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domingo, 5 de abril de 2026

UMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS (EMANCIPADAS) DE PEDRO OOM

 


AS 20 HISTÓRIAS DA AVOZINHA

   O menino Zeca gostava muito de ouvir as histórias que a avozinha lhe contava.
   Mas chegou um dia em que, quando a avó tinha começado a contar uma das suas histórias, o Zequinha interrompeu-a e disse:
   «Esse conto não, avozinha, já ouvi, é o do Lobo Mau.»
   A avozinha começou a contar outra história mas o Zequinha voltou a interromper:
   «Essa também já conheço, avozinha, é a do macaco sem rabo.»
   E a avozinha foi começando a contar outras histórias mas sempre o Zequinha ia dizendo:
   «Essa não, já conheço, avozinha, conte outra.»
   A avozinha, que era analfabeta e só tinha aprendido a contar pelos dedos, contou dez dedos das mãos e dez dedos dos pés e nessa altura viu que já tinha contado ao netinho todas as histórias que sabia.
   Então a avozinha disse ao netinho:
   «Olha, Zequinha, já não sei mais nenhuma história, pede ao teu pai que tas conte.»
   Mas o pai do Zequinha não sabia nenhuma história porque era uma vítima de «Talidomida» que tinha nascido sem braços e sem pernas.
   E as histórias do Zequinha ficaram por aqui.


NOTA DO AUTOR: Nós que somos do tempo em que a «Escola era risonha e franca» e não existia ainda o Ensino Básico obrigatório, e que igualmente só aprendemos a contar pelos dedos, nunca tendo conseguir preencher por completo os dedos das mãos e dos pés com qualquer espécie de contos (de Reis ou de Fadas), também resolvemos ficar por aqui.
   Até porque acreditamos não existir, sequer, meia-dúzia de crianças verdadeiramente emancipadas no mundo inteiro.

Pedro Oom, in Actuação Escrita 1, &etc, 1980, p. 103.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

SE NÃO ESPALMAR, FICA SOLTO

 


MARTÍRIO DE SANTA ÚRSULA

A flecha foi feita para atingir de longe e a faca, de perto. Levar mais longe a flecha foi inventar as balas minúsculas que saem das espingardas. Talvez um dia a bala vá tão longe e tão rápida que eu possa matar pelas costas quem me quer matar pelas costas. Mas no quadro de Caravaggio o rei dos Hunos acabou agora mesmo de atingir o coração de Santa Úrsula com uma flecha disparada à distância de uma facada. É tão extraordinário que me aproximo para ver mais de perto e o alarme do museu começa a tocar porque atravessei com o nariz a linha proibida de ultrapassar desenhada no chão. E algumas balas de Auguste Blanqui ainda voam desde que foram disparadas, como ele proclamou em Julho de 1830, dando voltas ao mundo até que tenham atingido todos os inimigos da justiça e da felicidade, mas, oh miséria, quase sempre acertando em inocentes.

Miguel Castro Caldas, in Se Não Espalmar, Fica Solto, Edições Tinta-da-china, Maio de 2025, p. 248. Peças de teatro, textos ensaísticos e pérolas como esta compõem um volume que é mais do que uma antologia, é um corpo coeso composto por diferentes géneros ligados pela prática teatral. Como num colectivo em que cada um, feito da sua singularidade, contribui para um desenlace. Belo livro.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

UM OUTRO TEATRO

 


(...)
«A velocidade de apresentações é tão grande que não é por acaso que aparecerá o "Teatro Rápido" em 2012 ("Microteatro" com quatro salas em pleno Chiado, um centro de flagship stores já reconstruído do fogo) onde, ao longo do dia, são apresentados espectáculos de 15 minutos por variadxs artistas que vingarão no panorama nacional.»
(...)

André e. Teodósio, in Um Outro Teatro - Histórias do Teatro Experimental em Portugal, Sistema Solar, ed._______, Março de 2025, p. 203.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

GIL DE CARVALHO (1954-2025)

 


PEDRAS*

   Há três espécies na China. Reais, de sonho, e fortuitas. Destas, comprei uma em Lisboa a um Macaense. Era dos arrependidos. Durante anos fabricou pinturas - cópias - de boa parte dos artistas célebres (ou menores) do Sul e do Oeste que estiveram ou passaram por Macau. Refugiara-se na metrópole com uma pequena pensão por serviços prestados numa Câmara ou na Adminsitração das Ilhas. Na verdade, tinha sido durante anos um restaurador infatigável de pequenos recantos perdidos de Macau e adjacências, a pedido do Governo, de entidades particulares ou de beneremência, de Chineses ricos e mesmo do governo provincial ou central.
   Afirmou-me ter pertencido a um Manchu de Pequim. Viera aqui parar nos tempos da Monarquia. Chamava-se, a pedra, «O Sangue do Teu Mês». É que durante a última dinastia chinesa cerca de três quartos das nossas embarcações foram ao fundo, ou tiveram abalroamento, à vista dos esteiros de Cantão. Uma braça da Fábrica Real, com inscrição bordada a vermelho e ouro, ainda na posse de uma família portuguesa, servira de tapume. O bairro era intrincado e sujo. As ligaduras na cabeça, intacta, das raparigas ao cimo da rua, apertada, pareciam rasgadas. Os cafés vão abrindo com os velhos e uma ventoinha que outrora servia ao escrivão da terra. Para as mulheres muito novas, podia comprá-las em segundas núpcias. Toca um telemóvel no corredor bem iluminado, e a chamada é mesmo do outro lado da fronteira, nestes últimos dias. Urinar junto à entrada, e perto do tal seco manchu, dá sorte. Em Chengdu, eram reais as pedras.
   Em 1988, numa loja de antiguidades "da Muralha" abriram uma - das de sonho - bétulas brancas apareceram no interior muito ao longe. No último andar, panorâmico, do arranha-céus, despiu-se e mostrou o morcego voando muito alto. Uma sessão privada com a cordilheira por trás. Aqui, em Ribaneira, gravei esta última.

