o autor, que esse é só um nome por detrás da vaidade. Escrito, publicado, disponível, o livro tem a sua vida própria, é ele o outro com o qual nos defrontaremos, é ele que nos inquire e confronta, é ele que nos provoca, é com o livro que teremos de travar a maior batalha das nossas vidas, a de nos conhecermos a nós próprios através desse encontro com o outro plasmado no livro. Escutemos Alegoria: «Vais ver, nós acabamos por nos habituar a ser apenas uma coisa finita, uma sucessão de sequências com um ponto final.» Assim são eles, assim somos nós. Um ponto final.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #33

 

Agora que o Verão ameaça esmorecer e o sol ficará embaciado por nuvens intimidantes, permitam-me que vos fale de sombras. Há um par de milhares de anos, um filósofo chamado Platão inventou uma parábola para nos encaminhar na direcção da verdade. Nessa parábola as pessoas viviam acorrentadas dentro de um caverna, forçadas a olhar para uma parede onde eram projectadas sombras do movimento no exterior da caverna. A realidade para os homens no interior da gruta resumia-se àquele mundo de sombras captado pelos sentidos, nada mais havia senão as sombras e os sons chegados do exterior. Até que um deles se libertou dos grilhões, tendo então oportunidade de descobrir o que se escondia por detrás das sombras. Um novo mundo se apresentava diante dos seus olhos, um mundo de luz, mas mais relevante ainda era a descoberta de que a realidade não podia ser resumida ao que os nossos sentidos percepcionam. Por detrás dos sentidos, algo se escondia. Por detrás das sombras, algo havia. Essa descoberta de um mundo para além das sombras encaminhou-nos na direcção da luz, ou seja, da verdade. Ora, foram precisos muitos anos para desfazer o mito de que a verdade é assim tão luminosa e de que nas sombras não existe algo de substancialmente verdadeiro.
   Apresento-vos, minhas filhas, Pedro Schlemil, o homem que, segundo Adelbert von Chamisso (1781-1838), cedeu a sua sombra a um desconhecido em troca da bolsa de Fortunatus, «uma bolsa de marroquim com grossos cordões, muito sólidos», cheia de moedas de ouro sem fim. «De que serviam as asas a um homem solidamente amarrado com correntes de ferro? Só para lhe acrescentarem o desespero», conclui Schlemil. De facto, podeis imaginar o desespero de alguém que, subitamente, deixe de ser perseguido pela própria sombra. É como deixar de ser iluminado. Para passar despercebido no meio dos outros, só mesmo deixando de andar ao sol. O resto da história ficará a vosso encargo, pois pretendo também apresentar-vos Erasmo Spikher. Devemos a E. T. A. Hoffmann (1776-1822) o relato das suas angústias. Tal como Schlemil, também Spikher negociou algo de que não imaginaríamos um corpo privado: o seu reflexo. Fê-lo por paixão, depois de haver sido infiel, não resistindo à tentação de uma figura estranha em conluio com uma dama cuja beleza o inebriava. «Um dia encontrou-se com um tal Pedro Schlemihl. Este tinha vendido a sombra; ambos pensaram caminhar juntos, na esperança de que Erasmo Spikher projectasse a sombra necessária, enquanto Pedro Sschlemil fornecia o reflexo que faltava. Mas não deu resultado.» Por fim, apresento-vos o sábio cuja sombra ganhou vida própria. Conta-nos Hans Christian Andersen (1805-1875): o desplante da sombra foi tal que, a dada altura, chegou a sugerir ao próprio sábio que lhe fizesse de sombra, invertendo assim os papéis: «A sombra era dono e senhor e o homem passou a ser sombra.»
   Podeis encontrar todas estas histórias no livro Contos dos Homens Sombra (Editorial Estampa, 1983), traduzidas e introduzidas por Manuel João Gomes, facto que, por si só, é já bom motivo para as terdes em boa consideração. Saltei o homem que perdeu o nariz, também constante no volume, por dele vos ter dado nota a propósito dos contos de Nikolai Gógol que outrora vos ofereci. Pretendo antes salientar que sem sombra e sem reflexo um homem está condenado à solidão. Não só ninguém entenderia que andássemos por aí sem sombra ou o reflexo, como ficaríamos privados de algo essencial à nossa natureza. A sombra e o reflexo de um ser humano são a sua linguagem, pois todas as palavras são sombras das coisas, são reflexos de pensamentos e ideias, concepções. Ninguém vê o infinito senão através do seu reflexo na palavra que o nomeia. Em perdendo sombra e reflexo, estamos condenados a esconder-nos nas trevas para não cairmos no desespero de sermos incompreendidos.
   Aceitai como fundamentais as sombras projectadas na parede e o rosto reflectido no espelho. Se ao longo dos anos ele adquire diferentes aspectos é, precisamente, para nos dar conta de quão contingencial é a nossa permanência neste mundo iluminado por uma estrela rodeada de treva. Que não desperdiceis nenhuma das dimensões do vosso ser é o meu desejo ao falar-vos destes homens que negociaram sombra e reflexo sem se darem conta de que estavam a negociar-se a si mesmos, privando-se de identidade, vestindo o fato do defunto. Diferente será se a nossa sombra adquirir vida própria, o que também não é raro e disso estais prevenidas por saberdes ser essa a condição necessária à criação. Não é o livro que escrevemos, o quadro que pintamos, o filme que realizamos, não é a peça que encenamos a nossa própria sombra ganhando autonomia para nos fazer perdurar no tempo e nos dispersar no espaço? «A palavra é uma sombra», diz-se no conto de Andersen . A sombra que nos projecta, acrescento eu. Mas tende mão nela, que nem por um momento deixeis de ter mão nela. Se a perderdes, tendes a loucura à perna. Um tormento.

