domingo, 17 de maio de 2026

O PAÍS

 
O país vai ao beija-mão
e lava os dentes
 
O país lambe-botas on the ground
 
O país beija-cus
a cantar de galo
 
O país de joelhos nas lajes
epitáfio de si mesmo
companheiro de Deus
domesticador de bois
 
O país escrito a giz
no monte negro da História:
país de poetas
país de cobardes
país de brados
país de quebrados
 
O país de broche na lapela
com boca de leite
diz que sim
diz mais
mais hollycaustos
mais ginecídios
 
O país não fala nem escreve
em português
 
País de tanga a dançar o vira
país da tanga
a pedal na gira
em direcção ao céu que é de todos
sob terras de ninguém
 
Este país sem rei nem roque
aos pulos nas festas
nas feiras
nos festivais
carrega andores de plástico
na procissão de Maio
busca de perdão sem graça
quanto sobra
a quem come e cala e consente
 
Quinquagésima primeira estrela branca
no cantão azul-marinho
da ocidental praia lusitana
 
Este país
Esta lama

sábado, 16 de maio de 2026

PERFORMANCE

 
No meio da aldeia, ali aterrado como um OVNI, uma casa de família transformada num espaço. No jardim, jaulas com porquinhos-da-índia e um furão albino. Também rolas, patos, cães. Em construção, um projecto, dir-me-ão antes da recepção com bandeira vermelha. As histórias hiper-realistas remetem para relações virtuais, três corpos em cena dialogam com outro em videochamada. Há um operador, computadores, telemóveis, microfones, histeria. Serve-se um copo de vinho enquanto se contam histórias de encontros através de aplicações, relações frustradas por expectativas goradas fluindo para um final trágico, noticioso, de suicídios, frustrações, diagnósticos desfavoráveis e poesia com borboletas. Em pontas, uma das performers roda como uma boneca de corda. Dizem que é tudo mentira, mas, ao que parece, era tudo verdade, o que nos deixa na dúvida: porque acham as pessoas interessantes as suas próprias vidas, a ponto de as querem expor daquela maneira? Talvez seja uma forma de transportar para a cena o exibicionismo em rede. Talvez. Faltou-me ali um furão albino à solta. Estava numa gaiola.

DE UM POEMA DE MARIA LIS

 


(...)

Como seria se ali
no alto de um comboio
ateássemos toda a papelada
            acabássemos de vez
            com a infindável burocracia de existir
ficássemos a ver as chamas altas as cinzas
cobrirem o céu de baixo para cima.

Mas nada ardeu.

Os homens passaram a pente fino
as mochilas enquanto por sua vez
os encarregados lhes passaram um envelope gordo
assim em catadupa por todos os vagões.

E de novo a trepidação das engrenagens
seguiu o rumo igual
em frente ou em círculo.

(...)

Maria Lis, in Enclave, com fotografias de Ana Filipa Correia, segunda edição, Língua Morta, Setembro de 2025, p. 78.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

JOÃO ABEL MANTA (1928-2026)

 


