Mostrar mensagens com a etiqueta Os mestres e as criaturas novas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Os mestres e as criaturas novas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de junho de 2021

UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES

 


APRENDER A LUZ

a espessura do cabelo mais fino
é uma brincadeira quando comparada
a um nanómetro

soube hoje pelo jornal

é agora possível apertar a luz
até à espessura de um átomo.

tomo um copo de água
apago a luz.

amanhã irei cortar o cabelo
e o mundo seguirá
entre um aperto e outro
por entre a luz seguiremos.

entre prender ou libertar a luz
prefiro gastar as minhas energias
a tentar aprendê-la

aprender a luz
com a paciência milenar do mar
no tecer dos líquenes e dos corais
aprender a luz
no lento fossilizar dos horizontes
ou como quem aprende a idade dos glaciares
a linguagem das pedras
o segredo dos rios num corpo de mulher

é preciso aprender a luz
como o amante que só com os olhos fala
e nesse brilho se enamora.

Pedro Teixeira Neves, in Uma Vírgula Depois, com Ivo Machado, Glaciar, Janeiro de 2019, p. 65.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

NOTA DE RODAPÉ

 


A minha recordação mais remota está banhada em vermelho. Saio de uma porta nos braços de uma rapariga, o chão é vermelho à minha frente e à esquerda há uma escada que desce igualmente vermelha. À nossa frente, à mesma altura, abre-se uma porta e aparece um homem sorridente que avança amigavelmente na minha direcção. Aproxima-se muito, pára, e diz-me: "Mostra a língua!" Eu ponho a língua de fora, ele procura qualquer coisa no bolso, tira lá de dentro uma navalha e, com a lâmina quase a tocar-me a língua diz: "Agora vamos cortar-lhe a língua." Não me atrevo a pôr a língua para dentro, e a faca aproxima-se cada vez mais até ma roçar. No último momento, o homem afasta a navalha e diz: "Hoje ainda não, amanhã." Fecha a navalha e guarda-a no bolso. Todas as manhãs quando transpomos a porta e saímos para o corredor vermelho, abre-se a outra porta e aparece o homem sorridente. Sei o que ele vai dizer e espero que me ordene que lhe mostre a língua. Sei que ma vai cortar e tenho cada vez mais medo. Assim começa o dia, e a história repete-se muitas vezes.

Elias Canetti, citado por Byung- Chul Han, in Rostos da Morte - investigações filosóficas sobre a morte, trad. Miguel Serras Pereira, Relógio D'Água, Abril de 2021, p. 212.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

UM POEMA DE IVO MACHADO

 


PAUL CÉZANNE

a luz me persegue como a tantos
antes de mim
Hortense era mulher de Cézanne
e dizia que o marido
não sabia o que fazia
não sei se Hortense pensava na luz
mas diz, Matisse, que ficou escandalizado
quando ela o disse
a luz me persegue como a todos
ante o juízo final
mas não era da luz que Hortense
se queixava
antes do carácter inacabado das telas
do marido
sim, era verdade
o pintor buscava o inacabado
e essa a minha caminhada
a luz inacabada
   do sal da terra
   da espuma da onda
   dos limões
   da palavra
   da alma
a luz do azul da melancolia
porém, Cézanne, perseguia o inacabado
e confessou-o numa carta à mãe
o acabado é o prazer dos imbecis.

Ivo Machado, in Uma Vírgula Depois, em parceria com Pedro Teixeira Neves, Glaciar, Janeiro de 2019, p. 74.

domingo, 23 de maio de 2021

3 DEMISSIONETOS E UMA ODE

 


pública forma de 3 demissionetos em papel selado

44.

João Pedro Grabato Dias, lá
assinado abaixíssimo de tudo,
natural de Inhaminga, mas cria.
do no seco chão duriense, mudo

mas prolixo de sons, quando lhe dá
pr'aí, trinta e sete anos feitos, rudo
João, como um penedo pedro, ma-
gro de andar a dias ao grabato, bo-

çal sem sal, pro môr dos trinta e tal
milhões de companhias más, casado
com todas que me queiram, e bastardo

dum beberrão nado morto e duma tal
viuva virgem, milaneto enfartado
de judas, de asterix, e de um bardo

45.

merdólicoso hindú e ainda mais
com sangue escravo mas disfarçadíssimo,
morador (com geleira) rua Pais
da Pátria (e telefone) num baixíssimo

número (nem digo, por pudor), Olhais
de baixo, (e talvez, por tal, miopíssimo)
África, Costa a leste irreais,
hemisferiado neste sul quentíssimo,

junto a Vossa Excelência solicita,
mui respeitosamente, e etecetera,
por motivos tais como : pouca guita

de papagaio e trôpa vulva asceta,
se digne aceitar a ida súbita
deste terceiro oficial marmota.

46.

Allranço Mortos, vinte e sete, Agosto,
um milhar novecentos e setenta
anos depois do Objector do Gosto.
(com o assim natura reconhisedenta)

(Nota a vermelha sangue vaca :) Posto
o impróprio tom, mais língua na pimenta
ou véce virsa, e baixe-se de posto.
(assim nado :) governo a dor Pimenta.