domingo, 9 de maio de 2021

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #32

 

Apresento-vos Lázaro de Tormes, filho de Tomé e de Antona, naturais de Tejares, aldeia de Salamanca. Dele sabemos o que autor anónimo do século XVI legou à posteridade. Lazarillo de Tormes, suas poucas venturas e incontáveis desventuras, há muito vem merecendo por cá atenções de tradutores distintos. A versão de Aníbal Fernandes encontra-se disponível na Sistema Solar, a de José Bento na Assírio & Alvim, mas outras foram sendo dadas à estampa ao longo dos tempos. O que houve de especial na vida de Lazarinho, minhas filhas, é o que de mais essencial vislumbramos na vida de todos quantos à face da Terra podem ser chamados de homens: fome. Nenhuma necessidade motiva a acção como a fome, deslocando-nos tanto à condição de animais selvagens como à de artistas. Vós, que graças à fortuna do meio em que nascestes nunca tivestes de passar fome, ficai sabendo quanto de indigno há na virtude quando a fome ataca alguém. Perseguido, preso e torturado, o pai de Lázaro partiu deste mundo 'inda ele era criança. Teve a mãe de se prostituir com um negro para sobreviver, até descobrir-se que os bens que este lhe trazia eram furtados ao patrão. Com pai, mãe e padrasto condenados, foi o nosso desgraçado herói encontrar desenrascanço em patrões sucessivos, qual deles pior que o outro, exploradores da miséria alheia. Um mal nunca vem só, diz o povo e não temos razões para discordar, particularmente quando calha o mal recair sobre quem já desventurado é. Eis algo que podeis conservar entre os axiomas desta vida, a miséria atrai miséria. Assim é, desde logo, porque os miseráveis tendem a ser inimigos de si mesmos, voltando-se mais facilmente uns contra os outros do que contra quem os explora. Assim é, também, por haver sempre gente disponível para colher ganhos e proveitos da fome alheia, fazendo-se patrão de quem nada tem acenando com promessas retardadas e paraísos ilusórios. Desesperando por vida melhor, os Lazarinhos deste mundo tornam-se servos sem ingenuidade nem inocência, antes com a manhosice e a esperteza que leva a patinar na avareza dos Senhores. Para chegarem a algum lado não saem do mesmo sítio, roem unhas na vã esperança de assim conseguirem matar a fome, aceitam a indigência como salário duma pobreza ainda mais funda. Tudo quanto façam para escapar dos fojos será tomado como aldrabice de trapaceiros desprevenidos, os quais se denunciam tanto por não reconhecerem o seu lugar no mundo como por desperdiçarem tempo a sonhar com lugares reservados aos outros. Estarei a ser demasiado fatalista, minhas filhas? Vede como salivam por esmolas os imigrantes que ao redor de nós chegam para apanhar pêras, matar frangos, amassar pão, colher framboesas, vede como no campo, curvados, eles são as vítimas de um chicote invisível que os açoita diariamente sob o silêncio astuto de quem com eles lucra. Quem com eles lucra? Todos nós, sim, todos quantos entre nós se calam à vileza desta economia do desamparo. A isto leva tanto a fome de uns como a ganância de outros, mas igualmente a indiferença da maioria que assobia para o lado enquanto puder aproveitar-se das fraquezas de uns e das malfeitorias dos outros. Lázaro chorou a sua desgraçada vida passada e as suas próximas mortes futuras ao serviço de cegos trapaceiros, clérigos oportunistas, escudeiros violentos, frades sovinas, buleiros intrujões, capelões hipócritas e aguazis pretensiosos. Naquele tempo eram estes os poderes que exploravam. Passados cinco séculos, não é diferente se por uns substituirdes banqueiros e por outros directores executivos, administradores e gestores, agiotas, usurários. Assim é, minhas filhas, que a lição a retirar desta Vida de Lazarinho Tormes se preserva actual como ao longo dos séculos os rochedos não perdem validade. Mais do que um destino que determina as aflições é o lucro que delas obtêm os Senhores aquilo que as perpetua entre os desgraçados. Se quiserdes livrar-vos disto, deixai de dar lucro. Eis o conselho que tenho para vos oferecer.

terça-feira, 27 de abril de 2021

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #31

 


   Eis um título que me coloca numa posição desconfortável. A dúvida que me ocorre de imediato é o que vemos quando lemos «o que vemos quando lemos»? Será suposto vermos alguma coisa? Talvez seja defeito de maturação, mas eu sempre cultivei uma relação de invisibilidade com as palavras. Julgo que me dou tão bem com elas por me garantirem tal invisibilidade. Ao contrário de outros, não creio que as palavras tenham cheiro, cor, textura, não são como um corpo que se apalpe. É essa a sua vantagem, por isso não perecem. Mesmo as que caem em desuso, como algumas que já tereis encontrado em Camões, Gil Vicente... Têm forma e peso, sendo que em matéria de forma pouco poderemos acrescentar à invisibilidade com que nos tornam presentes as coisas. A caligrafia é a forma das palavras, nada que ofereça boca, nariz, orelhas. Não sabemos, nunca saberemos, a cor dos olhos das palavras nem o tipo de cabelo das palavras. No entanto, elas servem para que identifiquemos a cor dos olhos e o tipo de pêlo da Nala. Creio que não vos será difícil aceitar que, não podendo comunicar por palavras com a nossa pequena cadela, é por sons e gestos que ela nos responde e dela conseguimos reacções mais ou menos inesperadas. Entre nós, minhas filhas, entre nós que humanamente vamos desenvolvendo a linguagem do invisível, as palavras adquirem porém o poder de tornar presente o que julgávamos desaparecido, ausente, esquecido. As palavras fazem aparecer e neste aparecer há, sem dúvida, um ver, um tipo de ver pelos ouvidos, pelos dedos, pelos olhos, pelos sentidos através dos quais logramos contactar com a invisibilidade.

