domingo, 31 de maio de 2026

UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD

 


VÉNUS ANADIÓMENA

Como de um verde caixão de lata, a cabeça
De uma mulher, cabelo castanho e pastoso,
Lenta e estulta, emerge de uma velha banheira,
Cheia de deformidades mal disfarçadas;

Depois a farta nuca, as grandes omoplatas
Saídas; as costas cheias de reentrâncias;
E os bolbos dos rins, que parecem descolar;
Sob a pele, a banha surge em lisas camadas;

Um tanto vermelha, a espinha, e o todo liberta,
Que estranho, um cheiro horrível; vê-se sobretudo
Singularidades que requerem a lupa...

Nas nalgas, dois nomes gravados: Clara Venus;
- E toda em requebros alça e larga garupa
E expõe, bela e medonha, uma chaga no ânus.

27 de Julho de 1870

Arthur Rimbaud, in Poesia, tradução e notas de João Moita, prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Assírio & Alvim, Setembro de 2025, p. 61.

DIGRESSÃO

Passaram o amigo de infância, a antiga colega de curso, a estrela da telenovela, o crítico histórico – na reforma -, o radialista, o realizador de cinema (dose dupla), o animador cultural, o designer, os amigos e os amigos dos amigos, colegas de trabalho, etc. Nem um poeta, um único. Nem um poeta.

sábado, 30 de maio de 2026

LX 26

27.05: Está aqui um tipo à minha frente a raspar raspadinhas com a língua de fora. Subitamente, ocorre-me haver qualquer coisa de onanista nisto das raspadinhas. Devíamos passar a dizer bater raspadinhas. Onde vais? Vou ali bater uma raspadinha.

*

28.05: O patrão da petisqueira Estrelinha trata-me por querido. A patroa trata-me por menino. A empregada chama-me jovem. Estou à espera que um dia alguém se me dirija por "querido jovem menino". Então querido jovem menino, o que é que vai ser? Vou ser querido, vou ser jovem, vou ser menino.

*

29.05: Está a decorrer a maior Feira do Livro de Lisboa de sempre, rendida a dois ou três grandes grupos editoriais com pavilhões como nunca se viu. Por esta altura, o Parque Eduardo VII povoa-se de pavões nos pavilhões e de crocodilos que se fartam de chorar sempre que uma livraria independente desaparece.

*

30.05: 45 minutos à espera para ser atendido numa farmácia. Dois funcionários no atendimento ao público, três a andar de um lado para o outro. Gente a reclamar para orelhas moucas. Finalmente chamado, lá vou debitando os números da receita. Um, dois, três números. Quatro vezes pronunciados, porque havia sempre algum que falhava. Quer genérico ou de marca, perguntou a estimável de serviço. Quero ir-me embora daqui quanto antes, respondi-lhe. Ah, é que posso não ter genérico. Então traga o que tiver, eu depois pago-lhe com a minha simpatia genérica. E pronto, é isto.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

UMA CRIANÇA OCUPA O TEMPO

 
Uma criança ocupa o tempo
a construir castelos de areia
Senta-se à espera que a maré
engula o que ela construiu
 
Um velho entra dentro do castelo
e instala-se numa das torres
Espera que a maré o leve
até uma qualquer ilha deserta
 
Mas o tempo passa e a criança
regressa a casa de mão dada
com o velho que por ali ficou
enrolado nas ondas dos sonhos
 
que são como castelos de areia

quinta-feira, 28 de maio de 2026

DE UMA PEÇA DE ANTON TCHÉKHOV

 


JIDÁLOV (Para Dimba)
   Mais uma rodada, ou quê? (Serve.) Em qualquer momento se pode beber. O mais importante é a acção, Kharlampi Spiridónitch, para não esquecermos os assuntos. Bebe, mas mantém a cabeça fresca... Mas se é para beber, porque não se há-de beber? Pode-se beber... à sua saúde!
Bebem.
   Vocês lá na Grécia têm tigres?
DIMBA
   Temos.
JIGÁLOV
   E leões?
DIMBA
   E também há leões. Na Rússia é que não há nada, mas na Grécia há de tudo. Eu tenho lá o meu pai e um tio, e irmãos, e aqui não tenho nada.
JIGÁLOV
   Hum... E há cachalotes na Grécia?
DIMBA
   Há de tudo.
NASTÁCIA TIMOFÉIEVNA (Para o marido.)
   Para quê estar para aí a beber e a petiscar à toa? É tempo de todos se sentarem. Não espetes o garfo nos lagostins... Isso está aí para o general... Pode ser que ele ainda venha...
JIGÁLOV
   E na Grécia também há lagostins?
DIMBA
   Há--- Há de tudo.
JIGÁLOV
   Hum... E também há funcionários civis? Há?
ZMEIÚKINA
   Posso imaginar a atmosfera que há na Grécia!
JIGÁLOV
   E por certo também há muita gatunice. Os gregos são como os arménios ou os ciganos. Para nos venderem uma esponja ou um peixe-dourado falam de uma maneira que nos intrujam. Repetimos, ou quê?