ELOGIO DO ELITISMO

 
Começou com o Big Brother. Já lá vão 26 anos e nunca mais nos largou, fosse na versão convencional ou na versão famosos, que é como quem diz estrelas decadentes. Dez anos depois apareceu a Casa dos Segredos, mas pelo meio houve a Quinta das Celebridades, Ilha da Tentação, Perdidos na Tribo, O Amor Acontece, Dilema, Like Me, A Grande Aventura... Para fazer face a isto, o canal Balsemão importou coisas como Acorrentados, Masterplan, O Bar da TV, Peso Pesado, Casados à Primeira Vista, Quem quer namorar com o agricultor?, Hell’s Kitchen, etc.. Diz que são produtos muito vistos, geradores de dinheiro a rodos, dão pau, como ontem dizia a jovem na oficina. O povo vê, o povo adora, o povo que enche salas, o povo, o povo, o povo. E se o povo sim, pois claro que então. Vai uma pessoa opor-se à vontade da maioria? Nem pensar. É o sucesso, é a fama, e o sucesso manda. O Dr. Ventura que o diga, inda há dias no seu bacanal em directo na CNN. Aquilo parecia a versão gang bang do politiquismo. Todo este lixo, apesar de ser lixo, não demove consciências. Rendidas à audiência, ao lucro, ao sucesso, chamam-lhe pragmatismo ou outra coisa qualquer do tipo ecletismo, generalismo, tudismo. Agradar a gregos e a troianos, contra o elitismo que resiste, teima, recusa focinhar no lixo. Elitistas é o que chamam a quem se opõe a estas coisas, como se estivessem a chamar um nome feio, como se ser elitista fosse um insulto. Etimologicamente, vem de escolha, selecção. No latim, eligere era separar o trigo do joio, escolher o melhor. Isto hoje é defeito. Cada qual sabe de si e Deus sabe de todos. Não é assim? Pois claro que é. Como também não deixam de ser as consequências da cedência, a ausência de filtros, a incapacidade para seleccionar o melhor, a fraqueza que impede a recusa, a debilidade que obstaculiza o não. Não vou por aí. E é que não vou mesmo, porque cada vez mais se impõe como uma necessidade absoluta ser intransigente com a porcaria. Portanto, não há audiência que nos convença, não há números que nos seduzam, não há maiorias que nos persuadam. A retórica da adesão popular é só mais um pretexto para quem não quer comprometer-se com mínimos de exigência, preferindo surfar as ondas gigantes do big show chewing gum. As consequências do laxismo já estão à vista, só não vê quem não quer porque não lhe convém. Será sempre muito mais confortável ir na onda do que remar contra a maré. Ser selectivo não é defeito, não pode ser defeito, é método. Em benefício do melhor, contra o culto da mediocridade que faz do mais estúpido o mais popular. Vejam-se esses criadores de conteúdos, os líderes das redes sociais que andam para aí, os influencers milhões, numeiros e afins. Tudo produto da ausência de elitismo, isto é, da necessidade absoluta de seleccionar.

FOGO DE ARTIFÍCIO

 
Entre os investimentos estruturais que nunca carecem de fundos neste país à beira-mar plantado temos o fogo de artifício. Pode não haver dinheiro para ajudar quem precisa, para fazer face às intempéries, para a cultura, para melhorar escolas, pagar a cantoneiros, etc., mas que nunca nos falte o fogo de artifício. Seja no Ano Novo ou no ano velho, queimem-se os euros na pólvora que nos ilumina e no ruído que nos ensurdece.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

DIA DA CIDADE

 
Amanhã é dia da cidade. Por certo haverá fogo-de-artifício, para alegria dos homens e desespero dos animais, assim como música pimba, para alegria dos animais e desespero dos homens.

RAZÕES QUE A RAZÃO DESCONHECE

 
Ouvido no café Estrelinha:
"Um dia destes mato-me, e depois veremos quem é que tinha razão. "

quarta-feira, 13 de maio de 2026

PESSOBOTS

 
A noite passada sonhei que tive uma eurovisão. Numa azinheira plantada na Quinta da Atalaia, apareceu-me Nossa Senhora. Só que tinha a cara da Zita Seabra. A princípio senti a coisa como um pesadelo, isto é, na agitação sonolenta o sonho revolucionário formou-se-me sob essa forma aflitiva, mas logo a seguir veio a pacificação: Nossa Senhora comia um corneto de framboesas colhidas nas estufas da Costa Vicentina por imigrantes nepaleses vergastados por gêèneérres ao serviço de patrões de bem. Portanto, era um sonho. Bichas intermináveis de peregrinos atravessavam a pé as pontes Salazar que Abril abriu e a vau o Tejo que Ormuz fechou, neste caso apoiados em andas gigantescas made in China. O mais estranho é que todos os peregrinos vinham da Soeiro Pereira Gomes, eram uma espécie de exército de robots como aqueles nos filmes de ficção científica, uniformizados com coletes reflectores que encandeavam veículos em trânsito. Estávamos no século XXIV, Zita era Nossa Senhora, e a ela obravam os peregrinos. Também oravam, em toada cante alentejano, mas com temperos de Cantão, dizendo coisas do tipo: Avé Zita que estais na Atalaia, santificada seja a vossa alfaia, etc. Já não havia jornais nem televisões, mas cada pessoa - passara a dizer-se pessobot - recebia instantâneos noticiosos através de um sistema de conexão WiFi dos cérebros individuais com o PC central. Não se falava de outra coisa senão das aparições de Santa Zita na Quinta da Atalaia, cujo nome, muito provavelmente, passaria a ser, a breve trecho, Quinta da Azinheira. Acordei com Nala, a cadela, a lamber-me a ponta do nariz e quase posso garantir que a ouvi dizer-me: calma dono, calma, leva-me à rua que isso passa.

