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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

UM POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

 


cara do candidato num outdoor
 
ei-lo:
poucas ressacas
poucas brigas com mulheres
poucos pneus furados
nem um pensamento suicida
 
não mais que três dores de dentes
nunca falhou uma refeição
nunca foi preso
nunca se apaixonou
 
7 pares de sapatos
 
um filho na faculdade
 
carro com um ano de uso
 
apólices de seguro
 
um relvado verdejante
 
baldes do lixo bem tapados
 
será eleito.

Charles Bukowski, in Play the Piano Drunk / Like a Percussion Instrument / Until the Fingers Begin to Bleed a Bit, 1979. Black Sparrow Press. Versão de HMBF.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

FUENTE VAQUEROS

 


(...)
 
Quando se abre pela manhã
a rosa como sangue está;
o orvalho não a toca
com medo de se queimar.
Aberta ao meio-dia
é dura como um coral,
o sol assoma aos vidros
para vê-la brilhar.
Quando nos ramos começam
os pássaros a cantar
e a tarde desmaia
nas violetas do mar,
põe-se branca, branco
de uma face de sal;
e quando a noite toca
o suave corno de metal
e as estrelas avançam
enquanto os ares se vão,
na raia da escuridão
começa a desfolhar.

 
Federico García Lorca , in Doña Rosita la Soltera o el linguaje de las flores, Huerta de San Vicente, Editorial Comares, Fundación Federico García Lorca, 1998. Versão de HMBF.


sábado, 2 de agosto de 2025

ANTOLOGÍA: LA POESÍA DEL SIGLO XX EN ARGENTINA

 


À ESPERA QUE A ASPIRINA
 
À espera que a aspirina comece a trabalhar,
que arrume os quartos, mexa o café
e traga a minha mãe, fresca,
a esta tarde de Agosto,
folheio revistas estúpidas, escuto discos velhos
e pergunto-me em que momento
os dinossauros terão sentido
que alguma coisa andava mal.
 
Fabián Casas (Boedo, Buenos Aires, Argentina, 1965).
Versão de HMBF.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

TAXODIUM DISTICHUM

  
No México, perto de Oaxaca, existe uma árvore
Que, segundo dizem, tem mais de dois mil anos.
Conhecem-na como A Árvore de Tule.
 
Diante o olho humano,
impõe-se a sua sensação de ameaça.
Uma nuvem vegetal perfilada no horizonte
adverte que, naquele lugar, a natureza silenciosa
decidiu pôr em prática um plano arquitectónico
destinado a unir todas as árvores.
É como se tudo naquele lugar
tivesse crescido de improviso.
 
Apesar da ausência de forma, que parece
negar toda a noção de peso e volume,
A Árvore de Tule é mais que uma forma de vida:
a casca do tronco revela todo o cansaço acumulado
e os ramos são âncoras, como raízes
que crescem para cima. Convencido de que só
resiste o que se concentra num único fim:
dar um sentido ao tempo e encontrar um lugar
onde a morte não exerça domínio algum.
 
(Oaxaca, 28.02.2008)
 
NOTA: O título refere-se à designação botânica da árvore que, segundo os guias turísticos, mede quarenta metros de altura e quarenta e dois metros de contorno. No México também é conhecida pelo nome Sabino.
 
Héctor Freire (1953).
Versão de HMBF.

domingo, 27 de julho de 2025

EXÍLIO

"expulsos da selva no sul de Sumatra pelos homens que a povoaram, 135 elefantes iniciaram hoje uma longa marcha de 35 dias até à nova cidade que lhes foi destinada"

(afp. 18/11/82)
 
Não há lugar para os elefantes.
Ontem expulsaram-nos da selva em Sumatra,
amanhã alguém os impedirá de entrar no Unión Bar.
Integro a manada que vai para Lebong Hitam,
sigo a fêmea líder,
carrego o fardo de todas as minhas malas sobre as
quatro patas do inferno.
 
