antologia do esquecimento
sábado, 14 de fevereiro de 2026
UMA CANÇÃO DE MINA LOY
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
ESPERA SENTADO
Família Amorim, grupo Jerónimo Martins, Grupo José de Mello, Sonae, Grupo Pestana e BA Group vão disponibilizar milhões dos seus lucros anuais para apoio às famílias e a reconstrução das áreas afectadas pelo alfabeto de depressões que ameaça afundar o país na lama. A Conferência Episcopal Portuguesa agradece e promete missas grátis em honra de todos os milionários benfeitores, com lugar no céu garantido à direita do Senhor.
MEIO
Estar no meio, entre jovens ambiciosos, ávidos de fama, convencidos de que sabem alguma coisa, e velhos amargurados por lhes faltar o reconhecimento que julgam merecer. Estar a meio e sem vontade, sem desejo, sem paixão, indiferente a tudo o que não seja o simples gozo frugal e efémero de estar.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
ESCASSEZ
A escassez grave de aviões no combate aos incêndios, a escassez grave de ventiladores na pandemia, a escassez grave de geradores nas catástrofes naturais, a escassez grave de meios para tudo e mais alguma coisa. Este é o país das escassezes graves. Só grunhos é que temos de sobra. Grunhos, burgessos e machos alfa.
NÃO TER PALAVRAS
Perguntaram-me se continuo a ler os jovens poetas. Respondi que sim. Perguntaram se sou daqueles que pensam que os novos poetas escrevem com menos palavras. Respondi que talvez seja verdade, mas não é necessariamente mau. Mau é passarmos a vida a dizer que não temos palavras para descrever o que sentimos ou vemos, como se não houvesse de facto palavras para o descrever.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
MONDEGO
O Rio Mondego nasce na Serra da Estrela, mas Luís Montenegro garante que, desde Janeiro, está a gerir os caudais do rio com as entidades espanholas. Esta gente não existe, não conhecem o país que governam, são uma anedota triste.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
UM POEMA DE RAQUEL SEREJO MARTINS
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
FUNERAL
domingo, 8 de fevereiro de 2026
RÉS-DO-CHÃO
sábado, 7 de fevereiro de 2026
PÂNTANO
UM OUTRO TEATRO
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
CONCÍLIO
Vinte anos depois, conheço pessoalmente o autor desses livros que me chegavam pelo correio com simpáticas dedicatórias. Conversa animada. Ao termo da noite, ele foi pelo chocolate quente. Eu preferi a aguardente. Falou-se do passado, do presente e dos futuros possíveis. Feliz coincidência entre duas pessoas, esta de ambas apreciarem cada vez mais a solidão e o isolamento fugindo do que nessa noite fizeram. Concílio de solidões, portanto. Vila Real.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
ACERCA DO TEATRO QUOTIDIANO
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
CRISTINA
Cristina, creio, assim se chamava a do bar artístico no
Pátio dos Escuteiros. Fechou a porta e colocou um cinzeiro no centro da mesa.
Continuámos a beber Guiness e a trincar amendoins, a conversa fluía. Depois
alguém abriu um piano, depois alguém me passou uma guitarra, depois Cristina
agradeceu as canções dos génios do seu tempo. O tempo dela não era diferente do
meu, mas desconfio que ambos sintamos já o passado encurtar-se. Lembrou-me a
irmã de um amigo da adolescência com quem ouvia The Doors e fumei os primeiros
charros. Covilhã.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
LIVRARIA PÚBLICA
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
S/T
Talvez o Teatro Impossível seja um teatro sem corpo. Beckett ter-se-á aproximado dessa possibilidade em Not I (1972), peça que levou a actriz Billie Whitelaw a afirmar depois de a representar: «I felt I had no body.» Por outro lado, sentimo-nos tentados a supor no Teatro Impossível um teste de resistência ao cogito, ergo sum. Existimos porque pensamos ou pensamos porque existimos? A teoria dos jogos de linguagem explorada por Ludwig Wittgenstein inscreve a linguagem e, por conseguinte, o pensamento, no contexto das práticas humanas: «uma palavra tem sentido pelo uso particular que dela fazemos.» Mas qual é o sentido da palavra sentido? A linguagem é indissociável do corpo, a linguagem teatral é indissociável do gesto, talvez o Teatro Impossível seja um jogo de linguagem. Num texto anfíbio como s/t (blablalab, 2006), que, a despeito da brevidade, pode ser entendido como poema, ensaio ou dramatículo, a relação entre o acto de escrita, o acto de fala e o acto de pensar é ponto de partida para um encadeamento ao mesmo tempo lógico e lúdico da relação entre o pensamento e os gestos de falar e de escrever. O cogito, ergo sum converte-se num cogito, ergo scribe, transmutação de tipo poético que aproxima o texto de outros autores para quem o ofício de escrever se confunde com o ofício de viver. Ocorre-nos o tempo que medeia entre o acto de pensar, o acto de dizer e o acto de escrever. Piensa al hablar, escreve Álvaro García de Zúñiga antes de dizer o que pensa enquanto fala. E entre o que a escrita fixa, cristaliza, tenta-se uma reprodução fiel do pensamento. A dúvida é: será tal possível? O