sábado, 10 de abril de 2021

«AQUILO QUE É»

 

   Paris, 1984, 7 de Março. Gérard Lebovici, homem influente da indústria cinematográfica francesa, revolucionário editor da Champ Libre, com forte ligação ao situacionista Guy Debord a partir de 1971, é encontrado no interior do seu carro com quatro balas na nuca. A autópsia revela assassinato, cometido dois dias antes de haverem dado com o corpo. Nunca se apurou a autoria do crime, mas correram rumores que apontaram em diferentes direcções. O próprio Debord chegou a estar sob suspeita, assim como, mais tarde, responsáveis pelo combate ao terrorismo às ordens da presidência de “mon ami Mitterrand”. Facto é que na França de 1984 um editor de livros inconvenientes, refira-se en passant, foi barbaramente assassinado. Era assim quando os editores de livros e os escritores e os intelectuais e os artistas tinham verdadeiro peso em sociedades a salvo dos lenitivos cibernéticos e dos psicotrópicos algorítmicos.
   Não vale a pena queixarmo-nos do presente com nostalgia do passado, as coisas são o que são e é no e com o que temos que a acção revolucionária, progressista, insubmissa deve desbravar caminho ao encontro de mentalidades mais críticas, esclarecidas, inquietas, abertas e inconformadas. Essa é uma das funções que vem cabendo a pequenas editoras como é o exemplo da Barco Bêbado, de Emanuel Cameira, que não se exime de dar trabalho aos leitores insistindo na publicação de epistolografia que, de um modo lato, mas evidente, contribui para demarcar o seu território de acção. «Aquilo que é» (Fevereiro de 2021), troca de correspondência entre Jaime Semprun, Guy Debord e Gérard Lebovici, com tradução de Miguel Serras Pereira e ilustrações de Manuel Baptista, insere-se neste contexto dissertativo de princípios e propósitos, à laia de livro de estilo, meticulosamente delineados através da recuperação de textos que nos dão a ver, como bem refere Eduarda Neves no posfácio, «indivíduos para quem as folhas em branco se desdobram em território de luta» (p. 58).
   Datam estas cartas do final de 1976 e início de 1977. Semprun interpela Debord acerca da sua possível influência na decisão da editora Champ Libre recusar a publicação de umas teses sobre a situação espanhola depois de haver publicado La Guerre sociale au Portugal (1975) e Précis de récupération, ilustré de nombreux exemples de l’histoire récente (1976), recebendo do autor de A Sociedade do Espectáculo uma longa dissertação sobre o que deva ser uma editora, qual a sua função social e o papel de um dos seus autores nela: «Apesar do que alguns possam dizer, eu não sou o Weltgeist sentado atrás das garrafas e a Champ Libre não é criação minha» (p. 19). Acresce, em tom sarcástico como manda a regra, a questão — sempre folclórica nestes casos — das relações pessoais. Sem pretender saciar a curiosidade voyeurista de eventuais leitores, não resisto à citação: «Creio que pessoas que se aborrecem juntas fazem melhor em não se verem, qualquer que seja o seu acordo sobre uma quantidade de questões, e sobretudo sem se crerem obrigadas a edificar a partir disso divergências teórico-práticas mais vastas que não estavam em causa no caso» (p. 31). Uma lição para vida.
    Se, por um lado, facilmente se admira a obstinação de Semprun na defesa do seu projecto, por outro compreende-se o que terá afastado tanto Debord como Lebovici. No entanto, em vez de transformar esta guerrilha epistolar numa espécie de batalha naval, para a qual contribuiriam juízos de valor e de carácter porventura precipitados, o que há a reter entre os implicados é a consciência da seriedade subjacente a um projecto editorial, o qual não se ergue para satisfazer as vaidades de uns e alimentar os egos de outros, mas sim com um fim de participação cívica na vida pública que passa por encarar a publicação de um texto como uma ferramenta de acção, que não de propaganda e, muito menos, de mero entretenimento. «Podes saber que não tenho qualquer gosto maníaco pela escrita, e pensarás bem que se escrevi este livro não foi por querer a todo o preço entregar anualmente ao público as minhas reflexões sobre o problema do dia» (p. 43), assevera Jaime Semprun. Ora aqui está um excelente mas temo que frustrante desafio, tentar perceber a razão de ser e o propósito de tanto livro que hoje se escreve e se publica.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

PORTUGUESES

Quitéria está em êxtase, hoje já viu gente criticar o juiz Ivo Rosa que está convencida de que Bruno de Carvalho é um anjo na terra, Pinto da Costa um Deus impoluto e Luís Filipe Vieira um Papa inatacável. Portugueses, o outro é que tinha razão: só vos faltam as qualidades.

ALERTA QUITÉRIA

Rui Rio convida José Sócrates para encabeçar lista do PSD à junta de freguesia da Misericórdia. A da Ajuda também não está fora de questão.

QUITÉRIA NO CAMPUS

Lá fora, os passarinhos cantam. Entre as pernas, a passarinha chora.

UM POEMA DE RITA TABORDA DUARTE

 


FECHADO PARA BALANÇO

Culpo-te por não te amar em quase nada
e cuspo-te cada letra da culpa que é a tua.

É um xadrez que jogamos sempre juntos
rei branco em casa preta, adversários velhos
a mastigar estratégias de serão.

Culpo-me de te amar no final em quase tudo
e tu culpas-te por me culpar por me não amares.

Trazemos, então, o livro dos registos
e fazemos contabilidade, noite dentro.
Não sei como serão outros amores
mas o nosso é um longo livro nocturno dividido
em deves   em haveres   por um leve traço a sépia debotado.
Rasuramos e apagamos e voltamos a somar,
passamos cheques, recolhemos dividendos:
numa matemática cega, sem mais valias;
que nunca vão certas as contas deste amor.

Fazemos batota com as pedras do xadrez:
escondemos peões nas mangas largas,
uma rainha a mais entre as fraldas da camisa...
sussurramos bluffs embriagados sob a mesa,
duas torres arrasam uma diagonal inteira
e os cavalos sem freio a arquejar no tabuleiro;

o nosso jogo-de-xadrez é um exército desleal de armas de arremesso.

Ao final da noite   somos dois reis sozinhos
preto e branco
a remoer o xeque das contas repetidas
conferimos, então, os números que nunca batem certo
e fechamo-nos com um aviso à porta, gasto e rasurado:

fechado para balanço do amor.