Anton Tchékhov, traduzido por António Pescada, da peça A Boda, in Peças em Um Acto, Relógio D'Água, Abril de 2026, pp. 142-143.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

CATARATAS DE BARATAS

 
Em "Na estrada real", de Anton Tchékhov, a peregrina Nazárovna comenta, enquanto descansa na taberna de Tíkhon: "Ouves? Soltaram-se as cataratas do céu." Leio isto e vem-me à memória Luís Miguel Cintra, em "Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço", de João César Monteiro: "agora já caem baratas do tecto”, dizia ele sentado à mesa de um café. Cataratas que caem do céu, baratas que caem do tecto. Escolham vocês.

terça-feira, 26 de maio de 2026

SENTIDO ÚNICO

 
Pagas a água, pagas o gás
pagas o gasóleo, pagas a luz
pagas a renda, pagas o IMI
pagas IRS, descontas, pagas
pagas o que comes, pagas o que vestes
pagas portagens, pagas passe
pagas bilhete, pagas ingresso
pagas a factura, pagas a taxa
pagas a contribuição audiovisual
pagas o médico, pagas a farmácia
pagas o avio, o diploma, a concessão
pagas o alívio, o ar condicionado
pagas o mobiliário, os talheres
pagas para provar que existes
pagas a multa, o atraso, a infracção
pagas com as próprias mãos
pagas o comprovativo, o papel
pagas juros, despesas de manutenção
pagas com trabalho
trabalhas para pagar
pagas para viver
vives para trabalhar
vives para pagar
e depois morres

segunda-feira, 25 de maio de 2026

OS JUGOSLAVOS

 


Não sei de onde vem a tristeza. Está sempre aí, à espreita, e de repente lança-se sobre nós. É o maior dos mistérios, porque é que as pessoas ficam tristes. Eu vi pessoas a rir que se fechavam na casa de banho a chorar, e vi homens que diziam coisas terríveis ao espelho. De certeza que também há mulheres que falam aos espelhos. Suponho que essas pessoas, as pessoas que falam aos espelhos, precisam de dizer qualquer coisa e não encontram a quem o dizer. Alguém que seja suficientemente forte, porque é preciso ser-se muito forte para correr o risco de que os outros nos arrastem. Porque, tal como a alegria, a tristeza de outra pessoa também pode levar-nos consigo.

Juan Mayorga, in Os Jugoslavos, tradução de António Gonçalves, Artistas Unidos / Livrinhos de Teatro, SNOB, Janeiro de 2026, p. 49.

SONNY ROLLINS (1930-2026)

 


domingo, 24 de maio de 2026

GENTRIFICAÇÃO

 

Escreve João Vieira Pereira, no Expresso:

"A gentrificação não só arrasou bairros inteiros como está a mudar cidades e até regiões. O centro de Lisboa é hoje disputado entre o turista e o residente milionário. O mesmo se passa na linha de Cascais. A poucos minutos para norte, a Ericeira tornou-se um dormitório de jovens estrangeiros a viverem o sonho de serem nómadas digitais. Troia e Comporta estão a transformar-se em guetos para milionários que acham que ganharam o direito de escorraçar todos os outros que não partilham o mesmo gestor de fortunas. Os condomínios privados, com preços em que apenas um lote de terreno chega aos vários milhões de euros, são recebidos com orgulho pelo português, pacóvio e deslumbrado, mas que nunca terá dinheiro para lá entrar. O mesmo que não percebe que a abertura de escolas internacionais com mensalidades de vários milhares de euros é apenas uma resposta de uma elite predisposta a sugar a qualidade de vida que encontraram e que nessa senda procuram transformar-nos no espelho do país que deixaram para trás. Esta invasão milionária está a descaracterizar Portugal a uma velocidade vertiginosa."

