Mostrar mensagens com a etiqueta James Joyce. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta James Joyce. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 23 de julho de 2018

VERSÃO LIVRE PARA POEMA DE JAMES JOYCE


Da sua vida sombria, sem um amigo, sem paixão,
Eis, de facto, uma conclusão.

Não há lábios que beijem seus restos mortais,
Ó morte suja e incasta!
O anátema da solidão gera silêncio no alambique,
Cumprindo sua última vontade,
E a uma estreita tumba será pelo homem lançado,
Triste destino amargo.

Versão livre a partir de um dos poemas da juventude coligidos em Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 1991, p. 84.

sábado, 2 de dezembro de 2017

EPIFANIA #40


De uma viagem a Dublin, trouxe um livro de James Joyce: Poems and Shorter Writings (Faber and Faber, 2001), organizado por Richard Ellman, A. Walton Litz e John Whittier-Ferguson. A edição original data de 1991. Recolha diversa de poemas, aforismos, textos curtos entre os quais se destacam as Epifanias. Na introdução, diz-se que as 40 epifanias estão entre os mais relevantes textos da juventude de Joyce que sobreviveram no tempo. 40 de um total de 71, a servirem de ponte entre a primeira poesia e a ficção posterior. Muitos destes fragmentos, garatujados entre 1901 e 1904, acabaram por integrar a bibliografia posterior. Enquanto os vertia para português, tomando liberdades várias que não vale a pena justificar, fui recordando partes de livros tais como Ulisses, Dublinenses ou o Retrato do Artista Quando Jovem. Algumas aproximam-se de poemas em prosa, outras serão meros apanhados circunstanciais, há momentos dramáticos, líricos, eróticos, espirituais. A. Walton Litz sublinha dois tipos fundamentais de epifania, representativos dos pólos gémeos da arte joyceana: ironia dramática e sentimento lírico. Em suma, serão, terão sido, manifestações de um olhar atento às suas circunstâncias. O que há de epifânico nestes textos é tanto a revelação do objecto que leva ao texto como do próprio texto. Na sua aparente banalidade, estes textos desmistificadores manifestam anatomicamente a  sua estrutura enquanto representantes de uma determinada situação. Eis a última:

40

                                                         na Rua O’Connell:
                                                   [Dublin: ᴧ na farmácia
                                                   Hamilton, Long]

Gogarty — Isso é para Gogarty?
                                                                                             pagá-lo
O empregado de farmácia — (olha) — Sim, senhor. . . Vai levá-lo
                          consigo?  agora?
Gogarty — Não, envie-o ponha na
                         conta; envie-o depois. Você sabe
                         a morada.
                                        (pega numa caneta)
O empregado de farmácia — Sim       Si-im.
Gogarty — 5 Praça Rutland.
                                                                                        enquanto
O empregado de farmácia — (de si para si enquanto à medida que escreve)
                                                    . . 5 . .Praça. . .Rutland.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

EPIFANIAS #39

39

Ela está, com o livro ligeiramente mantido junto ao peito, a ler a lição. Contra o pano escuro do vestido a sua face, assinalada por uns olhos abatidos, surde suavemente delineada pela luz; e de uma boina dobrada, descuidadamente disposta, um pendão cai ao longo do seu castanho cabelo espiralado . . .
   Que lição estará a ler — sobre macacos, estranhas invenções, ou as lendas dos mártires? Quem sabe quão profundamente meditativa, quão reminiscente é esta graciosidade de Raffaello?

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

EPIFANIAS #38

38

                                               [Dublin: na esquina da
                                               Rua Connaught, Philbsborough]

O pequeno varão — (no portão do jardim). . Nhã. .o.
A primeira senhorita — (meio ajoelhada, pega na
         mão dele) — Bem, a Mabie
         é a tua querida?
O pequeno varão — Nhã. . .o.
A segunda senhorita — (inclinando-se sobre ele, olha
         para cima) — Quem é a tua
         querida?

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

sábado, 25 de novembro de 2017

EPIFANIAS #37

37

Encontro-me no convés, junto à casa das máquinas, de onde exala um cheiro a massa morna. Névoas gigantescas marcham sob as falésias francesas, obsidiando a costa de cabo a cabo. O mar movimenta-se ao som de diversas escalas. . . . Para lá dos muros de névoa, na escura igreja da catedral de Nossa Senhora, eu escuto o fulgor, incluindo as vozes de rapazes que por lá cantam diante do altar.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

EPIFANIAS #36

36

Sim, são as duas irmãs. A que está a bater natas com braços robustos (a sua manteiga é famosa) parece infeliz e sombria: a outra está feliz porque encontrou o seu caminho. Chama-se R. . . . Rina. Sei o verbo “ser” na língua delas.
                                     — És a Rina? —
Eu sabia que era.
Mas ei-lo o próprio num casaco de abas e com um chapéu alto à moda antiga. Ele ignora-as: caminha em passos curtos, fazendo sobressair as abas do seu casaco. . . . Deus meu! Quão pequeno é! Deve ser muito velho e fútil. . . . Talvez não seja o que eu. . . É curioso que aquelas duas grandes mulheres se tenham perdido por este pequeno homem. . . . Mas então ele é o maior homem do mundo. . . .

