segunda-feira, 29 de junho de 2026

UMA CRIA

 
Entalado entre as tiras dum tapete de alumínio
a cria caída do ninho bate insistentemente as asas
tentando sobreviver no hostil universo dos homens
Fico a olhar para aquele ser frágil e inofensivo
sem saber qual o melhor procedimento
Devolvo-a ao ninho ou deixo que a natureza se cumpra?
É da natureza das crias caírem dos ninhos
mas será natural ficarem entaladas entre tiras de alumínio
como criminosos condenados por crime nenhum?
Que crime cometeu aquela criatura? Tentar voar?
E enquanto rastejo em cogitações inúteis
a desafortunada ave perece sem ninho nem voo

(Vila Real.)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

MÃE DO OUTRO LADO DO ESPELHO

 
Escuro. A luz sobe muito lentamente sobre uma figura central. A pouco e pouco, apercebemo-nos de uma mulher idosa em cena, sentada numa poltrona grená, a segurar um búzio junto a um dos ouvidos. Ao lado da poltrona, repousa uma cana de pesca.

Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
26 de Janeiro de 2021. Não recordo há quanto longe minha mãe morreu.
Esqueci-me do som da sua voz. Guardas a voz de minha mãe?
Mal a compreendo no reflexo das águas do meu tempo, parece-me tudo tão vago, não há um único contorno definido, definitivo.

A mulher pousa o búzio no chão. Pega na cana de pesca e lança o fio na direcção do público.

Mãe, onde estavas quando eu morri?
Ouviste-me gritar enquanto me vestiam aquelas roupas idiotas e pediam que posasse para a fotografia com um crucifixo nas mãos? Terás escutado as minhas preces?
O padre Armando dizia: com dois pais nossos e três avé-marias isso passa.
Ajoelhei-me logo ali, à saída do confessionário, e rezei na esperança de que me ouvisses. Mas tu não ouviste, estavas demasiado atenta aos pormenores para que pudesses ouvir-me.

O fio da cana de pesca treme.

O quê?
Quem és tu que mordeste o isco invisível das minhas dores?
Desculpa, mãe, tu não tens culpa pelas minhas culpas.
És tu, peixe da minha infância?

A mulher gira a manivela, olha o anzol, sorri.

Vês mãe, continuas sob o reflexo das águas, invisível como sempre. Não há meio de morderes o isco.
Seremos o isco do tempo, mãe?
Eu rezo, eu oro, suplico, imploro: olha para mim.

Volta a lançar o fio na direcção do público.

Só queria que olhasses para mim, não que olhasses por mim, bastava-me que olhasses para mim. E que visses, que dissesses qualquer coisa, que por um momento te aproximasses medindo as bainhas das avé-marias e dos pais-nossos com que era suposto limparmos o corpo.
Ouves-me no reflexo das águas?
Vês-me no silêncio dos búzios?
Voltei-me para o mar à espera de ser salva por um naufrágio, de uma baleia que me engolisse e vomitasse, de um silêncio que me calasse. Agora estou velha, não digo coisa com coisa, não penso coisa com coisa, não faço coisa com coisa. Tenho a tua ausência dentro de mim e o homem de saias continua a dizer-me: reza que isso passa.
E eu rezo, mas não passa, não há meio de passar.

O fio da cana de pesca treme. A mulher gira a manivela, observa o anzol, sorri.

Nada.
Ninguém.

A mulher morde o isco, gira a manivela, tenta pescar-se a si mesma. Gira a manivela sem parar, luta consigo própria, puxa-se, resiste a si mesma, cospe o isco, larga a cana, senta-se exausta. Acalma a respiração. Passa algum tempo em silêncio. Volta a pegar no búzio, retomando a posição inicial.

Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
Já não me recordo há quanto longe morri.
Esqueci-me da cor da minha voz. Esqueci-me do som da minha pele.
Guardas a pele de minha mãe?
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
Podes repetir?
Eu rezo e não passa.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

AMOR BABÉLICO

 
Camões, escuta, amor aos livros são salas de espectáculos cheias. Ouviste, Pessoa? Amor aos livros é lotação esgotada. Kafka, aprende o que é amor aos livros: fes-ti-val. Estão a ver, seus otários? E tu também, Van Gogh, amor à pintura é bicha para te ver em espectáculo imersivo. Deixem-se de merdas, amor aos livros é: bilhete para sócios, gamebox, pão e circo, o Coliseu à pinha. E o resto que se quilhe, quem quiser que os leia.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

FASCISTAS DE ESQUERDA

 
Os fascistas de esquerda estão preocupados
com a cor dos sapatos
com o tamanho da fonte
com a hierarquia dos apelidos
com abreviaturas e extensões
com acrónimos e títulos
com o número da reserva
com a posição na bicha
com o posicionamento central
com a justificação das margens
com a fotografia de perfil
com convites e dedicatórias
com a sensível selecção de prioridades
com o tratamento
com a ordem do serviço
com o cocktail de fim de tarde
com o número de estrelas
com as unidades de medida
com o rigoroso cumprimento dos protocolos
com a mosca na sopa
e também com as assimetrias neste mundo
cada vez mais inadmissivelmente desigual

terça-feira, 23 de junho de 2026

 
Poesia ao poder não é o mesmo que poesia no poder ou poesia com o poder ou poesia de braço dado com o poder ou poesia ao colo do poder ou poesia do poder ou poesia de entrada com escabeche ou poesia cocktail de fim de tarde... Enfim, saudades da poesia na rua é o que é.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

AOS QUE PARTIRAM

 
Hoje é em vós que penso
Vem não sei d'onde nem porquê
esta nostalgia dos corpos desaparecidos
esgares envoltos em neblina
vozes que por vezes 'inda ouço
mas chegam-me agora sem rosto
 
Perdoem-me o sentimentalismo
mas é mesmo num leito de melancolia
que mergulho em busca de vestígios
memórias vagas de momentos passados
e então a tristeza muda de cor
como um réptil à passagem do tempo
 
Dentro da cabeça zunem os insectos
imagens projectam-se no escuro
e há corpos a caminhar sobre as águas
tornando presente o último abraço
a mensagem derradeira
falhas irredimíveis à espera de silêncio

domingo, 21 de junho de 2026

GENEBRA

 
Alguém sabe como está a vida em Genebra? Já recuperaram das escolas destruídas, dos hospitais em ruínas, das zonas habitacionais em cinzas? E dos jornalistas assassinados, dos médicos executados, das crianças, dos velhos, das mulheres e dos doentes exterminados? Alguém pode dizer se Genebra ainda existe? Estou preocupado, os extremistas da extrema-esquerda andavam a destruir aquilo tudo. Terá sobrado alguma coisa? Não deviam a RTP, a SIC, a TVI, a CNN, a CMTV, o Now agendar uma entrevista exclusiva com André Ventura para nos esclarecerem sobre o massacre em Genebra?

sábado, 20 de junho de 2026

SÍSIFO

 
B observa A a dormir. A acorda.
 