(Nota baça a lápis respeitoso : )
Ouso notar a vóscelência a dura
punição, e lembrar-lhe que este moço

é primo, por tabela, da Doutora
Joaninha A. Boa. (Em azul-tremoço :)
Promova-se. (lápis :) Ligue à doutora.


ODE PRESSAGA
dois fragmentos de uma 1.ª versão

I

haverá um lugar onde a flor do pranto
tenha calmas raízes sob névoa e torpor
haverá um lugar onde endormido e brando
já me estarei esperando rociado de horror
haverá um lugar onde pensá-lo seja
estar dos medos além sem a rota suspeita
haverá um lugar de rosmano e carqueja
ninho dum teu amor onde ninguém se deita
haverá um lugar onde a soma das coisas
se divida por si sem agonia em resto
haverá um lugar onde o brilho da loiças
possa evocar o lar onde esperas meu rosto
haverá um lugar com cadeiras de enfim
esperar o tempo todo que os tempos se resolvam
haverá um lugar onde o começo é fim
e os ciclos ordenados a malícia confundam
haverá um lugar com cadáveres tranquilos
ornadando as paredes e regalando a vista
e haverá um cadáver com um lugar de trilos
ocupando nas órbitas um odor de lentisco
haverá um lugar onde as avós se riam
num dentilhar postiço um riso verdadeiro
haverá um lugar com rebanhos que fiam
a própria lã nas fáuces do ogre carniceiro
haverá um lugar onde morreram todos
os anões do remorso e os truões da baixeza
haverá um lugar onde os uivos dos lobos
sejam serzidos nões no zumbir das abelhas
haverá um lugar com papaias de cobre
rachoadas do odor que as palavras tilintam
haverá um lugar onde o pranto se dobre
sobre as recordações que os meus linhos consintam
haverá um lugar de tâmaras nos dentes
e um aprovar suave de franjas sob as copas
haverá um lugar todo em pãezinhos quentes
com vozes de manteiga sobre a toalha posta
haverá um lugar onde unção seja cio
de faminta amizade sobre terra lavrada
haverá um lugar de cães e desfastio
aninhados no bafo de uma tarde coalhada
haverá flores de dentes pelas jarras quietas
e uma cama de mãos ternurinhas e cócegas
haverá um lugar com sossego em gavetas
e de perpétua boda sândalos e cânforas
haverá um lugar de escaninhos secretos
de tempestades peixe a bransequir os ossos
haverá um lugar de triturar infestos
aconteceres de mágoa em ecos pelos paços
haverá um lugar de aprovadoras pedras
na lagariça calma do nosso esperar tudo
haverá um lugar onde carnes e sedas
germinem no teu ventre um deslizar sizudo

II

haverá um lugar habituado aos usos
que já demos às coisas em que tínhamos fé
haverá um lugar de protótipos lusos
pouco mais interessados que em manter-se de pé
haverá um lugar dois lugares três lugares
na geral no balcão na coxia no palco
haverá um lugar com vulcões em andares
sobrepostos de tédio cuerinhos e talco
haverá um lugar sem lugar a mais nada
que aconteceram coisas guardadas pra exemplo
dum lugar a alugar na lôbrega fachada
deste comércio engano desenganado a tempo
haverá um lugar onde um irmão nos derrube
com a só força do pranto com a só força da fome
haverá um lugar onde um irmão nos assome
impedindo no gesto o navegar da mão
haverá um lugar com videiras e palmas
para que a transição seja nossa e suave
haverá um lugar com lugar para as almas
já liofilizadas no tutano da cave
haverá um lugar um lagar um lagarto
um logro um odre um ogre um óptico logradoiro
um lugre alegre um lúgubre post-parto
um lupanar de linces uma mortalha de oiro
um lagarto um lagar de lugares de haverás
de logros ôdres ógres òpticamente certos
de lugres aportando em chávenas de chá
de amostrar às visitas em recintos discretos
haverá um cansaço um bocejo um adeus
uma guitarra ao canto um último cigarro
haverá uma pausa e alguma coisa-deus
por um cerrar de porta por um escarrar de sarro


João Pedro Grabato Dias, in Sonetos de Amor e Circunstância, 2.ª edição, corrigida e aumentada, Lourenço Marques, edição de Académica Lda, 1975, s/p.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES

 


A TARTARUGA DE BOB WILSON

não tenhas pressa
não tenhas pressa
a eternidade pode esperar
repara
a tragédia do homem sobre a terra      desde sempre
guardada a sete chaves junto ao mistério do tempo
para onde vai o tempo?

a tartaruga de bob wilson atravessando o palco
em longos trinta e dois minutos de lenta lentidão
que lhe interessa o tempo
sequer para onde vai na sua solidão?

escrever      escrever      pois sim
mas saber realmente o que dizer não interessa
interessa ser a tartaruga sem o saber
interessa o poema enquanto acontecer
ao poema não interessa o tempo
nem para onde o tempo vai
ou mesmo se vai a tempo de o ser

interessa ser a tartaruga
e reservar quando muito alguns instantes
para a meio da cena parar e apenas
perguntar      perguntar      perguntar

interessa saber que as ondas se repetem
que só o mar não se extingue no seu eterno desenhar

um dia      sabe      a tua mão será tão longe
tão longe que não mais te pertencerá
um dia a tua mão será uma nuvem
reflectida na superfície dos versos
e já não haverá perguntas a fazer

limitar-te-ás a ser tartaruga atravessando o palco

e ninguém se afastará ao teu passar
ninguém irá parar para te lembrar
tu tartaruga de bob wilson
alheia ao teu próprio atravessar de cena
como quem se retira para um não lugar.

