sábado, 6 de junho de 2020

FUTENOJO

O Benfica anda há anos metido em trapalhadas, dos vouchers aos e-mails, passando agora por acordos secretos com clubes rivais, é um rol de trafulhices por explicar. Não estranho o silêncio dos benfiquistas que tenho por gente boa, pois no futebol vale tudo o que é inadmissível na vida. Merecem os Ventura e Guerra de serviço, personagens asquerosas do comentário que nada tem de desportivo. Eu vomitei de asco com os acontecimentos na Academia do Sporting, corei de vergonha com as imbecilidades do Bruno de Carvalho, que depois de tudo o que fez e disse ainda tem admiradores. Estúpidos. Não dou nem mais um cêntimo ao futebol, que já nada tem que ver com desporto. É só um ramo de negociatas para babosos como o Pinto da Costa e o Luís Filipe Vieira, apoiados por burgessos que apedrejam as próprias equipas. Os moralistas de serviço apontam o dedo aos que no meio de motins se convertem em saqueadores, mas eu tenho bem vivas as imagens de adeptos do Benfica a saquearem um armazém do Vitória de Guimarães. E uma criança a mijar-se pelas pernas abaixo enquanto pai e avô levavam bastonadas de um energúmeno fardado. O futebol transformou-se nesta arena onde todos os atropelos são consentidos e as virgens ofendidas podem prostituir-se conservando a virgindade. Cambada de hipócritas.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

ADORAR A BESTA

O mundo é uma albacara liderada por animais repugnantes. Falamos de Donald Trump e de Jair Bolsonaro pela boçalidade e pela bizarria mediáticos, mas podemos juntar na vacaria gente sinistra como Kim Jong-un e Rodrigo Duterte, o guatemalteco Alejandro Giammattei e o nicaraguense Daniel Ortega, o czar Vladimir Putin ou o imperador Xi Jinping, Erdoğan na Turquia, Orbán na Hungria, vários ditadores africanos, teocratas árabes, Benjamin Netanyahu. A dúvida sobre como adere o povo aos discursos desta gente, eivados de ódio e de desprezo pela diferença, arrastando tantas vezes as populações a que se dirigem para conflitos sangrentos, é um mistério que nunca hei-de entender. Tendo por certa a morte, por que não se limitam a deixar viver? Por que confiam os seus destinos e adoram estas bestas que, chegadas ao poder, exibem uma insultuosa vida faustosa enquanto o povo se esgatanha para ter pão na mesa?

quinta-feira, 4 de junho de 2020

MANUEL CINTRA (1956-2020)




Sobre Alçapão (& etc., Maio de 2009): aqui. Sobre Não Sei Nunca por Onde (Quasi Edições, Abril de 2004): aqui. Um poema de Do Lado de Dentro: aqui. E agora outro:

Inépcia. Asneira. Incongruência. O canto, três ângulos rectos.

Meninas em quartos de banho de rádio aceso. Lágrimas camufladas em banheiras de água quente. Desgostos infantis, becos maternos. Meninas em rádios de banho em quarto aceso.

Outonos aflitos, inverno fora, de pantufas molhadas gritando em desvario: «Perdi um dia! Perdi um dia!», entretanto percorrendo dois.

O tempo escoa pela banheira da falta de tacto em sentido único. Andamento que será talvez só um excerto da sinfonia. Não sinto os membros da rua, corpo sem ossos. Caem-lhe calças aos tornozelos, ridícula, coxa, desaprendeu a andar.

Queria eu acordar, mas não tenho sono. De braços abertos à utopia. Hipotético ingénuo. De umbigo ao léu.

Sentir-me longo, desejar extensões, e desembocar entre três ângulos rectos de vidro pronto a quebrar. Conter, conter.

Corrida. Não suporto esta pequena lentidão. Os mais olhos que barriga como fogo por arder. Perdi a receita. Crença nas metamorfoses, após anos a fio a observar girinos brotar para rãs. (a rã não é uma beleza, mas melhor que nada. É verde.)

Sorva-se uma raiz, plante-se nesta clareira.
Esta clareira. Esta clareira. Eu acredito nesta clareira.

Manuel Cintra, in Do Lado de Dentro, Editoria Presença, colecção forma, n.º 13, 1981, pp. 27-28.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

UMA CANTIGA DE AMIGO



DÉCIMA TERCEIRA CANTIGA DE AMIGO

A minha amiga em migalha
um dia se transformou.
Procurei-a onde não estava:
uma cigarra cantava,
uma formiga a levou.