Chegaram ao destino - diz um diário em Jacarta.
As presas investem contra teias de neblina.
Chegaram ao destino,
cercas velhas sucumbem sob marés de carne.
Chegaram - diz o diário -.
 
A debandada atravessa solos pantanosos
e a minha pátria - a minha - é só esta manada de elefantes
que perdeu o seu rumo.
Que a selva impenetrável guarde o ulular das bestas!
tambores e petardos, acompanham.
É meu um pouco da poeira que levantam.
 
Jorge Boccanera (1952, Bahía Blanca, Argentina).
Versão de HMBF.

sábado, 26 de julho de 2025

GOTA A GOTA

E agora sou a gota de água,
a cair durante séculos sobre o mármore,
o que digo já por outros foi dito,
o repetido tantas vezes repetido.
 
O meu destino é um dia atravessar o bloco
e não ser o vestígio, a incisão, a marca,
palavras entre todos frequentes,
mas antes o que escapou da pedra:
infinito, disperso, impossível.
 
Abel Robino (1952, Pergamino, Buenos Aires, Argentina)
Versão de HMBF.

domingo, 20 de julho de 2025

UM POEMA DE MIRIAM REYES

 


Uma vez
usando os meus dotes de vidente
profetizei que amar-te-ia até ao fastio.

Se nessa altura
tivesses tapado todas as aberturas do meu corpo
obstruindo-me de ti
teria morrido alegremente asfixiada.

Mas agora
qua as tuas palavras me cansam corporalmente
e o teu emaranhado de frustrações insuperáveis
e a tua loucura voluntária
me causam repulsa
recuso continuar a representar o papel de vítima.
Renuncio à Academia.

Não permitirei que me tortures mais
com as tuas fantasias cruéis.

Odeio a agonia
o sofrimento prepotente dos mártires.

O meu corpo não voltará a ser tributo
a um deus mongolóide.

Miriam Reyes, in "Extraña manera de estar viva. Poesía reunida (2001-2021)", Mixtura Editorial, 2022, p. 53. Versão de HMBF.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

O EMPENHO ABSURDO DOS GOLFINHOS

 


LUISA. – E se fôssemos golfinhos que os deuses castigaram transformando-os em seres humanos?
ÓSCAR. – Receio que sejamos homens castigados sendo homens. E é tudo.
CERZALES. – Ou tubarões castigados sendo homens.
ÓSCAR. – Antes homens castigados como tubarões com corpo de homem. Isso faz sentido. Animais em continuo movimento. Se um tubarão pára, se fica imóbil, morre asfixiado.
CEREZALES. – (Rindo, impondo a voz.) Animais solitários sempre à espreita. Preparados para atacar a presa com todas as suas fileiras de dentes. (Deixa de se impor.) Assim creio. Que alguns de nós são de facto tubarões.
ÓSCAR. – (Rindo.) Também há algumas baleias. E chernes. E caranguejos a andar para trás... Tens razão, este oceano está cheio de peixes.
LUISA. – Mas não eram mamíferos?
ÓSCAR. – Mulher, é uma forma de dizer...

Ismael Serrano, in El absurdo empeño de los delfines, Hoy es Siempre, Novembro de 2020, pp. 43-44. Versão de HMBF.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

L'ÉCLIPSE DU 11 AOÛT

 


CHRISTINE
A história de Marguerite Frioul é uma lenda daqui sobre uma tricotadeira medieval que foi acusada de bruxaria e condenada à fogueira. Quando subiu à pira e pediu o último novelo de lã antes de morrer, este foi-lhe trazido, entregaram-lho, e ela acabou levada pelos ares graças a um fio de lã atado ao dedo. Desapareceu atrás da colina.
 
