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sábado, 15 de agosto de 2020

COMPLEXO DE STEPHEN

 


É uma das personagens mais marcantes de que tenho memória e, sem dúvida, o melhor desempenho do actor Samuel L. Jackson. Um dia far-lhe-ão justiça, quando entenderem quanto de inteligência crítica pode a cultura popular suportar. Há cada vez mais mordomos Stephen neste mundo e a razão de assim ser nada tem de auspicioso. Sinal dos tempos, sentirmo-nos mais seguros ao lado de quem nos oprime e humilha. Servindo, claro, servindo com reverência e zelo como outrora serviram os parabolanos e agora servem aqueles que são mais papistas do que o Papa. Que fazer com esta gente? Não lhes dar a relevância que não merecem, talvez seja a melhor opção.


terça-feira, 12 de maio de 2020

MICHEL PICCOLI (1925-2020)



Extraordinário actor francês, Michel Piccoli filmou com os melhores. Jean-Luc Godard recrutou-o para “O Desprezo” (1963), Luis Buñuel ofereceu-lhe palco em vários dos seus filmes, com Alain Resnais filmou “A Guerra Acabou” (1966). Entrou no “Topázio”, de Hitchcock, filmou com  Nanni Moretti, Jacques Rivette, Louis Malle, Agnès Varda, entre tantos outros. O nosso Manoel de Oliveira trabalhou com Piccoli em “Party”, no extraordinário “Vou para Casa”, em “Espelho Mágico” e “Belle Toujours”… Politicamente activo, foi um empenhado opositor da ascensão da extrema-direita francesa.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

JERRY STILLER (1927-2020)


Pai de Ben Stiller na vida real, foi pai de George Constanza na popular série humorística Seinfeld. No activo desde 1957, participou em inúmeras séries para televisão. Foi sobretudo comediante, actividade em que começou por se destacar ao lado de Anne Meara. Eram uma dupla de sucesso no The Ed Sullivan Show.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

BRIAN DENNEHY (1938-2020)



O papel de polícia mau em A Fúria do Herói/First Blood (1982), o primeiro da saga Rambo, deu-lhe uma visibilidade que ainda não havia alcançado, apesar da participação em séries icónicas tais como Serpico, M*A*S*H ou Dallas. Cá por casa lembramo-nos dele, sobretudo, em Silverado (1985), western de Lawrence Kasdan que procurou, com mérito, recuperar para o género a popularidade perdida. Filmou muito para televisão, com um porte carismático que nunca passava despercebido.

segunda-feira, 30 de março de 2020

GRIFFITH


Por razões que não me apetece desenvolver, mas que estão relacionadas com esta renovada tendência para dizer mal da China, apeteceu-me rever “Broken Blossoms”. Realizado por D. W. Griffith há coisa de um século, conta a história de um chinês que aporta em Londres com a missão de espalhar uma mensagem budista de paz e de amor. Rapidamente capitula perante a corrupção de uma sociedade eficazmente ilustrada na série “Peaky Blinders. É provável que Cheng Huan se tenha cruzado com o gangue da família Gilbert, acabando viciado no ópio e perdido de amores por uma jovem abusada pelo pai brutamontes. Acusado de racismo por causa do filme “The Birth of a Nation”, Griffith procurou redimir-se com “Broken Blossoms”. A generalidade das pessoas é mais ou menos como Griffith, mas sem um milímetro do seu talento e genialidade.

segunda-feira, 9 de março de 2020

MAX VON SYDOW (1929-2020)



Percorremos no IMDB a filmografia do actor sueco Max von Sydow e ficamos estupefactos com a quantidade de filmes que nos são familiares, de cineastas de vários países e em estilos diversos. O destaque vai para os trabalhos com Ingmar Bergman: foi Antonius Block, o cavaleiro que jogava xadrez com a morte em O Sétimo Selo (1957); aparece ainda em Morangos Silvestres (1957), A Fonte da Virgem (1960), Luz de Inverno (1963). Em 1965, George Stevens escolheu-o para o papel de Jesus em A Maior História de Todos os Tempos (1965). Tornou-se um dos rostos icónicos do filme de terror com o papel de Padre Merrin, em O Exorcista (1973). Fez de nazi no curioso Fuga Para a Vitória (1981), filme de John Huston que contava com Pelé no elenco. Surge ainda em vários filmes de aventuras, adaptações de heróis de histórias aos quadradinhos, filmes de ficção científica. Neste domínio, Duna (1984), de David Lynch, é talvez o melhor filme em que participou, ainda que num papel secundário. Foi o narrador de Europa (1991), do polémico Lars von Trier.  Estará, para sempre, na História do Cinema.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

