antologia do esquecimento
domingo, 31 de maio de 2026
UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD
DIGRESSÃO
sábado, 30 de maio de 2026
LX 26
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28.05: O patrão da petisqueira Estrelinha trata-me por querido. A patroa trata-me por menino. A empregada chama-me jovem. Estou à espera que um dia alguém se me dirija por "querido jovem menino". Então querido jovem menino, o que é que vai ser? Vou ser querido, vou ser jovem, vou ser menino.
*
29.05: Está a decorrer a maior Feira do Livro de Lisboa de sempre, rendida a dois ou três grandes grupos editoriais com pavilhões como nunca se viu. Por esta altura, o Parque Eduardo VII povoa-se de pavões nos pavilhões e de crocodilos que se fartam de chorar sempre que uma livraria independente desaparece.
*
30.05: 45 minutos à espera para ser atendido numa
farmácia. Dois funcionários no atendimento ao público, três a andar de um lado
para o outro. Gente a reclamar para orelhas moucas. Finalmente chamado, lá vou
debitando os números da receita. Um, dois, três números. Quatro vezes
pronunciados, porque havia sempre algum que falhava. Quer genérico ou de marca,
perguntou a estimável de serviço. Quero ir-me embora daqui quanto antes,
respondi-lhe. Ah, é que posso não ter genérico. Então traga o que tiver, eu
depois pago-lhe com a minha simpatia genérica. E pronto, é isto.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
UMA CRIANÇA OCUPA O TEMPO
quinta-feira, 28 de maio de 2026
DE UMA PEÇA DE ANTON TCHÉKHOV
quarta-feira, 27 de maio de 2026
CATARATAS DE BARATAS
terça-feira, 26 de maio de 2026
SENTIDO ÚNICO
Pagas a água, pagas o gás
pagas o gasóleo, pagas a luz
pagas a renda, pagas o IMI
pagas IRS, descontas, pagas
pagas o que comes, pagas o que vestes
pagas portagens, pagas passe
pagas bilhete, pagas ingresso
pagas a factura, pagas a taxa
pagas a contribuição audiovisual
pagas o médico, pagas a farmácia
pagas o avio, o diploma, a concessão
pagas o alívio, o ar condicionado
pagas o mobiliário, os talheres
pagas para provar que existes
pagas a multa, o atraso, a infracção
pagas com as próprias mãos
pagas o comprovativo, o papel
pagas juros, despesas de manutenção
pagas com trabalho
trabalhas para pagar
pagas para viver
vives para trabalhar
vives para pagar
e depois morres
segunda-feira, 25 de maio de 2026
OS JUGOSLAVOS
domingo, 24 de maio de 2026
GENTRIFICAÇÃO
Escreve João Vieira
Pereira, no Expresso:
"A
gentrificação não só arrasou bairros inteiros como está a mudar cidades e até
regiões. O centro de Lisboa é hoje disputado entre o turista e o residente
milionário. O mesmo se passa na linha de Cascais. A poucos minutos para norte,
a Ericeira tornou-se um dormitório de jovens estrangeiros a viverem o sonho de
serem nómadas digitais. Troia e Comporta estão a transformar-se em guetos para
milionários que acham que ganharam o direito de escorraçar todos os outros que
não partilham o mesmo gestor de fortunas. Os condomínios privados, com preços
em que apenas um lote de terreno chega aos vários milhões de euros, são
recebidos com orgulho pelo português, pacóvio e deslumbrado, mas que nunca terá
dinheiro para lá entrar. O mesmo que não percebe que a abertura de escolas
internacionais com mensalidades de vários milhares de euros é apenas uma
resposta de uma elite predisposta a sugar a qualidade de vida que encontraram e
que nessa senda procuram transformar-nos no espelho do país que deixaram para
trás. Esta invasão milionária está a descaracterizar Portugal a uma velocidade
vertiginosa."
Um país a saque,
cada vez mais desigual, entretido com feiras, festas e festivais, fátimas,
futebóis e fados, um país que é cada vez mais aquela imagem de um homem a
afundar-se num pântano que Manoel de Oliveira nos legou: a mão, a mão,
suplicava o desgraçado, enquanto à volta dele os miseráveis bulhavam sem
conseguirem organizar-se. Na AR, horas infindáveis de questiúnculas sem
sentido, burcas, notas de pesar e palermices entretêm o pagode. E o país é
isto, esta boçalidade, esta indigência, tudo rendido ao negócio, ao lucro, à
sala cheia a qualquer preço. Mas fiquem descansados: não há qualquer proibição
de colocar os chapéus à frente das zonas concessionadas nas praias. Que alívio.
sábado, 23 de maio de 2026
MEMÓRIA E ESQUECIMENTO
Visita aos arquivos Ephemera na Vila da Marmeleira. Guardem tudo, não destruam nada, repetiu insistentemente JPP, que começou por citar Brecht para justificar uma história que se recupera não só pelos Césares, mas também pelo quotidiano comum. Evitarei juízos de valor sobre o bicho que corrói as provas, até por vivermos num tempo em que a memória está sob ataque. O esquecimento diz-me muito, é o motor da escrita, da criação, é esta paradoxal vontade de deslocar para fora o que pesa dentro. E depois as coisas ficam por aí, pilhas sobre pilhas de objectos, palavras, documentos que alguém se encarregará de conservar ou transformar em cinza. No jardim, um prato de parede com uma quadra: «Os calos das tuas mãos / São bem as tuas medalhas, / São o símbolo da nobreza / Que tu tens porque trabalhas.» Poesia popular, dizem, sem autor que se conheça. E no entanto, ali está para a eternidade.
