sábado, 8 de agosto de 2026

ACTUEUR

 


As dificuldades que a obra de Zúñiga coloca quanto ao género resultam da sua obstinada resistência a qualquer tipo de classificação, para o que contribui uma inclinação multidisciplinar capaz de cruzar diversas linguagens e interessada sobretudo no desmoronamento das barreiras que pretendam separar este daquele meio comunicacional. “Actueur”, na edição de 2006 com o selo blablalab, exibe no frontispício, sob o título, a curiosa indicação “Ni Théâtre”. Podia ser uma designação alternativa a “Teatro do Impossível”, este Ni Théâtre que, sem se opor ao teatro, não o negando por prefixação, antes participando da sua essência, parece remeter para um “nem” que se distancia das convenções teatrais ou, pelo menos, resgata o teatro de uma determinada categorização. Trata-se de um texto breve, em três actos, por assim dizer, que corresponderão a três desenvolvimentos de uma acção afirmada pela negativa. O paradoxo é, sem dúvida, uma das linhas de força desta obra. Antes de mais, o título “Actueur”, neologismo por amálgama das palavras Acteur (Actor) e, somos levados a crê-lo pelo que o próprio texto sugere, Tuer (Exterminar, Eliminar, Matar): «Seulement pour ac-tuer» (p. 7). Outra hipótese seria a presença da palavra Actuel (Actual) neste jogo fonético que remete tanto para o surgimento da fala como para a sua extinção, estando assim em causa uma espécie de ser em acto cuja acção é a da própria fala. De tipo didascálico, o texto começa como deviam começar todas as cosmogonias, ou seja, evitando dúvidas sobre um tempo anterior ao princípio tomando como ponto de partida um «Avant d’ouvrir» que é anterior à acção. Anterior à boca que se abre para dar início à fala, haverá a fala? A fala, em si mesmo, é acção, um dizer que neste texto transforma em verbo a simbologia gráfica. O itálico dá em italicar (italiqué), as aspas dão origem ao verbo «guillemette», os parêntesis (parenthèse) fundam o verbo «parenthèsé», acontecendo o mesmo com os dois pontos e o travessão. O que parece estar em causa é o mistério da palavra e a complexa relação da palavra falada com a palavra escrita. Talvez seja extemporânea a associação a William Burroughs, que, num dos seus ensaios, sugere que «a palavra falada, tal como a conhecemos, é subsequente à palavra escrita» (Feedback de Watergate para o Jardim do Éden): «A minha teoria de base é que a palavra escrita foi literalmente um vírus que tornou possível a palavra falada.» Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Sendo impossível determiná-lo, é possível especular sobre o assunto. A ironia está em o nosso “actueur” não falar simplesmente, mas antes “linguar-nos”. A diferença está numa assumpção da materialidade da fala através de uma escrita que é um acto constante de sabotagem da metafísica, um acto de afirmação do corpo enquanto princípio e fim de qualquer acção. Abrir a boca, ver a língua, falar. Anterior à fala, portanto, a boca que se abre e a língua que nela repousa e os demais órgãos que contribuem para que a palavra se faça gesto. O “actueur” é um actor em cena: «Devancé au devant de la scène il nous décorpa : «Où ?» (p. 9). Mais um neologismo, “décorpa” poderá aqui ser entendido como “cenarizar”. O que há de mais lúdico nesta escrita é esta (re)invenção permanente da língua, como se a sua materialização correspondesse a um movimento repetitivo de recriação que, tendendo para a extinção, a morte, a eliminação, o silêncio, projectasse no destinatário a sensação de algo que germina e, por germinar, está em movimento e, por estar em movimento, está sempre a deixar de ser o que era para se transformar numa outra coisa. Mais do que a verosimilhança, mais do que a realidade, mais do que a autenticidade ou a genuinidade - «Sans faire vrai» (p. 16), importa aqui sublinhar essa ideia de transmutação do imaterial no material, do pensamento na linguagem falada ou escrita, num corpo que, estando aberto ao mundo, está também condenado às suas próprias limitações, é um corpo perecível. O que mata então o actor? Neste caso, talvez mate a acção, isto é, uma ideia de acção, uma convenção de acção.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

ANNE CARSON SOBRE OS ANASAZI

 