KIRK DOUGLAS (1916-2020)


The Indian Fighter/O Caçador de Índios (1955): aqui. Gunfight at the O.K. Corral/Duelo de Fogo (1957): aqui. Last Train From Gun Hill/O Último Comboio de Gun Hill (1959): aqui. A Gunfight/Um de nós tem de morrer (1971): aqui.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

UMA DÉCADA EM RESUMO


1 - O Laço Branco (2009), de Michael Haneke. Estreou por cá a 14 de Janeiro de 2010.
2 – Um Ano Mais (2010), de Mike Leigh. Estreou por cá a 27 de Janeiro de 2011.
3 – Poesia (2010), de Chang-dong Lee. Estreou por cá a 3 de Março de 2011.
4 – Cosmopolis (2012), de David Cronenberg. Estreou por cá a 31 de Maio de 2012.
5 – Nebraska (2013), de Alexander Paybe. Estreou por cá a 27 de Fevereiro de 2014. 
6 - Ida (2013), de Pawel Pawlikowski. Estreou por cá a 25 de Outubro de 2013.
7 – Joe (2013), de David Gordon Green. Estreou por cá a 19 de Junho de 2014.
8 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014), de Alejandro G. Iñárritu. Estreou por cá a 17 de Outubro de 2014.
9 - The Revenant: O Renascido (2015), de Alejandro G. Iñárritu. Estreou por cá a 21 de Janeiro de 2016.
10 – Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino. Estreou por cá a 4 de Fevereiro de 2016.
11 – Christine (2016), de Antonio Campos. Lançado a 14 de Outubro de 2016.
12 - Paterson (2016), de Jim Jarmusch. Estreou por cá a 17 de Novembro de 2016.
13 – Uma Mulher Não Chora (2017), de Fatih Akin. Estreou por cá a 23 de Novembro de 2017.
14 – Roma (2018), de Alfonso Cuarón. Lançado a 27 de Outrubro de 2018.
15 - Parasitas (2019), de Bong Joon Ho. Estreou por cá a 26 de Setembro de 2019.
16 - Joker (2019), de Todd Phillips. Estreou por cá a 3 de Outubro de 2019.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

