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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

EPITÁFIO

Aqui estou
a falar com uma pedra.
Será que me ouves?
Se ouves
o que dirias?
E se dissesses
ouvir-te-ia eu?

A., 23 de Agosto de 2024.

domingo, 4 de agosto de 2024

A PARTIR DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

 
Continuo a escrever no meio das pedras
sem sequer o rumor da folhagem
cego de luz e de sombra
com uma voz cada vez mais nua
 
Continuo em busca de paz
dos ninhos onde o silêncio se acoita do mundo
alimentando suas crias (as palavras)
com restos de imagens colhidas no campo
 
Persigo a clareza da frase justa
sem os jogos
que entretêm a vocação humana
dos animais
 
sempre tão competitivos
desonestos
cativos no ovo de frustração
cuja casca não logram quebrar
por lhes faltar a pétrea lâmina da verdade
 
Samoqueiro, 4 de Agosto de 2024

quarta-feira, 31 de julho de 2024

A PARTIR DE ANTONIO CISNEROS

 

A tua primeira actividade
consiste em apedrejar as gaivotas
mas sempre convencido
de não poder tocar-lhes
nem na terra nem no voo
 
Depois procura a nebulosa
de onde possas avistar
o desembarque das ondas
e os mamíferos que nelas buscam
esquecer-se das manhãs trágicas
 
Pergunta às rochas a hora do dia
com elas aprenderás rapidamente
uma linguagem nítida
que tornará claro porque vives
do lado em que o horizonte acaba
 
Praia do Carvalhal, 31 de Julho de 2024

COSMOS BIPINNATUS

 


 

Como aqui chegaste, cosmos?
Trazida por mão humana
ou no regaço do vento?
Seja como for, és a luz dos caminhos
percorridos por quem trabalha a terra
e por quem na terra busca
abrigar-se de trabalhos.
Não esperas da pedra que fale
nem da erva que ande
nem do mar que obedeça
nem do céu que rasteje.
Não esperas da terra que espere.
És o que és e talvez não penses.
Invejo-te mais que a todos os homens.
 
Taliscas, 31 de Julho de 2024.


segunda-feira, 29 de julho de 2024

A PARTIR DE INGER CHRISTENSEN

 
Escrevo como a água na praia
escreve a maré alta das nuvens negras
ou como o relâmpago
que clareia noites brancas de sonho
 
Escrevo como a cigarra
estranhamente silenciosa
o grilo adormecido ao sol
ou talvez o pássaro que protesta
entre os ramos da figueira
 
Escrevo como as maçãs silvestres
no bico das aves
terra que se alimenta da terra
e semeia e rega e floresce
para ser colhida pela língua
e na boca mastigada
 
Escrevo como a sombra que existe
do corpo ausente
e da voz inaudível
dos mortos que em mim perduram
 
Praia dos Alteirinhos, 29 de Julho de 2024

domingo, 28 de julho de 2024

A PARTIR DE LAWRENCE FERLINGHETTI

 
Conquanto cantassem os grilos
não os escutarias
porque a eles sobrepor-se-ia
o motor da dor
a lotar o corpo de ruído
ou a voz de alguém
incapaz de respirar em silêncio
ou a memória de Salomé
a olhar a cabeça de João Baptista
pedindo-lhe que fizesse outra cara
ou os romanos a pregar Cristo na cruz
esperando que ele sorrisse
 
Brejão, 28 de Julho de 2024

segunda-feira, 22 de julho de 2024

A ÚNICA PALAVRA

 
Não permitirei que o ódio me contamine
corroendo o ânimo tão dificilmente conquistado
de uma vida lado a lado
com a perda e a vitória
com o fracasso e o sucesso
com a morte
com a vã glória de julgar alcançados
e decididamente instituídos
os direitos de quem sonha e constrói
de quem por paixão a liberdade emenda
a cada acto de inspirar expirar
o fim a que se propõe
 
Não
Não permitirei que escavem à minha volta
a voragem do desespero
fazendo-me crer no mal absoluto
de coisas tão concretas como o sangue
empurrando-me para onde tombam desarmados
em trincheiras anónimas
e valas comuns
aqueles a quem deus cobrou o pranto
de uma fúria sem fins
 
Porque tudo neles é vazio e oco
apocalíptico desprezo e raiva
tudo neles tolhido pelo medo
pelo pânico que o arco-íris institui
no olhar perdido de quem teme
tudo neles treme
enquanto em mim palpita o desejo de estar
onde o brota o sonho e a utopia espreita
 
Não permitirei que o ódio contamine
a vontade com que declaro amor
a tudo quanto no mundo aclara o pensamento
o pássaro puro na árvore despida
desta luz que diariamente desperta do sono
as manhãs de inverno
o vento a silvar nas noites de verão
espalhando sementes pelos pântanos da primavera
espalhando pela terra flores caídas de outono
que crepitam ao longo da caminhada
 
Não
Não permitirei que a cada passo
o olhar furtivo das sombras ameace
por cima dos ombros o peso da desigualdade
 
Porque eu só espero da vida o bem de vivê-la
sem medo
a sós comigo na companhia dos outros
ofertando e colhendo
partilhando e estremecendo
a cada minuto de espanto
no silêncio das águas mergulhado
a respiração boca a boca
da única palavra digna de ser pronunciada
essa mesma que agora calo
por não pretender conspurcá-la
 
quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

quarta-feira, 17 de julho de 2024

COPIADO DE GUNNAR EKELÖF

Qual considera ser a sua missão na vida?
Encontrar missão que justifique o esforço.
Quais as suas convicções políticas?
Amem-se uns aos outros, deixem-me
em paz. Não gosto de orgias.
A sua opinião em religião - se a tem?
Só faz sentido nos cemitérios.
O que procura nas pessoas? A verdade,
isto é, o medo, ou seja, solidão, talvez
um pouco de ódio como sal no tomate,
mas para ser sincero o que mais procuro
nas pessoas é distância, queria ser
insecto, um plácido e anódino insecto,
ou árvore milenar no centro inacessível
da floresta, gelo, pedra, pura divagação.
O que procura nos livros? Profundidade filosófica?
Vastidão? Elevação? Épica? Lírica?
Procuro um acelerador do tempo.
Qual é a coisa mais bela que conhece?
Não responderei por precaução, sempre
que partilho o belo sinto que o torno feio.
O seu hobby preferido? Dormir.
O seu pecado favorito? A confissão.
E para concluir (tão brevemente quanto possível):
Porque é que escreve? Sabe, a poesia
é o mundo a abrir os olhos. Escrevo para ver.
 
quinta-feira, 3 de Abril de 2014