antologia do esquecimento
segunda-feira, 2 de março de 2026
ALMOCREVE
domingo, 1 de março de 2026
OS BONS ASSASSINOS
IRAQUE 2.0.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
BONS EXEMPLOS
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
SE NÃO ESPALMAR, FICA SOLTO
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
NO MEU TEMPO
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
MUSEUS DE OSSOS
Vem no Expresso. A fotografia é excelente, a legenda é óptima. E eu fico cheio de ideias. Por exemplo, roubar ossos para os traficar como se fossem um Van Gogh. Ou abrir um museu de ossadas. Ou, numa acção pelo clima, soltar uma matilha de cães esfomeados sobre os ossos. Ou levar alunos de artes em visita de estudo, largar "conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." sobre o chão e dizer: "vá, agora copiem".
REUNIÃO DE TRABALHO
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
DÚVIDAS
TUDO É MUITA COISA
Rui Costa sobre Prestianni: "Posso garantir que ele é tudo menos racista." Já Quitéria garante que um dos maiores problemas da humanidade é as pessoas não se darem conta dos disparates que dizem.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
ADIANTE
domingo, 22 de fevereiro de 2026
AS AVENTURAS PERDIDAS
sábado, 21 de fevereiro de 2026
REVOLUÇÕES
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
MULHERES AO PALCO
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
UM FILME
Um filme: Valor Sentimental (2025), Joachim Trier (Noruega, 1974). Será alguma coisa ao Lars von Trier? Belo filme nos ofereceu com um dos actores fetiche do segundo: Stellan Skarsgård. Como fixar o nome do sueco? O mesmo problema com o dinamarquês Mads Mikkelsen. Tudo gente que me tem oferecido horas de infindável deleite. Tão diferente de Cão Preto (2024), do chinês Guan Hu, Valor Sentimental é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. A relação distante entre um pai cineasta e uma filha actriz de teatro, aproximada pela perda no interior de uma casa de família por onde passaram várias gerações. Uma história de família que é mais do que uma história de família, é também metacinema, criação, com o tema do suicídio presente de um modo subtil mas profundo. Tenho de colar este nome à memória: Stellan Skarsgård. Serei capaz?
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
SUBSERVIÊNCIA
O ponto de partida poderiam ser os dois versos de Almada
sobre Camões, o poema de Sophia, a tença, ou as acusações de Joaquim Manuel
Magalhães a propósito de Ruy Belo, talvez os lamentos de Tolentino, os esforços
de Francisco Rodrigues Lobo ou as sujeições de Camilo, a precariedade eterna do
escritor profissional, o que é isso?, os leitores em escala reduzida, os
intermediários na produção, a distribuição deficiente, este eterno amadorismo,
o mercado do livro a partir do século XVIII, fenómenos de popularidade versus
legitimação académica, o Pessoa praticamente desconhecido à hora da morte,
entretanto convertido em capa de sabonete, as feiras, os festivais, os saraus e
os serões, toda essa parafernália de encontros que desencontram, a
monopolização do mercado, as medidas avulsas, as bibliotecas, a míngua, a
segunda actividade, a eterna subjugação do ímpeto criativo à necessidade de
sobrevivência.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
SELECTIVO
Cada vez menos preocupado com as expectativas, esforço-me
por responder ao solicitado com o desinteresse de quem segue uma rotina. A
capacidade para registar nomes, factos, diminuiu com o tempo, o espaço que
sobra à memória fustigada é diminuto. O método passa por não atribuir relevância à maioria das coisas que nos vão acontecendo, àqueles livros que
lemos para passar o tempo, aos filmes, às peças, às exposições, a esses
milhares de páginas com nomes e títulos que vão pesando, de dia para dia, sobre
os ombros curvados de um corpo que se inclina cada vez mais para o chão,
apoiando-se nas moletas que são pilares ou faróis inseparáveis. E depois,
ouvir-me na boca dos outros nunca me agradou particularmente.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
FRAGMENTO DE UMA PEÇA
ALGO OU ALGUÉM (retomando) Desde criança, Marcelo sempre gostou de contar e ouvir histórias. Era a sua parte favorita de conhecer outras pessoas. Que histórias teria para ouvir e descobrir daquela pessoa que estava a começar a conhecer? E como reagiria essa pessoa às suas histórias? Mas começou a perceber que este entusiasmo não era partilhado consigo. As pessoas gostavam de contar as suas histórias, mas nem sempre de ouvir as que MArcelo tinha para contar. Além disso, Marcelo também foi progressivamente reparando num padrão, e notou que, em situações de stress e ansiedade, as pessoas iam sempre ter consigo e desabafavam. E parecia que era o único momento em que se interessavam por ele. Foi num desses dias, enquanto ouvia a história de um recém-conhecido, que um pensamento assolou Marcelo: «Eu sou um candelabro humano.» E esta conclusão deixou-o apavorado e a sentir-se profundamente sozinho. «Eu estou aqui, pronto para ajudar e cuidar des outres, mas sem nunca me perguntarem como estou e o que sinto. Então, só posso ser um candelabro, e a minha função é iluminar a vida das outras pessoas, fazendo algo muito simples - apenas escutar.» Nesse silêncio, e sem a possibilidade de expor às outras pessoas aquilo que sentia e pensava, issos eria algo que ficaria para sempre dentro dele e que um dia o poderia entupir e ter consequências devastadoras; mas, até lá, ele iria apenas escutar. Isso faria com que deixasse de existir? «Se eu sinto, penso, mas não comunico nem mostro nada disto a ninguém. Será que isso significa que deixo de existir?»
Mário Coelho, da peça Tulpa, in PANOS - Palcos Novos Palavras Novas, Teatro Nacional D. Maria II, 2025, p. 59.
PEDRAS NO CAMINHO
O que era para ter sido mas não foi, o que será mas não é, o
começado interrompido, o que é para ser assim mas depois era para ser assado, o
que faremos mas não concretizamos, o vamos fazer que outros façam, as
convocatórias desconvocadas, a suspensão, a eterna e descontinuada suspensão, o
diz que disse, eu não disse isso, a truncagem, o desdizer, o adultério, as explicações
pela metade, a tresleitura, o cansaço e a saturação trazida pela incapacidade
de organização, a interrupção que impede o fluxo do pensamento, que obstaculiza
o trânsito que vai da cabeça à mão.




