terça-feira, 8 de junho de 2021

KAHLIL THE PROPHET (1963)

 


Uma história sem interesse: ainda relativamente novo, o saxofonista alto Jackie McLean sacou de uma faca para se defender de um Charles Mingus alterado. Este esmurrara-o, não se sabe porquê. Ou sabe-se, mas eu não quero saber. O que me interessa é a interrupção do gesto. Imaginemos que McLean tinha esfaqueado fatalmente Mingus. Estávamos no início da década de 1950. Imagine-se o que se perderia com Mingus morto e McLean preso, provavelmente para o resto da vida. Em liberdade pôde viciar-se em heroína, gravar Destination Out! com Grachan Moncur III, genial compositor de quem se fala tão pouco, pôde fundar o African American Music Department e formar o filho René McLean, criar com a sua mulher, Dollie McLean, o Artists Collective, Inc. de Hartford, pôde ser uma pessoa normal e deixar um legado. Um gesto, um simples gesto tudo altera, desvia a rota, trepana-a e desconcerta-a. Num passeio pela serra, um passo a mais na direcção do abismo pode ser fatal. Mas não é à morte súbita que me refiro, é antes a uma vida inteira e demorada carregando o peso do gesto determinante, da decisão que nos perseguirá para sempre como uma sombra de que nos libertaríamos houvesse essa possibilidade. Momentos em que a vida inteira se inclui como gérmen numa barriga de aluguer. É a esses momentos que me refiro e à dúvida que fica sobre como seria o presente se não tivéssemos passado por eles, se tivesse sido outro o caminho escolhido na encruzilhada diária, contínua, da existência. Momentos proféticos, oraculares, decisões em que o eco no futuro escutado repousa em silêncio como ruído em potência.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

As grandes questões, os grandes temas, já estavam no Génesis. Nada de novo foi inventado, apenas mudaram as formas de ir dizendo. Em todas as épocas encontramos o intelectual enfadado com o presente e desconfiado do futuro, aquele que sem o dizer é como se dissesse ou pensasse "a juventude está perdida". Nada o entusiasma, nada senão a sua própria decadência o motiva. Acontece também a quem envelhece mal, convencido de que tudo à sua volta não faz justiça à sua incomensurável sabedoria, ter-se numa conta que falha, desde logo, na equação básica da insignificância universal. Acho que era o César Monteiro quem dizia: "vistos de Paris somos todos saloios". E, em certa medida, está certo. Todos. Mas o que dirão de si mesmo aqueles que estão em Paris? Também podemos dizer "vistos de Homero todos os escritores actuais são medíocres". Mas o que terão dito esses que viveram no tempo de Homero, se é que tal tempo alguma vez existiu? Há um poema de Juraan Vink que é sobre isto e de algum modo ainda me agrada. Traduzi-o, na medida das minhas possibilidades. Ficou assim:

 

PREVISÕES METEOROLÓGICAS
 
Não podem as ondas prender as pernas
com as correntes das marés
que o mar não prende
arrasta para um fundo silêncio o náufrago
 
Da profundidade um rumor à superfície
a célula o osso o pó
 
E alguém encostado à parede saturada
de um estômago queixando-se
da baleia que o cuspiu como a um escarro
 
O tempo tem vida própria
Raramente não andamos desencontrados

 

domingo, 6 de junho de 2021

PRIMEIRO POEMA DO EXÍLIO

 


I. EXÍLIO

1.
um não lugar sobre a terra

prende-se ao coração
como animal de trela
a terra a que chamamos mãe
até que um dia crepuscular
o sol lhe bate de frente como um castigo
e a recusa progenitora e a renega cão vadio
e aos filhos trai impondo o extermínio
é quando o chão se mistura com o corpo
e pasa a ser pele preocupação fissura
bicho doméstico que nos olha em fome
quando o em volta começa a esfumar-se
incêndio na carne impropério
e a linguagem parece desaprender o seu desígnio
de ser ponte ramo ou rio

mas tem a terra mais sabedoria do que os homens
talvez porque não sente ou sabe nada ser para sempre
e pressentindo se antecipa ao sentimento
murmúrio assinala o tempo de partir o tempo de esquecer
e assim ensina aos homens que é longe das paixões
o curso natural das coisas e das casas
donde que o que tinha sentido e afecto
assume a sua finitude a violência do destino
e então o lugar passa a ser um não-lugar
a terra um vazio de deus e do crer

em menos de um céu de tempestade
a pele de cordeiro que o homem veste
leva-o a duvidar do sentido e da pertença
sobre o solo milenar que chora
a ficar em cuidado e a terra súbita parece abrir-se
como se quisesse examinar-se por dentro da secura
nos côncavos da vertigem e da insânia
a terra que já não chama o colóquio das virgens
a contemplação das sombras em torno
da fogueira dançante das crianças
por dentro do riso e do encantamento
em abono do mal a terra parece gritar
incompatibilizada com as searas as estações e as magias
como se um tempo maduro por excesso
houvesse nela lavrado um abismo insuperável
irmanando vermes e pedras homens e plantas —
o absurdo da cruz ou da coroa em espinhos.

e o dia vem em que aos augúrios e aos anciãos já ninguém
concede préstimo ninguém consulta ou interroga
mas como proceder quando já não nos reconhecemos
na forma do humano? como regar a nossa vontade
e alimentar o riso dos nossos filhos agora sem o dom das águas?
sem o sopro das borboletas o outro do trigo?

tornou-se noite antes da noite
a luz e o mel dos dias devêm memória corrupta
como o são as liras e os cantos de barro das correntes
águas que outrora se diriam cavalos sem freio
promessas de delírio e encantamento
cujos peixes eram dança conluio de brilho e abastança
milagres do excesso e abundância
ao próprio vento como a um jarro se quebraram as asas
derisão ou fundo de vaso grego
negra narrativa do sombrio
os pássaros partiram para outros jardins
a inscrever a liberdade noutros céus
o centro da aldeia a malga o pão partilhado
ficaram vazios escoroados agora dança nenhuma
ou invocação de divindades fará reverberar
um estremecer no olhar dos velhos
exumando o passado das tardes e vinho
rente ao aroma florescente dos sexos ao hino das mulheres
a caça e o sangue rescendendo como dádiva

era isso quando havia sombras vivas sobre a terra
porque as árvores eram ainda de raízes fundas
e delas brotavam ramos e folhas e raios de luz
e havia formigas e libelinhas e despreocupação
fartos os seios das mulheres
e todo o tempo parecia breve para tanto viver
e pouco ou nada aquele perturbava
no desconcerto do ordenado caos do acontecer

mas até o chão reclama quando é muita a rega
e tudo aquilo que era tal doce lembrar
tomava lentamente as formas do deserto e ameaça
enleio de ferida engastada nos rostos
a fome sugava lentamente os ossos do gado
a desconfiança medrava como cancro e até entre amigos
a música por vezes se calava e começavam as palavras
a ganhar peso e a pensar duas vezes
antes de estenderem a mão ao outro.
e veio a privação que sucede à fome
e com ela o exército da miséria e cegueira das almas
vieram as sombras debruçadas em pesadelos
e com elas os medos cruéis
as noites de maus pressentimentos
sonos inquietos luz em fuga — e era esse um tempo
em que a palavra deus já quase nada respondia.

