quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

TENHO DÚVIDAS

 O que espera o leitor de um político? Que lhe minta ou que fale verdade? Se um político estiver constantemente a contradizer-se o que lhe chama o leitor? E se entre o discurso e o programa do partido que representa forem inúmeras as contradições? O que espera o leitor de um político que mente reiteradamente e se contradiz constantemente? Galo dos ventos? Exemplos? Se um político lhe disser que algumas pessoas esperam mais de 3000 dias por uma consulta, o leitor acredita? E se lhe disser que há um milhão de portugueses sem médico de família, sabendo ser esse número uma falsidade? Se o programa do partido desse político defender a privatização de hospitais, escolas, vias de comunicação e meios de transporte, entenderá o leitor a razão de ser de tais mentiras? Será para denegrir um serviço que se pretende aniquilar, de modo a lucrar com um outro, privado, que o substitua? E por que razão quererá o galo dos ventos acabar com o SNS? Saberá o leitor porquê? Se o partido do tal deputado for financiado por empresários com interesses económicos nesse domínio, ficará mais perceptível? O que pensaria o leitor se um partido resolvesse inverter o sentido do seu programa após este haver sido sufragado? Se tivesse votado nesse programa, sentir-se-ia traído? O leitor gosta de ser traído? Gosta que lhe mintam? Como avalia o leitor alguém que para defender os seus pontos de vista passa o tempo a espalhar números falsos como quem espalha brasas? E o que pensa da hipótese de remoção de ovários numa mulher que interrompa voluntariamente uma gravidez? Revê-se o leitor num partido que alberga gente que apresenta propostas destas numa convenção nacional? Quer o leitor fazer parte desse elenco que defende a castração química e chega a sonhar com a castração física, sabendo serem ambas inconstitucionais? Acha o leitor legítimo que um político se dirija ao eleitorado falando da boca para fora? E se for para insultar um homem com mais de 70 anos que começou a trabalhar aos 14? Quantos ciganos há em Portugal? 30 000, 35 000? Supõe o leitor que numa população de 10 milhões de habitantes sejam esses 0,3 ou 0,4% da população a fazer a diferença? Quanto custa ao país em impostos as fugas para offshores orientadas pelo deputado-consultor que não gosta de ciganos? O que acha o leitor de um deputado que defende o regime de exclusividade ao mesmo tempo que acumula três ordenados? Parece-lhe bem? Será coerente? Nobre de carácter? Confia o leitor num partido que tem como apoiantes e dirigentes gente envolvida em processos de branqueamento de capitais e de terrorismo bombista? Saberá o leitor quem foi o padre Maximino Barbosa de Sousa e a sua aluna Maria de Lurdes? Quem os matou? O leitor revê-se num partido que tem entre os seus principais apoiantes gente que faz a saudação nazi? O leitor tem algum filho na escola pública? E se de repente o líder de um partido defendesse o fim da escola pública, o leitor concordaria? Que hombridade haverá num político que acusa os refugiados de serem uns malandros que chegam à Europa munidos de tecnologia de ponta? O leitor já ouviu falar em Alan Kurdi? Sabe quem foi? Estará Portugal a ser tomado por marroquinos? Onde estão? Onde estão? Julgará o leitor digno de um político colocar simpatias futebolísticas acima de preocupações com o país? O leitor acha que Portugal devia sair da ONU? O que pensa o leitor de um partido com propostas que replicam leis da Alemanha nazi? O que pensa o leitor de um deputado que, em menos de 24 horas, vota de três maneiras diferentes uma mesma proposta? E de um partido que tem como vice-presidente alguém que escreve e publica artigos a defender Hitler e Mussolini? O leitor simpatiza com o Papa Francisco? Parece-lhe compatível essa simpatia com esta estirpe ideológica? O leitor concorda com propostas que favorecem os mais ricos e penalizam os menos favorecidos? O leitor é eleitor? Votaria num político que se candidata à presidência da república prometendo rasgar uma Constituição que está obrigado a defender, cumprir e fazer cumprir? O leitor sabe o que é um gang? Estará o leitor eleitor disposto a entregar o destino do seu país a um gang

O DETERMINISMO


 

O determinismo exerce uma forte atracção emocional: bastante curiosamente, pode atrair o mesmo tipo de espírito que acredita nas possibilidades ilimitadas da acção de planear. O determinismo parece dar grande alento e, por vezes, assomos de energia àqueles que são capazes de se convencer a si próprios de que o que querem que aconteça vai de qualquer modo acontecer, e àqueles que gostam de sentir que vão ao sabor da maré: e todos temos ouvido dizer, de vez em quando, que a liberdade se encontra unicamente na aceitação da necessidade — embora também seja próprio do intelecto humano suspeitar que isto esconde, algures, um ardil. Devia, porém, ser igualmente óbvio para toda a gente, devido à experiência pessoal, que não há nenhuma fórmula para um vaticínio infalível; que tudo o que fazemos terá algumas consequências imprevistas; que os nossos empreendimentos mais bem fundamentados terminam frequentemente em desastre, e que por vezes os nossos disparates mais  absurdos têm os resultados mais felizes; que toda a reforma conduz a novos abusos que não podiam ter sido preditos, mas que não justificam necessariamente dizermos que a reforma não devia ter sido executada; que temos de nos adaptar constantemente ao novo e ao inesperado; e que sempre nos movemos se não no escuro, num crepúsculo, com visão imperfeita, trocando constantemente um objecto por outro, imaginando obstáculos distantes onde nenhum existe e ignorantes de alguma ameaça fatal ai à mão. Isto é Endless Adventure, de Frederick Scott Oliver.

