terça-feira, 26 de maio de 2026

SENTIDO ÚNICO

 
Pagas a água, pagas o gás
pagas o gasóleo, pagas a luz
pagas a renda, pagas o IMI
pagas IRS, descontas, pagas
pagas o que comes, pagas o que vestes
pagas portagens, pagas passe
pagas bilhete, pagas ingresso
pagas a factura, pagas a taxa
pagas a contribuição audiovisual
pagas o médico, pagas a farmácia
pagas o avio, o diploma, a concessão
pagas o alívio, o ar condicionado
pagas o mobiliário, os talheres
pagas para provar que existes
pagas a multa, o atraso, a infracção
pagas com as próprias mãos
pagas o comprovativo, o papel
pagas juros, despesas de manutenção
pagas com trabalho
trabalhas para pagar
pagas para viver
vives para trabalhar
vives para pagar
e depois morres

segunda-feira, 25 de maio de 2026

domingo, 24 de maio de 2026

GENTRIFICAÇÃO

 

Escreve João Vieira Pereira, no Expresso:

"A gentrificação não só arrasou bairros inteiros como está a mudar cidades e até regiões. O centro de Lisboa é hoje disputado entre o turista e o residente milionário. O mesmo se passa na linha de Cascais. A poucos minutos para norte, a Ericeira tornou-se um dormitório de jovens estrangeiros a viverem o sonho de serem nómadas digitais. Troia e Comporta estão a transformar-se em guetos para milionários que acham que ganharam o direito de escorraçar todos os outros que não partilham o mesmo gestor de fortunas. Os condomínios privados, com preços em que apenas um lote de terreno chega aos vários milhões de euros, são recebidos com orgulho pelo português, pacóvio e deslumbrado, mas que nunca terá dinheiro para lá entrar. O mesmo que não percebe que a abertura de escolas internacionais com mensalidades de vários milhares de euros é apenas uma resposta de uma elite predisposta a sugar a qualidade de vida que encontraram e que nessa senda procuram transformar-nos no espelho do país que deixaram para trás. Esta invasão milionária está a descaracterizar Portugal a uma velocidade vertiginosa."

Um país a saque, cada vez mais desigual, entretido com feiras, festas e festivais, fátimas, futebóis e fados, um país que é cada vez mais aquela imagem de um homem a afundar-se num pântano que Manoel de Oliveira nos legou: a mão, a mão, suplicava o desgraçado, enquanto à volta dele os miseráveis bulhavam sem conseguirem organizar-se. Na AR, horas infindáveis de questiúnculas sem sentido, burcas, notas de pesar e palermices entretêm o pagode. E o país é isto, esta boçalidade, esta indigência, tudo rendido ao negócio, ao lucro, à sala cheia a qualquer preço. Mas fiquem descansados: não há qualquer proibição de colocar os chapéus à frente das zonas concessionadas nas praias. Que alívio.

sábado, 23 de maio de 2026

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

 


Visita aos arquivos Ephemera na Vila da Marmeleira. Guardem tudo, não destruam nada, repetiu insistentemente JPP, que começou por citar Brecht para justificar uma história que se recupera não só pelos Césares, mas também pelo quotidiano comum. Evitarei juízos de valor sobre o bicho que corrói as provas, até por vivermos num tempo em que a memória está sob ataque. O esquecimento diz-me muito, é o motor da escrita, da criação, é esta paradoxal vontade de deslocar para fora o que pesa dentro. E depois as coisas ficam por aí, pilhas sobre pilhas de objectos, palavras, documentos que alguém se encarregará de conservar ou transformar em cinza. No jardim, um prato de parede com uma quadra: «Os calos das tuas mãos / São bem as tuas medalhas, / São o símbolo da nobreza / Que tu tens porque trabalhas.» Poesia popular, dizem, sem autor que se conheça. E no entanto, ali está para a eternidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

MISSA DE DOMINGO

 
dói-me a boca de tanto escrever
com os pés
chatos
 
dói-me o carácter móvel
a tinta-de-choco norueguês
 
ah como me dói
o opus orgelwerke
a assobiar para o ar
mandamentos do Senhor
 
amarás o time-sharing com todo o teu coração
que eventos leva-os o vento
nas poeiras de África
 
amarás com toda a tua lama e com todas as tuas forcas
a audiência
a quota de mercado
e não invocarás os santos especuladores em vão
 
santifica domingos
sunset parties
feiras festas e festivais
 
é dia da ração
dia de poetas
honra pai mãe filhos e espíritos santos
atacados de Alzheimer
 
não matarás colonos sionistas
guardarás castidade nas palavras e nas obras
obrarás sem refreio
que nada se constrói sem destruição
 
não furtarás
colonizarás árvores de furto
from the river to the sea
 
ó deus dos incrédulos
ó misericordioso do cinema às cinco
guarda castidade nos pensamentos e nos desejos
usa preservativo
preserva
pré-reserva
USA
 
e se por acaso alguém levantar falsos testemunhos
condena
não perdoes
que este é o reino das coisas alheias à cobiça
reino de encher chouriços
do cu
para a missa