Pedro Teixeira Neves, in A Parte que Nos Toca, Editora Labirinto, s/d (2020?), pp. 9-11.

sábado, 5 de junho de 2021

ROSTOS DA MORTE

 

Tendemos a encarar a morte ou como o fim da existência material ou como o princípio de uma vida imaterial, a qual só por postulado admitimos. Dessa não temos experiência, tal como não temos experiência da nossa morte, pelo menos da morte definitiva, a que interrompe a contagem do tempo, a que suspende a passagem das horas, a que delimita a presença neste mundo empiricamente assimilado. A experiência que temos da morte vem da observação da morte dos outros, vem do sentimento de perda instaurado pelo desaparecimento do outro. Experiências de quase morte não são experiências de morte, o advérbio demarca a diferença entre facto e aparência. Uma morte aparente não é uma morte. O último ano e meio universalizou, porém, essa relação com a morte que imaginamos ser de há muito aquela que têm os povos ditos menos favorecidos, as vítimas dos conflitos insanáveis e das eternas querelas sanguinárias. Passámos todos, o mundo inteiro, a estar em guerra, ainda que não escutemos o rebentar das bombas nem cheiremos napalm pela manhã, ainda que, de um modo ou de outro, e onde tal é possível, permaneçamos protegidos pela paz silenciosa dos abrigos a que damos o nome de lares. Fechados em casa é como se o mundo deixasse de existir, o tal mundo dos atentados e das ameaças, o de todos os perigos imagináveis, embora dentro de casa também se mate. Damos graças, no entanto, por não vivermos na Síria ou na Serra Leoa. Aí os níveis de intimação são infinitamente superiores àqueles a que estamos habituados em Portugal ou no Canadá. Mas o último ano e meio foi de invasão. A morte invadiu-nos. Desde que a pandemia assumiu protagonismo mediático, o nosso dia-a-dia noticiário passou a ser pautado pela contabilidade dos mortos. Os pivots de telejornal falam da morte como quem anuncia os resultados de um campeonato de futebol. Que efeitos serão produzidos por este novo paradigma é ainda cedo para prever, os mortos continuam a ser contados. Relatos de profissionais de saúde em desespero, imagens angustiantes de cremações e enterros em massa, sem direito a luto nem a rituais fúnebres, perdurarão nas nossas consciências durante largos anos. A morte é, pois, um tema premente. Em Rostos da Morte (Relógio D’Água, Abril de 2021), o filósofo Byung-Chul Han procura compreendê-la para lá da conjuntura social, cultural, política, histórica. Fala em «alguns tipos de morte». As investigações filosóficas que nos propõe só de um modo indirecto se ligam à actualidade, resultam de um trabalho especulativo em torno das obras de Adorno, Heidegger, Levinas, Derrida, em busca de uma ontologia da morte que permita entendê-la para lá da experiência material do cadáver.
   Com Heidegger tomámos consciência não só do ser para a morte que é estar aqui como também dessa perscrutabilidade a que a existência do cadáver está sujeita. O cadáver não é o fim do eu, poderá ser dissecado, estudado, reaproveitado. O fim, o termo, aquilo que acaba experiencia-se diariamente e de modos tão frugais que nem lhes atribuímos relevância. O fim de uma leitura, o fim de uma viagem, o fim de uma refeição, são formas de experienciar uma finitude que acabamos por atribuir a tudo quanto vive. Viver é estar à morte, mas, paradoxalmente, «é a morte que mantém viva a vida». Isso mesmo revela Adorno ao falar da vida enquanto quintessência da morte, a possibilidade de um ser vivo se conservar ao prodigalizar-se. Platão, no Fédon, faz da morte objecto de aprendizagem para chegar à imortalidade da alma. Viver é o contrário de estar morto, viver é um ir morrendo, na morte dá-se a vida autêntica, a eterna, ideal. O que nos leva a recalcar a morte será a dor que ela provoca, a dor de nos sentirmos efémeros, essa mesma dor que relativiza a heroicidade e subjectiviza a coragem. Não temer a morte, no limite, redunda numa ausência de temor à vida, uma ausência de temor que estará na origem do ateísmo. O ateu que sofre com a morte não sofre por se sentir finito, a eternidade é-lhe irrelevante, mas antes por se descobrir impotente.
   No ensaio Sobre a Ética da Morte, Byung-Chul Han recorda que «não há nada para dizer ao moribundo»: «Toda a palavra de amor perante o morrer do outro o distrairá da sua solidão fundamental, a única em que seria possível a sua morte própria». Talvez o amor nos distraia da morte, talvez a morte funde uma necessidade que leva a isso a que chamamos amor. Amamos o outro para nos distrairmos da morte, o amor funda a geração, a criação e a recriação, o amor oferece-nos a possibilidade de uma continuidade e a ilusão de que não estamos irremediavelmente sós, esse amor que fundindo confunde. Levinas dirá que se morre na solidão. A experiência da morte é, pois, a experiência de uma aporia. A morte é e não é ao mesmo tempo, é um alguém ninguém. 
   A propósito de Derrida, o filósofo sul-coreano questiona: «O “mortal” não será realmente para Derrida mais do que o animal nervoso, inquieto, perseguido? Quando será possível serenar-se?» A ideia de serenidade diante da morte é uma herança antiga que o pensamento instaurou mas os factos desmentem. Neste livro não se reflectem o suicídio e a eutanásia enquanto desejo de morrer, o desejo da morte do outro que alimenta o guerreiro também não se discute. Os Rostos da Morte são pacíficos pensados com tal distanciamento, tornam-se mais agrestes no contexto de situações limite em que somos levados a aceitar a morte enquanto alívio (a nossa e a do outro que nos agride, condiciona, oprime, humilha). São problemas alheios a esta obra, mas que nos levam a pensar na morte como parte integrante de uma vida inquieta na sua essência. A serenidade acaba por ser uma idealização que busca conforto para uma realidade insuportável: a ruína, a destruição, o assassínio, a guerra, o suicídio, o crime, a eutanásia, o desejo de morte, repousam no coração e na vontade dos homens, não só como meios para um fim mas também enquanto fins em si mesmo. A besta não mata só para satisfazer a sua voracidade, mas também por divertimento.
   O divertimento da morte, mais generalizado do que se julga, até em espectáculos legitimados pelo poder (touros de morte, por exemplo, caçadas, safaris, todo o tipo de barbaridades que em contexto de guerra se chamam troféus), assim como a convivência indiferente com a tragédia fatal (como aquela a que assistimos no Mediterrâneo), levam-nos a ponderar uma relação com a morte fora do subterfúgio moral da consciência humana esclarecida quanto à vida. Essas mortes a que somos indiferentes não indagam a nossa própria morte, antes reforçam a convicção de que o ser da morte não se explica senão a partir de uma compreensão do ser da vida. E no seu núcleo mais activo iremos encontrar inevitavelmente uma crueldade e uma violência que não questionam, limitam-se a actuar em função de necessidades cada vez mais restringidas ao plano da conformação. É a vida, é isto a vida, já não sofre, é a lei da vida, ouvimos dizer num funeral. Palavras que não reconfortam senão quem as profere, pois nelas está inerente a ideia de uma impotência que só na crueldade vislumbra libertação. Na realidade, a morte não é a lei da vida. A lei da vida seria viver, não fosse matar.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

