segunda-feira, 5 de outubro de 2026

CROMELEQUE DOS ALMENDRES

 


7000 mil anos, dizem, por razões que só a especulação explica. A esperança média de vida não era assunto, pelo que de certeza seriam mais felizes.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

PÓLEN - CRÍTICA & POESIA [N.º 1]

 


PÓLEN dedica-se em exclusivo à publicação de crítica sobre livros de poesia. / As recensões contemplam apenas obras escritas originalmente em língua portuguesa, editadas recentemente em Portugal. / PÓLEN aceita propostas de recensão que cumpram estes critérios editoriais, sendo sempre sujeitas a apreciação.

PÓLEN - crítica & poesia
direcção e edição: Ricardo Marques
n.º 1, set./dez. 2026

Textos de Andreia C. Faria, Duarte Drummond Braga, Ederval Fernandes, Gustavo Rubim, Henrique Manuel Bento Fialho, José Ricardo Nunes, Mariano Tomasovic, Paola D'Agostino, Rita Taborda Duarte, Tiago Alves Costa.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

A RESISTÍVEL ASCENSÃO DE ARTURO UI

 
A Resistível Ascensão de Arturo Ui (1941). Chicago, ambiente gangster, tráfico de couve-flor. Brecht chamou-lhe parábola, introduzindo letreiros que tornavam óbvio tratar a história da ascensão do nazismo. Estão lá Paul von Hindenburg, o incêndio do Reichstag, a promiscuidade entre os negócios e a política, a execução de Ernst Röhm... Heiner Müller encenou a peça, transformando-a consideravelmente a favor de uma parábola kafkiana que protestava contra o didactismo de Brecht. Mas não será também a encenação de Müller didáctica? Se não temos os letreiros, temos a figura de Hitler logo plasmada na incrível interpretação de Martin Wuttke. E a figura do SS torna mais do que evidente sobre o que trata a parábola, para não referir os gestos, a caracterização, todo um conjunto de elementos que remetem para esse período da história alemã. No que Müller foi mais ousado e, por isso, genial, foi no modo como trouxe à superfície as raízes históricas por detrás dos factos sombrios da ascensão do nazismo. A peça passou a ser igualmente sobre uma hipótese de identidade alemã, polvilhada de referências que vão de Goethe a Wagner, para não dizer que é sobre uma identidade universal: a da política subsumida ao tráfego de influências, negociata, gangsterismo. Aí temos Trump, Putin, Netanyahu, em 2026, a mostrarem mais uma vez como se faz. E os lacaios de joelhos de hoje não são diferentes dos de ontem. A história pode não repetir-se, mas a condição humana não muda.  

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

PALAVRAS

 
Eis chegado o tempo em que se torna necessário escavar para encontrar as palavras. Como ossadas, cacos de faiança antiquíssima, resquícios de civilizações antigas, estruturas soterradas, fósseis em lugares inóspitos, as palavras são contemporaneamente uma curiosidade arqueológica que anseia por luz natural. Umas mortas, outras perdidas, quase todas ao abandono, são sobras de um mundo extinto, o da mão que desenhava a vibração de um corpo sobre a superfície da folha. Prescindimos das palavras como o escravo que abdica da emancipação, delegando o futuro no chicote do senhor.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

PERSPECTIVA

 
Electra chora pelo regresso de Orestes, quer que o irmão vingue a morte do pai. Agamémnon traído por Clitemnestra. Como se chamava o traidor do herói de Troia? E a cobarde irmã de Electra? E a filha sacrificada em troca de bons ventos? Fosse a história de Micenas contada sob as perspectivas do traidor, da cobarde ou da mártir, seria a mesma história? Lembrar-nos-íamos dos mesmos nomes? E quais ficariam na penumbra?

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

MESAS REDONDAS COMO BOLAS

 
"Ainda vamos ter o Cristiano Ronaldo como cabeça de cartaz num festival literário", alvitra Quitéria.

