domingo, 29 de janeiro de 2023

"LAÇOS", DE DANIEL KEENE

 


   O dramaturgo australiano Daniel Keene (n. 1955) referiu-se algures às suas peças curtas como «poemas escritos para teatro, tanto uma celebração do valor do teatro quanto um desafio aos seus valores predominantes.» Uma análise profunda destas palavras obrigaria a esclarecimentos sobre quais os valores predominantes do teatro, mas podemos tentar compreender o alcance de tais noções partindo da poética que vislumbramos nos textos de Keene. Essa poética inscreve-se numa linha anglo-saxónica de tipo realista, atenta ao pormenor que tende a passar despercebido na vertigem do quotidiano e enraizada nas problemáticas sociais que afectam o seio doméstico, muitas vezes estilhaçando a muralha familiar ou, pelo menos, desestabilizando-a.
   Por outro lado, monólogos como “O que resta” e “A Chuva” enviam-nos para territórios diversos, mais ligados à memória colectiva (é o caso da evocação do holocausto em “A Chuva”) ou individual (é o caso de “O que resta”). Baseio-me nas encenações destas peças que Luís Varela incluiu em espectáculos distintos: “A Chuva” - em “Terra Natal” (2021), para o Teatro da Rainha -, “O que resta” - em “Laços” (2022), para a companhia Baal 17. Nestes dois casos, o carácter elíptico do discurso pede ao receptor, o público leitor ouvinte, a construção de uma situação para a personagem que permita conferir fio narrativo e sentido às palavras proferidas. Este exercício é mais exigente em “O que resta”, sobretudo tendo em conta a solução encontrada (ou por encontrar) para esse monólogo que introduz o espectáculo a que se deu o nome “Laços”.
   Para quem fala o homem que nos fala? Está sentado, segura um molho de folhas. Diante de si, um microfone disposto sobre o tampo de uma secretária. Atrás, uma parede lisa. Estará num tribunal? Num interrogatório? Conferência de imprensa? Dirige-se ao público na sala, certamente, mas que tipo de relação estabelece com ele? Percebemos haver nas suas palavras uma confissão, referências a um filho e a uma mulher ausentes. Algo lhes aconteceu. O quê? Matou-os? Abandonou-os? Foi abandonado? Talvez nada disto seja especialmente relevante se nos concentrarmos apenas na sua solidão, ele é a personificação da solidão em que cada indivíduo se encontra encerrado no limite da sua existência.
   Dizia E. M. Cioran: «A solidão, no seu estádio extremo, exige uma forma de conversa, também ela extrema.» É esta forma de conversa o que se coloca em cena. Entregue a si mesmo, a próprio personagem é o outro fragmentado com o qual estabelecemos um contrato de ouvintes. Por vezes apetece-nos reagir, questioná-lo, responder-lhe às perguntas que nos dirige, são momentos sublinhados por subtis reacções do actor a breves e ligeiros ruídos vindos da sala: uma cadeira que range, o roçagar dos casacos, a respiração. Deixamos de ser ouvintes passivos para nos transformarmos, sem que nada o fizesse prever, em intervenientes num diálogo pautado pelo silêncio. O nosso e o da mulher e do filho que ressoam na memória daquele homem como os sinais da nossa presença na sala.
   Curiosíssimo intróito num espectáculo intitulado “Laços”. As duas peças que se seguem ao monólogo inicial foram montadas numa espécie de engrenagem justificada pelo tópico comum da família monoparental. Se por um lado temos um pai em vias de se separar do filho deficiente, por outro temos uma mãe que recupera a filha há anos ao cuidado de uma família de acolhimento. São histórias nessa vertente poética de certo realismo empenhado em relevar traumas caseiros, comoventes a ponto de a espaços correrem o risco de resvalar para a exposição de uma sentimentalidade fetichista, menos sóbria e discreta do que o desejável. Isto sucede sobretudo na história do pai com o filho deficiente, muito por culpa de uma situação em si mesma fortemente intensa do ponto de vista emocional: um pai com cancro vê-se na impossibilidade de cuidar do filho deficiente sem ter a quem entregá-lo, restando-lhe apenas a hipótese de o abandonar.
   Se o modo como as duas peças se articulam justifica a sugestão de uma interligação, nem por isso aquilo a que assistimos escapa à condição de vidas paralelas. A tentação de as juntar é forte, sendo que a dado momento ocorrem-nos possibilidades de contacto entre as personagens das duas histórias. Esses contactos existem de um modo superficial, regulado por esgares que conservam distâncias e uma desvinculação que nunca chega a ser ultrapassada. Creio que tanto no monólogo, como nos casos do pai em vias de abandonar o filho e da mãe que recupera a filha, o que mais sobressai é essa condição existencial de gente entregue a si mesma, desamparada, presa a laços inquebráveis que são os das raízes a partir das quais cada vida desponta, se constrói e se cumpre.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

