domingo, 22 de fevereiro de 2026

AS AVENTURAS PERDIDAS

 

Estes gestos dantes eram mais frequentes, correspondiam a uma espécie de reconhecimento entre pares cujo principal valor se caracterizava, creio, pelo desinteresse absoluto da distinção. Não conheço o Pedro Correia, como nunca conheci a maioria dos pastores de weblogs com quem fui ou venho interagindo vai fazer 23 anos. Migrados para redes sociais menos insulares e mais ruidosas, os “blogonautas”, para citar o Pedro, metamorfosearam-se com o tempo em perfis, produtores de conteúdos, selfie brothers (ocorreu-me esta agora). Continuo fiel ao weblog, é uma ferramenta de trabalho, para dizer a verdade, um laboratório diário de que não prescindirei enquanto for à borla. É também um arquivo onde vou reencontrando, por via de visitas em massa provocadas por ligações algures situadas, poemas como este Árbol de Diana que verti para português em 2011 e teve na última semana centenas de visualizações:

23

uma olhadela a partir do esgoto
pode ser uma visão do mundo

a revolução consiste em olhar uma rosa
até que os olhos sejam pulverizados

37

para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência


Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)
Versão de HMBF


sábado, 21 de fevereiro de 2026

REVOLUÇÕES

 
Almoço de trabalho no Real Balcão 5. Congeminemos a revolução, mas de estômago reconfortado. A transformação do mundo exige filete de peixe-galo regado com Alvarinho e rematado com uma mousse de chocolate pingada. Primeira nota a pedir conclusão: a política deixou de ser feita pelas pessoas para acabar nas mãos de profissionais, funcionários com direito a sindicato ao abrigo do Código do Trabalho. Anda tudo a tratar da vidinha, o povo, as elites, a burguesia, o clero, a corte tomada de assalto por saloios secretariados & etc. Haja sentido de humor para digerir isto, a despeito da verdadeiramente revolucionária açorda que acompanhava o peixe-galo. Segunda nota a pedir conclusão, ocorrida no decorrer de leituras outras: as revoluções foram sendo sucessivamente adiadas no nosso burgo exíguo porque os revolucionários, isto é, os porta-estandarte da revolução, entre os quais destacamos anarquista e libertários, comunistas e situacionistas, entre outros istas mais ou menos dilatados pela vontade, sempre estiveram demasiadamente empenhados a lerem os livros uns dos outros e a produzirem comentários sobre comentários teóricos, também eles escravos dos papers nas universidades colectivas e partidárias. Nunca no nosso povo houve um ímpeto verdadeiramente revolucionário, o povo foi sempre a reboque, nunca ergueu a forquilha de modo organizado, foi sempre em rebanho atrás desses pastores de ideias sem consequência. Dito isto, venha a aguardente.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

MULHERES AO PALCO

 


   No que diz respeito ao loisir, a morte de Louis XIV põe fim a um período de rigor e austeridade que esmagava o Teatro, inaugurando um tempo de divertissement em que os philosophes têm significativa influência, viz, pela introdução, na comédia, de temas que dão ao RISO uma virtualidade subversiva. 
   Em Londres, a partir de 1660, quando morreu Cromwell (que tinha proibido o Teatro), os ingleses mais affluent (re)descobriram que a frequência dos Teatros podia ser um excelente meio de ocupar alegremente o seu tempo de leisures.
   De resto, Charles II - regressado do seu exílio francês - trouxe consigo um numeroso séquito de comediantes e performers que materializavam a sua paixão pelo Teatro, divulgando-o entre as gentes de todos os quadrantes. Pela primeira vez, as mulheres podiam subir ao palco, e a música, fantasias, e outros adereços extravagantes, florescem, provocando na audience o RISO que desconstrói toda a espécie de authority.

Henrique Garcia Pereira, in Memórias do século XX para a contestação satírica da ordem vigente no século XXI, Companhia das Ilhas, Agosto de 2025, p. 66.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

UM FILME

 

Um filme: Valor Sentimental (2025), Joachim Trier (Noruega, 1974). Será alguma coisa ao Lars von Trier? Belo filme nos ofereceu com um dos actores fetiche do segundo: Stellan Skarsgård. Como fixar o nome do sueco? O mesmo problema com o dinamarquês Mads Mikkelsen. Tudo gente que me tem oferecido horas de infindável deleite. Tão diferente de Cão Preto (2024), do chinês Guan Hu, Valor Sentimental é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. A relação distante entre um pai cineasta e uma filha actriz de teatro, aproximada pela perda no interior de uma casa de família por onde passaram várias gerações. Uma história de família que é mais do que uma história de família, é também metacinema, criação, com o tema do suicídio presente de um modo subtil mas profundo. Tenho de colar este nome à memória: Stellan Skarsgård. Serei capaz?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

SUBSERVIÊNCIA

 