   O desconforto, perdoem-me, é causado pelo verbo ler. O que lemos quando lemos seria, talvez, a questão mais pertinente, mas o autor é formado em ver, em mostrar, em visualizar, pelo que devemos aceitar-lhe o esforço de pretender tornar compreensível essa complexa relação do lido com o visto. Peter Mendelsund estudou filosofia e literatura, tocou piano, dedicou-se ao design gráfico, e neste percurso não será difícil perceber quão imperioso será para ele compreender como a imaginação se articula com o pensamento através de sons e de imagens. Se o problema eram as capas dos livros que desenhava, o resultado é uma extraordinária abordagem a esse fenómeno inesgotável da linguagem. Uma fenomenologia da leitura, portanto, palavrão que podeis não estar dispostas a aceitar pacificamente mas que se tornará tão simples de aceitar como qualquer outra palavra quando com ele vos familiarizares. E este é, para mim, o ponto essencial. Anterior à visualização do que é lido importa investir numa familiarização com as palavras. O conselho que dou, se é que posso dar-vos algum nesta matéria, vai no sentido de estimular a vossa curiosidade ao ponto de sentirdes vontade de abrir os gradeamentos dos significados fixados pelos dicionários, porque as palavras são, antes de mais, animais selvagens que só por necessidade domesticamos. Não é possível, porém, domesticar um leão como domesticamos um gato, as palavras são leões numa selva  anterior às convenções que as transformam em gatinhos de colo.

   Este mesmo livro que ora vos sugiro poderá esmoutar caminho nesse sentido de um para lá do significado onde se mistura, sobretudo, a história de quem vê e lê, pois a palavra «preto» jamais será entendida da mesma forma para quem o preto for sinónimo de fascismo ou de anarquismo, luto ou liberdade, perigo ou elegância… Esmoutar? Eis uma palavra. O que vêem quando a lêem? Talvez a elegância do perigo, e dizê-lo assim é já um modo de colocar a questão que transcende as fronteiras das semântica, a etimologia, a raiz da palavra. Disse outrora que muitas das imagens neste livro são puro texto, devem ser lidas, assim como muitas das frases nele contidas, breves, sintéticas e eficazes como os melhores aforismos, apelam a um universo visual e imagístico que transforma a leitura numa autêntica experiência visual. Deste modo, o que vemos neste livro é também o que lemos. E o que lemos é, isso mesmo, o que vemos. É um livro que abre portas e janelas para uma paisagem de clássicos imprescindíveis, o que também o torna imprescindível. Mas é, antes de mais, minhas filhas, um objecto que torna presente quão complexa e sublime é a simplicidade de uma dúvida. Para mim é um privilégio poder aventurar-me na selvajaria das palavras. Espero que para vós também, já que no mundo em que vivemos não há mal que não tenha nascido dessa tendência para tudo domesticar, controlar, uniformizar e, por isso, reduzir.

sábado, 14 de novembro de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #30

Não nos queixemos do tempo que faz, minhas filhas, e afastemos de uma vez por todas o tempo que é, nem que para tal nos vejamos compelidos a mastigar em solidão as nossas próprias dores. Há uma alegria no mundo que lhe traz mistério, é a da fonte no meio do deserto, uma nuvem com a forma de um animal, o gesto de abraçar alguém e dizer-lhe: estou contigo. A par desta alegria há uma tristeza que parece infinita porque é natural nos homens ampliar o sofrimento. Reparai como é tão mais fácil chegar a um coração pela tragédia quão difícil se torna sensibilizá-lo pelo gozo de viver. O riso envergonha-nos, as lágrimas seduzem-nos, e, no entanto, a sensação de que tudo é uma comédia persiste.

   Há uns anos, como sabeis, dediquei um livro aos que se matam. Confesso-vos que nunca me interessou o porquê de se matarem, pelo menos nunca me interessou tanto quanto continua a interessar-me o porquê de não se matarem outros. Será o suplício de nos mantermos vivos menos poético do que a decisão de nos termos mortos? Quantos serão os modos de se estar morto em vida? O que para mim sempre esteve em causa resumiu-o Ruy Belo: «Suicido-me nas palavras. (…) Ao escrever, mato-me e mato». Ninguém percebe as forças que animam tal decisão, muito menos a percepção anterior à de que tudo é em vão. Ainda assim, a gente mata-se a escrever como quem se mata a esgaravatar no deserto esperando que à superfície surja água com que saciar a sede.

   O meu desprezo é, sempre foi, pela exibição da tristeza, pelo exibicionismo da melancolia, pela sublimação da morte quando, vai-se a ver, e a vida gira como um carrossel grotesco de hipócritas lambuzando-se em algodão doce. Este mundo, minhas filhas, está atolado de pierrots a plagiarem meninos da lágrima. Daí que na introdução a um livro anterior aos meus suicidados eu haja proposto a esses pierrots que se matassem, abdicassem ou se dedicassem à criação de galinhas em vez de perderem tempo a cacarejar desesperos e desassossegos de pacotilha. «O poeta é um ser condenado»? Sim, mas não menos que um ladrilhador ou a dona Ilda das limpezas.

   Tão distintas são as razões que levam alguém a pôr termo à vida que considerar o suicídio «o manifesto de coerência do poeta» só pode significar uma de duas coisas: ou nada se percebe da vida ou nada se entende de poesia. Terá Thomas Chatterton pretendido matar-se, aos 17 anos, para manifestar uma putativa coerência que o Nobel Yasunari Kawabata só vislumbrou aos 72? O que haverá de comum entre o suicídio de Antonin Artaud e a desesperança de Antero de Quental? Acerca do tema, de resto, escreveu o primeiro:  «A matar-me não será no intuito de destruir-me, mas sim para me reconstituir, o suicídio será para mim unicamente um meio de me reconquistar pela violência, de fazer uma irrupção à bruta no meu ser, de ganhar a pouco segura vantagem de Deus». A fé dos homens tem contornos inimagináveis.