Rita Raborda Duarte, in Roturas e Ligamentos, com ilustrações de André da Loba, Abysmo, 2.ª edição, Junho de 2016, pp. 23-23.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

DEPRIMENTE

Perdoar-me-ão o alarde, mas sinto-me cada vez mais genial. A culpa não é minha, nada fiz por merecer tamanha inteligência, mas sim da mediocridade reinante. Acabei de ver na televisão a confirmação de Suzana Garcia como candidata do PSD à Amadora, justificada por um tonto que se deu ao trabalho de branquear as alarvidades proferidas no passado pela dita candidata. A questão sobre castração química de pedófilos, que se o povo quisesse que fosse física teria de ser, porque o povo é que manda e mai’ nada, foi a cerejinha no topo do creme suíço: «é uma posição que não é a defesa da castração química mas sim a defesa de uma terapia medicamentosa do controlo do libido». Ao lado, em pose múmia obediente, a ex-presidente da minha terra natal. Tudo lindo de se ver e de se apreciar. A tal Garcia é do mais bronco pimba que possa imaginar-se, aquele tipo de grunha histérica com estudos que o mundo do espectáculo adora promover sob argumento de que não tem papas na língua. Eu até duvido que tenha língua, que aquilo é tudo papas. Não estou a referir-me ao aspecto físico da criatura, que não me é indiferente porque as prefiro carnudas, aludo ao simulacro de pensamento ostensivamente decotado. Chamam-lhe falar sem filtros, que é o que os burgessos fazem. Percebem? Se não perceberem, podem votar nesta gentalha. Apanhar com isto tantos anos depois de ver a Manuela Moura Guedes na AR faz-me sentir saudades desses bons tempos. Em desespero, o PSD tem vindo a meter-se no colo de grunhos e vai acabar por descer ao mais raso nível populista. Ainda vão buscar o Duarte Lima para concorrer a Saquarema. Ah, espera, o Brasil já não é nosso. Por mim tudo bem, é lá com eles. Mas a candidatura de Garcia traz um problema. Com a comunicação social merdosa que temos não se vai falar de outra coisa, ela será o centro das atenções. E isso sim, é deprimente.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

CATHOLIC BLOCK (1987)

 


O Emanuel acusou a recepção do Embate com Bull in the Heather, deixando-me a pensar na possibilidade de mensagens subliminares. Talvez ouvindo o tema de trás para a frente descubra alguma coisa. Quase à mesma hora, 12:52 de ontem, um transportador tocava à campainha para entregar uma caixa com livros enviada pelo Pedro. Tudo coisas boas que faltavam cá em casa. Uma biblioteca também se faz com gestos generosos, ou julgam que nado em dinheiro para andar por aí a gastá-lo em livralhada? De quando em vez, lá encomendo um título a este e àquele, passo por uma livraria jeitosa ou visito as bancas de velharias, onde me afortuno com pechinchas de 1 a 5 euros. Mais não posso, tenho um fígado para rebentar. E pronto, regressei aos Sonic Youth. Sister (1987) foi o meu primeiro, o quarto de estúdio deles (se bem me lembro). Já pariam álbuns desde 82, a banda do casalinho Thurston Moore & Kim Gordon. Depois separaram-se, 30 anos de vida em conjunto pelo esgoto. Ela escreveu um livro que não li, ele terá sido o elo mais fraco no mito propalado da fidelidade: «I got a catholic block do you like to fuck? / I got a catholic block guess I'm out of luck». Têm uma filha chamada Coco. Gostava de os ver juntos e estava-me nas tintas para a vida conjugal, que tivessem continuado com a banda após a separação é que era. Parvalhões. Tudo gente  artística e libertária, mas quando toca ao coração revelam-se do mais conservador que há. Devíamos nascer sem coração, quero dizer, não devíamos inventar um coração dentro e nós, devia ser tudo criação, nada de corações a impedirem a criação. O amor é uma merda, só nos traz tristezas.

OUTRO POEMA DE MANUEL DE FREITAS

 




PAULINE E VILHELM

O meu marido foi para Skagen, pois
acredita, mais do que eu, que
a missão da actual pintura dinamarquesa
é trazer-nos com rudeza e pormenor
imagens cruas da província,
daquilo a que chamamos Natureza,
mesmo no que possa ter de humano.

Preferi ficar em Copenhaga e passear
logo de manhã pelos lagos, na
companhia de Vilhelm, que por uma vez
condescendeu. Vimos — além de cisnes,
patos e parais — aqueles graciosos e ridículos
pássaros azuis cujo nome desconhecemos
ambos. Saltitam, voam mal e grasnam ainda pior.

Pergunto-me às vezes se a arte, o futuro
que dela nos é lícito imaginar, nõ será
uma coisa assim, uma cáustica despedida
do real que constitui, para Heinrich,
um valor supremo. Mas seria indelicado,
da minha parte, colocar essa questão a Vilhelm.
Já foi violência bastante tê-lo obrigado a este passeio.

De resto, ele nunca se interessou por animais.
A não ser, claro, por aquele a que chamamos
homem. Onde eu via pousar uma ave, ele via
apenas uma árvore, a irrepetível configuração
das sombras que a envolvem e é a imagem
mesma de tudo o que se perde numa
manhã de Agosto, ou durante a vida inteira.

Talvez seja por isso que se obstina
em pintar mulheres sem rosto,
salas desertas e lições de trevas, portas
tão fechadas como os dias. Não me surpreendeu
que recusasse tomar um chá connosco 
na próxima semana e msotrar-nos os seus últimos
trabalhos, que Heinrich moderadamente apreciaria.

Tentei desaconselhá-lo de pintar interiores
estéreis, quase previsíveis. «A melancolia,
caro Vilhelm, é um vício plebeu, um disparate».
Só quando nos despedimos percebi que a vida
de que lhe falava tinha, para ele, a espessura
exacta da morte, das portas tão fechadas como os dias.

Copenhaga, Agosto de 2007

Manuel de Freitas, in Brynt Kobolt, Averno, Abril de 2008, pp. 31-32. O poema remete para Heinrich e Pauline Hirschsprung, detentores de uma colecção de arte hoje instalada nos parques do Østre Anlæg nas antigas muralhas de Copenhaga (aqui). A imagem ao alto é do quadro Interior com jovem a ler (1898), de Vilhelm Hammershøi.

PALE PINK

 


Diz que não é poeta, apenas junta palavras e imagens. Em introdução breve, explica que o livro nasceu numa conta de Instagram a que deu o nome Pale Pink. O formato em papel reproduz o plano vertical da rede em causa, objecto de colecção com pormenores gráficos deliciosos a fazerem justiça à principal actividade da Autora. Tem dois livros “a sério” (a expressão é dela) anteriores a este, “A Terapia do Tricot” e “Re-use”. O tecido agora é outro, chama-se pele. A verdade é que o resultado desta aventura é fascinante. O diálogo entre imagens e palavras perfeitamente conseguido, o olhar atento, afinado na beleza do que passa quotidianamente despercebido, revela-se de um lirismo que tomaria a muitos. As fotografias são excelentes, as palavras oscilam entre a legenda e o poema minimal. Por vezes a pequena história intromete-se com ingredientes certeiros: «Não havia nada no correio. / Quando abri a caixa, o silêncio que / retirei de lá foi tamanho / que o empurrei novamente para dentro, / fechando-a. / Depois, engoli a pequena chave. / Agora estou mal disposta.» (p. 33) Outras vezes o poético irradia de superfícies enrugadas, ferrugentas, lascadas, janelas partidas, cortinas velhas, em conversa metafórica com as manchas na pele que denunciam a passagem do tempo num corpo físico que não escapa ao auto-retrato parcial. Tudo com equilíbrio e simplicidade, um cuidado tocante a merecer sublinhados, «que a vida lá fora / é uma série má da netefeliquese» (p. 27).