ELOGIO DOS TUDÓLOGOS

 


   Ansiedade e insónia, maleitas antigas que a idade e o ar dos tempos têm ajudado a mitigar. Com a idade, a gente aprende a relativizar a gravidade dos problemas. Com o ar dos tempos, cravejado de problemas, a gente vê-se na obrigação de ficar selectivos e criteriosos, usando de esperteza para encontrar remédio onde outros vislumbram aflição e motivo para angústia.

   Por via de confinamentos, emergências e calamidades, recolhido no lar, dei comigo a navegar num mar de especialistas que sobre tudo peroram e sobre nada calam. Um que apareça a concluir “não sei”, e a gente alça as orelhas como canídeo expectante. Não sabe? Como é possível? Hoje toda a gente sabe tudo. Que raio, alguém assumir um pouco que seja de ignorância onde a genialidade, ao contrário do bom senso, parece ser a coisa mais bem distribuída do mundo.

   Portanto, em terra de génios quem ignora é rei. A ignorância ressuma excepcionalidade. Apercebi-me disto, pela primeira vez, quando era livreiro, tantos os pais e as mães e os tios e as tias que me pediam sugestões para os seus meninos. Questionados sobre a idade dos petizes, lá vinha o “mas” sublinhando espantosas qualidades: 5 anos, mas muito desenvolvido para a idade; 8 anos, mas já parece que tem 15; 15 anos, mas de uma maturidade inaudita. Como podia eu saber, ou sequer imaginar, ser este um país de gente sobredotada? A gente olha à volta e não se nota, vê-se ao espelho e foge.

   «Quantos deve haver no mundo que fogem de outros porque não se vêem a si mesmos!», exclamava o bom Lazarinho de Tormes. E com razão. Quase 500 anos passados sobre as desventuras desse maltrapilho, eis-nos chegados ao Portugal dos tudólogos. São uma bênção, um conforto para a alma dos néscios e um consolo para o espírito dos estúpidos. Inda há dias, contava a um bom amigo, cozinheiro de profissão, dos efeitos benditos que fui descortinar na melhor das tisanas, a programação de tudologia disseminada por 500 canais televisivos ao dispor de precatados cidadãos. Até o Porto Canal tem os seus. Não lhes fixei o nome, que para tais fármacos as farmácias não exigem receita detalhada, mas há por lá um rapaz, que aparecia a comentar bola e agora aparece a comentar tudo, que é tiro e queda. Mal o escuto, ferro-me a dormir.

   Entre ancestrais e anciãos, os do “Eixo do Mal” poupam-me milhares em benzodiazepinas. Aurélio, Oliveira, Marques Lopes, Luís Pedro Nunes e Clara Ferreira Alves? Benza-os Deus e todos os santinhos. Não os escuto há 10 minutos, já a mulher fecha a porta da sala para não me ouvir roncar. Em bom rigor, acordo assim que os ditos se calam, as vozes dos tudólogos devem produzir um feitiço qualquer, são um poderoso soporífero pelo qual devemos sentir-nos agradecidos. Não sei se curam covid-19, embora tudo saibam acerca do tema, mas insónias curam. Sou a prova factual disso mesmo. A família não me deixa mentir. Se me queixo de sono, noites mal dormidas, buscam na box um desses programas e abandonam-me na sala, deitado na sofá, como a um viciado numa casa de ópio.

   Num destes fóruns, na SIC Radical, é suposto expurgarem-se irritações semanais. Aquilo é de uma eficácia inacreditável. Anda por lá uma Carla Hilário Quevedo que é música “new age” aos meus ouvidos, ouvi-la é como se alguém soprasse ao ouvido, muito baixinho e serenamente, delicadamente, descansa filho, descansa, vem aí soninho bom e descansadinho, tranquilo. Ela abre a boca, eu fecho os olhos. O nome do meio até lhe fica mal.

   Devo pois um sincero reconhecimento a toda essa malta do comentário universalista, os tudólogos, sábios imprescindíveis a um sono relaxado. Melatonina? “Eixo do Mal”, “Governo Sombra”, “Irritações”, “O Último Apaga a Luz” (nome mais pertinente para um programa congénere não há)... Meus queridos e impagáveis tudólogos, envio-vos daqui um abraço sincero de profunda gratidão. O sono que me causam é proporcional à simpatia que vos tenho. Muita.

 

Henrique Manuel Bento Fialho

Caldas da Rainha, 05/Maio/2021



O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 70
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
Maio de 2021

quinta-feira, 3 de junho de 2021

UM POEMA DE RENATO FILIPE CARDOSO

PASSATEMPO DE UM MAPA SEM CURVAS

Há cidades imaginadas
para pessoas reais.
Há cidades reais
para pessoas imaginadas

Acontece-me estar numas
ou noutras
abrir o jornal de amanhã
e tentar encontrar as seis diferenças
escondidas num século
de liberdade
realmente imaginária.

