quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SIGUR RÓS NO CAMPO PEQUENO

 

Acontece por vezes pressentir uma muralha no olhar, um filtro, não, uma bolha, não, uma raiva escondida, talvez, inveja, será, um olhar que nos trava, empurra, afasta. Acontece por vezes alguém olhar-nos assim com pedras nos olhos, acontece por vezes alguém parecer-nos inflamado, prestes a explodir, gestos como martelos, acontece. E também acontece quem trema, não de medo, não de frio, mas de paralisia, quem trema de nervos contidos, a ansiedade que toma conta do corpo e se manifesta à superfície das mãos, das faces.  E acontece o cansaço tomar conta de nós como uma corrente no pescoço de um cão, acontece aquela saturação escavadora de abismos, o pensamento sem rumo nem organização, as palavras retidas numa fadiga impaciente. Nada nos acalma, nada pacifica. Acontece muito. Mais raro é no meio do turbilhão a paz emergir e a pele dar de si com arrepios que insuflam o cérebro e te fazem retomar um certo equilíbrio, uma certa esperança, uma certa vontade de permanecer. Acontece muito pensar na morte como alívio, o termo de todas as dores e frustrações, o teu ansiado silêncio, mais raro é acontecer pensar na vida enquanto possibilidade de silêncio recortado por melodias apaziguadoras, regeneradoras. Estamos sempre a renascer da morte em que vivemos. Não sei se mais fortes, se igualmente débeis, pois os olhos murados de pedra inacessível permanecem ameaçadores. Diz-se que o distanciamento é a melhor cura contra a toxicidade, mas o distanciamento pode impelir-nos para uma solidão irreversível. Acontece por vezes ser a proximidade o melhor remédio contra o cansaço de si mesmo. Então, levados pelas ondas de luz e de som, emalados pelo coro e pelas orquestras, mesmo que não nos sintamos rejuvenescidos temos, pelo menos, mais uma razão para dizer: ainda vale a pena respirar.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

UM POEMA DE ALVARO GARCÍA DE ZÚÑIGA

 


questionário-cantilena
questionário para um inquirido

 
Posso colocar-lhe uma questão?
Se eu colocar uma questão, onde a coloco?
Onde estava a questão antes de ser colocada?
Podemos responder a uma questão com outra questão?
Porque podemos responder a uma questão com outra questão?
Será uma resposta?
Ou porventura uma questão-resposta?
Uma pessoa que responda com uma questão é um respondedor?
Ou um questionador?
Pode-se levantar uma questão?
Até onde se pode levantar uma questão?
Pode-se levantar uma questão já colocada?
Porquê colocar uma questão se podemos continuar a levantá-la?
Pode-se colocar uma resposta?
Ou levantar uma questão colocada?
Podemos levantar respostas?
Pode-se levantar uma questão acima da resposta?
Uma questão-resposta é uma questão?
Uma questão-resposta é uma resposta?
Uma boa questão é uma questão que não faz mal à resposta?
Uma boa resposta é uma resposta que não faz mal à questão?
Uma boa questão é colocada num lugar diferente de uma questão vulgar?
Uma questão por colocar, terá ela respostas?
Onde estão as respostas das questões por colocar?
Uma questão por colocar, será ela uma questão?
As respostas das questões por colocar, repousam?
Uma questão põe-se e uma resposta repousa-se?
Se eu carregar uma questão e a colocar, será possível inverter colocação e carregação?
E a questão?
Podemos responder a uma questão invertida?
Uma questão invertida é uma resposta?
Responda.
 
Alvaro García de Zúñiga, in “Peaux et Scies", BlablaLab, Novembro de 2017, pp. 81-82. Original em francês. Versão portuguessível de HMBF.

domingo, 13 de setembro de 2026

UM POEMA DE KAVÁFIS

 



SACERDOTE DE SERÁPIS
 
Meu bom e velho pai,
que com o mesmo afecto sempre me amou:
meu bom e velho pai eu choro,
que morreu anteontem, pouco antes da madrugada.
 
Jesus Cristo, que eu guarde sempre
os preceitos da tua santíssima Igreja
em cada acto, em cada palavra,
em cada pensamento – eis o meu zelo
quotidiano. E a quem vos nega,
abomino. – Mas agora choro:
deploro, Cristo, a morte de meu pai
embora ele tenha sido – terrível é dizê-lo –
sacerdote do execrável Serápis.
 