Zélia Évora, (às vezes vale a pena) Sair do presente, edição da autora, Março de 2021.

terça-feira, 6 de abril de 2021

DUMB (1993)

 


Encurralados que andamos nas agendas universais, difícil seria não reparar que Kurt Cobain morreu há tantos quantos os que contava quando resolveu estourar com os miolos. Já passaram 27 anos, perguntaste com admiração. Sim, 27 sobre a última vez que fodemos. Vê tu bem para o que estávamos guardados. Parece que foi ontem e calçávamos botas da tropa e vestíamos camisas de flanela aos quadrados, abertas no Verão, escondidas sob malhas da Nazaré no Inverno. E fumávamos ganzas, muitas, de comboio a caminho de cidades onde houvesse bandas a tocar e aldeias vivas e prenhes de tártaro nos balcões de pedra. Agora esta coisa asséptica de dores de cabeça às segundas e infecções às terças. Talvez devêssemos contratar um perpétuo vigário, honesto e de boa vida, que por nossas almas rezasse às quartas, velasse às quintas e cantasse às sextas, letrado se pudesse ser, acompanhado de três capelães de boa voz, alimentados a pão cozido e vinho e trigo providenciados por um tesoureiro rodeado de alqueires e almudes como nós de agendas mediáticas, mais um provedor que não fosse frade nem comendador nem poderoso de cavaleiro para cima, um almoxarife fiel com seu diligente servidor e um escrivão de muita verdade e boa consciência, que são raros, assim um físico e um boticário capaz de montar mezinhas contra nossas infecções, maleitas, malárias, e um hospitaleiro e três enfermeiros e um barbeiro e um sangrador e uma cristaleira mais suas escravas amassadeiras, cozinheiras, lavandeiras, outro a carretar necessidades, um hortelão capaz de tratar tão bem de couves quanto de vacas, cabras e ovelhas mais uns tantos assoldados com nome de pessoa. Que para bulas, escambos e aforamentos já bastam os poetas.

UM POEMA DE MANUEL DE FREITAS

 


BOA MORTE

As informações eram claras:
havia apenas um autocarro por dia,
o que tornava o regresso duvidoso.

Mas parece-me agora natural
que a Boa Morte seja inacessível,
em tudo tão diferente do teu corpo.

Não se pode acreditar num mapa,
numa vida. Apagam-se, como levadas
secas, todas as palavras que escrevi.


Manuel de Freitas, in Boa Morte, edição do autor, com capa de Luís Manuel Gaspar, Novembro de 2008, p. 20.

PROCESSO DE DESCONFINAMENTO EM CURSO

 


FANTASIAS DE ABRIL

— E depois? - perguntou a netinha a Quitéria.
— Depois, estava o Moedas, veio o pai dele, que era comunista, e comeu-o. - contou Quitéria.
Perante o olhar incrédulo da netinha, Quitéria prossegiu:
— Mas veio a Suzana Garcia e o pai do Moedas teve que se esconder. Depois, veio a coelha Acácia...
Nisto, a neta de Quitéria interrompe-a abruptamente:
— Não, não, a coelha Acácia veio com o Passos e o Rui Rio no comboio ao circo.
Fantasias de Abril, política deleite.

"China e Rússia suspeitas de fazerem ciberespionagem a Portugal"

Valha-nos Nosso Senhor dos States, só ele nos protegerá. Não lhes déssemos as passwords para reforço dos firewalls, o que seria da nossa vida no planeta Zuckerberg?

segunda-feira, 5 de abril de 2021

UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS

 


FOLHAS DE RELVA

De bolsos vazios
e alma cheia,
sapatos na lama,
mas, um pormenor:
o falcão em mim
pelos ares me leva.

Silêncio e solidão
se instalaram nesta
casa. Assim sendo,
só mais um pormenor:
são na subida os ares
tão frios quão na queda.

Doravante nenhum
golpe de sorte,
cuidarei eu das plantas.
Doravante, a estrada
estreita, as raízes
se tornam aéreas.

O gato terá seu pires
de leite e a serradura
mudada... Ou não:
serei eu inútil
no sonho-fantasma
em cadeira de baloiço.

Não te rales,
camarada, te dou
minha mão,
seguiremos juntos
por todo o tempo
que vivermos.

Mesmo nada sabendo
do voo ou dos ventos
comigo te levo
camarada, e juntos
bateremos sola:
ofício de treva.

Dinamicamente
resolveremos o dilema
e o paradoxo
da noite perene;
que seja essa
a nossa leveza.

Dinamicamente,
por sobre 
o arame
farpado,
passaremos
nosso labor.

Paulo da Costa Domingos, in Versos Abrasileirados, com ilustrações de Bárbara Assis Pacheco, & etc, Novembro de 2012, pp. 32-33.

CHEIRA A AUTÁRQUICAS

Portugal é um país de cretinos complacentes com cretinos. É assim do irrelevante mundo dos poetas patetas até ao universo das elites políticas e empresariais. Só com uma ética da incomplacência, uma ética que leve as pessoas a perceber que não se pode ser complacente com cretinos, é que podemos esperar algo de dignificante nesta sociedade de lambe botas e beija mãos que acorrem a esplanadas para criticar quem está nas esplanadas. Talvez seja a herança mais cancerígena de meio século de ditadura fascista e outro meio de fachada democrática, a hipocrisia dos cretinos complacentes com cretinos, sem coluna vertebral, sem verticalidade, sem convicções nenhumas nem coerência entre pensamentos e discurso, entre discursos e acções, tudo calculismo e táctica e um não querer saber tingido de queixinhas e de lamentos em surdina, cheio de cuidados, para ninguém ouvir, antes que alguém ouça. 

domingo, 4 de abril de 2021

UM MANIFESTO DE NUNES DA ROCHA

 


MANIFESTO BREVE, SENDO CASO, FINAL DE ODE

À súbita luz do isqueiro, esquecido de quem sou,
Adormeço num verso de rua
Sob heteronímia alheia a tudo isto

...
Agora sou janela escondida
De bigode e sobrancelha
No desvão
Para teu prazer
Amanhã cão amputado
Ruço como um abandono
Sem nome à porta do talho
Também rua sou por vezes
Para lá da noite segredo cego
Ao néon pisca-pisca
Mitra descalço
Mulher da limpeza
Do dia
Do último ao primeiro comboio
Alternadeira da noite
Mailo o chulo que a traz
Ao pastel de nata do dia
A cheirar colónia
RANÇO PARA TUDO ISTO!
Ranço para o jogging de exilados
Da classe média como mortos-vivos
Ranço do cavalo ao desbarato
Para os putos chegados a esta barricada
Para as luzes azuis que atravessam ruas
Entre solene música de ambulâncias
Na recolha dos diabetes
Overdoses,
E desmaios por nada mais haver que fazer
Ó orquestra de tudo isto!