Logo outra amiga tomei
que o todo o pão esmigalhava
fosse o pão para os pedintes
fosse pão branco de rei 
— todo o miolo migava
e toda a côdea também.

Da minha amiga antiga
cada migalha é presença
e todo o pão ela pensa
à massa de mim me obriga.

Mastigando a vou seguindo
até que um dia consiga
sair do estreito carreiro
entre a cama e o celeiro
escolhendo um labirinto
à escala de uma formiga.

E como um dia lhe disse
serei o que não serei
e quem fui serei também
ao invés de uma velhice
ao invés da mocidade
porque esse amor que farei
terá no pão seu vulcão
seu sabor e qualidade.

Regina Guimarães, in Cantigas de Amigo/Lady Boom - as rainhas, Hélastre, 2009, pp. 17-18.

PROPOSTA

Quitéria propõe quarentena em dias de chuva, desconfinamento em dias de sol.

UM TEXTO DE MARIA VELHO DA COSTA



EM HONRA E LÁSTIMA DE PEDRO E PAULO, PASOLINI

   Esses dois olhos, que de tão manso e pacientes, sem gravidade alguma para o que do sexo ou morte é irrelevante, bem faziam para cumprir pertença do terceiro — abrir-se para obrar ou receber. Tudo por aqui como anjo de asas bem podadas. Príncipes senhores viscondes sempre lamberam o belo como se ele fosse de per si, ou o horrendo. Tu passavas a vista pelo rude ou esplendor e era todo um teorema da pouquidão das pequenas rugas, estertores, milagres mesmos, ruídos e odores com som do corpo. Suas suavidades e amores sós ao olho inadmissível, vendo. Mexeste em tudo o que sagrámos com uma só virtude — as mãos com barro e unhas de cavar. Mesmo o furar dos olhos e da mãe te era amena matéria. Tinham de fazer ao menos o fim grandiloquente, feito diverso, trágico legível, porque isto está tudo ainda muito ao seu princípio. Tinhas não saber o que fazias.
   Pudera eu o grande plano disso, punha-te um sorriso sem cupidez ou malícia alguma debaixo da cabeça esmagada pela necessária violência, a tua, a grosseira e finíssima inocência que há-de virar montanhas, pequenezes, a ardente câmara lenta.

Maria Velho da Costa, in Experiência de Liberdade - Antologia de textos publicados no suplemento «Artes e Letras» do Diário de Notícias de Maio a Novembro de 1975, com introdução e organização de E. M. de Melo e Castro, Diabril, Maio de 1976, p. 303.

CHRISTO (1935-2020)




Christo Vladimirov Javacheff nasceu na Bulgária, em Gabrovo. Estudou na Fine Arts Academy, em Sófia, entre 1953 e 1956, e na Akademie der Bildenden Künste, em Viena, no ano de 1957. Mudou-se para Paris no ano seguinte, onde conheceu Jeanne-Claude de Guillebon (1935-2009). Em 1960 tiveram um filho e casaram, começando então a desenvolver um profundo trabalho artístico em colaboração. Mudaram-se para Nova Iorque em 1964. Um dos mais relevantes projectos esculturais que realizaram foi o Wrapped Reichstag, em Berlim, 1971-1995. 

domingo, 31 de maio de 2020

A DEMOCRACIA PERMITIU

A democracia deu palco privilegiado, enquanto comentador de futebol, a um homem que sonha com castrações. A democracia integrou esse homem numa candidatura de um partido democrata, não lhe retirando apoio quando ele declarou haver portugueses de primeira e portugueses de segunda. A democracia permitiu que esse indivíduo legalizasse um partido com assinaturas falsas. A democracia permitiu que esse mesmo partido apresentasse um programa plagiado de outro partido. A democracia permitiu que esse partido fosse disseminando por diversos órgãos de comunicação inúmeras falsidades. A democracia permitiu que, eleito deputado, o líder do partido legalizado com ilegalidades, violasse o que defende no programa pelo qual foi eleito. A democracia permitiu que esse deputado mandasse para a sua terra outro deputado, referindo-se à origens africanas deste. A democracia permitiu que o deputado eleito por um partido legalizado com ilegalidades reformulasse o programa sufragado sem sofrer quaisquer consequências. A democracia permitiu que nos comícios do partido desse deputado se fizesse a saudação nazi. A democracia permitiu que o líder desse mesmo partido promovesse a seus dirigentes neonazis e fascistas declarados. A democracia permitiu que um deputado defendesse em plena Assembleia da República medidas anticonstitucionais e segregacionistas, tais como o confinamento especial de ciganos e a prisão perpétua. A democracia permite que um líder de um partido político reconheça que recorre a promotores de desinformação para passar a sua mensagem. A democracia permitiu que o cancro lhe fosse crescendo na ponta do nariz e nada fez. A democracia confunde tumores com sinusite, ainda não percebeu que o problema não está num homem só, mas nas hostes que o apoiam religiosamente. A democracia farta-se de dar tiros no pé. A democracia está coxa, qualquer dia não conseguirá caminhar. A democracia permite que lhe amputem as pernas.

