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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

NICANOR PARRA (1914-2018)


Morreu o mestre. Na coluna do lado direito, encontrarão uma entrada para cerca de 80 poemas de Nicanor Parra que verti para português. Uns melhor, outros pior, todos com enorme gosto e uma única intenção: dar a ver. Podem ir directamente para lá clicando aqui. Relembro este:

EPITÁFIO

De estatura média,
Com uma voz nem fina nem grossa,
Filho mais velho de um professor primário
E de uma costureira humilde;
Fraco de nascimento
Ainda que devoto da boa mesa;
De maçãs macilentas
E de mais abundantes orelhas;
Com um rosto quadrado
No qual apenas os olhos se abrem
E um nariz de pugilista mulato
Por cima da boca de ídolo asteca
− Isto tudo banhado
Por uma luz entre irónica e pérfida −,
Nem muito lesto nem tonto no remate
Fui o que fui: uma mescla
De vinagre e de azeite virgem
Um enchido de anjo e besta!



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

P.S.: Lido o necrológio de Hugo Pinto Santos, aqui no Público, lembrei-me que em 2007 publiquei no n.º 12 da revista DiVersos algumas versões de poemas de Nicanor Parra. Lembrei-me eu, que ainda me vou lembrando de algumas coisas.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

OS VÍCIOS DO MUNDO MODERNO



Os delinquentes modernos
Estão autorizados a frequentar diariamente os parques e os jardins.
Munidos de poderosos telescópios e de relógios de bolso
Entram de rompante nos quiosques protegidos pela morte
E instalam os seus laboratórios entre as roseiras em flor.
Dali controlam fotógrafos e mendigos que deambulam por perto
Procurando levantar um pequeno templo à miséria
E havendo oportunidade chegam a ter um graxista 
melancólico.
Atemorizada, a polícia foge destes monstros
Em direcção ao centro da cidade
Onde rebentam os grandes fogos de fim de ano
E um valente encapuçado assalta duas freiras.

Os vícios do mundo moderno:
O automóvel e o cinema sonoro,
As discriminações raciais,
O extermínio dos peles vermelhas,
As manhas da alta finança,
A catástrofe dos anciãos,
O comércio clandestino de brancas perpetrado por 
sodomitas internacionais,
A bebedeira e a gula,
As Pompas Fúnebres,
Os amigos pessoais de sua excelência,
A exaltação do folclore a categoria do espírito,
O abuso de estupefacientes e de filosofia,
O amolecimento dos homens bafejados pela sorte,
O onanismo e a crueldade sexual,
A exaltação do onírico e do subconsciente em detrimento 
do senso comum,
A confiança exagerada em soros e vacinas,
O endeusamento do falo,
A política internacional de pernas abertas patrocinada 
pela imprensa reaccionária,
A ambição desmedida do poder e do lucro,
As carreiras de sucesso,
A fatídica dança dos dólares,
A especulação e o aborto,
A destruição dos ídolos,
O excessivo desenvolvimento do nutricionismo e da psicopedagogia,
O vício do baile, do cigarro, dos jogos de sorte,
Os pingos de sangue que costumam encontrar-se entre os lençóis 
dos recém-casados,
A loucura do mar,
A agorafobia e a claustrofobia,
A desintegração do átomo,
O humorismo sangrento da teoria da relatividade,
O delírio do regresso ao ventre materno,
O culto do exótico,
Os acidentes aeronáuticos,
As incinerações, as purgas em massa, a retenção 
dos passaportes,
Tudo isto porque sim,
Porque causa vertigem,
A interpretação dos sonhos
E a difusão da radiomania.

Como fica demonstrado,
O mundo moderno compõe-se de flores artificiais
Que se cultivam nuns vasos de vidro semelhantes à morte,
Está composto por estrelas de cinema
E sangrentos pugilistas que combatem à luz da lua,
Compõe-se de homens-rouxinol que controlam 
a vida económica dos países
Mediante alguns mecanismos fáceis de explicar;
Vestem-se geralmente de negro como os precursores do Outono
E alimentam-se de raízes e de ervas silvestres.
Entretanto os sábios, comidos pelas ratazanas,
Apodrecem nos sótãos das catedrais,
E as almas nobres são implacavelmente perseguidas pela polícia.

O mundo moderno é uma grande pocilga:
Os restaurantes de luxo estão cheios de cadáveres digestivos
E de pássaros que voam perigosamente a escassa altura.
Isto não é tudo: os hospitais estão cheios de impostores,
Para não falar dos herdeiros do espírito que fundam 
as suas colónias no cu dos recém-operados.