Renato Filipe Cardoso, com João Rios, Pedro Teixeira Neves e Rui Tinoco, in Causas da Decadência de um Povo No Seu Lar, Edita-Me, Editora, Fevereiro de 2015, p. 59.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

O LAVRADOR DA BOÉMIA

 

   Santo Agostinho relata a perda de um amigo no Livro Quarto das Confissões. A violência da dor, que apenas o tempo apazigua, leva à dúvida: «o homem tão querido que perdera, era mais verdadeiro e melhor que o fantasma em que lhe mandava ter esperança». É dor do mesmo tipo aquela que ecoa no pranto do Lavrador concebido por Johannes von Saaz (n. 1350 – m. 1415), também conhecido como Johannes von Tepl. Pouco se sabe acerca da sua vida. Viveu a maior parte do tempo na Boémia e escreveu um poema de índole humanista que está na origem da peça agora publicada pelo Teatro da Rainha e a Companhia das Ilhas, com tradução de Isabel Lopes a partir da versão cénica francesa de Dieter Welke.
   O Lavrador da Boémia é um diálogo entre um Lavrador amargurado pela perda da amada e a Morte que lha roubou, um pouco à semelhança do que o realizador sueco Ingmar Bergman veio a conceber no magnífico O Sétimo Selo (1956) — embora aqui a morte jogasse xadrez com um cavaleiro de regresso das Cruzadas em tempo de peste. A discussão entre o Lavrador e a Morte, escrita num estilo filosófico muito comum em toda a Idade Média, estava ainda longe de possibilitar um jogo entre adversários tão desiguais. A desolação de um homem a tentar ultrapassar o luto da amada não tem argumentos à altura do todo-poderoso Senhor da Morte, mas, ainda assim, é de uma ousadia retórica imperturbável. A perda atiça-lhe a fúria, alimenta-lhe a raiva, impele-o a acusações que se misturam com lamentos em busca de um conforto fugidio. São uivos que ecoam desde que o homem se confronta com a finitude, mas neste caso sobrecarregados pela ausência de sentido.
   Distinguimos amiúde a morte por causas naturais das mortes inesperadas. Entre estas, as dos jovens são as que mais pesam por serem as mais absurdas. Porque morre alguém que ainda não viveu o tempo que julgamos justo viver? Porque desaparece precocemente quem aparenta estar a meio de um trajecto? O choque advém tanto da constatação do carácter contingencial da vida, sujeita ao acaso e ao acidental, logo sabotadora de uma ciência fundamentada no previsível, como da efemeridade do que vive. A dúvida impõe-se a quem parta de princípios como aqueles que vigoravam em 1401, ano em que o texto de Johannes von Saaz surgiu, e predominam em 2021: se Deus existe, qual a razão para levar tão cedo as suas criaturas? Por que razão permite Deus que uma criança morra? Neste caso, a jovem e virtuosa Margarida, a décima segunda letra, a Letra M, como no espectáculo levado a cabo pelo Teatro da Rainha em 2009, não seria merecedora de outra longevidade?
   São dúvidas legítimas, talvez mais hoje do que outrora, pois hoje podemos erguer-nos contra a vontade de Deus. Mesmo sabendo do fim inevitável reservado a tudo quanto vive, é possível questionar a ausência de sentido e especular sobre as razões de ser assim. As explicações desta Morte do humanista von Saaz são surpreendentemente racionais. A Morte racionaliza o espaço, é uma gestora de stocks, há nela uma função de organização da vida na Terra que justifica a economia da dor sugerida ao pobre Lavrador: «Quanto mais amor te derem, maior será o teu desgosto. Se tivesses amado menos, menor seria o teu desgosto». É um argumento perigoso, pois este amor pode não ter como objecto apenas o outro, mas também o próprio e até, em último caso, a vida em sentido geral. Pode a dor ser superada pelo desamor?
   Numa coisa a Morte tem razão, a sua metodologia corresponde a uma inexorabilidade que está no princípio da própria vida. É do húmus que medra a flor. O Lavrador tem dúvidas, questiona: «Quem sois vós? Donde vindes? Onde estais? Para que servis?» E a morte responde: «somos o fim da vida, o fim da existência, o fim do ser, e a origem do mundo». Eis uma ontologia da morte, se tal coisa for possível, que ainda hoje preservamos sem direito a grandes desvios. A Morte torna-se então sarcástica, impõe as suas razões a um Lavrador desesperado. O Lavrador é a vida, lavra e semeia. A Morte ceifa. Lavrar e ceifar são, no fundo, a essência do dinamismo que permite a renovação e a renovação é imprescindível para que o Tempo não cesse. Em cessando o Tempo, pois que tudo cessaria.
   Não devemos pois ser tão cruéis para com a Morte, mesmo quando ela parece ser implacável para connosco. Não tendo do homem a melhor das opiniões, como questionar-lhe a vaidade que nos aponta e a tolice que desvela sempre que se nos apresenta? O pranto do Lavrador é compreensível, mas inútil. É aceitável, mas infrutífero. Pelo menos em aparência, porque, na realidade, é desse pranto que brota aquilo a que podemos chamar uma clarividência da Morte. Ela desmente o princípio de não contradição, a sua natureza é ambivalente e dúbia, a morte é e não é ao mesmo tempo, rodeia-nos sem que a vejamos, acompanha-nos sem que a sintamos. Só a nossa própria morte não choraremos, pois quando ela chegar o medo terá partido. E o que leva ao choro, na verdade, é o medo, nada mais senão o medo. O medo do desconhecido, o medo da solidão, o medo do abandono, é o medo que nos faz chorar. O medo da morte, da morte nossa descoberta na morte dos outros.

terça-feira, 1 de junho de 2021

POSITIVELY 4TH STREET (1965)


 