Mesa Verde, Colorado

Os Anasazi eram os seus próprios reféns. As roupas eram simples, vestiam-se de fome e lamento. Movendo-se de lao ao longo das suas amargas varandas. As fibras de yucca abrem-se em fiapos ao vento de Inverno golpeando por aquele desfiladeiro abaixo. Nada sabemos deles a não ser factos. Comiam milho, feijões, abóbora e, de vez em quando, uma cebola verde selvagem. Cobriram a mesa com torres e túneis em padrões que ninguém consegue ler e periodicamente incendiavam tudo por uma razão que ninguém adivinha, por isso lhe chamam religiosa. Há alguns glifos. Os glifos são cortes na rocha. Os antropólogos interpretam-nos de maneiras que encaixam e se separam e se encaixam de novo. Eis aqui um glifo a que os antropólogos chamam Orfeu; segura numa mão um objecto semelhante a uma lira e o seu coração é feito de escarpas, com habitações nelas, muitas visíveis e algumas abandonadas. Estou parada a uma certa distância do imperador para o observar a gravar Orfeu. O amor vem esfomeando ao longo do desfiladeiro. Dar-te-á prazer se nele acreditares.

Anne Carson, in Águalisa - ensaios e poesia, tradução de Rui Cascais Parada, não (edições), Setembro de 2025, pp. 216-217.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

ESCRITO NA MARGEM

Levar a vida como uma construção inacabada, isto é, abandonada pelo caminho. À superfície, tudo surge interessante e excitante. O tempo encarregar-se-á de escavar os problemas, levando-nos até à raiz em que a saturação, o tédio e o cansaço medram. O encanto perde-se, então, e a gente afasta-se deixando o romance a meio. Kafka, Pessoa, Musil, Turner, etc...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ESCREVER COM IA

 
"O problema de escrever com IA é o enfraquecimento das capacidades mentais — oferece um elevador quando, na verdade, precisamos é de criar o hábito diário de subir escadas. À medida que se torna omnipresente, a IA mina não só a nossa capacidade individual de escrever, mas também o cultivo do raciocínio e a capacidade colectiva de raciocinar e de nos preocuparmos. Já estamos a lidar com o declínio bem documentado da leitura; a IA está a acelerar o declínio da escrita, conduzindo-nos mais ainda para aquilo a que Rose Horowitch, da revista The Atlantic, chama a nossa “era pós-alfabetizada”. (...) A relação entre literacia e democracia é bem conhecida: historicamente, as pessoas que sabem ler e escrever estão mais habilitadas a escolher e a defender os seus próprios interesses. O que acontece quando o processo se inverte? Quando as pessoas não têm paciência para absorver argumentos com mais do que algumas páginas ou frases? Quando lhes falta a capacidade de contrariar estes argumentos porque nunca melhoraram, através da prática diária, a competência mais essencial para um pensamento objectivo?"

Bret Stephens, no The New York Times.

DE DEZ EM DEZ

 
Aos dez andava debaixo da asa
a sonhar com altos voos
Aos vinte caiu-lhe o dente do juízo
e perdeu para sempre os três da alegria
Aos trinta já só lhe faltava plantar
uma árvore no meio do deserto
e esperar que, verde de ciúme, a árvore
lançasse sobre as nuvens chispas de mau-olhado
Aos quarenta deu o nó aos sapatos
e caiu na real depois de tropeçar nos sonhos
Aos cinquenta viu-se grego para chegar a Roma
Aos sessenta logo se verá
se entretanto a cegueira não clarear o mundo

terça-feira, 4 de agosto de 2026

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS # 41

 