PERDI UMA PALAVRA

 
"Perdi uma palavra", disse a jovem no decorrer de uma oficina de escrita. E daquela frase tão espontânea algo começou a formar-se enquanto ela procurava a palavra fugida sob as folhas, no chão, entre as pernas, no vasto e interminável tampo da mesa. A palavra em fuga era, imagine-se, a palavra "revolução".

terça-feira, 12 de maio de 2026

POEMA BREVE

 
Numa noite de amor
entre mundo e carne
 
concebida foi a palavra
que na alma germinou
 
para na boca rebentar
como um pássaro
 
a quebrar por dentro
o ovo anterior ao voo

segunda-feira, 11 de maio de 2026

COMIDOS PELA FAST-FOOD

 
No tempo de Camões também havia Chagas Freitas. Porque falamos de Camões e não falamos dos Chagas Freitas do tempo de Camões? Porque Camões não andou aos pulos, não é pastilha elástica, nada de mastigar e deitar fora, é coisa que perdura no tempo, faz pensar quem pensa, não se fica pelo entretenimento, pelo espectáculo, essa coisa que para gáudio de deslumbrados é geradora de multidões. Não se queixem do povo quando passam a vida a dar-lhe fogos-de-artifício, não se queixem do país quando pagam chic-nics, isentam de impostos rocks in rios e levam tonys a São Bento. Nivelando por baixo, não se admirem, pois claro, da baixaria, da mediocridade, do populismo estéril. Se é isso que patrocinam, pois que isso vos seja devolvido. Que ninguém passe incólume por preferir fast-food, morram todos obesos com os corações a explodir confettis de alegria. Agora não me fodam é o juízo quando o cancro vos aparecer nas análises, foram vocês que deram de comer ao cancro, alimentaram o cancro. Ele que vos coma.

domingo, 10 de maio de 2026

UM POEMA DE ANTÓNIO PEDRO

 


AUTO-RETRATO

Mago de me fazer história e guerra,
Capaz em cada imagem de servir
A minha imagem d'oiro, que um porvir
Breve desfaz e n'outra imagem se erra,

Ou louco de temer-me, pela serra,
Árvore doida em transe de florir
Mãos como frutos e olhos a dormir
Ao marulho das ondas, sobre a terra,

Quero-me, tonto, a tornar exacto e certo,
Quotidiano e vil, como suponho
Tão necessário que se seja, aquilo

Que ultrapassando o limiar incerto
Do que é, em suave (de divino) trilo
Recria em mundo o que nasceu num sonho.

(In «Casa de Campo»)

Maria de Fátima Marinho, in O Surrealismo em Portugal, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Março de 1987, p. 607.

CARREIRA

 
Contava ontem que quando cheguei a Lisboa, em 1992, fui muito gozado por dizer que ia apanhar a carreira, como em Rio Maior dizia quem circulava nos transportes públicos entre aldeias e cidade. No entanto, levei com oito anos de carreirismo na capital. É um mal disseminado por este país que, como dizia o outro, visto de Paris mais parece uma aldeia. Seja como for, há ali uma concentração de carreiristas impressionante, o que se explica tanto pelo centralismo como pela coisa do mundo mais bem distribuída, que não é o bom senso, como pretendia Descartes, mas sim a estupidez. Aprendi, então, que em Lisboa não se apanham carreiras, mas sim números - no meu tempo era o 55 -, ainda que estes levem aos lugares onde se cozinham e se esturram as carreiras.

sábado, 9 de maio de 2026

CASTELOS DE AREIA

 


No país dos egos crepitantes reinava a arte dos castelos de areia. Raramente o núcleo da inteligência coincidia com o centro das atenções, pelo que era à margem da autocelebrarão que o autoclismo cumpria o seu papel. Nada de meio, tudo à margem, como o caminhante na direcção da foz ou o pescador à espera que o peixe morda o isco. Repletas de seres zangados com o mundo mas deveras satisfeitos consigo mesmos, as galerias enchiam-se nas verni e finissages sem sageza digna de nota, a despeito de baratas tontas e pataratas de mão dada com a vanguarda dos novelos de Ariadne, cerzideira de corredores palacianos e cozinhas com cheiro a mofo. Havia um mestre de cerimónias, há sempre, mas não tinha discípulos, entretinha-se e entredava-se apregoando ao espaço sideral casas cheias de pulgas aos saltos para satisfação das bilheteiras. Neste espectacular mundo, o cunnilingus e a felação haviam sido substituídos pelas práticas onanistas dos lambedores de bilheteira (selos tinham caído em desuso, tal como os seios e respectivos sutiãs). Ainda havia crianças, adultas na idade e no percentil peso/altura, mas desprovidas de senso tanto quanto altamente providas de curvaturas, as da servidão sim senhor. Ser vidão, ora aí está uma espécie altamente prolixa nesses tempos de egos aos saltos como pitos em êxtase. O vidão andava por todo o lado, tal a raça de javali que hoje facilmente se encontra a focinhar lixo urbano. Antes fôssemos vidões, dizia de si para si o mestre de cerimónias enquanto numa intervenção pública impreparada citava O'Neill: fossemos o cherne. Isto não é um sonho, também não é um pesadelo, muito menos uma coisa em forma de assim, é a mais purgatória das idades reais.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