CAVERNA DE LADRÕES

 


«Jesus entrou no templo e pôs de lá para fora todos os que ali estavam a vender e a comprar. Atirou ao chão as bancas dos que trocavam dinheiro e as mesas dos que vendiam pombas. Depois disse-lhes: "Deus diz na Sagrada Escritura: 'O meu templo será casa de oração'. Mas vocês transformaram-no em caverna de ladrões!»

Mateus, 21, 12-13.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

VERTIGEM

 

Ultrapassada a vertigem de demissões no governo, a estética trans encontrou uma boca de cena para desembocarmos agora num palco de 4,2 milhões. Nas redes sociais e na imprensa em geral, a sociedade convertida em ponto vai relembrando o texto aos actores, não perdendo pitada do guião. Não há quem invada redacções acusando os intervenientes de jornalismo fake nem quem se manifeste nas arcadas da AR exigindo aos deputados eleitos que abdiquem dos seus papéis, mas os stôres lá vão lutando por direitos que lhes assistem e as 660 mil pessoas em pobreza energética severa aquecem as mãos com o bafo a bagaceira. Eu, no meio disto tudo, confesso as minhas preocupações domésticas com timidez e até alguma vergonha:

1. Porque é que o herói da Odisseia é Odisseu, o da Eneida é Eneias e o da Ilíada não é Ilídio?

2. A cueca fio dental serve de cueca ou é mero adereço?

3. Não me revejo nessa coisa de pessoa cis, cheira-me a stasi, cia, sis. Posso ser só um gajo porreiro?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

INFERNO

 
Nunca mais nos livramos da lama católica em que o país se atolou desde a fundação. Uma raiz fétida e putrefacta que tomou conta deste canto e endrominou um povo bestializado, indefeso porque inculto, títere de castas e de brasões e de apelidos. Sim, senhor Espírito Santo, sim, senhor Berardo, sim, senhor prior. País laico, diziam os da República, para logo gramar esta com uma ditadura de beatos e de seminaristas e de tiranos com estola e batina. Mandam em tudo, sempre mandaram, com seus santuários de aldrabice, fátimas a que acorrem desgraçados e pacóvios, com feriados à medida e privilégios intocáveis, com universidades para ricos, máquinas de fazer fortuna à custa de um Estado tão iníquo quão pastelão. Quem consegue fazer frente a este mal endémico, entranhado na cabeça das pessoas como pregos na carne de Cristo? Guterres, o sacristão, Cavaco, o missionário, Marcelo, o padreco, agente duplo ao serviço de criminosos por julgar? Ergam-se os palcos. Tiveram os estádios no Qatar para se entreterem com futebóis, masturbem-se agora com missais ao som da maviosa voz de Francisco: "homossexualidade é pecado". E a culpa é dos ciganos e dos comunistas e dos pretos e das trans e da Festa do Avante. Bestas celebradas por bestas, e milhares de cordeiros ao sacrifício morrendo de frio e de fome a fazerem das tripas coração para sobreviverem neste mundo injurioso que adora tolentinos e venera franciscos. Tenham um pingo de vergonha na cara, pá, pois cara já não vos sobra, sois todos só escama de preces hipócritas. Jornadas da juventude? Fornadas de beatitude servente, subserviente, escolinha de tartufos perdoados pela virtude da confissão viciosa. Não é nojo nem asco o que inspiram, é mesmo desejo que o Inferno exista. Iríeis todos lá parar.