   Minhas filhas, a nós, que estamos vivos, não resta senão respeitar a decisão de quem quer morrer, aceitando que por detrás da mesma pouco ou nada nos é dado compreender. Ridículo seria reduzir a «manifesto de coerência» a depressão, a doença mental, a raiva, a fúria, o desespero, o desejo, a fuga ao sofrimento, o acidente, a honra, a vergonha, o amor, a frustração, que de tantas e de tão variadas formas podem impelir alguém ao precipício da morte. Há quem se mate por paixão, há quem se mate por vazio. Yves Le Bonniec e Claude Guillon encararam o suicídio como uma arma para denunciar misérias, enquanto Marx interpretou-o como resultado de uma opressão social assassina. Durkheim estudou-o do ponto de vista sociológico, Hume abordou-o a partir do prisma da culpabilidade moral, Camus dedicou-lhe algumas das suas melhores páginas, mas poucos como René Crevel terão sabido expressá-lo no que tem de essencial e individualmente humano. Por humano entendo frágil. Talvez André Gorz, com o seu exemplo, tenha conseguido expressá-lo de modo igualmente esclarecedor.

   É deste último que pretendo falar-vos. Sabeis da admiração que tenho pela sua carta derradeira, dirigida ao amor da sua vida, a actriz Doreen Keir. Casaram em 1949, tiveram uma vida rica e feliz: «Há cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca». Consolidaram o amor discutindo o mundo, cúmplices numa guerra contra os males que o ameaçam. As viagens e as percepções divergentes estimularam-lhes um pensamento que só resulta inteiro quando não está só, quando evolui do confronto de ideias e recusa o autismo castrador da opinião sem contraditório. A tristeza bateu à porta pela visita da doença. Aracnoidite, cancro do endométrio. «Cada um escutava a respiração do outro», até terem ambos deixado de respirar em conjunto num dia de Setembro de 2007. Foram encontrados dois dias depois, deitados um ao lado do outro, com as palavras de André ressumando razões: «Não me posso imaginar a continuar a escrever se tu já não estiveres». É mais comum do que se julga, esta impossibilidade gerada pela ausência.

  Crevel era uma criança quando viu o pai pendurado pelo pescoço, razão pela qual fez do suicídio uma obsessão «como a melhor e a pior garantia contra o suicídio». Palavras do próprio. Gorz encarou-o como uma espécie de eutanásia, partindo com a sua companheira por não aguentar mais viver no sofrimento da perda acelerada pela doença. Semelhantes são os casos de Arthur Koestler e Heinrich von Kleist. Gilles Deleuze decidiu tratar do cancro nos pulmões pondo fim à vida, Camilo estava cego. Emilio Salgari não aguentou a loucura da mulher e a miséria em que vivia. O suicídio entre os mais jovens é muitas vezes acompanhado de diagnósticos de depressão, esquizofrenia, transtornos vários, existências excessivas, autodestrutivas, consumo de drogas, descompensações. Até que ponto temos mão nas doenças que nos assaltam? O ambiente social, a pressão, fazem estragos, estejamos a falar de artistas ou de taberneiros. Conheci dois que se enforcaram, nenhum deles escrevia poemas.

   Isto para dizer que se «o poeta que se mata cumpre-se», resta saber se o poeta que fica por se matar não se cumpre. Fernando Pessoa cumpriu-se? Herberto Helder cumpriu-se? E o que será isso de um poeta se cumprir? Uma vida cumpre-se entre a concepção e a morte, o poeta não se cumpre senão nos poemas que o fazem cumprir-se. O suicídio é um poema? Todos os suicidas são poetas? Estará o poeta português valter hugo mãe, que recentemente assinou o prefácio de um livro da actual coqueluche do entretenimento televisivo nacional, ciente da incoerência em que incorre mantendo-se vivo? Diz ele que «escrevem-se poemas para protelar», propósito, cremos, do qual não resultarão senão maus poemas. Ao contrário, na senda de Ruy Belo, creio eu que um artista deve criar como vive, amando, destruindo-se naquilo que cria, como por fusão nos destruímos naquilo que amamos. A violência vem da ordem que se altera, não do fim que se impõe.

   Minhas filhas, o poema não recusa a vida como a morte o faz, o poema aceita a vida tal como ela é: contraditória, paradoxal, absurda, bela e horrível na mesma proporção. Talvez a falácia surja dessa tendência para substituir deus pela poesia, ou para fazer da poesia um avatar do sagrado, como se tudo não se passasse num corpo, o nosso, que é o princípio e o fim de tudo quanto nos acontece. Não julgueis, minhas queridas, que por dar termo a esse corpo alguém manifesta ou deixa de manifestar poesia. Poético é o acaso de sermos minúsculos grãos de poeira neste vastíssimo universo que, por medo ou necessidade, procuramos reduzir ao significado que atribuímos a nós mesmos e não temos, assim disfarçando a terrível evidência de que tudo não passa de um equívoco. Um mal-entendido, esta importância que nos damos.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #29