Os empresários modernos sofrem por vezes o efeito da atmosfera poluída,
Junto às máquinas de tecer costumam cair doentes do espantoso mal de sono
Que, passado algum tempo, os transforma numa espécie de anjos.
Negam a existência do mundo físico
E vangloriam-se de serem uns pobres filhos do sepulcro.
Não obstante, o mundo foi sempre assim.
A verdade, como a beleza, não se cria nem se perde
E a poesia reside nas coisas ou é simplesmente uma miragem do espírito.
Reconheço que um terramoto bem concebido
Pode acabar em alguns segundos com uma cidade rica em tradições
E que um minucioso bombardeamento aéreo
Arruína árvores, cavalos, tronos, música.
Mas que importa tudo isto
Se enquanto a maior bailarina do mundo
Morre pobre e abandonada numa pequena aldeia do sul de França
A Primavera devolve ao homem uma parte das flores desaparecidas?

Tratemos de ser felizes, recomendo eu, chupando a miserável costela humana.
Extraiamos dela o líquido renovador,
Cada qual de acordo com as suas inclinações pessoais.
Agarremo-nos a esta pelanca divina!
Ofegantes e arruinados
Chupemos estes lábios que nos enlouquecem;
A sorte está lançada.
Inspiremos este perfume enervante e destruidor
E vivamos mais um dia a vida dos eleitos:
Das suas axilas extrai o homem a cera necessária para forjar o rosto dos seus ídolos.
E do sexo da mulher a palha e o barro dos seus templos.
Pelo que
Crio um piolho na minha gravata
E sorrio aos imbecis que descem das árvores.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O JUÍZO DOS MELHORES

Directamente de Madrid, o Mário Galego sugere-me a entrevista de Nicanor Parra ao El País (suplemento Babelia) a propósito da edição do II volume das Obras Completas & algo +, com prefácio de Harold Bloom, e da atribuição do Prémio Cervantes. Fica a nota:

− Acabo de descubrir en mi biblioteca un libro que se llama El libro del desasosiego.
− De Pessoa.
− Ya no corre. Esse chiste de los heterónimos. Ya, compadre, ya. Tiene un poema que es insuperable. Dice: “Todas las cartas de amor son ridículas. Si no fueren ridículas no serían cartas de amor”. Y sigue, “yo también en mi tiempo escribí cartas de amor, como las otras, ridículas”. Mire usted las volteretas que se da. Como esas poetisas argentinas. La Maria Elena… la Maria Elena…
− Walsh?
− Claaaro. A ver, hay otras.
− Alejandra Pizarnik?
− Ah, la Pizarnik. Fantástica
.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

UM ARTIGO

Sobre Nicanor Parra, sugerido pelo Rui Manuel Amaral. Agradecido:

Hace mucho que Parra está de vuelta de toda vanidad ligada al hecho de publicar. Nadie mejor que él sabe de la condición utópica que lleva aparejada la iniciativa de reunir sus obras completas. La obra de Parra, la más libre y radical de toda la poesía escrita en español durante el último siglo, se resiste a ser fijada y encuadernada. Pese a lo cual, leer en secuencia los libros que ha consentido publicar en el transcurso de más de medio siglo, constituye una experiencia irreversible, trastornadora de todas las ideas que circulan comúnmente acerca de qué es y qué deja de ser poesía. Quizá debido a esto, el más grande poeta vivo de la lengua -como ha sido saludado por voces muy autorizadas- sigue siendo poco leído e insuficientemente apreciado en España. Una y otra vez me han preguntado las razones de que así sea, y todas las explicaciones que he sido capaz de aportar aluden a una incomprensión de sus propósitos y de sus alcances, propiciada por un previo malentendido acerca de qué cosa sea la lírica y cuál la relación de la palabra poética con el habla. No pretendo que en España no haya lectores receptivos a la antipoesía y buenos entendedores del programa que subyace a ella, el más subversivo y renovador de la poesía latinoamericana. Lo que sí digo es que los rumbos de la poesía española han desatendido en general -por razones penosas de explicitar- la propuesta de Parra, y que el estado de opinión más general acerca de ella es un amasijo de tópicos apenas dignos de ser rebatidos. (Aqui)

sábado, 20 de novembro de 2010

O ANTI-LÁZARO


Não te levantes da tumba morto
o que ganharias com ressuscitar
um feito
…………..e depois
………………………a rotina de sempre
não te convém velho não te convém

o orgulho o sangue a avareza
a tirania do desejo venéreo
as dores que a mulher causa

o enigma do tempo
as arbitrariedades do espaço

reconsidera morto reconsidera
não te recordas como era?
à menor dificuldade espoletavas
em impropérios à direita e à esquerda

tudo te incomodava
já não resistias
nem à presença da tua própria sombra

má memória velho má memória!
o teu coração era um monte de escombros
─ estou a citar os teus próprios escritos ─
e da tua alma nada restava

para quê então voltar ao inferno de Dante?
para que a comédia se repita?
qual divina comédia qual quê
fogo de artifício ─ miragens
isco para caçar vermes gulosos
isso sim seria um grande disparate