JOKER


Em 1999 já só teríamos um ano pela frente, o mundo implodiria em 2000. Um bug informático, uma catástrofe natural, a tão anunciada guerra nuclear, a terceira grande guerra depois de duas sobre as quais tantas ocorreram, deixariam o planeta em pedaços. A humanidade teria o mesmo destino que os dinossauros. A cultura popular ofereceu-nos por esses dias diagnósticos, previsões, retratos de um destroçado mundo em ruínas. A Tricky, músico de Bristol, devemos a melhor legenda da época, o álbum de 1996 intitulado “Pre-Millennium Tension”. Entretanto, passaram 20 anos. O mundo não acabou, mas é como se tivesse acabado. A morte é lenta, tsunami que arrasta os detritos do colapso financeiro, político, religioso, económico, artístico, humano. Acrescentámos à nossa história os horrores de um renovado terrorismo religioso, o Estado Islâmico, o sobreaquecimento global, a ascensão do populismo e de novos e requintados modelos de fascismo, muros, lixo tecnológico, muito lixo, poluímos os mares, assistimos em directo ao sismo do Índico e ao acidente nuclear de Fukushima, permitimos que o Mediterrâneo tenha sido transformado em derradeiro refúgio dos miseráveis, pano de fundo das nossas vidas enquanto nos empanturramos em fast food porque estamos atrasados, temos pressa, o tempo é curto, tudo urge e a nossa capacidade de foco pouco excede a de um peixe de aquário. É neste ambiente cruel que Todd Phillips resolve recriar cinematograficamente a biografia de uma personagem de ficção, baralhando as cartas como mandam as regras num universo onde deixou de haver ficção por tudo parecer possível. “Joker” é a história de um vilão, mostra-nos como o mal é gerado, cresce e se desenvolve dentro de um homem, sem perder de vista a sua ligação à realidade. E este é, julgo, o aspecto mais relevante de um filme sobre uma personagem de BD que se nos apresenta agora como humana, demasiado humana. Tudo em “Joker” surge espantosamente verosímil aos olhos do espectador, pois entre esta Gotham City e as grandes metrópoles das culturas superiores já não há diferença alguma. Que o povo erga o vilão à condição de Messias, colocando-se do seu lado como ao lado de líderes loucos e insensíveis se colocam multidões de excluídos e desafortunados, não espanta nem assombra. Tratado pela sociedade como, no seu tempo e com as devidas distâncias, Jesus o foi pela sua, Joker é o filho de Deus cuja mensagem de ódio e de mal se funda numa dor que faz rir. Nada disto é por acaso, o riso demoníaco e incontrolável que toma conta do palhaço em situações emocionalmente stressantes representa a ruína humana neste lento apocalipse social de que aqui se faria caricatura não fossem tão realistas os traços vincados. Emocionalmente descompensado? Sim. Mas porquê? O filme pode ser visto como a biografia de um anti-super-herói, sob pena dessa perspectiva ficar aquém do possível e do recomendável. Prefiro interpretá-lo como ecografia do útero onde a personificação do mal é gerada, uma sociedade desprovida de empatia e, principalmente, de uma atitude que temos vindo a negligenciar em múltiplos contextos e de múltiplas formas neste novo século: a capacidade de irmos ao encontro do outro, de nos colocarmos no lugar do outro, de o pensarmos em função da sua história e não de acordo com paradigmas pré-estabelecidos ou face à nossa experiência singular. Esta indisposição total para o outro, que tem na sua origem uma urgência de juízos e condenações simplesmente fundados no egoísmo individualista, é o pavio que a estupidez ateia levando a explosões de crueldade inconcebíveis. Se pensarmos na facilidade com que hoje as massas são manipuladas, quer pelas redes de comunicação onde estão imersas como presa num pântano de crocodilos, quer pelos condicionalismos de uma educação humanitária deficiente, favorável às exigências de sucesso impostas pelo consumismo exacerbado, não é de espantar a adesão das pessoas aos seus jokers. É a única forma que têm de se vingar de um sistema que as oprime, as rouba, as engana, as tortura sob a promessa de as proteger. Encontramos facilmente ecos de um “Taxi Driver” no filme de Todd Phillips, podendo até ser considerada irónica a presença de Robert De Niro neste filme, num papel perverso que catalisa a emergência de Joker na personagem de Joaquin Phoenix. Ironias à parte, os inimigos mantêm-se: as sociedades de consumo e de espectáculo que reduzem os cidadãos a meros fantoches num teatro competitivo, sugando-lhes qualquer resquício de humanidade. O papel de fazer rir numa sociedade à deriva, derruindo como um castelo de cartas, é talvez o menos compensador de todos, pois numa sociedade assim o riso perde a sua função libertadora, deixa de instigar crítica e autocrítica, injectando no ser quantias absurdas da indolência que ajuda o náufrago a manter-se à superfície. Que terminemos o ano a discutir mais um atentado ao humor, desta feita no Brasil evangelizado da IURD, é sintomático de quão pertinente é este filme de Todd Phillips, o qual se arrisca a ficar para o futuro, porventura contra tudo quanto seria expectável, como um documentário naturalista destas primeiras décadas do século XXI.

domingo, 15 de dezembro de 2019

ANNA KARINA (1940-2019)



Chamam-lhe “musa de Godard”, não é caso para menos. Nasceu dinamarquesa, de seu verdadeiro nome Hanna Karin Blarke Bayer, e estreou-se no cinema com apenas 19 anos. Apesar de a encontrarmos em filmes de Jacques Rivette,  Agnès Varda, Visconti, Fassbinder, Raul Ruiz, foi na companhia de Jean-Luc Godard, com quem se casou, que conquistou o estatuto de imortal em filmes tais como “Une femme est une femme” (1961), “Vivre sa vie” (1962), "Le petit soldat/O Soldado das Sombras” (1963), “Pierrot le fou” (1965). Tentou a realização com “Vivre Ensemble” (1973), mas sem grande sucesso.