A: Não dormi nada.
B: Pareceu-me que estavas a dormir.
A: Nada, absolutamente nada.
B: Nem um bocadinho?
A: Nada.
B: Nem um segundo?
A: Nada.
B: Nem uma fracção de segundo?
A: Nada.
B: Pareceu-me que estavas a dormir.
A: Estava só de olhos fechados.
B: Sim, estavas de olhos fechados. Só.
A: A tentar adormecer. Só.
B: Estive a observar-te. Estiveste longas horas de olhos fechados.
A: Só a tentar adormecer.
B: Nem pestanejaste.
A: Estava à espera.
B: À espera de quê?
A: À espera de adormecer.
B: Esperaste longas horas pelo sono.
A: Esperei?
B: Eu vi-te à espera. Estive a observar-te.
A: Não foi pelo sono que eu esperei, o sono chegou. Não consegui foi adormecer.
B: Entendo. Estavas com sono, mas não conseguiste adormecer.
A: Isso mesmo.
B: E então esperaste de olhos fechados.
A: Esperei de olhos fechados para me libertar do sono. Só queria dormir para me libertar do sono.
B: Mas não conseguiste.
A: Não, continuo a carregar o sono.
B: Como um fardo.
A: Isso, como um fardo.
B: E o sono pesa muito?
A: Sim, sonhei que o sono pesava muito.
B: Sonhaste?
A: Sonhei.
B: Se não dormiste como é que sonhaste?
A: Sonhei acordado, mas de olhos fechados.
B: Deliraste?
A: Não, sonhei acordado.
B: Imaginaste?
A: Não, sonhei acordado que sono pesava muito.
B: E depois?
A: Sonhei que carregava com o sono, que o sono pesava, era um fardo, era só um fardo, e eu ora fechava os olhos, ora abria os olhos, mas não me libertava do sono, carregava com ele às costas, os ombros pesavam-me, carregava com ele aos ombros, e o sono pesava, os ombros pesavam-me, o sono pesava cada vez mais e eu carregava.
B: Quanto pesa o sono?
A: Pesa muito, pesa imenso.
B: Talvez possas libertar-te dele.
A: Como?
B: Largando-o num lugar qualquer.
A: E como é que eu poderei largar o sono num lugar qualquer?
B: Varrê-lo dos ombros, largá-lo das costas.
A: O sono pesa dentro de mim.
B: Então esvazia-te.
A: Está na minha alma.
B: Desfaz-te da alma.
A: Está na minha cabeça.
B: Corta a cabeça.
A: Corto a cabeça?
B: Sim, corta a cabeça.
A: Entendo. Se me decapitar, então perderei a cabeça. Logo, decapitarei o sono.
B: Isso, liberta-te do sono, liberta-te da tua cabeça.
A: Não sei se será boa ideia.
B: Mas afinal o que preferes, continuar a carregar o sono?
A: E depois?
B: E depois o quê?
A: Depois de cortar a cabeça seria o fim, nem sono, nem cabeça, nem ombros nem costas, seria o meu fim.
B: Seria uma leveza.
A: A ausência de peso.
B: Finalmente adormecerias, finalmente o sono iria à vida dele.
A: E eu à minha.
B: E tu à tua.
A: Acho que vou fazer isso.
B: O quê?
A: Cortar a cabeça.
B: Eu continuarei a observar-te, continuarei aqui a observar-te, não te preocupes, logo te direi coisas.
 
B observa A sem cabeça. A acena com os braços.
 
B: Então, dormiste?
A acena com os braços.
B: Sim ou não?
A acena com os braços, percebe-se que a resposta é negativa.
B: Caramba, nem sem cabeça conseguiste adormecer?
A acena com os braços, percebe-se que a resposta é afirmativa.
B: Nesse caso, talvez possas livrar-te dos braços.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Seria complicado?
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Pois claro, estou a ver, com dois braços só conseguirias desfazer-te de um.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Absolutamente, tens toda a razão, só com um braço não é certo que conseguisses adormecer.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Queres que eu te corte os braços?
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Só um braço?
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Mas eu não posso fazer isso.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Nem pensar, isso não.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Porra, que pesadelo, não, já disse que não, nem pensar, isso é que era bom, eu não vou cortar-te os braços.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B vai-se afastando sorrateiramente.
A acena com os braços, não pára de acenar com os braços, continua a acenar com os braços.
B desaparece.
A acena com os braços.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

SILÊNCIO

 
A que preço está o silêncio? Andamos nas ruas envoltos em ruído, sentamo-nos numa esplanada e levamos com ruído, os jardins ficaram ruidosos, estão sempre em festa, nas praias já não há sossego, há colunas e partys, o ruído persegue-nos, até em casa levamos com o ruído dos arraiais, públicos e domésticos, o ruído impõe-se por todo o lado. Portanto, se quisermos silêncio teremos de pagá-lo numas termas, num centro de spa, no hotel cinco estrelas. O silêncio está caro. Queres silêncio? Paga. Ou atira-te ao mar, mas cuidado com as motas de água.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