* Las "piedras de sueño", "de nubes" o "de viaje" (un viaje extático) comezaran a extraerse en el siglo XVIII de las canteras de mármol de una montaña de Tali, en lo que hoy es la provincia de Hunán. Sus vetas evocan personajes, animales, paisajes cuyas formas y colores eran definidos por la obra del tallador. El reconocimiento de un letrado les daba el nombre, y el de los pintores calígrafos, la categoria de obra de arte. No se trataba, en ningún caso, de unjuicio meramente estético: la forma de las piedras y las figuras y signos que aparecem en ellas correspondem a las visiones y los princípios del pensamiento taoísta.

Gil de Carvalho, in A Cidade de Cobre, Edições Cotovia, Outubro de 2001, pp. 205-206.


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

A JÓIA PESA CONFORME O USO

 


   Continuou quando assim se interrompeu. Começou quando assim se sucedeu, após o que ocorreria vezes sem conta. O vendedor, homem delgado e enrugado, fixava-a havia algum tempo do outro lado da praça vazia, elevando o punho direito no ar com movimentos ritmados. Quando a rapariga se aproximou finalmente, a figura estendeu a palma da mão onde se via um corte recente. Sorriu-lhe. Tem aí mais uma linha, retorquiu ela. De vida ou de morte? Cortou ou acrescentou dias ao seu destino? Ele sorria apenas com a boca, o olhar muito para dentro dela, como o de um pássaro ávido pelas migalhas que as amigas lhe atiravam no sonho da noite anterior, entre risos maldosos, indiferentes às suas lágrimas e às mãos tapando a cabeça, ela ajoelhada no chão. A mão revelou de um bolso secreto um par de leves brincos sem fecho feitos de madeira escura: uma réplica do continente africano. Ela colocou os dois continentes pelo preço de um em cada orelha, satisfeita. «Sempre quis uns destes. Como me ficam?» O homem recusou o dinheiro que lhe estendeu, mas segurou-lhe o pulso com uma das mãos e, com a outra, traçou em silêncio o percurso de cada uma das linhas da cliente. «Enquanto usares estes brincos não deverás ver-te ao espelho senão nos olhos dos vivos.» Sentiu um pequeno frémito quando ele lhe cerrou suavemente o punho e se afastou em silêncio. Tacteou o interior da mala à procura de um espelho riscado que trazia há anos, lembrança da loja de um museu. Tocou ao de leve nos brincos, como para garantir que ainda os trazia postos. Que bonitos, que bonita! Olhou as mãos. Viu a marca do velho transferida para si e tentou voltar o pescoço à procura dele mas os brincos, que por alguma razão não saíam, começavam agora de repente a crescer e a pesar mais e mais.

Gisela Casimiro, in Estendais, crónicas, Editorial Caminho, Abril de 2023, pp. 250-251.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

UM CONTO DE ANTÓNIO AMARAL TAVARES

 


