sexta-feira, 17 de agosto de 2018

17 DE AGOSTO DE 2018


Logo na primeira página de O Malhadinhas: saricoté (confusão), canadões (de canado, vasilha para medir líquidos), bonda (basta!), barregãs (concubina), rabosanas (labregas), milheira (tipo de pássaro), cortelho (recinto onde se recolhe o gado), mantença (sustento)… O nosso mundo encurtou, uniformizou-se. Isso nota-se na linguagem, cada vez mais igual, repetitiva, monótona. Como a vida, de resto. O nosso mundo está mais pobre, apesar das peneiras (no sentido de presunção).

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

AMORES DE VERÃO #3


O PROBLEMA DA POESIA

O problema da poesia, percebi eu
ao passear na praia uma noite —
com a areia fria da Flórida sob os meus pés nus
e uma galáxia de estrelas no céu —

o problema da poesia é que
ela estimula a escrita de ainda mais poesia,
mais peixinhos a encher o tanque,
mais coelhinhos saltitando
da barriga das mães para a erva molhada de orvalho.

E como terá alguma vez fim?,
a não ser que acabe por chegar o dia
em que já comparámos todas as coisas que existem
com todas as outras coisas que existem,

e não haja mais nada a fazer
a não ser fechar silenciosamente os nossos cadernos
e sentarmo-nos com as mãos postas em cima das secretárias.

A poesia enche-me de alegria
e eu levito como uma pena ao vento.
A poesia enche-me de tristeza
e eu sinto-me a afundar como um colar lançado de uma ponte.

Mas, acima de tudo, a poesia enche-me
da necessidade de escrever poesia,
de me sentar no escuro a esperar que uma pequena chama
me apareça na ponta do lápis.

E, ao mesmo tempo, do desejo de roubar,
de irromper pelos poemas dos outros
com uma lanterna e uma máscara de esqui.

E que triste bando de gatunos nós somos,
carteiristas, larápios vulgares,
pensei para mim próprio
à medida que uma onda fria dançava à volta dos meus pés
e o farol varria o oceano com o seu megafone —
que é uma imagem roubada por mim directamente
a Lawrence Ferlinghetti —
para ser completamente honesto por um instante —

o poeta de S. Francisco que andava de bicicleta
e cujo livro, em forma de parque de diversões,
eu levava num bolso do meu uniforme para todo o lado
pelos traiçoeiros corredores do liceu.


Billy Collins (n. Manhattan, Nova Iorque, EUA, 22 de Março de 1941), in Amor Universal, trad. Ricardo Marques, Averno, Outubro de 2014, pp. 97-98.

16 DE AGOSTO DE 2018


   Billy Collins é um poeta das manhãs: «In the club car that morning» (Velocity), «This morning as I walked along the lakeshore» (Aimless Love), «This morning as low clouds» (Absence), «Every morning, a noisy bird» (Paris), «I woke up this morning» (The Literary Life), «In a rush this weekday morning» (No Time), «The first thing I heard this morning» (Christmas Sparrow), «In the morning I ate a banana» (The Long Day), «A morning after a week of rain» (The Order Of The Day), «Just this morning on the shore» (Carry), «On that clear October morning» (High), «But early this morning I did notice» (The Guest), «Let’s just say that the morning light here» (Gold), «Every morning since you disappeared for good» (Horoscopes For The Dead), «until this morning. She has it walking» (Lesson For The Day), «every morning on a section of lawn» (Promenade), «Then later in the morning I was told» (The Suggestion Box), «One bright morning in a restaurant in Chicago» (Cheerios), «As I was wandering the city this morning» (Elusive), «I feel nothing this morning» (Here And There), «for all the morning glories to unfurl in the early sun» (Lines Written In A Garden By A Cottage In Herefordshire)… 
   O inventário não é exaustivo. Também eu, no primeiro dos meus livros, tenho um poema intitulado Esta Manhã. E outro que se chama Aurora, desmontagem irónica da alvorada dos iluminados. Fosse hoje, não os escreveria. Não porque os rejeite, mas porque estava longe de imaginar que as manhãs são de Billy Collins. Como pod(er)ia eu fazer tal ideia há 18 anos? Há palavras que nos ficam de tal modo coladas a poetas que delas se apropriam, que se torna criminoso sequer mencioná-las. Jamais direi “manhã”, reconhecendo que desde há muito tudo no que escrevo é crepuscular. Por isso, fica lá com as manhãs. Eu, que comecei por celebrar a lua, contento-me com o lusco-fusco. E também não direi mães. Todas as mães são de Herberto. Com tanto por ler, chegará o momento em que por fim concluirei ser o silêncio a palavra que mais me convém. Mas ainda não é este o momento. Ainda não, meus fieis rivais.