Leio num poema do Pedro Teixeira Neves qualquer coisa sobre mapas em branco, as superfícies da pintura e da escrita. Lembro-me de uma canção do Dylan que pode ser interpretada à laia de carta aberta, sem refrão, publicada isoladamente, como single, fora de qualquer álbum onde pudesse ser parte integrante de um conjunto que lhe conferiria necessariamente outro significado. Foi, no entanto, um single de sucesso, acabando por figurar em várias colectâneas do singer songwriter  nobelizado em 2016. A associação por mim produzida entre o poema e a canção tem que ver com dúvidas pessoais acerca da asserção encontrada nos últimos quatro versos do Pedro e, quanto a mim, desmentida pela canção do Bob. Diz o poema: «escrevemos e pintamos sempre / a página em branco / o vazio aguardando o fulgor da voz / o lugar da mão». Diz a canção: traíste-me, és um hipócrita, põe-te nos meus sapatos. É um recado. Ora, escrever é, sem dúvida, uma espécie de pintura. A gente literalmente mancha a brancura da página com a tinta de uma esferográfica ou o carvão de um lápis, os caracteres virtuais das páginas potenciais. A palavra paisagem pode por si só não ser uma paisagem, mas acompanhada de montanhas e regatos e passarinhos a cantar é como um quadro ou uma fotografia. Há uma sugestão imagética nas palavras, mas também a há sonora. A diferença estaria na cor se as cores não fossem sons. Eu estou convencido de que são. De resto, o Jimi Hendrix também estava. O que a canção me parece confirmar é que não escrevemos sempre a página em branco. O que escrevemos é uma reescrita, a página já foi escrita antes de a escrevermos. E, na verdade, julgo que estamos sempre a escrever sobre o já escrito. A página em branco é a morte. Aquele tratamento que se dá às telas é já uma pele cromática sobre a qual vamos espalhar cores. Há pintores que passaram a vida a pintar sobre pinturas, sobrepondo tintas e traços, rasurando, tentando refazer o feito ou buscando um fim para o que iniciaram sabendo que tudo quanto se começa não tem fim. Não sei se estão a ver, mas imaginem uma tela sobre a qual se pintaria uma pedra sobre a qual se pintaria um rio sobre a qual se pintaria um monte sobre a qual se pintaria um cavalo sobre a qual sucessivas camadas de tinta sobrepostas formassem uma espessa e densa textura rochosa. É como hoje por acaso me disse a Ana Biscaia, desculpando-se por uma frase que não tem fim. Escrevemos frases que não têm fim e pintamos frases que não têm fim sobre brancos que só existem enquanto ideia, isto é, enquanto verdade anterior à expressão ou à representação. Uma frase que não tem fim, escreveu ela. E eu rescrevi agora e é provável que venha a rescrevê-lo algures.

UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES

 


APRENDER A LUZ

a espessura do cabelo mais fino
é uma brincadeira quando comparada
a um nanómetro

soube hoje pelo jornal

é agora possível apertar a luz
até à espessura de um átomo.

tomo um copo de água
apago a luz.

amanhã irei cortar o cabelo
e o mundo seguirá
entre um aperto e outro
por entre a luz seguiremos.

entre prender ou libertar a luz
prefiro gastar as minhas energias
a tentar aprendê-la

aprender a luz
com a paciência milenar do mar
no tecer dos líquenes e dos corais
aprender a luz
no lento fossilizar dos horizontes
ou como quem aprende a idade dos glaciares
a linguagem das pedras
o segredo dos rios num corpo de mulher

é preciso aprender a luz
como o amante que só com os olhos fala
e nesse brilho se enamora.

Pedro Teixeira Neves, in Uma Vírgula Depois, com Ivo Machado, Glaciar, Janeiro de 2019, p. 65.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

NOTA DE RODAPÉ

 


A minha recordação mais remota está banhada em vermelho. Saio de uma porta nos braços de uma rapariga, o chão é vermelho à minha frente e à esquerda há uma escada que desce igualmente vermelha. À nossa frente, à mesma altura, abre-se uma porta e aparece um homem sorridente que avança amigavelmente na minha direcção. Aproxima-se muito, pára, e diz-me: "Mostra a língua!" Eu ponho a língua de fora, ele procura qualquer coisa no bolso, tira lá de dentro uma navalha e, com a lâmina quase a tocar-me a língua diz: "Agora vamos cortar-lhe a língua." Não me atrevo a pôr a língua para dentro, e a faca aproxima-se cada vez mais até ma roçar. No último momento, o homem afasta a navalha e diz: "Hoje ainda não, amanhã." Fecha a navalha e guarda-a no bolso. Todas as manhãs quando transpomos a porta e saímos para o corredor vermelho, abre-se a outra porta e aparece o homem sorridente. Sei o que ele vai dizer e espero que me ordene que lhe mostre a língua. Sei que ma vai cortar e tenho cada vez mais medo. Assim começa o dia, e a história repete-se muitas vezes.

Elias Canetti, citado por Byung- Chul Han, in Rostos da Morte - investigações filosóficas sobre a morte, trad. Miguel Serras Pereira, Relógio D'Água, Abril de 2021, p. 212.

domingo, 30 de maio de 2021

POEMAS AO SACRO

 
I
(canal sacral)
 
Em silêncio a dor insinua
a postura incorrecta
do descrente
 
Prostrando-o de joelhos
no chão frio
para que aprenda
à força da tortura sem algoz
o poder da fé
 
Na homeopatia
 
 
II
(forames sacrais dorsais)
 
O mal começa quando 
nos querem de pé 
 
De quatro seriam outras
as dores talvez
como as de quem sonha 
quando deitado acorda
arfando horizontalmente 
 
A verticalidade só 
traz desconforto 
o horizonte mente
a curva desmente
 
E o homem é
um quadrúpede de fé 
com deslocamento 
do sacro
 
O que resta do rabo símio
não é passado
de que me orgulhe
 
 
III 
(forames sacrais pelvinos)
 
Galardoado pela arte sacra
na base da coluna esculpida 
o homem gritou de raiva
ou de dor
 
Não dá para perceber 
 
A doença é uma humilhação 
incapacitante 
que tudo confunde
 
Só quem habita o corpo 
conhece os enigmas do templo
 
 
IV
(promontório)
 
Em vista de mim mesmo 
uma maré de dores vagas
que arrastam o sono
e inundam a paciência
com os detritos da escrita
 
Em vista de mim mesmo
nem uma nota de conforto
 
Tudo corpo
 
Tudo torto
 
 
V
(face articular lombossacral)
 
O sofrimento assoma ao rosto
fazendo-te engolir as palavras
 
Ficas com a barriga cheia
de vocábulos impronunciáveis
 
Cada letra é uma vértebra fora do lugar
 
Caligrafia desalinhada
que só fora das margens
adquire sentido
 
 
VI
(processos articulares superiores)
 
Deite-se de barriga para baixo
Expire fundo
 
Já não moro no meu corpo 
Terei vendido a alma? 
 
Coloque-se de lado
Do outro
 
Estou do avesso dentro de mim
 
Sacramente inflamado 
Espiritualmente extinto
 
Sacrílego?
Deus não é dado a pormenores
 
 
VII
(crista sacral mediana)
 
Tive um galo que cantava
canto gregoriano 
Da sua crista cristã sacral
evolavam padecimentos 
 
E agora sobra-me esta mediania
acamada num silêncio 
pesaroso 
 
Nem galo nem fortuna
apenas uma dor que percorre a coluna
do sacro à cabeça
 
 
VIII
(faces auriculares do sacro)
 
Quantos rostos são os teus Senhor 
que em nenhum encontro conforto? 
 