O ponto de partida poderiam ser os dois versos de Almada sobre Camões, o poema de Sophia, a tença, ou as acusações de Joaquim Manuel Magalhães a propósito de Ruy Belo, talvez os lamentos de Tolentino, os esforços de Francisco Rodrigues Lobo ou as sujeições de Camilo, a precariedade eterna do escritor profissional, o que é isso?, os leitores em escala reduzida, os intermediários na produção, a distribuição deficiente, este eterno amadorismo, o mercado do livro a partir do século XVIII, fenómenos de popularidade versus legitimação académica, o Pessoa praticamente desconhecido à hora da morte, entretanto convertido em capa de sabonete, as feiras, os festivais, os saraus e os serões, toda essa parafernália de encontros que desencontram, a monopolização do mercado, as medidas avulsas, as bibliotecas, a míngua, a segunda actividade, a eterna subjugação do ímpeto criativo à necessidade de sobrevivência.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

SELECTIVO

 

Cada vez menos preocupado com as expectativas, esforço-me por responder ao solicitado com o desinteresse de quem segue uma rotina. A capacidade para registar nomes, factos, diminuiu com o tempo, o espaço que sobra à memória fustigada é diminuto. O método passa por não atribuir relevância à maioria das coisas que nos vão acontecendo, àqueles livros que lemos para passar o tempo, aos filmes, às peças, às exposições, a esses milhares de páginas com nomes e títulos que vão pesando, de dia para dia, sobre os ombros curvados de um corpo que se inclina cada vez mais para o chão, apoiando-se nas moletas que são pilares ou faróis inseparáveis. E depois, ouvir-me na boca dos outros nunca me agradou particularmente.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

FRAGMENTO DE UMA PEÇA

 


ALGO OU ALGUÉM (retomando) Desde criança, Marcelo sempre gostou de contar e ouvir histórias. Era a sua parte favorita de conhecer outras pessoas. Que histórias teria para ouvir e descobrir daquela pessoa que estava a começar a conhecer? E como reagiria essa pessoa às suas histórias? Mas começou a perceber que este entusiasmo não era partilhado consigo. As pessoas gostavam de contar as suas histórias, mas nem sempre de ouvir as que MArcelo tinha para contar. Além disso, Marcelo também foi progressivamente reparando num padrão, e notou que, em situações de stress e ansiedade, as pessoas iam sempre ter consigo e desabafavam. E parecia que era o único momento em que se interessavam por ele. Foi num desses dias, enquanto ouvia a história de um recém-conhecido, que um pensamento assolou Marcelo: «Eu sou um candelabro humano.» E esta conclusão deixou-o apavorado e a sentir-se profundamente sozinho. «Eu estou aqui, pronto para ajudar e cuidar des outres, mas sem nunca me perguntarem como estou e o que sinto. Então, só posso ser um candelabro, e a minha função é iluminar a vida das outras pessoas, fazendo algo muito simples - apenas escutar.» Nesse silêncio, e sem a possibilidade de expor às outras pessoas aquilo que sentia e pensava, issos eria algo que ficaria para sempre dentro dele e que um dia o poderia entupir e ter consequências devastadoras; mas, até lá, ele iria apenas escutar. Isso faria com que deixasse de existir? «Se eu sinto, penso, mas não comunico nem mostro nada disto a ninguém. Será que isso significa que deixo de existir?»

Mário Coelho, da peça Tulpa, in PANOS - Palcos Novos Palavras Novas, Teatro Nacional D. Maria II, 2025, p. 59.

PEDRAS NO CAMINHO

O que era para ter sido mas não foi, o que será mas não é, o começado interrompido, o que é para ser assim mas depois era para ser assado, o que faremos mas não concretizamos, o vamos fazer que outros façam, as convocatórias desconvocadas, a suspensão, a eterna e descontinuada suspensão, o diz que disse, eu não disse isso, a truncagem, o desdizer, o adultério, as explicações pela metade, a tresleitura, o cansaço e a saturação trazida pela incapacidade de organização, a interrupção que impede o fluxo do pensamento, que obstaculiza o trânsito que vai da cabeça à mão. 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

ROBERT DUVALL (1931-2026)

 


Não me lembro dele n'O Padrinho, saga que me passou ao lado, mas recordo-o em Joe Kidd (1972), de John Sturges, e True Grit (1962), de Henry Hathaway, dois westerns de boa memória. Open Range (2003), mais recente, é outro dos westerns em que entrou. Um actor excepcional, nem sempre como protagonista. Presença mítica em Apocalypse Now (1979) ou como detective à beira da reforma em Um Dia de Fúria (1993). O Apóstolo (1997) foi o papel de uma vida, grande filme que também escreveu e realizou, mas em O Juiz (2014), um dos últimos filmes que fez, brilhou com extraordinária maturidade.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

UMA CANÇÃO DE MINA LOY

 


XXIX

Evolução   ao arrepio da
Igualdade Sexual
Errar lindamente o cálculo
Da similitude

Selecção contranatura
Cria filhos e filhas tais
Que uns aos outros desvariem
Criptónimos indecifráveis
Sob a lua