és feliz cadáver és feliz
nada te falta no teu sepulcro
ri-te dos peixes coloridos

alô ─ alô estás a ouvir-me?

quem não há-de preferir
o amor da terra
às carícias de uma lúgubre prostituta
ninguém em plena posse das suas faculdades
a não ser que tenha um pacto com o diabo

continua a dormir homem continua a dormir
sem as ferroadas da dúvida
senhor e amo do teu próprio caixão
na quietude da noite perfeita
liberto de inutilidades
como se nunca tivesses estado acordado

por nenhum motivo ressuscites
não tens por que ficar nervoso
como disse o poeta
tens toda a morte pela frente


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O HOMEM IMAGINÁRIO




O homem imaginário
vive numa mansão imaginária
rodeada de árvores imaginárias
à beira de um rio imaginário

Das paredes que são imaginárias
pendem antigos quadros imaginários
irreparáveis fendas imaginárias
que representam feitos imaginários
ocorridos em mundos imaginários
em lugares e tempos imaginários

Todas as tardes tardes imaginárias
sobe as escadas imaginárias
e aparece na varanda imaginária
a olhar a paisagem imaginária
que consiste num vale imaginário
rodeado de colinas imaginárias

Sombras imaginárias
vêm pelo caminho imaginário
entoando canções imaginárias
à morte do sol imaginário

E nas noites de lua imaginária
sonha com a mulher imaginária
que lhe ofereceu seu amor imaginário
volta a sentir essa mesma dor
esse mesmo prazer imaginário
e volta a palpitar
o coração do homem imaginário


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

PROJECTO DE TREM INSTANTÂNEO

entre Santiago e Puerto Montt

A locomotiva do trem instantâneo
está no lugar de destino (Pto. Montt)
e a última carruagem
no ponto de partida (Stgo.)

a vantagem que este tipo de trem apresenta
consiste em que o viajante chega
instantaneamente a Puerto Montt no
exacto momento de apanhar a última carruagem
em Santiago

a única coisa que deve fazer continuamente
é mudar-se com as suas maletas
pelo interior do trem
até chegar à primeira carruagem

uma vez realizada esta operação
o viajante pode proceder ao abandono
do trem instantâneo
que permaneceu imóvel
durante todo o trajecto


Atenção: este tipo de trem (directo) serve apenas para viagens de ida

Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)Versão de HMBF

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

POEMAS DO PAPA



1

Acabam de eleger-me Papa
sou o homem mais famoso do mundo

2

Cheguei ao topo da carreira eclesiástica
agora posso morrer tranquilo

3

Os Cardeais estão incomodados comigo
porque não os cumprimento como antes
demasiado solene?
afinal sou o Papa, caramba

4

Amanhã de manhã
mudo-me para o Vaticano

5

Tema do meu discurso:
Como Triunfar na Carreira Eclesiástica

6

Saudações à esquerda e à direita
todos os diários do mundo
publicam a minha fotografia na primeira página

não há dúvidas
de que pareço muito mais jovem do que sou

7

Não é de espantar
desde pequeno que queria ser Papa
trabalhei arduamente
até que se cumprissem os meus desejos

8

Virgem do Perpétuo Socorro!
esqueci-me de abençoar a multidão


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A PROPÓSITO DE ESPINGARDA


HÁ QUE PAVIMENTAR a cordilheira
mas não com cimento nem com sangue
como supus em 1970
há que pavimentá-la com violetas
há que plantar violetas
há que cobrir tudo com violetas
humildade
……………..igualdade
…………………………..fraternidade
há que encher o mundo de violetas


O PINTASSILGO CHILENO ─ creio ─
tem a obrigação de se manter em silêncio
enquanto não recuperar a sua liberdade
e não pensar em nada que não seja
a liberdade
……………..a porta da gaiola
actos e não palavras deliciosas

ou recupera o seu nome de pássaro
que significa amor à liberdade
ou torna-se digno de um réptil

o cúmulo dos cúmulos
é pôr-se a cantar versos de cego
como se nada se passasse no Chile


POR SER SINCERO quase me fodi
por optimismo me enganei
por ser compassivo ─ humilde
recebi um bom pontapé
assim por lerdo passei
por andar a predicar o bem

Menos mau que tudo tenha mudado
agora que roubo a granel
medalhas de ouro e de prata
agora que como por cem:
todos me respeitam agora
que não peço nem dou quartel

Sou o folgazão da outra banda
agora que perdi a fé
espero que me canonizem
a qualquer momento. Ámen.