Pedro Teixeira Neves, in A Tartaruga de Bob Wilson, Glaciar, Dezembro de 2018, pp. 14-15.

terça-feira, 11 de maio de 2021

UM POEMA DE FRANCISCA CAMELO

 


o último estudo das gaivotas
 
as gaivotas
são o meu medo escatológico
 
fizeram ninhos mesmo em cima
do meu quarto rosa
 
quando me acordam pelas quatro da manhã
imagino-me a esgrimir um bastão de basebol
esmagando as cabecinhas
das gaivotas bebés
que guincham agudas sob o sol que nasce
mas são espécie protegida
e nunca matei bicho nenhum
maior que um mosquito
não sei se ia gostar
imagino que não
 
de dia berro com elas
suplico que se calem
a verdade é que param
por uns segundos, como os
gatos em época de cio
quando são interrompidos
odeio-as e quero-as mortas
passou-me contudo pela cabeça
a ideia de adoptar uma
preferia um gato
mas uma gaivota que não mordesse
assim pousada no meu ombro
nem seria mau demais
 
loucura
gaivotas
solidão
 
teorizar sobre as últimas coisas
implica sempre decidir
qual delas nasceu primeiro.
 

Francisca Camelo, in O Quarto Rosa, Exclamação, Agosto de 2019, pp. 27-28.
 

sábado, 8 de maio de 2021

UM POEMA DE FRANCISCA CAMELO

 


photoautomat

dizem-te que a vida
não tem tamanho
que também não tem
preço mas pedem
que a registes
num espaço concentricamente
isolado dos outros: inscrevem-te
numa cidade com regras
estranhas pedir desculpa
muitas vezes não sorrir
demasiado falar
alto em transportes
públicos nem pensar
quem decide que posso morar
aqui não sou eu
são algoritmos de leis
incompreensíveis quem
escolhe onde arquivar
o meu corpo quem
define onde cabe o meu
tamanho em que casa
fico com o quarto mais
pequeno ocupar o canto
que incomoda menos
pagar para não ser
notada, sim
eu já assinei contractos
que não tinha como ler
e com honestidade,
é mais ou menos isso
estar viva: assinar
acordos nunca
traduzíveis, corpos impossíveis
de cumprir gente desfigurada
porque a solidão fez 
de todos
o que quis e
um dia entendemos
quando obrigados a
beijar fronteiras que
há um peso, sim, para
todas as medidas:
a minha vida
por exemplo
pesa setenta e um quilos
distribuídos por cinco
caixotes tamanho L
roupas sapatos livros e o que sobra
- photoautomats
um caderno algum dinheiro -
carego comigo como quem
dá a volta ao mundo
ou atravessa a rua para
tomar um café. a minha vida
custa cento e quarenta e cinco
euros e noventa e cinco cêntimos
para ser transladada
dois mil e oitenta e quatro
quilómetros, talvez mais,
nunca medi o valor exacto
do desapego. quanto custará
um caixão para um metro e
cinquenta e oito centímetros
sem sapatos? imagino que seja
apesar de tudo
mais barato existir
e como no ringue de boxe
(flash)
alimento a antecipação
de mais um murro
(flash)
bem no fundo do estômago
(flash)
o branco
violento
e imponderável
(flash)
daquela
photoautomat
no primeiro dia de neve do ano
às duas da manhã
em kottbusser tor.


Francisca Camelo, in Photoautomat, Enfermaria 6, Agosto de 2019, pp. 50-52.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

JOSÉ PASCOAL (1953-2021)

 


Natural de Torres Vedras, reuniu numa quadrologia, da qual fazem parte os livros Sob Este Título, Antídotos, Excertos Incertos, Ponto Infinito, poemas escritos entre 1970 e 2017. Mais recentemente, coligiu no volume intitulado Branza poemas escritos entre 2018 e 2019. Manteve durante anos a Gazeta de Poesia Inédita.
 
EPÍLOGO
 
O poeta só precisa
De mar,
De terra,
De fogo,
De ar,
Dormir de vez em quando,
Passar,
Este, o verbo que mais uso
Para tentar ignorar
A imobilidade,
A inutilidade
De tudo.
 
