terça-feira, 24 de março de 2026

CADERNETA DE PULHAS

 


Mais um português de bem para a nossa caderneta de cromos preferida. Chama-se Ivo Ferreira Faria, candidato pelo Chega (quem mais?) à União de Freguesias de Antime e Silvares S. Clemente, em Fafe, e foi detido «em flagrante delito por abuso sexual da filha de cinco anos, devassa da vida privada e pornografia de menores.» Mais se acrescenta que: «A mãe da criança, que não é a actual companheira, precisa que a filha tem cinco anos – e diz ao PÚBLICO que fez queixa por violência doméstica contra Ivo Faria.» Como é óbvio, o Ventrulha e a Rita Matias e o Pedro Opus Dei e mais aquela pandilha retrógrada a que as TVs dão tempo de antena desmesurado, lá virão dizer que, ao contrário dos outros, agiram logo de imediato com expulsões. Acontece que, ao contrário dos outros, não têm mostrado capacidades preventivas, transformando-se num viveiro de todo o tipo de criminosos e mais alguns. O povo que vota neles que se sinta orgulhoso do bem que está a fazer ao país. Que prossiga a limpeza.

segunda-feira, 23 de março de 2026

DANOS COLATERAIS

 
Vem no The Guardian: "Quase 100 feridos em ataques com mísseis iranianos no sul de Israel. Sistemas de defesa aérea israelitas falharam a intercepção de pelo menos dois projécteis durante ataques às cidades de Arad e Dimona". A guerra que ia durar dois dias continua a fazer baixas nos dois lados, isto depois de Trump ter garantido, uma vez, uma segunda vez e uma terceira vez, que as capacidades bélicas do Irão estavam aniquiladas. Já destruíram tudo, mas eles continuam a responder nisto que Pete Hegseth considera ter um "propósito divino": "acções militares dos Estados Unidos são aprovadas por Deus e estão imbuídas de moral cristã", garante o templário com cabeça de KKK. Acabar com teocracias, portanto. Entretanto, no artigo do The Guardian diz-se que "entre os feridos estavam um rapaz de 12 anos e uma menina de cinco anos, ambos em estado grave." Crianças, os danos colaterais dos propósitos divinos.

domingo, 22 de março de 2026

NA CASA DE VERGÍLIO

 
Sinto honesta admiração pelos escritores que, de um modo ou de outro, concentram a acção das suas obras num espaço geográfico que lhes é familiar, seja a aldeia perdida da infância, a cidade onde envelheceram ou um qualquer lugar de facto. A Curitiba de Trevisan, a Lisboa de O’Neill, o Alto Douro de José Rentes de Carvalho, a Dublin de Joyce, etc., adquirem configurações novas depois de descobertos pela pena destes escritores. Seria incapaz de tais efeitos. Nunca senti tal apelo, talvez por não me sentir de lugar algum. Pária entre párias, ando no limbo de geografias de passagem em que não me pretendo fixar. A terra da infância ficou enterrada numa ruralidade mais imaginária do que real, a passagem por Lisboa alimentou o esquecimento, a fixação no Litoral Oeste só me tem trazido desejos de partir. Não me interessam fronteiras nem os detalhes dos lugares, prefiro andar por aí respigando pegadas humanas que me levem onde nunca fui. (Melo, Gouveia)

sábado, 21 de março de 2026

MAIS ROSAS

 
Mais rosas, disse a mãe
rosas-rubras, rosas brancas
espinhosas como milagres
com pétalas de veludo
selvagens, mas rosas
 
Mais rosas nos vasos
nos jardins, canteiros
de luz na noite clara
rosas regadas com sangue
lágrimas, roseiras de raiz
 
Mais rosas, estames
estigmas, rosas com que
quebrar em pedaços
o vidro desses olhos
envolto em ervas daninhas
 
Que as rosas emerjam
dos solos, que cantem
com lábios de seda
Rosas plantadas no cabelo
de mulheres sem medo
 
Uma alameda de rosas
que nos salve dos homens
e das suas traições
Mais rosas no regaço
das mães, encantos, rosas

sexta-feira, 20 de março de 2026

UM POEMA DE RAQUEL NOBRE GUERRA

 


MENSTRUAÇÃO

Não me lembro exactamente do momento
(também não encontro o meu tabaco)
em que comecei a fluir com o mundo
mas menstruada aos treze
passei de um império para o outro
levada pela mão sólida do amor calmo da minha mãe

devia ser proibido mudar de mão
de corpo, de roupa, de planeta
mas não houve tempo para mais infância
foi ali mesmo no registo civil do asfalto
que se desmanchou num fio de sangue
a teologia natural, o caminho bem desenhado
entre as coxas e a vulva rosicler

assim mesmo no mês de Agosto desci à terra
sem querer,
sem saber de todas as camas, todos os quartos
todas as noites em que prática e mortal
me deito sobre a donzela
para num magoamento risonho murmurar
já não sou uma cidadã dos céus.