Perdoa-me o ouvido interno surdo
a mesmidade do si-mesmo repetida
como alarme que a hora incerta
indica ao corpo as vias do alívio 
 
Poderá a tua face Senhor ser redonda
e branca e lisa como a do comprimido?
 
 
IX
(ápice do sacro cóccix)
 
Lá fora as asas dos pássaros
enxotam o vento
Vejo-os daqui pela janela
que dá para o fim do mundo
E escuto os motores
em movimento
as nuvens que passam
como o tempo 
lentamente
e tropeçam nas sombras dos astros
e caem por terra como cometas
 
Lá fora o movimento mudo
da Terra
coberta pelo sal dos oceanos
e pelo sangue dos homens
 
Estou deitado e escuto e vejo
e tento não pensar na demora
desta existência convalescente
num ápice aparecida
de súbito esquecida
enquanto lá fora até as árvores
parecem caminhar sobre raízes
e as rochas me surgem felizes
em torno de um eixo
fixo
deslocado
 
 
X
(processos transversos do cóccix) 
 
Sorriam-lhe as lágrimas
pelas faces pálidas
li por lapso numa história
do século XIX
e logo me ocorreu cevar
nesta raiva
uns versos travestidos de dor
 
São transversos o que escrevo
para não gritar
 
Em silêncio ninguém me ouve
só a mim a dor perturba
e nestes versos que ninguém lerá
sobra o consolo que por lapso
a doença inventa
para se fingir saudável
 
 
XI
(cornos do cóccix) 
 
O mais fácil seria dizer
há que pegar o cóccix pelos cornos
ou elaborar trocadilhos 
entre cornos e corpos 
Mas eu não estou para piadas 
falta-me riso à paciência 
 
Lá está 
o quão espirituosa logra ser
a ciência das palavras 
a doença que nos atinge 
como Deus a marrar-nos por dentro
e o corpo feito arena
sem público 
 
Isto é sobre a dor incapacitante
que atinge a coluna
esse pilar da consciência
que mantém de pé um corpo
diante da adversidade
 
Nada disto tem graça alguma
 
A piada estará em haver quem por acaso
compreenda a chama
que excita o pirómano
a falta de ar que agita
o peixe fora de água
o corno que perfura
o bandarilheiro
 
Não há nobreza na dor
mesmo quando disfarçada de prazer
exalta o submisso
ou provoca o martírio
a dor é uma ruptura
uma fractura
 
Nobre é o músculo que inquieta o osso
e faz caminhar na direcção do outro
não isto que nos prende dentro de nós
como se nada mais houvesse
além do corpo que sentimos
sofrer
 
Levanta-te e anda
 
Quem nunca perdoou
que fracture a primeira vértebra

BLOWIN’ IN THE WIND (1962)

 


Fosse tão fácil como gostar ou não de favas e teríamos o problema resolvido, mas não é. O gostar pouco determina quando está em causa um mundo. Gostas do mundo? Dir-me-ão que sim, em parte, algumas coisas não, outras sim, adoráveis coisas mundanas. O que é uma coisa? O mundo será uma coisa? Será possível habitar numa coisa? O mundo é uma encruzilhada e são múltiplos os caminhos para se chegar a lugar nenhum. Também se dá o caso de certos apreciadores de ópera detestarem westerns. Experimentem contar-lhes o argumento de um Ford como se fosse uma ópera de Verdi e é quase certo virem a ter uma surpresa. Formam-se no pensamento novelos de conceitos como cotão no umbigo, superstições quanto ao canto nasalado e o diafragma rachado, que num ápice metamorfoseiam a sabedoria em abusão. É como perceber que o tratamento às dores nas costas pode degenerar em problemas no estômago e então da dor nasce outra dor e ficamos tomados pelo desconforto como se não fosse possível libertarmo-nos dele. Somos monstruosas criaturas reféns de dores fantasma. Quando me meteram uma guitarra nas mãos, eu comecei por tocar Blowin’ In the Wind, The Times They Are A-Changin’, Knockin’ On Heaven’s Door, I’ll Be Your Baby Tonight, Quinn the Eskimo, All Along the Watchtower, e nunca mais escapei a esse labirinto, como uma dor que leva a outra dor. Portanto, se fosse fácil como gostar ou não de picante no esparguete, se assim fosse, de nada valeria caminhar sobre a Terra. Ela gira por si mesma, à volta de uma estrela, a mais de 100 000 quilómetros por hora. Era deixá-la girar. Seja como for, não chegaremos a lado algum. Certo como a Terra girar à volta do Sol.

sábado, 29 de maio de 2021

DIZER

 

