quinta-feira, 11 de junho de 2026

INFANTINO

 


Gianni Infantino é, por estes dias, o rosto da mais ignóbil venalidade que assaltou o mundo. Depois do gesto bajulador com prémios da paz a cheirar a tumefação, aí o temos diariamente a pôr água na fervura, a usar paninhos quentes, a oferecer a sua cara de pau careca a uma organização que é a antítese do espírito desportivo. Mas não nos iludamos, a uma escala micro este mundo está repleto de infantinos cujo propósito único e final é apenas e tão-só ficar bem na fotografia ao lado de quem lhes possa ser útil às ambiçõezinhas mais fúteis. Sem o mínimo escrúpulo daquilo a que podemos chamar ética social, o que move esta gente é a vaidade, o egoísmo, enfim, a vanitas. E o povo vai atrás como n’A Parábola dos Cegos, de Bruegel, o Velho, a fazer bicha no beija-mão que sempre entusiasma as hostes e sintonizando o canal na selecção porque, enfim, as violações anais do CR7 serão sempre mais entusiasmantes do que o extermínio em Gaza. Depois é ouvi-los queixarem-se de berardos e espíritos santos a quem só não beijaram o cu se não puderam, pois a culpa é da justiça portuguesa, dos ciganos e dos comunistas.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O MEU PAÍS É O MEU CORPO

 
O meu país é o meu corpo
Para lá das fronteiras do meu corpo
não me reconheço de país algum
Da língua não faço pátria
Por fortuna ou azar
calhou-me esta e não outra
A ter mátria seria talvez
uma língua de fogo no deserto
Do passado não me orgulho
nem me envergonho
Não foi meu e já passou
O que me desassossega é ter
de carregar comigo para todo o lado
este presente a cada segundo desfeito
sem futuro que nos motive
Bandeiras são trapos ao vento
Hinos são fraseados de mau gosto
Não me digam de um país
que não seja a minha própria morte
a cada dia vivida em tragos sôfregos
de bebedeira e liberdade

terça-feira, 9 de junho de 2026

LUCRECIA

 


São quilómetros de cabelagem até chegar aqui, a este estado de afasia diante do monumento. A Lucrecia de Shakespeare mergulhou no Tejo e por ali ficou como Ofélia a gerar sargaço, sonhando com troncos hamletianos que se abrem ao meio como casacos com fecho de correr. Lazaro ergueu-se da morte para brincar com tarolas e tambores, é uma criança no seu parque infantil privado, veste e despe um Lou Reed berlinense enquanto mete o povo aos saltos. Vertiginoso ritual percutido nos músculos que cedem sem esforço algum à agitação preliminar, ainda que o meu coração palpite por outros abismos. Lucrecia aproxima-se, vinda de outras paragens, com um copo de vinho branco na mão, «divina, desviada». Dirige-se-nos numa língua e tom compreensíveis, diz que gosta do nosso peixe, justifica a lentidão das canções que vai discorrendo «hasta el final» com serenidade invejável. E sorri. Sabemos que somos um perigo para nós próprios ao ouvi-la. Podíamos dizer “amo-te” convencidos de que o pronome oblíquo átono sairia disparado do verbo como flecha no arco de um qualquer querubim. «¿donde caes, si caes?» Talvez de mim mesmo, aqui especado a seguir com os olhos os cabos enrodilhados como um novelo de lã que te embrulha a voz. Por vezes, perco o equilíbrio, sinto-me vacilar, penso que vou desmaiar, aquela sensação de quebra logo arrematada em tronco firme. É da coluna, penso, sempre a ceder a puta da coluna. E não é que corro o fecho da maçã-de-adão ao umbigo e também de mim brota um mar de sargaços como uma espécie de sistema venoso vegetal. Sou uma planta de mim mesmo, um projecto em construção, ainda respiro, é possível que sim. (Alex Lazaro e Lucrecia Dalt no B.Leza Club.)

domingo, 7 de junho de 2026

UM POEMA DE KAVÁFIS

 


ÍTICA
(1911)

Quando abalares, de ida para Ítaca,
Faz votos por que seja longa a viagem,
Cheia de aventuras, cheia de experiências.
E quanto aos Lestrigões, quanto aos Ciclopes,
O irado Poséidon, não os temas,
Disso não verás nunca no caminho,
Se o teu pensar guardares alto, e uma nobre
Emoção tocar tua mente e corpo.
E nem os Lestrigões, nem os Ciclopes,
Nem o fero Poséidon hás-de ver,
Se dentro d'alma não os trasnportares,
Se não tos puser a alma à tua frente.