sábado, 30 de maio de 2020

BRANCOS E PRETOS



   Não muito tempo depois de um cidadão afro-americano (norte-americano por defeito) ser torturado e executado, a céu aberto, por um polícia extremamente zeloso da sua farda, um protótipo da Starship explodiu no Texas durante o período de testes. Como somos fracos a contas, desconhecemos quantos milhões arderam em combustível e se transformaram em cinzas nesta experiência com o espaço intergaláctico em vista, espaço esse onde certamente se viverá divinamente. Cá pela Terra, o tal afro-americano foi estrangulado, ao que se sabe, por causa de uma suposta nota falsa de vinte dólares. A mulher do polícia pediu divórcio. são contas mais fáceis de fazer.

   É preciso referir que Elon Munsk anda deveras excitado com a possibilidade de tornar acessíveis as viagens ao espaço, sendo acompanhado em tamanha excitação por uma caterva de fãs que descobriram nas novas tecnologias o futuro da humanidade. Não fossem as novas tecnologias jamais teríamos acesso aos smartphones, fabricados com metais raros importados da China, e jamais saberíamos quem foi George Floyd, não teríamos a mesma capacidade de organização de vigílias e de manifestações pacíficas, silenciosas, pelo afro-americano e, já agora, pelos 820 milhões de famintos que definham pelo mundo, pelos índios na Amazónia e pelo coala australiano.

   Um dia deixaremos de falar da distribuição da riqueza pelo planeta para nos concentrarmos definitivamente na distribuição da miséria, as lojas de armas não terão filas à porta em tempos de pandemia e os milhões que surgem do nada para descanso dos mercados poderão ser aplicados em cabanas com vista para marés de poeira em Marte. Sou um optimista, a mulher do polícia pediu o divórcio, o Twitter vigia as declarações do presidente da maior potência militar do mundo, estamos a salvo, Kim Jong-un continua vivo, Bolsonaro bebe leite e o suicídio prospera no Japão, um judeu e um índio travam-se de razões no ringue das tragédias universais: o que foi pior, o holocausto nazi ou o extermínio dos ameríndios?

   Quem ande pelas redes sociais, essas mesmas a quem Umberto chamou o eco de uma legião de imbecis, confronta-se amiúde com problemáticas similares, não sendo de todo raro ver gente a medir forças entre gulags e campos de concentração nazis, Israel e Palestina, brancos e pretos, como quem discute um clássico da liga profissional de futebol. As vidas das pessoas não importam, na equação custo/benefício valem pouco, pesam quase nada. Se a certa altura da nossa suposta evolução enquanto seres humanos julgámos que sim, perdemos qualquer resquício de fé nessa possibilidade ao olharmos de relance o mundo actual. Weisman, o judeu da peça de György Tábori, pensou livrar-se da filha deficiente como quem se livra de gatinhos recém-nascidos. Carrega a filha-fardo como um peso na consciência, reconhece-o. O Cara Vermelha com quem se debate não sabe quem ou o que é, está confuso, tem um problema de identidade, talvez um pouco à semelhança do György feito George ou de todo e qualquer afro-americano (norte-americano por defeito). Obama já passou, Trump aí está para recuperar o orgulho supremacista branco.

   “Weisman e Cara Vermelha” (Companhia das Ilhas, Maio de 2020), a peça de George Tabori traduzida por Carlos Borges para o Teatro da Rainha, não escapa ao tema complexo da identidade étnica e cultural ao colocar em cena um judeu, o que resta de um índio e uma jovem mongolóide. Ainda se pode dizer mongolóide? Deveria dizer downiana? A questão da identidade e o desfile de desgraças que cada um dos pugilistas tem para arremessar (parecem duas velhas a exibir doenças) não esgotam o alcance desta comédia negra, muito ao nível do estado do mundo tal como o vamos percepcionando a cada dia que passa. O que impele tanto o índio como o judeu para um Nada identitário é o que vai ficar a martelar na nossa cabeça tal como martela na consciência de cada uma daquelas criaturas.  