17 ELEMENTOS SUBVERSIVOS
foram ontem surpreendidos
nos arredores de La Moneda
transportando laranjas
e um exemplar da Bíblia Sagrada

3 deles puseram-se em fuga
não sem antes confrontarem a polícia
que se viu obrigada a actuar em defesa própria

os delinquentes acabaram mortos


DIGA-SE LUPANAR e não prostíbulo
meretriz em vez de prostituta
Nosso Senhor
………………….em vez de Jesus Cristo
Via Láctea ─ jamais Rio Jordão
a palavra é o homem
nunca diga sol
……………………diga astro rei
diga Pronunciamento Militar
e verá como lhe subirão os abonos

se disser golpe olhá-lo-ão de soslaio

é feio dizer chinoca
diga antes cidadão chinês
é mais respeitoso
………………………….muito mais cristão

o que ouvem senhoras e senhores
aquele que diz corcel em vez de cavalo
tem o futuro assegurado


POESIA POESIA tudo poesia
fazemos poesia
até quando vamos à casa de banho

palavras textuais do Cristo de Elqui

miar é fazer poesia
tão poesia como tocar alaúde
ou cagar ou poetizar ou peidar-se

e vamos vendo o que é a poesia

palavras textuais do Cristo de Elqui


E POR FAVOR destrói este papel
a poesia segue-te os passos
a mim também
…………………….a todos nós



Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

domingo, 14 de novembro de 2010

SETE TRABALHOS VOLUNTÁRIOS E UM ACTO SEDICIOSO



1

o poeta atira pedras à lagoa
círculos concêntricos propagam-se

2

o poeta senta-se numa cadeira
dando corda a um relógio de bolso

3

o poeta lírico ajoelha-se
diante de uma cerejeira em flor
e começa a rezar um pai-nosso

4

o poeta disfarça-se de homem rã
e esconde-se no lago do parque

5

o poeta lança-se no vazio
pendurado num guarda-chuva
desde o último andar da Torre Diego Portales

6

o poeta resguarda-se no Túmulo do Soldado Desconhecido
e daí dispara flechas envenenadas contra os transeuntes

7

o poeta maldito
entretém-se atirando pássaros às pedras

ACTO SEDICIOSO

o poeta corta as veias
em homenagem ao seu país natal


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)Versão de HMBF

sábado, 13 de novembro de 2010

DESCANSA EM PAZ


claro ─ descansa em paz
e a humidade?
………………e o musgo?
…………………………..e o peso da lápide?
e os cangalheiros bêbados?
e os ladrões de vasos?
e os ratos que roem os caixões?
e os vermes malditos
que se colam por todos os lados
tornando-nos a morte insuportável
ou parece-vos que nós
não percebemos nada…

é admirável dizer descansa em paz
sabendo que isso não é possível
só pelo gosto de dar à língua

saibam que percebemos tudo
as aranhas correndo pelas pernas
como Pedrito Lastra pela sua ca(u)sa
não nos deixam dúvidas a esse respeito
deixemo-nos de graçolas
ante a tumba aberta de uma ponta a outra
há que dizer as coisas como são:
vocês a contar carneirinhos
e nós ao fundo do abismo


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF


Nota: no original, os dois últimos versos são «ustedes al Quitapenas / y nosotros al fondo del abismo». Uma pesquisa sobre Quitapenas permitiu-nos saber que se trata de uns bonecos guatemaltecos que se dão às crianças com dificuldades em adormecer.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

OS PROFESSORES

Os professores deram connosco em loucos
com perguntas que não vinham ao caso
como se somam números complexos
se há ou não há aranhas na lua
como morreu a família do czar
será possível cantar com a boca fechada?
quem pintou bigodes na Gioconda
como se chamam os habitantes de Jerusalém
há ou não há oxigénio no ar
quantos são os apóstolos de Cristo
qual o significado da palavra consueto
quais foram as palavras que Cristo disse na cruz
quem é o autor de Madame Bovary
onde escreveu Cervantes o Quixote
como é que David matou o gigante Golias
etimologia da palavra filosofia
qual é a capital da Venezuela
quando chegaram os espanhóis ao Chile

Ninguém dirá que os nossos mestres
eram umas enciclopédias ambulantes
tudo exactamente ao contrário:
uns modestos professores primários
ou secundários já não me recordo bem
─ agora de bengala e batina
como se estivéssemos no início do século ─
não tinham por que incomodar-se
em incomodar-nos daquela maneira
excepto por razões inconfessáveis:
para quê tanto delírio pedagógico
tanta crueldade no mais negro vazio!