sábado, 24 de agosto de 2019

IDA (2013)



Passou ontem num canal público e eu vi-o hoje ao pequeno-almoço. Na Polónia do chamado Bloco do Leste, uma jovem prestes a tornar-se freira vai ao encontro da única familiar que lhe resta. A tia Wanda abre-lhe as portas da ruína humana, num país a tentar recompor-se dos destroços deixados pela II Grande Guerra. Ida descobre as origens judaicas e o destino cruel da família desaparecida. A tia lamenta que ela esconda o belo cabelo sob o véu de freira, e o lamento surge-nos como testemunho de uma beleza desperdiçada que a guerra vulgariza e os homens semeiam. Sobram restos, destroços, ruínas. Começar uma nova vida assim, a encontrar nas raízes o fundo amargo do desamparo, é um modo de recomeçar. Realizou Paweł Pawlikowski (n. 1957), com direito a Oscar para melhor filme estrangeiro. Como se pode chamar estrangeiro a um filme destes?

terça-feira, 30 de abril de 2019

O FÉRTIL IMAGINÁRIO DOS R. R.


A minha mulher adora A Guerra dos Tronos. Ontem esforcei-me para ver um episódio. O que vi? Um grupo de seres humanos a tentar sobreviver a uma legião de mortos-vivos. Quase nada de diálogos, muita gritaria e sangue e pancada. Foi a segunda vez que tentei ver um episódio de A Guerra dos Tronos. A minha mulher gosta muito, mas não tem paciência para O Senhor dos Anéis. Entre J. R. R Tolkien e George R. R. Martin eu continuo a preferir o primeiro.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

UM FILME... A PROPÓSITO DO DIA MUNDIAL DO LIVRO


A escritora norte-americana Helene Hanff (1916-1997) ficou conhecida como autora do livro 84, Charing Cross Road (1970), adaptado para cinema por David (Hugh) Jones (1934-2008) em 1987. Os dicionários classificam-no como realizador de culto, embora nunca tenha obtido grande sucesso. Com uma carreira essencialmente garantida por trabalhos para televisão, chegou a filmar para cinema com actores de renome tais como Jeremy Irons e Ben Kingsley (Anatomia de uma Traição), Robert de Niro e Ed Harris (Jacknife). É dele uma adaptação de O Processo, romance de Franz Kafka, com Anthony Hopkins no papel principal e argumento do Nobel da Literatura Harold Pinter. Quem também nunca granjeou grande popularidade foi Helene Hanff, autora de várias peças que nunca chegaram a ser encenadas. 84, Charing Cross Road/A Rua do Adeus (1987) baseia-se no romance epistolar com o mesmo título. É um belo filme, com Hopkins no papel de livreiro em Londres e Anne Bancroft a fazer de Helene Hanff. Judi Dench interpreta o papel de mulher do livreiro. A história, ao que parece verídica, coloca em cena uma espécie de amor platónico entre um livreiro e uma cliente, separados por um oceano. Ele trabalha numa livraria em Londres especializada em livros antigos e raridades, ela vive em Nova Iorque e encomenda-lhe livros. Nunca se chegam a conhecer, mas geram entre si uma relação que transcende meros interesses comerciais. Admiram-se, vivem na expectativa de virem a conhecer-se, trocam confidências nas cartas que anunciam encomendas e despachos. O filme é um belíssimo exercício cinematográfico, pelo desafio que é fazer contracenar duas personagens que nunca estão na presença uma da outra. Anthony Hopkins, igual a si mesmo, é sempre um senhor. Anne Bancroft, mais agitada, fala para a câmara, teatraliza, garante ritmo à acção. Elogio da palavra escrita, 84, Charing Cross Road provoca-nos a nostalgia de um tempo que acabou. As cartas foram substituídas pelas sms, e com isso perdeu-se o que a espera oferecia: ansiedade, expectativa, pensamento. Entre o envio de uma missiva e a chegada da resposta havia um período que permitia pensar, um tempo de espera que desapareceu. Esta aceleração da comunicação tem o efeito óbvio de nos retirar o tapete da reflexão. À época, o filme ainda não teria em perspectiva tais temas. Mas (re)vê-lo provocará inevitavelmente tais impressões, até por estarmos a falar de uma livraria como elas já não existem, espaços onde os livros eram tratados e pensados para lá do seu valor meramente comercial. Hoje, substituam os livros por sabonetes num qualquer espaço livreiro dos mais comuns e obterão o mesmíssimo resultado. Esta possibilidade de uma relação afectiva separada por um oceano de distância, assente no amor aos livros e a tudo quanto nos oferecem, tornou-se miragem.