Faz votos por que seja longa a viagem.
As manhãs de Verão que sejam muitas
Em que o prazer te invada e a alegria
Ao entrares em portos nunca vistos;
Hás-de parar nas lojas dos fenícios
Para mercar os mais belos artigos:
Ébano, corais, âmbar, madrepérolas,
E sensuais perfumes de todas as sortes,
E quanto houver de aromas deleitosos;
Vai a muitas cidades do Egipto
Aprender a aprender com os doutores.

Ítaca guarda sempre em tua mente.
Hás-de lá chegar, é o teu destino.
Mas a viagem, não a apresses nunca.
Melhor será que muitos anos dure
E que já velho aportes à tua ilha
Rico do que ganhaste no caminho
Não esperando de Ítaca riquezas.

Ítaca te deu essa bela viagem.
Sem ela não te punhas a caminho.
Não tem, porém, mais nada que te dar.

E se a fores achar pobre, não te enganou.
Tão sábio te tornaste, tão experiente,
Que percebes enfim que significam Ítacas.

Konstantinos Kaváfis, 145 Poemas, tradução e apresentação de Manuel Resende, FLOP, Outubro de 2017, pp. 35-37.

sábado, 6 de junho de 2026

SERVIÇO PÚBLICO

Serviço público é bater palmas
convidar abutres para banquetes de ossadas
dar banho a cães sarnentos
abraçar cobras peçonhentas
beijar mãos e pés ao Papa
catar macacos do nariz
fazer sala em cock tails de fim de tarde
traduzir cock
traduzir tails
juntar as letras e produzir palavras
juntar palavras e produzir expressões
juntar expressões e produzir frases
com que varrer para debaixo do tapete
as migalhas percentuais do apoio às artes
é servir educação em pratos recicláveis
ter prato vegetariano na cantina geral
incluir géneros e identidades
classes e elites
ser altamente experimental
com sonolentas respirações aos pulos
excluir burcas
e déjà vodus com caras de ministros
é andar aos papéis em plataformas digitais
patinar
cair
levantar
e cumprir airosamente os objectivos traçados
com avaliações da casa traçadas com gasosa
ao preço do melhor Cabernet Sauvignon
é por exemplo esturrar ao sol
depois de deixar esturrar a torrada
mergulhada em manteiga vegetal
para dieta neuronal
é meter gosto na página certa
párretilhárre e cômentárre
num comprimento de não sei quantos subscritores
que dêem a volta ao cozido na ponte vasco da gama
a palitar os dentes da consciência
com unhaca de taberneiro
Serviço público é ligar a RTP
pagar taxa audiovisual
adivinhar o preço certo
dançar na praça da alegria
ser ignorado nas opções do palmeirim
em horário salsicha
fazer orelhas moucas dos santos
furtar catarinas
e manter actualziado o relatório de actividades
que algum sub sub secretário do secretário da ministra
lerá nos intervalos da selecção nacional

sexta-feira, 5 de junho de 2026

EL CERCO DE NUMANCIA

 


QUINTO

Sin duda que los fieros numantinos,
del bárbaro furor suyo incitados,
viéndose sin remedio de salvarse,
antes quisieron entregar las vidas
al filo agudo de sus proprios hierros
que no a las vencedores manos nuestras,
aborrecidas de ellos lo posible.

Miguel de Cervantes Saavedra, in La Numancia, Linkgua Teatro 121, Barcelona, 2019, pp. 92-93.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

MARJANE SATRAPI (1969-2026)

 


ESPECTÁCULO

 
Esta noite sonhei que estava no teatro. Andava numa correria, era o único assistente de sala num auditório enorme. As bichas de espectadores davam a volta ao quarteirão, com uma particularidade: eram todos poetas. Neo-realistas, surrealistas, experimentalistas, criacionistas, modernistas, pós-modernistas, farsistas, românticos, neo e proto, classicistas, parnasianistas, futuristas, marginais, concretistas, maneiristas, barroquistas e barraqueiros, espiritualistas, sensacionalistas, sensacionistas, humanistas, anedotistas, naturalistas, naturistas, entre outros. Todos sentados e instalados, a luz do público baixou num lentíssimo e interminável fade out. O actor entrou. Curiosamente, tinha a minha cara e o meu corpo, mas não era eu. Subiu a luz no palco e o actor esperou, esperou, esperou, esperou e continuou a esperar que o público exclusivamente composto por poetas se manifestasse, que dissesse um poema, um verso que fosse. Nada, silêncio sepulcral. Os poetas não falavam, não sabiam poemas, não sabiam dizer, apenas escreviam e pronto, estavam ali para ver e para ouvir sem saberem que o espectáculo consistia naquilo: um actor em cena a observá-los, à espera que dissessem alguma coisa. Não disseram nada, não diziam nada, ficaram mudos e calados.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

