Quando as relações humanas são maioritariamente definidas por conveniências de circunstância, num cartar e descartar à medida de interesses e de ambições pessoais, ninguém está verdadeiramente legitimado a criticar governantes que actuem da mesma maneira. A vaidade que corrói a maioria dos homens, calcando o mínimo de discernimento oferecido pela humildade, comanda opções estratégicas despudoradamente, como se vê na distribuição de cargos um pouco por todo o lado. Nada disto deve afectar-nos particularmente, sobretudo se não tivermos sido assaltados pelas ânsias do sucesso. “Murphy”, o primeiro romance de Beckett, foi várias vezes rejeitado, acabando por conhecer uma primeira edição de 1500 exemplares na sua maioria destruídos por bombardeamentos durante a guerra. Era o que se dizia à época, para não ter de se reconhecer que entre 1938 e 1942 foi vendida metade da primeira edição. 782 cópias desapareceram misteriosamente. Da edição francesa fizeram-se 3000 cópias, de que se venderam apenas 95 exemplares. Outra história maravilhosa é a da primeira edição de “Uma semana nos Rios Concord e Merrimack”, de Henry David Thoreau. Fizeram-se mil cópias de que se venderam 200 em quatro anos. As sobras terão sido oferecidas ao autor, que dizia ter ficado com uma das maiores bibliotecas do país. Composta, na sua maioria, por um único livro. O dele. Vem isto a propósito de relações humanas, que são como os livros: as melhores resistem ao fracasso e é com ele que se revigoram.
antologia do esquecimento
segunda-feira, 27 de abril de 2026
RALAÇÕES HUMANAS
Quando as relações humanas são maioritariamente definidas por conveniências de circunstância, num cartar e descartar à medida de interesses e de ambições pessoais, ninguém está verdadeiramente legitimado a criticar governantes que actuem da mesma maneira. A vaidade que corrói a maioria dos homens, calcando o mínimo de discernimento oferecido pela humildade, comanda opções estratégicas despudoradamente, como se vê na distribuição de cargos um pouco por todo o lado. Nada disto deve afectar-nos particularmente, sobretudo se não tivermos sido assaltados pelas ânsias do sucesso. “Murphy”, o primeiro romance de Beckett, foi várias vezes rejeitado, acabando por conhecer uma primeira edição de 1500 exemplares na sua maioria destruídos por bombardeamentos durante a guerra. Era o que se dizia à época, para não ter de se reconhecer que entre 1938 e 1942 foi vendida metade da primeira edição. 782 cópias desapareceram misteriosamente. Da edição francesa fizeram-se 3000 cópias, de que se venderam apenas 95 exemplares. Outra história maravilhosa é a da primeira edição de “Uma semana nos Rios Concord e Merrimack”, de Henry David Thoreau. Fizeram-se mil cópias de que se venderam 200 em quatro anos. As sobras terão sido oferecidas ao autor, que dizia ter ficado com uma das maiores bibliotecas do país. Composta, na sua maioria, por um único livro. O dele. Vem isto a propósito de relações humanas, que são como os livros: as melhores resistem ao fracasso e é com ele que se revigoram.
domingo, 26 de abril de 2026
DOS AFUNDANÇOS SENSUAIS
Não deixa de ser impressionante a agilidade, a eficácia, a ligeireza, elegância e coordenação motora, aquele pragmatismo que só pode vir da prática, enfim o desembaraço de Melania Trump a ajoelhar-se debaixo da mesa.
sábado, 25 de abril de 2026
VESTIDOS
Quitéria comenta os vestidos. O da Carla: com um vestido preto nunca me comprometo. O da Margarida: de vermelho e de cravo, mando às favas o pato-bravo.