POR DETRÁS

 
Por detrás da acção esconde-se o motivo
por detrás do motivo esconde-se a intenção
por detrás da intenção espreitam as palavras
Por vezes as palavras são acção
Noutras ocasiões as palavras são refúgios
Muitas vezes as palavras são esconderijos
onde as acções se recolhem
os motivos se ocultam
as intenções se dissimulam
para que por detrás das palavras
permaneçam as feridas
que fragilizam egos escondidos nos corpos
Por detrás dos corpos escondem-se histórias
Só as palavras revelam as histórias
Pelo que por vezes não há palavras
Noutras ocasiões as palavras não são as certas
e quando são as certas quase sempre escondem silêncios
Por detrás das histórias escondem-se os silêncios
Por detrás dos silêncios crescem os vícios
Vícios e virtudes são palavras
mas só as acções revelam os vícios e as virtudes
porque por detrás dos vícios e das virtudes repousam escondidos os motivos e as intenções das palavras em acção
Por detrás da morte esconde-se o esquecimento
O esquecimento fala muito
O esquecimento é ruidoso
Não há silêncio no esquecimento
Por detrás do esquecimento esconde-se um dicionário inteiro
de palavras adormecidas
Há muito sono por detrás do esquecimento
Por detrás da memória só há insónia

quarta-feira, 17 de junho de 2026

CORRIDA DE GALGOS

 
Esta noite sonhei que estava a assistir a uma grande corrida de galgos, caninos de perna longa e esguia, treinados para serem os melhores, altamente competitivos, autênticas máquinas de eficácia. O tiro soou, as portas abriram e os galgos desataram numa correria ávida e desenfreada atrás de um coelho, um coelho verdadeiro. Acontece que o láparo reparou num campo de cenouras ali ao lado. Parou, esgaravatou e começou a roer uma cenoura. Os galgos quedaram incrédulos, pretendiam competir, era preciso que o coelho corresse, mas o coelho estava mais interessado nas cenouras. Os galgos não corriam atrás do coelho para o caçar, corriam atrás do coelho para serem os primeiros a ultrapassar a meta, a ganhar medalhas para satisfação dos donos, e agora aquilo, um coelho que não corria, um coelho que os impedia de serem geniais. Sob protesto geral, lá se arranjou um coelho mecânico para que os galgos pudessem ser magníficos, excepcionais, os melhores. Eu ria, ria, ria imenso a observar o coelho verdadeiro, refastelado no campo de cenouras enquanto os totós dos galgos se esforçavam para alcançar o coelho mecânico. Já só queria saber do coelho verdadeiro, o papa-cenouras, desinteressei-me dos galgos, era cansativo olhar para eles a correrem com a língua de fora até caírem para o lado de cansaço. Acordei com uma barrigada de riso, uma dor nada onírica, de facto real, de um riso alaranjado de cenoura mascada.

terça-feira, 16 de junho de 2026

LIXO EM CHAMAS

 
Tanto comentador indignado com caixotes do lixo e carros a arder em Genebra, tantos jornalistas a encher a boca com grupos de jovens radicais de extrema-esquerda, horas e mais horas em directo diabolizador. Na Irlanda do Norte prossegue o pogrom, Gaza são cinzas, o Líbano foi invadido, na América continua o mundial da vergonha... O ICE pode perseguir, torturar e matar, Netanyahu pode exterminar, nas televisões os cúmplices do genocídio têm antena sem contraditório, queimar carros e baldes do lixo é que não pode ser, que horror. Vendam já a RTP ao Ventura, vendam-lhes o mundo inteiro, será o paraíso na Terra.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