pensamento é acto puro, movimento ininterrupto, fluxo, corrente continuada que a fala materializa. Deixamos de pensar quando morremos. A fala solta o pensamento, mas a escrita parece oferecer-lhe outro tipo de materialização. A escrita como que tende para uma interrupção do fluxo, isto é, mesmo na sua vertente mais automática a escrita fixa o pensamento e, ao fixá-lo, pode silenciar a fala ou servir-lhe de suporte (quando lemos em voz alta, por exemplo). Ao pensarmos este drama para três personagens ̶ pensamento, fala, escrita ̶ não necessitamos de mais do que de um corpo, mas o corpo manifesta-se também aqui imprescindível. Dizemos por vezes que falámos sem pensar, consideração que acarreta um certo peso moral. Falar sem pensar ou falar da boca para fora é não reflectir aquilo que se diz. O assim dito, por carecer de reflexão (pensamento sobre pensamento), pode ser equivocamente interpretado. Tais equívocos geram discussões, imprimem na vida de quem fala uma espécie de autocensura que o poupa a diagnósticos pouco saudáveis. A fala exercita a censura do pensamento, mesmo quando, seguindo os bons conselhos de Alceu de Mitilene ou de Plínio, o Velho, oferecemos ao corpo doses de vinho favoráveis à libertação da verdade. In vino veritas, eram as regras do banquete. Por sua vez, procuramos não impor à escrita nenhum tipo de constrangimento. A escrita facilmente se embriaga a si mesma, soltando-se, libertando-se, como desejavam as vanguardas do início do século XX, com assinaláveis repercussões na História da Literatura mais recente. O texto sem título de Zúñiga coloca-nos esse problema: foi escrito sem pensar, foi pensado a escrever, foi falado e pensar que se escrevia, foi pensado a falar para ser escrito, etc? «Parece pensar en lo que escribe.» O mais interessante neste jogo a três é a dinâmica, o ritmo que conecta o pensamento à escrita, a escrita à fala, a fala ao pensamento e assim sucessivamente. A dado momento coloca-se uma hipótese, abre-se a cortina das possibilidades: «como le parece que diría si se hablara por escrito.» Falar por escrito. Pensar por escrito. Dizer a si mesmo que pensa por escrito. O processo em causa é, portanto, o de um monólogo que faz incluir o pensamento num corpo, um corpo que sangra, logo, um corpo vivo. O Teatro do Pensamento que é, por sua vez, materializado na escrita e na fala, não prescinde do corpo, o corpo é a conditio sine qua non há Teatro. Então alguém sangra enquanto escreve, a escrita corresponde a um sangramento, o sangramento do pensamento. É uma bela imagem: a escrita enquanto sangramento do pensamento. O processo desloca-nos da lógica para a poética, da norma que determina o jogo de linguagem para uma linguagem que se cria a si mesma, cria e recria como o solo que medeia entre a repetição de um riff. Esta é uma escrita altamente musical, na medida em que se deixa embalar pelo ritmo do pensamento para proporcionar à fala, no dizer do escrito, esse movimento que tende para a suspensão, para a interrupção, para o momento em que o pensamento pare de se escrever dizendo-se. E nisto poderíamos ver, quem sabe, mais uma dessas inclinações para o silêncio de que falava Alberto Pimenta.
DEMASIADOS PERFIS
Órfãos, uma peça para um espelho, um cavalinho de embalar
e uma jarra com flores. Também há uma vela e um bengaleiro, um sofá e livros
infantis. Falhou a água, que não se ouve. Quem terá entendido esta conjugação
de objectos enquanto contorno nos perfis das personagens?
domingo, 1 de fevereiro de 2026
AMADORES
Amo os amadores. O pior que pode acontecer a um profissional é deixar de amar, passar a fazer tudo por obrigação, dever, cumprindo regras, respeitando rigorosamente as convenções. O amador aventura-se, questiona, quando ama verdadeiramente ele é um autêntico filósofo, um amante do conhecimento. A não ser que seja tonto e em vez de amar o outro ama-se apenas a si mesmo, fechando-se no reflexo da sua vanitas. Esses não entendem sequer a efemeridade que os condena, que nos condena a todos. Sempre que regresso à História da Literatura lembro-me disto, tantos sãos os nomes com que me cruzo que hoje nem chegam a meras curiosidades. Afundaram-se no esquecimento como se nunca tivessem existido. Mas existiram, fizeram coisas, algumas delas até valerá a pena desenterrar, ao contrário de outras que por aí se vão fazendo, ocupando páginas e páginas de jornais, que melhor seria enterrar quanto antes.
LIBERTAR O FUTURO
sábado, 31 de janeiro de 2026
VOZ HUMANA
Peça de tipo neo-romântico com banda sonora de
Durutti Column e Dead Can Dance. Uma mulher, de seu nome Júlia, é assaltada por
pensamentos suicidas. Um amor falhado abre-lhe a porta da desilusão. Um
barqueiro, evocação de Caronte, tenta seduzi-la para o seu mundo. Se o amor não
faz parte do seu vocabulário no início, acaba no fim por lhe servir de
argumento: «serei eu, o teu novo amor...» Numa espécie de diálogo desprovido de
argumentação retórica, Júlia e o Barqueiro oferecem-nos retratos de dois mundos
paralelos. Estão ambos num limbo, cada um no seu, talvez se encontrem na morte.




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