 

T. S. Eliot, de uma conferência intitulada A Literatura da Política, proferida durante um Almoço Literário organizado pela London Conservative Union, em 19 de Abril de 1955, in Ensaios Escolhidos, selecção, tradução e notas de Maria Adelaide Ramos, Edições Cotovia, 1992, p. 208.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

HIS BLOOD’S IN ME (1999)


 

Que haverá de ti no meu sangue? Arrisco a hipótese hereditária, mas logo se impõe a ideia de que as circunstâncias desenham a coluna. As tuas foram mais agrestes, reconheço. Os cientistas têm percentagens para estas coisas. Olhando para o nosso caso, diria que nada de vocação, um cibo de valores e talvez mais do que possa parecer daquela timidez a que alguns chamam complexo de inferioridade por serem heróis e nunca haverem experimentado a acidez e a injustiça e o opróbrio da soberba a perfurar os pés como um ferro enferrujado. Vem de longe. Crescer pobre em terra de porcos incube frustrações, um ódio que se enterra na lama sem vontade de vingança.  Acerca de valores, assumamos pouco mais do que uma carcaça de intolerância ao erro que eu aprendi a mastigar mais para te incomodar do que para me resolver. Chamar-se-á o quê a isto? Obstinação? Nunca te perguntei o que pensarás de mim, que julgarás das opções que tomei na vida ou das que fui levado a tomar por me deixar levar pela corrente de paixões momentâneas. É assim e só damos por isso quando, já em alto mar, temos de esbracejar em busca de um pouco de terra onde possamos voltar a sentir-nos verticais. A verdade é que, por vezes, gostava de poder perguntar-te se já ouviste o álbum do Eric Mingus, mas noutras ocasiões dou graças a Deus por nem sequer fazeres ideia do que a música possa ser.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

CILA E CARÍBDES


 

Lembro-me de uma experiência de alguns anos atrás, quando concordei em fazer uma conferência em Nice. Ao trocar correspondência com o Presidente da colectividade a que devia dirigir a  palavra observei que, não sabendo qual de duas espécies de auditório esperar, me encontrava relativamente à escolha de um tema entre Cila e Caríbdes. Antes de ter decidido sobre o que falar, foi anunciado em Nice que ia falar sobre o tema de Cila e Caríbdes. Depois de um momento de consternação pensei — E por que não? Podem tratar-se quase todos os tópicos sob esse título. Cila e Caríbdes é deliciosamente geral, e desperta a curiosidade pelo seu carácter vago.

T. S. Eliot, de uma conferência intitulada A Literatura da Política, proferida durante um Almoço Literário organizado pela London Conservative Union, em 19 de Abril de 1955, in Ensaios Escolhidos, selecção, tradução e notas de Maria Adelaide Ramos, Edições Cotovia, 1992, p. 206.

domingo, 17 de janeiro de 2021

HAPPY FEET (1938)

 


Naquele tempo era diferente, as ruas circulavam a duzentos à hora, os virtuosos estavam crivados de vícios, a generosidade era ambidestra, assim como a maldade, agora divide-se tudo entre cálculo e consequência, naquele tempo não, o silêncio era ofensivo, o ruído uma ameaça, então os anjos desciam à terra, pintados de negro, e inventavam-se palavras para movimentos como hoje as temos para cores, era um tempo que curava a cegueira com música, e os teclados tinham relevos para que os músicos aprendessem a tocar em braille, educando assim os dedos para uma agilidade semelhante ao voo, os protagonistas daqueles anos ousavam representar sem rede, confrontavam as leis que infringiam a natureza selvagem das coisas, porque eram feitos de leis espontâneas e imprevisíveis, tinham o requinte das presas que escapam aos predadores. Ou talvez não fosse nada disto, mas a gente ouve um solo de Art Tatum e quer acreditar que sim. Que sentido faz uma vida sem o ideal tonificante dos mitos?

sábado, 16 de janeiro de 2021

PORTUGUESES DE BEM

 


Os “portugueses de bem” do Chega:
 
