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domingo, 10 de maio de 2026

UM POEMA DE ANTÓNIO PEDRO

 


AUTO-RETRATO

Mago de me fazer história e guerra,
Capaz em cada imagem de servir
A minha imagem d'oiro, que um porvir
Breve desfaz e n'outra imagem se erra,

Ou louco de temer-me, pela serra,
Árvore doida em transe de florir
Mãos como frutos e olhos a dormir
Ao marulho das ondas, sobre a terra,

Quero-me, tonto, a tornar exacto e certo,
Quotidiano e vil, como suponho
Tão necessário que se seja, aquilo

Que ultrapassando o limiar incerto
Do que é, em suave (de divino) trilo
Recria em mundo o que nasceu num sonho.

(In «Casa de Campo»)

Maria de Fátima Marinho, in O Surrealismo em Portugal, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Março de 1987, p. 607.

domingo, 15 de março de 2026

UM POEMA DE BERTOLT BRECHT

 


DO POBRE B. B.

1
Eu, Bertolt Brecht, sou das negras florestas.
Minha mãe resolveu pelas cidades andar
Comigo no ventre. E o frio das florestas
Até à morte me há-de acompanhar.

2
A minha casa é a cidade do asfalto. Desde o início
Apetrechado com os sacramentos da morte:
Com jornais. E tabaco. E aguardente.
Desconfiado, sorna, e no fim com sorte.

3
Sou amável com as pessoas. Até ponho
Chapéu de coco, como elas gostam de usar.
Digo: Têm um cheiro especial estes bichos
E digo: Não faz mal, o meu não é melhor.

4
Nas minhas cadeiras de baloiço, de manhã,
Às vezes um bando de mulheres faço sentar
E olho para elas descuidado e digo:
Com este aqui não podem vocês contar.

5
À noitinha reúno homens à minha volta
Por gentlemen nos vamos tratando.
Eles põem os pés nas minhas mesas
E dizem: Vamos melhorar. E eu
nem pergunto: Quando?

6
Cedinho ainda, no pardo amanhecer, os abetos mijam
E a passarada, os seus parasitas, começa a gritar.
A essa hora bebo um último copo na cidade e deito
Fora a beata e, inquieto, vou-me deitar.

7
Fomos vivendo, nós, leviana geração,
Em casas tidas por indestrutíveis
(Assim construímos os altos caixotes da Ilha de Manhattan
E, para divertir o Atlântico, as antenas flexíveis).

8
Destas cidades ficará o que as atravessou: o vento!
A casa alegra quem come... e a esvazia.
Sabemos que somos meros transeuntes
O que depois virá é de pouca valia.

9
Nos terramotos que aí vêm, espero,
Não vou deixar apagar o charuto Virginia, amargurado
Eu, Bertolt Brecht, vindo das negras florestas pr'as cidades de asfalto
E em tempos no ventre de minha mãe pr' aí lançado.

Bertolt Brecht in A Luz das Trevas - Poemas e canções, selecção, tradução e introdução de João Barrento, edição bilingue, livros nanook, 11, Companhia das Ilhas, Fevereiro de 2026, pp. 21-25.

segunda-feira, 2 de março de 2026

AUTO-RETRATO [2]

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E sòmente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou cagando ao vento.

Bocage


domingo, 1 de março de 2026

AUTO-RETRATO [1]

 Ao Autor*

Quem é este que na harpa lusitana
Abate as Musas gregas e as latinas?
E faz que ao mundo esqueçam as plautinas
Graças, com graça e alegre lira ufana?

LUÍS DE CAMÕES é, que a soberana
Potência lhe influiu partes divinas,
Por quem espiram flores e boninas,
Da homérica musa e mantuana.

Se tu, triunfante Roma, este alcançaras
No teu teatro e cena luminosa,
Nunca do grão Terêncio te admiraras.

Mas antes sem contraste, curiosa
Estátua de ouro ali lhe levantaras,
Contente de ventura tão ditosa.

Luís de Camões
*Faria e Sousa atribui-o a João Lopes Leitão, o qual em 1555 estava já em Goa.