[1926]
 
K. P. Kaváfis, in Aquele Belo Rapaz – poesia completa, tradução de José Luís Costa, posfácio de Tatiana Faia, Assírio & Alvim, Novembro de 2025, p. 141. Nota de José Luís Costa na p. 443 da mesma obra: «O culto de Serápis, promovido pelos monarcas ptolomaicos no Egipto desde 300 a.C., é um caso evidente de hibridismo, uma amálgama entre deuses egípcios (Ápis e Osíris) e gregos (Zeus, Hades, Asclépio, Dioniso, Hélio), numa tentativa de unidade cultural. O seu templo, o Serapeum (no original), era uma das maravilhas da cidade de Alexandria.» A fotografia foi tirada ontem no Santuário de Panóias, onde, dizem os entendidos, prestar-se-ia culto a Serápis.

sábado, 12 de setembro de 2026

CADÁVER ESQUISITO

 
Era uma vez um médico que era como um íman
tão grave como cogumelos com textura de amendoins
TORRADOS, ACABADOS DE COMER, E O VINHO ENTORNADO
pelo palco, libertando o perfume da poesia
e então, olha, ainda bem que não vieste. De qualquer forma, não teria espaço para ti. A tua presença é como um tipo
de coca-cola, casa de banho ou pano muito malcheiroso!
Ó sapo dum cabrão, lava-te, cheiras a cão.
Rããããã hmmmmmmmmmm
Cããããã, TAN, TAN, PUM, PUM
Poing, fez a bola quando bateu na rede, o público gritou e então o touro
entrou e saiu. foi curto desta vez para variar
como num teatro de variedades
daqueles filhos da mãe que gritavam pelo pai e diziam vai, vai, é um sapo na piscina seca
Na água
 
Cadáver esquisito por Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Barros, José Carlos Faria, Nuno Machado e Rebeca Vendrell, a 11 de Setembro de 2026, no Bar Portinha, em Vila Real.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A FINGER FOR A NOSE

 


- Sabes por que é que o nariz está no meio da cara?
Para que os olhos fiquem um de cada lado do nariz; quando um homem não pode cheirar uma coisa, pode vê-la.

In A Finger for a Nose, Entertainment Co., Oeiras 2000, p. 32.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ECOS

Também o som tem o seu tempo. Da boca que fala ao ouvido que escuta, o som demora-se e faz-se palavra, navega nas ondas do espaço como uma nave invisível cuja tripulação é feita de signos. É um sinal que ondoleia, o som. Demora-se, estende-se, segue em espiral abrindo buracos no tempo. O tempo do som ocupa o seu espaço, o espaço do som demora-se no tempo. (em casa do Francisco, a ouvir ecos)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

50 x 45

 


Lembro-me do Wim Mertens Ensemble em Setembro de 1996, Grande Auditório do CCB, de como me impressionou a interpretação de “No Testament”, do álbum “Motives for Writing” (1989). Não estive no concerto do São Luiz que originou o álbum “Epic That Neves Was” (1994), CD que ouvi incontáveis vezes. Tento recordar-me do caminho que me levou à música do compositor belga, mas não consigo. Talvez uma referência num jornal ou numa revista tenham atraído a minha atenção, talvez sugestão de um amigo (quem?), talvez através da rádio que me acompanhava nas noites mais solitárias dos anos 90. O primeiro CD adquirido foi “Educes Me” (1986), já no final da década que deu à luz o álbum de estreia: “For Amusement Only”. A obra é vasta e, ainda que frequentemente associada ao minimalismo, atravessa géneros diversos sem qualquer cristalização.  Uma das marcas características é a voz do próprio Mertens, usada como instrumento emissor de sons irredutíveis a um qualquer significado ou sentido semântico. É como se as palavras se libertassem do sentido que as espartilha e se tornassem apenas sons, pinceladas sonoras num espaço que a imaginação se encarrega de percepcionar sob a forma das mais diversas paisagens. Neste aspecto, aproxima-se do jazz, de algumas técnicas vocais do jazz, ainda que com propósitos não tão improvisáveis. São sons que parecem palavras convencionais, cantadas como tal, mas oferecendo-nos uma língua nova, deslumbrantemente misteriosa.

domingo, 30 de agosto de 2026

RENOMEAÇÃO

 
Quitéria propõe a renomeação da pátria. Em vez de Portugal, talvez Porfestivugal, o Portugal das festas e dos festivais.

sábado, 29 de agosto de 2026

JAVALIS

 
Estou apaixonado pelos javalis que atacam pessoas nas praias, pessoas que ficam de telemóvel na mão a gravar os javalis que as atacam. Belos bichos, os javalis.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

CICLOS

 
Agora que os campos secam
com sementes de pó lavradas
venham os ventos
tragam as águas
para que da morte vida nova renasça
e em descanso possa o fruto apodrecer
na boca faminta dos mortos

Amenotepe IV, Egito, 1334 a.C.. Versão de Epifânio Carmino.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

AUTO DA PERSIGNAÇÃO

 

Um homem sem braços entra na Capela de Nossa Senhora dos Prazeres. A seu lado, uma auxiliar vai dizendo os apartes justificados à direita. Diante do altar, ajoelha-se o homem e persigna-se com a ponta do nariz, invocando a Santíssima Trindade:
 
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
aqui estamos, Senhor, por tua obra e desgraça
Graça.
Melhor fora que não estivéssemos
pois no estado em que nos encontramos
nem para dar descanso à comichão servimos
 
A auxiliar prepara o sermão, à laia de vira-páginas.
 