Raquel Nobre Guerra, in Postes de Luz para Cães Vadios, Edições Tinta-da-China, Março de 2026, p. 72. 

quinta-feira, 19 de março de 2026

TRUMP JUST SAYS SHIT

Trump says the Iran war will end ‘very soon’ – but it is not clear how. Trump says Iran war will be over 'pretty quickly' but US hasn't 'won enough' yet. Trump says Iran war will end in 'very near future'. Trump: Iran war will end when I ‘feel it in my bones’. Trump says "the war is very complete," and he's considering taking over Strait of Hormuz. Trump Says War Could Last Weeks and Offers Contradictory Visions of New Regime. Trump tells CNN the ‘big wave’ is yet to come in war with Iran. Trump just says shit.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A MAIOR POTÊNCIA

 
Trump, líder da maior potência bélica do mundo, meteu-se numa guerra de mão dada com o exército que mata crianças, mulheres, idosos, jornalistas, médicos, destrói escolas, hospitais, um exército de violadores sob a bandeira de Israel e o comando do facínora Benjamin Netanyahu. Agora quer empurrar os aliados para este abismo. Ameaça com o futuro da NATO se os seus aliados não o forem ajudar no inferno em que se meteu, enviando navios para o estreito de Ormuz. Este lunático acusado de pedofilia, empresário falido que se arroga rei de uma república que anda a matar e a perseguir os seus com uma horda de encapuçados conhecida pelo acrónimo ICE, está a empurrar o mundo para uma guerra enquanto o amigo Putin esfrega as mãos de contentamento e os pobres ucranianos caíram no esquecimento. O pior que podia acontecer ao mundo já aconteceu, a sala está cheia de elefantes e, mais uma vez, as únicas vozes sensatas parecem vir lá do Extremo Oriente. Tudo "isto" é do piorio que pudéssemos imaginar e o pior é não passarmos incólumes a "isto" com os nossos tartufos do costume.

terça-feira, 17 de março de 2026

UM POEMA DE SAMUEL BECKETT

 


MALACODA

veio três vezes
o gato-pingado
impassível por detrás do escudo do seu chapéu de coco
para medir
não lhe pagam para medir
este incorruptível no vestíbulo?
esta malebranca afundada até aos joelhos nos lírios
Malacoda afundado até aos joelhos nos lírios
Malacoda apesar de toda a sagaz reverência
que feltra o seu períneo abafa o seu sinal
suspirando através do ar pesado
tem de ser? tem de ser tem de ser
encontra as ervas daninhas prende-as no jardim
ela pode ouvir mas não precisa de ver

para encerrar no caixão
com auxílio dos ungulados
encontra as ervas daninhas fixa a sua atenção
ela tem de ouvir mas não precisa de ver

para cobrir
decerto cobrir tudo cobrir
a tua tarja permite-me detém o teu enxofre
divino barómetro da canícula apontando para o bom tempo
pára Scarmilhão pára pára
pousa este Huysum sobre a caixa
repara no inimigo é ele
ela tem de ouvir tem de ver
tudo a bordo todas as almas
a meia haste sim sim

não

Samuel Beckett, in Poemas Escolhidos, tradução de Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho, cadernos de poesia, Publicações Dom Quixote, Março de 1970, pp. 46-47.

domingo, 15 de março de 2026

UM POEMA DE BERTOLT BRECHT

 


DO POBRE B. B.

1
Eu, Bertolt Brecht, sou das negras florestas.
Minha mãe resolveu pelas cidades andar
Comigo no ventre. E o frio das florestas
Até à morte me há-de acompanhar.

2
A minha casa é a cidade do asfalto. Desde o início
Apetrechado com os sacramentos da morte:
Com jornais. E tabaco. E aguardente.
Desconfiado, sorna, e no fim com sorte.

3
Sou amável com as pessoas. Até ponho
Chapéu de coco, como elas gostam de usar.
Digo: Têm um cheiro especial estes bichos
E digo: Não faz mal, o meu não é melhor.

4
Nas minhas cadeiras de baloiço, de manhã,
Às vezes um bando de mulheres faço sentar
E olho para elas descuidado e digo:
Com este aqui não podem vocês contar.

5
À noitinha reúno homens à minha volta
Por gentlemen nos vamos tratando.
Eles põem os pés nas minhas mesas
E dizem: Vamos melhorar. E eu
nem pergunto: Quando?