domingo, 14 de abril de 2019

BIBI ANDERSSON (1935-2019)


Actriz de relevo em vários filmes de Ingmar Bergman, os melhores: O Sétimo Selo (1957), Morangos Silvestres (1957), A Máscara (1966).

sexta-feira, 12 de abril de 2019

UMA IMAGEM PARA O DIA


Às vezes invejo o carácter definitivo da morte. A certeza. E tenho de afastar esses pensamentos, quando me sinto fraca. Nunca nos habituaremos aos caminhos árduos do Senhor, Joseph.

sexta-feira, 29 de março de 2019

AGNÉS VARDA (1928-2019)


Autora de um  documentário que é um dos filmes da minha vida, revisto vezes sem conta em sala de aula quando era professor: Les glaneurs et la glaneuse/Os Respigadores e a Respigadora (2000).

quarta-feira, 20 de março de 2019

O RAPAZ QUE PRENDEU O VENTO


The Boy Who Harnessed the Wind (2019) marca a estreia de Chiwetel Ejiofor na realização. Vimo-lo como actor secundário em Amistad (1997), de Steven Spielberg, já com outro protagonismo em Dirty Pretty Things/Estranhos de Passagem (2002), curioso filme de Stephen Frears, no inesquecível papel de Solomon Nortup, em 12 Years a Slave (2013), do impagável Steve McQueen. A temática africana mantém-se, aparentemente enquanto viagem ao encontro das raízes. Chiwetel é filho de nigerianos, descendente da etnia Igbo. The Boy Who Harnessed the Wind baseia-se nas memórias de William Kamkwamba, famigerado engenheiro do Malawi que em criança salvou da fome a sua aldeia ao construir um moinho de vento que alimentava uma bomba de onde provinha água para consumo e cultivo. Sem perder de vista a questão política, Chiwetel preferiu centrar-se na relação do jovem Kamkwamba com o pai. As questões familiares oferecem às personagens uma ideia de conflito geracional que permite elaborar o elogio do conhecimento, a importância da escola e da informação, contra uma atitude conservadora de arraigamento às tradições rurais. O poder da inovação tecnológica enquanto superação de limitações físicas e geográficas, mas também culturais, é uma das possibilidades de leitura deste filme. A temática política, ilustrada pelo abandono e pelo oportunismo das forças no poder perante uma situação calamitosa, parece secundária. O que mais importa é a relação entre William Kamkwamba, interpretado pelo jovem Maxwell Simba, e o pai Trywell Kamkwamba, recriado pelo próprio Chiwetel Ejiofor. As personagens ora comunicam no dialecto local, ora falam num inglês carregado de pronúncia. Nota-se o esforço de recriação de uma paisagem agreste, marcada pela carência de recursos, pela pobreza generalizada, por um sistema educativo altamente deficitário. William é um jovem de origens humildes, impedido de desenvolver o seu potencial intelectual por ser afastado da escola devido à falta de pagamento de propinas. Por si só, a história já é tocante. O filme acrescenta-lhe uma dimensão altamente emocional, a espaços refreada pela necessidade de denúncia de um sistema que em nada contribuiu para que possa sair da pobreza quem nela nasceu. As imagens que chegam agora de Moçambique superam em tudo aquilo que um filme destes possa ilustrar. Sabemos que contra a fúria da Natureza pouco resta aos homens, mas assistir à destruição, em larguíssima escala, provocada pela passagem de um ciclone, dá bem conta das fragilidades de um país onde as populações ficam à mercê do azar. Não é só os telhados que voaram onde havia telhados, as ruas invadidas pela fúria das águas, as sensações de desamparo e desabrigo deixadas pelo rastro de destruição, é também tudo o que se lhe segue, a fome e a doença, esta condenação ao fracasso impossível de aceitar.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