POETA DO NÃO-LUGAR

 
Poeta da cidade já temos, das aldeias são mais do que caeiros. Poeta da vila foi invenção brasileira. Para quando um poeta do lugarejo? Ou um poeta do não-lugar? Isso é que era.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

JOSÉ VIALE MOUTINHO (1945-2026)

 


10.
 
Ando cansado, amargurado, sem um sorriso, e os olhos
doem-me ao cair da tarde. Como um anjo aborrecido,
lento, aproximo-me dos livros, dos papéis e tento acender
um fósforo inutilmente. Já não conheço a literatura, meu amor.
 
A literatura não vem nos jornais, embora tropece nos silêncios,
nos degraus, nos bancos do jardim, embora tenha nascido
nocturna. Ando perdido, e nas pedras negras da costa
vejo o último atalho, a garrafa dos apelos finais abandonada.
 
José Viale Moutinho, in Ocasos de Iluminação Variável, Editora Ausência, Abril de 2005, p. 22.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

JORGE PALMA (1950-2026)

 


Morreu o Jorge Palma. Poucos poderão gabar-se de ter vivido tanto e tão intensamente fazendo aquilo que mais amam. Alguns concertos que não esquecerei: 1992, a solo em Rio Maior, piano e guitarra, eu pior do que ele a tentar manter-me desperto com o abismo diante do nariz. Festa do Avante, em várias ocasiões. Aquela na tenda de circo, fomos para lá dormir, eu e a Ana, depois de uma noite passada a receber o calor das brasas num assador de frangos. Frio à noite, calor à tarde, concerto soberbo. São Luiz, memorável. Palma's Gang no Johnny Guitar, eu estava lá e fui feliz. Mais recentemente, no NOS Alive. Sobre este, escreveu-se no Expresso: "Jorge Palma é uma lição: ou como uma lenda da música portuguesa protagonizou um dos momentos mais especiais da história do NOS Alive." Verdade, só ouvisto. Tantos outros mais para lá do que para cá, mas esta mão cheia vou levar comigo. Valeu.

domingo, 20 de setembro de 2026

UM POEMA DE ANTÓNIO FERRA

 


Deixo-me sempre prender 
no cerco das aves
interrogo um perito em cabalas
montadas para a demolição
de bandas de coreto
e ninhos de cegonhas

essa dúvida não tem fim
nunca recebo a resposta encenada
no palco onde dançam os sátiros
e pousam as pombas

neste desespero me abrigo

Deixo-me sempre prender
cercado pelas aves
movo-me entre a
magnificência da terra
e as penas espalhadas
no meu bairro

António Ferra, in O Cerco das Aves, edição do autor, Setembro de 2026.

sábado, 19 de setembro de 2026

50 x 47

 


No início dos anos 90, a movida alternativa dividia-se entre o madchester britânico e o grunge made in Seattle. De um lado, os The Stone Roses. Do outro, os Nirvana – que, apesar de terem assinado o primeiro álbum pela Sub Pop, nasceram em Aberdeen. Tiveram ambos vida curta: os britânicos com dois álbuns originais, os norte-americanos com três. Foi quanto bastou para assinarem um lugar na história. Eu só não entrei na idade adulta com o coração dividido porque, nos entretantos, fui descobrindo coisas como o trip hop de Bristol, a electrónica de Viena, o chamado country alternativo, coisas como o slowcore, o post-rock, outras tantas do género. Sempre me interessaram as canções, por um lado, e a improvisação, por outro, pelo que no leito entre as duas margens foi o gosto formando-se e a cabeça inclinando-se para o ecumenismo. Hoje, lamento apenas ter-me sido usurpada a alegria de passar horas numa loja a escolher vinis ou CDs. Rareiam. E as que há são todas tão aquém do desejo que mais vale não perder tempo com deslocações. Tenho tudo dos The Stone Roses, que não é muita coisa, e regresso tanto ao primeiro como a Second Coming (1994) com a mesma satisfação de quem sabe ir encontrar um belo conjunto de canções, melodias, ritmos sedutores. A guitarra de John Squire é um mistério ainda por desvendar, principalmente a forma como assimilou o legado pop sem reduzir o engenho às eternas sequências de acordes na base de temas orelhudos. Pelo meio, Turns Into Stone (1992) coligiu singles e lados B deixados fora do álbum homónimo de 1989.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