Dá-lhes uma forma
De esbravejar estridentemente
Para meigos chamamentos
Ou soluços homófonos
Transpõe o riso

Deixa-os crer que lágrimas
São flocos de neve ou melaço
Ou qualquer coisa
Que não humanas insuficiências
A pedir vértebras dorsais

Deixa que o encontro seja a viragem
Para os antípodas
E a Forma   um borrão
Qualquer coisa
Que não seduzi-los
Para um
Como mera compensação
Pelo outro

Deixa que se abalroem
A parytir dos seus incógnitos
Em orgasmo sísmico

Para muito maior
Diferenciação
Em vez de verem
A distorção de si mesmos
Nos esgares do ego alheio

Mina Loy, in Canções para Joannes, tradução de Miguel Cardoso, não (edições), Setembro de 2022, pp. 41-43.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

ESPERA SENTADO

 
Família Amorim, grupo Jerónimo Martins, Grupo José de Mello, Sonae, Grupo Pestana e BA Group vão disponibilizar milhões dos seus lucros anuais para apoio às famílias e a reconstrução das áreas afectadas pelo alfabeto de depressões que ameaça afundar o país na lama. A Conferência Episcopal Portuguesa agradece e promete missas grátis em honra de todos os milionários benfeitores, com lugar no céu garantido à direita do Senhor.

MEIO

 
Estar no meio, entre jovens ambiciosos, ávidos de fama, convencidos de que sabem alguma coisa, e velhos amargurados por lhes faltar o reconhecimento que julgam merecer. Estar a meio e sem vontade, sem desejo, sem paixão, indiferente a tudo o que não seja o simples gozo frugal e efémero de estar.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ESCASSEZ

 
A escassez grave de aviões no combate aos incêndios, a escassez grave de ventiladores na pandemia, a escassez grave de geradores nas catástrofes naturais, a escassez grave de meios para tudo e mais alguma coisa. Este é o país das escassezes graves. Só grunhos é que temos de sobra. Grunhos, burgessos e machos alfa.

NÃO TER PALAVRAS

 
Perguntaram-me se continuo a ler os jovens poetas. Respondi que sim. Perguntaram se sou daqueles que pensam que os novos poetas escrevem com menos palavras. Respondi que talvez seja verdade, mas não é necessariamente mau. Mau é passarmos a vida a dizer que não temos palavras para descrever o que sentimos ou vemos, como se não houvesse de facto palavras para o descrever.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

MONDEGO

 
O Rio Mondego nasce na Serra da Estrela, mas Luís Montenegro garante que, desde Janeiro, está a gerir os caudais do rio com as entidades espanholas. Esta gente não existe, não conhecem o país que governam, são uma anedota triste.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

UM POEMA DE RAQUEL SEREJO MARTINS


L’AMOUR A CŒUR PERDU

Só penso em coisas em que não quero pensar 
só penso em ti, em nós, um nós que não existe
fora das fronteiras de uma cama
não passamos de refugiados
cidadãos desapossados
objectos perdidos e nunca achados
variáveis sujeitas à vontade dos mercados

Hoje rezei pela primeira vez a São Miguel
o príncipe da milícia celeste
rezei para me defender no combate que estou a viver
a brutalidade do boxe
a elegância da esgrima
a indispensável pontaria para praticar tiro ao alvo
a solidão da natação
a audácia dos afogados
o cansaço crónico, em coro, canónico.

Mas desde quando és uma pessoa de fé?

Rezar também é uma forma de não pensar.
Acreditar também é uma forma de não pensar
e quanto mais precisamos, mais Deus existe.

Se queres saber o que uma pessoa realmente pensa, dizes
tens de olhar para o que faz
não para o que diz
diz-se tanto dislate sem sentido
tanto disparate
diz-se até de um filho perdido

E ocupei as mãos para ocupar os pensamentos
gestos de jardineiro de bonsais
de relojoeiro helvético
de cirurgião cardíaco
desarrumei e arrumei a cozinha
ficou impecavelmente limpa
até o forno ficou a brilhar por dentro
limpava o interior do forno e pensava em Sylvia Plath
enquanto tu fizeste um bule de chá.

Estás a perguntar-me se quero um chá?
Achas que isto se resolve com um chá?

Raquel Serejo Martins, in Devoluto, prefácio de Ricardo Marques, Abysmo, Janeiro de 2026, pp. 83-84.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

FUNERAL

 


Na Igreja, os homens mantinham-se de pé do lado direito. As mulheres estavam sentadas do lado esquerdo. Desconhecia tal disposição cénica. Cumprimentei uns, ignorei outros. Com o tempo, venho-me apercebendo que nada entendo dos nossos rituais de morte. A pouco e pouco a aprendizagem vai sendo feita. Ovar.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

RÉS-DO-CHÃO

 


Eu não te morro e tu não me morres. Eu quero viver, eu quero muito viver. Não me morras, ouviste? Senão mato-me.

Vítor Nogueira, in Rés-do-Chão, Averno, Outubro de 2021, p. 38.