antologia do esquecimento
sexta-feira, 17 de abril de 2026
MURMÚRIO CICIANTE
quinta-feira, 16 de abril de 2026
CRISTINAS
quarta-feira, 15 de abril de 2026
INSEMINADOR
De palito na boca, atravessa a cena a ranger os dentes na direcção dos bastidores. Tivesse sido eu a criar o mundo, palestrou, onde está um círculo estaria um triângulo, onde está um quadrado estaria um rectângulo, onde está um hexágono estaria um paralelograma. E assim sucessivamente. Atentos como discípulos a ouvir mestres, secretários a concordar com ministros, acólitos persignados em bicha para o beija-mão, todos os vigilantes emprenhavam pelos ouvidos as teses e as teorias do palitado palestrante. Depois, seguiam eles mesmos pelos corredores a cochichar por cima dos ombros, não fossem as paredes ouvir comentários inconvenientes, recolhendo-se a cozinhar esquemas e estratégias para disseminarem a palavra do inseminador de tímpanos.
terça-feira, 14 de abril de 2026
ERÍSTICA
Há mais de dois mil anos, um senhor chamado Aristóteles dedicou alguma atenção aos paralogismos, ou seja, argumentos que parecem sê-lo, por oposição aos silogismos. Pretendia ele refutar os sofistas que negociavam uma sabedoria aparente preferindo parecer sábios a sê-lo de facto. Enumerou argumentos, dividindo-os segundo a espécie, desmontou os propósitos de quem polemiza, denunciou falácias, "erros que acompanham a opinião fundada na percepção", enfim, as tretas dos sofistas. Assim mesmo, tretas. Isto foi antes de a sociedade do espectáculo impor as suas regras, as quais já nada têm que ver com a busca da verdade. Parte integrante desta tragédia deprimente, os polígrafos procuram desmentir fake news partindo de uma perspectiva equívoca sobre a realidade: a de que os factos resultam de um jogo com regras claras. Ontem, um homem quis fazer de polígrafo e acabou a fazer a figura triste que sempre fazem os velhos que teimam em não aceitar as novas regras do jogo. O jovem sofista, exímio na exibição de uma sabedoria aparente, lucrou. A razão é óbvia, não lhe interessa minimamente a verdade. Só tem em vista a vitória, seja lá por que meios for. Assim temos, mais uma vez, o espectáculo garantido num canal televisivo cujos investidores esfregam hoje as mãos de contentamento e brindam com Moët & Chandon.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
ANÓDINO
domingo, 12 de abril de 2026
KAMA SUTRA
Um dos aspectos interessantes no Kama Sutra, curioso livro de instruções que o Ocidente reduziu ao ilustrativo fetichista, é o modo como "a arte de amar" também não prescinde da táctica e da estratégia. Os termos surgem ocasionalmente, explícita ou implicitamente, sendo magistralmente tratados nos capítulos dedicados aos eunucos e às cortesãs, neste caso com especial clarividência nos processos de ganhar dinheiro com um amante. Nos antípodas da ética kantiana, o Kama Sutra é mais honesto ao propor acções por dever interesseiro, isto é, as que assumem o lucro enquanto fim. Em vez de um amor desinteressado - porventura idealista -, temos todo um conjunto de meios ao serviço do prazer sexual. Se te queres desembaraçar de um amante, toma lá 28 artimanhas. Usa uma ou todas à vez. O dever é, deste modo, acompanhado pelas conveniências, o que faz desta uma filosofia verdadeiramente "humana, demasiado humana", genuína, protegendo-nos pela clareza da hipocrisia a que estamos condenados quando sacrificamos as acções a um ideal de pureza que em lado nenhum se vislumbra.
sábado, 11 de abril de 2026
MÉTODO ÚTIL À REFUTAÇÃO
sexta-feira, 10 de abril de 2026
SHIJING - CANCIONEIRO CHINÊS
O Shijing debruça-se sobre a realidade social de há três mil a dois mil e quinhentos anos, em várias perspectivas diferentes, sendo um material muito precioso para o estudo da antiga sociedade chinesa. Através da temática dos seus poemas, podemos reconstruir a vida social, o sistema económico e produtivo, assim como alguns acontecimentos históricos importantes. Os seus temas, muito diversos, falavam do trabalho do povo, amor, sofrimento, fome, jornadas longe de casa ao serviço do estado, guerra, queixas e lutas contra a exploração, vida desafortunada das mulheres abandonadas pelo seu namorado, sátiras políticas, críticas e descontentamento face à injustiça e corrupção.»
Shijing - Cancioneiro Chinês, visto numa perspectiva ocidental, tradução e comentários dos alunos do Curso de Chinês I, coordenação de Zhang Weimin, com desenhos de João Lemos, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Junho de 2000, p. 11.
quinta-feira, 9 de abril de 2026
CARTA BRANCA
Israel tem carta branca para matar. A Organização das Nações Unidas nada consegue contra, a União Europeia nem pia, os Estados Unidos da América apoiam, os países árabes olham sobre o ombro dos Estados Unidos da América, África e América do Sul não contam, Coreia do Norte cala-se, China cala-se, Federação Russa mata na Ucrânia, o Japão cala-se, o mundo de joelhos legitima Benjamin Netanyahu como um inimputável que pode cometer os crimes que lhe apetecer. Israel tem carta branca para matar. Nem a Palestina nem o Líbano interessam, podem desaparecer, milhares e milhares de pessoas a morrer, outras a sofrer, o mundo a assistir. Israel a matar.
quarta-feira, 8 de abril de 2026
CONTAGEM DECRESCENTE
PARALELISMO
terça-feira, 7 de abril de 2026
FÁBULA ZEN
O homem mordido pelo cão passou a odiar cães. Não percebeu que o animal só lhe ferrou o dente porque se sentiu legitimado pelo dono. Em vez de temer cães, o homem devia temer os donos dos cães. São eles quem deveras ferram o dente por interposto animal. O cão é o testa-de-ferro do dono, o cão é a figura de fachada do dono, o dono é cão que não ladra, mas morde.
segunda-feira, 6 de abril de 2026
DESISTIR
domingo, 5 de abril de 2026
UMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS (EMANCIPADAS) DE PEDRO OOM
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