Já os antigos lamentavam:
Zeus pai, nenhum deus é mais destrutivo que tu.
Não sentes compaixão dos homens, apesar de os teres criado:
envolves-nos na miséria e nos sofrimentos dolorosos.
Palavras de Filécio, Condutor de Homens.
Vede bem, ó pai omnisciente, a miséria
em que ficámos por culpa de ignotos pecados
Que mal fizemos? Em que te traímos?
Não foi em teu nome que matámos, saqueámos, despojámos, violámos?
Não foi por ti, ó Criador, que tanto destruímos?
Criador de todas as coisas
justiça com as próprias mãos já não farei
Consente nesta hora que com a língua a faça
Dizei, por Deus.
 
Ah, pobre de mim, se dos meus braços uma mulher tivesses moldado
como da costela em sono retirada Eva geraste
Génesis, 2,22.
Agora nem mulher nem mãos, nada me resta,
a ânsias insaciáveis vejo-me condenado
Viril ‘inda me sinto quando de pé permaneço
mas a dor fantasma persiste
onde antes havia dedos em que pôr anéis
mãos com que embalar o berço
e braços com força de bois
Por quem sois.
persiste a dor e tudo em mim esmorece
nada se anima, tudo distrai, tudo desfalece
 
Ensinam os evangelhos:
Assim como na mão há dez dedos
também dez são as espécies de disciplina
Santo António de Lisboa.
Deverei contá-las por estes cotos?
Morto de vontade aqui estou
exercitando os restos do meu corpo
vilmente vestido em tua honra
Tende tu compaixão pelas minhas necessidades
derramando lágrimas de piedade
Ó Deus que te calas e nos queres calados
orando pela noite dentro
com leituras discretas
não vês quanto me desprezo
quando a ti me dirijo sem saber para quem falo?
 
Por onde andas quando em suplicas me desfaço
implorando clemência por males não cometidos?
Logo eu, tão devoto e esforçado,
amigo até das moscas, filho cumpridor e amante fiel
Porque me privaste dos membros
com que Aarão te apresentou os levitas
na terra onde corre leite e mel
Números, 8,10 e 13,17.
 
Com as mãos o teu filho curou o empregado dum oficial romano
Com as mãos curou muitos doentes, um homem com lepra
homens com espíritos maus e paralíticos
Até da morte escura ressuscitou meninas e homens
Só para mim parece não haver cura
amputado dos membros
com o nariz me persigne
até chegar a hora de descer à sepultura
 
Senhor, aqui me tens diante de ti
em verdade confessando
que das dez disciplinas uma não cumpri:
Segundo o que sinto, vós, Senhor, quereis
que queira sofrer, e meu mal não quer
Gil Vicente, Pater noster.
De vinho e de pão não me absterei
por isso trago por companhia esta velha mulher
que de comida e de bebida me sacia
compensando de outros apetites a azia
Milhor é exp’rimentá-o que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exp’rimentá-lo.
Camões, Canto IX (persignando-se.)
 
Louvor ao Pai que tudo quer
pois a quem se confessa Ele perdoa
não restando polegares em qualquer mão
com o nariz me persigno
o gesto não importa, conta a intenção

(A cantar.)
Seja dada glória, honra e reverência,
Seja dado louvor e bênção ao Princípio sem Fim
Amém

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ÁGUAS PARADAS

 Quem nos trouxe aqui? Dos gregos sobram ruínas sob um manto negro de poluição, dos romanos conservamos a numeração em relógios cada vez mais ilegíveis, de Bizâncio pouco sabemos e do califadio herdámos o prefixo para altruísmo. Depois, reverentes ao Sacro Império Católico Apostólico Romano, matámos mouros, expulsámos judeus, queimámos bruxas, exportámos escravos capturados em África e explorámos quase até à extinção absoluta povos indígenas nas Américas. Trouxe-nos aqui o desejo de sermos alguém, a ambição desmedida, o orgulho e a necessidade, acabámos nesta redundância insignificante. De um ladro, "microtalibãs" conservadores adeptos do liberalismo económico e da família tradicional, do outro progressistas aburguesados e liberais nos costumes que são a antítese de qualquer ímpeto revolucionário. Uns contra outros de arrastão na rede, vão sendo comidos pela indústria centralizada dos poderes instalados, com seus tentáculos em governos de marionetas. Fazer o quê num ambiente destes? Esperar que Caronte não tenha descanso.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

E ASSIM SUCESSIVAMENTE

A palavra palra, palra com a larva. A larva lavra, lavra a palavra. A palavra palra com a larva que lavra a palavra. A pala pára a larva, a lavra lava a pala e abre alas e abre asas e voa e ova e na sala oval a lavra  lava as asas  à palavra que voa. Então desova, quadra e desquadra, triangula na pala lavada  da larva que lavra a palavra alada. Não é à toa que a palavra voa, não é à tona que povoa a larva enquanto lavra a palavra. É boa a palavra que soa enquanto a larva boa sua. Enquanto lavra, enquanto ladra, sou a palavra larva que soa a lavra. 3nquanto a lavra alada ladra, a palavra passa e sua. Etc.