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O PREÇO A PAGAR

 


Regresso a Nietzsche em registo informal, ladeado por um tanque como aquele em que tomava banho quando era puto e um cão verdadeiro que parece de louça. O Nietzsche de “Aurora”, o primeiro, inspiradora das vanguardas que se encarregaram de atacar e de destruir os velhos valores herdados de séculos sobre séculos de tradição judaico-cristã. O do eterno retorno, a lembrar-nos que cada gesto carrega em si mesmo o desejo de se repetir. Mais do que o super-homem, emancipado da axiologia ancestral, dos sistemas morais caducos, capaz de criar e reger-se pelos seus próprios valores, interessa-me o niilismo enquanto princípio do absurdo que nos torna conscientes da efemeridade e, por isso mesmo, obriga ao máximo aproveitamento da vida: «os fins caiem-nos dos olhos como escamas». Filósofo, poeta, músico, este homem que a sífilis enlouqueceu, fazia também o elogio da solidão, isto é, da emancipação que nos torna sós num mundo contrário à liberdade individual. O preço a pagar por ser livre: acabar só. Meti isso num micróbio. Já lá vai. (Casa Bernardo, Caldas, 20 de Maio de 2026)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

SERÁ DO AZEITE?

 
Portugal é muito mais do que Revista à Portuguesa, mas a Revista à Portuguesa permanece irremediavelmente dentro dos portugueses. Será do azeite?

domingo, 17 de maio de 2026

O PAÍS

 
O país vai ao beija-mão
e lava os dentes
 
O país lambe-botas on the ground
 
O país beija-cus
a cantar de galo
 
O país de joelhos nas lajes
epitáfio de si mesmo
companheiro de Deus
domesticador de bois
 
O país escrito a giz
no monte negro da História:
país de poetas
país de cobardes
país de brados
país de quebrados
 
O país de broche na lapela
com boca de leite
diz que sim
diz mais
mais hollycaustos
mais ginecídios
 
O país não fala nem escreve
em português
 
País de tanga a dançar o vira
país da tanga
a pedal na gira
em direcção ao céu que é de todos
sob terras de ninguém
 
Este país sem rei nem roque
aos pulos nas festas
nas feiras
nos festivais
carrega andores de plástico
na procissão de Maio
busca de perdão sem graça
quanto sobra
a quem come e cala e consente
 
Quinquagésima primeira estrela branca
no cantão azul-marinho
da ocidental praia lusitana
 
Este país
Esta lama

sábado, 16 de maio de 2026

PERFORMANCE

 
No meio da aldeia, ali aterrado como um OVNI, uma casa de família transformada num espaço. No jardim, jaulas com porquinhos-da-índia e um furão albino. Também rolas, patos, cães. Em construção, um projecto, dir-me-ão antes da recepção com bandeira vermelha. As histórias hiper-realistas remetem para relações virtuais, três corpos em cena dialogam com outro em videochamada. Há um operador, computadores, telemóveis, microfones, histeria. Serve-se um copo de vinho enquanto se contam histórias de encontros através de aplicações, relações frustradas por expectativas goradas fluindo para um final trágico, noticioso, de suicídios, frustrações, diagnósticos desfavoráveis e poesia com borboletas. Em pontas, uma das performers roda como uma boneca de corda. Dizem que é tudo mentira, mas, ao que parece, era tudo verdade, o que nos deixa na dúvida: porque acham as pessoas interessantes as suas próprias vidas, a ponto de as querem expor daquela maneira? Talvez seja uma forma de transportar para a cena o exibicionismo em rede. Talvez. Faltou-me ali um furão albino à solta. Estava numa gaiola.

DE UM POEMA DE MARIA LIS

 


(...)

Como seria se ali
no alto de um comboio
ateássemos toda a papelada
            acabássemos de vez
            com a infindável burocracia de existir
ficássemos a ver as chamas altas as cinzas
cobrirem o céu de baixo para cima.

Mas nada ardeu.

Os homens passaram a pente fino
as mochilas enquanto por sua vez
os encarregados lhes passaram um envelope gordo
assim em catadupa por todos os vagões.

E de novo a trepidação das engrenagens
seguiu o rumo igual
em frente ou em círculo.

(...)