   As Rocky Mountains são cenário perfeito para um western, ainda que no duelo final a tensão exercida pelo poder de antecipação seja subvertida por um metralhar de desgraças pessoais que trazem já por terra os dois pistoleiros. Ao silêncio de esgares traiçoeiros projectados numa sala de cinema o teatro prefere a confissão de dois derrotados, havendo talvez entre ambos uma heroína improvável. Rute, a menina deficiente, com gestos alienados de lógica, criatura que aparenta ser de outro mundo, talvez do tal espaço intergaláctico onde Elon Munsk vai tentando meter os pés com foguetões que não chegam a levantar voo. É ela que ao espalhar as cinzas da mãe por cima do pai diz: «Agora semeio a mamã em cima de ti e das rochas crescerá beladona.» A sua deficiência é estar do lado dos vencidos. Não há tecnologia capaz de transmitir tamanha sabedoria.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

UM GESTO INTENSO



Facilmente gera irritação a natureza tão palavrosa, tão desmoronada, esgotada, barrenta, bem-falante do texto seguido, e do seu caudal incrível a jorrar assim no ar, sustendo-se apenas pela pretensão do seu sopro ou do palavreado que o incha. A maior parte dos artigos, a maior parte das teses e dos ensaios, a maior parte dos livros que se publicam é uma lengalenga. Nas melhores páginas fragmentárias, desejaríamos avidamente qualquer coisa não apenas quebrada mas também quebrante. Um gesto intenso, arrancado ao vazio, e cuja intensidade imediatamente esmagasse. A sua própria densidade afunda-o de repente no nada. A sua interrupção deve transtornar tanto quanto a sua aparição surpreendeu. Neste sentido o seu uso deve ser extremamente circunspecto, e raro, como o grito, que não tem eficácia e poder terrível senão quando nada o prepara e quando nada o repete.

Pascal Quignard, in Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos - ensaio sobre Jean de La Bruyère, tradução de Pedro Eiras, Deriva, Dezembro de 2009, pp. 56-57.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

CIDADÃO UCRANIANO

As imagens que chegam dos EUA, com um homem a sufocar debaixo do joelho de um polícia, que se serve do peso do seu corpo para assassinar o indivíduo imobilizado, são especialmente chocantes não por oferecerem um extraordinário exemplo de brutalidade policial ou pela singular manifestação de racismo que ali possa estar ilustrado. Elas são chocantes por terem sido às claras, com vários cidadãos a filmarem a ocorrência no local, em tempo real, tentando interceder pela vítima, sem qualquer sucesso, enquanto um outro polícia mantém posição para que o seu camarada possa dar continuidade à tortura sem ser importunado. O choque já não está na brutalidade nem na vulgaridade, está na total inexistência de filtros que transforma uma acção da autoridade num acto performativo com público e assistência. Sem cinemas nem teatros, aí está, entregue ao domicílio, a arte urbana de uma civilização superior. O cidadão ucraniano que morreu no SEF do aeroporto de Lisboa continua sem nome, ao contrário de George Floyd. O cidadão ucraniano continua invisível, sem rosto, embora tenha sido sujeito a uma tortura semelhante ou mais cruel. Apesar de ter sido à porta da nossa casa, o cidadão ucraniano continuará a ser um cidadão ucraniano como outro qualquer. Já ninguém se lembra dele, não há cartazes com o seu rosto, nem memes, não se realizaram manifestações nem demos por uma qualquer vaga de indignação popular. Ninguém viu. George Floyd podia ser o nosso cidadão ucraniano, se alguém tivesse visto o que se passou naquela sala do aeroporto de Lisboa onde perdeu a vida às mãos da autoridade. A nossa autoridade.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

UM POEMA DE PAULO TEIXEIRA




TÚMULO DE HERÓIS ANTIGOS

O tempo não urge mais neste loco dolenti.
Eles dormem nas suas pálpebras em sono
desmedido um intento não logrado, entoando
a meia voz hinos e canções que se esvaem
pelas altas janelas direitas ao país natal,

num sonho agraciado com galões e dragonas,
canutilhos nos ombros e no peito,
onde uma esperança diferida demora-se
e um pavilhão ondula in memoriam
no vento frio e seco do norte;

quantos lutaram passando a pólvora
pelo crivo, levando ao ombro a alma
da boca de fogo, contra um ceptro,
um trono, sua influência soberana
em terras estas onde nasceram;

quantos morderam o pó; solta a retranca
dos cavalos, ouvido o tambor dos sitiados,
arvorada a bandeira branca pela conta certa
dos que ficaram, bando de insurgentes,
passados à faca, jungidos como se metem

os bois à canga, proclamaram uma verdade
entre gritos de alarme expiando:
para sempre por pagar em oiro e em prata
o soldo das suas vidas expostas,
sem o broquel dos antigos, na linha de tiro.


