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terça-feira, 28 de julho de 2026

RAOUL VANEIGEM (1934-2026)

 


Diz Eduarda Neves:
 
«Morreu Raoul Vaneigem. Já quase não existe quem denuncie a pobreza da vida quotidiana. Não é de bom tom e sinaliza um certo desequilíbrio de quem o faz. Não é boa companhia, portanto, e o capitalismo é tolerante, inclusivo e terapêutico. A esclerosada realidade do dia a dia sob o império dos influencers que se reproduzem em todas as dimensões da existência, incluindo a da arte, converteu-se numa das mais subtis modalidades da humilhação. Não falta quem queira ser um manipulador disponível para influenciar seja quem for. Quem quer estar sujeito à influência de tanto idiota que recorre a marketing sentimental estratégico para nos persuadir através do recurso a um suposto bom carácter e sinceridade comunicacional? Nem a modernidade conseguiu edificar tanto projecto salvífico de emancipação! Até o mínimo sentido crítico se tem vindo a tornar uma forma da mendicidade. Estes vendedores parasitas que apregoam o obsceno lazer mental — verdadeiros gangues organizados de negociantes — prometem libertar a humanidade de todas as amarras — as da guerra, do dinheiro, do mau sexo, do casamento, da política, da escola, das más influências, do mau gosto, da poluição, das instituições e do mundo em geral. Tanta piedade nesta ordem fictícia, diria Nietzsche. Perguntam eles: quem?»

quinta-feira, 4 de junho de 2026

segunda-feira, 25 de maio de 2026

sexta-feira, 15 de maio de 2026

terça-feira, 5 de maio de 2026

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

 
Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
 
Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.
 
Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:
 
Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?
 
Sá de Miranda
 
*
 
Amor bravo e rezão dentro em meu peito
Tem guerra desigual; amor que jaz
E, já de muito tempo manda e faz
Tudo o que quer, a torto e a direito.
 
Não espera Rezão, tudo é despeito,
Tudo soberba e força, faz, desfaz,
Sem respeito nenhum; nunca está em paz,
Quando cuidais que sim, tudo é desfeito.
 
Doutra parte a Rezão tempos espia,
Aqueles quando os traz de tarde em tarde,
Força de sem-rezões e milhor dia.
 
Não tem amor lugar certo onde aguarde,
Então trata traições nesta agonia,
Triste que farei eu, quando tudo arde!
 
Luís de Camões

sábado, 11 de abril de 2026

MÉTODO ÚTIL À REFUTAÇÃO


Um método útil à refutação é em primeiro lugar a prolixidade da argumentação, pois é difícil abarcar de uma só vez muitos temas ao mesmo tempo e, para conseguir esta prolixidade, cumpre recorrer aos elementos já anteriormente indicados. Outro método é a celeridade do discurso, dado que os que se deixam atrasar vêem com menos clareza o que lhes é posto diante. Também há a ira e a paixão da controvérsia, pois, sempre que nos perturbamos, somos menos hábeis na defesa. As regras elementares para provocar a ira consistem em se dizer abertamente a vontade de proceder na injustiça e sem vergonha. Outro método consiste em propor as interrogações alterando a respectiva ordem, quer haja vários argumentos tendentes à mesma conclusão, quer haja argumentos para demonstrar simultaneamente que algo é assim e não é assim, pois daí resulta que o opositor tem de se defender simultaneamente de vários argumentos, ou, até, dos seus contrários. Todos os métodos atrás descritos são de um modo geral úteis para ocultar o pensamento, e também para os argumentos contrários, uma vez que se oculta o pensamento com vista a evitar que o opositor veja onde queremos chegar, e não queremos que assim veja, para o enganarmos.

Aristóteles, in Organon, VI, Elencos Sofísticos, tradução de Pinharanda Gomes, Guimarães Editores, 1986, pp. 62-63.

terça-feira, 31 de março de 2026

[CANÇÃO DE BATER NO CHÃO]

Nasce o sol trabalhamos
Põe-se o sol descansamos.
Cavamos um poço para beber,
Lavramos um campo, p'ra comer:
O Imperador e o seu poder
- Queremos lá saber!