1) João Maria Bravo – Dono do Grupo Sodarca. Lidera o fornecimento de armas, munições, tecnologia e equipamento militar ao Estado, forças Armadas e Segurança.
2) Paulo Corte-Real Mirpuri – Empresário que liderou a Air Luxor (que acabou sufocada em dívidas, tendo os bens desaparecido misteriosamente), filantropo.
3) Francisco Sá Nogueira, gerente da área turística da Helibravo. Ex-presidente da antiga holding do Grupo Espírito Santo para as actividades de agências de viagens e operador turístico, a Espírito Santo Viagens.
4) Jorge Ortigão Costa – Empresário e produtor agrícola, amante de touradas (coudelaria com o mesmo nome), cujo nome consta no Panama Papers
5) Francisco Cruz Martins – Advogado, padrinho de casamento de Ventura, também citado no Panama Papers, administrador de imobiliárias pertencentes à Breteuil Strategies (sediada no Chipre, reconhecido paraíso fiscal).
6) Salvador Posser de Andrade – Co-administrador da antiga empresa imobiliária do Grupo Espírito Santo, e administrador da Coporgest.
7) Jaime Nogueira Pinto – histórico militante fascista, “o grande pai da extrema-direita portuguesa desde o fim da ditadura salazarista” (Steven Forti)
8) Eduardo Amaral Neto – Empresário com ligações à Chamusca. Dono da sociedade de consultoria Gavião Real.
9) César de Paço – empresário, ex-cônsul honorário de Portugal na Florida (cargo do qual foi exonerado), dono da multinacional Sumit Nutritionals, fanático da Defesa. Pelo Código Penal de André Ventura, hoje seria “maneta” porque roubou um relógio de 7.500€.
10) Helder Fragueiro Antunes – Empresário, Engenheiro, ex-piloto de corridas. CEO da Global Data Sentinel. Parceiro de César do Paço em alguns negócios, primo de Miguel Frasquilho (chairman da TAP).
11) Pedro Pessanha – Militar na Reserva, gestor imobiliário. Assessorou vários negócios do BES Angola (BESA), hoje Banco Económico.
12) Fernando Jorge Serra Rodrigues – Empresário Têxtil (sofás). Salazarista devoto, defensor da ditadura fascista do Estado Novo e divulgador de propaganda nas redes sociais. É o famoso autor da saudação Nazi no jantar de apoio a André Ventura no Porto.
13) Igreja Maná (de Jorge Tadeu) – detentora dos canais de televisão Kuriakos TV, TV Maná e ManáSat 1, tem dado especial destaque a André Ventura nos seus canais promovendo-o como “defensor da moral e dos bons costumes cristãos contra gays e outras modernices antinatureza e antifamílias”.
14) Luis Filipe Graça - sócio na mediadora Elegantalfabeto. Foi angariador imobiliário no segmento premium. Ex-dirigente do PNR e do Movimento de Oposição Nacional, embrião dos neonazis da Nova Ordem Social, tendo aparecido em vídeos com skinheads em protestos.
15) Cristina Vieira – Cartomante na TVI, antiga directora de Operações da LibertaGia, sociedade que a partir das Bahamas terá lesado perto de 2 milhões de clientes através de um esquema fraudulento de pirâmide.
16) José Lourenço – Consultor Imobiliário. VP na “Fundação” dePaço. Acusado pelo ex-dirigente Nacional do Chega (Miguel Tristão) de fazer entrar dinheiro de formas “estranhas” no partido. O seu nome consta da lista pública de devedores fiscais em Portugal. Amigo do espião Silva Carvalho “com muito gosto”.
17) António Tanger Correia – ex-diplomata, adjunto de Freitas do Amaral durante o governo de Sá Carneiro. Suspenso de várias funções devido a VÁRIAS irregularidades na gestão da embaixada em Vilnius: lesou o Estado em 348.270€ em IVA mais 411.181€/ano em despesas pessoais
18) Paulo Lalanda de Castro – Empresário. Referenciado nos Panama Papers, Operação Marquês e nos Vistos Gold. Acusado de corrupção no processo Máfia do Sangues. Dono da Intelligent Life Solutions, empresa que André Ventura ajudou a ilibar no pagamento de mais de 1 milhão de Euros em IVA, enquanto Inspector Tributário.
19) Armando Batista – Comandante da Delegação da Cruz Vermelha da Amadora. Defende a criminalização e deportação de imigrantes ilegais. Promoveu petições contra o Pacto de Migração e Asilo da CE, mas afirma não ser xenófobo. Ligação às forças e aos serviços de Segurança.
20) Arlindo Fernandes – Empresário, admirador de Salazar, ex-dirigente e breve deputado do CDS. Acusado em 2019 pelo MP de burla qualificada, falsificação de documentos e branqueamento de capitais em negócios imobiliários. Ameaçou de morte João Ferreira, outro dirigente do Chega.
21) Manuel de Carvalho – O “Miterrand” de Armamar. Empresário, cônsul honorário da Costa do Marfim, antigo deputado e ex-vereador do CDS (Viseu). Em 2012 foi declaro insolvente por dividas à banca, tendo cumprido o prazo da exoneração do passivo.
22) Diogo Pacheco de Amorim – antigo ideólogo do PND, passou pelo MIRN e militou no MDLP. O MDLP seria responsável por espalhar o terror em várias zonas do país, particularmente no norte do país, onde assassinou à bomba um jovem Padre, Maximino Barbosa de Sousa, e a estudante universitária Maria de Lurdes. Em 1999, após um longo e tortuoso processo judicial, o MDLP foi condenado pelo atentado, apesar de os seus mandantes e executores não terem sido condenados.
 
Recebido por e-mail.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

UM CAVALO SENTADO À PORTA


 