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

EPIFANIAS #35

35

                                       [Londres: numa casa em
                                       Kennington]

Eva Leslie — Sim, Maudie Leslie é ‘nha irmã e
Fred Leslie é mê irmão — ‘cê
ouviu falar do Fred Leslie? . . . (meditando) . . .
Ó, el’é um tipo que se ‘tá nas tintas. . . Ele ‘tá
longe de momento. . . . . . .
                           (mais tarde)
Ê disse-te qu’alguém foi comigo
dez vezes ‘ma noite. . . . Foi o
Fred — o mê próprio irmão Fred. . . .
(meditando). . . El’é linde. . . Ó Ê
amo mêmo o Fred. . . .

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

sábado, 18 de novembro de 2017

EPIFANIAS #34

34

Ela vem de noite quando a cidade se acalma; invisível, inaudível, todos desconvocados. Vem do seu ancestral assento para visitar o último dos seus filhos, mão mais venerável, como se ele nunca se tivesse alienado dela. Ela conhece o íntimo coração; daí que seja gentil, nada exigente; dizendo: eu sou susceptível de mudança, uma influência imaginária nos corações dos meus filhos. Quem tem pena de ti quando te encontras triste entre estranhos? Anos e anos eu te amei enquanto repousavas no meu ventre.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

domingo, 12 de novembro de 2017

EPIFANIAS #33

33

   Passam aos pares e em trios por entre a vida na avenida, caminhando como pessoas com tempo livre num espaço por eles iluminado. Estão na pastelaria, tagarelando, esmagando pequenas construções de pastelaria, ou silenciosamente sentados em mesas junto à porta do café, ou descendo de carruagens com agitados agasalhos suaves como a voz do adúltero. Passam num ar de perfumes: sob os perfumes os seus corpos têm um cheiro quente húmido. . . . . Nenhum homem os amou e eles não se amaram a si mesmos: nada deram por tudo quanto lhes foi dado.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

EPIFANIAS #32

32

A multidão pulula no recinto, movendo-se na lama. Uma mulher gorda passa, o seu vestido levanta-se audaciosamente, rosto inundado de laranja. Um jovem pálido com sotaque Cockney faz truques com as mangas da camisa e bebe directamente da garrafa. Um velho atarracado tem ratos no guarda-chuva; um polícia de botifarras aborda-o e apreende o guarda-chuva: o pequeno velho desaparece. Apostadores apregoam nomes e preços; um deles vocifera com a voz de uma criança —‘Bonny Boy!’ ‘Bonny Boy!’. . . Criaturas humanas pululam no recinto, andando para a frente e para trás na lama espessa. Algumas questionam se a corrida já começou; respondem-lhes que ‘Sim’ e que ‘Não.’ Uma banda começa a tocar. . . . . . Um belo cavalo castanho, com um cavaleiro amarelo a montá-lo, cintila distante à luz do sol.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

EPIFANIAS #31

31

   Aqui vamos juntos, caminheiros; eis-nos alojados, entre ruas intrincadas, de perto protegidos pela noite e pelo silêncio. Em afeição descansamos juntos, satisfeitos, não mais lembrando os desvios dos caminhos pelos quais viemos. O que se move sobre mim como uma inundação de escuridão subtil e murmurante, feroz e apaixonada com um movimento indecente dos lombos? O que salta de mim, chorando em resposta, como de águia para águia no meio do ar, chorando pelo triunfo, chorando por um iníquo abandono?

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

EPIFANIAS #30

30

Grafia de braços e vozes — os braços brancos dos caminhos, a promessa de abraços próximos, a os braços negros de navios altos parados diante da lua, contam-nos de nações distantes. Eles mantêm-se firmes para dizer: Estamos sós, — vinde. E as vozes dizem com eles, Nós somos o vosso povo. E o ar enche-se da sua companhia enquanto me chamam compatriota, preparando-se para partir, sacudindo as asas de uma terrível e exultante juventude.

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

EPIFANIAS #29

29

Uma longa galeria curvada: do chão emergem pilares de vapores escuros. Está povoada por imagens de reis fabulosos, incrustados na pedra. Têm as mãos dobradas sobre os joelhos, em sinal de fadiga, e os olhos escurecidos pelos erros humanos sobem por eles como vapores escuros.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

EPIFANIAS #28

28

As ondas resplandecem sob a noite sem luar. O navio entra num porto onde estão algumas luzes. O mar está inquieto, carregado de uma raiva fastidiosa como os olhos de um animal prestes a nascer, presa da sua própria fome impiedosa. A terra é plana e ligeiramente arborizada. Muitas pessoas estão reunidas na costa para verem qual é o navio que entra no seu porto.