Já fui jardim
Como este para inaugurações
Ou aquele de balouços solitários
E merda de cão
Pombo de pata romba
E parasita na asa
Sobre a paróquia de betão
Ó broche divino
Para catequistas de negros
Cú alçado aos cigarros
E romenos
Búlgaros e monhés
Porque toda a foda é amor sem fronteira
Na ecuménica maneira
De disfarçar a solidão
RANÇO PARA TODA A CARIDADE

Sou queda de cabelo em pijama
A comprar o jornal da manhã
A recortar nas páginas do meio
As mamas grandes da minha aflição
O cú grande do meu desidério
Mais do que uma frustração ou desidério
É antecâmara da morte no quarto alugado
Onde os vizinhos não sabem que resido
PÍVEA PARA A SACROSANTA FAMÍLIA

EM TODAS AS PAREDES SOU:
"Com um tesão que enrabava a mim mesmo"
                                                           Toi Pires

"De metáfora em metáfora ficou adulto para sempre"
                                             Al Berto, passou por aqui

"Lede Os Anais de Énio e A Lésbia de Cacilhas, ó ignorantes!"
                                                                              Mancha Negra

"O Mancha é panilas: o epicurista nunca será levado
    a excessos que ponham
Em perigo o seu prazer"
                                      Ernest Junger, também passou por aqui

"Il semble que la Mort est la souer de l'amour"?
     Ó Caussimon", larga a droga!
                                                   Bacanz, forever

Agora e sempre
Desempregado na ombreira do central
Da taverna
De todas as arcadas, mini-bares, cafés-pingados
E também pracetas, vãos-de-escada
Esquinas
De toda uma arquitectura submersa em urina,
Porque o mijo é o nosso modo de pensar
Como o escarro a nossa acção revolucionária.
O BISCATE É O ZEITGEIST DO NOSSO TEMPO
Todos vós, metecos de paris, londres,
irmãos em madrid e carenque
LUMPEN-PROLETARIADO DE TODO O MUNDO,
DIZEI A UMA SÓ VOZ:
IDE CO CARALHO!

Nunes da Rocha, in Sabão Offenbach, &etc, Abril de 2015, pp. 20-23.


JUIZ, DIZ ELE

Quitéria acha piada ao juiz dos negacionistas. Juiz que deixou de o ser para voltar a sê-lo fazendo tudo para que a reforma chegue o mais rápido possível. Ninguém pode negar-lhe a esperteza. Num país de chicos-espertos é rei quem, conhecendo a lei, melhor se aproveita das suas falhas.

sábado, 3 de abril de 2021

WELL YOU NEEDN’T (1947)

 


O Ricardo diz que repito muitas vezes a palavra imo. Contou-a 5 vezes no último livro. Os meus amigos estão a ficar exigentes. Querem o quê, que diga âmago? Não digo, é sentimental. E tem uma conotação espiritual que não me interessa. Talvez preferissem íntimo ou intimismo, que é coisa que se diz em circunstâncias especiais. Seria um desperdício de letras, o imo está no íntimo. E fica mais fundo do que a intimidade. Será que não percebem? O imo é para lá da intimidade, vibra num fundo tão fundo que quase mais nada se vê onde ele está. É onde a memória acasala com o esquecimento para produzir recalcamentos, que é um conceito típico da psicanálise. Logo, a evitar. Imo tem a profundidade certa, não é chão, é espaço aberto, como se fôssemos escavando um buraco até chegarmos ao fundo dos fundos e deparássemos com o ventre trepidante da terra, como diz a Maria Lúcia, a fervilhar num magma que, pudesse ser atravessado, teria com certeza na sua raiz não um sol mas o espaço vazio que à sua volta se expande em poeira. Imo é bom. De resto, arde dentro de inúmeras palavras. Reparem bem, só neste texto está em último e íntimo, mas podia estar também em próximo, mínimo, péssimo, porque imo é sufixo átono, vive nas coisas como um átomo tenuíssimo. Viram? Ninguém ousa recriminar o Thelonious Monk por repetir muitas vezes um Fá de 7.ª. Por que hei-de eu ser crucificado por escrever muitas vezes imo? 7.ª acolhe o feminino de imo, que é ima. Vão dizer-me que é por acaso que a mais alta cadeia montanhosa do mundo se chama Himalaias?  

O PENSAMENTO EM CONSTRUÇÃO


 

 

26 de Novembro de 1937
 
   Todos os homens têm um cancro que os rói, um excremento quotidiano, um mal que vem periodicamente: a insatisfação; o ponto de encontro entre o seu ser real, esquelético, e a infinita complexidade da vida. E todos acabam por se aperceber disso, mais cedo ou mais tarde. Será preciso procurar conhecer, imaginar, a lenta tomada de consciência, ou a intuição fulminante de cada um. Quase todos — parece — redescobrem na infância os sinais do horror adulto. Procurar conhecer esse viveiro de descobertas retrospectivas, de medos, a angústia de se sentirem prefigurados nos gestos e palavras irreparáveis da infância. Os «Fioretti» do Diabo. Contemplar sem «pose» este horror: o que foi, será.
 
28 de Janeiro de 1942
 
   Descobrimos as coisas através das recordações que temos delas.
   Recordar uma coisa significa vê-la — somente agora — pela primeira vez.
 
 Deves criar um nexo entre o facto de que nos momentos mais verdadeiros és inevitavelmente o que foste no passado (26 de Novembro de 37, II) e o facto de que apenas as coisas recordadas são verdadeira (hoje, I).
 
25 de Maio de 1942
 
   Não é que a criança viva no mundo da fantasia (como diz Cantoni, Os Primitivos, p. 256), mas a criança que em nós sobrevive sobressalta apenas em raros momentos-recordação, o que nos faz crer — mas não é verdade — que outrora eram imaginários.
 
22 de Agosto de 1942
 
   As coisas, vi-as pela primeira vez outrora — numa época que pertence irrevogavelmente ao passado. Se, da primeira vez, bastava vê-las para me contentar (espanto, êxtase fantástico), agora necessitam de um outro significado. Qual?
 