domingo, 22 de janeiro de 2023

TEATRO

 
Esta noite sonhei que tinha ido ao teatro ver uma peça chamada “Fala com Ela”. Era sobre pessoas que falam com pessoas em coma. Inda a peça não ia a meio, foi subitamente interrompida por alguém que, em tronco nu e de cueca fio dental, saltou da plateia para o palco destratando uma das actrizes em cena. Bramando «Coma Fake, Coma Fake», dirigiu-se à actriz em estado vegetativo ordenando que saltasse da cama e fizesse o pino. À minha destra, uma senhora idosa, provavelmente um pouco surda, perguntava: «Coma o quê?» «Coma Fake», tentei esclarecer. «Mas porque raio querem agora Corn Flakes? Que peça tão estranha.» Supondo ser escusado tentar explicar o que eu próprio não entendia, atentei-me ao discurso do protestante. Que era um insulto para todas as pessoas em coma terem escolhido uma actriz vivinha da silva, que havia pessoas em coma cheias de problemas sem conseguirem trabalhar, que se perdia ali uma excelente oportunidade para empregar uma actriz de facto em coma, que representasse o coma como o coma deve ser representado. Esforçava-me eu para entender os impactantes argumentos expostos com insofismável clareza, já outro indivíduo saltava para o palco dando conta da discriminação de que era vítima diariamente por lhe ter sido amputada uma perna. Que desde o Saci do Sítio do Picapau Amarelo nunca mais conseguira trabalho à sua medida. Impávido e sereno, eu assistia ao espectáculo tentando compreender se aquilo era um espectáculo dentro do espectáculo, alguma dessas modernices em que a performance se intromete na representação como faca a trinchar o lombo narrativo. Não me sobrou muito tempo para cogitações, pois nisto de meditar dou com o Bonga no palco a trautear aquela coisa do «Ai, pegaram aqui o currumba / Me contaram sem saber». Mas de onde vem este agora, meu Deus? O público parece ter apreciado a intervenção, pois começou toda a gente a acompanhar o músico angolano como se soubesse o significado de currumba. Nisto, o palco enchera-se de humilhados e ofendidos a reivindicarem por melhores condições de vida, direito ao trabalho, a paz, pão, saúde, educação, e um coro de cante alentejano liderado pelo Abrunhosa apregoava a reforma agrária, e os professores queriam ser representados por professores, o Nogueira que se dedicasse à colheita das nozes. Só os administradores da TAP não se importavam de ser representados por quem quer que fosse, desde que os indemnizassem pelos danos causados à sua impoluta reputação. Caramba, que espectáculo! Só visto. Eu continuava a tentar descortinar, na minha ingenuidade, se não seria tudo um grande embuste dramatúrgico, se todas aquelas aparições não teriam sido previamente sugeridas pelo Tiago Rodrigues como forma de fazer chegar o grandioso espectáculo ao Festival de Avignon e às páginas do The New York Times. O próprio Gonçalo Frota, a certa altura, apareceu em palco reclamando mais espaço para a cultura nos jornais. A cultura ela mesma apareceu em cena reclamando mais público. Um indivíduo de cadeira de rodas desbaratava contra o mundo em particular e o estado do país em geral. Encafuado naquela cadeira havia anos, via-se impedido de fazer aquilo de que mais gostava e para o qual nascera com um talento inigualável: os 100 metros com barreiras. «Mas podes saltar à corda», disse o primeiro dos protestantes. «Como?», perguntou ele. Trouxeram uma corda que atravessava o palco. Com quatro actores a segurarem a corda, dois numa ponta, outros dois na outra, começaram a movê-la em círculos que desenhavam um sorriso de Mona Lisa no ar. Depois, dois grupos pegaram no tipo de cadeira de rodas. Um grupo de cada lado da corda, começaram a projectar o indivíduo de um lado para o outro como que em câmara lenta. Ele sorria de contentamento e felicidade, o povo unira-se fazendo face às dificuldades, era um extraordinário momento de superação, o monólogo comovente que justifica qualquer espectáculo teatral. Uma lágrima saltou-se-me do canto do olho no preciso instante em que o Bonga desata a cantar «Tenho uma lágrima / No canto do olho». Tudo teria terminado da melhor maneira, não fora um último e derradeiro protesto. Perdido em emoções labirínticas, foram-me a vulnerabilidade e a empatia interrompidos por um remate chegado dos balcões no anfiteatro. Alguém lá do alto gritava: «Estudassem, estudassem.» Aquela voz era-me familiar, mas não conseguia identificar o seu proprietário. Pedi de empréstimo à velhota dos Corn Flakes os binóculos de ópera com que ela se fixara aos acontecimentos. Apontei na direcção do balcão de onde chegava o bramido em voz familiar: «Estudassem, estudassem.» Qual não foi o meu espanto ao concluir que quem daquele modo troava era, isso mesmo, nem mais nem menos, o Miguel Relvas, com o cabelo cheio de gel e um lenço violeta no bolso do casaco cintado. Porra. Dei um salto na cama, estava sem pinga de sangue. «O Relvas não, o Relvas não», dizia eu de mim para comigo, meio acabrunhado, meio alucinado.