UM POEMA DE K. P. KAVÁFIS


REMORSO

Di-lo, esse remorso - para que serene; é ele
bem-intencionado, decerto, mas perigosamente enviesado.
Não deixes que o passado tanto te tiranize.
Nem tanta importância dês a ti mesmo.
O mal que fizeste, menor foi
do que acreditas: bem menor.
A virtude que agora te trouxe o remorso
já então estava latente em ti.
Eis que um episódio, que retorna
súbito à tua memória, esclarece
a razão de um teu acto que pouco
louvável te pareceu, mas que agora se justifica.
Não confies demasiado na tua memória:
esqueceste tantas coisas - ninharias diversas -
que te dariam razão suficiente.

Quanto ao lesado, não penses que o conhecias
assim tão bem. Teve decerto alegrias que desconheceste;
e não terão sido afinal arranhões
as feridas - terríveis, julgas tu, por
desconhecimento da vida dele - que lhe infligiste?
Não confies na tua enferma memória.
Serena o remorso, sempre
enviesado contra ti - até à falácia.

[Outubro, 1925]

K. P. Kaváfis, in Aquele Belo Rapaz - poesia completa, tradução de José Luís Costa, posfácio de Tatiana Faia, Assírio & Alvim, Novembro de 2025, pp. 399-400. 


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SIGUR RÓS NO CAMPO PEQUENO

 

Acontece por vezes pressentir uma muralha no olhar, um filtro, não, uma bolha, não, uma raiva escondida, talvez, inveja, será, um olhar que nos trava, empurra, afasta. Acontece por vezes alguém olhar-nos assim com pedras nos olhos, acontece por vezes alguém parecer-nos inflamado, prestes a explodir, gestos como martelos, acontece. E também acontece quem trema, não de medo, não de frio, mas de paralisia, quem trema de nervos contidos, a ansiedade que toma conta do corpo e se manifesta à superfície das mãos, das faces.  E acontece o cansaço tomar conta de nós como uma corrente no pescoço de um cão, acontece aquela saturação escavadora de abismos, o pensamento sem rumo nem organização, as palavras retidas numa fadiga impaciente. Nada nos acalma, nada pacifica. Acontece muito. Mais raro é no meio do turbilhão a paz emergir e a pele dar de si com arrepios que insuflam o cérebro e te fazem retomar um certo equilíbrio, uma certa esperança, uma certa vontade de permanecer. Acontece muito pensar na morte como alívio, o termo de todas as dores e frustrações, o teu ansiado silêncio, mais raro é acontecer pensar na vida enquanto possibilidade de silêncio recortado por melodias apaziguadoras, regeneradoras. Estamos sempre a renascer da morte em que vivemos. Não sei se mais fortes, se igualmente débeis, pois os olhos murados de pedra inacessível permanecem ameaçadores. Diz-se que o distanciamento é a melhor cura contra a toxicidade, mas o distanciamento pode impelir-nos para uma solidão irreversível. Acontece por vezes ser a proximidade o melhor remédio contra o cansaço de si mesmo. Então, levados pelas ondas de luz e de som, emalados pelo coro e pelas orquestras, mesmo que não nos sintamos rejuvenescidos temos, pelo menos, mais uma razão para dizer: ainda vale a pena respirar.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