FEIRA DO RELÓGIO
 
   Furo a densidade de gente como uma visitação à largura da vida. Música africana de gosto duvidoso faz arder o espaço e os rostos que passam, que procuram e se expõem num lugar que se declara seu. Alguns parecem procurar apenas uma voz, um murmúrio, as cores, a gente, olhos que se penduram nos cabelos. Uma feira concreta e presente, sem teias na sombra, faz-me gostar mais da música. Aquele lugar não é o lugar onde passo os dias mais honrados. Uma bancada de venda de cassetes  e duas enormes colunas de som emitem música. Dois negros dançam vagamente ritmos sincronizados de ombros e de mãos. Avanço subindo vagarosamente por entre os corpos, a mesma música acompanha-me e cruza-se com a de um aparelho. Uma toada semelhante, que outro negro, jovem, segura ao ombro, como se abraçasse um país distante, uma poeira ocre sobre o alcatrão, grandes distâncias povoadas de embondeiros que nunca conheceu. Uma mulher branca, o cabelo grisalho e despenteado, vende peúgas em molhos. Tão sentada e calada como um pequeno enclave, sem vida nem ritmo, duas mãos caídas no colo. Um negro alto passa pela apertada turba que parece abrir-se à altura e ao orgulho intocável de um fato e chapéu de cor bege. Razões nobres, da cor da pele, uma nação vencedora, vestida de mistérios e rumores próprios e antigos. Noites quentes de amores e cheiros. Em grupo, jovens já presos às fronteiras pouco seguras do olhar que lhes resta, o muro da lei de um país pequeno demais.
   Passos errantes e ciganos, como uma cortina que se abre. Música cigana encontra o tom proibido da pele, mulheres bonitas de longos vestidos e saltos altos. Uma tão bela, que a seu lado dois homens parecem disputá-la no volume crescente da voz. Uma outra bancada de cassetes, mais música. T-shirts, gangas e sapatos. Estes o que eu procuro. Olho atentamente os exemplares e, a um sinal transmitido por fios invisíveis, da bancada ao lado desaparecem relógios e ténis. Tão rapidamente que quando olho para ela já só vejo a madeira de um sonho que acorda. Dois polícias passam devagar. Um, de meia-idade, seguro pela experiência e pela farda, o outro, mais magro e novo, que olha em volta como se visse mais do que a razão que o põe ali. Nada mais se ouve, senão a música com raça, tão apaixonada como os dois homens. Uma espera.
   Depois os relógios e os ténis reaparecem na teimosia da viola no coração dos ciganos. Eu escolho um par de sapatos, pago com a vergonha sem raça do dinheiro e continuo a subir. À vista do bairro da pantera cor-de-rosa, a beleza de um rosto nobre riscada pelo esquecimento, um homem de ombros largos apregoa lençóis, a voz eléctrica de um microfone abotoado à boca das ilusões que se repetem de terra em terra. Desço a mesma encosta para a saída da feira, a entrada de um país que a custo me envolve.
   Foram baratos os sapatos. E partiram pela sola antes que deixassem de me magoar os pés. Encontrei, num outro dia, numa outra nação, uns sapatos semelhantes numa montra, tão iguais quanto possível. Pelo dobro orgulhoso do preço.

 
António Amaral Tavares, in Um Dia, Um Homem, Medula, Maio de 2024, pp. 15-16.


quinta-feira, 6 de julho de 2023

ALFABETO ADIADO

 



   Além de poesia e ensaio, José Ricardo Nunes (n. 1964) tem também publicado alguma ficção breve. São disso exemplo os livros “Alfabeto Adiado” (Deriva, 2010) e “Confissões” (Companhia das Ilhas, 2013), assim como as edições de autor "Uma Viagem à Costa Rica" (Junho de 2010) e "Our Common Butterflies" (Novembro de 2015). O primeiro foi recentemente recuperado numa versão substancialmente retocada e aumentada. O autor fala, portanto, de um livro novo. E, de facto, é um livro novo, não só pela extensão, mas também por uma organização que torna ainda mais ambíguo o vínculo das palavras aos espaços interiores e exteriores convocados para a acção.
   As prosas de “Alfabeto Adiado” (Companhia das Ilhas, Janeiro de 2023), agora agrupadas em dois conjuntos, sempre escritas na primeira pessoa, oscilam entre o relato de pendor intimista e o poema em prosa, na linha do que Herberto Helder (1930-2015) concretizou em “Os Passos em Volta” (1963). O primeiro texto, intitulado “Eu, Em 1963”, desloca-nos precisamente para a data de edição desse livro, introduzindo-nos num processo de sabotagem da identidade do narrador que é levado ao limite nos textos subsequentes. Estas narrativas testam constantemente as fronteiras entre real e ficção, sendo até provavelmente mais correcto afirmar que a sua força primordial reside na supressão dessas fronteiras. Num texto, só as palavras têm substância real. O que elas nomeiam surge-nos já sob a forma de representação. 
   O primeiro problema que tal premissa nos coloca tem que ver com a relação entre corpo e pensamento, evidenciado no texto com o título “Correspondências” (p. 39): «aprendi que o pensamento é visceral e pode aproximar-se da garganta, querê-la para si» (p. 40). A interdependência entre as duas dimensões oferece ao pensamento uma possibilidade de apropriação dos órgãos do corpo que é diversa da ideia de um corpo absoluto, na medida em que só nele o pensamento se processa. Haverá pensamento fora do corpo? As palavras, que são do domínio da linguagem, a linguagem, que é uma faculdade do pensamento, são, deste modo, parte integrante do corpo, órgãos a partir dos quais ele organiza a sua percepção do mundo e no mundo se projecta.
   Numa outra prosa, "O Que O Corpo Já Disse Melhor”, vai-se mais longe: «Temo que o texto seja apenas um espelho do corpo, uma ilustração» (p. 63). E isto leva-nos a um segundo problema: o da transitoriedade. Se há marca ontológica nestes textos ela é a da transitoriedade, o ser define-se por uma transformação que torna paradoxal a tal relação do texto com o corpo, pois se o corpo é transitório, o texto parece proceder à afixação dessa transitoriedade, isto é, à sua negação, o que, de certo modo, corresponde à própria negação da natureza do corpo. A certa altura lê-se: «As pessoas são transitórias, nascem, morrem, deslocam-se de um lugar para outro, quando se juntam é possível sentir a deslocação do ar, algo no interior das pessoas começa a tremer e a expandir-se, digo que parece um clamor» (p. 94). O texto pode, então, ser uma ilustração do corpo, sujeito ou não à transitoriedade que é própria do corpo.
   Talvez a solução para estes problemas resida na noção de não-lugar, cunhada por Marc Augé (1935) em contexto antropológico. Suponho que o texto enquanto não-lugar possa ser também um lugar de trânsito, sítio de passagem caracterizado pela superabundância de acontecimentos e pela individualização das referências. Não será a isto que se alude em “Vladivostoque”? Sublinho um parágrafo: «Havia a infância. Havia os lugares da infância. Havia um lance de dados e era a infância. Depois dava-se a volta ao mundo. Fiz muitas viagens e não tenho muito que contar. Depois houve a minha vida. E a vida é sempre mais breve do que o lance de dados com que se sonha atingir Vladivostoque» (p. 71). A proliferação de lugares na segunda parte de “Alfabeto Adiado” remete-me invariavelmente para essa ideia de texto enquanto não-lugar, pois os lugares referidos são hipóteses da imaginação, aventuras de um corpo que pensa e, por pensar, pode supor-se a sair da vida como se a vida não fosse a clausura que nos condena. É que pensar e imaginar e sonhar e escrever são tão parte da vida como pagar impostos, abastecer a dispensa, levar o carro ao mecânico, esbarrar, cair ao chão e partir a cabeça.
   Em “Sabine”, o gosto pela ambiguidade é notório: «É estranho que tudo se processe dentro da cabeça. Não há realidade exterior, concluía. Fechava os olhos e todo eu era uma estrada» (p. 81). Resta saber onde ia dar a estrada?