BÉATRIX
A história de Marguerite Frioul era minha. Contei-a ao meu anjo da guarda quando acordei de um sonho em que a paisagem me engolia. Fiz com que durasse. Agarrei-me ao fio de lã. As mães já não tricotam. Tens óculos de sol que atendem aos padrões europeus? Troco um casaco de peles por óculos segundo as normas.
 
Bruno Bayen, in L’Éclipse du 11 août, L’Arche, 2006, p. 39.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

ORESTES (fragmento)

 


(…)

Eu também tenho uma vida própria e devo vivê-la.
                Vingança não; —
que poderia valer à morte mais
                uma morte
e, para mais ainda, violenta? — que adiantaria à vida?
                Os anos passaram.
Já não sinto ódio; — terei esquecido? ter-me-ei
                Cansado? Não sei.
Percebo até em mim uma certa compaixão pela
                assassina; — grandes abismos enfrentou;
um grande conhecimento dilatou os seus olhos na
                obscuridade
e vê, — vê o inesgotável, o inalcançável e o
                inalterável. Vê-me.

(…)
 
Yannis Ritsos, in Orestes, versão de HMBF a partir da tradução espanhola de Selma Ancira, Acantilado, Novembro de 2015, pp. 38-39.

domingo, 9 de março de 2025

THE BLEEDING TREE

 


— Cansada disto tudo.
— Já passei por tudo isto, cansada e doente, basta.
— Inspira.
— Expira.
— Amanhã, um novo dia…
 
Angus Cerini, in The Bleeding Tree, introdução de Diana Simmonds, Currency Press, 2017.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

TRÊS POEMAS BREVES DE ANTONIO CISNEROS

 



TAMBÉM EU FIZ O MEU EPIGRAMA LATINO
 
Com a minha lança de bronze
não temo cem legiões inimigas,
com o meu escudo de bronze
não temo os seus mil carros de combate,
mas são os teus olhos, Cláudia,
que me tornam
o sobrevivente ferido e sem cavalo
que as feras sorteiam
quando a noite chega.
 
*
 
DE REGRESSO AO QUE DISSE
 
Organizo a minha biblioteca, a discoteca, a hemeroteca,
deixo de fumar, de beber, de cuspir no chão,
sais para o aparelho digestivo, para o pâncreas,
e ao fígado guardo-o numa caixa, limito as suas funções,
deito-me e levanto-me como um galo
num país radioso, ginástica todos os dias,
e penso no mundo inteiro, nunca em mim.
(A quem estás a pedir desculpa, idiota?)
 
*
 
POETA INÉDITO NA CASA DE BANHO DO BAR PALERMO
 
Escreveu três ou quatro sonetos contra a Virgem
e um a favor.
E tudo foi arrastado pelas águas.
 
 
Antonio Cisneros, in Como Higuera en un Campo de Golf, posfácio de William Rowe, Kriller71 ediciones, 2012. Data da primeira edição: 1972. Versão de HMBF.


sábado, 3 de agosto de 2024

UM POEMA DE ANTONIO CISNEROS

 


FIM DE ÉPOCA NO MEDITERRÂNEO (AQUI NÃO SE FALA DE PESCADORES)
 
Nem do cemitério submarino apenas um monte de barcos mortos: balandras, veleiros de corrida e iates (tipo 1, tipo 2).
É fácil deduzir quanto-o quê-como comem os vizinhos pelas latas abertas e atiradas para o pátio de trás.
A crédito com uma vela, com dinheiro vivo são duas. Gordura para um ano: burguesia inexperiente / Henrique
o Navegador: para um fim-de-semana.
 
O vento nocturno fez um iate e uma balandra (bandeira da Libéria) saltarem contra a floresta de pinheiros.
E hoje dedicaram-se a resgatá-los, a cobri-los com toldos, a amarrá-los aos postes da praia.
E alguns renovaram os prazos do seguro que, chegado o Outono, é mais barato. Agora, até ao Verão
Henrique
o Navegador e os demais vão controlar a pulsação, o açúcar no sangue.
Duas embarcações de guerra protegem-nos do gelo e dos ventos.
 
