sexta-feira, 1 de maio de 2026
FILMES
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
UM FILME
Um filme: Valor Sentimental (2025), Joachim Trier (Noruega, 1974). Será alguma coisa ao Lars von Trier? Belo filme nos ofereceu com um dos actores fetiche do segundo: Stellan Skarsgård. Como fixar o nome do sueco? O mesmo problema com o dinamarquês Mads Mikkelsen. Tudo gente que me tem oferecido horas de infindável deleite. Tão diferente de Cão Preto (2024), do chinês Guan Hu, Valor Sentimental é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. A relação distante entre um pai cineasta e uma filha actriz de teatro, aproximada pela perda no interior de uma casa de família por onde passaram várias gerações. Uma história de família que é mais do que uma história de família, é também metacinema, criação, com o tema do suicídio presente de um modo subtil mas profundo. Tenho de colar este nome à memória: Stellan Skarsgård. Serei capaz?
domingo, 15 de fevereiro de 2026
ROBERT DUVALL (1931-2026)
Não me lembro dele n'O Padrinho, saga que me passou ao lado, mas recordo-o em Joe Kidd (1972), de John Sturges, e True Grit (1962), de Henry Hathaway, dois westerns de boa memória. Open Range (2003), mais recente, é outro dos westerns em que entrou. Um actor excepcional, nem sempre como protagonista. Presença mítica em Apocalypse Now (1979) ou como detective à beira da reforma em Um Dia de Fúria (1993). O Apóstolo (1997) foi o papel de uma vida, grande filme que também escreveu e realizou, mas em O Juiz (2014), um dos últimos filmes que fez, brilhou com extraordinária maturidade.
quinta-feira, 11 de julho de 2024
SHELLEY DUVALL (1949-2024)
Cada qual tem as suas pancadas. Shelley Duvall (1949-2024) era uma das minhas. Acho que a culpa foi da Olívia Palito no Popeye (1980) de Robert Altman, em contracena com o malogrado Robin Williams. Também de Altman é o comedy western Buffalo Bill and the Indians, or Sitting Bull’sHistory Lesson/Buffallo Bill e os Índios (1976), em que Duvall aparecia ao lado de estrelas como Burt Lancaster, Paul Newman, Harvey Keitel ou Geraldine Chaplin. E no magnífico McCabe & Mrs. Miller (1971) aparece ao lado de Warren Beatty e de Julie Christie. Uma curiosidade: no western de 76, o escritor E.L. Doctorow integrou o corpo de actores. Há "Annie Hall", antes de ter havido o insuperável "Shining" (provavelmente o meu preferido de Stanley Kubrick). Obrigado senhora Duvall, continuarei a vê-la por aí.
domingo, 18 de fevereiro de 2024
MÁQUINA FANTÁSTICA
sábado, 27 de janeiro de 2024
ONODA
segunda-feira, 14 de agosto de 2023
SR.
Acabei de ver "Sr." (2022), documentário de Chris Smith (1970) para a Netflix. Em causa, família e actividade artística na relação de Robert Downey Jr. com Robert Downey Sr., vítima de Parkinson em 2021. Objecto de risco, inevitavelmente emocionante, com pai e filho aproximados pelo trabalho num processo de despedida. Fiquei bastante curioso sobre a obra satírica de Robert Sr., que desconheço quase por completo. Há várias referências no documentário que me abriram o apetite, nomeadamente os filmes "Putney Swope" (1969) e "Greaser's Palace" (1972). Ainda por cima era homem de bom gosto em matéria de literatura, como se comprova no frame aqui partilhado.