sábado, 21 de janeiro de 2023

ESTÁ DECIDIDO

 
Vou escrever uma peça com um gajo a fazer de gaja, uma gaja a fazer de gajo, uma lésbica a fazer de gay, um gay a fazer de lésbica, um bi a fazer de trans, um trans a fazer de queer, um queer a fazer de bi, um intersexo a fazer de pan e um pan a fazer de arromântico não-binário. Também sou gajo para meter um cão a fazer de gato. O casting será muito animado, por certo.

32

 
«Uma juíza do Tribunal da Amadora responsável por um caso de violência doméstica, em que foi dado como provado o crime de ofensa à integridade física, decidiu suspender “provisoriamente” o processo e obrigar o agressor a fazer um “passeio lúdico” com a vítima e levá-la a jantar fora, a concertos, espetáculos e teatro. Conselho Superior de Magistratura diz estar a acompanhar a situação “no âmbito das suas competências.»
 
Notícia do Expresso a 21 de Janeiro de 2023. Até ao final do ano passado, se bem sei, foram contabilizadas 32 mortes por violência doméstica no nosso país.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

É A VIDA

Acordei a saber que perdi um amigo por causa da Quitéria. As pessoas estão cada vez mais algoritmadas, com o sentido de humor dum calhau e a cabeça cheia de neurónios tiranetes. Não era amigo que conhecesse, ninguém próximo, não era amigo. Era um perfil de Facebook. Censurado pelo Facebook por querer partilhar obras de arte, sou agora persona non grata por dar voz a uma cigana. E nisto lembrei-me de Igor, o jovem cigano que procurava trabalho em Beja e foi baleado por um agente da PSP. O tribunal condenou o agente por crime de ódio, Igor ficou desfigurado sem conseguir comer normalmente. O que será feito do agente? O que será feito de Igor? Isto passou-se em 2016. Ontem, passei uma hora de trabalho a falar com formandos (nível 11⁰) sobre a comunidade cigana. Não queiram saber o que eu ouvi, o ódio, os preconceitos, as ideias feitas, os lugares comuns, os estereótipos, isso a que chamam etnocentrismo cultural. Nessa mesma turma, uma miúda dizia que há trabalhos que os ciganos não podem desempenhar porque não são sérios. Tantas décadas de luta para que não houvesse discriminação no trabalho entre homens e mulheres, para que qualquer profissão pudesse ser desempenhada tanto por homens como por mulheres, e subitamente dou por mim perante uma jovem para quem certos trabalhos não podem ser desempenhados por pessoas de etnia cigana só porque são ciganos. Esta jovem tem pais a quem certamente ouviu tais coisas, os pais falam com outras pessoas e na escola não há muita gente disposta a falar disto. Não está fácil, não. Velhos preconceitos de um lado, o algoritmo do outro, o ensino massificado falido, as redes ao rubro.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

LITTLE SHERI (1960)

 


Será cansaço? Palavra que de tantas vezes repetida já cansa. Será saturação? Talvez a paixão tenha sido afectada pela esterilidade do pensamento, cristalizando ideias e imaginação. Porventura palavras novas para vetustas emoções pudessem fertilizar qualquer coisa que nos distraísse, qualquer coisa pelo menos aparentemente nova, mais que não fosse desejosa de espanto. Uma velha emoção numa palavra nova é bem capaz de rejuvenescer, recuperar fôlego para os últimos metros. Mas olhando à nossa volta já só vemos frutos caídos, abandonados na terra sem que alguém se curve para os respigar. O ónus dos ciclos em que vida e morte de cruzam para fazer filhos assim o determinou. Anda a vida prenhe de morte, vai a morte prenhe de vida, e nos ventres de cada uma dessas fêmeas germinam frutos podres. As crianças Yanomami estão magras, subnutridas. As crianças ucranianas, louras, merecem a nossa compaixão. Na Palestina não há crianças com cabelos dourados como anéis papais. As mochilas das crianças no Iémen pesam muito, repletas de destroços das escolas arruinadas por bombas. My little Sheri, a tua mochila não pesa, os teus cabelos transparentes não têm peso, não há medida que te exponha. Estás protegida pela imaterialidade. És fruto sem raiz nem caroço, podes perdurar no ar fundida com o próprio ar. Agarro-me a ti como um louco se agarra às unhas, mordendo os dedos, roendo os ossos, matando a sede com o próprio sangue. Será tédio? Quantos sinónimos temos para tédio num dicionário de língua portuguesa? 365, um para cada dia do ano.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