Anónimo, c -1000?. Versão de Gil de Carvalho, in Uma Antologia de Poesia Chinesa. Nota: «Serviria aos camponeses mais velhos - batendo no chão - para marcar o tempo, segundo outros tratar-se-ia de um instrumento musical em barro no qual se batia - rang.» TPC: Reler o Shijing - Livro dos Cantares, também conhecido por Cancioneiro Chinês, 305 poemas que usam rima de forma sistemática. Séculos VI a VII a.C., ao que se diz. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

MÁRIO ZAMBUJAL (1936-2026)

 


Conheci-o nos tempos de livreiro. Organizei algumas sessões de autógrafos com ele e uma vez pediram-me que o apresentasse e dinamizasse uma conversa sobre os seus livros. Trouxe para casa algumas dedicatórias e ofereci-lhe uma garrafa de ginja. Era simpático, belo contador de histórias, sem peneiras, qualidade cada vez mais rara. Gosto da "Crónica dos bons malandros" e de alguns contos. Hoje beberei em sua honra.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

ROBERT DUVALL (1931-2026)

 


Não me lembro dele n'O Padrinho, saga que me passou ao lado, mas recordo-o em Joe Kidd (1972), de John Sturges, e True Grit (1962), de Henry Hathaway, dois westerns de boa memória. Open Range (2003), mais recente, é outro dos westerns em que entrou. Um actor excepcional, nem sempre como protagonista. Presença mítica em Apocalypse Now (1979) ou como detective à beira da reforma em Um Dia de Fúria (1993). O Apóstolo (1997) foi o papel de uma vida, grande filme que também escreveu e realizou, mas em O Juiz (2014), um dos últimos filmes que fez, brilhou com extraordinária maturidade.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

LIBERTAR O FUTURO

 


Indiferentes*

   Odeio os indiferentes. Creio, como Friedrich Hebbel, que «viver significa participar». Não podem existir os apenas homens, os estranhos à cidade. Quem vive verdadeiramente não pode deixar de ser cidadão e participante. Indiferença é abulia, é parasitismo, é cobardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
   A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam quase sempre os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que cerca a velha cidade e a protege melhor do que os muros mais sólidos, do que o peito dos seus guerreiros, porque devora nas suas águas limosas os assaltantes, os dizima e desencoraja, e os faz desistir da empresa heróica.
   A indiferença opera poderosamente na história. Opera passivamente mas opera. É a fatalidade; é aquilo sobre o que não se pode contar; é o que perturba os programas, que destrói os planos, mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a destroça. O que sucede, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um acto heróico (de valor universal) pode gerar; não é tanto devido à iniciativa dos poucos que operam como da indiferença, do absentismo de muitos.
   O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça, mas porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer; deixa agrupar os nós que depois só a espada poderá derrubar. A fatalidade que parece dominar a história não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Os factos maturam na sombra; poucas mãos são vigiadas por nenhum controle, tecem a teia da vida colectiva, e a massa ignora porque não se preocupa. Os destinos de uma época são manipulados conforme as visões restritas, as finalidades imediatas, as ambições e paixões pessoais dos pequenos grupos activos, e a massa dos homens ignora-os porque não se preocupa. Mas os factos amadurecidos acabam por desaguar; mas a teia tecida na sombra acaba por se cumprir; e então parece que é a fatalidade a derrotar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um enorme fenómeno natural, uma erupção, um terramoto de que todos são vítimas, quem quis ou não quis, quem sabia ou não sabia, quem tinha estado activo ou indiferente. E este último irrita-se, desejaria subtrair-se às consequências, desejaria que se tornasse claro que ele não contribuiu em nada, que não é responsável. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos se interrogam: se tivesse feito o meu dever; se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu conselho, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos se autocriticam pela sua indiferença, pelo seu cepticismo, por não terem emprestado os eu braço e a sua actividade aos grupos de cidadãos que combatiam para evitar tal mal e se propunham conquistar tal bem.
   A maior parte deles, pelo contrário, perante os acontecimentos consumados, prefere falar de falências ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a sua ausência de qualquer responsabilidade. E não é porque não vejam as coisas claras e que, algumas vezes, não sejam capazes de prospectar belíssimas soluções para problemas mais urgentes ou para que os que, embora requerendo ampla preparação e tempo, são de igual modo urgentes. Mas estas soluções permanecem belissimamente infecundas, mas este contributo à vida colectiva não é animado por nenhuma luz moral, é produto de curiosidade intelectual, não de pungente sentido de responsabilidade histórica que implica uma vitalidade total na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de qualquer género.
   Odeio os indiferentes, também porque me aborrece a sua lamuria de eternos inocentes. Peço contas a cada um deles sobre o modo como desenvolveu a função que a vida lhe pôs e lhe põe quotidianamente, do que faz e especialmente do que não faz. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha piedade, que não devo repartir com eles as minhas lágrimas. Sou partidário, vivo, sinto já pulsar nas consciências viris da minha gente a actividade da cidade futura que a minha gente está construindo. E nela a cadeia social não pesa sobre poucos, para ela cada coisa que sucede não se deve ao acaso, à fatalidade, mas é inteligente obra dos cidadãos. Não há nela ninguém que esteja à janela, enquanto os poucos se sacrificam, se esgotam no sacrifício; e aquele que está à janela, de atalaia, quer usufruir do pouco bem que a actividade de uns poucos consegue e desafoga a sua desilusão vituperando o sacrifício, o esgotado, porque não conseguiu o seu intento.
   Vivo, sou partidário. Por isso odeio o que não participa, odeio os indiferentes.