quarta-feira, 7 de setembro de 2022
MINAS E MINEIROS
Talvez não saibam que o filme “O Vale era Verde” (1941) esteve para ser realizado por William Wyler (1902-1981). Divergências com o produtor Darryl F. Zanuck (1902-1979) acabaram por afastá-lo, tendo a opção recaído sobre John Ford (1894-1973). No centro da discussão esteve o argumento baseado num romance de Richard Llewellyn (1906-1983). O livro é sobre a vida numa cidade mineira do País de Gales, mas os produtores não queriam que o argumento inspirasse polémicas acerca dos direitos dos trabalhadores. A questão laboral, central no livro, deveria ser acessória no filme. Quando ouvirem falar na máquina de propaganda de Hollywood pensem nestas coisas. A Inglaterra estava em guerra com a Alemanha nazi. Os americanos, neutrais até aos ataques japoneses de Pearl Harbor, em Dezembro de 1941, não queriam ferir susceptibilidades inglesas. Com Ford a conversa foi outra: «Antes do início da produção, a Fox estava nervosa em relação o filme, em particular, no respeitante à possibilidade de haver linguagem anti-britânica nas cenas da greve dos mineiros. Nessa altura da rodagem, um produtor escreve a Zanuck: «Não é oportuno fazer este filme agora. Não se devem atirar pedras à Inglaterra. Adie-se para depois das hostilidades.» Zanuck não lhe dera ouvidos, e Ford, numa das suas poucas revisões textuais do guião, atribuíra uma importância acrescida à greve, parafraseando a linguagem pró-sindicalista de Roosevelt no diálogo dos mineiros. Nas suas mãos, o clã galês no centro do enredo tornou-se, em espírito, semelhante à sua família irlandesa. Ford contou mais tarde que a actriz Sara Allgood, que fazia de matriarca, «parecia a minha mãe e eu pu-la a agir como a minha mãe». Toda e qualquer preocupação que a Fox pudesse ter sentido desapareceu quando Zanuck viu que, mesmo a preto e branco e com um orçamento muito mais modesto do que o previsto, Ford criara uma saga familiar exuberantemente emocional e comovente.» (Mark Harris, “Os Cinco Magníficos”) E assim os bons sentimentos da humilde família de mineiros, a par dos conflitos morais na cabeça do pároco da povoação galesa, disfarçaram a luta dos trabalhadores num contexto de extrema opressão e até de humilhação. Tudo equilibrado, pôde o filme avançar para o sucesso na bilheteira e junto de uma crítica que também não estava muito interessada nas condições de trabalho nas minas do País de Gales.
terça-feira, 19 de julho de 2022
CINEMATÓGRAFO
Sempre
que está de férias, o cinéfilo nostálgico lembra-se de Bonjour Tristesse, de
Otto Preminger. O romântico pessimista lembra-se de Mónica e o Desejo, de
Ingmar Bergman. O optimista lembra-se de Conto de Verão, de Éric Rohmer. O
cinéfilo paranóico lembra-se de Brincadeiras Perigosas, de Michael Haneke e o
medroso, como é óbvio, só pensa no Tubarão, de Spielberg. O cinéfilo
aventureiro lembra-se de A Praia, de Danny Boyle, e o trágico passa o tempo a
pensar em O Náufrago, de Robert Zemeckis. O cinéfilo solitário com tendências
suicidas pensa em Into The Wild, de Sean Penn, e o cinéfilo obcecado por
política não consegue deixar de pensar em Babel, de Alejandro González
Iñárritu. O cinéfilo de bom gosto lembra-se de Kikujiro, de Takeshi Kitano, e o
de péssimo gosto lembra-se de uma qualquer comédia sobre férias catastróficas.
Há várias e são todas péssimas.
terça-feira, 3 de maio de 2022
CINEMATÓGRAFO #8
sexta-feira, 29 de abril de 2022
UM FILME EM FORMA DE ASSIM
É difícil de entender se o entusiasmo com que assistimos a “Um Filme em Forma de Assim” (2022) tem mais que ver com o filme em si ou com o sentimento de respeito inspirado pela obra de Alexandre O’Neill (1924-1986). Depois de nos últimos anos se ter dedicado a abordar cinematograficamente algumas das mais relevantes obras da literatura portuguesa — “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (2020), “Peregrinação” (2017), “Os Maias: Cenas da Vida Romântica” (2014), “Filme do Desassossego” (2010) —, não era de todo imprevisível que João Botelho (n. 1949) penetrasse no universo de O’Neill. Afinal é o autor de “Um Adeus Português” (1986), filme que pediu de empréstimo o título ao mais belo poema de amor alguma vez escrito em língua portuguesa. E é precisamente com versos desse poema que “Um Filme em Forma de Assim” remata o périplo o’neilliano, traçado por um argumento escrito a meias com a biógrafa e ensaísta Maria Antónia Oliveira. O ponto de partida parece ter sido o “Auto-retrato” incluído em “Poemas com Endereço” (1962), mas há qualquer coisa anterior a esses versos que tece a malha poética da película. É o plano que nos mostra a Lisboa remanchada reconstruída em estúdio, rizoma de uma obra heteróclita que atravessou géneros e formas sempre com o mesmo pano de fundo. Lá estão os cafés e as noitadas, o povo anónimo das ruas, os velhos de “A Saca de Orelhas” (1979) e os desenquadros de uma existência quotidiana registada com sentido