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

UM CONTO PLAUSÍVEL DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 


A TERRA DO ÍNDIO

   O Índio, informado de que aquela era a Semana do Índio, esperava na oca a chegada de visitantes, que certamente iriam cumprimentá-lo e levar-lhe algumas utilidades como presente.
   Chegou foi um homem de papel na mão, convidando-o a mudar-se com presteza, pois a terra fora adquirida por uma empresa de reflorestamento, que estava com toda a documentação em ordem.
   O índio objetou que naquele chão viveram seu pai, o pai de seu pai e todos os pais anteriores, juntamente com a tribo. E ele não tinha para onde ir.
   O homem sugeriu-lhe que fosse trabalhar na construção do metrô do Rio de Janeiro, cuja empresa não alimenta discriminação contra índios. Era solução a curto prazo. A longo prazo, cogitava-se de criar a reserva indígena urbana de Jacarepaguá — a Indiamares —, financiada pelo BNH e controlada pela Riotur. Os índios teriam direito a INPS, férias e aposentadoria, apresentando-se em shows, como autônomos. Mas ali, não. Aquela terra tinha dono, com papel passado. Fim.

Carlos Drummond de Andrade, in "Contos Palusíveis", Livraria José Olympio Editora S.A., Rio de Janeiro, 1985, p. 48. Ilustrações de Irene Peixoto e Márcia Cabral.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

UM CONTO DE DIMÍTER ÁNGUELOV

 


 

16
— Conhece aquela história de um sábio chinês que um dia pensou assim: «Se eu cortar esta bengala ao meio, e nos dias a seguir fizer a mesma coisa com uma das metades, nunca mais acabo. E assim torno-me imortal».
— Não conhecia essa versão.
— Contou-ma um indiano.
— Yoga, místico?
— Não. Comerciante, natural de Moçambique. Um mestre da divisão. Era capaz de dividir um frango por trinta e seis pratos, uma raiz de gengibre em oitocentos e sessenta pedacinhos. Sem se cortar.
— Bom, já faliu, ou mudou de ramo?
— Muito pior. Agora anda a juntar os pedacinhos da bengala, se assim se lhe pode chamar, porque julga que poderia compreender melhor o sentido da parábola se conseguisse recuperá-la.
 
Dimíter Ánguelov, in Trinta Contos Até ao Fim da Vida, &etc, Dezembro de 1998, p. 45.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

BOCA A BOCA

 


   A partir de certa altura Van Gogh deixou de dar ouvidos a toda a gente.
 
   Todos os anos tenho vindo a prometer a mim próprio não beber mais. Tenho cumprido. Continuo a beber o mesmo.
 
   Um dia o Samuel Beckett chegou a casa a altas horas da madrugada e a mulher, não lhe encontrando nenhum cabelo no casaco, acusou-o de andar com uma cantora careca.
 
   A 2 de Agosto de 1439, curiosa e exactamente quinhentos anos antes do meu nascimento, três estranhas embarcações tripuladas por índios chegaram às costas do Alentejo e tomaram posse das terras descobertas.
   Ignoram-se os motivos, embora se possa atribuir ao carácter dos naturais da região, mas a verdade é que ninguém lhes ligou nenhuma e decepcionados, tristes e de penas caídas, os descobridores regressaram às Américas.
   Uma vez mais a nossa indiferença atrasava em muitos anos a instalação das mais diversas multinacionais.
 
   Conheci um homem de inteligência rara. Tão rara que era extraordinariamente difícil encontrá-la.
 
   Um jornal publicou uma notícia que eu sabia que não era verdade. A verdade é que não sei que notícia era nem sequer de que jornal se trata.
 
   Tentei ler a lista telefónica e desisti a meio:
      1.º Tinha muitas personagens.
      2.º Sabia a morada delas todas.
      3.º A ordem alfabética é uma forma já muito vista.
      4.º A intriga era exposta de uma maneira muito esquemática.
      5.º O mordomo não podia deixar de ser o assassino.
 