ODE A KAVÁFIS

 
Os dias começam sempre à hora errada
e só no fim vencem com a paz do sono
 
Impelidos pela vaidade dos deuses
em busca de louros sem espinhos
seguimos em trânsito das aldeias para as vilas
e destas até às cidades
sentindo nos ombros o peso da derrota
que nos devolve ao ponto de partida
 
Com o tempo aprendemos talvez a queda de Roma
e de Bizâncio, que Babilónia afundou-se
e dos impérios restam ruínas e destroços
nada didácticos nesta corrente de futuros babélicos
 
Queixamo-nos da pouca sorte
da fortuna madrasta
do desconcerto do mundo
do mortal quebranto lançado por inimigos
tão fantasmáticos quanto os heróis literários
 
Lançada a semente na terra
só com paciência poderá ser regada a planta
até o fruto falar na boca de quem come
 
É certa a repetição dos dias
como a distribuição das horas pelos calendários
com que ateamos piras
onde cremar frustrações
mas um dia paramos e vemos arrastadas pelas águas
as ambições outrora vigorosas
os sonhos outrora vigilantes
 
Fama, reconhecimento e prestígio
são então coroas de espinhos na cabeça dos vencidos
 
Derrotados e derreados dançamos ao som de apupos
agradecemos a pateada com sorrisos no rosto
a indiferença é o nosso escudo de Aquiles
contra a espada de Dâmocles
 
Pelejamos com esquecimento e morte
até ao último suspiro
e continuamos depois de mortos
a fazer do fracasso uma festa

terça-feira, 2 de junho de 2026

SANTOS POPULARES

 

Arraiais, carnavais, cortejos, desfiles, feiras medievais, festas e festivais, peregrinações, picarias, queimas das fitas, marchas populares, sunset parties, tasquinhas, touradas, largadas. E conceitos, muitos conceitos, conceitos para tudo e para mais alguma coisa. Até já inventaram as sardinhas e os manjericos de conceito. Espremido, é mais do mesmo, tédio, boçalidade, a uniformização do gosto, um calendário repetitivo, monótono, promotor da parolice, da saloiíce, com multidões de indivíduos que não se distinguem uns dos outros, singularidades hipotecadas, chusmas de criaturas copiadas a papel químico, robots, clones aos pulos tingidos de alegrias infinitas e ruas repletas de lixo a cheirarem a mijo.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

BANQUETE

 
São tantos dentro de um só, em busca de sentido para a multidão que corre e se agasta e se prostra como bandos de abutres a pairar sobre carcaças velhas. Tantos dentro de um só a remoer os ossos cegos, surdos e mudos das ambições sem mesura, a vomitarem pelos olhos o que emprenharam pelos ouvidos: nada com eles, não sabem, não viram, e só a curiosidade pesa no voo rasante que serpenteia com renovados venenos as presas fáceis de capturar. Horas e mais horas investidas a projectar futuros que chegam sempre com atraso e não raras vezes se perdem pelo caminho, como génios na esquina do esquecimento. Mas descansai, ó abutres, há mortos que emergem do Hades com a mesma cara de parvos que tiveram em vida para que possais satisfazer vossa ávida gula necrófila. Podeis então palitar o bico com perónios desossados pelo cansaço das peregrinações que sempre levaram os fiéis a lugar nenhum. (Numa exposição de Manuel João Vieira, Maat).

domingo, 31 de maio de 2026

UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD

 


VÉNUS ANADIÓMENA

Como de um verde caixão de lata, a cabeça
De uma mulher, cabelo castanho e pastoso,
Lenta e estulta, emerge de uma velha banheira,
Cheia de deformidades mal disfarçadas;

Depois a farta nuca, as grandes omoplatas
Saídas; as costas cheias de reentrâncias;
E os bolbos dos rins, que parecem descolar;
Sob a pele, a banha surge em lisas camadas;

Um tanto vermelha, a espinha, e o todo liberta,
Que estranho, um cheiro horrível; vê-se sobretudo
Singularidades que requerem a lupa...

Nas nalgas, dois nomes gravados: Clara Venus;
- E toda em requebros alça e larga garupa
E expõe, bela e medonha, uma chaga no ânus.

27 de Julho de 1870

Arthur Rimbaud, in Poesia, tradução e notas de João Moita, prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Assírio & Alvim, Setembro de 2025, p. 61.