Paulo Teixeira, in Túmulo de Heróis Antigos, Caminho, Abril de 1999, pp. 76-77.

PROCESSO DE DESCONFINAMENTO EM CURSO



Dia 2 retomaremos a conversa como ela deve ser, olhos nos olhos. Sala devidamente preparada, de acordo com as novas regras e sugestões da DGS. Façam a vossa reserva, apareçam.

Avisam-se os nossos espectadores assíduos que é obrigatória a reserva prévia dos lugares e que a lotação será de um terço da sala — cerca de 20 lugares — sendo que a implantação das cadeiras (somos especialistas de mises en place) respeita os 2 metros da praxe, assim como os canais de circular serão estabelecidos racionalmente, contando com a colaboração activa dos espectadores neste “jogo” das distâncias e direcções da respiração mascarada — o jogo do desconfinamento.

Entrada Livre. Lotação reduzida a 20 lugares.
Informações: 262 823 302 | 966 186 871 | comunicacao@teatrodarainha.pt


terça-feira, 26 de maio de 2020

UM JORNAL

Sinal Aberto
 aqui

segunda-feira, 25 de maio de 2020

DA DEMOCRACIA

Que pode significar a democracia para uma pessoa obrigada a subsistir nos estratos inferiores da condição proletarizada, na actual conjuntura da reprodução social? Para quem enfrenta as condições de vida materiais na mó de baixo, na sociedade do capital em crise, a democracia é cada vez mais uma abstracção, um jogo de representação mediática afastado da sua realidade, embora não estranho quanto às consequências das decisões democraticamente adoptadas.
   A democracia - ta como, em geral, a política -, tematizada como representação, converteu-se numa mercadoria mediático-espectacular de redes sociais, tertúlias e programas de televisão, de profissionais especializados (professores, analistas, jornalistas, artistas, fazedores de opinião, politólogos, etc.) que são figuras representativas da submissão clientelista à ordem dominante, na sua dupla vertente de representação à direita e à esquerda. Na prática, a democracia é uma oportunidade profissional para os aspirantes a gestores da representação, na mesma medida em que é uma oportunidade de negócio para as empresas da produção e comunicação do discurso dominante, incluindo os partidos políticos. No fim de contas, estes são também entidades empresariais.
   Porém, no que diz respeito à vida do indivíduo proletarizado, a democracia não é mais do que uma trama de interesses de grupos oligárquicos empresariais constituídos em torno da Administração pública, com a mediação de profissionais e técnicos cujas decisões são legitimadas periodicamente no processo eleitoral. O carácter autoritário e classista da democracia, na sua materialização prática, consiste na adopção de decisões por uma elite político-económica cujas consequências recaem directamente sobre a massa da sua concreção prática, o sistema democrático está constituído por teias gestoras em todos os sectores da actividade económica e da reprodução social, incluindo a representação política, coisa que deu azo à ilusão da autonomização da esfera política, simplesmente porque se projecta como uma borbulha auto-referencial no interior do espectáculo mediático protagonizado pelos profissionais da representação.


Corsino Vela, de um artigo intitulado "Gestão Democrática do Colapso no Capitalismo Terminal?", in revista Flauta de Luz, n.º 7, Abril de 2020, p. 90.

domingo, 24 de maio de 2020

UM POEMA DE ANTÓNIO FERRA



Dizem estudos que os velhos gigantes também ardem,
o que me surpreende, pois
sempre lhes concedi a vida eterna.
Lembro-me do Homem Grande
com cara de Ulisses no ocaso,
quando vinha à rua os cães perdiam-se a cheirar-lhe a altura,
caminhava bamboleante oferecendo a contemplação à vizinhança.

Nunca falei com ele, apenas boas-tardes quase sem resposta,
tinha medo de lhe desfocar a imagem,
não fosse a sombra enorme desmoronar a praceta,
passeava a vida longa e a dimensão antes que a morte o levasse,
e levou, numa urna onde lhe cabiam poucas falas.