6
Cedinho ainda, no pardo amanhecer, os abetos mijam
E a passarada, os seus parasitas, começa a gritar.
A essa hora bebo um último copo na cidade e deito
Fora a beata e, inquieto, vou-me deitar.

7
Fomos vivendo, nós, leviana geração,
Em casas tidas por indestrutíveis
(Assim construímos os altos caixotes da Ilha de Manhattan
E, para divertir o Atlântico, as antenas flexíveis).

8
Destas cidades ficará o que as atravessou: o vento!
A casa alegra quem come... e a esvazia.
Sabemos que somos meros transeuntes
O que depois virá é de pouca valia.

9
Nos terramotos que aí vêm, espero,
Não vou deixar apagar o charuto Virginia, amargurado
Eu, Bertolt Brecht, vindo das negras florestas pr'as cidades de asfalto
E em tempos no ventre de minha mãe pr' aí lançado.

Bertolt Brecht in A Luz das Trevas - Poemas e canções, selecção, tradução e introdução de João Barrento, edição bilingue, livros nanook, 11, Companhia das Ilhas, Fevereiro de 2026, pp. 21-25.

sábado, 14 de março de 2026

COUTADAS

 
Dentro das coutadas os bichos farejam com apetites interesseiros, em torno de reinados de papelão povoados por serviçais, bobos e outros anões, a fazerem piruetas e números de equilibrismo. Aduladores, bajuladores, especialistas da lisonja açucarada compõem parágrafos intermináveis enquanto chupam a língua ressequida dos papas. A gente ri como num número de stand up a vê-los ora mansos, ora histéricos, compondo a própria história curricular com estratégicas permutas e alianças. Na verdade, atiram-se a terceiros para se enaltecerem a si próprios, adubados pela vaidade que Camões não pôs no último verso de Os lusíadas, mas podia ter posto. Ficou a inveja, que é, por assim dizer, a consequência mais imediata da vanitas matricial. Nada disto é particularmente inóspito, obriga apenas a alguma humidade, temperaturas baixas e paciência nos dedos para continuar a passar páginas coladas umas às outras de tão velhas. Mesmo quando cheiram a novas, sobretudo quando cheiram a novas. Depois escolhe-se um cantinho na margem, à sombra de uma árvore qualquer, e fica-se a contemplar o horizonte por cima do meio onde necrófagos de várias origens se digladiam por ossos de presas velhas.

sexta-feira, 13 de março de 2026

OS CONINHAS

 
A cumplicidade do mundo político com os crimes de Netanyahu em Gaza, cujo exército se comporta como um General Zaroff à caça de palestinos indefesos, mete-me nojo, assim como me enoja a complacência para com Donald Trump e o seu lacaio Pete Hegseth, com discursos que só diferem dos generais da Alemanha Nazi por serem menos sofisticados, mais saloios. Tudo isto é um nojo pegado. Escarro em montenegros e rangéis, antónios costas e ursulas, escarro nessa gente toda incapaz de se distanciar destes nazis que empurram o mundo para o abismo. Mete dó ouvir os coninhas da UE, todos engasgados nas suas gravatas e fatos de marca, cúmplices dos crimes destes pulhas como outrora foram os descolhoados cúmplices dos nazis, tal como mete dó a total falta de verticalidade de gente no mundo da cultura que continua a viver como se nada estivesse a acontecer no mundo. Tudo isto é um nojo pegado, qualquer pessoa decente jamais sujará as mãos com estes porcos. Ver alguém que outrora admirámos a receber medalhinhas deste caldo de séquitos é um desgosto sem cura. Por mim, que se fodam todos mais os beija-mãos e a puta que os pariu.

quinta-feira, 12 de março de 2026

MÁRIO ZAMBUJAL (1936-2026)

 


Conheci-o nos tempos de livreiro. Organizei algumas sessões de autógrafos com ele e uma vez pediram-me que o apresentasse e dinamizasse uma conversa sobre os seus livros. Trouxe para casa algumas dedicatórias e ofereci-lhe uma garrafa de ginja. Era simpático, belo contador de histórias, sem peneiras, qualidade cada vez mais rara. Gosto da "Crónica dos bons malandros" e de alguns contos. Hoje beberei em sua honra.