GÉNIOS HÁ POUCOS



   Vincent van Gogh deve ser o pintor mais vezes retratado cinematograficamente. Cá em casa moram Van Gogh (1991), de Maurice Pialat, numa antiquada VHS, e Lust for Life/A Vida Apaixonada de Van Gogh (1956), de Vincente Minnelli e George Cukor, num sofisticado DVD (ok, ok, bem sei que o DVD também já caiu em desuso). Gosto mais do francês, com Jacques Dutronc no papel do malogrado pintor. Curiosamente, o americano arrecadou um Oscar para melhor actor secundário: Anthony Quinn no papel de Paul Gauguin. Coube a Kirk Douglas fazer de Van Gogh.
   Alain Resnais abordou o tema em Van Gogh (1948), a curta documental que mereceu uma estatueta da academia norte-americana. Está disponível no Youtube. Mais recentemente, pudemos ver o belíssimo filme de animação de Dorota Kobiela e Hugh Welchman com o título Loving Vincent/A Paixão de Van Gogh (2017). Não vi Van Gogh: Painted with Words (2010), de um tal Andrew Hutton, mas o trailer não me inspirou curiosidade, apesar do papel principal ter ficado a cargo do excelente Benedict Cumberbatch. Há outros, de Paul Cox, de Robert Altman, e sabe-se lá de mais quantos.
   Eis que chegamos At Eternity’s Gate/À Porta da Eternidade (2018), de Julian Schnabel. O que podemos esperar sobre Van Gogh que não nos tenha sido já oferecido? Schnabel é um especialista no filme biográfico, tendo abordado outro pintor num filme de boa memória: Basquiat (1996). Dediquei-lhe algumas palavras em tempos, para sublinhar a sua inclinação por personalidades complexas. Em Before Night Falls/Antes que Anoiteça (2000) retratou o escritor cubano Reinaldo Arenas e em Le scaphandre et le papillon/O Escafandro e a Borboleta (2007) baseou-se na vida de Jean-Dominique Bauby, ex-director da revista Elle. São filmes esteticamente diferentes deste último sobre Van Gogh, muito mais lineares e convencionais no modo de colocar a câmara.
   À Porta da Eternidade tenta oferecer à imagem cinematográfica os movimentos bruscos da pintura de Van Gogh, adoptando amiúde efeitos visuais e sonoros que parecem pretender reproduzir a mente perturbada e atormentada do pintor. O efeito é inspirador, nomeadamente se tivermos em conta as dificuldades que, neste caso em particular, o movimento da pintura coloca à imagem em movimento do cinema. Como fixar o movimento de uma coisa fixa? Paradoxo? Antinomia? Este é, sem dúvida, o desafio que Van Gogh colocou a si mesmo, percebendo-se que Julian Schnabel não lhe tenha querido fugir. Antes pelo contrário, adoptou-o para si oferecendo-nos sequências de fotografias, alternando entre o close-up e a paisagem, e planos-sequência em constante movimentação.
   Coube a Willem Dafoe, um dos melhores actores da sua geração, o papel de Vincent van Gogh. Pode parecer estranho que um homem com 63 anos interprete um pintor que morreu aos 37, mas é bem provável que o corpo de Van Gogh aos 37 não fosse muito diferente do de Dafoe aos 63. Actor fetiche de Julian Schnabel, entrou em praticamente todos os seus filmes. Tem um rosto peculiar que assenta que nem uma luva neste papel, desempenhado num registo que consegue o equilíbrio dos desequilíbrios da personagem. Ora paranóico, ora afectuoso, aqui desesperado, além místico, Dafoe é o meu Van Gogh preferido. O diálogo com Mads Mikkelsen, a fazer de padre, nos claustros do hospício de Saint-Rémy, dificilmente passará despercebido a quem aprecie os mistérios da genialidade.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