   Durante um bom par de anos estudou o esquecimento humano. Quando finalmente chegou a uma conclusão, esqueceu-se do resultado.
 
   Conheci um homem que a mulher deixou e passado pouco tempo regressou apenas por não suportar a ideia que ele tivesse ficado feliz.
 
   Poderia ser que não fosse louco de todo, mas a verdade é que o facto de meter o cigarro no ouvido e pedir lume deixava sempre toda a gente perplexa.
 
   Na maioria das vezes, como fala caro um fala barato…!
 
 
Pedro Bandeira-Freire (1939-2008), in “Boca a Boca”, Quetzal, Novembro de 1998. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

UM CONTO DE DALTON TREVISAN

 


SENHOR

   Livra-me dos chatos e Te agradecerei, ó Senhor. Rouba-me o dinheiro, enterra-me em cada dedo a Tua unha encravada, mata-me de morte lenta e dolorosa, mas livra-me dos chatos. Há chato demais, Senhor, nesta Tua cidade. De piolhos cobre-me a cabeça, esconde o meu óculo, Senhor, mas livra-me dos chatos.
   Eles podem mais que Teu rum da Jamaica, que Teu éter sulfúrico. De Curitiba fugiram os Teus anjos, Senhor, e se fugiram, eles que eram anjos, que será de mim?
   Tuas pestes, Senhor, não afetam os chatos, são intocáveis ao Teu dedo? A menina de três anos estuprada por Clauidonei eu Te perdoo, Senhor, a Valquíria que embebeu as vestes em álcool e ateou fogo eu Te perdoo, as duas senhoras Lucinda e Perciliana que se engalfinharam durante a missa na Tua catedral, eu Te perdoo porque Te entendo, Senhor.
   Não Te entendo, ó Senhor, por que respeitas a eles, que são chatos. Por sua culpa já perdido o mel no lábio da virgem. Estragam ainda na xícara o gosto do café. Azedam o leite no seio da mulher grávida.
   Endureceste o coração contra mim: sou eu Faraó e são os chatos Teu povo? Não me poupes, Senhor, entre os malditos é meu lugar. Sacode-me com Tua mão pesada, eu Te abençoo. Arrasta-me na cinza como fizeste com Jó. Ah, os amigos que mandaste a Jó não eram três chatos, Senhor?

Dalton Trevisan, in Mistérios de Curitiba, Editora Record, 1.ª edição, 1968, 6.ª edição, revista, 2014, pp. 58-59. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

ALGUNS AFORISMOS DE KARL KRAUS

 


Respeite-se o campo e ame-se a paisagem. É esta a atitude mais nutritiva.

Já é mais que tempo de as crianças esclarecerem os pais acerca dos segredos da sexualidade.

A solidão seria um estado ideal, se pudéssemos escolher as pessoas que evitamos. 

A terra está a mobilizar-se desde que os humanos começaram a ensaiar a conquista do ar.

Vi um poeta num relvado a correr atrás de uma borboleta. Pousou a rede num banco, onde um rapaz estava a ler um livro. É uma infelicidade que as coisas costumem passar-se ao contrário.

Onde é que vou buscar todo o tempo para não ler tanta coisa?

Neste país há comboios impontuais que não conseguem habituar-se a cumprir os seus atrasos.

Tive uma visão horripilante: vi uma enciclopédia aproximar-se de um sabe-tudo e abri-lo.

Desprezemos a gente que não tem tempo. Lamentemos as pessoas que não têm trabalho. Mas bem podemos invejar os homens que não têm tempo para trabalhar!

Na linguagem erótica também existem as metáforas. O analfabeto chama-lhes perversões. Abomina o poeta. 

Que sofrimento é essa vida em sociedade! Muitas vezes, alguém tem a simpatia de me oferecer lume e eu, para ser simpático com ele, vejo-me obrigado a tirar um cigarro do bolso.

Instrução é aquilo que a maioria recebe, muitos transmitem e poucos possuem.

Na arte, aquilo que conta não é usarmos ovos e gordura mas sim termos fogo e frigideira.

Tenho de dar uma novidade desoladora aos estetas: a parte antiga de Viena, em tempos, foi nova.

Hoje em dia, o original é quem foi o primeiro a roubar.

Não gosto de me imiscuir nos meus assuntos privados.

É má sorte que um presente demonstre ser um presente envenenado para o respectivo dador.

Um poema é bom até sabermos de quem é.

O retrato mais doloroso da civilização: um leão que se habituou ao cativeiro e que, restituído à selva, passa a vida a andar para trás e para a frente como diante as barras de um gradeamento.

A Áustria conseguiu, com as vergonhas políticas que tem passado, que as pessoas pelo mundo afora tenham ficado atentas à Áustria e, finalmente, deixado de a confundir com a Austrália.

A diplomacia é um jogo de xadrez em que os povos são postos em xeque.

O azar do principiante é precisamente aquilo com que vimos ao mundo.

