Fazem-me falta poetas que cantem as cabeleiras grisalhas das mulheres exangues, os músculos flácidos dos homens estéreis, as constelações de manchas na pele ressequida, dentes debilitados por cáries internas, a carne engelhada dos velhos, rostos amarrotados por olheiras fundas, fazem-me falta poetas que cantem a velhice sem resvalarem na retórica saudosista dos gloriosos passados e dos paraísos perdidos e dos amanhãs silenciados, sem canto, mortificados. Fazem-me falta poetas que falem do corpo como uma cedência por comodato e da vida como um instante perdurável e do tempo como o sopro estanque de humanidade que sempre foi o que é. Poetas capazes de abolir o uso do advérbio agora por contramedida a um antes que não foi melhor nem pior, foi diferente. Poetas que não temam a tristeza nem a imponham ao presente por nostalgia de magistrais infâncias, oníricas infâncias de colo e mimo, sem pés descalços nem fome nem nódoas negras de trabalho infantil forçado. Cansado que me encontro desses paraísos íntimos e pessoais, cantados como se mundo outro não houvesse, quedo-me a assobiar a falta que me fazem os poetas que permutem o canto não pelo lamento, mas, vá lá, pela assumpção de um destino para todos igual, a despeito das paisagens em que um corpo brota. Faz-me falta a verdade, a honestidade, o grito autêntico que não tema a melancolia nem a loucura nem a morte.
antologia do esquecimento
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
RECLAMAÇÃO
Fazem-me falta poetas que cantem as cabeleiras grisalhas das mulheres exangues, os músculos flácidos dos homens estéreis, as constelações de manchas na pele ressequida, dentes debilitados por cáries internas, a carne engelhada dos velhos, rostos amarrotados por olheiras fundas, fazem-me falta poetas que cantem a velhice sem resvalarem na retórica saudosista dos gloriosos passados e dos paraísos perdidos e dos amanhãs silenciados, sem canto, mortificados. Fazem-me falta poetas que falem do corpo como uma cedência por comodato e da vida como um instante perdurável e do tempo como o sopro estanque de humanidade que sempre foi o que é. Poetas capazes de abolir o uso do advérbio agora por contramedida a um antes que não foi melhor nem pior, foi diferente. Poetas que não temam a tristeza nem a imponham ao presente por nostalgia de magistrais infâncias, oníricas infâncias de colo e mimo, sem pés descalços nem fome nem nódoas negras de trabalho infantil forçado. Cansado que me encontro desses paraísos íntimos e pessoais, cantados como se mundo outro não houvesse, quedo-me a assobiar a falta que me fazem os poetas que permutem o canto não pelo lamento, mas, vá lá, pela assumpção de um destino para todos igual, a despeito das paisagens em que um corpo brota. Faz-me falta a verdade, a honestidade, o grito autêntico que não tema a melancolia nem a loucura nem a morte.
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
NOBEL DA LITERATURA: ANNE CARSON
Os hábitos, o sofrimento, o tédio, a memória, beber chá, biscoitos e a inescrutável banalidade da existência são tópicos que Beckett e Proust têm em comum. Cada qual anatomiza-os de maneira diferente. Aquilo que para Proust se encontra localizado na cabeça, a boca ou a mente, move-se pelo corpo abaixo em Beckett. Por exemplo, a cena em que molha a madalena no chá, que transporta Marcel ao interior de um sonho metafísico. Ao primeiro gole de chá, segue-se um segundo e um terceiro, pois pretende prosseguir o estudo desta inesperada delícia. Porém, decepciona-se ao descobrir que a sensação diminui ao repetir-se: «Bebo um segundo gole em que não encontro nada de mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo», diz. Compare-se com o bebedor de chá Murphy, protagonista da novela homónima de Samuel Beckett: «A sensação de um assento que, finalmente, se juntava ao seu traseiro derreado era tão deliciosa que se levantou de chofre e repetiu o movimento. Para não se deixar comover com tais ternuras, teria de as conhecer melhor. Mas a segunda junção foi uma enorme decepção.» No geral, Beckett está mais interessado do que Proust na parte posterior do corpo. Veja-se, por exemplo, a personagem de Pim em Beckett, apunhalado no cu com um abre-latas, ou Krapp a queixar-se do intestino enquanto continua a comer bananas, ou o abundante discurso anal em Murphy, ou a exaustiva excrementação do mundo nas expressões de Vladimir e Estragón, para não falar do modo como Beckett rebaptiza os editores Chatto & Windus, que lhe rejeitaram uma colecção de poemas em 1934, como “Calaboca & Jáera” (Shatupon & Windup).
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
HIPERFÓLICO
terça-feira, 6 de outubro de 2026
MICRODRAMA
Diálogo escutado durante o passeio da cadela numa manhã de neblina:
- Só se vier à boleia. Como as coisas andam, o cavalo já deve ter morrido.