TEATRO POBRE

 


   Por mais que o teatro disponha de meios materiais e por mais que explore os seus recursos mecânicos, continuará tecnologicamente inferior ao cinema e à televisão. Por conseguinte, prefiro a pobreza do teatro. Contentamo-nos com o esquema palco/auditório: em cada espectáculo, designam-se os espaços para actores e espectadores. Logo, torna-se possível variar infinitamente a relação actor/espectador. Os actores podem representar entre os espectadores, contactando directamente com o público, a quem outorgam um papel passivo no drama (...). Ou então, construir estruturas entre os espectadores, incluindo-os na arquitectura da acção, sujeitando-os a uma espécie de pressão, a uma amontoação, a uma limitação do espaço (...). Os espectadores podem estar separados dos actores - por uma cerca alta, por exemplo, acima da qual aparecem apenas as suas cabeças (...). Pode, também, utilizar-se todo o recinto como um local concreto (...). A eliminação da dicotomia palco/plateia não é o mais importante - cria simplesmente uma área adequada de investigação. O essencial reside em encontrar a relação espectador/actor adequada a cada tipo de espectáculo, enformando a decisão em elementos físicos.

Jerzy Grotowski, in Para Um Teatro Pobre, tradução de Rosa Macedo e J. A. Osório Mateus, forja, Agosto de 1975, pp. 17-18.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

DONA PATARATA

 
Metade pata, metade rata, a Dona Patarata deslocou-se à Gulbenkian com a intenção de participar nesse grandioso evento cultural que é a exposição Arte & Moda. Como a bicha dava a volta à Praça de Espanha e na parte que é pata ela já não podia com as pernas, arriscou o Centro de Arte Moderna logo ali ao lado. Viu uma casa do avesso, interiores de cartolina e lembrou-se da história da noz que queria dar nas vistas, a que ganhou asas no miradouro mágico. A noz era agora uma noz-moscada com visão de 360 graus, manobras evasivas e um zumbido que vibrava por todo o lado. O compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovski dedicou-lhe o ballet "O Quebra-Noz-Moscada", com uma música muito semelhante à "Cavalgada das Valquírias" de Richard Wagner. Na verdade, era um ballet para valquírias dançantes montadas em cavalos mecânicos. Tudo muito moderno. Poetas dedicaram-lhe poemas, pintores fizeram-lhe o retrato e até o povo começou a dizer "eu só queria ser noz-moscada para" em vez de "eu só queria ser mosca para". Como todas as histórias, também esta não correu bem. Ficou estática, imóvel, nada de correrias. Parecia uma piscina de cacos no CAM. A noz apodreceu por dentro, perdeu as asas, um tubarão-martelo-panã desfê-la em pedaços com uma cabeçada e um esquilo que ia a passar só não a comeu por não apreciar moscas na sopa. Continuou Dona Patarata a sua visita, de sala para sala, atravessando corredores, sempre muito atenta não fosse confundir extintores com peças conceptuais sobre a imersão no apocalipse. A dado momento, reparou numa obra que se repetia de núcleo para núcleo com ligeiras nuances. Eram figuras humanas maioritariamente femininas, vestidas com polos azuis, expostas em ângulos estratégicos, que meneavam a cabeça lentamente da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. O hiper-realismo das peças impressionava mais do que a história da noz-moscada, pelo que Dona Patarata aproximou-se para perscrutar de perto uma daquelas esculturas. Quem seria o autor de tão intrigante conjunto? Ao aproximar-se, ficou frente a frente com a escultura, inclinou-se para observar melhor o olhar tão realista, quase tocou com o nariz de rata na ponta do nariz da obra, ali estavam ambas, a Dona Patarata e a obra imóvel, olhos nos olhos, nariz no nariz, testa na testa. Qual não foi o espanto, quando ouviu a obra perguntar? "Posso ajudar?" Dona Patarata deu um passo atrás, recuou, era impressionante, as peças interagiam. E parecia que respiravam. Deslocou-se na direcção de sala contígua, voltou a aproximar-se de outro exemplar das esculturas humanas de polo azul. Agora estendeu o braço, apalpou uma mecha de cabelo e... mais uma vez a mesma pergunta: "posso ajudar?" Dona Patarata estava impressionada, pelo que começou a testar as peças beliscando-as. Já não ouvia apenas um solícito "posso ajudar?", as peças pareciam reclamar afastando o visitante com os braços e repetindo com insistência "ó minha senhora, ó minha senhora". Inadvertidamente, Dona Patarata era uma performance entre desenhos, pinturas, fotografias, vídeos, esculturas, instalações, até um segurança se aproximar ordenando a interrupção da brincadeira, caso contrário teria de encaminhar a estimada visitante até à saída. Dona Patarata não entendeu, estava confusa com aquela ausência de parcimónia, uma indelicadeza inaceitável, talvez não fosse suposto interagir com as obras, pelo que se desculpou ao antipático segurança: "Peço desculpa, como não vi indicação em contrário julguei que podia mexer. E confesso o meu entusiasmo ao verificar a interacção das peças." "Quais peças?", indagou o segurança. "Estas todas de azul", respondeu Dona Patarata, ao que o segurança soltou um sorriso meio perplexo, meio desconfiado, esclarecendo que não se tratava de nenhum conjunto de peças de nenhum dos artistas em exposição. Eram assistentes de sala, pessoas cujo trabalho consistia em estarem ali o dia inteiro, paradas, a observar os visitantes que observavam as peças. Dona Patarata ficou deveras decepcionada, sentiu-se até um pouco defraudada, a colecção interminável era mais do mesmo.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