de humor invulgar porque dentro do riso nele patente repousa uma tristeza latente. E estão também episódios conhecidos da vida doméstica, a crónica falta de dinheiro, a loja de penhores, o pai e as mulheres, sempre as mulheres. Nisso, o filme completa-se recriando mais o universo literário do que obedecendo a quaisquer normas de género. Não é um filme biográfico, estando por lá a biografia, não é um filme de sketches, construindo-se de ligações entre crónicas várias, é um filme poético porque nele respiram os versos e a música própria que os anima. Neste sentido, impõe-se um sublinhado à música de Daniel Bernardes. Se alguma coisa de concreto este filme é, então chame-se-lhe musical. Musical como um poema o é também, tingido de jazz e de música erudita, canto lírico e até, imagine-se, um condimento de techno lá mais para o final, numa cena capaz de causar desconforto a quem viva obcecado com a lógica das coisas. Impressiona, portanto, o ritmo, a construção da sinfonia com as cenas ligando-se umas às outras em sequências desenhadas em torno das palavras do poeta que assim orou: «Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja, / que o absurdo, mesmo em curtas doses, / defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!» Foi nisto que pensei no final: quanto de melancolia não haverá naquela Lisboa remanchada, tão aparentemente ligeira, tão risível no comezinho e pícara, se assim podemos dizê-lo, nos hábitos e nos costumes? Será a de hoje, com o turismo e a gentrificação, diferente daquela? Não sei que não lá moro, mas apercebo-me, sempre que por lá ando, de uma debandada para a periferia que tem deixado o centro entregue aos aromas e aos paladares estrangeiros. Como se a cidade no geral, os bairros dentro dela em particular, se tivesse transformado num não-lugar. Talvez por isso, ou por não o haver entendido, só não gostei do plano final, aquela mão cheia de fatalismo ondulante a vir na minha direcção como uma coisa em forma de assim. Quanto ao mais foi um mimo, concerto de poesia em movimento.
terça-feira, 19 de abril de 2022
CINEMATÓGRAFO #7
sexta-feira, 15 de abril de 2022
CINEMATÓGRAFO #6
Nunca lamentei não ter fé, prescindo da companhia dos deuses. Não é por arrogância, é por falta de necessidade. Sou cristão por herança cultural. Fui baptizado e fiz a primeira comunhão, infelizmente e contrariado. Estudei na Universidade Católica, por opção. Conheço relativamente bem os meandros do catolicismo para o renegar veementemente. Sou leitor assíduo da “Bíblia”, magnífico compêndio literário repleto de disparates, poesia, fábulas e absurdos, paradoxos, histórias terríveis e fantásticas. A “Bíblia” é bíblica não por revelar a palavra de Deus, que não tem palavra alguma, mas por nos oferecer exemplos de quase tudo quanto é possível em matéria de ficção. Melhor só “A Vida e Opiniões de Tristram Shandy”, “Ulysses” ou o “Livro do Desassossego”. Sei rezar e às rezes rezo, como quem recita um mantra, que também recito, ou como quem canta uma canção para seus males espantar. Detesto cada vez mais a hipocrisia em todos os domínios da existência, seja ela política ou religiosa. As igrejas, tal como os comícios, estão cheias de hipócritas a aplaudir o que não praticam e a exigir aos outros o que os próprios se eximem de fazer. Com a Igreja Católica Apostólica Românica isso é mais evidente porque se trata de uma instituição que exige muito aos seus fiéis, exige tanto que os deixa sem espaço de manobra. O pecado é inevitável. Mas isto tem uma razão de ser. É pelo reconhecimento do pecado que a fé se afirma. Quanto mais o pecador se assumir pela confissão, mais próximo de Deus estará. Abençoados os pecadores que confessam os seus pecados, como a ICAR vem fazendo recentemente em matérias por demais conhecidas. É da lógica deles, autoperdoarem-se pelos crimes cometidos. Os ímpios não terão a mesma sorte, serão directamente encaminhados para o Inferno. “A Vida de Brian” (1979) é uma comédia genial dos Monty Python que não tem a pretensão de explicar estas coisas, embora o faça explorando uma sequência de equívocos desde o nascimento até à crucificação do malogrado Brian. Confundido com o messias, vê-se enredado numa teia de enganos em que religião e política se misturam. Jesus a pregar para uma multidão que o não consegue escutar por falta de amplificação, a resistência palestina dividida enquanto se perde em procedimentos burocráticos e num labirinto de falácias, são material pedagógico indispensável por estes dias de via-sacra. Lá para o fim, a Frente Popular Judaica apresenta-se a serviço com o seu esquadrão suicida. Respondendo à ordem de ataque, desembainham as espadas cravando-as de imediato no próprio corpo. Tombam todos mortos. «Mostrámos-lhes como era, não foi?», questiona o chefe do esquadrão antes de tombar no campo de honra. Foi, digo eu. Mostraram bem e foram altamente esclarecedores. A realização é de Terry Jones.