No decorrer de uma conversa, dizemos muitas vezes: boa pergunta. Porém, raramente nos perguntamos sobre o que faz a pergunta ser boa. Talvez uma boa pergunta seja aquela que se responde a si mesma, ou talvez aquela que nos obriga a fazer mais perguntas, desbravando o caminho da dúvida e da interrogação, talvez a boa pergunta seja um paradoxo ou, pela clareza e pertinência, ponha o dedo na ferida, como as perguntas que raramente se colocam em cima da mesa e, por isso, os problemas arrastam-se indefinidamente. Eis uma pergunta: é possível colocar uma pergunta em cima de uma mesa? Uma boa pergunta pode ser, quem sabe, aquela que põe termo a uma discussão, aquela que abre uma discussão, a que solta problemas antes presos, a que revela o que estava recalcado ou, pelo menos, ajuda a vir à superfície o que mantínhamos imerso no inconsciente, uma boa pergunta pode ser uma pergunta inconveniente, pode desmascarar ou inflectir noutras direcções. O que é uma coisa?, perguntava Heidegger, para 300 páginas depois explicar que uma coisa é uma coisa. E, no entanto, não demos o tempo por perdido ao lê-lo. A história do pensamento jamais se faria sem perguntas: o que é a morte? a vida depois da morte existe? isto faz sentido? Deus existe? para onde vamos depois de morrermos? a liberdade, o que é? e o amor? Os diálogos platónicos partem sempre de perguntas e desenvolvem-se através delas, as perguntas são o combustível do pensamento na busca da verdade. O que é a verdade? Eis uma pergunta. Será boa? «O que é uma boa pergunta?», pergunta Augusto Baptista (1946) a páginas 37 do seu "EniGmatóGrafo" (Edições Húmus, Maio de 2026), vasto e generoso inventário de perguntas coleccionadas ao longo de anos no weblog “azul-canário”. São 221 páginas de perguntas, interrogações, enigmas que mostram, também, o discorrer dos dias, da história, do tempo, pois a pergunta acompanha o tempo em que se inscreve, como no conjunto final com a pandemia de Covid-19 em pano de fundo: «Se a pandemia é uma guerra, não se conseguirá negociar uma trégua, assinar um armistício?» (p. 221) Muitas das perguntas coligidas neste divertido volume aplicam-se na desconstrução de frases feitas, desmontando com graça e sentido de humor expressões populares: «Quem não tem onde cair morto morre de pé?» (p. 74) Saber fazer perguntas talvez seja uma arte maior num tempo cheio de respostas, as pessoas, por estes dias, parecem ter resposta para tudo. Ao contrário, raramente as vemos fazerem perguntas acertadas, as perguntas que devem ser feitas. Nas televisões, nas redes sociais, nas páginas dos jornais em que a doxa venceu a episteme, as perguntas raramente têm lugar, o palco é todo ele oferecido aos detentores de respostas, respostas que surgem sem o estímulo das interrogações, são invariavelmente formatadas por convicções pessoais, por crenças indiscutíveis, pela total ausência de reflexão crítica, pela ausência de diálogo e debate, porque isto é o que eu penso e, se é o que eu penso, logo não se discute. Eis o pensamento reduzido ao gosto, que, sendo discutível, quer o povo que não se discuta.. Ora, o que este "EniGmatóGrafo" demonstra é precisamente a comédia em que estamos atolados num mundo sem perguntas. Fá-lo por excesso, como convém quando em tempos de desmedida verborreia, sabotando a semântica, brincando com o aspecto gráfico das palavras - «Y: um T assaltado?» -, obriga amiúde o leitor a um esforço de compreensão do sentido da pergunta, obriga-o a parar, a reflectir, recorrendo ao nonsense e ao absurdo na busca desse efeito de suspensão introduzido pelo gesto lúdico de ressignificação. Às tantas, sentimos vontade de começar a responder às perguntas, mas logo o trocadilho, o divertimento, a farsa, nos ensina que estamos diante de um universo semelhante ao de uma criança diante da descoberta do mundo. As crianças fazem as perguntas mais inesperadas, como muitas destas que Augusto Baptista nos oferece: «O que é vencer na vida?» (p. 94), «Quando tiras sangue para análise, não sentes saudades daquela parte de ti?» (p. 97) Muitas perguntas revelam, não surpreendentemente, uma inclinação poética acentuada, como, de resto, o pensamento mágico na infância. Algumas dessas perguntas remetem-nos para a concisão, a capacidade de síntese, a precisão que conhecemos sobretudo na poesia oriental. «Como cabe a árvore na semente, o poema na palavra?» (p. 15), «Poema: um punho a abrir-se?» (p. 19), «Quantas lágrimas esconde um sorriso?» (p. 26), «Onde se agarram as árvores para treparem ao céu?» (p. 65) «Quanta luz mora por detrás de uma sombra?» (p. 79) E há ainda os desenhos, mais ou menos ilustrativos, as experiências gráficas ao tipo da poesia visual, num livro que é todo ele um compêndio de sabedoria sem ponta de exibicionismo, um livro contra este tempo mediático de respostas feitas, um livro que testa a resistência do leitor pela ausência de qualquer tipo de linearidade narrativa, um livro que nos indaga e inquieta por, de modo discreto, se situar nos antípodas da palavrosa mediocridade reinante. Uma pergunta: «Quantas pessoas passaram pelo planeta, cientes da grandeza da experiência que viveram?» (p. 155) Alguém tem resposta?

