antologia do esquecimento
quinta-feira, 16 de julho de 2026
ASAS DE CERA
quarta-feira, 15 de julho de 2026
terça-feira, 14 de julho de 2026
BESTIÁRIO VISIGODO
De focinho na ponta da cauda
o leopardus tigrinus asperge com urina
o próprio rastro
para não se perder de si mesmo
nas patéticas digressões empreendidas
no matagal daninho da memória
segunda-feira, 13 de julho de 2026
COME PALHA
domingo, 12 de julho de 2026
NARCISISMO PÓS-MODERNO
Esta noite sonhei que estava a fazer um vídeo de mim próprio enquanto tirava uma selfie a ver-me a um espelho reflectido nas águas paradas de um rio. Acordei com uma fortíssima sensação de enjoo.
sábado, 11 de julho de 2026
DESCOBERTA
sexta-feira, 10 de julho de 2026
POETA-CAMALEÃO
Onde está o Poeta? Mostrem-no! Mostrem-no,
quinta-feira, 9 de julho de 2026
PANDEMÓNIO
quarta-feira, 8 de julho de 2026
PROJECTORES
cortem a electricidade
O meu lugar é na sombra
por detrás dos candeeiros
o mais distante dos holofotes
Que a noite me proteja
de luas e de sóis resplandecentes
Venham nuvens
levem-me convosco para refúgios
de paz e de silêncio
onde nem relâmpagos nem trovoadas
atraiam atenções indesejáveis
Devolvam-me ao útero sossegado
das casas sem nome
dos nomes sem efeito
da respiração anónima das moradas
mais remotas
Devolvam-me ao deserto dos anacoretas
onde aprendi a dizer: vida
terça-feira, 7 de julho de 2026
FUNERAL
Esta noite sonhei que estava num funeral. Ao contrário do costume, fui espreitar as trombas do morto. Digo trombas por ter sido tal como o sonhei, o defunto fora mesmo trombudo em vida, aquele tipo de gente que atravessa o paraíso apontando defeitos à perfeição. Para meu espanto, o trombudo estava sorridente dentro do caixão. E os olhos dele falavam. Finalmente a rir em morto, sozinho, encerrado no interior mais fundo de si mesmo, sem nada nem ninguém que lhe lamentasse a partida, para ali abandonado como animal na berma da estrada, só comigo por perto para lhe espreitar as trombas, o cadáver dizia: aqui é que se está bem. Repetia isto incessantemente: aqui é que se está bem, aqui é que se está bem, aqui é que se está bem. Respondi-lhe “bom proveito” e voltei-lhe as costas, isto é, acordei.
segunda-feira, 6 de julho de 2026
ÁCIDO
domingo, 5 de julho de 2026
EPÍSTOLA
Escrevo-te para que saibas
quanto a noite continua noite
de madrugada há quem recolha o lixo
pela manhã passeiam-se os cães
no escuro as gaivotas dão descanso ao céu
por vezes chove
o vento nada traz de novo
e o sol repete-se por entre nuvens instáveis
e eu entretenho-me a fazer abecedários
de cidades por visitar
de pintores obscuros
de canções antigas
repito os nomes que não quero esquecer
recolho-me em silêncio a desenhar baratas
passo a mão pelo pêlo doméstico das horas vagas
em que escapamos a nós próprios
o cemitério d' eus perfilados de génio
as ruas com nome de gente a fazer número
a água que ainda cambaleia entre comas
tu aí deste lado
eu aqui desse lado
a lembrar Inventários de ossos
constelações de pó
o bendito esquecimento que nos abrirá os olhos
a paz
o que importa
cão a lamber caldo entornado
sopas de nódoas na camisa engomada dos dias
ainda há vaga no espectáculo da morte
sábado, 4 de julho de 2026
VIVA A MORTE
sexta-feira, 3 de julho de 2026
À MARGEM DOS DIAS
quinta-feira, 2 de julho de 2026
O MAESTRO
dirige com o mindinho
tem pé de atleta chato
tropeça amiúde nas micoses
e por isso teme sobretudo
a folha cadente do velho plátano
o pó na passadeira vermelha
dos mosquitos ziguezagueantes
é maestro de mau estro
atonal do pensamento
e bufa pelas narinas
enquanto dirige as próprias gralhas
que em bando esvoaçam alegremente
sobre coros e ensembles