José Pascoal, in Branza, Editorial Minerva, Agosto de 2019, p. 156.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

UM POEMA EM PROSA DE MARCEL SCHWOB

 


MIMÉTICO XIII

As figueiras deixaram cair os seus figos e as oliveiras as suas azeitonas; pois aconteceu uma estranha coisa na ilha de Skyra. Uma moça fugia, perseguida por um rapaz. Tinha levantado uma aba da sua túnica e via-se o rebordo das ceroulas de gaze. Ao correr, deixou cair um pequeno espelho de prata. O rapaz apanhou o espelho e nele se mirou; contemplou os seus olhos cheios de sagacidade, amou a razão que exprimiam, parou a sua perseguição e sentou-se na areia. A moça começou de novo a fugir, perseguida por um homem de idade madura. Tinha levantado a bainha da túnica e as suas coxas pareciam polpa de algum fruto. Na sua corrida, uma maçã de ouro tombou do seu regaço. E aquele que a perseguia apanhou a maçã de ouro, escondeu-a na sua túnica, adorou-a, parou a sua perseguição e sentou-se na areia. E a moça mais uma vez se pôs em fuga, mas os seus passos eram menos rápidos. Pois era perseguida por um velhote cambaleante. Tinha baixado a túnica e os seus tornozelos estavam envoltos num tecido iriado. Mas enquanto corria, uma estranha coisa aconteceu: um após o outro, os seus seios desprenderam-se do tórax e caíram ao chão como nêsperas maduras. O velhote aspirou profundamente o cheiro de ambos. E a moça, antes de se precipitar para o rio que atravessa a ilha de Skyra, soltou dois gritos de horror e pesar.


Marcel Schwob, in Embriagai-vos - Antologia de Poemas em Prosa de Autores Franceses, selecção e tradução de Regina Guimarães, prefácio e notas biográficas de Saguenail, FLOP, Outubro de 2020, p. 296.

sábado, 24 de abril de 2021

UM POEMA DE PAUL ÉLUARD

 


HOJE

A padaria não é feita de pão branco
Nem está a rua aberta ao sol aberto
As tascas mais pequenas
Recebem raramente o alimento de um bêbado
Têm dentes estragados
E têm más maneiras apesar dos seus lucros

Rua cinza padaria desdoirada cafés frios
Bocas amargas frontes que se fecham
Três transeuntes na pressa de regressar a casa
Que casa já lá estive
Conheço-a funda lúgubre
Que mal instalados estamos

Rua cinza onde a virtude se bebe como água salobra
A ventura não tem raiz na minha rua
Rua cinza veia cinza sobre um braço doente
Onde se bebe e come e anda o menos que é possível
Vive-se sobre a fuligem e o tédio da vida

Névoa de rua ideia de rua ideia nada
Onde no entanto e de tempos a tempos os camiões esmagam um ciclista uma criança
E que acontecimento ver sangue sobre as pedras
Ver um ser vivo em mutação na lama
Vê-lo reverdecer antes de se murchar

O sol eu nada arrisco apenas falei dele
Falar é quase nada o gás a electricidade a água
Matar a fome tinha muito mais luz
Ter a pele bronzeada matar a fome e a gula
Nem sequer falei disso

E pensar que houve quem cantasse deus é glória
Houve aqueles que se amavam nus e sem pedestais
Mas onde está então a poética muralha do bem-estar
Para que a derrubemos
E lancemos raízes nesse mundo impossível
Onde se sorri sempre pela boca dos outros

A fadiga nos enche de calor e não é o do sol
Dá-nos a esmola o mês de Maio
Dá-nos a esmola o lilás branco e o lírio do vale
Mas a nossa mulher desaparece
Ela que no entanto nos queria com paixão
É com inteligência que é necessário querer

Estivemos na nascente e o mar não fica longe
Ah pudéssemos saber todos que está cheia a medida
Não queremos mais ter frio
Na carne e no pensar
Ganhemos cor contra infortúnio e ventura contra o que é injusto
Tudo é eterno nada é eterno nós existimos

Desenraizaremos a nossa rua inútil
E carregá-la-emos para aí morrer
Delirante no santuário dos nossos amos e senhores.

Paul Éluard, in Poemas Políticos, prefácio de Louis Aragon, trad. Carlos Grifo, Editorial Presença, s/d, pp. 63-65.


quinta-feira, 22 de abril de 2021

UM POEMA DE SEBASTIÃO BELFORT CERQUEIRA

 


BONZO DOG DOO DAH BAND

we are normal
and we want our freedom
Aí vêm os normais
Perguntar-me porquê

Aí vêm os normais
Vender-me calças

Aí vêm os normais
Em sentido contrário
Devagar
Presos no trânsito
Todos a condizer

E eu digo-lhes adeus

Aí vêm
Aí vêm os normais
Tão bem vestidos
(No meio deles alguns amigos meus)

Aí vêm os normais
Angariar-me

Aí vêm os normais
Dizer
Que até sou bem parecido

Aí vêm os normais
Apalpar o tecido
E conduzir minuciosas pesquisas

No roupeiro da minha alma
Na secção que diz camisas.