Antonio Gramsci, in Libertar o Futuro. Textos Políticos (1916-1926), selecção e introdução de Bruno Monteiro, notas finais de Franco Tomassoni, Fora de Jogo e Seara Nova, 2.ª edição, Abril de 2024,  *Não assinado, La Città futura, 11 de Fevereiro de 1917.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

JOÃO CANIJO (1957-2026)

 


Realizador de Mal Viver e Viver Mal, ambos de 2023, arriscou uma espécie de western à portuguesa com a série Alentejo Sem Lei (1991). Sapatos Pretos (1998) surpreendeu, é talvez o meu filme preferido de João Canijo. 

sábado, 17 de janeiro de 2026

IMAGINEMOS

 


Suponhamos a pergunta: «Como se pode imaginar o que não existe?» A resposta parece ser: «Se o fazemos, imaginamos combinações não existentes de elementos existentes». 

(...)

Imaginem um homem cujas memórias nos dias pares da sua vida incluíssem todos os conhecimentos de todos os dias pares, omitindo completamente o que tinha acontecido nos dias ímpares. Por outro lado, ele lembra-se num dia ímpar do que aconteceu em dias ímpares anteriores, mas a sua memória omite, nesse caso, os dias pares, sem qualquer sensação de descontinuidade.

(...)

Imaginem uma linguagem em que, em vez de «não encontrei ninguém no quarto», se dissesse «encontrei o Sr. Ninguém no quarto». 

Ludwig Wittgenstein, in O Livro Azul, trad. Jorge Mendes, Edições 70, 1992.

domingo, 4 de janeiro de 2026

NUNO DEMPSTER (1944 - 2026)

 


Esta náusea, este
viver sozinho contra o que me cerca
e contra uma poesia só imaginada.
Nuno Dempster
 