DAVID CROSBY (1941-2023)

 


“Déjà Vu” (1970), de Crosby, Stills, Nash & Young, é dos álbuns que mais vezes ouvi. Primeiro, gravado numa BASF. Devia ter uns 13 ou 14 anos quando o ouvi pela primeira vez. Depois em vinil, até dar cabo dele. Finalmente, em CD. David Crosby (1941-2023) assina dois temas. Um deu título ao álbum, o outro é das canções mais icónicas da geração Woodstock. Um hino como deviam ser todos os hinos. Aqui fica uma história contada por Johnny Rogan na biografia de Neil Young:
 
«Os C. S. N. & Y. pareciam querer intimamente que a sua música e o seu modo de vida anunciavam os alvores duma nova era. Em “Wooden Ships”, de Crosby, os limites entre fantasia e convicção são muito indistintos. Politicamente, o grupo era muito agressivo, preenchendo as canções políticas a maior parte do seu reportório eléctrico. A enorme aceitação que tinham junto do público provinha da capacidade de obterem uma sonoridade muito terna quando cantavam sobre o amor, mas tão violenta quando o tema era a guerra. Os seus adversários eram geralmente os políticos antipacifistas que promoviam a guerra do Vietname e a violência nas ruas. Crosby escreveu “Long Time Gone” e “Almost Cut My Hair” na noite em que Bobby Kennedy morreu, facto que foi sobejamente referido na imprensa.»


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

CHUPAR PAU

 

Vamos lá a ver, a actriz Keyla Brasil tem toda a razão em reivindicar o direito a uma vida digna. É matéria de direitos humanos. A causa trans, se bem a entendo, tal como muitas outras causas congéneres, parte desse princípio humanista do direito que todos os seres humanos devem ter à felicidade, independentemente da sua etnia, identidade de género, orientação sexual, etc. Também julgo porreiro, e até fico feliz, que tenha escolhido um teatro para se manifestar, retirando daí partido de algo que só beneficia o próprio teatro: é lugar de democracia e, tão surpreendentemente quão felizmente, garantiu-lhe visibilidade. Esta última parte, bem sei, é polémica, pois a visibilidade vem mais da partilha massiva do vídeo dos acontecimentos do que do acontecimento em si. Seja como for, está-se bem. O que me parece completamente errado é o argumento usado e, pior ainda, a cedência da companhia ao argumento usado. Partir do princípio de que uma personagem trans deve ser representada por uma actriz trans é um erro, tal como o é a ideia peregrina de que um texto escrito por um negro só poderá ser devidamente traduzido por um negro. Caímos numa tripla armadilha: a do “deve ser”, a dessa distinção sobejamente debatida entre representação e representatividade e, por fim, a de que para certos trabalhos há identidades de género mais capazes do que outras (não era suposto combatermos esta discriminação?). Este Natal ofereceram-me um livro com citações de Mao Tsé-Tung. Lá está o capítulo sobre o que a arte "deve ser" e o que a arte não "deve ser". A mania do "deve ser" em matéria de liberdade artística sempre me fez muita confusão, assim como todas as lógicas impositivas que vão no sentido de cercear essa mesma liberdade artística. Outra questão que não julgo devidamente discutida é a de uma putativa “desconstrução de um lugar de privilégio”. Lugares de privilégio em teatro? Estão a falar de quem e do quê? Das e dos modelos que nunca estudaram representação em lado nenhum e são contratadas e contratados para representar? Num território tão precário como o da cultura, sobrevivência não pode ser confundida com privilégio. A minha avozinha também dizia que eu era um privilegiado quando me via agarrado aos livros, ela que nem a quarta classe tinha. E eu fartei-me de ouvir gente a mandar este e aquele “cavar batatas” para saber o que a vida custa. A temática dos lugares de privilégio é tão resvaladiça que, sem querermos, acabamos muitas vezes a fazer figura de “gajos de Alfama” quando pretendíamos dar uma arzinho de sofisticação. Portanto, força Keyla aí na luta. Ela é justa e deve ser apoiada. O argumento é que, caramba, só vai mesmo seduzir quem já está seduzido. E agora vou ali chupar pau, venho já.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