Em Rostos da Morte, o filósofo Byung-Chul Han propõe uma onomatanatologia que procure responder à questão: «porquê dar um nome a um homem?» «O nome é a marca da fugacidade», diz, acrescentando que «ter nome próprio designa que se tem um destino e uma história». Esta mesma problemática pode ser vislumbrada no mais recente livro de poesia de Yvette K. Centeno (n. 1940), o qual se organiza em torno de um verbo fundador escolhido para título: Dizer (Eufeme, Fevereiro de 2021). Organizado em três conjuntos de poemas, cremos que o primeiro, intitulado Dizer (o mundo existe), e o terceiro, com o título Agora, se ligam de modo espontâneo, sendo o conjunto intercalar, escrito sob a égide da pintura de Pedro Chorão, uma espécie de intermezzo que não descontinua a corrente interpelativa acerca disto que dizemos ser o estar aqui. Martin Heidegger, evocado mais do que uma vez neste livro, definiu a presença, o estar aqui, como um ser para a morte, sendo a morte, antes de mais, a consciência que dela temos através da experiência da finitude e da experiência da temporalidade, ruína que leva ao desaparecimento. «A morte é, no entanto, apenas o “fim” da presença e, em sentido formal, apenas um dos fins que abrangem a totalidade da presença. O outro fim é o princípio, o nascimento», afirma Heidegger em Ser e Tempo. Ora, é precisamente no princípio, ao nascermos, que um nome nos é atribuído. Para quê? Para o outro nos identificar?
   O nosso nome não foi por nós escolhido, não é sequer uma conquista de que nos possamos orgulhar ou um estádio que se alcance por via do desenvolvimento da personalidade. É uma marca, isto é, um estigma submetido por um outro que nos é exterior. Podemos talvez dizer: o que nós somos é o outro do nosso nome. Este apresenta-se como uma espécie de sombra, a que Peter Schlemihl, também convocado por Yvette K. Centeno, vendeu. O nome não chega sequer a ecoar-nos, apenas nos persegue como uma sombra. Carregar um nome é também carregar uma história anterior à nossa própria existência. O nosso nome próprio não reflecte a nossa própria história, mas antes uma história que nos precede e liga a um passado, uma história que nos enraíza noutras histórias precedentes, raiz de uma genealogia carregada de nomes dos quais o nosso provém. Um nome cai na terra como um fruto maduro, funde-se com a terra, é húmus e semente de outros nomes.
  Seremos nós, a dado momento, quem nomeia. Começar a falar é começar a nomear. Ao poeta cabe renomear o mundo. No poema Alquímico, o último do primeiro conjunto deste Dizer, o jardim da primeira estrofe renomeia o Éden. O ciclo da vida cumpre-se caminhando: «Não abras o portão / desse jardim / nem fiques de fora / à espera // Segue / vê onde enterras os pés / procura onde deixaste / os teus sapatos / mesmo velhos e rotos / terão de ser calçados // O homem tem o teu nome / e já abriu na terra a vala / dos descalços» (p. 49). Os descalços estão por nomear, o que de certo modo quer dizer que estão por nascer, mas já a morte os aguarda pois é da natureza do gerado vir a perecer. Nomear é, então, fazer aparecer, nascer, mas é também dar ao desaparecimento, já que nascer é estar à morte. Quantas palavras esquecidas e desaparecidas neste mundo cada vez mais estreitado no ruído dos mesmíssimos vocábulos permanentemente repetidos? Adão torna-se mortal através do nome, que significa terra ou humanidade. Não há diferença. Nascer é abrir-se à morte, ou, como noutro poema deste livro se diz, «Risco de vida é estar vivo, / Tudo o resto é fantasia» (p. 44). Trata-se de um koan, textos que no budismo zen têm o propósito de iluminar espiritualmente os praticantes. Além dos koan, a Autora recorre também, de um modo muito informal, ao haiku como síntese poética privilegiada de reflexões invariavelmente relacionadas com esta interpelação da existência, da presença, do estar e ser aqui: «o que sou eu afinal, / o já caído / que a terra amortalhou / e tu, / o esplendoroso, / entre estes mundos?» (p. 25). 
   Mas por que razão «dizer o nome / é entregar a vida», como se sugere no poema Deméter-Perséfone (p. 40)? É como se o nome fosse uma coisa que se desse através do dizer. Pronunciar um nome é dar algo, há como que uma transferência do sentido que o nome incorpora. Assim sendo, o dizer é, antes de mais, uma doação, uma dádiva, um legado. No dizer há, assim, uma pro-criação. A poesia é essa interpelação que provoca as coisas. Nomear não é apenas oferecer ao esquecimento, é também gerar a possibilidade de relembrar. Não será por acaso que este livro oscila tanto entre a interrogação e a declaração, nele repousa uma espécie de súmula ao mesmo tempo extraordinariamente simples e complexa. Yvette K. Centeno, cujo primeiro livro foi publicado em 1961, mas a quem a história da literatura portuguesa tem reservado parcas linhas, lega-nos aos 80 anos de vida um dos melhores livros que por certo leremos este ano, vivo, inteligente e desafiante como poucos. A relação de proximidade com a pintura, arte por excelência do silêncio, seria outro tema a explorar. Fique o poema, o último deste belíssimo livro:
 
O PINTOR E A SOMBRA
 
(para o Pedro e a Graça)
 
Estava sempre a seu lado,
tão discreta
que se não fosse a luz
carregada de azul
ninguém diria
que estava ali a Sombra,
a Protectora
da alma dividida:
não se podia vislumbrar
e apenas emergia do silêncio
para afastar o Anjo
negro reverso da luz
que lhe fechava as portas
e se o deixasse sozinho
lhe secaria as cores
nas bisnagas escolhidas
cada dia

 
(Lisboa, 1 de Fevereiro de 2021)

sexta-feira, 28 de maio de 2021

UM POEMA DE IVO MACHADO

 


PAUL CÉZANNE

a luz me persegue como a tantos
antes de mim
Hortense era mulher de Cézanne
e dizia que o marido
não sabia o que fazia
não sei se Hortense pensava na luz
mas diz, Matisse, que ficou escandalizado
quando ela o disse
a luz me persegue como a todos
ante o juízo final
mas não era da luz que Hortense
se queixava
antes do carácter inacabado das telas
do marido
sim, era verdade
o pintor buscava o inacabado
e essa a minha caminhada
a luz inacabada
   do sal da terra
   da espuma da onda
   dos limões
   da palavra
   da alma
a luz do azul da melancolia
porém, Cézanne, perseguia o inacabado
e confessou-o numa carta à mãe
o acabado é o prazer dos imbecis.

Ivo Machado, in Uma Vírgula Depois, em parceria com Pedro Teixeira Neves, Glaciar, Janeiro de 2019, p. 74.

HAVERÁ MARCIANAS EM MARTE?



Maquilhagem: rímel, batom, eyeliner, sombras, pós, blush, unhas, pestanas, verniz… Jóias: brincos, colares, pulseiras, pregadeiras, anéis, broches… Vestuário: soutiens redutores, copas invisíveis em silicone, próteses, cintas… Saltos altos. Extensões. Injecções nas nádegas, nos lábios, onde aprouver. Unhas de gel, pestanas postiças. Depila. Ginásio, glúteos, bíceps, tríceps, stríceps em selfie para Instagram. Decora com um livro de poesia entre as pernas, fica bem, montes de likes. E tatuagens, claro, inevitável, um piercing ou dois ou três. Tudo isto e muito mais a embelezar, a estilizar, a turbinar. Uma caderneta de frases inspiradoras: sê tu mesmo, sê autêntico, a liberdade é o caminho, segue o teu instinto e alcançarás o reino dos escarcéus. O que mais aprecia num homem? A verdade, a honestidade e o sentido de humor. O que mais aprecia numa mulher? A alta-fidelidade. Viram os ingleses? Eram estereofónicos, entoavam cânticos em registo quadrifónico. A miss universo é mexicana, os marcianos não concorreram. Haverá marcianas em Marte? E na Terra?

quinta-feira, 27 de maio de 2021

UMA JOVEM COISA PEQUENA

 


Em "A Origem da Obra de Arte", Heidegger fala de "uma jovem coisa pequena". Como é sabido, nesse texto Heidegger designa como "utensílios" o par de botas velhas de um quadro de Van Gogh. Como qualquer utensílio, essas "botas de camponês" definem-se em função da sua utilidade. Mas é interessante que aqui a utilidade das botas se restrinja exclusivamente ao andar e ao trabalho. Uma rapariga com sapatos de salto alto, andando com dificuldade nas grandes avenidas, seria para Heidegger "uma jovem coisa pequena" porque, ao contrário da "camponesa" que anda a trabalhar com as suas botas, que não sente sequer e ainda menos exibe, mantém com o seu calçado uma relação deformada, por não aperceber o sapato no seu valor de uso como utensílio do andar ou como utensílio laboral: "Pois bem, as  botas rústicas são postas pela camponesa quando trabalha no campo e só nesse momento são precisamente o que são. São-no tanto mais quanto menos a camponesa pensa nas botas durante o seu trabalho, quando nem sequer olha para elas nem as sente. A camponesa firma-se nas suas botas e anda com elas." A jovem rapariga que traz sapatos de salto alto estará sempre preocupada com eles. Senti-los-á a cada passo nas grandes avenidas e exibi-los-á constantemente. 