ARETHA FRANKLIN (1942-2018)



Em todo o lado vejo dizer que morreu uma rainha. O meu republicanismo ressente-se. A última vez que transigi foi na roulotte das farturas. Talvez possa também abrir uma excepção à soul.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

15 DE AGOSTO DE 2018



São muitos e diversos, até divergentes, os significados possíveis da parábola dos três macacos sábios. O mais corrente no mundo ocidental é ser a deles a postura de quem age como se estivesse tudo bem, assobiando para o lado, fazendo vista grossa, fingindo não ver, não ouvir, não perceber. Há pessoas assim. São capazes de viver uma vida inteira fingindo que não se passa nada, que é tudo normal, que está tudo, afinal, como deve estar. Indiferença? Desapego? Sonsice? Indolência? Letargia? Conformismo? Não, nada disso. É tortura, pura tortura. Mas de que nos vale dizê-lo? O algoz não ouvirá, não verá, não falará. Na verdade, nem sequer estamos crentes de que saiba o significado da palavra algoz.

INTERVALO DOLOROSO



Gazeta das Caldas, n.º 5238, sexta-feira, 10 de Agosto de 2018.

(também aqui)

SUBLINHADO MEU


   Choram os padres que a religião leva más andanças e eu o creio. Os templos por esse mundo estão às moscas. E também vos digo, baixinho que ninguém nos ouça, eu sou o último cá na terra a ter medo do inferno. Sabem os meus fidalgos, eu só queria um dia ser rei. Um dia não era cabonde; mas uma semana. Se fosse rei uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal. Uma fogueira em cada oiteiro para os ministros, os juízes, os escrivães e os doutores de má morte. Para estes decretava ainda cova bem funda, com obrigação de cada homem honrado lhes pôr um matacão em cima. Uma choldra de ladrões! Imaginem Vossorias que um pobre já nem uma bestinha pode ter! Muito tempo conservei aquele cavalito fouveiro — lembram-se? — para me ajudar a espairecer saudades dos tempos em que corria de almocreve Ceca e Meca e olivais de Santarém. Vai senão quando, António Malhadas, salta de lá com nove tostões de sumptuária. Irra, novecentos réis por um cavalicoque, um chincaravelho que não valia, a bem dizer, os guizos dum gato! Raios partam o Governo mailos governados, raios partam tanto tributo com que a gente de bem tem de ustir para andar aí meia dúzia de figurões, de costa direita, mais farófias que pitos calçudos! Raios partam! O governo é um corpo da guarda que nos defende ou é a quadrilha do olho vivo que não faz senão roubar? Quem lhe encomenda o sermão?!

Aquilino Ribeiro, in O Malhadinhas, pref. Maria Alzira Seixo, Bertrand Editora, Maio de 2018, p. 119.