UM POEMA DE ALVARO GARCÍA DE ZÚÑIGA

 


questionário-cantilena
questionário para um inquirido

 
Posso colocar-lhe uma questão?
Se eu colocar uma questão, onde a coloco?
Onde estava a questão antes de ser colocada?
Podemos responder a uma questão com outra questão?
Porque podemos responder a uma questão com outra questão?
Será uma resposta?
Ou porventura uma questão-resposta?
Uma pessoa que responda com uma questão é um respondedor?
Ou um questionador?
Pode-se levantar uma questão?
Até onde se pode levantar uma questão?
Pode-se levantar uma questão já colocada?
Porquê colocar uma questão se podemos continuar a levantá-la?
Pode-se colocar uma resposta?
Ou levantar uma questão colocada?
Podemos levantar respostas?
Pode-se levantar uma questão acima da resposta?
Uma questão-resposta é uma questão?
Uma questão-resposta é uma resposta?
Uma boa questão é uma questão que não faz mal à resposta?
Uma boa resposta é uma resposta que não faz mal à questão?
Uma boa questão é colocada num lugar diferente de uma questão vulgar?
Uma questão por colocar, terá ela respostas?
Onde estão as respostas das questões por colocar?
Uma questão por colocar, será ela uma questão?
As respostas das questões por colocar, repousam?
Uma questão põe-se e uma resposta repousa-se?
Se eu carregar uma questão e a colocar, será possível inverter colocação e carregação?
E a questão?
Podemos responder a uma questão invertida?
Uma questão invertida é uma resposta?
Responda.
 
Alvaro García de Zúñiga, in “Peaux et Scies", BlablaLab, Novembro de 2017, pp. 81-82. Original em francês. Versão portuguessível de HMBF.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

FIO MENTAL [fragmento]

 


PSIQUIATRA
[olhando um papel com o histórico clínico do Gestor]
Notou alguma evolução nos últimos tempos?

GESTOR
Sofri uma mudança radical. De acólito passei a apóstata.

PSIQUIATRA
[tomando notas]
Quer elaborar?

GESTOR
Elaborar até posso. Laborar é que não. Já não.

PSIQUIATRA
Percebo.

GESTOR
Percebe mesmo? Deixe-me elaborar. Eu era um tipo que promovia pelo exemplo do trabalho a religião do capitalismo e agora renego tudo isso por palavras, enquanto não encontro actos para o fazer. Tive uma epifania. Caí do cavalo a caminho de Damasco. Apareceu-me Jesus, mas era um hippie anti-sistema, cabeça inclinada, olhar misericordioso, dois dedos no ar como nas gravuras, mas a segurar neles um charro. Logo me censurou: «Eu bem te dizia, o dinheiro é o diabo, e o trabalho uma forma de o adorar.»

Rui Ângelo Araújo, in Fio Mental, Urze Livros, Março de 2025, pp. 58-59.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A NACIONALIDADE IMPORTA?

 
Ontem falou-se de Nâzım Hikmet à mesa. Nasceu em Salónica, actual Grécia. Fica na região grega da Macedónia, pelo que também podia ser Macedónia. Mas à época do nascimento do poeta, era uma cidade do Império Otomano. Portanto, turca, embora, curiosamente, com população maioritariamente judaica emigrada para a Palestina após a conquista grega em 1912. Caso curioso também é o de Gogol, disputado por ucranianos e russos. Nasceu em Sorochyntsi, Domínio da Poltrávia, Império Russo (hoje distrito de Myrhorod, oblast de Poltrava, Ucrânia). Tanto Gogol como Hikmet morreram em Moscovo. A questão da nacionalidade é central na obra de Konstantínos Kaváfis, "nascido e morrido" em Alexandria, Egipto, é um dos maiores poetas gregos da modernidade. Cidade cosmopolita no tempo de Kaváfis, Alexandria tinha vasta população grega no início do século XX. O que determina a nacionalidade de um escritor? O lugar onde nasceu? A língua em que escreveu? Isso importa?