XX
 
A dor é terna
como é terna a queda do cavalo
que um dia imaginei sentado à minha porta
quando chegava da escola preparatória
onde nenhum manual me havia preparado
para o espanto
não de ver um cavalo sentado
mas um cavalo sentado à minha porta
eu que vivi os meus dez primeiros anos
ao lado de um dentista
que vivia ao lado de um sindicato
que por sua vez ficava em frente a um sapateiro
numa rua que se dizia ser da igreja que
ora descia ora subia
e no adro havia uma carrinha com livros dentro
livros que também nunca imaginei terem sido
escritos
e que nos visitavam todas as semanas
um cavalo sentado à porta da minha casa
é coisa que não cabe em livro nenhum
onde é certo caber a minha timidez
pois não soube articular palavra
quando eu queria dizer
entra
eu tenho um quintal e no quintal
uma árvore que dá marmelos
e uma mãe que faz marmelada
e podemos ser amigos
pois ela a ti não se atreverá
sei que não
confia em mim
eu protejo-te
mas não
entrei a olhar para o chão
à espera que este me sacudisse
para a vida que desejava
o que não aconteceu
quase nada acontecia
a não ser a minha imaginação
como as sombras à noite no meu quarto
que vinham para me engolir
num abismo desconhecido
e terrífico
não só a minha rua descia para a igreja
como o meu quintal terminava numa outra
logo após o galinheiro
foi aqui que assisti à morte de deus
e não
não caiu do cavalo
creio que lhe faltava dentes para tal
o cavalo caiu apenas no esquecimento
de um crescimento precoce e inesperado
que uma mudança de casa provoca
em quem sofre de vertigens
azuis
hoje lembrei-me de ti
mas a minha porta já não é a minha porta
embora a dor seja a mesma
 
João Pedro Azul (n. 1972), in Um Cavalo Sentado à Porta (2020). Tomemos como exemplo este poema, no qual o autor encontrou motivo para intitular o seu livro de estreia. Entre o incipit e o remate inscreve-se a razão de ser de uma sensação emocional, a “dor terna” enraizada num lugar distante e num tempo passado. A sequência central deste livro é profícua em situações evocativas que têm nas memórias da infância a sua matriz, desdobrando-se em referências domésticas com palco numa casa dentro e à volta da qual as acções decorrem. Neste caso o leitor é deslocado do exterior para o interior de uma casa, acompanhando o percurso de um sujeito poético que elenca diversos elementos muito concretos acerca da idade que tem, de onde vem, onde se encontra, qual a envolvência do lugar. O tom é narrativo, sobressaindo a analogia estabelecida entre a deslocação do exterior para o interior e a deslocação de um espaço real para um espaço imaginativo. O cavalo sentado à porta de casa é produto da imaginação de uma criança, uma espécie de amigo imaginário. 
   Encontra-se com frequência nestes poemas esse efeito de entropia que aproxima os versos da prática surrealista, ainda que sopesada por uma memória e uma experiência vivida matriciais. O pressuposto surge explicitado no poema XXIX: «A realidade não é assim tão líquida» (p. 52). Noutros casos, este efeito joga-se no experimentalismo formal de tipo concretista (ver poema IX), na derrogação de estruturas uniformes quanto à distribuição dos versos, na oposição lúdica e irónica entre facto e ilusão (no poema XXIV, por exemplo, a casa da infância aparece envolta num manto de dúvidas quanto às suas reais/factuais propriedades). Por um lado, talvez o mais simples, questiona-se o peso que facto e imaginação têm na construção da memória. Por outro lado, porventura mais complexo, e voltando ao cavalo imaginário, a natureza da memória acarreta uma dor que se articula com o esquecimento.
   A infância é assim reconstruída partindo de um trabalho que torna presente tanto a perda — “o cavalo caiu apenas no esquecimento” — como a irrevogabilidade ou o carácter definitivo da dor, única realidade consistente, constante e inalterada para lá dos trabalhos reconstrutivos da memória. Ainda que seja terna, e a ela possamos chamar nostalgia, esta dor, sendo nostálgica, apresenta igualmente um carácter elegíaco que se reflecte em dois termos repetidos ao longo do livro: medo e morte. Também neste poema a morte ocupa lugar, nomeadamente a morte de um deus que parece estabelecer uma relação metonímica com outra entidade imprecisa. Invocando a figura do avô, no poema XI o problema coloca-se assim: «Nunca entendi essa coisa de levar / o medo para casa / e aconchegá-lo no leito /mas / tal como o meu avô / eu cresceria às aranhas / no meu quarto coberto / de sombras / Os medos reflectiam todos em mim / assim como aquelas palavras / que mais pareciam soluçadas / por mim // eu não quero morrer» (pp. 24-25). 
   Além do núcleo de 31 poemas que compõem o livro, há ainda um poema-prefácio e um poema-posfácio, assim como alguns dispersos de proveniência diversa. Aparentemente fora do contexto nuclear da obra, nenhum desses poemas belisca a coerência do todo. Acrescenta-lhe, talvez, desvios de humor que a insólita conjugação de duas epígrafes (Shakespeare e a telenovela Tieta lado a lado) permite antever. A poesia de João Pedro Azul não exclui possibilidades, antes as materializa com espantosa naturalidade.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

ALICE’S WONDERLAND (1959)


 

Os fascistas voltaram a marchar em Itália. Em pleno confinamento, fizeram a sua parada ao estilo militar, levantaram o braço para a frente como na Roma antiga, a dos imperadores que excitavam Benito Mussolini. Gritaram alto as palavras de ordem: «Per tutti i camerati caduti: presente!» Tem sido assim, de ano para ano. Discriminam, odeiam, promovem a violência sobre tudo quanto se lhes oponha, fazem-se valer da liberdade de expressão para atacar a democracia. Incapaz de os confrontar, sob pena de cair em contradição, a democracia dá-lhes espaço, no espaço montam palco, encenam e representam peças virais para uma plateia de raivosos que cresce de dia para dia. Um arrepio percorre-me a coluna vertebral quando volto a ouvir a voz de Charles Mingus na abertura do célebre Town Hall Concert, recitando um poema de sua autoria que arrisco agora traduzir:
 