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ODE A ALEXANDRE O'NEILL

 
Contra o tédio predominante dos dias pequeninos
a blague na ponta aparada da língua mãe
Contra as vagas de tristeza a remoer na nossa direcção
a boutade que atravessa o leito de estiagem
Contra a cruz de insatisfação carregada no calvário da existência
a charge nas arenas redondas das cabeças quadradas
 
Para quê morrer vagarosamente
se a vida passa como um TGV por estações abandonadas?
 
A favor dos homens na terra
os ossos saturados de apatia
que estrumam extravagantes corolas de mel

MEDIANIA

 
Clara Ferreira Alves, em crónica assinada no Expresso, diz que estes são bons tempos para o humor político, os bonecos fazem-se por si. Falta é talento. Tem razão, ela que nem sempre a tem. Uma pessoa olha e pasma, das juntas às câmaras, da assembleia à presidência, é tudo tão medíocre que mete dó. Não há perspetivas de futuro, não há planos que se vejam, nem bons, nem maus, tudo empurra com a barriga e varre para debaixo do tapete, não há políticas que façam uma pessoa sentir: ora aqui está um rumo. Até podia não parecer o melhor, mas que houvesse rumo. É tudo conta corrente, gestão diária da popularidade, medidas avulso para agradar a gregos e troianos, capas e máscaras sob as quais a vidinha se vai organizando com os olhos postos na reforma. Ouvem-se os intervenientes na comunicação social, nas redes sociais, e sente-se vergonha alheia. Sigam o exemplo de Seguro, mantenham-se calados. Calados são autênticos poetas. É que de ouvi-los falar até dá medo, pensarmos nós que estamos entregues a tamanha vulgaridade, à mais boçal das ausências de pensamento, a esta enxúndia de víboras a morder víboras. Talvez a razão para isto seja mesmo a falta de vontade. Qualquer pessoa com dois dedos de testa dificilmente se mete na política hoje em dia, a não ser que pretenda sujar-se. Ficam por lá os cabeçudos, cheios de lata, indiferentes à ignominiosa falta de estro que nos assaltou.

domingo, 2 de agosto de 2026

BESTIÁRIOS

 
Os pássaros estão por todo o lado na poesia, tanto que cada vez que lemos "milhafre" o corpo todo boceja. De cães e gatos nem falemos, há até antologias, mais de gatos, a rosnar de tédio nas estantes das bibliotecas. Ramos Rosa escreveu sobre bois e cavalos, outras tauromaquias. O'Neill celebrizou a mosca e o cherne. Sobre vacas que apascentam também há muita coisa e desde sempre a figura do pastor acabou por oferecer protagonismo a cabras e ovelhas. O porco é uma estrela na história da literatura, tal como o burro, o lobo e toda a espécie de víboras, nem sempre pelas razões mais nobres. Salvé Platero. No imenso bestiário herdado da literatura universal, de monstros míticos a animais domésticos, passando por bestas selvagens, há imenso por onde escolher. Na infância, Tarzan dos macacos era um dos meus heróis preferidos, ele próprio metade selva, metade civilização, ainda que o factor mais impressionante fosse a capacidade de comunicar com os animais. Histórias como "Pedro e o Lobo" são já parte integrante do nosso imaginário colectivo, assim como as fábulas de Esopo que La Fontaine reinventou e Ambrose Bierce reescreveu. A formiga e a cigarra, a carochinha, toda a espécie de anfíbios. Elefantes, crocodilos, hipopótamos são um sucesso junto do público infantil. Os desenhos animados tornaram ratos, coelhos, coiotes e papa-léguas em autênticas vedetas da televisão. Um dos meus livros predilectos tem como protagonista um rato chamado "Firmin". Infelizmente, que eu saiba, nunca ninguém prestou atenção à pulga-do-mar. E tanto haveria a dizer sobre esta pulga que atrás das orelhas do mundo aguça a curiosidade das marés. Ao percebe tenho eu dedicado vários versos, todos eles desunhados à mesa.