VIDA EM POTÊNCIA


O potencial candidato encheu-se de coragem e saiu de casa num dia de Verão. Começou por visitar as tasquinhas, onde distribuiu abraços e beijinhos, tirou fotografias, foi apanhado nas redes do social. Depois passou pela Feira Nacional de Hortifruticultura (há quem diga horto…), repetindo gestos e trincando uma maçã. Na Feira do 15 de Agosto cruzou-se com potencial rival, cumprimentando-o cordialmente. Acabou a noite na Festa Branca, não deixando escarpar uma visita às Summer Sessions da praia local. Deitou-se cedo, precavendo um dia seguinte assaz exigente na Feira de São Bernardo. O potencial candidato passa o Verão de feira em festa. Suspeitamos que a chegada do Outono lhe proporcione tempo para pensar. É só uma suspeita, já que no último Inverno constatámos não ser do tipo dado ao pensamento. Idem na Primavera.

WEB SUBMIT


Na minha terra, cada um convida para a sua festa quem bem lhe apetecer. Depois só vai quem quer.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

AMORES DE VERÃO #2


O EU

É pequeno e invisível como os grilos
em Agosto. Gosta de fantasiar e mascarar,
como todos os anões. Mora entre
blocos de granito, entre verdades
prestáveis. Cabe até sob um
penso, sob uma venda. Não o encontrarão
os funcionários da alfândega nem os seus belos cães. Entre
hinos, entre alianças, esconde-se o eu.
Acampa nas Montanhas Rochosas do crânio.
Eterno fugitivo. Ele é eu próprio e eu
estou nele com a temerosa esperança de que finalmente
tenha encontrado um verdadeiro amigo. Mas ele
é solitário, tão desconfiado, não
aceita ninguém, nem a mim.
Adere aos acontecimentos históricos
como a água ao copo.
Poder-se-ia encher com ele uma jarra do neolítico.
É insaciável, quer fluir
por aquedutos, tem sede de vasos cada vez mais novos.
Quer saborear um espaço sem paredes,
difundir-se, difundir. Depois desaparece,
como o desejo, e no silêncio duma noite
de Agosto a única coisa que se consegue ouvir é a paciente
conversa dos grilos com as estrelas.

Adam Zagajewski (n. Lviv, Ucrânia, 21 de Junho de 1945), in Sombras de Sombras, trad. Marco Bruno, rev. Jorge Sousa Braga, Tinta-da-China, Novembro de 2017, p. 43.