Byung-Chul Han, in Rostos da Morte - investigações filosóficas sobre a morte, trad. Miguel Serras Pereira, Relógio D'Água, Abril de 2021, p. 164.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

BODY AND SOUL (1930)


 

Estranhos delírios nos assomam como as marés, num vaivém que há-de ter suas causas e razões. Na companhia de um ex-amigo, calcorreava campos em busca de cerejas. Eis algo que não me recordo de alguma vez ter feito, apanhar cerejas. Ia também connosco o meu falecido cão, o Basquiat. À solta, como tão fácil era andar com ele. Mais obediente do que a Nala, não causava cuidados desprendê-lo da trela. Deparei com algumas árvores de fruto pelo caminho, nenhuma dava cerejas. A dado momento, reparo num arbusto onde reluziam uma espécie de pimentos muito pequenos. Apanhei alguns que fui atirando para o interior de um saco de plástico. Quando me levanto e volto, abria-se atrás de mim um imenso vale com uma cerejeira carregada bem no centro. Nós estávamos no cume de um monte recortado por socalcos e patamares, como aqueles que por vezes se vêem cobertos de vinhas, mas em vez de vinhas tinha construções de cimento, levadas, escadarias, habitações abandonadas. Tínhamos de descer, encontrar o melhor caminho para chegar à cerejeira. As construções em cimento eram labirínticas e acidentadas. Vi o Basquiat afastar-se rapidamente. Preocupado com ele, separei-me do meu ex-amigo e desci no encalço do cão. Gritava sem obter resposta. O cão prosseguia indiferente, agora obedecendo a uma mulher de aspecto rural, cabeça coberta por um lenço, saia cinzenta, avental à cintura. O cão desapareceu atrás da mulher. Aflito, eu gritava em vão, descia apressadamente, metendo-me por caminhos desconhecidos até dar por mim preso num beco sem saída. Não tinha como libertar-me, estava completamente só e entregue à sorte. Quando acordei, com a Nala aos pés da cama, a primeira coisa que fiz foi procurar no telemóvel fotografias da Sarah Vaughan. A mulher do sonho era igual, mas branca. E vestia-se como as minhas avós. E não cantava. Mas era igual.

 

Nota adicional e irrelevante: Body and Soul foi escrita por Edward Heyman, Robert Sour e Frank Eyton, com música de Johnny Green, para a actriz britânica Gertrude Lawrence. Chegou a estar banida da rádio por alegadas referências sexuais, mas tornou-se um standard interpretado e gravado por inúmeros artistas.

terça-feira, 25 de maio de 2021

FICAR NO PATAMAR

 


À excepção de O Patamar, os cinco caprichos teatrais de José Gomes Ferreira pareceram-me agora datados e menos interessantes do que quando os li pela primeira vez. Talvez à época ainda me entusiasmasse certo discurso entretanto ultrapassado pelas circunstâncias. São peças políticas sobre diferentes modos de receber a notícia de uma revolução, ecoam já distanciamento, porventura desconfiança quanto ao rumo tomado, e algum desencanto. Falar do 25 de Abril de 1974 como se fala em Manhã Morta ou Os Novos e os Velhos exala o mofo das meras curiosidades arqueológicas. Nem tudo é antiquado. Os cenários sugeridos nas didascálias têm em comum as escadas, aspecto que não é de todo desinteressante. A escada permite uma ocupação do espaço que não é meramente decorativa, apela a movimentos ascensionais e descensionais que podem favorecer a acção. Na peça O Patamar os lances de escadas são acompanhados por iluminações que inspiram sentimentos diferentes, conforme o vermelho ou azul insinuados. Continuo a encontrar piada no velhinho que bate à porta do Sr. X, testemunha do pregador da salsicha sagrada, missionário com o sonho de converter alguém à causa do Divino Salsicheiro. Ainda tem um sonho, o velhinho. Diríamos que, fosse vivo, venceria na vida. Com o passar dos anos Portugal foi completamente ensalsichado. Chamam-lhe americanização ou hegemonia capitalista. O que quer que seja que lhe chamem é cada vez mais um facto, reforçado pelo ilusionismo hipnótico de uma rede que cativa porque aparvalha, que captura porque infantiliza, que seduz porque facilita, que aprisiona porque desprotege. Isto é, uma rede que esgota o discernimento crítico que podia ajudar cada um de nós a tomar posições conscientes. Creio que tendem a rarear neste contexto de entretenimento industrial massivo que, como outros previram há muito, faz de cada um de nós um artista de variedades. O segredo do sucesso está na técnica do esvaziamento, a qual pressupõe um vazamento (esgotar lembra esgoto, é isso a rede). Quanto mais vazio, mais deslumbrante. Quanto mais fugaz, efémero, descartável, ligeiro, mais estético. Nunca o lixo foi tão apreciado, nunca a porcaria foi tão valiosa, nunca os dejectos foram tão aglutinadores. Nunca as salsichas tiveram tanto sucesso. O velhinho da peça acaba por se acomodar num patamar. Gosto da solução: «Prefiro ficar no patamar. Bem vê: casa tenho eu prometida no céu e na terra. Já lhe disse que, quando deitaram abaixo o bairro de lata onde vivia, me prometeram um palacete para daqui a cinquenta ou cem anos com colunas e tudo? Prefiro o patamar. Estou convencido de que até, quando morrer, nunca passarei do patamar. Ui! O medo que eu tenho de Deus. Atrevia-me lá a pisar o céu. Tropeçava logo na primeira nuvem do caminho.» É um exemplo a ter em conta, mesmo que ao subir ele vá ponderando criar uma nova religião. «Céu nosso que estás na Terra e só falta aos homens coragem e audácia para o agarrarem e não o largarem mais», responde-lhe o irónico Sr. X.