DIREITO AO TRABALHO

 
Quitéria não percebe porque não invadem panificadoras a reivindicarem trabalho como padeiros. Também lamenta não haver registo de jardins invadidos por candidatos a jardineiros. E é incompreensível que não se invadam escolas por candidatos a professores. Mas ainda resta esperança de que alguém invada um camião do lixo reivindicando trabalho como lixeiro.

domingo, 15 de janeiro de 2023

LEI DAS PRIORIDADES

 
Bem me recordo do problema que foi quando a lei do atendimento prioritário entrou em vigor. Natal caótico, com deficientes de canadianas aos berros com outros de cadeira de rodas e cegos de bengala a discutir quem tinha prioridade sobre quem. E havia os velhos, sempre dados a velhas discussões, às turras uns com os outros sobre quem era mais velho. Todos queriam passar à frente na bicha. Pior quando apareciam grávidas. Está de quantos meses? Sete. Eu estou de oito, dizia aquela chegando-se à dianteira. E nisto uma velha puxava-a para trás aos berros: você 'tá é balofa. Uma vez, apanhei com um idoso, um cego, uma grávida e uma pessoa acompanhada de criança de colo na mesma bicha. O idoso achava que tinha prioridade sobre a pessoa acompanhada da criança de colo porque a criança não estava exactamente ao colo, estava num carrinho. Aos berros. A pessoa com a criança julgava ter prioridade sobre o cego porque este não se apresentava numa cadeira de rodas, como determinava a sinalética sobre prioridades. Atendi a grávida enquanto os outros discutiam. No final, pediram o livro de reclamações denunciando na exposição à ASAE a atitude discriminatória do empregado. Que eu tinha dado prioridade à grávida por supor que ela merecia uma deferência que o velho, o cego e a criança de colo não inspiravam. Enfim, inventam estas leis só para chatear quem serve ao balcão. O resto é conversa.

sábado, 14 de janeiro de 2023

TECTO, PARA ANDAR AO RELENTO

 