António Ferra, in Ente, edição do autor, com desenho do próprio, Junho de 2020, s/p. 

sábado, 23 de maio de 2020

MARIA VELHO DA COSTA (1938-2020)



Duas histórias que já terei contado, mas recupero agora. “O Livro do Meio: romance epistolar” (2006), escrito a meias entre Maria Velho da Costa e Armando Silva Carvalho, foi dos primeiros livros, senão o primeiro, que vendi durante o meu percurso de aprendiz de livreiro. Onze anos passados na profissão, não me recordo de vender outros livros de Maria Velho da Costa. À excepção de um. Lá iremos. 

Entretanto, a lembrança do homem das calças de ganga deslavadas, chinelos em pleno Outubro, camisa aberta até ao umbigo, palavras roucas obsidiadas pelo bafo a álcool. Tem o “O Livro do Meio”, perguntou assertivamente. Fiquei todo satisfeito, tinha o livro e sabia perfeitamente onde. O resto copio daqui, chamando a vossa atenção para o preço a que estava a obra há 3 anos:  o homem pegou no livro com cuidado, diria mesmo carinhosamente, sendo-lhe perfeitamente perceptível a comoção. Agarrou no objecto com as duas mãos, olhou-me nos olhos e explicou-se: «sou amigo de infância do Armandinho, disseram-me que ele fala de mim neste livro». Não sei se falava, se não, mas cheguei a contar esta história ao autor visado. Por razões que não aprofundarei, guardei para sempre o olhar daquela figura que se me apresentou em dia de estreia como um dos mais exemplares poderes desta inútil actividade que é escrever livros. E vendê-los, acrescento.

Os anos foram passando e, como disse, raramente vendi um livro  com o nome de Maria Velho da Costa na capa. Talvez um ou dois exemplares de “Myra” (2008), em saldo, apesar da boa exposição que sempre mereceu por se tratar de uma edição com um dos selos do grupo detentor da livraria onde trabalhei. Se as livrarias estivessem abertas como estavam quando Agustina faleceu, talvez agora a autora chegasse aos tops. Como estão, há sempre a desculpa de ficar para depois. De Agustina, já o disse, só vendi livros na semana que se seguiu à sua morte. Imagino que com Velho da Costa se passasse o mesmo agora, apesar das inúmeras notas de pesar e das citações replicadas, repetidas, copiadas, de usuário para usuário, sem qualquer referência à fonte bibliográfica.

Ruy Belo dizia que era uma desvantagem nascer em Portugal, também por isto, Almada acusava um país em que Camões morreu de fome para que todos possam encher a boca com Camões, e disto não nos livraremos. Unidos pelo presente e pelo futuro da cultura em Portugal, mas cagando (é este o termo) para editores, autores, outros pares de um mesmo universo que pode definhar sem que mal venha ao mundo. Temos sol e praia, precisamos de mais cultura para quê?

Por razões diferentes, que talvez venha a explicar, estes são os meus preferidos:





Fátima


Fadada foste ao gesto e à
palavra
o corpo tão daninho que te habita
mulher que não domaste e te desgosta
maina que te possui
plácida escondida

Escassa é a medida
em que te evitas
e nunca saciada ao próprio espanto
quebras
nela o risco
em ti o que persiste no metal luminoso
em que te encerras

Não é pois já em ti
que o sol tem o bronze
mas antes nela o som a prata trabalhada
a luz que lembra a forma e no poente
enterra até ao fundo a sua faca

Se tens domada a raiva
no seu gume
tão fêmea tu e firme na febre
debruçada
atenta és à pele onde suspendes
os dedos na pressa da voragem

Que abandonada estás
fátima por ti
e bem amada

Vingada vens do tempo
e a venceste
tão bem talhada ao peito
em que a criaste
no maneio de anca nas coxas que crispaste
a ladear a cama em que a perdeste

De sede Fátima devoras a firmeza
e tão fecunda ou dor
tornaste a tua fala
que és teu próprio alimento e teu sustento
na solidão imensa em que
resvalas

Que maina foste
mulher que te mantém
maldição de terra envenenada
intacta suspeita e boca amena
cintura branda
joelhos-madrugada

Se mágoa desmanchas fátima
em segredo
como quem borda o pano sobre as nádegas
a camisa descansas costurada
por mãos  que maina recusava
a só estar presa
O nojo conheceste e o mordeste
o trocaste em fruto de paisagem
na rua desenhada
que escolheste
para gerares futuro em tua casa