Eu espero que as águas se separem e voltem a juntar-se e tudo acabe limpo e azul. Tal como no mapa.

 
Antonio Cisneros, in Como Higuera en un Campo de Golf, posfácio de William Rowe, Kriller71 ediciones, 2012, p. 37. Data da primeira edição: 1972. Versão de HMBF.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

TODOS PÀJAROS

 


WAZZAN: Um pássaro vem ao mundo e sobrevoa as águas do mar no primeiro voo. A luz permite entrever peixes de escamas prateadas sob a superfície. Comovido com tal beleza desconhecida, o pássaro deseja ir ao seu encontro e voa na direcção do mar. Mas os outros pássaros, seus congéneres, detêm-no antes que alcance as ondas. «Não!», diz-lhe o mais sábio, «que jamais te ocorra andares com essas criaturas. São completamente diferentes de ti e, se andasses com elas, morrerias, tal como elas morreriam se andassem connosco. Não fomos feitos nem para nos conhecermos nem para viver juntos». O pássaro obedece e segue a sua vida, mas de cada vez que observa o mar o seu coração dá reviravoltas. Fica taciturno, deixa de cantar. Até que um dia, oprimido por uma sentença demasiado pesada de carregar, pensa que prefere sentir apenas um momento de êxtase a ter um longa e desgraçada vida, e dobra as asas! Do céu azul cai a pique até ao azul do mar atravessando a sua superfície. Então, debaixo de água, submergindo até ao abismo da luz, o pássaro abre os olhos durante o pouco tempo que lhe resta. Uma infinidade de peixes multicoloridos! Inimaginável abismo acetinado! Indescritível beleza do diferente! O seu coração inflama-se! O seu fim aproxima-se, mas já não está preocupado, pois anseia pelo outro, o diferente, e esse anseio e tão absoluto, tão imenso, tão espiritual que justamente quando a morte o quer levar, crescem-lhe guelras no pescoço! E respira! Respira! O pássaro respira! E enquanto respira, voanada, desliza entre os peixes de escamas douradas, jade e rosa, tão subjugados por ele como ele por eles, e, depois de os cumprimentar, o pássaro pronuncia as palavras mágicas: «Aqui estou! Sou eu! Sou o pássaro anfíbio, aqui, entre vós, sou um de vós, sou um de vós!».

 

Wajdi Mouawad, in Todos pájaros, versão de HMBF a partir da tradução espanhola de Coto Adánez, Ediciones La uÑa RoTa, Noviembre de 2020, pp. 159-160.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

TEATRO FILOSÓFICO

 


Pode fazer-se bom teatro com a filosofia? Em que condições pode haver um teatro filosófico?
 
A expressão «teatro filosófico» desagrada-me, como também as expressões «teatro político» ou «teatro psicológico», ou mesmo «teatro épico». Compreendo as diferenças entre comédia e tragédia, mas, por outro lado, não me parece que seja pertinente adornar a palavra «teatro» com qualquer adjectivo. Nem sequer, diga-se de passagem, admito as expressões «filosofia das matemáticas» ou «filosofia política» ou «filosofia estética»… São categorias da Universidade, e a filosofia, idealmente, para recuperar uma distinção de Lacan, é o discurso do Mestre, não o discurso da Universidade. Em filosofia não contam senão os grandes filósofos, sem adjectivos de qualquer tipo. Isto vale também para o teatro. Dito isto, a filosofia pode ser perfeitamente um dos materiais do teatro. É claramente o caso do teatro de Goethe, de Schiller ou de Lessing. Há bastante filosofia em algumas obras de Marivaux e muita nas maiores de Pirandello ou de Ibsen. É também o caso, evidentemente, do teatro de Sartre, ou do meu. E o seu Projet Luciole, a peça de teatro que você concebeu e encenou, querido amigo, não faz escutar em cena, sem que a interpretação propriamente teatral desapareça minimamente, numerosos textos de proveniência puramente filosófica?