Não sei, minhas filhas, o que viver bem possa ser. Suponho que para morrer bem devíamos todos morrer a dormir. Mas viver bem, como pode alguém saber qual a melhor forma de viver? Não se vive senão vivendo-se, e a vida cumpre-se diariamente com seus humores, suas comédias e suas tragédias, seus dissabores e suas aventuras. Por vezes, num só dia, numa só ida, são tantas as emoções vividas, e tantas e tão acentuadas as curvas no electrocardiograma, que 24 horas nos parecem a vida inteira. E talvez a vida não seja senão esse intervalo entre o sol surgir a oriente e desaparecer a ocidente, com o céu ora limpo, ora atravessado de nuvens finas, ora estrelado, ora ocultado por um véu de névoa. Passa num instante, que por vezes olhamos para nós e é como se estivéssemos a ver estrelas mortas luzindo num céu escuro como breu. Bem sei, minhas queridas, que não gostais de falar da morte. Como não aceitar tamanha repulsa, tanta a vida que tendes pela frente? Mas talvez por isso mesmo convenha falar-vos do mais angustiante dos temas. Muita gente passa a vida a fugir da morte e é como se já estivesse morta, há pessoas que optam por fugir da vida e é como se nunca tivessem estado vivas. De um modo ou de outro, talvez seja justo reconhecermos que a vida é em todos uma fuga. Uns fogem dos medos que os perseguem, outros fogem do tédio que os aprisiona, há quem fuja de uma infância traumatizante e quem se veja obrigado a fugir de um presente ameaçador. Talvez seja esta a essência de viver, uma fuga constante de algo que nos persegue e ameaça. Se assim for, não será tão triste que desperdicemos a vida fugindo do que mais temos por certo? E que mais certo haverá na vida do que a morte? Daí que me pareça apaziguador, embora a princípio reconheça que talvez vos possa parecer tormentoso, abraçar o absurdo da vida aceitando a inevitabilidade da morte. São terríveis as coisas que se fazem em nome da perpetuação de um nome, são terríveis e criminosas as coisas que se fazem em nome de um elixir da eternidade que mais não é do que a memória afagando o esquecimento. Tomai pois de exemplo este homem de nome Gesuniala que, certa manhã, resolveu deixar de fugir, optando por simplesmente sentar-se à espera da morte. E que viu ele enquanto esperava? Viu a vida inteira passar-lhe à frente como quem assiste a um filme e vê correr, fotograma a fotograma, todas as tragédias e conquistas da humanidade. Esperar, em vez de fugir, também é um modo de viver. Tem as suas consequências, é certo, tem o seu preço, pois ninguém compreende aquele que espera. Como pode aquele que foge compreender quem espera? Neste livro que agora vos entrego, “A Morte Lenta” não é lenta por ser dolorosa como amargurada é a doença. A lentidão é a indiferença com que a morte brinda quem dela aprendeu a não fugir. Talvez o velho Gesuniala que o escritor Saguenail (n. 1955) imaginou prefira esperar pela morte a arrastar-se na inutilidade de uma vida de trabalhos e de afazeres, uma vida desperdiçada com deveres e obrigações cujo fim último será distrair-nos de que há um termo para tudo. Talvez naquele esperar descanse a liberdade que escapa tanto ao escravo inquieto como ao senhor desassossegado, já que pela espera se supera a dialéctica que opõe quem manda e quem é mandado. Eis uma opção de vida que não merece censura: «Mas uma dúvida profunda atormenta Gesuniala. Eu que pensava não ter mais nada a ver nesta vida, dou comigo a apreciar este atraso da morte, este adiamento que ela me concede. Viver, será, no fundo, tão-só esperar?» Gesuniala é o homem que transcende o colectivo, que está para lá de um projecto social, é em si mesmo a negação desses projectos colectivos que se alimentam das fugas individuais. Num mundo em que todos esperássemos, minhas filhas, acabava-se a produção e, acabando-se esta, desapareceria a avidez, pelo que muitas vezes ides ouvir ao longo da vida gente horrível que vos dirá não gostar de esperar ou de ficar à espera. Quem espera, desespera. Mas se desespera, não é tanto porque espera mas porque anseia fugir. Gesuniala é uma espécie de monge abnegado que não se fundamenta na renúncia nem na indiferença, mas apenas e tão-somente na entrega a uma espera que só o nada pretende alcançar:

Gesuniala espera. O desespero de sobreviver não lhe permite adormecer. Depois de dar voltas e mais voltas sobre o seu tapete, desiste de dormir. Levanta os olhos e contempla as estrelas. É uma noite sem lua e elas brilham ainda mais, incrivelmente próximas, varando os olhos. Gesuniala estende a mão; bastariam umas polegadas para ele conseguir agarrá-las. Que paz! Que indiferença! As estrelas não se preocupam nada com as nossas guerras. Observam a terra e provavelmente só vêem um grão de poeira, um berlinde liso, uma ágata iriada lançada no espaço. Como poderiam elas conceber a nossa existência? E ainda menos as nossas triviais e mesquinhas preocupações. Cintilam mas evitam iluminar as nossas devastações. Debaixo de um céu assim, parece que estamos na estação dos amores, no tempo das cerejas e dos desejos. Nesse instante do seu devaneio, Gesuniala vê uma estrela cadente riscar a noite. Infelizmente já não tenho nenhum desejo a formular. As cerejeiras arderam e já não há apaixonados para te dirigirem pedidos. E no entanto Genusiala sente o coração a jubilar sem motivo. Espera pela próxima estrela cadente, excitado como uma criança. Fita tão intensamente o céu estrelado que sente os astros a incrustarem-se nas suas retinas. Quando o horizonte começa a clarear, Gesuniala vê sem tristeza as estrelas apagarem-se. Colheu nelas luz suficiente e quando pousa na planície desolada, o seu olhar espalha paz.

