antologia do esquecimento
terça-feira, 18 de agosto de 2026
ERRÂNCIAS
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
A ODISSEIA
Será um erro ver "A Odisseia", de Christopher Nolan, à espera de uma adaptação cinematográfica de "A Odisseia", de Homero, livro que, em boa verdade, até podem ter sido dois: a história de Telémaco em busca do pai (Telemaquia) e a história de Odisseu, veterano da guerra de Troia, de regresso a Ítaca, onde a família o espera há 20 anos (Odisseia). Há imensos episódios no clássico que escapam ao filme, alguns sem perdão, como, por exemplo, o encontro de Odisseu com sua mãe, Anticleia, no Hades. Cada leitor de Homero terá as suas reclamações a fazer, mas o filme de Nolan torna-se insuportável em domínios que pouco têm que ver com liberdades no argumento. A paisagem é asséptica, para não falar da ausência de vinha. Polifemo, o cíclope, parece saído de um filme de terror dos anos 80, desprovido de qualquer diálogo com o herói da acção que, nesse episódio, tem aquela deixa original de dizer chamar-se Ninguém. Circe, a bruxa, é made in imaginário Harry Potter, logo ela, com quem Odisseu, o mais ardiloso e aldrabão dos heróis na história da literatura, vai para a cama. Foi desprovida de qualquer densidade psicológica. E a ideia de pôr Odisseu a comer a flor de lótus, que é a do esquecimento, ao mesmo tempo que recorda as suas errâncias na ilha de Calipso, é só estúpida. De resto, Calipso e Odisseu parecem o casal da “Lagoa Azul”. Imperdoável, para mim, é passar-se por cima dos Feaces como se, no original, fossem uma espécie de adereço literário, logo esse povo que se sacrifica para devolver Odisseu a Ítaca. Serem massacrados por Posídon depois de cometerem uma boa acção é coisa que não pode ser ignorada. A vergonha de Odisseu quando se apanha nu diante de Nausícaa e das escravas não é pormenor de somenos importância, nem o desafio que os Feaces lhe fazem nos jogos, nem a comoção que o herói sente ao ouvir os seus feitos cantados por um aedo, nem tantas outras coisas que se passam naquele festim de 4 ou 5 cantos cujo valor simbólico foi completamente esquecido no filme, em prol de uma tentativa de oferecer linearidade a uma narrativa cuja grandeza sobrevive também das incoerências geográficas e temporais. Nolan realizou um filme sobre os conflitos interiores de um vetereno de guerra no regresso a casa, a Odisseia é muito mais do que isso, no limite nem sequer é sobre isso, pois não é sobre nada em geral sendo acerca de tudo em particular, ou seja, é uma obra sobre a qual passaram milhares de anos e, ainda assim, continua a confrontar-nos com a estranheza instaurada entre os planos da vida e da morte, do amor e do ódio, da paz e da guerra, da virtude e do vício, entre outros e demais dilemas, para nos dizer algo que os gregos julgavam essencial: o que importa é alimentar o pensamento com dúvidas. Nolan não oferece dúvidas, prefere as certezas e os lugares-comuns de uma ética e de uma estética à medida dos padrões e dos uniformes destes tempos rendidos à indústria. O paradigma disto está na figura de Agamemnon transformado em Darth Vader, feito à medida de uma história de aventuras usurpada de contradições, paradoxos e enigmas estimulantes para a reflexão e o pensamento. Cinema de mero entretenimento, em resumo.
domingo, 16 de agosto de 2026
O PROBLEMA DAS BURCAS
sábado, 15 de agosto de 2026
UM ESTRANHO CORPO DÁ AO PALCO
Fernando Mora Ramos, Um Estranho Corpo dá ao Palco seguido de Pé Direito, apresentação de Henrique Manuel Bento Fialho, Parece um Deserto, Companhia das Ilhas | Teatro da Rainha, Setembro de 2026.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
POEMA PEQUENO
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
AUTORRETRATO DE ODISSEU
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
UM MOTIVO FÚTIL
Maria Antónia Oliveira, in Alexandre O'Neill, Uma Biografia Literária, Assírio & Alvim, Abril de 2024, pp. 61-62.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
AUTO-RETRATO DE ALEXANDRE O'NEILL
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
ACTE
“Acte” (blablalab, Novembro de 2017), que traduziremos por acto, é outro exemplo de Nem Teatro (Ni Théâtre), exemplo abreviadíssimo, elíptico, na linha de “Actueur” (idem, Dezembro de 2006). Ironicamente, ao contrário de “Actueur”, composto por três actos, este “Acte” manifesta-se «en cinq actes»: a actividade anterior ao acto (I), como, por exemplo, os actos reflexos irreflectidos, o acto em acção (II), como, por exemplo, o acto executório, o acto activo (III), como, por exemplo, a memória, o acto de contrição (IV) e o último acto (V), isto é, a morte. Estamos a simplificar. Cada um desestes actos é composto por um brevíssimo inventário de expressões e de palavras que, conjugadas, nos enviam para um dos mais antigos problemas da filosofia da linguagem: a relação entre o pensamento, a linguagem e a acção.