   Nascido a 26 de Abril de 1944, em São Miguel, nos Açores, Nuno Dempster é o nome literário de Manuel Gusmão Rodrigues. Através de uma publicação da editora Companhia das Ilhas, soube apenas hoje de madrugada do seu falecimento no passado 2 de Janeiro.
   Neto de Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), um dos poetas de Orpheu, de quem organizou o volume Um Poeta Rodeado de Mar (Companhia das Ilhas, Agosto de 2021), Nuno Dempster era engenheiro técnico agrário de formação. Trabalhou inicialmente numa cooperativa agrícola de cariz revolucionário, tendo sido saneado, em 1977, pelos que tomaram de assalto a direcção da coperativa sob reacção do 25 de Novembro. Prestou assistência técnica no fabrico de rações e na produção animal, dois ramos em que se especializou.
   Conhecemo-nos pessoalmente em 2008, depois de o Nuno me procurar no meu então local de trabalho. O primeiro contacto foi nos weblogs e, posteriormente, via e-mail: «Passo pelas Caldas em trabalho e dou aí um salto para lhe oferecer o meu único livro (havia outro, mas rejeitei-o), um calhamaço de quase trezentas páginas que, com espanto meu, me publicaram.» O calhamaço era Dispersão - Poesia Reunida (Edições Sempre-em-Pé, Novembro de 2008), que tive a honra de apresentar, a 30 de Maio de 2009, na Livraria Arquivo, em Leiria.
   Para efeitos oficiais, Nuno Dempster estreava-se então em livro, aos 65 anos, com uma obra em que reunia dez anos de criação poética distribuídos por sete divisões: Caminhos sobrepostos, Confluências, Osmose, Génese, Em cinza quente, Palimpsesto, Inventário. Um novíssimo poeta tardio, portanto, contra a lógica das urgências que pauta a nossa era. Confidenciava-me, a 15 de Novembro de 2021: «tudo a seu tempo vem quando é certo de vir.» E se os livros vieram, por assim dizer, tardiamente, o mesmo não sucedeu com a poesia, que desde cedo ocupou um jovem inicialmente entusiasmado com o surrealismo que escrevia poemas, dava-os a ler a um ou dois amigos e depois deitava-os fora.
   Aos 27, a escrita ter-se-á interrompido com o falhanço de um romance sobre a Guiné, tema a que regressaria tanto na secção Inventário, do volume intitulado Dispersão, como no longo e extraordinário poema K3 (&etc, Janeiro de 2011), do melhor que se escreveu em verso sobre a chamada Guerra Colonial. Vingou-se a interrupção posteriormente, com a retoma da escrita nos anos 90 e a construção de uma obra consistente dividia pela poesia, pelo conto e pelo romance.
   Antes de K3, publicou Nuno Dempster na &etc de Vítor Silva Tavares outro longo poema: Londres (Janeiro de 2010). E à mesma editora regressaria com Uma Paisagem na Web (Maio de 2013). Têm os três livros em comum o facto de serem poemas longos e exibirem nas capas pinturas de Maria João Lopes Fernandes. Sobre a sua poesia, prefiro citá-lo em discurso directo: «procuro escrever poesia de sentido claro, adoptando a ideia de Sena de que a poesia é para ser entendida, e evitando a poesia do eu ensimesmado, mesmo quando escrevo na primeira pessoa, aliás de acordo com o marxista que fui e sou desde que me fiz homem, com o cuidado de me afastar, na escrita, da classe operária do Neo-realismo, para a qual, neste desgraçado tempo, entrou e vai entrando boa parte da classe média servidora
   Há na sua obra, no entanto, um gosto pelos clássicos e um cuidado na forma de que os próprios títulos dão conta: Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (Edições Sempre-em-Pé, Setembro de 2011), Elegias de cronos (Artefacto, Junho de 2012) ou, mais recentemente, Limbo, Inferno e Paraíso – Três Estados Apócrifos (Companhia das Ilhas, Março de 2022), livro que, só por si, muito nos obrigaria a reflectir sobre o diálogo com os clássicos, no caso o Dante da Divina Comédia, e o seu entendimento enquanto obras de um tempo concreto de que são testemunho da injustiça e do mal universal e intemporalmente perpetrados. Cem poemas, trinta e quatro no Limbo e trinta e três no Inferno e no Paraíso, o mesmo número de poemas que há de cantos por estado na Comédia
   Em prosa, publicou Nuno Dempster os livros O Papel de Prata, O Reflexo e Outros Contos pelo Meio (Companhia das Ilhas, Outubro de 2012), Seis Histórias Paralelas (Companhia das Ilhas, Setembro de 2023) e o romance Há rios que não desaguam a jusante (Companhia das Ilhas, Outubro de 2018), narrativa cuja acção se inicia em 1961 colocando no centro das atenções um tal coronel Pierre Latour, neto bastardo de Leopoldo II da Bélgica, herdeiro de uma fortuna que vai acrescentando à conta de trafulhices várias. Um romance exemplar sobre a maldade dos homens, ao qual ninguém ligou nenhuma neste país de génios plantados entre sete colinas.