Maria Lis, in Enclave, com fotografias de Ana Filipa Correia, segunda edição, Língua Morta, Setembro de 2025, p. 78.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

JOÃO ABEL MANTA (1928-2026)

 


ELOGIO DO ELITISMO

 
Começou com o Big Brother. Já lá vão 26 anos e nunca mais nos largou, fosse na versão convencional ou na versão famosos, que é como quem diz estrelas decadentes. Dez anos depois apareceu a Casa dos Segredos, mas pelo meio houve a Quinta das Celebridades, Ilha da Tentação, Perdidos na Tribo, O Amor Acontece, Dilema, Like Me, A Grande Aventura... Para fazer face a isto, o canal Balsemão importou coisas como Acorrentados, Masterplan, O Bar da TV, Peso Pesado, Casados à Primeira Vista, Quem quer namorar com o agricultor?, Hell’s Kitchen, etc.. Diz que são produtos muito vistos, geradores de dinheiro a rodos, dão pau, como ontem dizia a jovem na oficina. O povo vê, o povo adora, o povo que enche salas, o povo, o povo, o povo. E se o povo sim, pois claro que então. Vai uma pessoa opor-se à vontade da maioria? Nem pensar. É o sucesso, é a fama, e o sucesso manda. O Dr. Ventura que o diga, inda há dias no seu bacanal em directo na CNN. Aquilo parecia a versão gang bang do politiquismo. Todo este lixo, apesar de ser lixo, não demove consciências. Rendidas à audiência, ao lucro, ao sucesso, chamam-lhe pragmatismo ou outra coisa qualquer do tipo ecletismo, generalismo, tudismo. Agradar a gregos e a troianos, contra o elitismo que resiste, teima, recusa focinhar no lixo. Elitistas é o que chamam a quem se opõe a estas coisas, como se estivessem a chamar um nome feio, como se ser elitista fosse um insulto. Etimologicamente, vem de escolha, selecção. No latim, eligere era separar o trigo do joio, escolher o melhor. Isto hoje é defeito. Cada qual sabe de si e Deus sabe de todos. Não é assim? Pois claro que é. Como também não deixam de ser as consequências da cedência, a ausência de filtros, a incapacidade para seleccionar o melhor, a fraqueza que impede a recusa, a debilidade que obstaculiza o não. Não vou por aí. E é que não vou mesmo, porque cada vez mais se impõe como uma necessidade absoluta ser intransigente com a porcaria. Portanto, não há audiência que nos convença, não há números que nos seduzam, não há maiorias que nos persuadam. A retórica da adesão popular é só mais um pretexto para quem não quer comprometer-se com mínimos de exigência, preferindo surfar as ondas gigantes do big show chewing gum. As consequências do laxismo já estão à vista, só não vê quem não quer porque não lhe convém. Será sempre muito mais confortável ir na onda do que remar contra a maré. Ser selectivo não é defeito, não pode ser defeito, é método. Em benefício do melhor, contra o culto da mediocridade que faz do mais estúpido o mais popular. Vejam-se esses criadores de conteúdos, os líderes das redes sociais que andam para aí, os influencers milhões, numeiros e afins. Tudo produto da ausência de elitismo, isto é, da necessidade absoluta de seleccionar.

FOGO DE ARTIFÍCIO

 
Entre os investimentos estruturais que nunca carecem de fundos neste país à beira-mar plantado temos o fogo de artifício. Pode não haver dinheiro para ajudar quem precisa, para fazer face às intempéries, para a cultura, para melhorar escolas, pagar a cantoneiros, etc., mas que nunca nos falte o fogo de artifício. Seja no Ano Novo ou no ano velho, queimem-se os euros na pólvora que nos ilumina e no ruído que nos ensurdece.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

DIA DA CIDADE

 
Amanhã é dia da cidade. Por certo haverá fogo-de-artifício, para alegria dos homens e desespero dos animais, assim como música pimba, para alegria dos animais e desespero dos homens.

RAZÕES QUE A RAZÃO DESCONHECE

 
Ouvido no café Estrelinha:
"Um dia destes mato-me, e depois veremos quem é que tinha razão. "