Um país a saque, cada vez mais desigual, entretido com feiras, festas e festivais, fátimas, futebóis e fados, um país que é cada vez mais aquela imagem de um homem a afundar-se num pântano que Manoel de Oliveira nos legou: a mão, a mão, suplicava o desgraçado, enquanto à volta dele os miseráveis bulhavam sem conseguirem organizar-se. Na AR, horas infindáveis de questiúnculas sem sentido, burcas, notas de pesar e palermices entretêm o pagode. E o país é isto, esta boçalidade, esta indigência, tudo rendido ao negócio, ao lucro, à sala cheia a qualquer preço. Mas fiquem descansados: não há qualquer proibição de colocar os chapéus à frente das zonas concessionadas nas praias. Que alívio.

sábado, 23 de maio de 2026

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

 


Visita aos arquivos Ephemera na Vila da Marmeleira. Guardem tudo, não destruam nada, repetiu insistentemente JPP, que começou por citar Brecht para justificar uma história que se recupera não só pelos Césares, mas também pelo quotidiano comum. Evitarei juízos de valor sobre o bicho que corrói as provas, até por vivermos num tempo em que a memória está sob ataque. O esquecimento diz-me muito, é o motor da escrita, da criação, é esta paradoxal vontade de deslocar para fora o que pesa dentro. E depois as coisas ficam por aí, pilhas sobre pilhas de objectos, palavras, documentos que alguém se encarregará de conservar ou transformar em cinza. No jardim, um prato de parede com uma quadra: «Os calos das tuas mãos / São bem as tuas medalhas, / São o símbolo da nobreza / Que tu tens porque trabalhas.» Poesia popular, dizem, sem autor que se conheça. E no entanto, ali está para a eternidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

MISSA DE DOMINGO

 
dói-me a boca de tanto escrever
com os pés
chatos
 
dói-me o carácter móvel
a tinta-de-choco norueguês
 
ah como me dói
o opus orgelwerke
a assobiar para o ar
mandamentos do Senhor
 
amarás o time-sharing com todo o teu coração
que eventos leva-os o vento
nas poeiras de África
 
amarás com toda a tua lama e com todas as tuas forcas
a audiência
a quota de mercado
e não invocarás os santos especuladores em vão
 
santifica domingos
sunset parties
feiras festas e festivais
 
é dia da ração
dia de poetas
honra pai mãe filhos e espíritos santos
atacados de Alzheimer
 
não matarás colonos sionistas
guardarás castidade nas palavras e nas obras
obrarás sem refreio
que nada se constrói sem destruição
 
não furtarás
colonizarás árvores de furto
from the river to the sea
 
ó deus dos incrédulos
ó misericordioso do cinema às cinco
guarda castidade nos pensamentos e nos desejos
usa preservativo
preserva
pré-reserva
USA
 
e se por acaso alguém levantar falsos testemunhos
condena
não perdoes
que este é o reino das coisas alheias à cobiça
reino de encher chouriços
do cu
para a missa

quinta-feira, 21 de maio de 2026

OLFACTOLOGIA DAS CIDADES


Nos anos sessenta não se perguntava a um amigo "onde é que moras"?, mas "em que Café é que paras?". Estes distinguiam-se, em primeiro lugar, pelo tipo de habitués que os frequentava, mas também por coisas tão (aparentemente) subvalorizadas como a disposição e forma das mesas, a configuração "gestáltica" do espaço, o número de saídas (para eventuais fugas apressadas), e até - estranhamente - o cheiro que predominava no "estabelecimento" (está por fazer uma olfactologia das cidades).

Henrique Garcia Pereira, in O Técnico Insurgente nos Anos 60 e seu enquaramento socioeconómico, Companhia das Ilhas, Maio de 2026, p. 50.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O PREÇO A PAGAR

 


Regresso a Nietzsche em registo informal, ladeado por um tanque como aquele em que tomava banho quando era puto e um cão verdadeiro que parece de louça. O Nietzsche de “Aurora”, o primeiro, inspiradora das vanguardas que se encarregaram de atacar e de destruir os velhos valores herdados de séculos sobre séculos de tradição judaico-cristã. O do eterno retorno, a lembrar-nos que cada gesto carrega em si mesmo o desejo de se repetir. Mais do que o super-homem, emancipado da axiologia ancestral, dos sistemas morais caducos, capaz de criar e reger-se pelos seus próprios valores, interessa-me o niilismo enquanto princípio do absurdo que nos torna conscientes da efemeridade e, por isso mesmo, obriga ao máximo aproveitamento da vida: «os fins caiem-nos dos olhos como escamas». Filósofo, poeta, músico, este homem que a sífilis enlouqueceu, fazia também o elogio da solidão, isto é, da emancipação que nos torna sós num mundo contrário à liberdade individual. O preço a pagar por ser livre: acabar só. Meti isso num micróbio. Já lá vai. (Casa Bernardo, Caldas, 20 de Maio de 2026)

terça-feira, 19 de maio de 2026

50 x 41

 


