A malta que anda na rua de microfone em riste e câmara de filmar ao ombro tem dado provas suficientes do ridículo a que submeteu a sua profissão. Dos terríveis tremores de terra que afugentam gatos à procissão do refluxo gastroesofágico, do CR7 em debandada ao contentor a arder, são inúmeros os exemplos recentes desta ânsia pelo espectacular, da ávida busca do epifenómeno sensacionalista que mete toda a gente e mais um par de periquitos a debater o sexo dos anjos. Uma pessoa desprevenida que olhe para as televisões julgará que o sismo de 1755 foi brincadeira de crianças quando comparado com o que está a acontecer neste país das helenas matos e dos zé manéis fernandes. Eu cá tenho opinião diferente, acho que devíamos ser mais espanhóis e menos osórios, acho que devíamos ser mais franceses e menos tinocos, acho que somos mesmo um país de poetas... da cidade. E que falta nos fazem Brites de Almeida, mondadeiras e povinhos para quem o respeitinho não fosse esta porra triste de conchinhas no Rossio e fiambres no Parlamento e botas-de-elástico nas televisões.
antologia do esquecimento
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
A FALTA QUE NOS FAZEM OS FRANCESES
A malta que anda na rua de microfone em riste e câmara de filmar ao ombro tem dado provas suficientes do ridículo a que submeteu a sua profissão. Dos terríveis tremores de terra que afugentam gatos à procissão do refluxo gastroesofágico, do CR7 em debandada ao contentor a arder, são inúmeros os exemplos recentes desta ânsia pelo espectacular, da ávida busca do epifenómeno sensacionalista que mete toda a gente e mais um par de periquitos a debater o sexo dos anjos. Uma pessoa desprevenida que olhe para as televisões julgará que o sismo de 1755 foi brincadeira de crianças quando comparado com o que está a acontecer neste país das helenas matos e dos zé manéis fernandes. Eu cá tenho opinião diferente, acho que devíamos ser mais espanhóis e menos osórios, acho que devíamos ser mais franceses e menos tinocos, acho que somos mesmo um país de poetas... da cidade. E que falta nos fazem Brites de Almeida, mondadeiras e povinhos para quem o respeitinho não fosse esta porra triste de conchinhas no Rossio e fiambres no Parlamento e botas-de-elástico nas televisões.
sábado, 17 de outubro de 2026
BOTAS-DE-ELÁSTICO
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
BOLSA DE FINADOS
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
O HOMEM DA FLOR NA BOCA
E era isto que era de demonstrar, está a ver? Com provas e exemplos contínuos, a nós próprios, implacavelmente. Porque, caro senhor, nós não sabemos de que coisa é feito, mas é que, é que, todos o sentimos aqui, como um nó na garganta, o sabor da vida, sempre insatisfeita, que nunca se pode satisfazer, porque a vida, no próprio acto de a vivermos, é assim, sempre ávida de si mesma, não se deixa saborear. O saber está no passado, que permanece vivo cá dentro. O gosto da vida vem-nos daí, das recordações que nos têm amarrados. Mas amarrados a quê? A esta sensaboria aqui... a este tédio... a tantas estúpidas ilusões... insípidas ocupações... Sim, sim. Isto que agora, aqui, é uma sensaboria... isto que agora é para nós uma desventura, uma verdadeira desventura... sim senhor, à distância de quatro, cinco, dez anos, quem sabe que sabor terá tomado... que gosto, estas lágrimas... E a vida, santo Deus, só o pensar em perdê-la... especialmente quando se sabe que é uma questão de dias...
(...)
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
UM POEMA DE JOSÉ EMÍLIO-NELSON
terça-feira, 13 de outubro de 2026
DAR NAS VISTAS
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
O TEATRO É PURO CINEMA
domingo, 11 de outubro de 2026
EU CÁ SOU BOM
Olho-me nos olhos em loop, adoro rever-me, devolver-me a mim mesmo no reflexo do espelho e do eco, interpretar-me no vídeo, na selfie, para quando na presença de ministros, secretários, jornalistas, ter o corpo na mais favorável das posições, a três quartos, de perfil, rosto no rosto. Ah, como eu me admiro na repetição do vídeo caseiro, eloquente como só eu, homem de palavra estudada, ritmo marcado, respiração certa, tudo ali tão pronto para vencer e ficar na história e sobre mim escreverem mil e uma maravilhas. O gesto esquemático, a pose a cada momento ensaiada, a frase sublinhada pela própria língua. Maravilha de mim, génio esquecido, incompreendido, ignorado, mas génio, que sempre elogia e reconhece a discrição, a simplicidade e a humildade dos outros.
