Acontece por vezes pressentir uma muralha no olhar, um filtro, não, uma bolha, não, uma raiva escondida, talvez, inveja, será, um olhar que nos trava, empurra, afasta. Acontece por vezes alguém olhar-nos assim com pedras nos olhos, acontece por vezes alguém parecer-nos inflamado, prestes a explodir, gestos como martelos, acontece. E também acontece quem trema, não de medo, não de frio, mas de paralisia, quem trema de nervos contidos, a ansiedade que toma conta do corpo e se manifesta à superfície das mãos, das faces. E acontece o cansaço tomar conta de nós como uma corrente no pescoço de um cão, acontece aquela saturação escavadora de abismos, o pensamento sem rumo nem organização, as palavras retidas numa fadiga impaciente. Nada nos acalma, nada pacifica. Acontece muito. Mais raro é no meio do turbilhão a paz emergir e a pele dar de si com arrepios que insuflam o cérebro e te fazem retomar um certo equilíbrio, uma certa esperança, uma certa vontade de permanecer. Acontece muito pensar na morte como alívio, o termo de todas as dores e frustrações, o teu ansiado silêncio, mais raro é acontecer pensar na vida enquanto possibilidade de silêncio recortado por melodias apaziguadoras, regeneradoras. Estamos sempre a renascer da morte em que vivemos. Não sei se mais fortes, se igualmente débeis, pois os olhos murados de pedra inacessível permanecem ameaçadores. Diz-se que o distanciamento é a melhor cura contra a toxicidade, mas o distanciamento pode impelir-nos para uma solidão irreversível. Acontece por vezes ser a proximidade o melhor remédio contra o cansaço de si mesmo. Então, levados pelas ondas de luz e de som, emalados pelo coro e pelas orquestras, mesmo que não nos sintamos rejuvenescidos temos, pelo menos, mais uma razão para dizer: ainda vale a pena respirar.