sexta-feira, 24 de abril de 2026
APOSTAS
quinta-feira, 23 de abril de 2026
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS # 40
quarta-feira, 22 de abril de 2026
SE, ENTÃO
terça-feira, 21 de abril de 2026
ESTAR ON
Em “Fahrenheit 451” os bombeiros ateiam fogos em vez de os combaterem, cães-polícia de metal patrulham as ruas, a felicidade é obrigatória, há pílulas e comprimidos para todos os gostos, os espectadores representam papéis em falta nas peças servidas à la carte e nos cafés as jukeboxes foram substituídas por joke-boxes. Não andamos longe desta alegria obrigatória, a despeito de horas intermináveis de trágica realidade. O Instagram, a mais bem-disposta de todas as redes sociais, não nos oferece senão esse mundo satisfeito dos abraços, das flores, da boa gastronomia, da cor, do amor, mesmo que depois as mesmas pessoas que são todas sorrisos no Instagram vão para o X despejar o ódio que as consome e passem pelo Facebook para partilhar um pensamento profundo e paradoxal do tipo “perco-me de me encontrar” ou “o mundo é uma folha sem avesso” ou “como é negra a luz que ilumina a noite clara”, etc. Para além disto, de facto e de jure, a realidade é um comboio de frases feitas, cumprimentos furtivos, uma sucessão de concessões para, enfim, evitar chatices, sim senhor, porque cá vamos indo com a cabeça entre as orelhas e eu já não estou para me chatear. Quem vier atrás, que fecha a porta. Estou ligado.
segunda-feira, 20 de abril de 2026
A/C DOS JORNALISTAS PORTUGUESES
domingo, 19 de abril de 2026
25 DE ABRIL SEMPRE
Ao longo de dezassete capítulos compostos por vários textos com vozes narrativas diversas, percorrem-se três gerações que vão da luta na clandestinidade até às comemorações do cinquentenário da chamada Revolução dos Cravos. Cada texto é a peça de um puzzle labiríntico que captura o leitor pela desmontagem das lógicas de pensamento mais convencionais, estabelecendo-se ligações inesperadas e entrelaçando percursos, porque tudo se liga através de uma História comum, a despeito das mais paradoxais leituras que essa História inspire. «O fim da História, se assim quiseres, acontecerá no preciso momento em que a roupa se tornar supérflua, essa pretensão que pomos sobre o quê para sermos quem», escreve-se a páginas 233. E o leitor continua até à página 490 fisgando os dentes às pontas soltas para «desnovelar, desnovelar...»
sábado, 18 de abril de 2026
SOBRETRAIR
Equação do intriguista: Dividir para reinar. Multiplicar problemas. Somar amarguras. Subtrair, isto é, sobretrair.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
MURMÚRIO CICIANTE
quinta-feira, 16 de abril de 2026
CRISTINAS
quarta-feira, 15 de abril de 2026
INSEMINADOR
De palito na boca, atravessa a cena a ranger os dentes na direcção dos bastidores. Tivesse sido eu a criar o mundo, palestrou, onde está um círculo estaria um triângulo, onde está um quadrado estaria um rectângulo, onde está um hexágono estaria um paralelograma. E assim sucessivamente. Atentos como discípulos a ouvir mestres, secretários a concordar com ministros, acólitos persignados em bicha para o beija-mão, todos os vigilantes emprenhavam pelos ouvidos as teses e as teorias do palitado palestrante. Depois, seguiam eles mesmos pelos corredores a cochichar por cima dos ombros, não fossem as paredes ouvir comentários inconvenientes, recolhendo-se a cozinhar esquemas e estratégias para disseminarem a palavra do inseminador de tímpanos.
terça-feira, 14 de abril de 2026
ERÍSTICA
Há mais de dois mil anos, um senhor chamado Aristóteles dedicou alguma atenção aos paralogismos, ou seja, argumentos que parecem sê-lo, por oposição aos silogismos. Pretendia ele refutar os sofistas que negociavam uma sabedoria aparente preferindo parecer sábios a sê-lo de facto. Enumerou argumentos, dividindo-os segundo a espécie, desmontou os propósitos de quem polemiza, denunciou falácias, "erros que acompanham a opinião fundada na percepção", enfim, as tretas dos sofistas. Assim mesmo, tretas. Isto foi antes de a sociedade do espectáculo impor as suas regras, as quais já nada têm que ver com a busca da verdade. Parte integrante desta tragédia deprimente, os polígrafos procuram desmentir fake news partindo de uma perspectiva equívoca sobre a realidade: a de que os factos resultam de um jogo com regras claras. Ontem, um homem quis fazer de polígrafo e acabou a fazer a figura triste que sempre fazem os velhos que teimam em não aceitar as novas regras do jogo. O jovem sofista, exímio na exibição de uma sabedoria aparente, lucrou. A razão é óbvia, não lhe interessa minimamente a verdade. Só tem em vista a vitória, seja lá por que meios for. Assim temos, mais uma vez, o espectáculo garantido num canal televisivo cujos investidores esfregam hoje as mãos de contentamento e brindam com Moët & Chandon.