Alain Badiou en diálogo con Nicolas Truong, Elogio del Teatro, traducción de Idoia Quintana, prólogo de María Folguera, Continta Me Tienes, Madrid, Marzo de 2016. Versão de HMBF.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

UMA FLOR NA TEMPESTADE

 


O perdido procura na tempestade
um nome para o Sem Nome e como prova
nomeia um nome.
Aquele que num esforço interminável
aprendeu a viver sem nome
uiva de angústia
e cambaleia no nome
que como prova
nomeou o perdido.
O Sem Nome
perde-se no nome
para o seu nome nenhum. E cambaleia
na tempestade do uivo: perdido
na tempestade
a exibir uma flor nascida
da angústia do seu esforço interminável
para provar Deus
: na tempestade
perdido à procura
do que perdido se perde
assim nomeado
com esse nome.
 
Leónidas Lamborghini (1927-2009), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in “Antología – La poesia del signo XX en Argentina”, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  p. 249. Trabalhou como tecelão antes de se dedicar, a partir de 1955, ao jornalismo e à poesia. Militante peronista, exilou-se no México com a família entre 1977 e 1990. No início, a sua poesia paródica ocupou uma posição marginal na literatura argentina. Hoje é uma voz reconhecida por haver recuperado a poesia gaúcha oferecendo-lhe uma força insubmissa através da paródia e do riso.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

ESTA CRIANÇA

 


CENA 8
 
Completamente escuro. A silhueta de uma mulher. À volta: duas vozes, masculina, feminina.
 
VOZ
— Mas você não empurra.
— Está a reter a sua criança, senhora.
— Está com medo.
— Ela retém a criança.
— Não tem que ter medo.
 
A VOZ DA MULHER
Mas eu não tenho medo.
 
UMA VOZ
A criança quer sair.
 
A VOZ DA MULHER
Eu quero que ele saia.
 
VOZ
— Você pode gritar não tenha medo de gritar pode gritar.
— Ajude-nos, senhora.
 
A VOZ DA MULHER
Ajudem-me vocês.
 
VOZ
— Nós não fazemos isso.
— Não está relaxada.
— Não relaxa.
— Não tenha medo de gritar.
— Mas ela grita o suficiente.
 
A VOZ DA MULHER
Eu quero que ele saia.
 
UMA VOZ
Mas está a retê-lo.
 
A VOZ DA MULHER
Eu quero que ele saia.
 
VOZ
— Não o retenha.
— Está cansada.
— Mas a criança não sai.
— Ela retém a criança
— Não a retenha mais, senhora.
 
A VOZ DA MULHER
Eu quero que ele saia.
 
VOZ
— A criança vai sair, senhora.
— Empurre.
— Faça-a sair.
— Você não a quer trazer para fora.
— Empurre.
— Não grite mais mas empurre.
 
A VOZ DA MULHER
Eu empurro.
 
VOZ
— Respire.
— A criança vem a caminho mas você está a retê-la.
— Porque não sai?
— Ela está a retê-la.
— Onde está o pai?
— Não há pai, nunca houve.
— Havia um homem.
— Não era o pai.
— Era um homem.
— Não retenha mais a sua criança, senhora.
 
A VOZ DA MULHER
Eu quero que ele saia.
 
VOZ
— Está a reter a sua criança.
— Não pode continuar a guardá-lo no interior.
 
A VOZ DA MULHER
Não vou guardá-la no interior.
 
UMA VOZ
Então empurre.
 
A VOZ DA MULHER
Receio que não queira sair.
 
UMA VOZ
É você que o está a reter.
 
A VOZ DA MULHER
Sinto que ele está com medo.
 
UMA VOZ
É você quem está com medo.
 