31 de Agosto de 1942
 
   Desde criança que se aprende a conhecer o mundo, não — como pareceria — por imediato e originário contacto com as coisas, mas através dos sinais das coisas: palavras, vinhetas, histórias. Se examinarmos qualquer momento de emoção extática diante de alguma coisa deste mundo, verificamos que nos perturbamos porque já estávamos abalados; e estamos já impressionados porque, um dia, algo nos surgiu transfigurado, destacado do resto, por uma palavra, uma fábula, uma fantasia que a isso se referia. Naturalmente, naquela época, a fantasia surgia-nos como realidade, como conhecimento objectivo e não como invenção. (Visto que a ideia de que a infância é poética é apenas uma fantasia da idade madura. Cfr. 25 de Maio.)
 
26 de Setembro
 
   Não existe um «ver as coisas pela primeira vez». O que recordamos, que anotamos, é sempre uma segunda vez (28 de Janeiro diz a mesma coisa e 22 de Agosto acaba por ser ilusório, o 31 de Agosto é decisivo).
 
Cesare Pavese, in O Ofício de Viver – Diário (1935-1950), trad. Alfredo Amorim, intr. Margarida Periquito, Relógio D’Água, Fevereiro de 2004.

GUILTY (1974)

 


Dei com uma rara referência a Randy Newman nos Panfletos, de Pedro Tadeu. A rapaziada da poesia farta-se de fazer referências a Tom Waits, David Bowie, Leonard Cohen, Nick Drake, Bob Dylan, Jim Morrison, Patti Smith, o que está muito bem, mantendo na penumbra um dos mais incríveis escritores de canções de todos os tempos. Fartou-se de escrever para filmes, coleccionando nomeações para prémios e almejando dois Óscares com composições para filmes da Disney. Talvez isto intimide os poetas dados às coisas da música, que preferem tipos com certo distanciamento do star system, que é como quem diz mais vestidos de preto e obscuros. A mitologia do outsider também tem o seu brilho e veste camisas com cornucópias, sabiam? Eu cá gosto de canções, e as de Newman são do melhor que há. Conheci-o por interposta voz, a da holandesa Mathilde Santing, que em 1993 deu à luz Texas Girl & Pretty Boy. Foi disco que ouvi vezes sem conta, partindo posteriormente em busca dos originais que me deixaram como se diz que os burros ficam quando contemplam palácios. Ateu, fez da música religião desde os 17. O primeiro álbum, homónimo, saiu em 1968. Foi um insucesso, apesar das orquestrações exuberantes. Vem de lá Living Without You, que Santing canta magistralmente. Guilty é do quarto álbum, Good Old Boys (1974), que foi editado dois meses antes de eu haver nascido. A letra diz mais ou menos isto:
 
Sim, amor, estive a beber
Não devia ter aparecido, bem sei
Mas acabei por dar comigo em apuros
E não tenho para onde ir
 
Trouxe algum uísque do barman
E cocaína de um amigo
Só tinha de continuar a mexer-me
Até voltar a cair nos teus braços
 
Sou culpado
Amor, sou culpado
E serei culpado o resto da minha vida
 
Como é que nunca faço
O que é suposto fazer
Como é que nada do que tento fazer
Bate certo?
 
Tu sabes
Sabes como é comigo, amor
Sabes que simplesmente não me suporto
Preciso de muita droga
Para fingir que sou outra pessoa
 
E é assim. Boa Páscoa a quem for da Páscoa. Eu é mais bolos.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

MARIA LÚCIA ALVIM

 

   Maria Ângela Alvim (1926-1959) era a mais velha dos cinco irmãos, todos poetas. Pôs fim aos seus dias no ano em que Maria Lúcia se estreou com XX Sonetos (1959). Da primeira, a Assírio & Alvim publicou, em 2002, Superfície Toda Poesia, com apresentação de Max de Carvalho. Talvez o mais conhecido dos cinco irmãos seja Francisco Alvim (1938), diplomata de carreira, incluído por Jorge Henrique Bastos na antologia Poesia Brasileira do Século XX Dos Modernistas à Actualidade (Antígona, 2002). Maurício (1929-?) e Fausto (1942-1986), que eu saiba, nunca foram publicados em Portugal. De Maria Lúcia Alvim (1932-2020) publicou a Douda Correria, em Novembro de 2020, esta Antologia Poética organizada por Ricardo Domeneck e Guilherme Gontijo Flores. Graças aos dois esta poesia despertou de um silêncio de quase quatro décadas quando, no decorrer do ano passado, conseguiram convencer a autora a publicar o inédito Batendo Pasto (Relicário), originalmente datado de 1982, deixado ao cuidado de Paulo Henriques Brito com a intenção de apenas ser tornado público postumamente. Não foi, mas quase. A autora do magnífico Romanceiro de Dona Beja (1979) faleceu no passado 3 de Fevereiro do ano corrente, vítima de covid-19.
   Natural de Araxá, Minas Gerais, Maria Lúcia Alvim residia em Juiz de Fora, para onde foi viver em 2011. Morava numa residência para idosos. Autodidacta, abandonou a escola para se dedicar exclusivamente à poesia e à pintura. Realizou algumas exposições e publicou cinco livros de poesia. Além dos supracitados, Coração Incólume e Pose, ambos em 1968, e A Rosa Malvada (1980). Todos foram contemplados nesta antologia preparada para os leitores portugueses, à qual se acrescentou ainda um conjunto de 13 poemas de um inédito intitulado Rabo de Olho. É por aqui que o leitor começa, percorrendo a restante obra dos poemas mais recentes para os poemas mais antigos. Desconheço o que terá justificado tal opção, a qual por certo nada terá que ver com uma suposta ideia de maturação de uma voz que se apresentou, desde a primeira hora, bastante segura de si mesma, submetendo o discurso, com impressionante naturalidade, a formas rígidas como a redondilha maior e o soneto. Formato, de resto, ao qual a autora regressou amiudadamente com resultados bastante satisfatórios.
   Logo no livro de estreia, em versos dedicados à irmã Ângela, insinua-se a temática da morte e de uma insatisfação existencial que ecoará nos livros subsequentes: «se viver não te basta nem situa / a forma de teu mundo inexistente / fizeste mais alheia a espera tua / neste andar pela vida descontente» (p. 138). Esta insatisfação contrasta, porém, com momentos de júbilo que acabam por superá-la a espaços, sobretudo quando o corpo se liga à terra e a natureza desponta com um fulgor compensador. Em Agosto de 2020, numa entrevista ao jornal Tribuna de Minas, declarava a autora: «A terra é o chão. Eu me sinto segura no chão dos matos, da natureza, não no chão das cidades». Isto mesmo se subentende num pequeno poema intitulado Júbilo: «Esfrego minhas mãos no calor do fogo / munida dos primeiros raios da aurora / A esperança / é um sopro / entre a inércia e a brasa / Abro a casa» (p. 21). Além dos sonetos, vários poemas desta antologia são assim curtos, breves emanações de uma beleza que aproxima a língua à natureza como na Capela Sistina o dedo de Adão se aproxima do de Deus.
    Maria Lúcia Alvim foi uma poetisa mais dada à introspecção do que a imensa maioria dos autores do seu tempo, recolhida num mundo que era o seu, isolada dos demais, praticando uma poesia singular de recobro da tradição e de um léxico extraordinariamente musical. A rima é frequente nos seus poemas, assim como aproximações divertidas à lengalenga e a jogos de palavras mais ou menos subtis. Paradoxalmente, trata-se de uma poesia fortemente ligada ao corpo e à matéria. A introspecção não redunda em coisa exclusivamente mental, mas antes numa atenção aos efeitos produzidos pelo curso do tempo nos actores com papel na História e reflexões daí decorrentes. Isto é especialmente evidente no Romanceiro de Dona Beja e na incursão que aí se fez pelas origens mineiras, mais uma vez apropriando-se de património perdido, como seja o dos romanceiros medievais. Somos levados a admitir que nesses poemas se procedeu a um retorno do sujeito poético à terra natal, indo para lá de um passado que foi o seu passado físico, existencial, ao encontro das raízes profundas que ligam a mitologia local a uma espécie de mitologia pessoal construída ao longo dos anos. Deixo um exemplo onde esse procedimento se nota, com bastante clareza, nos versos nono e décimo:
 