quinta-feira, 14 de abril de 2022
CINEMATÓGRAFO #5
Notícias recentes acerca de zoológicos sob ameaça empurraram-me para “Underground – Era uma vez um país” (1995), sátira política sobre a desintegração da Jugoslávia filmada por Emir Kusturica (1954), natural de Sarajevo, em cima dos acontecimentos. A sequência inicial, que retrata a chegada dos alemães a Belgrado durante a II Grande Guerra, é um tratado sobre os absurdos da guerra. Bombas caem sobre um Jardim Zoológico, matando, ferindo, deixando à solta animais selvagens, que ali sobreviviam encarcerados para deleite dos homens. O chimpanzé em agonia nos braços de Ivan, o tratador, é das imagens que guardarei para a vida como exemplo das contradições humanas neste mundo em que fomos aconselhados a multiplicarmo-nos para exercermos o nosso domínio sobre as outras criaturas na Terra. Revê-la agora, em DVD, não produz o mesmo efeito outrora sentido na sala de cinema, o que apenas reforça uma ideia atribuída a Hitchcock que vi citada num livro de Fernando Guerreiro: «o cinema consistia antes de mais num “conjunto de cadeiras” que antecedia e criava o lugar para a vinda dos espectadores, objectivando deste modo as condições institucionais (as de uma “instalação imaginária”) para que a sensação (experiência) do cinema se processasse como uma cerimónia (ritual) em que imerge (e se tende a dissolver) o indivíduo». Na solidão do lar somos demasiadamente indivíduos, perde-se não apenas o efeito sonoro da estrondosa música de Goran Bregović mas também, e talvez sobretudo, a possibilidade de nos comovermos entre a multidão. É uma espécie de ritual religioso sem corpo de Deus, o qual se afirma pela ausência no filme de Kusturica. Muito se escreveu sobre a alegoria da caverna a propósito de “Underground”, talvez sem se compreender a dimensão eufemística da comparação. Lá mais para diante, com Ivan internado no hospício, a conversa entre os psiquiatras oferece à problemática platónica uma dimensão que transcende a do conhecimento: «O comunismo era todo ele uma cave… O planeta é todo ele uma cave. Apetecia-me ir este Verão a Portugal, talvez ele saiba de uma estrada subterrânea até lá…» Referiam-se, em tom de gozo, ao frágil Ivan, o único que ao longo do filme não se comporta como um louco.
segunda-feira, 11 de abril de 2022
CINEMATÓGRAFO #4
Bem diferente do rapaz de etnia cigana dirigido por Truffaut em “O Menino Selvagem”, Brandon deWilde (1942-1972) já tinha experiência de palco quando George Stevens (1904-1975) o requisitou para o papel de Joey no western que, segundo o próprio realizador, era o seu testemunho de guerra. Graças a “Shane” (1953) ganhei o vício dos chamados filmes de cowboys. Tenho hoje com ele uma relação mais sentimental do que outra coisa, continuando porém a comover-me com aqueles apelos finais do pequeno Joey enquanto Shane se afasta montado no seu cavalo. Shane, grita, mas Shane nem sequer pára ou olha para trás. Alan Ladd (1913-1964), demasiado lavado e pouco inquietado emocionalmente, situa-se a milhas dos meus pistoleiros de eleição. Representa a figura do bom pistoleiro, herói higienizado para consumo moral, movido por causas justas e, para meu gosto, excessivamente piegas. O próprio George Stevens disse que realizou o filme por razões pedagógicas, preocupado que andava com a popularidade dos westerns mais violentos junto do público infantil. Há uma função desmistificadora nesta obra que a transforma num produto interessante para ver num domingo à tarde, não faltando os ingredientes essenciais: uma família tradicional, um jovem ingénuo na companhia do seu amável cãozinho, uma comunidade de gente boa e frágil sob ameaça de um ambicioso e prepotente empresário da região. As questões de justiça mantêm-se actuais, como acontece, de resto, nos melhores filmes do género. Os agricultores são importunados pelo criador de gado que lhes quer ficar com as terras, para que as manadas de vacas tenham pasto e ele possa prosperar onde meia dúzia de famílias se esforçam por sobreviver. Uma questão de terras, portanto. O progresso precisa de espaço, daí a invenção da construção em altura. Shane, o pistoleiro caído do céu, será uma espécie de anjo protector a quem caberá fazer frente aos mercenários do poderoso oligarca. Jack Palance é um desses mercenários, fora-da-lei de coldre duplo especificamente contratado para fazer o jogo sujo. E olhem só que tipo de jogo sujo ele faz: provoca com insultos até ser o outro a sacar a arma, certo de que nenhum daqueles indefesos porqueiros — à época ainda não havia suinicultores — dominará o revólver como ele domina ou terá a rapidez que ele tem. Excepto Shane, claro. Há coisas que nunca mudam.