Saguenail, in A Morte Lenta, traduzido por Regina Guimarães, com ilustrações de João Alves, Douda Correria, Dezembro de 2018, s/p.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #28


Minhas filhas, calhou-nos nascer num país em que a maioria das pessoas acredita que o universo foi criado em seis dias. Ao sétimo, o Criador descansou. Depois modelou o homem à sua imagem e semelhança, da costela do homem fez a mulher, da mulher fez o pecado e do pecado surgiu o arrependimento. E do arrependimento fez as maldições e os castigos. Minhas filhas, este Deus em que a maioria das pessoas no nosso país acredita tem, como qualquer Deus, as suas particularidades. Ele manda o homem obedecer. Em havendo quem prevarique, ele ordena aos homens obedientes que apliquem sua lei com vergastadas, apedrejamentos, sacrifícios, guerras, condenações à morte, destruição, castrações, mutilações, multas, enforcamentos… Deus exige, Deus revolta-se, Deus é grande e faz-se notar pelo medo: «Não tenhas pena do culpado. Deve-se exigir vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé».
   Minhas filhas, muitas pessoas no país onde por fortuna calhou nascermos crêem que há coisa de dois mil anos esse Deus teve um filho. Foi gerado no ventre de uma mulher virgem. Para que fenómeno tão extraordinário não vos confunda, socorro-me do exemplo de um tal Denis Diderot (1713-1784): «Uma mulher jovem, que se deitava de ordinário com o seu marido, recebeu um dia a visita de um jovem acompanhado por um pombo. Após essa visita, a mulher ficou cheia: e as pessoas perguntavam quem fora, do marido, do jovem ou da ave, que lhe fizera o filho. Um sacerdote que ali estava disse: «Está provado que foi a ave».» E o que está provado, provado está. Para mulheres adúlteras, o tal Deus prevê apedrejamento até à morte. Mas para mulheres engravidadas por pombos ele não previu nada.
   Podeis interrogar-vos sobre o porquê de um Deus perfeito ter pretendido um filho, ao que deverei responder com toda a honestidade: não faço a mínima ideia. Sei que depois do filho ter rezado ao pai, isto é, depois de Deus ter rezado a si mesmo, tornou-se altamente popular entre aqueles que, lavando as mãos da crucificação, agora o representam na Terra sob a figura de um Papa eleito por homens, paridos por mulheres, concebidos em pecado. Confusas? Não desespereis, o enredo vai a meio. 
   De Jesus, o nazareno, diz-se que veio à Terra para nos fazer olhar para o Céu. Com o sacrifício de seu próprio filho, Deus quis dar aos homens um exemplo de fé. Em quê? perguntais-me. Ora, fé num Deus todo-poderoso, omnipresente, omnisciente, a quem nem sequer falta um defeito para que seja perfeito. O defeito é, pois claro, o produto da sua criação. Deus tem fé em si mesmo e espero que lhe sigamos o exemplo. Citemos novamente Diderot: «Todos os povos têm desses factos, aos quais, de maravilhosos que são só falta serem verdadeiros; com os quais se demonstra tudo, mas sem que sejam eles mesmos provados; que não ousa negar quem não seja ímpio, nem pode crer quem não seja imbecil».
   Não satisfeito com o sacrifício do próprio filho, Deus ressuscitou-o. Não satisfeito em ressuscitá-lo, Deus concedeu-lhe o poder de se fazer mostrar em aparições. A ele e à mãe dele. Só Deus não se mostra. Este é, para mim, o maior dos seus milagres. Mais do que curar cegos e coxos, mais do que reanimar mortos, o grande milagre do Senhor é a sua eterna invisibilidade. Ele está lá, mas a gente não o vê. Está na terra manchada de sangue por guerras e crimes hediondos, está nos terramotos e nos marmotos, está na poluição dos céus e dos lençóis freáticos e nos plásticos ingeridos por sagradas criaturas, está nos germes, nas bactérias, nos vermes e nos vírus, está nas pandemias, a gente é que não o vê. Pois o seu milagre é não se mostrar. Deus está em tudo e como é lógico de tudo que está em tudo não estar em nada, Deus não está. Aguardemos por uma vacina.
   Podemos assim admitir, como o fez Diderot, que «Quando Deus, de quem recebemos a razão, exige o seu sacrifício, torna-se um manobrador habilidoso que escamoteia aquilo que deu»; ou que «Se há cem mil condenados por um que se salva, o diabo está sempre em vantagem, sem ter abandonado o seu filho à morte». Mas isto são verdades da lógica, a qual não contempla a Deus. A lógica de Deus é diferente da lógica dos homens e ainda está para aparecer um Aristóteles que a decifre e disponha numa espécie de “Sagrado Organon”. 
   De sagrado resta-nos a “Bíblia”, esse livro onde podeis melhor compreender um legislador tão perfeito, tão perfeito, que é próprio da sua perfeição abolir-se a si mesmo mandando amar por temor ao ódio. Não vos maçarei com as parábolas do Apocalipse, toda uma lógica divina cujos enigmas estão por desvendar. Haja homem para tanto. Mas gostaria de vos sugerir os “Pensamentos Filosóficos” (Edições 70, tradução de Miguel Serras Pereira) de Diderot como pórtico para uma reflexão que terá de ser vossa. Diderot fê-la anonimamente em 1746, temendo as fogueiras dos zeladores do tal Deus sem perdão para quem questione e duvide.  Começou por ser deísta, crítico e racional como fiel discípulo de Descartes. Acabou ateu, sepultado no Panteão de Paris ao lado de outros tementes a Deus.

quinta-feira, 12 de março de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #27