Que abandonada estás
fátima por ti
e bem amada

Faminta te darás
avessa te conheço
a deixares embora sem desgosto
que alguém te possua pelo corpo
se caça fores somente e de seu preço
teres de ceder à arma a linha do pescoço

Pecado de mudez que não
a tua
só maina na herança de outras vozes
nunca pactua

Malquerença que descobres
brevemente
talvez ferida fátima ou ferro fátuo
que de manso o verão te chega aos nervos
e nunca o mar obrigas sob os braços
nas tão breves arestas de alegria
que tu alheia usas sobre o fato

Fadada foste então
à luz
e às secas margens
aos lisos gestos tão fiéis a maina
que áridos parecem mas não fáceis

de ti te distancias
e a medida é justa
como se de roupa fátima te fosse executada
à água

Maligna pois te habita maina
ou tu te habitas fátima
em palavras

11/3/71


In “Novas Cartas Portuguesas”, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Editoria Futura, Maio de 1974, pp. 18-21.

UM POEMA DE SUSANA ARAÚJO


TERROR

O terror é isto que começa aqui
a multidão junta-se em vão nas
varandas cegas para o que está para vir

O homem deitado sobre a linha do eléctrico
há meses que deixou de tomar a medicação
sorri ausente, de braços estendidos sobre o alcatrão

Não há anestesia que disseque
estes membros sem nação
Europeus que ainda respiram

Tremer é espasmo involuntário
com pouco de imprevisto e
nada de arbitrário. Se Dezembro
dissipar todos traços do seu hálito
com um manto frio
o homem reconhecerá que
deste lado
não sobeja alívio nem na noite
(por isso continuará a sorrir)

As bombas que rebentam mil vezes na
televisão, invejam por cá a destruição
que cai, nevando serena e em silêncio.

Susana Araújo, in Dívida Soberana, Mariposa Azual, Novembro de 2012, p. 24.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