sábado, 1 de agosto de 2026

PICKPOCKET

 
A moda dos pickpocket pegou por cá. Para quem não saiba, trata-se de uns tipos que andam a caçar carteiristas em flagrante. Agora até usam sprays de tinta para marcar os larápios como se fazia aos judeus na Alemanha nazi. Claro que filmam tudo, partilham nas redes, são deveras populares. Andam atrás dos carteiristas e apontam o dedo aos berros: pickpocket, pickpocket... Hoje, estava eu na Praia da Amália a mirar gaivotas, dei por mim a pensar como seriam úteis esses caçadores de carteiristas aos balcões das seguradoras, nas estações de serviço, nas agências bancárias ou até mesmo nos restaurantes que cobram 20€ por garrafas de vinho que compramos a 5€ num qualquer supermercado. Precisamos desses heróis onde eles são realmente necessários, onde nos roubam à tripa-forra sem vergonha e com consentimento. Infelizmente, os vídeos pickpocket só rendem quando os ladrões são pobretanas como as gaivotas atrás de migalhas.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

UM POEMA DE JOÃO RIOS

 


somos coisa sem nenhum mistério
valemos quase nada
atravessamos o corpo e caímos
caímos com vontade de nomes
que não ultrapassam a sua máscara
são pedra impotente do seu lugar
pedra que ninguém levanta
suas arestas são mais doentes
que as cinzas dos sonhos
sua substância é um grito desbotado
um fantasma enlevado por ausência de luz
ou uma qualquer vitualha de remissão

João Rios, in Estuário Inciso, Abysmo, Fevereiro de 2023, p. 288. 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

FILHOS & LIVROS

 
Seria incapaz de me referir aos meus livros como filhos. Há quem o faça, há escritores e artistas em geral que se referem às suas obras como os seus meninos, os seus filhos, as suas crias, etc. Tenho duas filhas, sei a diferença entre ter um filho e escrever um livro. Nos diários, a certa altura Torga comparava o acto de escrever a parir. Só pode ser porque nunca pariu. Um homem que escreveu tanto, imaginem o que terá sido aquela vida em trabalho de parto incessante. Uma vez perguntaram-me se senti um murro no estômago ao ler "Debaixo do Vulcão". Era para uma coisa do Público dedicada à reedição da obra. Respondi que já tinha levado um murro no estômago e a sensação não era de todo comparável à leitura de um livro. Bem sei que tais expressões não são para levar à letra, são meras hipérboles. Mas um filho. Um filho, não. Não é sequer obra nossa, apenas em parte nos deve a existência a que se agarra ou não pela vida. Um filho não é coisa que se escreva ou desenhe, não é um projecto nosso, é arquitectura emancipada que, tendo qualquer coisa de nosso, ganha vida própria e liberta-se e segue sozinho como nós tivemos de seguir. Sozinho não é isolado, é autónomo, independente, isto é, condenado a si mesmo, responsável pelas suas próprias acções. O livro faz-se, os filhos vão-se fazendo. Os livros não te pedem pão na mesa, são para ser comidos. Vá lá que sejam pão. Nunca suportei progenitores paternalistas e filhinhos agarrados às saias da mãezinha, enrolados em cordões umbilicais que trazem ao pescoço como coleiras. Esses talvez se assemelhem mais a livros, a obras, a coisas inanimadas, a objectos, a utensílios, ainda que nesses casos os livros possam ter mais vida própria. Não, meus filhos é que os meus livros não são. Quem quiser que os crie.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

LUGARES

 
Na verdade, mais do que os livros e o conteúdo neles fixado, lembro-me de atravessar a Lagoa de Óbidos às cavalitas do meu pai. E dos verões na Sobreda, em casa de uma tia que me levava a comer Bolas de Berlim na Costa. Recordo a água gelada e o imenso areal da Figueira, a neblina em Peniche, as primeiras experiências de liberdade na Nazaré. E incursões de carro por Madrid, Bilbau, Vigo... Depois, São Martinho do Porto sem relógios nem mapas. Mais do que os versos, as frases, as palavras decompostas em sons e imagens, o significado do mundo na ausência de sentido, os lugares colam-se-me à carne como lapas na rocha.

terça-feira, 28 de julho de 2026

PEQUENA POÉTICA DA INSURREIÇÃO

 


FÁBRICA RIMBAUD/1
 
Ó contos de fadas fechados em fábricas cinzentas!
[Georg Trakl]
 
Também eu empurro, como me compete, os limites que um dia conjurei, as ordens que desabam, as leis que apodrecem, a auto-piedade das nações, a calmaria imaginada antes de a decadência fermentar enegrecidamente, mas consigo atravessar a chuva de loucura e confusão,
quem te mostrou como ser tão arrogante, contra todas as correntes, mesmo antes de viveres a última ambiguidade às três da madrugada, o berço da minha humilhação – a merda de pássaro está claramente no teu campo
 
Chega de espectáculos, de temporada para temporada, não sinto falta de nada
- ah sim, a saudade dos bons poetas de arma na mão.
Gógou e Pasolini :: Anna Mendelssohn, Miyó Vestrini
e nos traumas fantasmagóricos desenvolvo a minha devoção
de mil espécies de raiva e fogo e conflagração,
dos tormentos da minha alma :: fuga, arroubos e sonhos migrantes
:: A burguesia foi há muito globalizada.
 