quarta-feira, 6 de abril de 2022
CINEMATÓGRAFO #3
Talvez venha de Tarzan, este fascínio por tudo quanto se opõe à civilização. Mais tarde, pendi quase sempre para o lado índio nos westerns. Não foi com repulsa que escarneci de Vieira por chamar bárbaros aos indígenas, foi já com a consciência de uma selva devastada pelo progresso cujo ódio é o mais eficaz dos combustíveis. Aos 15 ofereceram-me “O Papalagui”, porta aberta para uma autocrítica ainda ignorante do logro e do malogro em torno do autor dessas páginas. A propósito de “O Coração das Trevas” fala-se do resgate de um homem para a civilização, ao contrário do que se fala em “Walden”. Thoreau sentiu necessidade de se isolar nos bosques, distanciando-se do mundo civilizado a que regressou posteriormente. Que apelo era esse senão a esperança de se reencontrar com uma raiz cerceada sem remédio? Inspirou e continua a inspirar imensa gente para quem a vida selvagem não é apenas um fetiche que se compraz com postais de roteiros turísticos. Ao contrário, é um mistério por resolver nas selvas de cimento em que a barbárie se perpetua ao som de música erudita. Diz-se que “O Menino Selvagem” (1970) baseia-se na história de Victor de Aveyron, um rapaz encontrado no meio dos bosques onde terá crescido como um animal. É selvagem porque se comporta sem educação, ao contrário de outras crianças da mesma idade que se comportam como seres instruídos. Isto é, maltratam Victor quando lhe põem as mãos em cima. O filme surge 11 anos passados sobre “Os Quatrocentos Golpes”, primeira longa-metragem de François Truffaut (1932-1984). O jovem rebelde que foge da civilização na direcção do mar dá lugar a um jovem selvagem capturado pela civilização, colocando-se o próprio Truffaut no papel de domesticador. Já agora, diga-se que Jean-Pierre Cargol, a criança escolhida para o papel de selvagem, é de origem cigana (conhecido por Rey Cargol no mundo da música). Isto hoje talvez gerasse polémica. Acho “O Menino Selvagem” um filme bastante triste, prefiro o travelling final do desertor Antoine Doinel (provavelmente também ele baseado em factos… autobiográficos). Ainda assim é um dos meus filmes preferidos, suponho que pela contradição que nele encontrei entre os vícios da cultura e as virtudes da selva… da animalidade… dos instintos. Só não lhe chamem barbárie, essa foi monopolizada pelo homem doméstico das grandes civilizações.