UMA OUTRA VOZ
Temos que acabar com isto agora.

 
Joël Pommerat, in Cet Enfant, Actes Sud – Papiers, Maio de 2005. Versão de HMBF.

sábado, 25 de maio de 2024

NO CORREDOR

 


Entre os Velhos, tudo é velho.
O papel de parede no corredor, os candeeiros na parede, as fotografias emolduradas, se as houver.
Na cozinha, tudo igualmente datado. Os móveis, os acessórios, o forno, o frigorífico, o lava-louça. Tudo cheira a século passado.
A toalha de mesa, a ausência de toalha, o oleado, a madeira, a fórmica, os talheres, os copos, tudo datado.
De quando? De antigamente. Do tempo em que tudo era novo, do tempo em que podiam acreditar que estavam vivos e felizes.
 
(…)
 
— Digo-te que te vi como num filme mudo, um daqueles filmes antigos, a preto e branco, repleto de emoções antigas, esquecidas, enterradas. Emocionaste-me, sim, emocionaste. A tua velhice emocionou-me, as tuas lágrimas emocionaram-me, sim, sobretudo as lágrimas, as tuas lágrimas furtivas emocionaram-me. Quem escuta ainda as palavras que as personagens de antigamente dirigem às personagens de agora? Este agora cheio de risos, horrores e música atroz. Quem ainda se importa com o que, na tua idade, possas dizer sobre a vida, a morte, o amor, os desgostos, os remorsos, quem?
 
(…)
 
Jean-Claude Grumberg, Dans le Couloir, Actes Sud – Papiers, Março de 2024. Versão de HMBF.

sábado, 16 de março de 2024

DOIS POEMAS DE HART CRANE

 


AS CARTAS DE AMOR DA MINHA AVÓ MATERNA

Esta noite não há estrelas
além das da memória.
Porém, quanto espaço resta para a memória
no espartilho da chuva suave?

Ainda resta espaço suficiente
Para as cartas da mãe de minha mãe,
Elizabeth,
Há tanto comprimidas
Num canto do telhado
Que ficaram castanhas e moles,
Passíveis de derreter como a neve.

Sobre a grandeza de tal lugar
Os passos devem ser gentis.
Tudo está preso por um cabelo branco invisível.
Treme como galhos de bétula tecendo o ar.

E eu pergunto-me:

“São os teus dedos suficientemente compridos
Para tocar velhas teclas que não passam de ecos:
Será o silêncio suficientemente forte
Para devolver a música à sua raiz
E trazê-la de novo para ti
Como se fosse para ela?”

No entanto, levaria minha avó pela mão
Através do muito que ela não entenderia;
Então tropeço. E a chuva continua no telhado
Soando como um riso gentilmente piedoso.

*

HIEROGLÍFICO

Alguém olhou para o que viu
Ou alguém viu o que olhou?

Hart Crane, in "The Complete Poems of Hart Crane - The Centennial Edition", introduction by Harold Bloom, edited by Marc Simon, Liveright, 2000, p. 189. Versões de HMBF.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

DOIS POEMAS DE CHARLES BUKOWSKI

 


40.000 moscas
 
arrasados por uma ventania momentânea
regressámos mais uma vez juntos
 
procurámos aranhas e fendas
nas paredes e no tecto
 
pergunto-me se haverá mais uma
mulher
 
agora
40.000 moscas percorrem os braços da minha
alma
a cantar
“conheci uma miúda de ouro
numa loja dos
trezentos”
 
braços da minha alma?
moscas?
a cantar?
 
que raio de merda é
esta?
 
é tão fácil ser poeta
e tão difícil ser
homem.
 
*
 
arte
 
enquanto
o espírito
esmorece
a
forma
aparece.
 
Charles Bukowski, in “Play the piano drunk like a percussion instrument until the fingers begin to bleed a bit”, Black Sparrow Press, Santa Rosa, 1999. Versões de HMBF.