Peter Bouscheljong, Pequena Poética da Insurreição, tradução de António Gregório a partir da versão inglesa, capa de André Lemos e Sara Mealha, Barco Bêbado, Novembro de 2024, p. 99.

GRANDES PENSAMENTOS

"Eu até gosto de bolos secos, têm é que estar um bocadinho húmidos."
Matilde Fialho

RAOUL VANEIGEM (1934-2026)

 


Diz Eduarda Neves:
 
«Morreu Raoul Vaneigem. Já quase não existe quem denuncie a pobreza da vida quotidiana. Não é de bom tom e sinaliza um certo desequilíbrio de quem o faz. Não é boa companhia, portanto, e o capitalismo é tolerante, inclusivo e terapêutico. A esclerosada realidade do dia a dia sob o império dos influencers que se reproduzem em todas as dimensões da existência, incluindo a da arte, converteu-se numa das mais subtis modalidades da humilhação. Não falta quem queira ser um manipulador disponível para influenciar seja quem for. Quem quer estar sujeito à influência de tanto idiota que recorre a marketing sentimental estratégico para nos persuadir através do recurso a um suposto bom carácter e sinceridade comunicacional? Nem a modernidade conseguiu edificar tanto projecto salvífico de emancipação! Até o mínimo sentido crítico se tem vindo a tornar uma forma da mendicidade. Estes vendedores parasitas que apregoam o obsceno lazer mental — verdadeiros gangues organizados de negociantes — prometem libertar a humanidade de todas as amarras — as da guerra, do dinheiro, do mau sexo, do casamento, da política, da escola, das más influências, do mau gosto, da poluição, das instituições e do mundo em geral. Tanta piedade nesta ordem fictícia, diria Nietzsche. Perguntam eles: quem?»

segunda-feira, 27 de julho de 2026

DREAD

 
O jovem das rastas quer saber porque ainda não me mudei. Em Lisboa uma pessoa já nem a própria língua consegue falar, diz a sorrir para a namorada espanhola. Está interessada no que ando a ler. Começo a listar-lhe livros que andaram por estas terras: "Cem anos de solidão", "O vermelho e o negro", "Debaixo do vulcão", "Moby Dick", "A montanha mágica", "Fome", "A vida e opiniões de Tristram Shandy"... São muitas línguas, diz ela enquanto prepara o açaí. Ele parte disparado na prancha de skate. Lá fora, por momentos, parece-me que também a estátua do percebe ficou a modos que dread. 'Tás a ver?

domingo, 26 de julho de 2026

TRÍPTICO PARA INFLUENCERS

 
1.
A árvore é a casa do pássaro
a árvore é o pássaro da casa
A casa é a árvore do pássaro
a casa é o pássaro da árvore
O pássaro é a árvore da casa
o pássaro é a casa da árvore

2.
Nesta casa há beirais
que toldam ninhos
e há um limoeiro
onde crescem sóis
Há também um pequeno lago
em que as palavras se afogam

3.
À volta do pássaro morto
uma nuvem de formigas
trabalha incansavelmente
Eis o mundo resumido
hoje pela manhã

(Rogil, 2026)

GRANDES TEMAS

 
Escolha o grande tema do dia:
1. Influencers portugueses visitam Gaza a convite de Israel
2. Joana Marques versus Mafalda Matos
3. Assalto ao gabinete de André Ventura
4. Bombeiros portugueses salvam cão nos incêndios de Espanha
5. Preço das respostas classificadas e dos exames reapreciados
6. Imigração em Ceuta
7. A Odisseia, de Christopher Nolan
8. Isto hoje ainda vai abrir

sábado, 25 de julho de 2026

DESFOCADO

 


Desfocado ao longe
enublado ao perto
claramente
só para dentro vejo
de olhos bem fechados