LIBERDADE
 
Esta mula não é de Moscovo
Esta mula não é do sul
Mas esta mula sabe algumas coisas
Que aprendeu de boca-a-boca
 
Esta mula pode ser apelidada de teimosa e de preguiçosa
Mas esta mula pode estar a trabalhar de forma hábil
Aprendendo e planeando e esperando
Por um certo tipo sagrado de dia
Um dia em que queimar fachos e cruzes não é brincadeira de crianças
Mas um louco na sua mais ardente floração
Cuja paixão é a imperfeição e o seu noivo mais brilhante
 
Daí que aguenta firme, jovem mula
Acalma com contemplação
O todo ardente e a coxa dorida
A tua teimosia mantém-se viva
E a ansiedade prestes a morrer
 
Liberdade para o teu paizinho
Liberdade para a tua mãezinha
Liberdade para os teus confrades
Mas nenhuma liberdade para mim

 
O poema remonta ao famigerado período da caça às bruxas comunistas, mas nele ecoam imagens de outras perseguições. A mesma devoção à liberdade reconhece-se em todo o reportório deste contrabaixista com uma biografia que acabou por se tornar símbolo indelével do activismo contra a injustiça racial, assumindo uma música diferente, singular e única como a vida de um homem. O meu álbum preferido é Mingus Ah Um, pelo lado festivo e espiritual ao estilo gospel. Faz-me crer em Deus. Mas hoje prefiro mergulhar noutras águas, estou expectante e ligeiramente melancólico. Obrigaram-me a ver um documentário sobre vidas passadas e, mais uma vez, fiquei sem perceber o interesse da reencarnação. Por que não se contentam os homens com o presente que é a vida que têm? Para quê desperdiçá-la com a possibilidade inconsequente de uma vida anterior e a hipótese de uma fastidiosa eternidade? Está um dia de Inverno claro e frio. O sol há-de dar a sua volta ao mundo mais uma vez. O poema está escrito.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

DIA DE PORTUGAL


As missas são essenciais, a cultura é acessória. Retire o leitor as suas conclusões. Eu proponho que se desassocie o nome de Camões do dia de Portugal. Camões não é essencial. Portugal também não deve ser, mas assenta-lhe melhor o nome de um padre do que o de um poeta. Sugiro, em alternativa, que passemos a comemorar o Dia de Padre Borga, de Portugal e das Comunidades Confinadas Portuguesas.

Desloquemos o teatro para uma igreja, vendamos poesia ao postigo. A ideia de um Diga 33 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição não está posta de lado. Convidamos a poeta Tolentina, que fará o favor de não ler poemas seus. Convocamos Quitéria a passar um cestinho de mão em mão, para que possam expurgar os vossos pecados acudindo a actores, encenadores, técnicos, escritores. Teremos hóstias de sonetos, o corpo de Deus cortado às estrofes. Em nome do poema e do verso e do espírito elegíaco, ai mãe.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

BIRDLAND BLUES (1958)

 


Talvez supondo-se finalmente a salvo da prisão do mundo, um pardal encontrou maneira de chegar ao hall do prédio. Imagino-o a escavar um túnel com o bico, em segredo, durante a noite, do lado de fora, mas o desespero com que batia as asas de parede a parede fez-me descer à terra. Não tendo como auxiliá-lo, recostei-me a ouvi-lo como se estivesse a ouvir Bud Plays Bird. Não se está bem em lado nenhum. Lá fora, o ar ameaça-nos com dentaduras de medo. Cá dentro, a alma treme de frio. Valha-nos o mal dos outros. Bud Powell, por exemplo, foi-se aos 41, tuberculoso, alcoólico e subnutrido. Experimentou, sem efeito, a terapia de electrochoques, passou parte da vida confinado e, quando parecia livre, era como um pardal a voar de parede em parede. Esquizofrenia, lê-se no diagnóstico. Difícil de acreditar quando o ouvimos trautear o toque dos dedos no teclado, como Deus a tocar em Adão no fresco de Michelangelo. Eu tenho 46 e uma broca de papel para perfurar os dentes do medo. O diagnóstico é incerto, mas o mais provável é tratar-se de corpo sem alma.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

UM POEMA DE MIGUEL CARDOSO

 


LISBOA, 44

Em Lisboa, em 44, havia hortas. Vivia-se.
Em Lisboa, em 44, havia hortas. Morria-se.

Havia Angola. Não se via.
Havia Angola. Esquece.

A mão sobre a boca
Ajudava o pescoço
A segurar o osso
Dentro da cabeça

Em Lisboa, em 44, saía-se

de casa às 5 da manhã para a carvoaria,
às 5 da manhã de casa para a padaria,
às 5 da manhã de casa para a drogaria.

Um primeiro pé no escuro

E a cabeça a semear flores na almofada

E o estômago vivo cru danado verdadeiro


E os dedos frios lembravam-se

de uma ribeira clara que claro já esqueci


Era levá-los à boca
para chegar ao peito

Eram secos tinham cheiro
como os avós as espinhas
uma ramada de árvore morta

Qual terra?
Era céu.
Era cinza.
Era barro.

Junto ao Palácio das Galveias
faziam-se telhas e tijolos
com os mais modernos maquinismos.

Hoje, em Lisboa, há hortas e morre-se.
Hoje, em Lisboa, há hortas e vive-se.

No Convento da Encarnação,
num canto de um jardim,
onde se fuma, de onde se vê Lisboa,
há um quadrado de horta.