OSSADAS

A seguir ao que se passou em Auschwitz
é coisa bárbara escrever um poema.
Theodor W. Adorno

As ossadas dos séculos
há muito se perderam.
A soma dos pequenos campos
dá um campo mais vasto
que as hordas de germânicos
nos compêndios da História.
Então já se matava em série
e nunca se parou.
Hoje a soma ultrapassa em muito
os mortos de Auschwitz,
o termo genocídio tornou-se banal
e também o ruído dos bulldozers
que enterram cadáveres.
Adorno equivocou-se por excesso.
A poesia convive com as trevas
e com o sol, escrita por revolta
ou ao espelho,
ou suspirando,
ou ideando um mundo
onde nunca se viram
os corcéis de João Evangelista.

Nuno Dempster, in Variações da Perda, Companhia das Ilhas, Junho de 2020, p. 73. Mais sobre Nuno Dempster: Na Luz Inclinada, Limbo, Inferno e Paraíso, um poema, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Há rios que não desaguam a jusante, Anti-Elegia Para o Meu Final, Dispersão, outro poema.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

DANTES EU QUERIA MUDAR O MUNDO

Dantes eu queria mudar o mundo e agora só penso onde estacionar.
Dantes eu queria mudar o mundo, mas esqueci-me do que isso significava.
Dantes eu queria mudar o mundo e depois conheci-te.
Dantes eu queria mudar o mundo e depois o meu pai morreu.
Dantes eu queria mudar o mundo e agora só quero integrar-me.
Dantes eu queria mudar o mundo e agora só quero instalar-me.
Dantes eu queria mudar o mundo e depois comecei a vaguear por aí e perdi-me.
Dantes eu queria mudar o mundo e depois esqueci-me do que queria.
Dantes eu queria mudar o mundo, até perceber o que o mundo verdadeiramente é.
Dantes eu queria tanto mudar o mundo que nunca mais parei.
Dantes eu queria mudar o mundo e comecei a mudar tanto que me esqueci de quem era.

Falk Richter, in Trust, L'Arche, versão de HMBF, 2010.

domingo, 28 de dezembro de 2025

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

GIL DE CARVALHO (1954-2025)

 


PEDRAS*

   Há três espécies na China. Reais, de sonho, e fortuitas. Destas, comprei uma em Lisboa a um Macaense. Era dos arrependidos. Durante anos fabricou pinturas - cópias - de boa parte dos artistas célebres (ou menores) do Sul e do Oeste que estiveram ou passaram por Macau. Refugiara-se na metrópole com uma pequena pensão por serviços prestados numa Câmara ou na Adminsitração das Ilhas. Na verdade, tinha sido durante anos um restaurador infatigável de pequenos recantos perdidos de Macau e adjacências, a pedido do Governo, de entidades particulares ou de beneremência, de Chineses ricos e mesmo do governo provincial ou central.
   Afirmou-me ter pertencido a um Manchu de Pequim. Viera aqui parar nos tempos da Monarquia. Chamava-se, a pedra, «O Sangue do Teu Mês». É que durante a última dinastia chinesa cerca de três quartos das nossas embarcações foram ao fundo, ou tiveram abalroamento, à vista dos esteiros de Cantão. Uma braça da Fábrica Real, com inscrição bordada a vermelho e ouro, ainda na posse de uma família portuguesa, servira de tapume. O bairro era intrincado e sujo. As ligaduras na cabeça, intacta, das raparigas ao cimo da rua, apertada, pareciam rasgadas. Os cafés vão abrindo com os velhos e uma ventoinha que outrora servia ao escrivão da terra. Para as mulheres muito novas, podia comprá-las em segundas núpcias. Toca um telemóvel no corredor bem iluminado, e a chamada é mesmo do outro lado da fronteira, nestes últimos dias. Urinar junto à entrada, e perto do tal seco manchu, dá sorte. Em Chengdu, eram reais as pedras.
   Em 1988, numa loja de antiguidades "da Muralha" abriram uma - das de sonho - bétulas brancas apareceram no interior muito ao longe. No último andar, panorâmico, do arranha-céus, despiu-se e mostrou o morcego voando muito alto. Uma sessão privada com a cordilheira por trás. Aqui, em Ribaneira, gravei esta última.