Karl Kraus, in Aforismos, 2.ª edição, tradução de Lumir Nahodil, VS., Julho de 2018.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

UM CONTO DE SAKI

 


REGINALD SOBRE AS PREOCUPAÇÕES

   Tenho uma tia (disse Reginald) que tem preocupações. A tia não é bem tia — é uma espécie de amadora —, e as preocupações não são verdadeiras preocupações. Ela é um sucesso na sociedade, e não tem tragédias domésticas dignas de menção, pelo que adopta toda e qualquer aflição decorativa que lhe passe ao alcance, incluindo-me a mim. Assim sendo, é a antítese, ou o que queiram chamar-lhe, dessas mulheres suaves, resignadas, que, como sabemos, enfrentaram problemas na vida e passaram depois a usar palas nos olhos. É claro, gostamos delas precisamente por isso, mas devo confessar que me causam desconforto; fazem lembrar aqueles patos que continuam a adejar pela casa com forçado júbilo muito depois de lhes terem cortado a cabeça. Os patos não têm descanso. Bem, a minha tia tem um tom de cabelo que lhe assenta bem, e uma cozinheira que peguilha com os outros criados, o que é sempre de bom augúrio, e uma consciência que anda por fora durante onze meses por ano e só aparece pela Quaresma para aborrecer a família do marido, a qual está consideravelmente abaixo dos anjos, por assim dizer: com todas essas vantagens naturais — ela diz que o seu tom acobreado especial é uma vantagem natural, e não pode haver duas opiniões quanto a isso —, é evidente que tem de fornecer-se de aflições fora de casa, como aqueles restaurantes que não têm licença. O sistema tem as suas vantagens, já que uma pessoa consegue encaixar as infelicidades nos outros compromissos, ao passo que as verdadeiras preocupações têm esse mau hábito de aparecer à hora das refeições, ou quando nos vestimos, ou noutros momentos solenes. Conheci certa canária que durante meses e anos andou a tentar chocar uma família, e toda a gente achava que aquilo era um capricho inocente, tal como a venda da Baía da Lagoa, em Moçambique, que, a consumar-se, haveria de ser grande perda para as agências de imprensa, mas, um dia, o pássaro deu finalmente à luz, estava a família no meio das suas preces. Digo no meio, mas foi também no fim: ninguém consegue continuar a agradecer o pão de cada dia quando se põe a magicar no que é que se há-de dar de comida aos novos canários.
   Actualmente está num estado um pouco balcânico no que toca ao tratamento concedido aos judeus da Roménia. Pessoalmente, acho que os judeus têm qualidades estimáveis; são muito amáveis para com os seus pobres — e para com os nossos ricos. Eu juraria que, na Roménia, o custo de vida não está assim muito acima do rendimento de cada qual. Aqui, no nosso país, o problema é haver tanta gente com dinheiro para deitar fora e que parece ter ideias muito vagas sobre a forma de se desfazer dele. Por exemplo, aquele fundo para acorrer às vítimas de desastres súbitos. Mas o que é um desastre súbito? Há o caso de Marion Mulciber, que achava que conseguia jogar bridge, tal como achou certa vez que conseguia descer uma rampa de bicicleta; nessa ocasião foi parar ao hospital, agora foi para um convento — perdeu tudo o que tinha, percebe, e deu o resto ao céu. Seja como for, não podemos chamar a isso uma calamidade súbita; tudo começou quando a pobre querida Marion nasceu. Os médicos disseram na altura que não viveria mais de quinze dias, e, desde então, ela tem andado a tentar ver se os desmente. As mulheres são muito obstinadas. 
   E, depois, há a questão da educação — e não é que eu veja que, nesse capítulo, haja algo com que nos preocupemos. Ao que me parece, a educação é um assunto muito sobrestimado. Pelo menos nunca a levámos muito a sério na escola, quando faziam tudo para no-la meter pelos olhos dentro. Tudo aquilo que vale a pena saber, aprendemo-lo por nós na prática, e o resto impõe-se mais tarde ou mais cedo. A razão porque os mais velhos sabem comparativamente pouco é que têm de desaprender o muito que adquiriram pela educação antes de nós nascermos. Claro, eu acredito no estudo da natureza; como disse à Lady Beauwhistle, se quisermos uma lição de elaborada artificialidade, basta-nos observar o estudado descaso dum gato persa a entrar num salão cheio de gente, e depois pegar e praticar isso durante quinze dias. Os Beauwhistles não nasceram de sangue azul, não seis e sabe, mas vão chegando lá pelo sistema das prestações — dá-se uma entrada e paga-se o resto quando nos apetecer. Têm bom coração, e nunca se esquecem dos aniversários. Não me lembra do que é que ele era, uma coisa qualquer na City, que é de onde vem o patriotismo; e ela — bem, as roupas dela são confeccionadas em Paris, mas ela enverga-as com um forte sotaque inglês. Que magnânimo civismo da parte dela! Acho que deve ter tido uma educação muito estrita: tem tal ansiedade de fazer as coisas erradas da maneira certa! Não que isso, hoje em dia, importe muito, como eu lhe disse: sei de pessoas perfeitamente virtuosas que são recebidas em todas as casas. 