Há um senhor que vai lá cuidar dela.

Em volta há mato.
A luz não entra.

E nós à espera da morte.


Miguel Cardoso, in Mais de Mil Anos, com posfácio de Regina Guimarães, Douda Correria, Maio de 2017, s/p.

domingo, 10 de janeiro de 2021

SONETOS DA CASA AMARELA

 
Pudemos ver há dias, na RTP 2, A Toca do Lobo (2015), documentário dedicado à memória do escritor Tomaz de Figueiredo (n. 1902 – m. 1970). Trabalho sensível, o filme da realizadora Catarina Mourão (n. 1970), neta do escritor, toma como plataforma relatos domésticos, pessoais, familiares, para mergulhar nos arquivos de uma descendência desavinda. Impedida de aceder à generalidade do espólio do avô, agarrou-se ao que pôde para refazer o laço de uma herança perdida. Reencontro com o passado, A Toca do Lobo expõe momentos altamente marcantes e comoventes sem disfarçar as feridas por sarar, quer do contexto familiar em que o filme se enraíza, quer do tempo histórico para o qual remete. 
   Na História da Literatura Portuguesa assinada por António José Saraiva e Óscar Lopes, Tomaz de Figueiredo ocupa meia dúzia de linhas. No entanto, o entusiasmo é evidente: «deve ter sido um dos melhores ficcionistas, quer pela originalidade da intriga, em que aliás se reintegra por vezes o novelesco camiliano, quer por uma prosa flexivelmente castiça» (p. 1031). A Toca do Lobo, romance de estreia publicado em 1947, acabou por se tornar o seu livro mais conhecido, mas o carácter multímodo da obra afirma um escritor por redescobrir. Além de romances, novelas e contos, traduziu Colette, deu à estampa sonetos, poemas em prosa, um longo poema intitulado Viagens no Meu Reino (1968), escreveu para teatro. 
   O filme de Catarina Mourão mostra-nos o retrato de um homem sensível, mas fortemente abalado pela incompatibilidade dos encargos profissionais (“violência de vida”) com a dedicação à actividade literária. Formado em Ciências Jurídicas, o autor de Nó Cego (1950) trabalhou como notário na Nazaré, em Ponte da Barca e Estarreja. A separação da família fez dele um pai ausente, nomeadamente junto da filha mais nova. Em 1957, colocado em Estarreja, sofreu uma depressão. Não é exacto o diagnóstico que levou a internamento no Hospital do Telhal, resultando da investigação levada a cabo pela neta a hipótese de ter sido um pretexto para fugir à prisão. Certo desleixo profissional terá facilitado um desfalque cuja responsabilidade assumiu sem dele ter sido culpado directo. 
   Sonetos da Casa Amarela (Douda Correria, Outubro de 2020) recupera o conteúdo de um envelope enviado, durante o período de internamento, à mulher com quem casara e de quem acabara por se separar. Em nota introdutória, Catarina Mourão vai directo ao assunto: «Na família, o meu avô era visto como um excêntrico porque preferia a profissão de escritor à de notário, e o seu internamento, no Hospital do Telhal, onde foi tratado com choques eléctricos, constituiu sempre um tabu» (p. 3). Além dos 27 sonetos, reproduzidos em letra de máquina e manuscritos, o volume da Douda Correria contém ainda um conjunto de fotografias, recolhidas do arquivo do Museu São João de Deus, que de algum modo retratam o ambiente vivido no Hospital onde os poemas foram escritos.
   Nada têm que ver estes sonetos com as obras artísticas produzidas por outros autores em condições similares, estejamos a falar do estilhaçamento linguístico identificável num Ângelo de Lima (n. 1872 – m. 1921) ou de diversos exemplos de arte bruta a que temos acesso, por exemplo, através de um volume como Almas Delirantes do Telhal a Rilhafoles (Douda Correria, Março de 2019). Em Sonetos da Casa Amarela o que mais perturba é a sobriedade e a lucidez da escrita, mas também a solidez de uma consciência de si que duvida da loucura diagnosticada para denunciar uma injustiça materializada nos tratamentos administrados: «Há injecções que valem dinamite, / que, à falsa-fé, sem manha que as evite, / brutais, vão rebentar dentro do crâneo» (p. 6). 
   Das descrições do ambiente vivido no “manicómio” onde os “doidos” são tratados como “gado” à manifestação de uma condição existencial privada de dignidade, o que atravessa estes versos é a dúvida acerca da condição do sujeito, da sua relação com o mundo e com Deus, numa oscilação emocional que põe em causa fé e esperança. Inconformismo, injustiça, dão lugar a despedidas não consubstanciadas senão pelo sofrimento e a súplicas desesperadas: «Estrelas que brilhais no céu curvado, / Chamai-me para vós, sou vosso irmão. / Lá porque me esporeia a danação, / tanto sou, como vós, iluminado» (p. 29). A uma normalidade indesejada contrapõe-se, nestes sonetos, o diagnóstico de uma loucura mais do que duvidosa, sobressaindo neles o sofrimento atroz de um homem impedido de se realizar no tempo e no espaço que lhe coube viver:
 
Rasga-te, angústia minha, em versos loucos,
desforra-te em criar beleza inútil
sabendo quanto é vão, inerte e fútil
isso de te arrasares, em ânsia, aos poucos.
 
Que vale que tu soltes gritos roucos
nessa alva de suplícios, inconsútil
se nada alcança de profícuo e útil
a invisível estátua sem caboucos?
 