   Não é possível escapar à redundância quando nos pomos a escrever sobre um livro que diz tudo sobre si mesmo. Sejamos, então, redundantes. O livro merece-o. “Tecto, Para Andar ao Relento” (Barco Bêbado, Dezembro de 2022), de António Cabrita (1959) recolhe textos ensaísticos de proveniência diversa organizados em três partes. A primeira, que ofereceu título ao volume, recupera e reenquadra alguns parágrafos redigidos para um livro de Maria João Cantinho. O tema é a poesia, sua natureza, função, deveres e direitos, custos e benefícios, pensada a partir de uma impressionante profusão de citações que leva a desconfiar de tamanha constelação. Sobre isto de citar, esclarecerá o autor que «A questão não está na bazófia de citar-se mais ou menos, mas, precisamente, no conseguir que aquilo que se cita abra uma janela (um nexo) para o desvendamento de um ponto de vista (uma “linguagem”), que até pode ser não-verbal» (p. 105). O texto em questão, no qual, e como noutros, se percebe uma benigna auto-ironia, evoca Julio Ramón Ribeyro, mas também Taisen Deshimaru e Daisetsui Teitaro Suzuki, Tomas Trnaströmer e Derrida, para rematar com menção a João Botelho. Ocupa pouco mais de uma página.
   Haverá defeito na leitura e no desejo de distribuir os seus frutos? Os aforismos coligidos em “Mar Vertical”, a segunda parte do livro, provenientes na sua maioria do weblog Raposas a Sul, resolvem o problema levando-nos a crer num pensamento construído no confronto com o outro. O exercício não é tanto o de dialogar com este ou aquele autor, até porque eles não responderão, mas antes o de deixar que o pensamento seja impelido pela leitura. Estas páginas, não todas, mas quase todas, jamais existiriam sem esse motor de arranque que a nós, leitores, se oferece sob a forma de uma generosa partilha de referências. Cada qual fará com elas o que bem entender.
   Reforço o termo generosidade para dar conta de uma dimensão neste livro que muito me agrada. Esta batalha travada no campo de honra da literatura sugere uma espécie de didáctica muito mais informal do que possa parecer à primeira vista. O que Cabrita geralmente faz, num estilo impecável e com um sentido de humor que não me canso de gabar, é tratar-nos, a nós que o lemos, como aquele amigo a quem dizemos: eh pá, olha o que eu li, pus-me a pensar nisto e dei conta de que. Se o texto introdutório pode ser sufocante, as prosas breves que lhe seguem são de uma inquestionável abnegação. E isso é admirável, tendo até em conta o facto de haverem sido, na sua maioria, previamente publicadas num weblog, plataformas de que em tempos se dizia terem a partilha como a mais nobre remuneração.
   Acrescentem-se às cogitações, concordantes e discordantes, lições de crítica, exegese, hermenêutica do texto poético, a poesia interpretada à lupa, a inteligência do leitor que não afrouxa sobre a superfície do texto, antes penetrando-o até dele retirar algo que olhos comuns como os nossos jamais captariam, a que devemos acrescentar traduções originais, interrogações, fragmentos: «É preciso continuar a procurar o animal inexistente que o amor fez surgir no elíptico coração do homem» (p. 155).
   Um texto, a páginas 113, ocupa-se das possibilidades da poesia ao longo de 9 páginas. É uma aula que só por si mereceria discussão profunda. A memória também se intromete, quase sempre em tom picaresco como o da história que nos apresenta um Cabrita disléxico verbal e relacional. Mas, mais importante, quem leia este livro não deixará de reparar na coerência e no rigor com que o autor abraça os desafios a que se propõe. O amor à língua e a paixão pelas palavras talvez seja o centro a partir do qual tudo o mais se desenrola como lava a ser expelida por um vulcão. Assim se compreende o entusiasmo com que, a páginas 129, se dá conta da descoberta de uma palavra nova (lúzios) e da intenção de fundar um Clube dos Amigos dos Lúzios, já em espírito de missão trinta páginas depois: «Salvem-me do desconsolo os lúzios peregrinos de uma trintona»… Dito e feito.
   “Tecto, Para Andar ao Relento” encerra com um texto de apresentação da poesia reunida de Paulo da Costa Domingos, acrescentado da leitura de um livro posterior do mesmo autor e do que nele ecoa acerca da guerra em curso na Ucrânia.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

RETRATO DO ARTISTA

 