«Pois suas naus são rápidas como uma flecha ou um pensamento», diz-se na Odisseia manifestando uma ideia que já em Tales de Mileto estava presente: a da velocidade do pensamento. Desde Descartes que a noção de que pensamos corresponde à consciência de uma actividade que me confere existência, pelo que pensar será a condição sem a qual não se existe. Não é por acaso que o óbito corresponde à morte cerebral, independentemente de, ainda activos, pensarmos ordenada ou desordenadamente. A morte cerebral introduz a inacção. Segundo a teoria linguística behaviorista, falar é uma acção. Também segundo a teoria dos actos de fala, lembra-nos Josef Simon, «a linguagem é essencialmente um falar, portanto, uma actividade.» Não será difícil para um leigo aceitar tais conclusões, mais complexo se torna admitir o pensamento anterior à linguagem enquanto acção. Mas haverá pensamento anterior à linguagem? Haverá pensamento sem linguagem? Não cremos que haja, o que há é pensamento anterior à sua materialização ou projecção através de uma linguagem que se manifesta na oralidade e na escrita.
Estando o teatro, enquanto arte performativa, iminentemente ligado à acção – falamos da acção que decorre em cena, falamos de actos enquanto divisões dessa acção -, o “nem teatro” é como que uma jogada de xadrez que põe em xeque as convenções fazendo equivaler à acção o pensamento. Neste sentido, avizinha, talvez, o teatro estático pessoano, embora este se revele demasiado palavroso diante do “nem teatro”. Podemos antes imaginar uma peça com um actor a pensar sem dizer, sem projectar a voz ou imaginar um qualquer mecanismo que projectasse numa tela a actividade cerebral em tempo real. Na música, Cage fez algo semelhante com a peça para piano intitulada 4’33’’.
No seu “Exame de Conscência”, W. Somerset Maugham dizia esta coisa extraordinária que nos persegue há décadas: «se confessasse cada acção da minha vida e cada pensamento que me atravessou o espírito, o Mundo me julgaria um monstro de depravação.» Subtraiamos à frase a carga moral e até religiosa que aparenta ter e imaginemos um tal dispositivo que projectasse os nossos pensamentos a todo o instante e a conclusão seria, muito provavelmente, a mesma.
“Acte en cinq actes”, como o próprio título indica, dá conta, no entanto, de uma possibilidade de decomposição das acções que podia ser infinita, um pouco como acontece nas aporias de Zenão. A subdivisão (ou a segmentação) do acto em cinco actos recoloca-nos no centro do problema que é o do acto primeiro, a energia anterior ao acto, a força propulsionadora da acção, a actividade cerebral que motiva o gesto. Anterior ao gesto é o pensamento em acção, resta saber o que será anterior ao pensamento em acção. Haverá algo anterior ao pensamento em acção? Tanto o Teatro Impossível como o Nem Teatro revelam-se-nos formas teatrais do pensamento em acção, um questionamento experimental da acção com princípios que poderão ser os mais diversos. Neste sentido, poderíamos talvez falar de uma dramaturgia da filosofia da linguagem. O termo, o fim, é o silêncio, a extinção da palavra, do pensamento, é a morte.
domingo, 9 de agosto de 2026
A PROPÓSITO DA ODISSEIA
sábado, 8 de agosto de 2026
ACTUEUR
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
ANNE CARSON SOBRE OS ANASAZI
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
ESCRITO NA MARGEM
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
ESCREVER COM IA
DE DEZ EM DEZ
Aos dez andava debaixo da asa
a sonhar com altos voos
Aos vinte caiu-lhe o dente do juízo
e perdeu para sempre os três da alegria
Aos trinta já só lhe faltava plantar
uma árvore no meio do deserto
e esperar que, verde de ciúme, a árvore
lançasse sobre as nuvens chispas de mau-olhado
Aos quarenta deu o nó aos sapatos
e caiu na real depois de tropeçar nos sonhos
Aos cinquenta viu-se grego para chegar a Roma
Aos sessenta logo se verá
se entretanto a cegueira não clarear o mundo
terça-feira, 4 de agosto de 2026
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS # 41