AQUELE OLHAR



   Clint Eastwood está à beira dos 89 anos de idade. Confiando no IMDB, estreou-se como actor nos anos de 1950. Tem mais de meio século de experiência, como actor, primeiro, e como realizador, desde 1971. Neste domínio, são muitos os filmes que assinou para ficarem na história. Westerns como O Rebelde do Kansas (1976), Justiceiro Solitário (1985), Imperdoável (1992). O inesperado, pelo romantismo, As Pontes de Madison County (1995). Uma homenagem ao jazz: Bird – Fim do Sonho (1988). Filmes de guerra, tais como As Bandeiras dos Nossos Pais (2006) e Cartas de Iwo Jima (2006). São diversos os géneros que abordou, sendo difícil encontrar no seu curriculum enquanto realizador um filme medíocre. The Mule/Correio de Droga (2018) é o mais recente, e vem reposicionar, isto é, reforçar, isto é, consolidar, isto é, reafirmar o actor e o realizador Clint Eastwood entre os maiores que o cinema gerou. 
   Feito à medida de um homem com quase 90 anos, The Mule conta a história de um improvável correio de droga na fronteira que separa os EUA do México. Tendo em conta a actualidade, o tema é deveras sensível. E não deixa de ser irónico que, apesar do cartel ser mexicano, o transportador seja um velho veterano tipicamente norte-americano. Podemos ensaiar várias leituras do assunto, até tendo em conta as posições políticas do protagonista. Mas nestas matérias prefiro deixar de lado factos biográficos. Não estou particularmente interessado nas posições políticas de Eastwood, ainda que me pareçam mais politicamente incorrectas (ou controversas) do que tantas vezes se pretende insinuar. Desde a série Dirty Harry que o problema se coloca, sobretudo devido a um suposto elogio do voluntarismo que arrasta consigo excessos de violência e inúmeros equívocos.
   Se uma coisa é a realidade, outra é o cinema, e a verdade é que os filmes de Eastwood procuraram sempre reflectir a realidade de pontos de vista que não me parecem nada conservadores. Antes pelo contrário, há nas suas histórias uma problemática da ambivalência. Com o velho Earl Stone deste The Mule não é diferente, a complexidade da personagem surge enquadrada na complexidade da própria existência. Não é possível tomar partido, só é possível tentar compreender. Sem desculpabilizar, o que o próprio não faz. 
   Com uma vida dedicada ao cultivo de flores, Earl negligenciou a família. Ofereceu Às flores uma atenção que nunca teve para com a ex-mulher e a filha. Marido ausente, pai ausente. O mundo moderno arruinou-lhe o negócio. A Internet, esse elemento abstruso num filme que também por aí pretende elogiar as formas clássicas do cinema, é inimiga não só do seu optimismo como lhe oferece uma visão pessimista do futuro. Mas o que pode esperar da vida um homem com 90 anos? Sem perceber muito bem como, Earl torna-se correio de droga. Com o dinheiro, paga o casamento da neta, remodela o bar dos veteranos de guerra, faz coisas socialmente positivas, aceitáveis, recomendáveis. É um simpático criminoso que não mata ninguém, que até interrompe o trabalho para ajudar um jovem casal “negro” a mudar um pneu furado no meio do nada. 
   Inocente ou culpado? No meio de tudo, sobressai a face conservadora e clássica do autor num elogio da família enquanto valor supremo. Não devemos colocar o trabalho à frente da família, a família deve vir em primeiro lugar. O diálogo que mantém com o agente Colin Bates, interpretado por Bradley Cooper, é memorável, quer pela sua simplicidade, quer pela tensão que transporta numa cena onde o final ainda se encontra em aberto, onde nenhum desfecho se prevê.
   Do elenco fazem parte Dianne Wiest e Andy Garcia, todos mais velhos (mas tão bons). Neste filme para actores crescidos, convém sublinhar a presença de Alison Eastwood a fazer de filha de Eastwood. Faz lembrar o que sucedeu com Henry Fonda e Jane Fonda em On Golden Pond/A Casa do Lago (1981). Se alguma mensagem pessoal, de cunho familiar, existe aqui, não é matéria em que devamos meter-nos. Mas que é bonito, lá isso é. Como as flores que surgem no princípio e no fim, símbolo de dádiva e de cuidados e do lado luminoso da vida que realmente importa cada vez mais não negligenciar. 

sábado, 16 de fevereiro de 2019

BRUNO GANZ (1941-2019)



Natural de Zurique, tornou-se estrela do cinema alemão com realizadores tais como Wim Wenders e Werner Herzog. Excelente em O Amigo Americano (1977) e As Asas do Desejo (1987). É Alexandros no magnífico A Eternidade e Um Dia (1998), de Theo Angelopoulos. Oliver Hirschbiegel ofereceu-lhe o papel de uma vida em A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich (2004). Tem lugar reservado na história do cinema europeu.