TRÊS NOVELAS DE JAIME ROCHA



   Jaime Rocha (n. 1949), pseudónimo de Rui Ferreira de Sousa, começou por publicar poesia ainda na década de 1970. A primeira obra de ficção surgiu em 1984, com o título Tonho e as Almas. Nessa obra fomos apresentados a uma paisagem que acompanhará grande parte da obra subsequente, paisagem claramente relacionada com as origens nazarenas do autor, preenchida por barcos, pescadores, o mar em pano de fundo, falésias e até, em certos momentos, um linguajar típico da região. Mas esta fixação geográfica e social é apenas cenário para realidades psicológicas mais profundas e menos naturalistas. Não é raro as narrativas de Jaime Rocha enveredarem por ambientes típicos da literatura fantástica, com personagens perseguidas por traumas, sonhos, alucinações, fantasmas, delírios. Títulos como A Loucura Branca (1.º edição, 1990) e A Rapariga Sem Carne (Relógio D’Água, Novembro de 2012) apontam claramente nessa direcção, quer pela sugestão patológica da palavra loucura, quer pela impressão fantasmagórica da imagem de uma rapariga sem carne.
   No posfácio de António Cabrita que acompanha a 3.ª edição de A Loucura Branca (Relógio D’Água, Maio de 2014) lê-se que «a escrita de Jaime Rocha é a de quem anda pelas ruas com a cabeça submersa nos rumores do mundo, nas suas dimensões dúplices, ocultas, cifradas, afastando da sua frente, com gestos de nadador, as cortinas do aparente» (p. 88). Este exercício de andar pelas ruas é, antes de mais, uma característica das personagens. Nota-se especialmente em A Rapariga Sem Carne, com Mateus a deixar dentro de casa o corpo de uma mulher estranha, ali instalada de um modo enigmático, enquanto sai e observa as ruas da cidade onde vive: «Pela rua fora, pessoas vestidas de escuro espalham-se e desaparecem dentro dos carros ou entram nos pequenos cafés. Há cães a urinar nos pneus dos carros e sacos de plástico a esvoaçar pelas bermas» (p. 17). A cidade de A Rapariga sem Carne não é muito diferente da vila de Escola de Náufragos (Relógio D’Água, Março de 2016), ainda que entre ambas exista um óbvio distanciamento no tempo e no espaço. Também aí uma criança chamada Mateus anda pelas ruas a espalhar seu olhar demoníaco, enquanto dentro de casa os mistérios da família, os segredos, as ocultações, preparam o terreno da tragédia.
   O facto de tanto em A Rapariga sem Carne como em Escola de Náufragos a personagem central se chamar Mateus permite-nos supor um elo entre as duas narrativas. Não poderá o Mateus de A Rapariga sem Carne ser a versão adulta do rapaz que aprendeu a ser homem na Escola de Náufragos? Se optarmos por uma interpretação menos literal da palavra naufrágio, que surge nestas obras em contexto distinto, vislumbramos nestas histórias de cariz fantástico uma concepção da natureza humana que aponta para a ideia de queda. A criança de Escola de Náufragos está num processo de iniciação, o qual se desenrola através de gestos violentos, crimes, injustiças. Somos levados a pensar mais numa ética do mal do que do bem. A loucura já não é um estado iminente, é a normalidade da qual dificilmente se escapa. Neste sentido, a casa, entendida enquanto refúgio doméstico, está ausente na vida destas personagens. A casa é uma armadilha de fantasmas e de alucinações, como fica óbvio em A Rapariga sem Carne; a casa é um antro de segredos e de obscuridades, de sombras que se intrometem no pensamento. Daí que, em Escola de Náufragos, a avó de Mateus o aconselhe: «Agora vai-te embora, vai para a rua que a casa faz-te mal» (p. 31).
   No entanto, o mundo doentio da casa, do refúgio, do covil, não encontra solução na rua. As personagens saem, caminham, observam, como que arejam, mas não se resolvem. A rua oferece-lhes um mundo que não as resgata da loucura. Com uma estrutura mais complexa, A Loucura Branca também coloca a sua personagem central frente ao mar. Mas esta experiencia o trauma do suicídio de um amigo: «mato-me porque não aguento ver aquilo em que os outros se tornaram» (p. 11). O naufrágio tem aqui uma essência dúplice: é o daqueles que sucumbem à realidade e é o daqueles que, não sucumbindo à realidade, como que se alienam dela e são declarados loucos. A primeira razão do suicídio não é alguém não aguentar a sua vida, mas antes o efeito que a observação da vida dos outros tem na sua própria vida. Loucos porque deprimidos, stressados, esgotados, angustiados, ou, como no caso de José Lúcio, porque perseguidos por sonhos aterradores. Em A Loucura Branca, Jaime Rocha desloca-nos para um universo onírico. Também nesse pesadelo a casa surge como lugar desconfortável, decorado sem gosto, e a rua é lugar do imprevisível, do desconhecido: «Saiu apressado como se fosse cumprir uma tarefa importante, mas, na realidade, não sabia aonde se dirigia, nem em que dia exactamente estava em relação ao tempo que o médico fixara para a cura do tumor» (p. 38).
   Destas três novelas, com seus pesadelos, enxurradas, naufrágios, conservamos o desconforto das personagens. Em nenhuma situação elas aparecem instaladas, integradas. Há um conflito latente entre as suas personalidades e o mundo envolvente, o qual surge representado sob a forma trágica da queda. O pânico do alucinado só recupera tranquilidade quando reencontra a sua alucinação. O imaterial, o irreal, o sonho, oferece-lhe um sentido que a realidade usurpa. A realidade tem os traços da desolação, é o beco onde todos os males e todos os desastres se consumam. José Lúcio descobre que odeia a mulher quando ela se recusa ouvir-lhe a descrição dos pesadelos. A sua mulher já não é a que sai para ir às compras com os filhos, mas sim a mulher de pele dourada e olhos azuis que lhe aparece nos sonhos. Ele separou-se da realidade, casou-se com um fantasma, com uma alucinação, com uma ideia. Ao saírem para a rua, em boa verdade, estas personagens afundam-se cada vez mais em si mesmas. Por isso são náufragos, cada vez mais imersos nas profundezas do desconhecido que habita todos nós. É como se a rua fosse o mar onde o náufrago se afundou. É como se a casa fosse o barco à deriva num beco maligno. O exterior onde se movimentam corresponde, paradoxalmente, ao interior de que estão cativas. Não foi este o percurso traçado pelos românticos do século XIX? E não foi esse o caminho onde a determinada altura desabrochou toda a grande literatura fantástica?