quarta-feira, 13 de maio de 2026

PESSOBOTS

 
A noite passada sonhei que tive uma eurovisão. Numa azinheira plantada na Quinta da Atalaia, apareceu-me Nossa Senhora. Só que tinha a cara da Zita Seabra. A princípio senti a coisa como um pesadelo, isto é, na agitação sonolenta o sonho revolucionário formou-se-me sob essa forma aflitiva, mas logo a seguir veio a pacificação: Nossa Senhora comia um corneto de framboesas colhidas nas estufas da Costa Vicentina por imigrantes nepaleses vergastados por gêèneérres ao serviço de patrões de bem. Portanto, era um sonho. Bichas intermináveis de peregrinos atravessavam a pé as pontes Salazar que Abril abriu e a vau o Tejo que Ormuz fechou, neste caso apoiados em andas gigantescas made in China. O mais estranho é que todos os peregrinos vinham da Soeiro Pereira Gomes, eram uma espécie de exército de robots como aqueles nos filmes de ficção científica, uniformizados com coletes reflectores que encandeavam veículos em trânsito. Estávamos no século XXIV, Zita era Nossa Senhora, e a ela obravam os peregrinos. Também oravam, em toada cante alentejano, mas com temperos de Cantão, dizendo coisas do tipo: Avé Zita que estais na Atalaia, santificada seja a vossa alfaia, etc. Já não havia jornais nem televisões, mas cada pessoa - passara a dizer-se pessobot - recebia instantâneos noticiosos através de um sistema de conexão WiFi dos cérebros individuais com o PC central. Não se falava de outra coisa senão das aparições de Santa Zita na Quinta da Atalaia, cujo nome, muito provavelmente, passaria a ser, a breve trecho, Quinta da Azinheira. Acordei com Nala, a cadela, a lamber-me a ponta do nariz e quase posso garantir que a ouvi dizer-me: calma dono, calma, leva-me à rua que isso passa.

PERDI UMA PALAVRA

 
"Perdi uma palavra", disse a jovem no decorrer de uma oficina de escrita. E daquela frase tão espontânea algo começou a formar-se enquanto ela procurava a palavra fugida sob as folhas, no chão, entre as pernas, no vasto e interminável tampo da mesa. A palavra em fuga era, imagine-se, a palavra "revolução".

terça-feira, 12 de maio de 2026

POEMA BREVE

 
Numa noite de amor
entre mundo e carne
 
concebida foi a palavra
que na alma germinou
 
para na boca rebentar
como um pássaro
 
a quebrar por dentro
o ovo anterior ao voo

segunda-feira, 11 de maio de 2026

COMIDOS PELA FAST-FOOD

 
No tempo de Camões também havia Chagas Freitas. Porque falamos de Camões e não falamos dos Chagas Freitas do tempo de Camões? Porque Camões não andou aos pulos, não é pastilha elástica, nada de mastigar e deitar fora, é coisa que perdura no tempo, faz pensar quem pensa, não se fica pelo entretenimento, pelo espectáculo, essa coisa que para gáudio de deslumbrados é geradora de multidões. Não se queixem do povo quando passam a vida a dar-lhe fogos-de-artifício, não se queixem do país quando pagam chic-nics, isentam de impostos rocks in rios e levam tonys a São Bento. Nivelando por baixo, não se admirem, pois claro, da baixaria, da mediocridade, do populismo estéril. Se é isso que patrocinam, pois que isso vos seja devolvido. Que ninguém passe incólume por preferir fast-food, morram todos obesos com os corações a explodir confettis de alegria. Agora não me fodam é o juízo quando o cancro vos aparecer nas análises, foram vocês que deram de comer ao cancro, alimentaram o cancro. Ele que vos coma.

domingo, 10 de maio de 2026

UM POEMA DE ANTÓNIO PEDRO

 


AUTO-RETRATO

Mago de me fazer história e guerra,
Capaz em cada imagem de servir
A minha imagem d'oiro, que um porvir
Breve desfaz e n'outra imagem se erra,

Ou louco de temer-me, pela serra,
Árvore doida em transe de florir
Mãos como frutos e olhos a dormir
Ao marulho das ondas, sobre a terra,

Quero-me, tonto, a tornar exacto e certo,
Quotidiano e vil, como suponho
Tão necessário que se seja, aquilo

Que ultrapassando o limiar incerto
Do que é, em suave (de divino) trilo
Recria em mundo o que nasceu num sonho.

(In «Casa de Campo»)

Maria de Fátima Marinho, in O Surrealismo em Portugal, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Março de 1987, p. 607.

CARREIRA

 
Contava ontem que quando cheguei a Lisboa, em 1992, fui muito gozado por dizer que ia apanhar a carreira, como em Rio Maior dizia quem circulava nos transportes públicos entre aldeias e cidade. No entanto, levei com oito anos de carreirismo na capital. É um mal disseminado por este país que, como dizia o outro, visto de Paris mais parece uma aldeia. Seja como for, há ali uma concentração de carreiristas impressionante, o que se explica tanto pelo centralismo como pela coisa do mundo mais bem distribuída, que não é o bom senso, como pretendia Descartes, mas sim a estupidez. Aprendi, então, que em Lisboa não se apanham carreiras, mas sim números - no meu tempo era o 55 -, ainda que estes levem aos lugares onde se cozinham e se esturram as carreiras.