BACTÉRIAS

 
Israel e os EUA arrastaram o mundo para uma guerra cujas consequências vão ser por todos sentidas, economicamente mas não só. As almas néscias que exultaram com o fim da teocracia iraniana têm já à vista as consequências da putativa mudança, o exército a dizer na televisão que tratará qualquer manifestação pública contra a liderança iraniana como trata os seus inimigos. Sobre a destruição perpetrada resultará, como sempre e a história ensina, um ódio reforçado, mais terrorismo, mais repressão, mais medo e o desejo de vingar centenas de crianças ceifadas. O que Israel fez em Gaza e pretende fazer no Irão e no Líbano devia ser suficiente para não ceder um milímetro na defesa do direito internacional, das convenções que nos ofereceram alguma paz e garantiam mínimos de dignidade, mas a hipocrisia reina e a consciência moral definha. Sob os escombros desta guerra jazem a ética, a moral, as leis, as regras, as normas, a justiça, a diplomacia. A lei do mais forte reverbera nos discursos de Netanyahu e Trump, este último apoiado por uma horda de fanáticos religiosos que não se distinguem dos ayatollahs senão pelas vestes. E são mais ignorantes, diga-se de passagem. A autocracia norte-americana e o sionismo estão bem um para o outro, o que não se compreende é a subserviência de uma União Europeia (escapam Espanha, Irlanda e agora, ao que parece, a Itália de Meloni sob pressão migratória) tão lesta nas sanções e todo o tipo de cancelamentos à Federação Russa, mas absolutamente conivente com os crimes de Israel e EUA. Quem no final pagará a conta já todos sabemos, é o povinho que, nas urnas, continuará a gratificar facínoras. Na verdade, à escala universal a humanidade não passa de uma população bacteriana. Somos vírus, micróbios, uma porcaria que se vai reproduzindo até dar cabo do seu habitat. Portanto, não há com o que nos preocuparmos. O fim é certinho.

quarta-feira, 11 de março de 2026

CAFÉ DA MANHÃ

 
no raiar da chuva miúda
que levanta da terra
aromáticas sombras
 
os pombos reúnem-se
à volta de migalhas
e os cães farejam penas
 
e alguém espantosamente
parecido com quem eu fui
agasalha-se na solidão
 
dando graças pelo silêncio
das bocas desdentadas
pela distância dos braços
 
esculpidos por vanidade
folheando árvores verticais
como o vento das tempestades

terça-feira, 10 de março de 2026

DIAS DE GUERRA

 
Feitas as contas, tudo se resume a táctica, a velha táctica que ora nos aproxima, ora nos afasta, por mera conveniência. Não há amor nem amizade, não há respeito, reverência ou admiração, naquele sentido de apreço, que vença a táctica nas motivações humanas. E isso será mesmo o que torna os seres humanos os mais desprezíveis animais à face da terra. O amor enquanto fraqueza vem no Brecht. Não sei se apenas o escreveu ou se cumpriu em vida, há um fosso enorme entre o que os artistas dizem e o que fazem. Na superfície branca da página somos todos imaculados, na face rugosa dos dias nem por isso. Aquele que pintava flores tinha pedras no coração, o que escrevia versos translúcidos era opaco nos gestos, a que dançava como pétalas agia como as feras, no músico do silêncio a consciência era ruído. Se por incoerência ou hipocrisia, pouco importa. É táctica. Mais ridícula é a constatação de que na raiz da táctica medra a semente da frustração, tão frequentemente regada por complexos insanáveis, razões tão ridículas como um pé chato, a dislexia que nos faz chorar quando rimos, o sorriso engolido na boca pintada do palhaço. O palhaço das roupas rasgadas carregava um sorriso rubro em que de vez em quando tropeçava para fazer rir quem o via:

Tinha a cabeça avariada
por incurável dislexia
fazia rir quem chorava
fazia chorar quem ria

Dias de guerra, estes em que nos encontramos imersos. Podia ser diferente? Não deposito esperança nisso, a não ser que nos cinjamos ao jardim privado para o qual convidamos o sol das manhãs, um gato vadio, o animal de companhia. A solidão é o melhor dos medicamentos contra o jogo das simulações e a histeria da dissimulação que entretém mascarados, foliões, fantasistas.

segunda-feira, 9 de março de 2026

O LEITE ESTÁ AZEDO

 
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de
muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Mário Cesariny

Cabe tudo dentro daquelas paredes, cães e gatos, azeite e vinagre, gregos e troianos, e tanto uns como outros, complacentes com administrações e gerências, acham bem dizer que sim, não estão nem aí, vendem-se por um prato de lentilhas e uma ensaboadela no ego. Ouvi dizer que, em certos lugares, a máfia começou a ser combatida com cuspidelas. Quando um mafioso chegava, alguém escarrava para o chão. O povo levantava-se, abandonava a sala e deixava o mafioso a falar sozinho. É uma bela imagem que hoje se revela quase impossível. Ninguém cospe para o chão porque é feio, bonito é termos todos cu para as mesmas cadeiras. Ora senta-se o fascista, ora senta-se o democrata, com o tempo a cadeira ficará disforme. Mas o que importa isso? Alguém depois se encarregará de mudar as cadeiras.