sexta-feira, 22 de maio de 2026
MISSA DE DOMINGO
quinta-feira, 21 de maio de 2026
OLFACTOLOGIA DAS CIDADES
Henrique Garcia Pereira, in O Técnico Insurgente nos Anos 60 e seu enquaramento socioeconómico, Companhia das Ilhas, Maio de 2026, p. 50.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
O PREÇO A PAGAR
Regresso a Nietzsche em registo informal, ladeado por um tanque como aquele em que tomava banho quando era puto e um cão verdadeiro que parece de louça. O Nietzsche de “Aurora”, o primeiro, inspiradora das vanguardas que se encarregaram de atacar e de destruir os velhos valores herdados de séculos sobre séculos de tradição judaico-cristã. O do eterno retorno, a lembrar-nos que cada gesto carrega em si mesmo o desejo de se repetir. Mais do que o super-homem, emancipado da axiologia ancestral, dos sistemas morais caducos, capaz de criar e reger-se pelos seus próprios valores, interessa-me o niilismo enquanto princípio do absurdo que nos torna conscientes da efemeridade e, por isso mesmo, obriga ao máximo aproveitamento da vida: «os fins caiem-nos dos olhos como escamas». Filósofo, poeta, músico, este homem que a sífilis enlouqueceu, fazia também o elogio da solidão, isto é, da emancipação que nos torna sós num mundo contrário à liberdade individual. O preço a pagar por ser livre: acabar só. Meti isso num micróbio. Já lá vai. (Casa Bernardo, Caldas, 20 de Maio de 2026)
terça-feira, 19 de maio de 2026
50 x 41
Regresso à capital a ouvir o que ouvia quando fui lá parar no primeiro de oito anos sem retorno. É a única maneira de aguentar aquilo, um condomínio fechado atafulhado de turistas cujo efeito mais nocivo é determinarem todas as opções. Lisboa em festa contínua, com festivais e feiras por todo o lado, o negócio florescente da segurança privada, cidade vigiada, caótica, ingovernável. Carros, trotinetes, motas, bicicletas, carroças, tuk-tuks e gente a vau num insuportável rio de poluição sonora. Melhor proteger os tímpanos com as guitarras de In Utero (1993), derradeiro suspiro de uma banda que renovou o rock de guitarras quando ele perdia para as novas tecnologias. Três discos de originais, um de raridades, outro em registo acústico, foi quanto bastou para garantir um lugar na eternidade. Kobain terá posto termo à vida em 94, com 27 anos de idade, e a gente aos 52 compreende cada vez com mais nitidez tal opção. É verdade que há hoje uma Lisboa deslisboetizada por força das circunstâncias, uma espécie de galeria de gente com a corda ao pescoço a fazer pela vida para pagar contas impagáveis, afastando-se para a periferia, da periferia para o campo, reinventando-se. A direcção migratória inverteu-se. Do campo para a capital, os saloios foram em busca de sustento. Da capital para o campo, os cretinos partem em busca de ar puro. Isto não é bom para o campo, assaltado de pedantismo, nem para a urbe, despovoada de raízes. Um não lugar, é o que aquilo é. Os problemas eram outros quando Nevermind (1991) me expulsava dos bares e das discotecas por mau comportamento, mas a dessintonia mantém-se.
segunda-feira, 18 de maio de 2026
UM INTERROGATÓRIO
CAMERON Não é -
RUTH Não deve ser pêra-doce.
CAMERON Na verdade eu até gosto.
RUTH De quantas coisas é que abriu mão por ela?
CAMERON Eu não penso nesses termos.
RUTH Acha difícil estar na companhia dela?
CAMERON Não.
RUTH Perguntei-lhe há pouco se o jantar com ela tinha sido agradável e o Cameron respondeu: «Tanto quanto uma refeição com a nossa mãe pode ser agradável.»
CAMERON Não foi isso que eu quis dizer.
RUTH Acha-a sufocante?
CAMERON Não.
RUTH Já alguma vez fez alguma coisa para se vingar dela?
CAMERON Não.
RUTH Para recuperar uma sensação de controlo?
CAMERON Pare com isso.
RUTH Alguma coisa para se sentir forte e poderoso?
CAMERON Não.
RUTH Irrita-o, o domínio que ela tem sobre si?
CAMERON Não, foda-se!
Jamie Armitage, in Um Interrogatório, tradução de Joana Frazão, Artistas Unidos / Livrinhos de Teatro, SNOB, Abril de 2026, pp. 50-51.
SERÁ DO AZEITE?
domingo, 17 de maio de 2026
O PAÍS
O país vai ao beija-mão
e lava os dentes
a cantar de galo
epitáfio de si mesmo
companheiro de Deus
domesticador de bois
no monte negro da História:
país de poetas
país de cobardes
país de brados
país de quebrados
com boca de leite
diz que sim
diz mais
mais hollycaustos
mais ginecídios
em português
país da tanga
a pedal na gira
em direcção ao céu que é de todos
sob terras de ninguém
aos pulos nas festas
nas feiras
nos festivais
carrega andores de plástico
na procissão de Maio
busca de perdão sem graça
quanto sobra
a quem come e cala e consente
no cantão azul-marinho
da ocidental praia lusitana
Esta lama