Mas tu, e com coragem sempre nova,
soergues-te do mal da tua cova,
cuspindo, triste, beijos e sarcasmos,
 
enquanto, no mistério da Natura,
te fura, te perfura e desfigura,
do crâneo ao ventre, o chuço dos espasmos.

sábado, 9 de janeiro de 2021

TONES FOR JOAN’S BONES (1966)


 

Agora que voltam a falar em confinamento, só não o lamentarei se Chick Corea retomar os workshops nas redes sociais. Foi do melhor que me aconteceu no ano que passou. Abria uma garrafa de vinho, e cigarro sobre cigarro ficava a ouvi-lo a cores dando graças aos engenheiros das novas tecnologias que tanto abomino. Acusar-me-ão de contradições das quais não tenho como eximir-me, nada que me afecte especialmente a coluna vertebral. O que agora realmente importa definir é se comecei a ouvir Chick Corea como acompanhante do trompetista Blue Mitchell ou em dueto com Bobby McFerrin. São todos de uma elegância inexcedível, exactamente o inverso deste mundo boçal e cavernícola de capitólios invadidos. Entretanto, para desenjoar de bípedes, visitei um canil e adoptei uma cadelinha de pelo ocre com peito e patas brancas. Vou chamar-lhe Nala, como a personagem de O Rei Leão. Está enroscada numas mantas, protegida do frio, a dormir com invejável serenidade.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

UM SONETO DE ANTÓNIO CABRITA

 


O EXACTO VALOR DAS COISAS

E quanto vale o cérebro do arganaz
em lúcia-limas? E o sémen
do cachalote? Que valemos nós antes
de, esparsos, decairmos, inquire Holub,
o imunologista de maior fama
entre os poetas. Quanto custa a língua
sob a cama do morto? Que vale
o impalpável país onde, à falta de crianças,
se amontoam os espaços de penumbra?
Que câmbio para a poesia, o céu
submerso em vimes, o tempo que adoça
às cegas? Não escrever nenhuma palavra
de desânimo, tomada de caruncho. Ou,
por fazê-lo, cinco anos de cadeia.

António Cacrita, in Bagagem não Reclamada, Alcance Editores, Moçambique, Março de 2013, p. 166. Nota: na imagem ao alto vemos o poeta checo Miroslav Holub (n. 1923 - m. 1998), a quem o quarto verso deste soneto alude, imunologista de profissão. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O REINO DA FANTASIA


 

O negócio do século, deste início de século, é ser popular nas redes sociais. Tenho-me impressionado com a quantidade de gente que surge a declarar-se influencer ou instagrammer, profissões que desconhecia até há muito pouco tempo haver sido informado da sua existência. Entretanto venho reparando em fenómenos curiosíssimos onde as diversas dimensões da vida pública se misturam com a vida privada num contexto meramente publicitário. A ideia é a pessoa vender-se a si mesma simulando que este ou aquele acessório é parte integrante de si. Logo, ao vender-se a si mesma vende também o produto que traz acoplado. O Instagram é a idealização final deste fenómeno, um álbum de fotografias onde o mundo surge estetizado por aquilo que cada um julga ser o melhor se si: corpos tonificados, casas bem decoradas, grandes carros, paisagens idílicas, bons restaurantes, poemas belíssimos (aos poemas ninguém liga, são flores para entreter meia dúzia de gatos pingados). Tudo é belo e estilo e saudável no Instagram, pelo que as marcas empenham-se na penetração desse território. É de lei as marcas serem belas e saudáveis e até comoventes, no sentido de sentimentais.

Quem fala de marcas e de acessórios fala de políticas, de ideais, ou talvez seja mais exacto dizer pseudo-políticas e pseudo-ideais. Porque o único ideal neste domínio é o da extrema popularidade e a única política é a da visualização massiva, de modo a rentabilizar, com likes, reacções, visualizações, e, consequentemente, com dinheiro, a oferta que se faz de si mesmo ao mundo. No fundo, o que se comercializa no reinado da fantasia, o da popularidade virtual-real, é uma identidade. Quanto mais estúpido, mais engraçado. O riso vende. Quanto mais violento, mais atractivo. A crueldade gera curiosidade. Quanto mais tonificado, mais apetecível. O culto do corpo resume padrões de beleza. As massas vão atrás, atraídas por tendências para as quais contribui fortemente a utilização de bots (web robot, aplicação de software  para simular acções humanas), ou seja, por “movimentos de massas”, “ondas e modas”, na verdade inexistentes. As modas sempre se alimentaram a partir do efeito bola de neve. O que sucede agora é a formação da bola de neve ser impulsionada por uma tempestade falsa, inventada, gerada pelos tais bots

Não sei como lidar com isto, mas temo que pela indiferença e pela ignorância não melhoremos nada, pois é precisamente a ignorância o que mais alimenta este tipo de fenómenos. Tudo isto tem raízes sociológicas profundas, que nos levariam aos tops in/out das revistas de moda, às passadeiras vermelhas, à vaidade promovida pelas sociedades consumistas, à espectacularização dos sentimentos, ao “império do efémero” e à “era do vazio” que Gilles Lipovetsky vem reflectindo há muito. O ideal seria que as massas deixassem de ligar a modas, de actuar por imitação, que cada indivíduo se revalorizasse e fortalecesse com escudos protectores feitos de desconfiança e espírito crítico, mas isto está nos antípodas da natureza das massas.  