Dentadura do tigre
nome científico da andorinha
quantas partes tem uma missa solene
qual a fórmula do anídrico sulfúrico
como se somam fracções com denominadores diferentes
estômago dos ruminantes
árvore genealógica de Filipe II
Os Mestres Cantores de Nuremberg
Evangelho segundo São Mateus
nomeie cinco poetas finlandeses
etimologia da palavra etimologia

Lei da gravitação universal
a que família pertence a vaca
como se chamam as asas dos insectos
a que família pertence o ornitorrinco
mínimo comum múltiplo entre dois e três
há ou não há trevas na luz
origem do sistema solar
aparelho respiratório dos anfíbios
órgãos exclusivos dos peixes
tabela periódica dos elementos
autor de Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse
em que consiste o fenómeno chamado mi-ra-gens
quanto demoraria um comboio a chegar à lua
como se diz ardósia em francês
sublinhe as palavras terminadas em consoante

A verdade das coisas
é que nós sentávamo-nos indiferentes
quem ia incomodar-se com tais perguntas
no melhor dos casos apenas nos agitavam
um único defeito da cabeça
a verdade verdadeira das coisas
é que nós éramos gente de acção
a nossos olhos o mundo reduzia-se
ao tamanho de uma bola de futebol
e chutá-la era o nosso delírio
nossa razão de sermos adolescentes
houve campeonatos que se prolongaram até à noite
sempre me perseguiu
a bola invisível na obscuridade
havia que ser mocho ou morcego
para não chocar com os muros de barro
esse era o nosso mundo
as perguntas dos nossos professores
atravessavam gloriosamente os nossos ouvidos
como água pelas costas de um pato
sem perturbar a calma do universo:
partes constitutivas da flor
a que família pertence a doninha
método de preparação do ozono
testamento político de Balmaceda
surpresa de Cancha Rayada
por onde entrou o exército libertador
insectos prejudiciais à agricultura
como começa o Poema del Cid
desenhe uma roldana diferencial
e determine a condição de equilíbrio

O amável leitor compreenderá
que nos era pedido mais do que o justo
mais que o estritamente necessário:
determinar a altura de uma nuvem?
calcular o volume da pirâmide?
demonstrar que a raiz de dois é um número irracional?
aprender de memória as Coplas de Jorge Manrique?
deixem-se de baboseiras connosco
hoje temos que terminar um campeonato
mas chegavam as provas escritas
e consequentemente as provas orais
(numa de esfregar caiu Caldeira)*
com uma regularidade digna da melhor causa:

Teoria electromagnética da luz
em que se distingue o trovador do jogral
é correcto afirmar vendam-se ovos?
sabe o que é um poço artesiano?
classifique os pássaros do Chile
assassinato de Manuel Rodríguez
independência da Guiana Francesa
Simón Bolívar herói ou anti-herói
discurso de renúncia de O’Higgins
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta

Os professores tinham razão:
em boa verdade
o cérebro fugia-nos pelas narinas
─ só vendo como nos estalavam os dentes ─
a que se devem as cores do arco-íris
hemisférios de Magdeburgo
nome científico da andorinha
metamorfose da rã
que entende Kant por imperativo categórico
como se convertem pesos chilenos em libras esterlinas
quem introduziu o colibri no Chile
por que não cai a Torre de Pisa
por que não se afundam os jardins flutuantes de Babilónia
por que não cai a lua sobre a Terra?
municípios da província de Ñuble
como se trisseca um ângulo recto
quantos e quais são os poliedros regulares
este não faz a menor ideia de nada

Teria preferido que a terra me devorasse
a responder a estas perguntas descabeladas
sobretudo depois das prédicas moralizantes
a que nos submetiam inevitavelmente todos os dias
sabem vocês quanto custa ao estado
cada cidadão chileno
desde o momento em que entra na escola primária
até ao momento em que sai da universidade?
um milhão de pesos de seis vinténs!