terça-feira, 5 de abril de 2022
CINEMATÓGRAFO #2
Um capitão prestes a enlouquecer é destacado para executar um coronel descompensado. A missão ao longo do rio Nung tem por cenário a guerra do Vietname (1955-1975), mas os argumentistas de “Apocalypse Now” (1979) basearam-se em “O Coração das Trevas” (1899) de Joseph Conrad (1857-1924). De seu verdadeiro nome Jósef Teodor Conrad Korzeniowski, nascido em Berdiczów, cidade ucraniana da província de Zhytomyr, recentemente fustigada pelos mísseis russos, Conrad era de origem polaca e tornou-se marinheiro em França. Foi já no ano de 1890 que embarcou no continente africano, surgindo aí o “Diário do Congo” que deu origem a “O Coração das Trevas”. No livro, o horror tem como pano de fundo o Congo belga do terrível Leopoldo II. Marlow é contratado para transportar marfim e devolver à civilização Kurtz, chefe num interposto comercial: «Lutei com a morte. É o combate menos estimulante que podem imaginar». No filme, o capitão Willard (Martin Sheen) vai ao encontro do coronel Kurtz (Marlon Brando) para o matar. O significado do horror liga as duas histórias, estando no filme de Francis Ford Coppola (1939) inteiramente associado aos efeitos da guerra na alma dos homens. A viagem ao longo do rio é uma Via Crúcis pautada por estações delirantes, absurdas, em que aldeias são dizimadas por bombas de napalm para que coronéis possam surfar umas ondas em sossego. O possível dentro do impossível. A certa altura, um espectáculo com coelhinhas da playboy degenera numa batalha campal. Pouco depois, uma das raparigas faz sexo ao lado de um cadáver. Massacres de camponeses, batalhões sem comando, soldados alucinados por ácidos, até uma família de franceses que se recusa abandonar a Indochina, surgem como etapas na direcção de uma loucura normalizada que é, à laia de conclusão, a razão de ser da guerra e do horror. «Achas os meus métodos pouco saudáveis?», pergunta o coronel Kurtz. «Não vejo método nenhum», responde o capitão Willard. É esta ausência de método, pelo menos aparentemente, o que mais fere a sensibilidade de quem não vislumbra razão nenhuma na prática corrente da violência. Já não se trata de viver com o dedo a auscultar permanentemente o pulso, mas antes de temer auscultá-lo e não ouvir nada por ter dentro de um ser ainda vivo o coração deixado de bater.
domingo, 3 de abril de 2022
CINEMATÓGRAFO #1
Resolvi rever os filmes da minha vida antes que o mundo acabe. Comecei ontem e não sei com que frequência cumprirei tal objectivo, desejando honestamente antecipar-me ao Apocalipse. Sem qualquer desejo de provocação, muito menos sem intuitos políticos, dei início ao périplo com um filme soviético. Para sermos exactos, Dziga Vertov (1896-1954) nasceu numa cidade actualmente polaca, Białystok, ao seu tempo anexada pelo Império Russo. Antes de se ter dedicado ao cinema, Vertov foi músico. Há quem lhe atribua a invenção da música concreta. “O Homem da Câmara de Filmar” (1929) é, em boa verdade, uma peça sinfónica composta por imagens, acompanhada então por música ao vivo nos teatros onde era exibido. Começa exactamente com a sala a encher-se de gente, a orquestra preparada para acompanhar a projecção, a primeira imagem a surdir na tela. Altamente experimental, disse-me um amigo que estudou cinema ser hoje abordado enquanto “tratado de linguagem cinematográfica”. Faz sentido. É puro metacinema, o homem da câmara de filmar filma-se a si mesmo a filmar, por vezes em poses arriscadas que mostram ao público como conseguia ele obter aqueles planos surpreendentes. O autor chamou-lhe cine-olho, sem argumento, sem actores, a vida tal como ela é, documentada, porém, com o recurso a truques técnicos que, afinal, tornam tudo altamente irónico, pois nada de real há num homem com uma câmara de filmar dentro de uma caneca de cerveja. Tento imaginar o espanto e o assombro do público a verem os mendigos que dormiam na rua, uma mulher de pernas abertas a dar à luz, uma rapariga a disparar contra a cruz suástica no chapéu de um boneco de feira, um dia na Moscovo agitada de então, com o homem da câmara de filmar aparecendo e desaparecendo nos lugares mais inusitados. Uma curiosidade: ao longo dos anos, e já lá vai quase um século, várias foram as bandas sonoras imaginadas para este filme. Há delas para todos os gostos. A do DVD que tenho em casa é da responsabilidade da norte-americana Alloy Orchestra, mas sugerem-se a de Michael Nyman, disponível noutros DVDs, e a dos The Cinematic Orchestra, disponível em CD.
sábado, 15 de agosto de 2020
COMPLEXO DE STEPHEN
É uma das personagens mais marcantes de que tenho memória
e, sem dúvida, o melhor desempenho do actor Samuel L. Jackson. Um dia
far-lhe-ão justiça, quando entenderem quanto de inteligência crítica pode a
cultura popular suportar. Há cada vez mais mordomos Stephen neste mundo e a
razão de assim ser nada tem de auspicioso. Sinal dos tempos, sentirmo-nos mais
seguros ao lado de quem nos oprime e humilha. Servindo, claro, servindo com
reverência e zelo como outrora serviram os parabolanos e agora servem aqueles
que são mais papistas do que o Papa. Que fazer com esta gente? Não lhes dar a
relevância que não merecem, talvez seja a melhor opção.







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