Os efeitos são visíveis: os temas esgotam-se em si mesmos (não perduram senão para lá do anúncio que causa sensação e logo esmorece), o que leva a uma injecção constante de assuntos no espaço publicitário tendo em vista a manutenção da popularidade (veja-se o Tweeter, a velocidade alucinante a que a realidade aí decorre sem qualquer preocupação de aprofundamento de um debate público); a capacidade de debater o que quer que seja é traída pela assimilação bipolar dos factos, os quais ora geram muito entusiasmo, ora deprimem profundamente; a incredulidade toma conta do espaço público, pois tudo parece encenado, falso, irreal (normalmente diz-se surreal); a relevância dos factos mede-se pelo impacto que geram e não pela gravidade que têm, pelo que uma simples troca de “bocas” entre duas figuras públicas é mais comentada do que qualquer notícia sobre a fome ou a escravidão no mundo; os grandes e tradicionais males da humanidade vulgarizam-se a ponto de perderem qualquer interesse; o espaço público convertido em rede transforma-se num circo onde só vale o entretenimento, preenchendo-se a agenda com não-assuntos e peças insólitas.

Que importa se a carne que comemos ou a roupa que vestimos são produzidos com trabalho escravo? José Castelo Branco e André Ventura trocam mimos no Twitter. Bora ver?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

DIRTY JOHN

 


   O único tipo dessa época que tinha vindo da baixa, que vinha mesmo da cena da baixa, era o Dirty John. Trazia com ele um certo ritmo, um certo ambiente terra-a-terra: o cheiro fétido da roupa velha e dos charros.
   Dirty John merecia mesmo a alcunha: era conhecido pela falta de frequência dos seus banhos. De Inverno, nunca tomava banho, nem sequer mudava de roupa. Em Novembro, vestia uma camisola azul escura esburacada que lhe delineava o rosto magro e moreno e o fazia parecer um vampiro do gueto, e só a tirava em Abril do ano seguinte. Isto é, se a Primavera não tardasse. Tinha um relógio de pulso Timex de sete dólares de pulseira larga, e quando ia para a cama tirava o relógio, e a pulseira deixava uma marca branca no pulso cinzento. Cor de cinza, olhos brilhantes de fuinha a espreitar da toca. Corpo ágil e flexível — o corpo de um bom homem de recurso, e a capacidade de se vir seis ou sete vezes no mesmo número de horas.
   Dirty John era sempre divertido, estava sempre cheio de esquemas para enriquecer depressa. O meu preferido era o plano de comprar uma parte do deserto do Arizona, uma daquelas longas estradas com duas pistas, construir uma cidade à volta, fazer aprovar um limite de velocidade de 80 km, e passar multas incríveis às pessoas que andassem por lá à noite. Até nem era um mau plano; desde então, já passei em muitas cidades dos Estados Unidos que subsistem dessa maneira. Orem City, no Utah, por exemplo.
   Dirty John raramente ia lá a casa, mas quando ia era sempre uma ocasião especial. Lembro-me de várias vezes nesse ano em que fomos para a cama por volta das sete e fizemos amor seis ou sete vezes antes de nos levantarmos às duas da manhã para ir comer qualquer coisa à lanchonete do Rudley, no parque. Depois trazíamos sanduíches extra, íamos para casa, voltávamos para a cama e só adormecíamos depois do amanhecer. 
   Dirty John vinha dos bairros de lata de Pittsburgh, e estava cheio de paranóia pessimista e sem ponta de esperança que eu reconhecia em mim mesma mas nunca encontrara em mais ninguém. Tinha a certeza que tudo ia acabar por correr mal. E provavelmente, tinha razão. Mas na cama era um prazer total, era muito delicado a fazer amor, duma maneira suave e forte, que me apanhava de surpresa, de tal forma que luzes azuis como se fosse cocaína começavam a derreter nas entranhas antes de me aperceber do que quer que fosse. Não esperava que o cortejassem, como o Don; não era uma presença melancólica como uma montanha na janela da cozinha, como o Pete; não se armava em durão que SABIA tudo, como o Antoine; era descontraído, um amante descontraído que nos tomava de assalto quando menos se esperava. Dirty John era diversão, camaradagem e uma boa queca, um corpo esguio e pequeno que encaixava no meu, e embora nunca tomasse banho de Inverno, naquela Primavera até se saiu bem, porque nunca cheirava mal quando estávamos juntos, e o seu caralho estava sempre lavado — que mais é que uma rapariga pode querer?
   Deixava-me com uma boa sensação quando nos separávamos, pois sabia que os jogos que eu gramava estavam a ser perpetrados noutra parte da cidade, silenciosamente e em segredo. Como daquela vez em que me disse que ao fim de dois dias de solidão e muita meditação, tinha conseguidos entrar em contacto com as criaturas dos discos voadores. Iam mesmo a entrar para levá-lo pela janela como ele lhes pedira, quando percebeu subitamente que ainda não estava preparado, e disse-lhe isso, e eles foram-se embora obedientemente. Pessoas assim eram raras em meados da década de 1950, e eu apreciava Dirty John — um bom amigo que chegava na sua mota roubada e entrava em silêncio pela cozinha sempre que eu pensava muito nele: quando o chamava.

Diane di Prima, in Memórias de uma Beatnick, trad. Maria Augusta Júdice, Teorema, Maio de 1999, pp. 154-156.