FÁBULA
 
A terra traz o ventre trepidante
a fecundar, parir, a sepultar
a fronte prepotente a ostentar
a grinalda de vermes cintilantes.
A terra é o animal pensante diante
da própria sombra para a conspirar
das feras tem o olfacto e o paladar
e dos homens a espora penetrante.
Sementes? São caixeiras-viajantes
de ilusão a ilusão, a germinar.
As raízes são falsas postulantes
e a selva suculenta faz golfar
não só flores, falcões e diamantes
mas dilúvios, leões, rinocerontes.

 
Maria Lúcia Alvim, in Antologia Poética, org. Ricardo Domeneck e Guilherme Gontijo Flores, intr. Patrícia Lino, Douda Correria, Novembro de 2020, p. 82.

EPISTROPHY (1941)

 


Este país está cheio de especialistas em vinho, covid-19 e poesia. Antes soubessem de cactos. Tenho dois no sótão, estão mortos, mas mantenho os vasos devidamente dispostos sob uma das janelas onde a terra seca e as folhas podres apanham sol. Em tempos, uma aranha relativamente desenvolvida fazia-me companhia. Nunca lhe desfiz a teia. Depois desapareceu. Desconfio que um dos cactos a engoliu. Se lamento a perda dos cactos, por outro lado sinto certo alívio em mantê-los mortos. Não picam, não ferem, não reclamam por cuidados, limitam-se a exalar um aroma a mortandade que é o mais belo elemento decorativo deste lugar onde me sento todos os dias para escrever, ler, ouvir música, desenhar, tocar guitarra, bater uma sorna. Estou rodeado de especialistas e pilhas de livros, mas sobre cactos não há quem me esclareça. Têm vida? Comem aranhas? Respiram mesmo se mortos? Ouvem Thelonious Monk? Os meus cactos precisam de uma baronesa Pannonica de Koenigswarter que cuide deles, eu ando imensamente atarefado com inúmeras insignificâncias. São pilhas de Quadros, a integral de Gil Vicente, as peças do Daniel Keene, mais novos e os novíssimos e os nem tanto e os velhos e os ultrapassados e podres como cactos devidamente dispostos sob a janela de um sótão onde possam apanhar sol e contar estrelas se, por sorte, a noite estiver limpa.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

UM POEMA DE MUTIMATI BARNABÉ JOÃO

 


O ESTRUME

És estrume, és terra e à Terra voltarás.
Mas a que terra? À Terra que tem fome de estrume?

Tenho um espinho no pé direito.
Descalço a alparcata.
Esta terra é estéril. Queima. Está na agonia.
Há já três dias caminho na agonia da terra.
Há três dias caminho na minha agonia.
Não sei como ajudar esta agonizante.
Sou uma Ignorância. Uma Agonia com duas pernas.
Este espinho no pé direito dói mesmo nada.

Vai haver uma ordem para matar esta fome inimiga.
Uma ordem para um Hospital móvel da Terra
Fazer um curativo de estrume nesta terra sem sangue
Cobrir com muito cuidado a sabedoria Agrícola
Esta chaga de Sol e Agonia calada.

Camaradas
Esta Terra necessita dos nossos cuidados:
Suor, Coragem, Trabalho e Estrume.

Na Terra da Agonia só cresce o grão da Agonia.
É preciso dar alguma coisa para colher alguma coisa.
É preciso dar Tudo para colher o Necessário.
É preciso estrumar esta Fome.

Mutimati Barnabé João, in Eu, O Povo, FRELIMO, Lourenço Marques, 1975 - Ano da Independência,  s/p.

DIA DAS MENTIRAS

Um coelho que põe ovos, um homem que subiu aos céus depois de ser crucificado. Isto anda tudo ligado.

quarta-feira, 31 de março de 2021

KÄPPEE (2000)

 


Foi um dia hiperprodutivo, não fiz a ponta de um corno. É a melhor forma de trabalhar. A cabeça põe-se a pensar levando o corpo à exaustão, obrigando-o a libertar-se posteriormente com jogging, ginásio, murros, pontapés. No meu caso, uns copinhos de tinto antes de levar o cão a passear. Lembrei-me das Värtinä por causa de uma banda que vi partilhada no Facebook, uns franceses que andam na moda e fazem lembrar coisas como os coros femininos da Bulgária, o folclore finlandês, congéneres. Sou de entusiasmos comedidos. Parecendo-me aquilo estimulante, cheira-me a onda motivada pelo sucesso da banda sonora do Retrato da Rapariga em Chamas. Questões que não interessam nem ao menino Jesus. O que realmente importa é que conheci finalmente o vizinho eremita. Vive numa barraca no meio de umas árvores velhas e altas, num terreno aqui ao lado onde a populaça costuma passear os cães. Terreno bonito, temo pelo dia em que pretendam deitar as árvores abaixo para construir mais mamarrachos. O eremita engraçou com a cadela, sentiu-lhe os medos, e meteu conversa. Fiquei a saber da sua decisão de fugir da civilização, isolar-se, viver no meio da floresta, essas coisas. Escutei-o atentamente, ao mesmo tempo que ouvia as vozes das crianças na escola 100 metros a oeste, os carros na avenida 100 metros a este, com vista para o McDonald’s a sudeste, os pesados a caminho da auto-estrada 100 metros a sul, os putos a brincar no bairro 100 metros a norte. As árvores são altas, é um facto, mas a civilização está a 100 metros por todos os lados e passam por ali pessoas diariamente a passear os cães. Ou queria dar-me a banhada, tomando-me por parvo, o que é um facto, não se enganou, ou está a viver um equívoco. Que o viva sem se desequivocar é o que espero, as pessoas são mais felizes quando vivem imersas nos seus próprios equívocos. Saúdo-o.