Um milhão de pesos de seis vinténs
e continuavam apontando-nos o dedo:
como se explica o paradoxo hidrostático
como se reproduzem os fetos
enumere-me os vulcões do Chile
qual é o rio mais comprido do mundo
qual é o couraçado mais poderoso do mundo
como se reproduzem os elefantes
inventor da máquina de costura
inventor dos balões aerostáticos
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta
vão ter que ir para casa
e regressar com os vossos encarregados
para conversar com o Reitor da Escola

E entretanto a Primeira Guerra Mundial
E entretanto a Segunda Guerra Mundial
A adolescência ao fundo do pátio
A juventude debaixo da mesa
A maturidade que não se conheceu
A velhice
……………com suas asas de insecto.

Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)Versão de HMBF




*de um verso de Lope de Vega: En una de fregar cayó Caldera.

domingo, 7 de novembro de 2010

NÃO CONFUNDIR


Em 1977 o grupo teatral La Feria encenou um espectáculo baseado nos poemas de Nicanor. Hojas de Parra foi considerado um espectáculo subversivo pelas autoridades governamentais, levando o poeta a agudizar o tom crítico da sua antipoesia. Num discurso proferido na Sociedad de Escritores de Chile insurgia-se contra a crónica injustiça social que assolava o seu país, acusando a fome, o exílio, os crimes ecológicos e os desaparecimentos perpetrados pela ditadura de Pinochet. Em 1982, publicou Ecopoemas, uma plaquette clandestina onde a bandeira da ecologia era acenada como nunca antes na sua poesia. M.ª Ángeles Pérez López afirma que, por esta altura, o cepticismo que caracterizava a antipoesia foi momentaneamente vencido por uma confiança no poema enquanto despertador de consciências. Chistes par(r)a desorientar a la (policía) poesía (1983) resultou de uma colaboração com 30 artistas que criaram composições visuais sobre os poemas de Nicanor Parra, produzindo cartões postais onde se denunciavam os males do mundo: poluição, consumismo, repressão, maniqueísmo ideológico. 1983 foi igualmente o ano de edição de Poesía política, uma recolha onde poemas anteriormente editados conviviam com poemas novos que lançavam no ar o testemunho de uma chegada ao poder «da burocracia da morte». Contudo, Parra nunca se considerou um poeta político. A sua poesia não obedecia senão à agenda existencial do anti-poeta, afirmava-se a partir de uma estranha confluência da poesia popular com o humor negro dos surrealistas e os aspectos visuais da poesia experimental. Todas essas dimensões são perfeitamente perceptíveis na recolha de 1985: Hojas de Parra. Aí encontramos textos escritos desde 1969, uns inéditos e outros publicados em revistas e antologias, numa síntese perfeita dos temas parrianos: a degradação da sexualidade, a velhice, a morte, a frustração enquanto sentimento predominante, “o esmagamento da vida pelas instituições normativas”. Um exemplo:

QUE GANHA UM VELHO EM FAZER GINÁSTICA
que ganhará em falar ao telefone
que ganhará em tornar-se famoso
que ganha um velho em ver-se ao espelho

Nada
afundar-se cada vez mais na lama

já são três ou quatro da madrugada
por que não trata de adormecer
não ─ deu-lhe para fazer ginástica
deu-lhe para as chamadas de longa distância
deu-lhe para Bach
…………………..Beethoven
……………………………..Tchaikovsky
deu-lhe para ver-se ao espelho
deu-lhe para continuar a respirar obsessivamente

lamentável ─ melhor seria que apagasse a luz

Velho ridículo diz-lhe sua mãe
és igualzinho ao teu pai
ele também não queria morrer
Deus te dê vida para andares de automóvel
Deus te dê vida para falares por telefone
Deus te dê vida para respirares
Deus te dê vida para enterrares tua mãe

Caíste no sono velho ridículo!
mas o ancião não pensa em dormir
não confundir chorar com dormir


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ÚLTIMAS PALAVRAS DO CRISTO DE ELQUI

LV

A arte não devia ser uma empresa privada
como deixar nas mãos de particulares
a produção de raios infravermelhos
nada mais perigoso
para a integridade da república
a nossa saúde mental em primeiríssimo lugar
a poesia por exemplo a poesia
pode levar um país à ruína
se não se tem cuidado com ela
pensem no Nocturno de José Asunción Silva
que provocou uma onda de suicídios
ou no Poema 20 de Neruda
a poesia deve ser positiva
como a Corporação de Fomento
ou os Comboios do Estado
a liberdade de expressão é um mito.