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

sábado, 19 de agosto de 2017

EPIFANIAS #27

27

   Levemente, sob a pesada noite de Verão, através do silêncio da cidade que transformou sonhos num sono sem sonhos como um amante fatigado a quem nenhuma carícia sensibiliza, o som dos cascos sobre a estrada de Dublin. Não tão levemente agora que se aproximam da ponte; e momentaneamente, enquanto passam as janelas negras, o silêncio é cortado por alarme como que por uma seta. São agora escutados ao longe — cascos que brilham como diamantes entre a noite pesada, apressando-se para lá da cinza, pântanos quietos para o fim da jornada — qual coração — gerando que notícias?

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

EPIFANIAS #26

26

  Ela está comprometida. Dança com eles no salão — o vestido branco levanta-se levemente enquanto ela dança, um ramo branco no cabelo; olhos ligeiramente desviados, um ténue brilho na bochecha. A sua mão na minha por um instante, a mais suave das mercadorias.
— Você raramente vem aqui agora. —
— Sim, estou a tornar-me numa espécie de recluso. —
— Vi o seu irmão há dias . . . . . . Ele é
     muito parecido consigo. —
— A sério? —
   Ela dança com eles no salão— calmamente, discretamente, não se entregando a ninguém. O ramo branco amarrota-se enquanto ela dança, e quando ela fica na sombra o brilho é ainda mais fundo na sua bochecha.


James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

EPIFANIAS #25

25

   O rápido banho de luz terminou, mas permanece, qual conjunto de diamantes, entre os arbustos do pátio onde um eflúvio surge da terra negra. As raparigas estão na colunata, uma companhia de Abril. Vão deixar o abrigo, em muitas um olhar dúbio, com a cavaqueira de botas bem arranjadas e o belo resgate das anáguas, debaixo de sombrinhas, arsenal ligeiro, apoiados em ângulos astutos. Regressam ao convento — corredores recatados e dormitórios simples, um rosário branco de horas — tendo escutado as promessas justas da Primavera, essa embaixatriz bem agraciada. . . . . . .
   No meio de um país varrido pela chuva fica um alto edifício plano, com janelas que filtram a obscura luz do dia. Trezentos rapazes, barulhentos e famintos, sentam-se a comer em longas mesas bife guarnecido com gorduras saudáveis e vegetais que ainda são patente da terra.
  
James Joyce, in Shorter Writings
Versão de HMBF. 


quarta-feira, 5 de julho de 2017

EPIFANIAS #24

24

   O seu braço repousa por um momento nos meus joelhos e depois é afastado, e os seus olhos revelam-na — secreta, vigilante, um jardim fechado — momentaneamente. Recordo uma harmonia de vermelho e branco feita para alguém como ela, afirmando seus nomes e glórias, licitando a sua chegada como esposa, e vindo embora, licitando o seu olhar em frente, um esposo, de Amana e da montanha dos leopardos. E eu lembro-me da reacção a que a perfeita delicadeza do corpo e da alma se desfez com todo seu mistério: Inter ubera mea commorabitur.


James Joyce, in Shorter Writings. 
Versão de HMBF. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

EPIFANIAS #23

23

   Aquilo não é dançar. Desce até àquelas pessoas, jovem rapaz, e mostra-lhes como se dança. Ele esfola-se, sério e ágil, para dançar ante a multidão. Não há música para ele. Começa a dançar lá em baixo no anfiteatro com um lento e flexível movimento dos membros, passando de movimento para movimento, na graça total da juventude e da distância, até parecer um corpo giratório, uma aranha a rodar no meio do espaço, uma estrela. Desejo gritar-lhe palavras de louvor, gritar arrogantemente sobre as cabeças da multidão ‘Vejam! Vejam!’ . . . . . A sua forma de dançar não é como a das rameiras, não é como a dança das filhas de Herodias. Emerge do meio das pessoas, súbita e jovem e masculina, e mergulha de novo na terra em trémulos soluços para morrer triunfalmente.

James Joyce, in Shorter Writings.


Versão de HMBF

segunda-feira, 19 de junho de 2017

EPIFANIAS #22

22

                                                 [Dublin: na Biblioteca Nacional]
Skeffington — Fiquei triste ao ouvir da morte do
         seu irmão. . . .lamento não o termos
         sabido a tempo. . . . .de irmos ao
         funeral. . . . .
Joyce — Ó, ele era muito novo. . . .um rapaz. . . .
Skeffington — Ainda assim. . . . .dói. . . .

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.