Saki, in Contos, tradução de Manuel Resende, Relógio D'Água, Junho de 2007, pp. 25-27.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

DOUTOR DE LA SERNA

 


O CADÁVER SÁBIO

   Penso às vezes num cadáver que uma certa tarde estudei sozinho na sala de dissecção da Faculdade. 
   Ah, como teriam sido uns sábios aqueles barbeiros que frequentavam na Universidade um curso de anatomia e cirurgia, se pudessem ter estudado muitos cadáveres como aquele que perfurei e estudei dois dias a fio!
   Nesse cadáver, foram muitas as coisas que se tornaram claras, parecendo que ele ajudava a resolver as dificuldades que eu nele ia estudando. Foi ao dissecar aquele cadáver que pude compreender muitas das coisas de que depois me servi em muitos dos meus tratamentos.
   Não encontro teoria capaz de explicar como pôde ser tão clarividente aquele morto; mas a verdade é que de dentro da sua morte agia como um mestre. Várias vezes, aberto como o tinha e já sem coração, fitei-lhe o rosto para ver se ele sorria ao ver como eu acertava em muitas coisas que até então não tinha podido resolver; mas no seu rosto havia apenas serenidade e uma espécie de pacífica suficiência. Muito respeitosamente e com o cuidado com que se colocam as pinças no açucareiro, assim lhe aplicava as minhas pinças no peito.
   Não poderei esquecer aquele cadáver, um cadáver como nunca vi outro. Com os preparados que fiz com os seus tecidos e os seus micróbios, pude resolver vários casos difíceis, isolei alguns novos micróbios.
   Não é isso porém o mais importante.
   O importante é que ele estava cheio de associações de ideias.
   Se tivesse podido durar mais dois dias sem se decompor, teria até descoberto a cura para o cancro.
   Admirável cadáver!

Ramón Gómez de la Serna, in O Médico Inverosímil, tradução de Júlio Henriques, Antígona, Novembro de 1998.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

UM FRAGMENTO DE ESMÉNIO

 


26. Charada do contrabando

26. Existem três tipos de cadáveres que equivalem a três tipos de defuntos: há os que são encontrados e enterrados, os que não chegam sequer a ser encontrados, e os que, embora encontrados, por qualquer razão não são metidos à terra. Um foi enterrado, mas não se consegue baixar à ravina; tivemos que lá deixar o outro diabo, os ossos a ficarem brancos, a romperem a pele debaixo do sol. Ora, achando-se aqui motivo de curiosidade ou não, o desfecho que nos estava reservado acabou por gerar precisamente um morto para cada gosto, como convém ao conto raiano. Mas mais que isso, mais singular que tudo o resto, é que tendo a nossa história acabado connosco abatidos como cães, esquecidos como enfermos de guerra, três miseráveis finados a centenas de quilómetros de casa, o mais singular dizia eu, é que tudo ocorrido, sucedido e relatado, nós éramos apenas um par de contrabandistas virados a montante e a jusante do rio, aquém e além fronteira. E é por isso que não posso prosseguir a narrativa que me ocupa, esta trágica historieta finda a qual dois homens se fazem três mortos, sem antes ter resposta, sem saber ao certo, ♪ afinal no final quem sou eu? ♪

Esménio, in Cinquenta e Seis. Vinte e cinco da terra e do rio. Trinta e um do mar e dos viajantes., FLOP, Junho de 2018, p. 37.

domingo, 7 de agosto de 2022

UM POSTAL DE JORGE LUIS BORGES

 


DA SALVAÇÃO PELAS OBRAS

   Num Outono, num dos Outonos do tempo, as divindades do xinto congregaram-se, não pela primeira vez, em Izumo. Diz-se que eram oito milhões, mas sou um homem muito tímido e sentir-me-ia um pouco perdido entre tanta gente. Além disso, não me convém lidar com números inconcebíveis. Digamos que eram oito, já que oito é, nestas ilhas, de bom augúrio.
   Estavam tristes, mas não o mostravam, porque os rostos das divindades são kankis que não se deixam decifrar. No verde cume de uma colina sentaram-se formando uma roda. Do seu firmamento ou de uma pedra ou de um floco de neve tinham vigiado os homens. Uma das divindades disse:
   — Há muitos dias, ou muitos séculos, reunimo-nos aqui para criar o Japão e o mundo. As águas, os peixes, as sete cores do arco-íris, as gerações das plantas e dos animais, tudo nos correu bem. Para que tantas coisas não os sufocassem, demos aos homens a sucessão, o dia plural e a noite una. Outorgámos-lhes, além disso, o dom de experimentar algumas variações. A abelha continua a repetir colmeias; o homem imaginou instrumentos: o arado, a chave, o caleidoscópio. Também imaginou a espada e a arte da guerra. Acaba de imaginar uma arma invisível que pode ser o fim da história. Antes que aconteça esse facto insensato, apaguemos os homens.
   Ficaram a pensar. Outra divindade disse com calma:
   — É verdade. Imaginaram essa coisa atroz, mas também há esta, que cabe nos espaço abrangido pelas suas dezassete sílabas.
   Entoou-as. Estavam numa língua desconhecida e não pude compreendê-las.
   A divindade maior sentenciou:
   — Que os homens perdurem.
   Assim, por obra de um haiku, a espécie humana salvou-se.

Izumo, 27 de Abril de 1984.