Viagens suspensas, salas vazias, aeroportos às moscas, escolas encerradas, espectáculos cancelados… O mundo parece ter parado, ficando a pairar na atmosfera um aroma apocalíptico que já nada tem que ver com o cheiro a napalm pela manhã. Convenhamos que em trânsito isto tem tudo mais piada, mesmo quando não tem piada alguma. Pedem-nos que fiquemos em casa, que evitemos ajuntamentos, que saiamos apenas para o essencial. Nem toda a gente estará em condições de cumprir, mas que todos metam na cabeça o dever de cumprir talvez ajude a mitigar a disseminação da ameaça. Um vírus, vejam bem, um ente microscópico, instalou-se entre nós para nos lembrar quão frágeis somos e quão ténue é a fronteira que separa a loucura da normalidade. No púlpito da sua sapiência há quem desvalorize, há quem menospreze, há quem negligencie. Os números não mentem: 4900 mortos, 136.000 infectados. Números claramente desactualizados, tal é a velocidade a que o bicho se movimenta, e provavelmente desinflacionados, tal é o secretismo erguido nalgumas nações em torno do problema. Fotografias aéreas dão conta de valas no Irão que nos fazem pressupor uma tragédia maior do que a publicada e conhecida. Por esta altura, minhas filhas, tereis ouvido falar de “A Peste”, de Albert Camus, e do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, por ter a curiosidade virulenta dos leitores incrementado as vendas de tais obras. Language is a virus, cantava a Laurie Anderson citando William S. Burroughs. Tal é a curiosidade mórbida das pessoas a quem não basta uma realidade com sabor a ficção. Daí que, por estes dias, seja de outras histórias e de outro autor que eu mais me tenho lembrado. Franz Kafka  (1883-1924) precisou de meros 40 anos de vida para nos deixar uma obra eterna, maior do que à época da sua morte era possível julgar tão à frente do seu tempo se colocou, como é atributo dos génios. Vítima de tuberculose, Kafka é, também por esse dado biográfico fortuito, o autor onde melhor encontramos pressentidas e conjecturadas todas as pestes humanas, não só as de tipo exógeno, que involuntariamente nos ameaçam sem que consigamos entender porquê, mas também as pestes endógenas, geradas no imo da mente humana e propagadas com um poder de contaminação altamente autodestrutivo. Entre estas, podíamos mencionar, desde logo, a burocracia, embora nos convenha mais falar agora de outra: o medo. Não há mal algum, minhas filhas, em ter medo. Ele tem uma função defensiva que apela a coisas úteis tais como a reflexão, a ponderação e o cuidado. Mas como tantas outras coisas no ser humano, o excesso despeja de qualidades o medo, o excesso retira-lhe as virtudes transformando-o numa ameaçadora pandemia. Pelo medo se governam nações e manipulam povos, pelo medo se impõem comportamentos e usurpam liberdades, pelo medo se molda a realidade de acordo com as conveniências de quem domine o medo como a uma arma fatal. Num conto intitulado “O Covil”, Kafka mostra-nos a outra face perniciosa do medo. Quando o medo evolui para o pânico, pouco faltará para que se transforme em paranóia. E nesta nada vislumbramos de benéfico ou útil à humanidade. Nesse conto, uma criatura indefinida como somos, de certo modo, todos nós, imerge na terra escavando o seu covil , entregando-se obsessivamente a cálculos e prolepses cujo efeito é exactamente o contrário daquele que inicialmente pretendia. A tranquilidade do covil torna-se inquietação, toldada por sobressaltos de medo onde o desejo de um sono descansado degenera em insónia permanente. As preocupações desmesuradas, o alarme, o desassossego, fazem do covil o princípio de uma misantropia que escancara portas à loucura. Diz-nos Kafka: «Eis o que revela um espírito inquieto: insegurança na apreciação própria, ambições pouco limpas, traços negros de carácter, que ainda mais se ensombram se pensarmos que o covil ali está e que nos pode dar paz, desde que consintamos em abrir-nos totalmente a ele». Sucede que nenhuma paranóia leva à paz, ela apenas nos afunda no leito convalescente de uma guerra onde seremos a primeira e a última das vítimas. Em momentos como aquele que estamos a viver, apetece dar razão à tese de Aristóteles segundo a qual é no meio que se encontra a virtude. Se a negligência dos grunhos, burgessos e trogloditas, alguns deles com altas patentes, é absolutamente imprudente e desaconselhável, também a paranóia colectiva o é. Sem que desprezemos o ruído, convém não nos deixarmos apanhar na sua rede. A angústia é tão natural nas nossas vidas como o ar de que precisamos para sobreviver, mas poluída pelo pânico torna-se irrespirável, sufocante, asfixiante. Começar por controlar o medo, por aprender a retirar partido dele, parece-me ser, neste momento, a atitude mais sensata. Como se faz? Ora, minhas queridas, lavando as mãos, mantendo distância, evitando multidões, saindo de casa só para o essencial. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #26