Regresso à capital a ouvir o que ouvia quando fui lá parar no primeiro de oito anos sem retorno. É a única maneira de aguentar aquilo, um condomínio fechado atafulhado de turistas cujo efeito mais nocivo é determinarem todas as opções. Lisboa em festa contínua, com festivais e feiras por todo o lado, o negócio florescente da segurança privada, cidade vigiada, caótica, ingovernável. Carros, trotinetes, motas, bicicletas, carroças, tuk-tuks e gente a vau num insuportável rio de poluição sonora. Melhor proteger os tímpanos com as guitarras de In Utero (1993), derradeiro suspiro de uma banda que renovou o rock de guitarras quando ele perdia para as novas tecnologias. Três discos de originais, um de raridades, outro em registo acústico, foi quanto bastou para garantir um lugar na eternidade. Kobain terá posto termo à vida em 94, com 27 anos de idade, e a gente aos 52 compreende cada vez com mais nitidez tal opção. É verdade que há hoje uma Lisboa deslisboetizada por força das circunstâncias, uma espécie de galeria de gente com a corda ao pescoço a fazer pela vida para pagar contas impagáveis, afastando-se para a periferia, da periferia para o campo, reinventando-se. A direcção migratória inverteu-se. Do campo para a capital, os saloios foram em busca de sustento. Da capital para o campo, os cretinos partem em busca de ar puro. Isto não é bom para o campo, assaltado de pedantismo, nem para a urbe, despovoada de raízes. Um não lugar, é o que aquilo é. Os problemas eram outros quando Nevermind (1991) me expulsava dos bares e das discotecas por mau comportamento, mas a dessintonia mantém-se.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

UM INTERROGATÓRIO

 


RUTH   Era assim que imaginava a sua vida? Um homem rico e bem-sucedido que passa todos os fins-de-semana a cuidar da mãe idosa?
CAMERON   Não é -
RUTH   Não deve ser pêra-doce.
CAMERON   Na verdade eu até gosto.
RUTH   De quantas coisas é que abriu mão por ela?
CAMERON   Eu não penso nesses termos.
RUTH   Acha difícil estar na companhia dela?
CAMERON   Não.
RUTH   Perguntei-lhe há pouco se o jantar com ela tinha sido agradável e o Cameron respondeu: «Tanto quanto uma refeição com a nossa mãe pode ser agradável.»
CAMERON   Não foi isso que eu quis dizer.
RUTH   Acha-a sufocante?
CAMERON   Não.
RUTH   Já alguma vez fez alguma coisa para se vingar dela?
CAMERON   Não.
RUTH   Para recuperar uma sensação de controlo?
CAMERON   Pare com isso.
RUTH   Alguma coisa para se sentir forte e poderoso?
CAMERON   Não.
RUTH   Irrita-o, o domínio que ela tem sobre si?
CAMERON   Não, foda-se!

Jamie Armitage, in Um Interrogatório, tradução de Joana Frazão, Artistas Unidos / Livrinhos de Teatro, SNOB, Abril de 2026, pp. 50-51.

SERÁ DO AZEITE?

 
Portugal é muito mais do que Revista à Portuguesa, mas a Revista à Portuguesa permanece irremediavelmente dentro dos portugueses. Será do azeite?

domingo, 17 de maio de 2026

O PAÍS

 
O país vai ao beija-mão
e lava os dentes
 
O país lambe-botas on the ground
 
O país beija-cus
a cantar de galo
 
O país de joelhos nas lajes
epitáfio de si mesmo
companheiro de Deus
domesticador de bois
 
O país escrito a giz
no monte negro da História:
país de poetas
país de cobardes
país de brados
país de quebrados
 
O país de broche na lapela
com boca de leite
diz que sim
diz mais
mais hollycaustos
mais ginecídios
 
O país não fala nem escreve
em português
 
País de tanga a dançar o vira
país da tanga
a pedal na gira
em direcção ao céu que é de todos
sob terras de ninguém
 
Este país sem rei nem roque
aos pulos nas festas
nas feiras
nos festivais
carrega andores de plástico
na procissão de Maio
busca de perdão sem graça
quanto sobra
a quem come e cala e consente
 
Quinquagésima primeira estrela branca
no cantão azul-marinho
da ocidental praia lusitana
 
Este país
Esta lama