   Em Janeiro de 1904, James Joyce submeteu a W. K. Magee, editor da revista independente “Dana”, um ensaio intitulado “A Portrait of the Artist”, cuja publicação foi rejeitada com a justificação de que não era possível publicar algo ininteligível. “Não posso publicar o que não compreendo”, terá dito Magee. Com um temperamento que não era de se deixar abater, Joyce pegou no manuscrito e desenvolveu-o até chegar ao resultado que hoje conhecemos sob o título “Retrato do Artista quando Jovem” (Relógio D’Água, Janeiro de 2012). O livro só viria a ser publicado em 1916, 12 anos passados sobre o primeiro esboço e inúmeras recusas de editores. Estas recusas já nada terão tido que ver com a incompreensibilidade da prosa, mas sim com os conteúdos autobiográficos distribuídos por cinco capítulos em que ficamos a conhecer a juventude do autor até à decisão de abandonar o país natal. Tornou-se demasiadamente compreensível.
   A família, o problema irlandês, a educação religiosa, as crises de fé, a iniciação sexual com uma prostituta, a revolta contra a Igreja, tudo isso é descrito pelo autor de “Ulisses” com bastante clareza. Logo no primeiro capítulo, a noite de consoada em família transforma-se numa acesa discussão sobre a questão irlandesa e o modo como nela se misturam política e religião: «Somos uma raça desgraçada, escravizada pelos padres, sempre fomos e sempre havemos de ser, até ao fim dos tempos» (p. 44). O anticlericalismo joyceano, sobejamente discutido, começou a ganhar forma cedo. A revolta que nele se opera não é meramente espiritual, é política no seu sentido mais profundo.
   A Irlanda de que Joyce se exila impunha-lhe uma moral que ele não estava disposto a aceitar e à qual não queria curvar-se, a moral das palmatórias injustas no colégio de jesuítas, uma moral que trazia os crentes de joelhos atemorizando-os com conceptualizações do Inferno para onde seriam enviadas as almas dos danados. Ele lia Lorde Byron: «Todos os tempos livres que a vida escolar lhe deixava eram passados na companhia de escritores subversivos, cujos sarcasmos e excessos de linguagem lhe geravam um fermento no cérebro antes de ressumarem nos seus textos incipientes» (p. 82). Curiosamente, “Chamber Music” (1907), o primeiro livro publicado por James Joyce, precisamente um livro de poemas, parece escapar a esses excessos de linguagem adoptando um estilo intimista e até aparentemente conservador: «Quem a glória perdeu sem descobrir / Nem uma alma sequer afim da sua, / Em cólera e desdém, entre inimigos, / Cativo por vetusta fidalguia, / E quem sempre se esquiva, em altivez, / Só tem seu próprio amor por companhia» (“Música de Câmara”, trad. João Almeida Flor, Relógio D’Água, Fevereiro de 2012, p. 57).
   Regressando ao manuscrito de 1904, nele se diz: «Cepticamente, cinicamente, misticamente, ele havia buscado uma satisfação absoluta e agora, pouco a pouco, começava a ter consciência da beleza na condição dos mortais» (trad. minha). Julgo estar aqui o cerne da questão. Abandonar a Irlanda significou, antes de mais, abandonar um ambiente de castração forçado pela Igreja. “Música de Câmara” é uma declaração de amor à vida e ao que nela desponta de belo e instigador. Quando o livro foi publicado, Joyce já havia partido uma primeira vez. Regressara em 1903 para o funeral da mãe. No ano seguinte, conheceu Nora Barnacle e com ela se instalara em Pola. Tiveram o primeiro filho em 1905 e uma filha em 1907. O amor entre ambos está patente nas cartas que Joyce escreve a Nora: «Só na arte, querida Nora, é que nós os dois encontraremos consolo para o nosso amor. Gostava de te ver rodeada de tudo o que é belo, nobre e elegante em arte» (p. 57). Esta nobreza e elegância é a dos poemas em “Música de Câmara”, aos quais não faltou uma paixão que nas cartas se revela em termos despudoradamente pornográficos.
   O desejo que levava ao pecado foi superado pelo amor carnal, por uma energia de viver que nenhum pregador podia pôr em xeque com elucubrações apocalípticas. A opção do “jovem artista” foi, portanto, pela carne, pelo corpo, pela vida, pela «consciência da beleza na condição dos mortais». É uma opção contra o medo que mantém os fiéis cativos do pecado e da confissão, é uma opção pela liberdade.
   A trindade de Joyce é uma trindade negativa, ou seja, afirma-se pela oposição que o autor lhe faz. Nacionalidade, língua e religião serão os tópicos de toda a sua obra. Em todos os seus livros, de “Gente de Dublin” a “Ulisses”, passando pelo “Retrato”, encontraremos essa desconstrução da língua que o tornou famoso, um combate feroz à religião e uma recusa da Nacionalidade que não se confirma apenas na opção pelo exílio: «A Irlanda é a porca velha que devora os próprios leitões», diz Stephen Dedalus (nome que é todo um programa), no último capítulo do “Retrato”. Mais do que se revoltar contra a Irlanda, reconheçamos, Joyce revoltou-se contra quem nela detinha o poder, a Igreja. O seu exílio corresponde, desta forma, a um retiro espiritual, isto é, a uma expurgação da educação católica de que fora vítima na juventude. Cortou o cordão umbilical, cozinhou-o e depois serviu-o aos leitores sob a forma de livros.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

UM POEMA DE JOÃO HABITUALMENTE

 


REDE VIRTUAL 1.

Beijei hoje todas as mulheres da minha cidade
consumi nisso toda a noite
só parei com a alvorada

O lume de vastas fogueiras
a porta entreaberta

Caso ainda alguma atrasada se viesse
aconchegar nesta sede

E no entanto
nenhuma se apercebeu
desta noite de via láctea

Dado que todas estavam no facebook

João Habitualmente, in da frente para a retaguarda na curva interior da estrada, Edições Apuro, Setembro de 2016, p. 35.

EMBAIXADORA

 
Quitéria está disponível para embaixadora ou embaixatriz dos chocalhos. O que se puder arranjar.