Sebastião Belfort Cerqueira, in Música Normal, Companhia das Ilhas, Janeiro de 2021, pp. 37-38.

terça-feira, 20 de abril de 2021

UM POEMA DE HARRYETTE MULLEN

 


NÃO NOS RESPONSABILIZAMOS

Não nos responsabilizamos pelos seus familiares perdidos ou sequestrados. Não garantimos a sua segurança caso desobedeça às nossas instruções. Não apoiamos as causas nem as reivindicações dos indivíduos que pedem subsídios. Reservamo-nos o direito de recusar serviço a quem quer que seja. O seu bilhete não significa que lhe garantimos as reservas. A fim de facilitar os nossos procedimentos, é favor limitar os seus comportamentos. Antes da descolagem, é favor extinguir quaisquer rastilhos de rancor. Se não compreende inglês, será removido. Em caso de perda, o melhor é desembaraçar-se. A sua apólice foi cancelada porque deixámos de tratar das suas pretensões assustadoras. Os nossos expedidores perderam a sua bagagem e não conseguimos encontrar a chave para o seu caso legal. Não lhe assiste a presunção de inocência se a polícia tiver razões para suspeitar que traz consigo uma carteira escondida. Não temos a culpa de ter nascido com a cor de um gangue. Não temos a obrigação de o informar dos seus direitos. Ponha-se de lado, por favor, enquanto o nosso agente revista a sua atitude censurável. Não lhe assistem direitos que devamos respeitar. Por favor mantenha a calma, ou não podemos ser responsabilizados pelo que lhe venha a acontecer. 

Harryette Mullen, in Lisbon Revisited - Dias de Poesia, trad. Margarida Vale de Gato, Casa Fernando Pessoa, Junho de 2018, p. 38. 


segunda-feira, 19 de abril de 2021

ESPECTÁCULO E ESPECTADOR

 


Jamais a censura foi tão perfeita. Jamais a opinião daqueles a quem se faz crer ainda, em certos países, que são cidadãos livres, foi tão pouco autorizada a tornar-se conhecida, cada vez que se trata de uma escolha que afectará a sua vida real. Jamais foi permitido mentir-lhes com uma tão perfeita ausência de consequência. O espectador é suposto ignorar tudo, não merecer nada. Quem olha sempre, para saber a continuação, jamais agirá: e tal deve ser o espectador.
 
p. 35.
 
O fluxo de imagens domina tudo, e é igualmente qualquer outro que governa a seu gosto este resumo simplificado do mundo sensível; que escolhe aonde irá esta corrente, e também o ritmo daquilo que deverá manifestar-se nela, como perpétua surpresa arbitrária, não deixando nenhum tempo para a reflexão, e em absoluto, independentemente do que o espectador possa compreender ou pensar. Nesta experiência concreta da submissão permanente, encontra-se a raiz psicológica da adesão tão generalizada àquilo que lá está, que vem a reconhecer-lhe ipso facto um valor suficiente. O discurso espectacular cala evidentemente, além de tudo aquilo que é propriamente secreto, tudo aquilo que não lhe convém. Daquilo que mostra ele isola sempre o meio, o passado, as intenções, as consequências. É, portanto, totalmente ilógico. Já que ninguém pode contradizê-lo, o espectáculo tem o direito de contradizer-se a si mesmo, de ratificar o seu passado. A altiva atitude dos seus servidores quando têm de fazer saber uma versão nova, porventura mais mentirosa ainda, de certos factos, é de ratificar rudemente a ignorância e as más interpretações atribuídas ao seu público, ainda que sejam os mesmos que na véspera se apressavam a difundir esse erro, com a sua habitual certeza. Assim, o ensino do espectáculo e a ignorância do espectador passam indevidamente por factores antagónicos quando nascem um do outro. A linguagem binária do computador é igualmente uma irresistível incitação a admitir em cada instante, sem reservas, aquilo que foi programado como muito bem quis qualquer outro, e que se faz passar pela fonte intemporal duma lógica superior, imparcial e total. Que ganho de rapidez, e de vocabulário, para julgar de tudo! Político? Social? É preciso escolher. O que é um não pode ser o outro. A minha escolha impõe-se. Sopram-nos, e sabe-se para que são estas estruturas.
 
pp. 41-42.
 
É necessário que haja desinformação, e que ela se mantenha fluída, podendo passar por todo o lado. Lá onde o discurso espectacular não é atacado seria estúpido defendê-lo; e este conceito, contra a evidência, usar-se-ia rapidamente par ao defender a respeito de assuntos que, pelo contrário, devem evitar chamar as atenções.
 
p. 62.
 
O conceito confusionista de desinformação foi posto em alerta para refutar instantaneamente, ao simples sussurro do seu nome, toda a crítica que as diversas agências de organização do silêncio não foram capazes de fazer desaparecer. Por exemplo, poder-se-ia dizer um dia, se isso se revelasse desejável, que este escrito é um empreendimento de desinformação sobre o espectáculo; ou então, o que é a mesma coisa, de desinformação em detrimento da democracia.
 
p. 63.
 
A imbecilidade crê que tudo é claro, quando a televisão mostrou uma bela imagem e a comentou com uma audaciosa mentira.
 
p. 75.
 
Há em toda a parte muitos mais loucos que outrora, mas o que é infinitamente mais cómodo é que pode falar-se disso loucamente.
 
p. 84.
 
O destino do espectáculo não é certamente acabar em despotismo esclarecido.
 