UM POEMA DE FÉLIX FRANCISCO CASANOVA

 


DE TUDO FAZ UM SEGREDO, GOTA
a gota o meu sangue gela
na noite, a água cai
silenciando cópulas
de flores, os pássaros espezinham
os pântanos:
a beleza perdura no lodo.
O vento gelado do mar,
as folhas geladas do rio,
até a mais pura lava
logo lixo gelado
e o que sei eu dos corações...

(01-1974)

Félix Francisco Casanova, in A Beleza Perdura no Lodo - Antologia Poética, selecção de Francisco Javier Irazoki, tradução de Ana Catarina M. Martins, Medula, Abril de 2026, p. 37.


terça-feira, 5 de maio de 2026

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

 
Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
 
Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.
 
Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:
 
Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?
 
Sá de Miranda
 
*
 
Amor bravo e rezão dentro em meu peito
Tem guerra desigual; amor que jaz
E, já de muito tempo manda e faz
Tudo o que quer, a torto e a direito.
 
Não espera Rezão, tudo é despeito,
Tudo soberba e força, faz, desfaz,
Sem respeito nenhum; nunca está em paz,
Quando cuidais que sim, tudo é desfeito.
 
Doutra parte a Rezão tempos espia,
Aqueles quando os traz de tarde em tarde,
Força de sem-rezões e milhor dia.
 
Não tem amor lugar certo onde aguarde,
Então trata traições nesta agonia,
Triste que farei eu, quando tudo arde!
 
Luís de Camões

segunda-feira, 4 de maio de 2026

PEDRAS SOBRE PEDRAS

 
Por vezes um cansaço tão cansado de tudo isto
obriga-me a descobrir pulmões entre destroços
e então farejo e esgaravato tal um cão
no encalço de ossos ociosos

Mergulho a fundo no fosso do meu corpo
desesperado de sossego e de silêncio
mas só encontro pedras sobre pedras
e uma vontade cinzenta de céus mudos 

domingo, 3 de maio de 2026

UM POEMA DE INÊS FRANCISCO JACOB

 


32.

marinheiro de água
turva
fecha a fronteira
quando amanhas o peixe
passando-o por seiva tépida
e as tuas rugas
cobertas de sarro e escamas
deixam o cálice pendu
rado para amanhã
como fazes igual com a âncora
e as amantes
que esculpes em barro tosco
nesses grotescos dedinhos teus

sinal de falta de vitamina e muita
lama
parda e perdida

estômago duro de roer
o teu
marinheiro de água-mel

embacias os dentes com o teu açúcar
mentiroso

restar-te-á um mar de cáries
e um par de cornos

Inês Francisco Jacob, in Maremorto, Alambique, Novembro de 2021, p. 40.

DÚVIDA

 
Quando olhas à tua volta e o único consolo é teres a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, tudo acabará, então o que resta?