Jorge Luis Borges, de Atlas (1984), trad. Fernando Pinto do Amaral, in Obras Completas, Vol. III, 1975-1985, Círculo de Leitores, Dezembro de 1998. p. 471.

sábado, 6 de agosto de 2022

HIROSHIMA 77

 


   Passam hoje 77 anos sobre o bombardeamento de Hiroshima. Como sabem, trata-se da primeira de duas bombas atómicas lançadas pelos EUA sobre o Japão.
   Na verdade, os responsáveis por este horror não foram os americanos. A bomba Little Boy ia cheia de víveres para auxílio das populações. Quem trocou os víveres por urânio-235 foram agentes secretos do KGB, organização da União Soviética, infiltrados nas forças militares norte-americanas. O próprio Enola Gay foi pilotado por sovietes, que assim baptizaram o avião da morte para chamarem maricas aos americanos.
   No decorrer dos preparativos para uma “Oficina de formas narrativas breves” que irei orientar no Teatro da Rainha durante o próximo mês de Setembro, dei com uma flash fiction que vem a propósito. Traduzi-a a pensar nos participantes da oficina, mas não resisto a partilhá-la hoje. Ora tomem:

AZAR
 
 
   Acordei com dores terríveis pelo corpo todo. Abri os olhos e vi uma enfermeira sentada junto à minha cama.
   “Sr. Fujima”, disse ela. “Teve muita sorte em sobreviver ao bombardeamento de Hiroshima há dois dias. Agora está a salvo, aqui neste hospital.”
   Muito debilitado, perguntei-lhe, “Mas onde é que eu estou?”
   “Nagasaki”, respondeu ela.

 
Alan E. Mayer

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

ANTOLOGIA PALATINA

 


MARCUS ARGENTARIUS

Quando eras rico, Sosicrates, eras amado,
mas a pobreza curou-te de tal sarna.
Menophila, que te chamava querido Adonis,
doçura, agora pergunta: «Quem és tu, 
e donde, de que cidade?» Aprendeste,
à tua custa, o ditado: não tem
amigos quem está nas lonas.



O sexo com mulheres
é o melhor para um homem sério.
Uma sugestão, se desejares o outro:
dá a volta a Menophila, na cama,
dirige-te às nádegas mimosas
e é fácil fingir que fodes o irmão.


Pássaro danado, porque me roubaste
o sonho delicioso com Pyrrha?
Esta é a tua paga pelo teu sustento
e do teu harém de poedeiras?
Pelo ceptro e o altar do sagrado
Serapis, juro que terá a tua carcaça,
em sacrifício;
não mais cantarás, à noite.


Garrafa, velha companheira, amiga
das medidas do vinhateiro, doce
tagarela de boca risonha e longo
pescoço, bem-vinda, testemunha
secreta da minha pobreza (pouco
fizeste para a aliviar), de novo
te tenho na mão; mas preferia
que não contivesses mistura,
como virgem na cama do noivo.


Psyllas jaz aqui. A sua ocupação
proxeneta; mantinha um bando
de raparigas e alugava-as para festas.
Um negócio pouco simpático, ganhar
dinheiro com carne humana e fraca.
Mas poupem o seu túmulo, não atirem
pedras, agora que está morto e enterrado.
Lembrem-se disto: os serviços que prestou
convenceram os rapazes a deixarem
as nossas mulheres sossegadas.


Poemas da Antologia Grega, versões de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Fevereiro de 2018, pp. 43-44.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

UM CONTO DE LAÍS CHAFFE




UM BALDE

   Aquela noite havia recuperado seu olhar de infância, e ela concluiu que agora estava tudo em suas mãos: se agarrasse com firmeza o entusiasmo fugidio que parecia ter se entregue sem advogados na véspera, poderia clonar os velhos tempos. E foi com esse olhar verde-flutuante que providenciou um novo corte nos cabelos, uma blusa vermelha e um vinho branco de salões por ela nunca freqüentados.
   Quando ouviu o barulho da porta sendo aberta, sentou-se no sofá com uma displicência estudada. A mesma com que colocara, na mesinha auxiliar ao lado, a garrafa de vinho no balde de gelo. Ele entrou rápido e estava normal. Nem mais, nem menos. Deu um beijo de verão na boca da mulher e seguiu no mesmo ritmo para o quarto, onde se curvou para beijar, agora lentamente, a testa do bebê que dormia. Ficou observando a criança cheio de emoção e, sem se virar, comentou que a filha deles estava cada vez mais linda.
   Na passagem, ele havia derrubado o balde. Ato reflexo, ela ainda conseguira salvar a garrafa. Mas uma parte do gelo derretido tinha molhado sua blusa. Então a mulher trocou de roupa.

Laís Chaffe (1966), in Não é Difícil Compreender os ETs, AGE Editora, Porto Alegre, 2002, pp. 77-78.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

DE UM DICIONÁRIO LITERÁRIO

 


Direito — Uma frase não tem lados direito e esquerdo como os mamíferos. Uma frase tem lados direito e esquerdo como uma esfera. E esta diferença é importante e deve ser pensada.
   Se os dois lados de uma frase são fixos, isso significa que a frase é sempre recebida a partir do mesmo ponto de vista. Neste caso: ou o leitor é imbecil ou a frase é imbecil.

Gonçalo M. Tavares, in Breves Notas Sobre Literatura-Bloom — Dicionário Literário, com posfácio de Borja Bagunyà traduzido por João Moita, Relógio D'Água, Maio de 2018,  p. 29.