A BAPTIST BEAT (1960)

 


Livro novo. Recebi alguns exemplares. Fiz as dedicatórias. Fui aos correios enviá-los. Abri uma garrafa de vinho e passei o dia a brincar com a Nala. Já sobe ao sótão sem ajuda. E desce. Qualquer dia aprende a voar. Adora afocinhar a terra, esgaravatar os vasos na varanda, talvez em busca de um coelho que julgará escondido na cartola dum vaso. Contei-lhe que uma vez sonhei que as pessoas eram semeadas e brotavam da terra, tinham raízes que as prendiam aos lugares onde despontavam para a vida. Não tinham pés, de resto eram iguais ao que são: patéticas, snobes, sonhadoras, cretinas, ambiciosas, deprimidas, escrupulosas, pulhas, canalhas, meigas, cínicas, irónicas, escamadas, peludas, cobardes, intriguistas, amigáveis, frágeis, débeis, corajosas, palermas, burgessas, inteligentes. Não tanto quanto os cães, claro. O sonho terminava com um fio de água a correr para dentro da boca de uma dessas pessoas de cabeça para o ar e boca aberta e a água a escorrer de um céu estranhamente claro, límpido, azul, vertida pelos olhos de uma libélula tristonha que batia furiosamente as asas sem sair do mesmo lugar. A pessoa enchia, inchava e quando estava prestes a rebentar eu acordei. Depois escrevi um livro sobre o assunto, recebi alguns exemplares, fiz as dedicatórias, enviei-os por correio. Ao cuidado de Hank Mobley, ao cuidado de Freddie Hubbard, para Wynton Kelly, para Paul Chambers, com sincera admiração, para Art Blakey. A cadela gostou da história, até uivou, levantou as patas dianteiras, agitou furiosamente o rabo e levantou voo. Fui dar com ela à janela, a observar melancolicamente o estertor de um passarinho no beiral depois de ter partido uma asa ao atingir a vidraça.

terça-feira, 30 de março de 2021

LAB'BEL - 10 ANS (2010-2020)

 



A página (https://www.lab-bel.com/en/) informa que Lab’Bel é um laboratório artístico do Grupo Bel. O décimo aniversário foi comemorado com a publicação de um catálogo onde encontramos inventariadas as variadíssimas exposições e diversos eventos levados a cabo, pela Europa fora, mas com sede em França, no contexto da actividade do laboratório. Um dos projectos tem o nome de “Metaphoria” e esteve por cá quando Guimarães foi capital europeia da cultura. As palavras de dois amigos poetas, o Rui Costa e a Joana Serrado, eram parte integrante desse projecto, que entretanto também esteve em Atenas e Paris. Eu estive em Guimarães, e quis o acaso que me encontrasse por lá com o pai do Rui (António Costa, o bom). No regresso, escrevi umas coisas sobre o que vi. A Sílvia Guerra, Directora Artística do Lab’Bel desde 2010, pediu-me entretanto que voltasse ao tema. O resultado integra o dito catálogo. A versão rosa é em inglês, a amarela em francês. Chegou-me ontem, finalmente, com a permissão de uma pandemia que tudo atrasa. Deixo aqui o texto original, para o caso de terem interesse:

 

APARAS DE UMA VISITA A METAPHORIA

Guimarães, 22 de Outubro de 2012

 

 

1. Numa das entradas dos seus diários, Cesare Pavese escreve que A poesia começa quando um idiota diz, a respeito do mar: «Parece azeite.» Eis uma possível noção de poema, senão de toda a criação artística, enquanto discurso que se distancia do território da descrição para se arriscar no campo minado das semelhanças, das explosões de nexos, da teia de elos entre real e irreal. O poeta não estará tão interessado em comunicar como parece estar em desconstruir e subverter o processo comunicacional, fazendo incluir entre emissor e receptor um terceiro elemento, imaterial, invisível, mas sólido, ameaçador, dilacerante. A este terceiro elemento damos o nome de metáfora.

 

2. As metáforas têm vida própria. Os homens são meros veículos para a coisificação das metáforas. A relação que estabelecemos com a metáfora é inalienável da tentação para a submeter às leis do mundo, essa é a nossa fraqueza. Sempre que alguém diz “parece azeite” nós tentamos encontrar correspondência entre dois sujeitos no enunciado (um explícito, outro implícito), sendo difícil de aceitar a inexistência de uma correlação entre ambos. São estas as regras do jogo, como se o que parece não pudesse ser apenas e tão-somente uma aparência, uma sombra.

 

3. Além de poeta, Rui Costa foi romancista. No romance “A Resistência dos Materiais” (2008) ele subverteu a alegoria idealista de Platão para nos propor um universo onde entre verdade e sombras deixava de haver qualquer clivagem. “Nós é que somos a sombra do que as nossas sombras são”, diz. A esta subversão do sentido corresponde tanto uma desconfiança dos mecanismos racionais que levam à verdade como a necessidade de uma linguagem libertadora. O leitor de poesia sabe que a beleza, a força, a vivacidade das metáforas residem, precisamente, na capacidade que têm de oferecer uma outra dimensão, deslocando-nos de um campo semântico paradigmático, onde o leitor de poesia não faz questão de estar, para um campo semântico metafórico. Daí que as metáforas sejam libertadoras, desviam-nos da rota asfixiante do real, ampliam as coordenadas da lógica, libertando-nos das amarras do normal, levando-nos a saltar o muro que separa a ordem do caos.

 

4. O caos é ao mesmo tempo sedutor e ameaçador. Estamos sempre a tentar pôr ordem no caos. O mundo à nossa volta é caótico, o universo surge-nos caótico, o desconhecido é caótico, pelo que a grande tarefa humana tem sido descobrir leis que façam acreditar haver organização no caos. Esta dinâmica que leva do caos à ordem, até que a ordem se revele insuficiente para a explicação do caos, é um movimento incessante que só pela metáfora pode ser dito. Metáfora é movimento, é trânsito, é deslocação.