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
CROMELEQUE DOS ALMENDRES
7000 anos, dizem, por razões que só a especulação explica. A esperança média de vida não era assunto, pelo que de certeza seriam mais felizes.
domingo, 4 de outubro de 2026
O PRINCÍPIO DA ALIENAÇÃO
Tenho sido revisitado por sonhos antigos. Às vezes, só por imagens e situações fragmentadas desses sonhos. Uma casa de férias, um lugar misterioso, um complexo arqueológico junto a uma praia, situações de convívio com pessoas conhecidas. Algumas destas imagens são tão vívidas que fico na dúvida se não terei vivido efectivamente aquelas situações. Hoje sinto-me impelido a telefonar a um amigo para confirmar uma situação. Talvez venha a julgar-me louco, mas sinto mesmo necessidade de esclarecer a veracidade do sonho. Deve ser isto o princípio da alienação.
sábado, 3 de outubro de 2026
SENHOR E SERVO
Passados 52 anos sobre a queda do Estado Novo, verificamos que a ditadura perdura no íntimo dos portugueses. O regime mudou, fez-se o 25 de Abril, aprovou-se uma Constituição, temos eleições. Mas isto quer dizer o quê? A Constituição nunca foi cumprida, objecto de sucessivos ataques e violações sem consequências. Veja-se o modo de lidar com as manifestações populares, com cargas policiais sobre um povo que, muito provavelmente, nem sabe o que vem escrito no artigo 45⁰ da CRP. Nem o povo, nem os polícias, nem os políticos, nem nenhum dos tiranetes que, no exercício dos seus pequenos poderes, se julga dono e senhor do mundo. A ditadura perdura dentro dos portugueses, um povo que, por incúria, incultura e falta de educação, ainda não aprendeu a lidar nem com a liberdade, nem com o poder. Só sabe que o respeitinho é muito bonito e que a si ninguém o cala, formas populares arquetípicas de dizer servo e senhor.
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
A MULHER QUE CANTA
Baseado na peça homónima do libanês Wajdi Mouawad (1968), Incendies (2010), do canadiano Denis Villeneuve, esteve nomeado para melhor filme estrangeiro nos Oscars. Ganhou Hævnen, do dinamarquês Anders Thomas Jensen. É frequente nas peças de Mouawad os tempos misturarem-se, o passado conviver com o presente em dramas familiares que exploram a descoberta da humanidade ocultada por detrás da barbárie. Incendies é o segundo tomo de uma tetralogia iniciada em 1997 com Littoral, proposta de reflexão sobre o problema das origens. O filme começa com a leitura do testamento de Nawal Marwan, uma mulher cuja trágica história de vida vamos descobrindo enquanto acompanhamos os filhos gémeos, um rapaz e uma rapariga, na tentativa de cumprir os últimos desejos da mãe: entregar duas cartas, uma ao pai desaparecido, outra a um irmão desconhecido. As revelações surpreendentes, mais do que reabrir feridas de um passado marcado por conflitos vários, lutas políticas, prisões, massacres, tortura, exílio, pretendem sarar o que a memória manteve vivo. Esquecendo? Não. Buscando uma reconciliação com a dor fundada no amor.
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
SEIS NOITES NA ACRÓPOLE
Prémio Nobel da Literatura em 1963, Yórgos Seféris (Esmirna, Império Otomano, 1900 – Atenas, 1971) só publicou poesia e ensaio em vida. Também Strátis, personagem principal de Seis Noites na Acrópole (1974), aspira a poeta e ensaísta. Publicado agora em Portugal pela E-Primatur, com tradução de José Luís Costa, este romance póstumo transporta-nos para a Grécia «nos tempos da ditadura de Pángalos», portanto, entre 1925-26, através de um grupo de jovens intelectuais que busca «ganhar coesão» reunindo-se na Acrópole em noites de lua cheia. O retrato é de desalento, uma Grécia com a identidade em ruínas, visitada por turistas, povoada por bêbados, putas e jovens desencantados. As relações no interior deste grupo de aspirantes a intelectuais, são, de algum modo, metonímicas da dispersão, do desterro, do exílio em que os gregos viveram carregando aos ombros os destroços de um passado glorioso. As aventuras amorosas, também elas malogradas, encontram no lugar do bordel a representação mais naturalista da decadência social em que as personagens estão metidas. Alternando entre a prosa diarística de uma personagem e o relato dos acontecimentos, Seféris deixou-nos nesta obra um testemunho pungente do sentimento de solidão que o perseguiu como sombra de uma identidade cultural fracturada. Restam ruínas:
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
PÓLEN - CRÍTICA & POESIA [N.º 1]
Textos de Andreia C. Faria, Duarte Drummond Braga, Ederval Fernandes, Gustavo Rubim, Henrique Manuel Bento Fialho, José Ricardo Nunes, Mariano Tomasovic, Paola D'Agostino, Rita Taborda Duarte, Tiago Alves Costa.
terça-feira, 29 de setembro de 2026
A RESISTÍVEL ASCENSÃO DE ARTURO UI
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
50 x 48
domingo, 27 de setembro de 2026
UM POEMA DE YANNIS RITSOS






