Gianni Infantino é, por estes dias, o rosto da mais ignóbil venalidade que assaltou o mundo. Depois do gesto bajulador com prémios da paz a cheirar a tumefação, aí o temos diariamente a pôr água na fervura, a usar paninhos quentes, a oferecer a sua cara de pau careca a uma organização que é a antítese do espírito desportivo. Mas não nos iludamos, a uma escala micro este mundo está repleto de infantinos cujo propósito único e final é apenas e tão-só ficar bem na fotografia ao lado de quem lhes possa ser útil às ambiçõezinhas mais fúteis. Sem o mínimo escrúpulo daquilo a que podemos chamar ética social, o que move esta gente é a vaidade, o egoísmo, enfim, a vanitas. E o povo vai atrás como n’A Parábola dos Cegos, de Bruegel, o Velho, a fazer bicha no beija-mão que sempre entusiasma as hostes e sintonizando o canal na selecção porque, enfim, as violações anais do CR7 serão sempre mais entusiasmantes do que o extermínio em Gaza. Depois é ouvi-los queixarem-se de berardos e espíritos santos a quem só não beijaram o cu se não puderam, pois a culpa é da justiça portuguesa, dos ciganos e dos comunistas.
antologia do esquecimento
quinta-feira, 11 de junho de 2026
INFANTINO
Gianni Infantino é, por estes dias, o rosto da mais ignóbil venalidade que assaltou o mundo. Depois do gesto bajulador com prémios da paz a cheirar a tumefação, aí o temos diariamente a pôr água na fervura, a usar paninhos quentes, a oferecer a sua cara de pau careca a uma organização que é a antítese do espírito desportivo. Mas não nos iludamos, a uma escala micro este mundo está repleto de infantinos cujo propósito único e final é apenas e tão-só ficar bem na fotografia ao lado de quem lhes possa ser útil às ambiçõezinhas mais fúteis. Sem o mínimo escrúpulo daquilo a que podemos chamar ética social, o que move esta gente é a vaidade, o egoísmo, enfim, a vanitas. E o povo vai atrás como n’A Parábola dos Cegos, de Bruegel, o Velho, a fazer bicha no beija-mão que sempre entusiasma as hostes e sintonizando o canal na selecção porque, enfim, as violações anais do CR7 serão sempre mais entusiasmantes do que o extermínio em Gaza. Depois é ouvi-los queixarem-se de berardos e espíritos santos a quem só não beijaram o cu se não puderam, pois a culpa é da justiça portuguesa, dos ciganos e dos comunistas.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
O MEU PAÍS É O MEU CORPO
terça-feira, 9 de junho de 2026
LUCRECIA
domingo, 7 de junho de 2026
UM POEMA DE KAVÁFIS
sábado, 6 de junho de 2026
SERVIÇO PÚBLICO
sexta-feira, 5 de junho de 2026
EL CERCO DE NUMANCIA
quinta-feira, 4 de junho de 2026
ESPECTÁCULO
quarta-feira, 3 de junho de 2026
ODE A KAVÁFIS
Os dias começam sempre à hora errada
e só no fim vencem com a paz do sono
em busca de louros sem espinhos
seguimos em trânsito das aldeias para as vilas
e destas até às cidades
sentindo nos ombros o peso da derrota
que nos devolve ao ponto de partida
e de Bizâncio, que Babilónia afundou-se
e dos impérios restam ruínas e destroços
nada didácticos nesta corrente de futuros babélicos
da fortuna madrasta
do desconcerto do mundo
do mortal quebranto lançado por inimigos
tão fantasmáticos quanto os heróis literários
só com paciência poderá ser regada a planta
até o fruto falar na boca de quem come
como a distribuição das horas pelos calendários
com que ateamos piras
onde cremar frustrações
mas um dia paramos e vemos arrastadas pelas águas
as ambições outrora vigorosas
os sonhos outrora vigilantes
são então coroas de espinhos na cabeça dos vencidos
agradecemos a pateada com sorrisos no rosto
a indiferença é o nosso escudo de Aquiles
contra a espada de Dâmocles
até ao último suspiro
e continuamos depois de mortos
a fazer do fracasso uma festa
terça-feira, 2 de junho de 2026
SANTOS POPULARES
Arraiais, carnavais, cortejos, desfiles, feiras
medievais, festas e festivais, peregrinações, picarias, queimas das fitas,
marchas populares, sunset parties, tasquinhas, touradas, largadas. E conceitos,
muitos conceitos, conceitos para tudo e para mais alguma coisa. Até já
inventaram as sardinhas e os manjericos de conceito. Espremido, é mais do
mesmo, tédio, boçalidade, a uniformização do gosto, um calendário repetitivo,
monótono, promotor da parolice, da saloiíce, com multidões de indivíduos que
não se distinguem uns dos outros, singularidades hipotecadas, chusmas de
criaturas copiadas a papel químico, robots, clones aos pulos tingidos de
alegrias infinitas e ruas repletas de lixo a cheirarem a mijo.
segunda-feira, 1 de junho de 2026
BANQUETE
São tantos dentro de um só, em busca de sentido para a multidão que corre e se agasta e se prostra como bandos de abutres a pairar sobre carcaças velhas. Tantos dentro de um só a remoer os ossos cegos, surdos e mudos das ambições sem mesura, a vomitarem pelos olhos o que emprenharam pelos ouvidos: nada com eles, não sabem, não viram, e só a curiosidade pesa no voo rasante que serpenteia com renovados venenos as presas fáceis de capturar. Horas e mais horas investidas a projectar futuros que chegam sempre com atraso e não raras vezes se perdem pelo caminho, como génios na esquina do esquecimento. Mas descansai, ó abutres, há mortos que emergem do Hades com a mesma cara de parvos que tiveram em vida para que possais satisfazer vossa ávida gula necrófila. Podeis então palitar o bico com perónios desossados pelo cansaço das peregrinações que sempre levaram os fiéis a lugar nenhum. (Numa exposição de Manuel João Vieira, Maat).
domingo, 31 de maio de 2026
UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD
DIGRESSÃO
sábado, 30 de maio de 2026
LX 26
*
28.05: O patrão da petisqueira Estrelinha trata-me por querido. A patroa trata-me por menino. A empregada chama-me jovem. Estou à espera que um dia alguém se me dirija por "querido jovem menino". Então querido jovem menino, o que é que vai ser? Vou ser querido, vou ser jovem, vou ser menino.
*
29.05: Está a decorrer a maior Feira do Livro de Lisboa de sempre, rendida a dois ou três grandes grupos editoriais com pavilhões como nunca se viu. Por esta altura, o Parque Eduardo VII povoa-se de pavões nos pavilhões e de crocodilos que se fartam de chorar sempre que uma livraria independente desaparece.
*
30.05: 45 minutos à espera para ser atendido numa
farmácia. Dois funcionários no atendimento ao público, três a andar de um lado
para o outro. Gente a reclamar para orelhas moucas. Finalmente chamado, lá vou
debitando os números da receita. Um, dois, três números. Quatro vezes
pronunciados, porque havia sempre algum que falhava. Quer genérico ou de marca,
perguntou a estimável de serviço. Quero ir-me embora daqui quanto antes,
respondi-lhe. Ah, é que posso não ter genérico. Então traga o que tiver, eu
depois pago-lhe com a minha simpatia genérica. E pronto, é isto.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
UMA CRIANÇA OCUPA O TEMPO
quinta-feira, 28 de maio de 2026
DE UMA PEÇA DE ANTON TCHÉKHOV

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