* Las "piedras de sueño", "de nubes" o "de viaje" (un viaje extático) comezaran a extraerse en el siglo XVIII de las canteras de mármol de una montaña de Tali, en lo que hoy es la provincia de Hunán. Sus vetas evocan personajes, animales, paisajes cuyas formas y colores eran definidos por la obra del tallador. El reconocimiento de un letrado les daba el nombre, y el de los pintores calígrafos, la categoria de obra de arte. No se trataba, en ningún caso, de unjuicio meramente estético: la forma de las piedras y las figuras y signos que aparecem en ellas correspondem a las visiones y los princípios del pensamiento taoísta.

Gil de Carvalho, in A Cidade de Cobre, Edições Cotovia, Outubro de 2001, pp. 205-206.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

BUKOWSKI MEETS GODARD

 
Conta o camarada Chinaski:

"O vinho corria, e o Jon-Luc não se cansava. Acontece-me com frequência estar na companhia de seres humanos, quer bons quer maus, e os meus sentidos se embotarem, cansarem-se, e eu desistir. Sou educado. Assinto com a cabeça. Finjo que compreendo porque não quero magoar ninguém. Das minhas fraquezas, é aquela que mais dissabores me tem causado. Ao tentar ser amável com os outros, muitas vezes fico com a alma desfeita numa espécie de esparguete espiritual. Não tem importância. O meu cérebro desliga. Eu ouço. Eu respondo. E eles nem têm inteligência para perceber que eu não estou ali. O álcool corria, e o Jon-Luc não se cansava. Estou certo de que ele disse imensas coisas espantosas. Eu cá limitei-me a concentrar-me nas sobrancelhas dele..."

Onde se lê Chinaski, leia-se Bukowski. Onde se lê Jon-Luc, leia-se Godard. O romance chama-se "Hollywood".

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

BOA RÊS

 
Louis-Ferdinand Céline e os nazis. Filippo Tommaso Marinetti e a glorificação da guerra e a adesão ao fascismo. Pablo Neruda e o estalinismo. A admiração de Sartre por Mao. Knut Hamsun e a medalha do Nobel oferecida a Goebbels. Quando me vêm com exigências de boa rês em matéria de criação artística, nem é nestes que penso. Fico-me logo pelos diários do Luiz Pacheco.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

LEONARDO FRÓES (1941-2025)

 


BONITO E CONTRASTADO

levei anos para dizer que levei anos
para dizer uma coisa que eu não sei como é
que deve finalmente ser dita
à maneira de ofensa ou de oração
Parei
pensei um pouco mais e resolvi desistir
porque ainda é cedo
porque senão perde a graça
antes do fim
hoje é uma segunda-feira em novembro
o dia está bonito
muito bonito
e contrastado

Leonardo Fróes, in Assim, Douda Correria, s/p, Julho de 2019.


quarta-feira, 29 de outubro de 2025

OS NÃO-INTOXICADOS

 
«Ah, o olhar fácil, abutresco, dos (clinicamente) não-intoxicados. A lampeirice dos que arquivam no desprezo (teórico e prático) os e as que agarram a seringa ou a garrafa ou o comprimido – ou tudo junto; o fareisísmo de quem se droga de «bom comportamento». A filha-de-putice dos meninos e meninas exemplares, que curtem a deplorável acidificação de quem não espera mais da vida do que o sucessozinho passageiro; aquele ferrado de polvo com que agarram quem se aproxima dos tentáculos do «como-deve-ser». Puta filha de puta de «legalidade»; como não cagar em ti, pra ser honesto? E porventura sabe algum dos instalados o que aponta a porta estreita da liberdade? Fechados no conforto das suas rodinhas, os como-eles, os instalados: cabrões, gerados por (e gerados de) imperdoáveis cornos, com que agridem dia a dia todo o progredir humano.»

Nuno Bragança, “Directa” (1977).