LXIII

Que o Supremo Tribunal determine:
se amar a Deus sobre todas as coisas
é possuir espírito de lucro
se não evocar seu santo nome em vão
é possuir espírito de lucro
se venerar o pai e a mãe
é possuir espírito de lucro
se não roubar matar nem fornicar
é possuir espírito de lucro
se respeitar a mulher do próximo
é possuir espírito de lucro
Vossa Excelência: se imitar o Senhor
na medida das próprias forças
é possuir espírito de lucro
para quê atirar areia aos olhos
o Cristo de Elqui é o pior dos comerciantes
o mais ruim o mais vil o mais canalha
podem crucificar-me sem mais trâmites

reconheço que vendo os meus folhetos
exactamente: vendo os folhetos
quer dizer que não os posso oferecer
ainda que me doa muito o coração
impossível ─ não posso oferecê-los
que a terra me engula senhor juiz
apenas alcanço para sobreviver:
um poucochinho de senso comum!
Juro por Deus: se fosse milionário
não só folhetos ofereceria
ofereceria bibliotecas inteiras
tanta falta que fazem creio eu
Dom Quixote em primeiríssimo lugar
─ sem esse livro não se entende nada ─
Martín Fierro meu livro predilecto
meu velador ─ minha lâmpada ─ meu tudo
Os Cavaleiros da Távola Redonda
Bertoldo Bertoldino e Cacasenno
obra como outra não há no seu género
o Han de Islândia por Victor Hugo
a sem par Genoveva de Brabante
e para terminar
ou seja que por aí deveria ter começado
a Santa Bíblia
………………….sim
……………………….a Santa Bíblia
que é o único livro verdadeiro
os demais são agradáveis mas falsos.


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

MAIS UM DO CRISTO DE ELQUI, MUITO A PROPÓSITO

XLVIII

Eu sou o homem mais feliz do mundo
mentiria se dissesse que minto
quando declaro ser
o desgraçado mais feliz do mundo
nada tenho contra a parentela
nada tenho contra os meus inimigos
nada tenho contra os meus irmãos
resolvi os meus problemas pessoais
salvei-me por um triz mas salvei-me
repito-o para que não reste sombra de dúvida:
eu sou o homem mais feliz do mundo
dá-me vontade de soltar um uivo
e saltar de um sétimo andar
claro: sentir-me-ia mais feliz
se não fosse tão extraordinariamente feliz
se não fosse tão insolentemente feliz
se não fosse tão escandalosamente feliz

há que ter estômago de avestruz
para digerir tanta porcaria.


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)Versão de HMBF

terça-feira, 26 de outubro de 2010

XLVI



E agora convosco
nossa Secção Perguntas e Respostas
─ Senhor Cristo de Elqui
que pensa V.
dos fatos de banho de uma peça?
─ Nada tenho contra a juventude
desde que não dê nas vistas
─ Senhor Cristo de Elqui
que opinião lhe merece a Democracia Cristã?
─ Nada tenho contra a Democracia Cristã
desde que não dê nas vistas
─ Que pensa você dos concursos literários?
─ A competição nada resolve
pois não somos cavalos de corrida
condeno-os do fundo do coração
nisto sim, sou intransigente
─ Senhor Cristo de Elqui
que recomenda você
autoritarismo ou livre arbítrio?
─ Não sei o que lhe responder: em boa verdade
autoritarismo é sinónimo de repressão
─ Que futuro prevê para a Revolução Cubana?
─ O Capuchinho Vermelho triunfará.
─ Senhor Cristo de Elqui
tem você alguma opinião
acerca do escabroso tema das perversões sexuais?
─ Nada tenho contra as perversões sexuais
desde que não dêem nas vistas
claro que eu proponho o amor platónico
─ Poderá esclarecer-nos esse conceito?
─ O amor platónico chega até ao beijo na testa
o demais é trabalho do Demónio
─ Que pensa você dos bailes de máscaras?
─ Nada tenho contra os bailes de máscaras
desde que não dêem nas vistas
nada contra a festa da primavera
que cada qual se divirta a seu modo
desde que nos dêmos conta
da fugacidade de tudo isso
da precariedade de tudo isso
da irrealidade de tudo isso.