CONGROSSOS

 
Esta noite sonhei que tinha organizado um congresso de congressistas. A sala estava cheia de pessoas que passam a vida em encontros a falar para o boneco, que, no meu sonho, era uma vasta plateia de congressistas, todos com cara de manequim em montra de estabelecimento falido no centro histórico da cidade. Falavam para o boneco sobre o sexo dos anjos, apresentando power points, isto é, pontos poderosos do tipo ponto de exclamação travestido de herói da Marvel, ponto de interrogação que mais parecia a mulher maravilha ou super mulher ou lá o que era, ponto final com cara de reticências. Neste congresso de congressistas, a certa altura houve um intervalo para café, ou seja, um coffee break, em que os oradores que oravam para outros oradores puderam trocar impressões sobre o clima, a selecção nacional e a temperatura ambiente. Também houve uma sessão de networking com vários congressistas a desfiar novelos de lã, exercitando ponto de cruz antes do drink de fim de tarde, mais propriamente dito intervalo para copos e acepipes. Alguns pontos de interrogação cortaram na casaca de um ponto de exclamação antes de regressarem às reticências. No final, depois das conclusões inconclusivas, as pessoas-manequim foram para casa com a sensação de dever cumprido em mais uma reunião para reunir sem nada concretizar. Levaram de recordação um saco de plástico com uma esferográfica bic azul e as centrais do Correio da Manhã (patrocinador do grande congresso de congressistas profissionais). Tinham falado, tinham orado, tinham obrado e os croquetes até não era maus. Eu despertei com a boca seca.

domingo, 14 de junho de 2026

PRAIA DOS SUPERTUBOS

 
Como tornar claro junto de alguém a ignorância que impede ver para lá do que se julga certo? Pessoas cheias de certezas são, geralmente, as menos informadas ou, pelo menos, as menos predispostas a aprender, isto é, a pôr em causa o que se supõe inequívoco. É um esforço tremendamente ingrato tentar demonstrar a alguém a fragilidade das suas convicções inabaláveis, pois acabarão por te julgar pretensioso, tomar-te-ão por arrogante ou convencido quando, na verdade, só pretendes dizer: desconfia de ti, tal como eu desconfio de mim. À desconfiança, preferem verdadeS coladas com cuspo, certezas fundamentadas em percepções subjectivas, historietas. Esses que demonstram ter pânico do silêncio e, por isso, não se calam com o relato das suas experiências pessoais, convencidos de que a verdade se alicerça nessas experiências, reduzindo o mundo ao que experienciaram, recusando ver para lá da ponta do próprio nariz.

sábado, 13 de junho de 2026

O ARTISTA

O artista, a artista, o espectáculo, puta de palavra que me irrita cada vez mais, a pose, a fotografia, a entrevista, o nome, em gordas, please, li no Pontalis que os livros deviam ser todos publicados sem nome de autor, cita alguém, não me lembro de quem, fica ideia sem nome, são as melhores, porque, ai, o autor, os autores, páginas e mais páginas cheias deles, com fotografias, muitas, imensas, inúmeras fotografias, e letras garrafais, e lantejoulas, e néones, e palmas, claro, muitas palmas, bravos e bravíssimos lançados com perdigotos na direcção do proscénio, da mesa redonda, nunca esquecer que o bravo vem acompanhado de cuspo, a matéria sensível do escarro, bravos são escarretas, portanto aplausos, luzes, muitas luzes, cartazes, currículos, olhem para mim aqui, tão genial entre génios, ao pé de mim Homero nem homem foi, foi um erro, foi um homem erro, homerro, por corrupção ficou Homero, percebem, agora eu, eu assino, eu autografo, eu cá sou bom, tenho penas, levanto voo nas festas, nas feiras, nos festivais, sou um tapete voador com aladinos de pés chatos, pés de atleta comidos por vermes, sou um tapete voador onde limpar os pés, sou um colchão, alguém se deita em cima de mim e faz o amor ao ritmo das penas, são de pavão, de galaró, de capão, amor capão é que é, e eu a ler sozinho mais um Rimbaud Rembrandt enquanto van grogo girassóis domesticados, nunca ninguém perceberá que aquilo vem dos índios, foram os selvagens que domesticaram os girassóis, é preciso dizê-lo para que percebam e, em percebendo, fazem-se entendidos, mas ó miséria, nem a ponta do nariz conseguem tocar com a língua que dizem pátria, limpam os pés, descalçam-se à entrada, é triste, um desconsolo, valha-nos o silêncio da garrafa vazia que olha para nós no umbral da janela.