sábado, 10 de outubro de 2026
UM POEMA DE RUI LAGE
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
RECLAMAÇÃO
Fazem-me falta poetas que cantem as cabeleiras grisalhas das mulheres exangues, os músculos flácidos dos homens estéreis, as constelações de manchas na pele ressequida, dentes debilitados por cáries internas, a carne engelhada dos velhos, rostos amarrotados por olheiras fundas, fazem-me falta poetas que cantem a velhice sem resvalarem na retórica saudosista dos gloriosos passados e dos paraísos perdidos e dos amanhãs silenciados, sem canto, mortificados. Fazem-me falta poetas que falem do corpo como uma cedência por comodato e da vida como um instante perdurável e do tempo como o sopro estanque de humanidade que sempre foi o que é. Poetas capazes de abolir o uso do advérbio agora por contramedida a um antes que não foi melhor nem pior, foi diferente. Poetas que não temam a tristeza nem a imponham ao presente por nostalgia de magistrais infâncias, oníricas infâncias de colo e mimo, sem pés descalços nem fome nem nódoas negras de trabalho infantil forçado. Cansado que me encontro desses paraísos íntimos e pessoais, cantados como se mundo outro não houvesse, quedo-me a assobiar a falta que me fazem os poetas que permutem o canto não pelo lamento, mas, vá lá, pela assumpção de um destino para todos igual, a despeito das paisagens em que um corpo brota. Faz-me falta a verdade, a honestidade, o grito autêntico que não tema a melancolia nem a loucura nem a morte.
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
NOBEL DA LITERATURA: ANNE CARSON
Os hábitos, o sofrimento, o tédio, a memória, beber chá, biscoitos e a inescrutável banalidade da existência são tópicos que Beckett e Proust têm em comum. Cada qual anatomiza-os de maneira diferente. Aquilo que para Proust se encontra localizado na cabeça, a boca ou a mente, move-se pelo corpo abaixo em Beckett. Por exemplo, a cena em que molha a madalena no chá, que transporta Marcel ao interior de um sonho metafísico. Ao primeiro gole de chá, segue-se um segundo e um terceiro, pois pretende prosseguir o estudo desta inesperada delícia. Porém, decepciona-se ao descobrir que a sensação diminui ao repetir-se: «Bebo um segundo gole em que não encontro nada de mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo», diz. Compare-se com o bebedor de chá Murphy, protagonista da novela homónima de Samuel Beckett: «A sensação de um assento que, finalmente, se juntava ao seu traseiro derreado era tão deliciosa que se levantou de chofre e repetiu o movimento. Para não se deixar comover com tais ternuras, teria de as conhecer melhor. Mas a segunda junção foi uma enorme decepção.» No geral, Beckett está mais interessado do que Proust na parte posterior do corpo. Veja-se, por exemplo, a personagem de Pim em Beckett, apunhalado no cu com um abre-latas, ou Krapp a queixar-se do intestino enquanto continua a comer bananas, ou o abundante discurso anal em Murphy, ou a exaustiva excrementação do mundo nas expressões de Vladimir e Estragón, para não falar do modo como Beckett rebaptiza os editores Chatto & Windus, que lhe rejeitaram uma colecção de poemas em 1934, como “Calaboca & Jáera” (Shatupon & Windup).
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
HIPERFÓLICO
terça-feira, 6 de outubro de 2026
MICRODRAMA
Diálogo escutado durante o passeio da cadela numa manhã de neblina:
- Só se vier à boleia. Como as coisas andam, o cavalo já deve ter morrido.
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
CROMELEQUE DOS ALMENDRES
7000 anos, dizem, por razões que só a especulação explica. A esperança média de vida não era assunto, pelo que de certeza seriam mais felizes.
domingo, 4 de outubro de 2026
O PRINCÍPIO DA ALIENAÇÃO
Tenho sido revisitado por sonhos antigos. Às vezes, só por imagens e situações fragmentadas desses sonhos. Uma casa de férias, um lugar misterioso, um complexo arqueológico junto a uma praia, situações de convívio com pessoas conhecidas. Algumas destas imagens são tão vívidas que fico na dúvida se não terei vivido efectivamente aquelas situações. Hoje sinto-me impelido a telefonar a um amigo para confirmar uma situação. Talvez venha a julgar-me louco, mas sinto mesmo necessidade de esclarecer a veracidade do sonho. Deve ser isto o princípio da alienação.
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