PERIFERIAS DA LUZ


Apesar de nos ter permitido saídas rápidas e higiénicas, como aprendi que pode ser um passeio ao ar livre, o período de confinamento remeteu-nos às paredes de casa, animais enjaulados num zoológico para protecção da espécie, cada um de nós feito exemplar raro de um mundo elevado a área protegida. A atmosfera respondeu positivamente ao nosso súbito desaparecimento, interrupção momentânea para cantorias à janela e partilhas on-line. Como já se vai vendo por aí, há, porém, todo um novo lixo a dar à costa que faz do “passeio higiénico” uma sátira bisonha dos comportamentos humanos. Somos altamente poluentes e virais, contaminamos tudo à nossa volta com um desleixo e uma incúria que transforma o mundo numa pocilga e os seres humanos em suínos de duas pernas que, por acaso, até facilmente aprendem a andar de bicicleta, ainda que prefiram veículos movidos a gasóleo. As remessas de máscaras cirúrgicas que vêm dando à costa são um cirúrgico exemplo da cloaca universal onde adoramos chafurdar. O coronavírus versão 2019 é só uma variante da peste suína. São assim os homens. Haverá alguma coisa a fazer? Quem está disposto a mudar? Entretanto, espreitámos o bairro pela janela, fomos à varanda, contámos o número de vezes que numa semana os do direito aspiraram a casa e deliciámo-nos com a diversidade de underwear nos estendais circunvizinhos. 
   Publicado em período pré-covid, “periferias da luz” (Eufeme, Outubro de 2019), de António Ferra (n. 1947), podia ser uma inusitada introdução à vida no bairro, até por nos fazer aperceber de quanto se perdeu de vida com o silêncio das ruas e as pessoas atiradas para dentro dos respectivos fogos como achas para uma fogueira de solidão, querelas domésticas, desespero, ansiedade e depressão. Estarei só a ver o lado mau da coisa, admito. Mas em que pensar, senão no lado mau, agora que em passeio pela orla marítima dou com o lixo cuspido no areal? Muito mais divertida do que estas minhas queixas é a dúzia de poemas longos no livro de António Ferra, poemas narrativos, como é usual dizer-se daqueles que nos contam estórias sem estarem preocupados com a maquilhagem das personagens. Poemas quotidianos, talvez, por captarem o dia-a-dia sem indagações metafísicas nem artifícios nostálgicos, sem saudade do que era e não volta a ser nem inquietações com o que ainda não é. A filosofia destes poemas é um presente em trânsito.
   O longo poema inicial vale por si só uma visita ao bairro periférico da luz. Nele encontramos um vendedor door-to-door (em inglês fica mais moderno) de software, de regresso a casa, às voltas e voltas na esperança de arranjar estacionamento para o carro. Um redemoinho de pensamentos vêm-lhe à tona enquanto circula em marcha lenta e as horas passam. Ele que tem a vida engatada em terceira, não gosta de perder tempo com conjecturas e apenas sonha «com uma garagem de penas / para estacionar a alma» (p. 9), vê as horas passarem enquanto anda Às voltas à procura de lugar para estacionar o carro. “Estacionamento” é um daqueles poemas cuja simplicidade da linguagem não descura em nada a complexidade do que se subentende numa estrutura repetitiva, como em certa música dita minimalista ou em algumas peças de Beckett que exploram o inútil da existência fazendo-nos pensar que o mais exacto dos epitáfios seria: a vida é uma perda de tempo. O sujeito poético do poema contratou consigo mesmo não pensar no futuro, ainda que esteja farto de andar à volta de si mesmo. Tal como o carro que anda às voltas do bairro, ele anda à volta de si mesmo, olha para os muros do autoconfinamento (chamemos-lhes assim) e diz: «A noite ainda é longa, vou acelerar, / agora já estou mesmo sem paciência, / talvez pelo mal-estar causado pela velocidade destes pensamentos / sem poderem estacionar num canto recôndito da alma. // Mais à frente, na zona de prédios altos, de uma dúzia de / andares por bloco, reparo que não há varandas. / É um incómodo tão grande a ausência de / flores, mesmo aquelas em que não reparamos, porque são / politicamente irrelevantes. / Pensando bem, é impossível encontrar lugar para / estacionar os automóveis de tantas habitações / a que chamavam fogos mesmo que não ardam. / Mas aquelas fachadas lisas, só com janelas planas, são / a angústia de não ter espaço para existir e apenas sonhar / com rosas de jardim. / Não há zonas de varandas com sardinheiras pendentes / para aliviar o peso dos dias pagos a crédito» (p 19). 
   Se em cada um dos poemas que compõem este livro podemos ver um monólogo, não seria má ideia que alguém neles pegasse um dia para em palco dar vida às personagens que neles foram fixadas. Este vendedor de software e a alternadeira do poema “As Pernas da Vanessa” são dois quadros imprescindíveis de uma fauna que passa despercebida pela vida mas não escapa ao olhar atento de certos poetas. António Ferra é um deles. Falhados, meliantes, rufias, gente comum, são o magma desta poesia das noites suburbanas, microcosmo de uma humanidade periférica como a luz que ilumina o poema.

MORY KANTÉ (1950-2020)




Natural de Kissidougou, na Guiné, Mory Kanté tornou-se uma celebridade internacional com o tema “Yé Ké Yé Ké” do álbum “Akwaba Beach” (1987). Era um exímio tocador de corá. Faleceu em Conacri, capital da República da Guiné.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

SEMIÓTICA DO ENGATE


Havia a situação do indivíduo que saía para beber uns copos à noite e acabava na cama com um travesti. A semiótica do engate exige agora outra sofisticação. Por detrás de uma máscara muita coisa pode ser escondida. À pergunta “o que mais aprecias numa mulher ou num homem”, temo o desaparecimento das tradicionais respostas olhos, mãos, pernas, cu, mamas. As pessoas estão a redescobrir a relevância do nariz e da boca, isto é positivo. O lado negativo é a drástica redução percentual de probabilidades na sedução de mercearia ou supermercado. Quem tiver visto “Lua de Mel, Lua de Fel”, de Roman Polanski, sabe do que estou a falar. Quem não tiver visto, veja. Mais que não seja pela Emmanuelle Seigner, que é daquelas a quem, à época, com máscara ou sem máscara tudo ficava bem. Nem tudo irá ficar bem, já sabemos. Uma das coisas que não ficará nada bem é este novo exercício de adivinhar a linguagem do olhar. Estará a sorrir? Estará zangada? Estará triste? E com os vesgos, como será? Tento aquietar o espírito convencendo-me de que quem vê caras não vê coração, isto é, quem não vê caras também não vê corações. Portanto, o meu foco irá todo para aquela parte do peito onde Deus Nosso Senhor incrustou a bomba de sangue que nos anima. Espero não me distrair com os decotes.