 
Guy Debord, in Comentários sobre A Sociedade do Espectáculo (1988), trad. Fernando Silva e Edmundo Calado, mobilis en mobile, 1995.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

4 LAURENTINAS & OUTRAS COUSAS

 


Nascido em Inhaminga em 1933. Mestiço de hindustano, celta, judeu e com prováveis avós nos Concheiros de Muge. Parte da infância e adolescência em Santiago de Galapitões, por onde leu muito Hugo, Camilo, Poison do Terrail e S. Cipriano. Herbanário e colector de pedrinhas. Gago mas muito dotado para o fado e para a ociosidade. Funcionou em várias profissões, tais como a pública e a privada, e é actualmente conselheiro para a África Leste do Comptoir d’Hygiène et Beauté, no sector de Shampoos e desfrisodorizantes. Volta nos anos sessenta à África, muito documentado em Edgar Burro — (ughs!). Acha que a realidade é aqui a sopeira da fissão. Sem vícios, com hábitos simples mas não mesquinhos. Também já esteve em Paris.
 
Livros publicados:
- 40 e tal sonetos de amor e circunstância e uma canção desesperada.
- O Morto. Ode didáctica.
- A Arca. Ode didáctica na 1.ª pessoa.
 
Laurentina desagravada
 
termos fígado é termos moral
sermos importantes é bem bom
evitemos as rimas em al
cala-se a voz que turbada,
já de si mesmo etc. … bom!
 
estavam os suicidas todos à janela
a gabarem uma vista significativa
que vinha à cabeça da comitiva
que vinha no meio da comitiva
que vinha na cauda da comitiva
e o ainda mexerem era a única coisa bela
e o ainda mexerem era a única coisa viva
para bem dela.
 
O marido a fingir que não vê
boa perna e papeira flá
cida do souflé do souflé
e do amor dum pequinois.
 
e enganemo-nos a achar glorioso
o passado desfuturado
vamos arranjem um papão a falar grosso
já temos um menino medroso
e um cueiro branco mijado.

 
*
 
Laurentina matinal
 
Bem assentadinho
no trono de louça
estou que nem um lorde!
Digiro e acto contínuo
(que ninguém me ouça)
tracteio ford!
 
De roupão de dragos
escreve-lhe aos rapazes
a mandar coragem.
entre dois caragos
currangindo gases
apoio a mensagem.
 
(quero cá saber
se a prosa é manhosa
se a mim me auxilia!
sim, que eu cá sei ler
para alguma coisa
isto serviria)

 
*
 
Fabulírio 2
Rumor

 
Um berbigão apaixonado
por uma ostra de portimão
fez uma aposta com um limão
e foi juiz a salsa. O alho
ficou de fora enxovalhado
e foi queixar-se ao rodovalho
vá pró… lixar-se! disse este ao alho
vá pró você, seu porcalhão!
 
Eu nada sou mais que um escriba
e não desejo, claro pois,
fazer de queijo entre estes dois.
A dona ostra estava cativa
lá dum percebe que percebia
de engenharia. O atum queria
também queria molhar a sopa
com a garopa… claro pois!
 
E é muito ingrato ser-se cronista
dos baixos fundos. Pausa, grabato,
poupando a vista poupas profundos
aborrecinazos à tua lista.
e, episódico, algum flato!

 
*
 
Ronda dos leques ou terapêutica da ocupação
Laurentina a partir do litoral

 
Para as loiras vou-me de alfa
para o sommershield dos betas
retiro o brazão das malvas
e anteponho duas letras
mariconas marialvas
ao meu silva de pobretas.
 
Para as oxigenadas
fico à carreira de tiro
e visto as cores encarnadas
do meu porsche que é mais giro.
Na polana das coutadas
em spraite dou um giro
que as louras acastanhadas
inda merecem um tiro.
 
Para tranças e cravés
maxaquene é um regalo:
mercedes e capilés
na princesa ou na pigale!
Vestem sedas do chinês
usam mesas pé de galo
lavam, o bastante, os pés
e têm pernas de estalo.
 
Para mulatas monhés
vou de fiate na virgem
até ao alto maé
ver os produtos na origem.
Mais incenso ou mais rapé
mais espinha ou mais impingem
rapazes isto é que é
ir mais perto da origem!
 
Para setins e pelezinhas
com dentes fora do riso
vou de simca rolinha
às portas do paraíso
de xipamanime. A linha
com que coso o meu consiso
paladar, é muito minha
que tem o doutor com isso?
 