DIGRESSÃO

Passaram o amigo de infância, a antiga colega de curso, a estrela da telenovela, o crítico histórico – na reforma -, o radialista, o realizador de cinema (dose dupla), o animador cultural, o designer, os amigos e os amigos dos amigos, colegas de trabalho, etc. Nem um poeta, um único. Nem um poeta.

sábado, 30 de maio de 2026

LX 26

27.05: Está aqui um tipo à minha frente a raspar raspadinhas com a língua de fora. Subitamente, ocorre-me haver qualquer coisa de onanista nisto das raspadinhas. Devíamos passar a dizer bater raspadinhas. Onde vais? Vou ali bater uma raspadinha.

*

28.05: O patrão da petisqueira Estrelinha trata-me por querido. A patroa trata-me por menino. A empregada chama-me jovem. Estou à espera que um dia alguém se me dirija por "querido jovem menino". Então querido jovem menino, o que é que vai ser? Vou ser querido, vou ser jovem, vou ser menino.

*

29.05: Está a decorrer a maior Feira do Livro de Lisboa de sempre, rendida a dois ou três grandes grupos editoriais com pavilhões como nunca se viu. Por esta altura, o Parque Eduardo VII povoa-se de pavões nos pavilhões e de crocodilos que se fartam de chorar sempre que uma livraria independente desaparece.

*

30.05: 45 minutos à espera para ser atendido numa farmácia. Dois funcionários no atendimento ao público, três a andar de um lado para o outro. Gente a reclamar para orelhas moucas. Finalmente chamado, lá vou debitando os números da receita. Um, dois, três números. Quatro vezes pronunciados, porque havia sempre algum que falhava. Quer genérico ou de marca, perguntou a estimável de serviço. Quero ir-me embora daqui quanto antes, respondi-lhe. Ah, é que posso não ter genérico. Então traga o que tiver, eu depois pago-lhe com a minha simpatia genérica. E pronto, é isto.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

UMA CRIANÇA OCUPA O TEMPO

 
Uma criança ocupa o tempo
a construir castelos de areia
Senta-se à espera que a maré
engula o que ela construiu
 
Um velho entra dentro do castelo
e instala-se numa das torres
Espera que a maré o leve
até uma qualquer ilha deserta
 
Mas o tempo passa e a criança
regressa a casa de mão dada
com o velho que por ali ficou
enrolado nas ondas dos sonhos
 
que são como castelos de areia

quinta-feira, 28 de maio de 2026

DE UMA PEÇA DE ANTON TCHÉKHOV

 


JIDÁLOV (Para Dimba)
   Mais uma rodada, ou quê? (Serve.) Em qualquer momento se pode beber. O mais importante é a acção, Kharlampi Spiridónitch, para não esquecermos os assuntos. Bebe, mas mantém a cabeça fresca... Mas se é para beber, porque não se há-de beber? Pode-se beber... à sua saúde!
Bebem.
   Vocês lá na Grécia têm tigres?
DIMBA
   Temos.
JIGÁLOV
   E leões?
DIMBA
   E também há leões. Na Rússia é que não há nada, mas na Grécia há de tudo. Eu tenho lá o meu pai e um tio, e irmãos, e aqui não tenho nada.
JIGÁLOV
   Hum... E há cachalotes na Grécia?
DIMBA
   Há de tudo.
NASTÁCIA TIMOFÉIEVNA (Para o marido.)
   Para quê estar para aí a beber e a petiscar à toa? É tempo de todos se sentarem. Não espetes o garfo nos lagostins... Isso está aí para o general... Pode ser que ele ainda venha...
JIGÁLOV
   E na Grécia também há lagostins?
DIMBA
   Há--- Há de tudo.
JIGÁLOV
   Hum... E também há funcionários civis? Há?
ZMEIÚKINA
   Posso imaginar a atmosfera que há na Grécia!
JIGÁLOV
   E por certo também há muita gatunice. Os gregos são como os arménios ou os ciganos. Para nos venderem uma esponja ou um peixe-dourado falam de uma maneira que nos intrujam. Repetimos, ou quê?

Anton Tchékhov, traduzido por António Pescada, da peça A Boda, in Peças em Um Acto, Relógio D'Água, Abril de 2026, pp. 142-143.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

CATARATAS DE BARATAS

 
Em "Na estrada real", de Anton Tchékhov, a peregrina Nazárovna comenta, enquanto descansa na taberna de Tíkhon: "Ouves? Soltaram-se as cataratas do céu." Leio isto e vem-me à memória Luís Miguel Cintra, em "Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço", de João César Monteiro: "agora já caem baratas do tecto”, dizia ele sentado à mesa de um café. Cataratas que caem do céu, baratas que caem do tecto. Escolham vocês.