 

5. Desloquei-me a Guimarães, em Outubro de 2012, para ver a exposição com curadoria de Sílvia Guerra. Entreguei-me ao regaço de “Metaphoria” e deixei-me embalar pelos diferentes trabalhos onde pude reencontrar-me, também, com as metáforas de dois amigos poetas: o Rui Costa e a Joana Serrado. Partilho agora convosco o que então escrevi numa página dos meus diários (inéditos):

 

Hoje pinto largos contornos nas coisas que vejo, desenho-os como quem sente preguiça na elaboração de um pensamento delineado, de fronteiras quase invisíveis ou, pelo menos, indistintas. Rouault aflora ao pensamento, vá-se lá saber porquê, nos braços dos homens que trabalham nas obras, nas roupas tingidas de tinta e cimento, nas mulheres carregadas com sacos de plástico, nos rostos carregados das viúvas e nas crianças que transformam lixo em brinquedos, nos veículos freneticamente estacionados e nas lajes inscritas ao balcão dos cafés. Sempre que a temperatura muda, dá-me para isto. Regresso depois de mergulhar a cabeça num barril de metáforas. Debaixo de água ouviam-se vozes, música, poemas, viagem subaquática com pés na terra. Deve haver algo orgânico na linguagem das metáforas, nas sombras, deve haver algo de sublime neste corpo sem órgãos do pensamento. Invejo, por vezes, a subtileza dos acólitos da palavra para poder dizer, sem contornos nas palavras, o que penso e quanto vejo. Não sendo possível, limito-me a agarrar no que vejo com as mãos desajeitadas do discurso poético. Ainda bem que há pessoas de contornos finos, quase invisíveis, ainda bem que existem com mãos limpas e firmes, unhas exemplarmente arranjadas, dedos esguios, ainda bem que há pessoas sem calos nas mãos. Eu conspurco tudo aquilo em que toco. Se soubesse passar com as limas nas unhas dos dedos que vêem, se soubesse afastar o texto do pretexto e ficar a sós com os pés na terra, a cabeça debaixo de água a ouvir sombras, por certo não quedaria estático nesta incerteza. Vale a pena trazer à liça as palavras de Youcenar: “Nenhuma vista que não se apodera de todo o espírito é visão; nenhum pensamento, por válido que seja, é outra coisa que um fruto ou um subproduto passageiro, desprovido do sentido de eternidade no instante, de extensão ao interior de um ponto nem sequer fixo, que a intervalos muito longos a visão do espírito por vezes confere e se torna em alguns casos possível ressuscitar pela recordação.” Com que visão terão sido pintadas as coisas que vejo no regresso a casa? Com a visão do espírito, a visão dos olhos ou a visão total? Fixo a vista nas coisas para nelas encontrar o quê?

 

6. Passados estes anos, folheio o catálogo do que me foi dado ver reencontrando-me com o que então não vi. Se o mar parece azeite, talvez a lua possa ser uma lâmpada. Acesa na noite, a lâmpada-lua de Katie Paterson remete-me, na problematização que encena da luz, para a Visio intelectuallis referida por Yourcenar. Já não são apenas os olhos a participar da visão, a qual se nos apresenta tão limitada sempre que confrontamos o mesmo objecto a olho nu e a olho revestido por um qualquer instrumento que permita ver para lá do visível. Este instrumento não tem de ser físico, técnico. A metáfora é um instrumento que permite ver onde a vista não alcança, daí o arrebatamento que provoca. Podíamos citar o êxtase dos místicos e o delírio dos loucos, Margarida Maria Alacoque e Antonin Artaud.

 

7. Num belíssimo ensaio dedicado à poesia de Paul Celan, George Steiner refere a dificuldade sentida por mentes treinadas para a visão empírica quando colocadas perante a força de um discurso simbólico e metafórico. Não estranhamos tais dificuldades, ainda que julguemos estar a elas associado tanto de medo quanto de preguiça. Medo do desconhecido e preguiça para ir mais além. A metáfora desloca-nos, coloca-nos em trânsito, é, tal como os veículos pesados oportunamente fotografados por François Prodromidès, um meio de transporte entre dois pontos, sendo que apenas o ponto de partida surge óbvio e determinado. Desconhecemos o ponto de chegada.

 

8. Pascal Quignard dizia dos fragmentos que eram rasgões, interrupções na continuidade de um discurso, aparas, farrapos, um cancro que corrompe a unidade de um corpo, desagregando-o, exercendo sobre esse corpo uma violência que o transforma em “100 biliões de sóis”. Olhamos a noite estrelada e vemos em cada estrela um fragmento do mundo, contemplamos o deserto e aceitamos cada grão de areia como um fragmento do mundo. Partir, romper, despedaçar, deixar em pedaços, em pó, em migalhas, reduzir a nada, eis o significado etimológico de fragmen, fragmentum. “Em grego o fragmento é klasma, o apoklasma, o apospasma, o pedaço separado por fractura, o extracto, alguma coisa arrancada, violentamente puxada.” A metáfora tem esta função de fragmentar, interrompe o sentido, instaura a descontinuidade, para ampliar a linguagem estilhaçando-a. Num certo sentido, podemos dizer que toda a metáfora é fragmento.

 

9. Estas aparas sobre uma visita a Guimarães são metáforas de um pensamento em trânsito. A Terra move-se em torno de um sol que há-de um dia explodir, não tanto para morrer, como para interromper as fases da lua. O universo é uma imensa metáfora. Com o passar dos anos, uma mesma imagem inspira-nos sensações, reflexões, emoções diversos. Hoje em dia, os contentores e as nuvens de Prodromidès adquiririam uma simbólica porventura mais trágica e obscura do que a que tinham em 2012. Há toda uma metáfora da clandestinidade que está por fazer, para a qual contribuem com a própria vida refugiados e imigrantes deslocando-se sobre a terra como na metáfora se desloca o pensamento.

 

10. A História ainda não terminou.

 

Henrique Manuel Bento Fialho

29/05/2020

segunda-feira, 29 de março de 2021

POPPIN’ (1957)

 


A minha médica de família é uma simpatia. Telefonou-me a dar conta da recepção dos exames, uma catrefa de papelada que me propus realizar para descanso das almas. Deu-me os parabéns. Senti-me como o bom aluno cumpridor, premiado em quadro de honra por conservar pulmões respeitáveis, garganta desimpedida, fusos horários regularizados em matéria de batimentos cardíacos e veias expurgadas de gorduras excessivas. Emagreci qualquer coisa nos últimos tempos, reduzi substancialmente no pão e no café e no álcool e no tabaco (mudei de marca) e nos doces, passando a dar mais relevância ao chá e às alfaces. Foi uma promessa e é para cumprir, serei mais cuidadoso com a minha saúde. Devia estar, portanto, orgulhoso pelo comportamento adoptado no primeiro trimestre deste malfadado ano, mas a verdade é que não me agrada a hipótese de vir a morrer saudável. Queria partir deste mundo com corpo e cabeça o mais desfeitos possível, antes de tudo terminar transformado em pó e cinzas. Hank Mobley soprava o tenor com elegância, era menos hostil do que o Coltrane que substituiu junto de Miles Davis nos idos de 1960. Depois morreu com pneumonia. Topam a ironia da coisa? Um tipo mete-se com cuidados, vem um raio e atinge-nos desprevenidamente no meio da rua. Vamos desta para melhor todos porreiros e cheios de energia, fritados por uma descarga eléctrica arrotada pelos céus quando menos esperávamos.  Vou mas é beber um brandy e fumar um Romeo y Julieta, até porque a minha irmã faz anos e estamos impedidos de nos abraçar pelo dever de infelicidade temporária.