No decorrer de uma conversa, dizemos muitas vezes: boa pergunta. Porém, raramente nos perguntamos sobre o que faz a pergunta ser boa. Talvez uma boa pergunta seja aquela que se responde a si mesma, ou talvez aquela que nos obriga a fazer mais perguntas, desbravando o caminho da dúvida e da interrogação, talvez a boa pergunta seja um paradoxo ou, pela clareza e pertinência, ponha o dedo na ferida, como as perguntas que raramente se colocam em cima da mesa e, por isso, os problemas arrastam-se indefinidamente. Eis uma pergunta: é possível colocar uma pergunta em cima de uma mesa? Uma boa pergunta pode ser, quem sabe, aquela que põe termo a uma discussão, aquela que abre uma discussão, a que solta problemas antes presos, a que revela o que estava recalcado ou, pelo menos, ajuda a vir à superfície o que mantínhamos imerso no inconsciente, uma boa pergunta pode ser uma pergunta inconveniente, pode desmascarar ou inflectir noutras direcções. O que é uma coisa?, perguntava Heidegger, para 300 páginas depois explicar que uma coisa é uma coisa. E, no entanto, não demos o tempo por perdido ao lê-lo. A história do pensamento jamais se faria sem perguntas: o que é a morte? a vida depois da morte existe? isto faz sentido? Deus existe? para onde vamos depois de morrermos? a liberdade, o que é? e o amor? Os diálogos platónicos partem sempre de perguntas e desenvolvem-se através delas, as perguntas são o combustível do pensamento na busca da verdade. O que é a verdade? Eis uma pergunta. Será boa? «O que é uma boa pergunta?», pergunta Augusto Baptista (1946) a páginas 37 do seu "EniGmatóGrafo" (Edições Húmus, Maio de 2026), vasto e generoso inventário de perguntas coleccionadas ao longo de anos no weblog “azul-canário”. São 221 páginas de perguntas, interrogações, enigmas que mostram, também, o discorrer dos dias, da história, do tempo, pois a pergunta acompanha o tempo em que se inscreve, como no conjunto final com a pandemia de Covid-19 em pano de fundo: «Se a pandemia é uma guerra, não se conseguirá negociar uma trégua, assinar um armistício?» (p. 221) Muitas das perguntas coligidas neste divertido volume aplicam-se na desconstrução de frases feitas, desmontando com graça e sentido de humor expressões populares: «Quem não tem onde cair morto morre de pé?» (p. 74) Saber fazer perguntas talvez seja uma arte maior num tempo cheio de respostas, as pessoas, por estes dias, parecem ter resposta para tudo. Ao contrário, raramente as vemos fazerem perguntas acertadas, as perguntas que devem ser feitas. Nas televisões, nas redes sociais, nas páginas dos jornais em que a doxa venceu a episteme, as perguntas raramente têm lugar, o palco é todo ele oferecido aos detentores de respostas, respostas que surgem sem o estímulo das interrogações, são invariavelmente formatadas por convicções pessoais, por crenças indiscutíveis, pela total ausência de reflexão crítica, pela ausência de diálogo e debate, porque isto é o que eu penso e, se é o que eu penso, logo não se discute. Eis o pensamento reduzido ao gosto, que, sendo discutível, quer o povo que não se discuta.. Ora, o que este "EniGmatóGrafo" demonstra é precisamente a comédia em que estamos atolados num mundo sem perguntas. Fá-lo por excesso, como convém quando em tempos de desmedida verborreia, sabotando a semântica, brincando com o aspecto gráfico das palavras - «Y: um T assaltado?» -, obriga amiúde o leitor a um esforço de compreensão do sentido da pergunta, obriga-o a parar, a reflectir, recorrendo ao nonsense e ao absurdo na busca desse efeito de suspensão introduzido pelo gesto lúdico de ressignificação. Às tantas, sentimos vontade de começar a responder às perguntas, mas logo o trocadilho, o divertimento, a farsa, nos ensina que estamos diante de um universo semelhante ao de uma criança diante da descoberta do mundo. As crianças fazem as perguntas mais inesperadas, como muitas destas que Augusto Baptista nos oferece: «O que é vencer na vida?» (p. 94), «Quando tiras sangue para análise, não sentes saudades daquela parte de ti?» (p. 97) Muitas perguntas revelam, não surpreendentemente, uma inclinação poética acentuada, como, de resto, o pensamento mágico na infância. Algumas dessas perguntas remetem-nos para a concisão, a capacidade de síntese, a precisão que conhecemos sobretudo na poesia oriental. «Como cabe a árvore na semente, o poema na palavra?» (p. 15), «Poema: um punho a abrir-se?» (p. 19), «Quantas lágrimas esconde um sorriso?» (p. 26), «Onde se agarram as árvores para treparem ao céu?» (p. 65) «Quanta luz mora por detrás de uma sombra?» (p. 79) E há ainda os desenhos, mais ou menos ilustrativos, as experiências gráficas ao tipo da poesia visual, num livro que é todo ele um compêndio de sabedoria sem ponta de exibicionismo, um livro contra este tempo mediático de respostas feitas, um livro que testa a resistência do leitor pela ausência de qualquer tipo de linearidade narrativa, um livro que nos indaga e inquieta por, de modo discreto, se situar nos antípodas da palavrosa mediocridade reinante. Uma pergunta: «Quantas pessoas passaram pelo planeta, cientes da grandeza da experiência que viveram?» (p. 155) Alguém tem resposta?