Para entrar no outro mundo
de silêncio e aceitação
vou de jip que é fecundo
íman de admiração.
Em palavras gastei tudo
com silêncio é que me quero.
Vou de carrinho ao entrudo
dos silêncios em som estéreo…

 
João Pedro Grabato Dias, in Uma Meditação, 21 Laurentinas e dois fabulírios falhados, introdução de Maria de Lourdes Cortez, edição do autor, capa de António Quadros, Lourenço Marques, 1971.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

UM POEMA DE TIAGO ARAÚJO

 


a primeira morte é muito difícil
depois habituamo-nos
a morrer.

de cada vez os começos, a fronte escura,
levantar, cair novamente nos teus braços, os
meus braços.

a queda de hoje, como a dos impérios, só
pode ser explicada muito mais tarde, por
quem nos compreende muito melhor
do que nós próprios.

a imagem sobre o ecrã
da televisão desligada. um reflexo ou
o fantasma de quem não sobreviveu
a outra dor de estômago e encena
diálogos com corpos de morder, bocas
súbitas, apanhadas desprevenidas
pelo clarão dos flashes que tornaram tudo
definitivo. a fotografia e o corpo vazios,
contidos um dentro do outro, sem narrativa.

escrevo os sonhos, por já não poder confiar
na minha memória, mas tornaram-se
cada vez mais raros. invento-os
para poder continuar a escrever.
morro e escrevo, cada vez mais

uma actividade dependente da outra,
da mão para a boca, a água
transportada aos lábios.


Tiago Araújo, in Livre Arbítrio, Averno, Março de 2009, pp. 8-9.

domingo, 11 de abril de 2021

UM POEMA DE RUI BAIÃO

 


[Contactless]

Cuidado, ainda as pisam,
Às células cegas,
e às filhas delas também.
Se dispostas a morrer
por amor, estivessem
com um pé no estribo,
& o outro no cigano.
Fossem além do tempo,
tenda & azáfama.
Em ombros, sem alças
— um vestido negro

Era cego um surdo-mudo,
e o filho dele também. Cúmplice
até, dava jeito. O derradeiro desdém


Rui Baião, in balabela, edição do autor, Abril de 2019, p. 74.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

UM POEMA DE RITA TABORDA DUARTE

 


FECHADO PARA BALANÇO

Culpo-te por não te amar em quase nada
e cuspo-te cada letra da culpa que é a tua.

É um xadrez que jogamos sempre juntos
rei branco em casa preta, adversários velhos
a mastigar estratégias de serão.

Culpo-me de te amar no final em quase tudo
e tu culpas-te por me culpar por me não amares.

Trazemos, então, o livro dos registos
e fazemos contabilidade, noite dentro.
Não sei como serão outros amores
mas o nosso é um longo livro nocturno dividido
em deves   em haveres   por um leve traço a sépia debotado.
Rasuramos e apagamos e voltamos a somar,
passamos cheques, recolhemos dividendos:
numa matemática cega, sem mais valias;
que nunca vão certas as contas deste amor.

Fazemos batota com as pedras do xadrez:
escondemos peões nas mangas largas,
uma rainha a mais entre as fraldas da camisa...
sussurramos bluffs embriagados sob a mesa,
duas torres arrasam uma diagonal inteira
e os cavalos sem freio a arquejar no tabuleiro;

o nosso jogo-de-xadrez é um exército desleal de armas de arremesso.

Ao final da noite   somos dois reis sozinhos
preto e branco
a remoer o xeque das contas repetidas
conferimos, então, os números que nunca batem certo
e fechamo-nos com um aviso à porta, gasto e rasurado:

fechado para balanço do amor.


Rita Raborda Duarte, in Roturas e Ligamentos, com ilustrações de André da Loba, Abysmo, 2.ª edição, Junho de 2016, pp. 23-23.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

OUTRO POEMA DE MANUEL DE FREITAS

 




PAULINE E VILHELM

O meu marido foi para Skagen, pois
acredita, mais do que eu, que
a missão da actual pintura dinamarquesa
é trazer-nos com rudeza e pormenor
imagens cruas da província,
daquilo a que chamamos Natureza,
mesmo no que possa ter de humano.

Preferi ficar em Copenhaga e passear
logo de manhã pelos lagos, na
companhia de Vilhelm, que por uma vez
condescendeu. Vimos — além de cisnes,
patos e parais — aqueles graciosos e ridículos
pássaros azuis cujo nome desconhecemos
ambos. Saltitam, voam mal e grasnam ainda pior.

Pergunto-me às vezes se a arte, o futuro
que dela nos é lícito imaginar, nõ será
uma coisa assim, uma cáustica despedida
do real que constitui, para Heinrich,
um valor supremo. Mas seria indelicado,
da minha parte, colocar essa questão a Vilhelm.
Já foi violência bastante tê-lo obrigado a este passeio.

De resto, ele nunca se interessou por animais.
A não ser, claro, por aquele a que chamamos
homem. Onde eu via pousar uma ave, ele via
apenas uma árvore, a irrepetível configuração
das sombras que a envolvem e é a imagem
mesma de tudo o que se perde numa
manhã de Agosto, ou durante a vida inteira.

Talvez seja por isso que se obstina
em pintar mulheres sem rosto,
salas desertas e lições de trevas, portas
tão fechadas como os dias. Não me surpreendeu
que recusasse tomar um chá connosco 
na próxima semana e msotrar-nos os seus últimos
trabalhos, que Heinrich moderadamente apreciaria.

Tentei desaconselhá-lo de pintar interiores
estéreis, quase previsíveis. «A melancolia,
caro Vilhelm, é um vício plebeu, um disparate».
Só quando nos despedimos percebi que a vida
de que lhe falava tinha, para ele, a espessura
exacta da morte, das portas tão fechadas como os dias.