   Agora que o fim de mais um ano se aproxima, e os balanços se intrometem inevitáveis como inevitável é o termo de tudo quanto começa, sugiro-vos que não alimenteis ilusões quanto a isto de ir vivendo trazer no âmago pingo de seriedade. Se a vida é uma passagem, pois que se cumpra usufruindo dos prazeres que, por acidente ou por acaso, se atravessam no caminho. Rir é, sem dúvida, o melhor remédio para quem logo à nascença se vê obrigado a chorar. Podeis pegar nos “Contos de São Petersburgo”, vindos a lume na primeira metade do século XIX, para vos certificardes de que em matéria de alma humana pouco muda com o passar dos anos. Transforma-se a paisagem, baralha-se a hierarquia de valores, inventam-se vacinas, mas a besta que há em nós perdura inalterável. Nikolai Gógol, o russo ucraniano que dizem ter sido atacado por depressões e crises místicas, pode não ter dado a volta à agonia e ao sofrimento que o atormentaram, mas nos contos que outorgou aos leitores tudo quanto parece real surge fantástico, não sendo por isso de menosprezar a hipótese de tudo quanto neles surge fantástico ter sido deveras real. Pretendeis, minhas filhas, melhor retrato do ano que passou do que este? 
   Eis-nos em 2019, a passear na Avenida Névski, rodeados de gente decente, ao encontro de uma «beleza atingida pelo bafo putrefaciente da devassidão». Logo em Janeiro, a televisão nacional ofereceu-nos para entretenimento, como quem oferece um Natal dos Hospitais, o líder dos neonazis portugueses em pose de respeitável pai de família. Haverá exemplo mais frustrante de realismo invertido do que esta tendência para desmemoriar as massas pintando com cores aprazíveis o que é repugnante? Não será este o modelo exemplar de como mais do que a paz, mais do que o amor, o verdadeiro e único valor que impera neste mundo é a audiência, aqui medida e pesada ao preço de um ouro que sairá tão oneroso quanto aos escravos ficou aquele que em tempos trouxemos do Brasil?
   Começámos a manhã de 2019 com um criminoso aberrante de cara lavada, prenúncio do que, ao longo do ano, acabou por se transformar em regra para que definitivamente aprendamos a conviver com o ópio das multidões: não importam os meios se os fins forem rentáveis. Perante os factos, a transferência da rainha das audiências de um canal para o outro não pode ser interpretado como mero fait divers. O empolamento da situação podia ser apenas adorno na feira de vaidades, mas antes se transforma no símbolo mais doce de uma estupidez que já ninguém escandaliza. Resultado: que importa se o ídolo da nação fugiu ao fisco ou violou uma mulher? É o ídolo da nação, logo intocável. Ao contrário, habitantes do Bairro da Jamaica, ou quem os defenda, devem ser apontados como escândalo nacional, pois tudo quanto fizemos para integrá-los falhou. Integrá-los em quê? «Oh, não confiem nesta Avenida Névski! Eu, quando deambulo por ela, agasalho-me sempre o melhor possível na minha capa e tento não olhar para os objectos que encontro. É tudo engano, é tudo sonho, nada é o que parece!» 
   Minhas filhas, se ouvires dizer na tal Avenida que o nosso país tem um problema com as minorias, não vos esqueceis de quão minoritária é, pois, a minoria do bom senso. Em matéria de trafulhas, cromos para troca nunca faltam. Evitai, no entanto, fazer como Tchartkov, pois nem tudo é uma porcaria neste mundo. Em aprendendo a rir da porcaria, até se torna sustentável frequentá-lo. Com as devidas distâncias. Podemos olhar com graça tanto para um recluso que enfia 7 telemóveis no cu como para um magnata que se recusa a cumprir ordem para demolir WC com vista para o Palácio das Necessidades. Julgais fruto da minha imaginação tais notícias? Pois aí tendes 2019, o ano em que tudo quanto era inimaginável se tornou simplesmente vulgar. Os ficcionistas que se ponham a pau. Se quiserem surpreender, no futuro, terão de ser o mais sóbrios possível. Quem conseguirá aguentar estardalhaço sobre estardalhaço? Como nos contos de Gogól, o que no entretanto haverá de sonho ou realidade será tão destrinçável quanto o negro o é do preto. Perguntai às vítimas de violência doméstica que ao longo do ano contribuíram para as estatísticas de um país que surge entre os mais pacíficos do mundo. Se obtiveres resposta, dizei-me qual foi. 
   Escutar a um deputado da nação que “fake news” e populismo são tretas de Bruxelas  soa-nos aos ouvidos, deste modo, como recado acerca de uma “tísica galopante” que ameaça transformar-nos em “pequenos agiotas”, de juízes com listas negras a estrelas de canais televisivos. Das cheias em Moçambique ao ódio a uma jovem activista, da Amazónia em chamas à intimidação de humoristas, vai apenas  um twitt no “diário de um louco” capaz de celebrar o “crepúsculo do socialismo” ajoelhado aos pés de um bispo evangélico. Empreendedorismo é isto mesmo, minhas filhas, é manipular o poder com os tentáculos da religião, locomovendo tudo quanto possa servir à engorda dos cofres com que se operam milagres e se inventam "messias & mártires". Este mundo globalizado, escancarado às multinacionais, mas encerrado às pessoas, com muros erguidos um pouco por todo o lado (não é metáfora), é o mundo de loucos que vos espera. 
   Se os atentados continuarem pelo Sri Lanka, dai-vos por satisfeitas. Não se chega lá de caleche, meio de transporte utilizado por certa comunicação social para quem as auto-estradas da informação ainda estão cheias de portagens. Mais do que mostrar quanto há, mostra-se quanto convém. Daí que não importe mostrar o Chile, se convir mostrar a Venezuela, e assim sucessivamente. Depois, andaremos entretidos com cartoons proibidos, declarações de amor à China, elevados índices de abstenção, deputadas gagas, deputados patológicos, manifestações de polícias, injecções de capital, dívidas fantasma, operações stop, mercado de transferências milionárias, assessores de saias, peixes inteligentes, conseguindo vislumbrar maneira de chamar cultura superior a esta que continua tão entretida com o seu bem-estar encavalitado na desgraça alheia. Enfim, não deixa de ser verdade, como sabeis, que para se ser superior tem de alguém oferecer os ombros. Os inferiores. Ou, em versão actualizada: os outros que explorem o lítio, a gente depois dá-lhes o uso devido. 
   Inesperadamente, um final fantástico: «Na polícia foi emitida a ordem de apanhar o morto, custasse o que custasse, vivo ou morto, e de lhe ser aplicado impiedosamente o devido castigo, para edificação dos outros, e a empresa quase teve êxito». O morto somos nós, minhas filhas, nós que aceitamos o revisionismo histórico e a expurgação da memória como quem abraça alegremente o reino da estupidez, conformados por entre a loucura e a normalidade ter deixado de haver fronteiras, por entre a ficção e a realidade se terem esbatido muralhas, pois essas, agora, erguem-se apenas e cada vez mais na Terra para que possam ser garantidos aos ricos os condomínios fechados onde os pobres apenas entrarão para varrer ruas, lavar latrinas, colher lixo.