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
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sábado, 16 de outubro de 2010

QUE NOS SALVE O CRISTO DE ELQUI


XLIV

Pobre Cristo de Elqui dizem os meus detractores
não podemos acreditar na sua doutrina
não queremos ser pobres como ele
não mais tem que um mísero par de sandálias
há que viver bem neste mundo
a pobreza é um sinal de inferioridade

a mim ensinaram-me
que nem o Pai nem o Filho foram ricos
─ suponho que tão-pouco o será o Espírito Santo ─
nem palácios nem herdades nem veículos
nenhum dos Três
necessita de bens materiais
e nem por isso deixam de ser Deus
antes pelo contrário, certo?

é por isto que eu me preocupo
quando os meus detractores me desqualificam
pelo facto de apenas ter uma túnica
uma única camisa
um único par de cuecas negras:
quanto mais pobres
……………………………quanto mais humildes
mais nos pareceremos ao Senhor

ajoelhemo-nos desta vez
a orar pela alma dos ricos:
Pai nosso que estás no céu…



Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)Versão de HMBF

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

UMA CERVEJA PARA O CRISTO DE ELQUI


XLI

Tudo pode ser provado com a Bíblia
por exemplo que Deus não existe
por exemplo que o Diabo manda mais
por exemplo que Deus
é masculino e feminino ao mesmo tempo
ou que a Virgem era doidivanas
basta saber um pouco de hebreu
para poder lê-la no original
e interpretá-la como deve ser
é questão de análise lógica

têm razão os amigos cépticos
tudo pode ser provado com a Bíblia
é questão de saber baralhá-la
é questão de saber adulterá-la
é questão de saber esquartejá-la
como quem esquarteja uma galinha:
tragam mais uma dúzia de cervejas!


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

XL

Ninguém pode dizer que é um homem
para o seu chefe pode ser um frouxo
para a sua esposa pode ser um adúltero
para a lei um vulgar assassino:
ele escolheu a sua própria perdição!

assassino Santo Deus!
que palavra mais cheia de ódio
devia ser apagada do dicionário
felizmente Santo Deus
para a mãe não existe nada disso
tudo purifica com seu choro
sonha com ele quando tinha 5 anos
e vê-o conduzindo o seu triciclo
e depois a Primeira Comunhão…
jamais lhe verá um punhal na mão
não pode ser Santo Deus não pode ser
era belo de corpo e espírito
ninguém o conheceu melhor que eu
condenaram-no à cadeira eléctrica
ninguém acedeu a tapar-lhe os olhos
quem vai tapar os olhos de um assassino
que fiquem abertos para sempre!
nem Extrema Unção nem funeral algum
ninguém recorda onde está a sua campa
mas ela que nunca duvidou dele
segui-lo-á chamando-lhe querido filho.



Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
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terça-feira, 12 de outubro de 2010

MAIS SERMÕES DO CRISTO DE ELQUI

XXIX

Um conselho de boa vontade:
NÃO CORTARÁS AS ASAS ÀS GALINHAS
elas também têm direito a voar
há algumas senhoras donas de casa
que praticam esse desporto diabólico
é preferível perder uma galinha
a cometer a torpeza imperdoável
de nos crermos capazes
de emendar os planos do Criador:
se Ele na sua infinita sabedoria
resolveu dotá-las de asas
alguma razão poderosa terá tido
ainda que nos pareça ridículo.

XXXII

Quem são os meus amigos
os doentes
……………..os débeis
…………………………..os pobres de espírito
os que não têm onde cair mortos
os velhos
…………..as crianças
………………………….as mães solteiras
─ os estudantes não porque são revoltosos ─
os camponeses porque são humildes
os pescadores
…………………..porque me recordam
os santos apóstolos de Cristo
os que não conheceram seu pai
os que como eu perderam sua mãe
os condenados a prisão perpétua
nas chamadas oficinas públicas
os humilhados por seus próprios filhos
os ofendidos por suas próprias esposas
os araucanos
os repetidamente postergados
os que nem sequer sabem assinar
os padeiros
………………os coveiros
meus amigos são
os sonhadores ─ os idealistas
que como Ele entregaram sua vida
no holocausto por um mundo melhor.

XXXVII

A neurose não é uma enfermidade
é uma concentração de energia psíquica
que devemos saber aproveitar
um neurótico bem administrado
rende o dobro ou o triplo de um sujeito normal
tomem o exemplo de Napoleão Bonaparte
de dom Miguel de Cervantes Saavedra
de dom Alonso de Ercilla y Zúñiga
de Cristóvão Colombo
do português Fernão de Magalhães
o primeiro que deu a volta ao mundo
e de tantos outros incomensuráveis génios

ninguém pode duvidar
da grandeza de todos estes homens
e no entanto todos eles eram neuróticos.



Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)Versão de HMBF