Copenhaga, Agosto de 2007

Manuel de Freitas, in Brynt Kobolt, Averno, Abril de 2008, pp. 31-32. O poema remete para Heinrich e Pauline Hirschsprung, detentores de uma colecção de arte hoje instalada nos parques do Østre Anlæg nas antigas muralhas de Copenhaga (aqui). A imagem ao alto é do quadro Interior com jovem a ler (1898), de Vilhelm Hammershøi.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS

 


FOLHAS DE RELVA

De bolsos vazios
e alma cheia,
sapatos na lama,
mas, um pormenor:
o falcão em mim
pelos ares me leva.

Silêncio e solidão
se instalaram nesta
casa. Assim sendo,
só mais um pormenor:
são na subida os ares
tão frios quão na queda.

Doravante nenhum
golpe de sorte,
cuidarei eu das plantas.
Doravante, a estrada
estreita, as raízes
se tornam aéreas.

O gato terá seu pires
de leite e a serradura
mudada... Ou não:
serei eu inútil
no sonho-fantasma
em cadeira de baloiço.

Não te rales,
camarada, te dou
minha mão,
seguiremos juntos
por todo o tempo
que vivermos.

Mesmo nada sabendo
do voo ou dos ventos
comigo te levo
camarada, e juntos
bateremos sola:
ofício de treva.

Dinamicamente
resolveremos o dilema
e o paradoxo
da noite perene;
que seja essa
a nossa leveza.

Dinamicamente,
por sobre 
o arame
farpado,
passaremos
nosso labor.

Paulo da Costa Domingos, in Versos Abrasileirados, com ilustrações de Bárbara Assis Pacheco, & etc, Novembro de 2012, pp. 32-33.

domingo, 4 de abril de 2021

UM MANIFESTO DE NUNES DA ROCHA

 


MANIFESTO BREVE, SENDO CASO, FINAL DE ODE

À súbita luz do isqueiro, esquecido de quem sou,
Adormeço num verso de rua
Sob heteronímia alheia a tudo isto

...
Agora sou janela escondida
De bigode e sobrancelha
No desvão
Para teu prazer
Amanhã cão amputado
Ruço como um abandono
Sem nome à porta do talho
Também rua sou por vezes
Para lá da noite segredo cego
Ao néon pisca-pisca
Mitra descalço
Mulher da limpeza
Do dia
Do último ao primeiro comboio
Alternadeira da noite
Mailo o chulo que a traz
Ao pastel de nata do dia
A cheirar colónia
RANÇO PARA TUDO ISTO!
Ranço para o jogging de exilados
Da classe média como mortos-vivos
Ranço do cavalo ao desbarato
Para os putos chegados a esta barricada
Para as luzes azuis que atravessam ruas
Entre solene música de ambulâncias
Na recolha dos diabetes
Overdoses,
E desmaios por nada mais haver que fazer
Ó orquestra de tudo isto!

Já fui jardim
Como este para inaugurações
Ou aquele de balouços solitários
E merda de cão
Pombo de pata romba
E parasita na asa
Sobre a paróquia de betão
Ó broche divino
Para catequistas de negros
Cú alçado aos cigarros
E romenos
Búlgaros e monhés
Porque toda a foda é amor sem fronteira
Na ecuménica maneira
De disfarçar a solidão
RANÇO PARA TODA A CARIDADE

Sou queda de cabelo em pijama
A comprar o jornal da manhã
A recortar nas páginas do meio
As mamas grandes da minha aflição
O cú grande do meu desidério
Mais do que uma frustração ou desidério
É antecâmara da morte no quarto alugado
Onde os vizinhos não sabem que resido
PÍVEA PARA A SACROSANTA FAMÍLIA

EM TODAS AS PAREDES SOU:
"Com um tesão que enrabava a mim mesmo"
                                                           Toi Pires

"De metáfora em metáfora ficou adulto para sempre"
                                             Al Berto, passou por aqui

"Lede Os Anais de Énio e A Lésbia de Cacilhas, ó ignorantes!"
                                                                              Mancha Negra

"O Mancha é panilas: o epicurista nunca será levado
    a excessos que ponham
Em perigo o seu prazer"
                                      Ernest Junger, também passou por aqui

"Il semble que la Mort est la souer de l'amour"?
     Ó Caussimon", larga a droga!
                                                   Bacanz, forever

Agora e sempre
Desempregado na ombreira do central
Da taverna
De todas as arcadas, mini-bares, cafés-pingados
E também pracetas, vãos-de-escada
Esquinas
De toda uma arquitectura submersa em urina,
Porque o mijo é o nosso modo de pensar
Como o escarro a nossa acção revolucionária.
O BISCATE É O ZEITGEIST DO NOSSO TEMPO
Todos vós, metecos de paris, londres,
irmãos em madrid e carenque
LUMPEN-PROLETARIADO DE TODO O MUNDO,
DIZEI A UMA SÓ VOZ:
IDE CO CARALHO!

Nunes da Rocha, in Sabão Offenbach, &etc, Abril de 2015, pp. 20-23.