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

FUI DESCOBERTO


Guardo para mim a mania de que apenas serei escritor quando encontrar alguém a ler-me numa praia. Isto não é bem a mesma coisa, mas anda perto. Grato ao Rui Almeida pela notícia, que me teria escapado. Continuo a frequentar mais praias desertas do que redes sociais. Clicar na imagem para ver melhor. 

15 ANOS


15 anos é muito tempo. A minha filha mais velha tem 15 anos. Há 15 anos publiquei o primeiro post. Foi há pouco mais de 15 anos, 15 anos e alguns dias. Este que agora publico, 15 anos depois, é para recordar como Portugal era então: aqui. O que mudou? Portugal continua a arder, 15 anos de pó, de chamas e de cinzas. 

AMORES DE VERÃO #1



Acabará o Verão. Começará Setembro. Abrirá
a caça aos patos, às galinholas. "Ah, como estás
velho" dir-te-á uma, e tu engatilharás a de dois canos,
não para levantar uma rola, mas para recobrar ânimo.
E as narinas fremem com os pêssegos secos que vendem
na rua. Mas, fora isto, muda tão rápido o mundo,
como se tivesse adoptado em dado momento
as manias extravagantes dum estrangeiro moreno.

Nisto, o Outono, claro, não é tido nem achado. Nem a dor
do rosto alterado como o da fera que investe contra o caçador,
mas esta sensação de pincel pousado ao lado duma pintura
a que falta princípio e fim, caixilho e estrutura.
Para não falar do museu, para não falar do gancho.
E o comboio passa ao longe na planície apitando,
embora, vendo bem, não seja visível o fumo.
Mas, do ponto de vista da paisagem, obrigatório é o movimento.

Isto aplica-se ao Outono, a todos os tempos,
a quando deixas de fumar e também quando
as árvores parecem carris que rejeitaram os rodeiros
e enferrujam no desvio para o alto do outeiro.
E não tens na garganta uma bola, mas um ouriço inteiro,
pois já não podes apreciar as linhas dum cargueiro
que ao largo passa, e o perfil dum aeroplano,
desprovido de auréola, nas alturas parece estranho.

A velocidade é só isto. A amiga tinha razão — quem diria?
Um antigo romano que acordasse agora que reconheceria?
Uma pilha de lenha, a textura duma nuvem, os pombos nas alturas,
a água parada, qualquer coisa na arquitectura,
mas nem uma cara. Ainda há quem passe a fronteira
de vez em quando, mas, a uma segunda vida sem direito, 
regressa a casa a correr, de terror o olhar desfeito.
E o lenço, do adeus não refeito, 

agita-se e vibra ainda ao vento. Outros, cuja sorte foi amarem
qualquer coisa mais do que a vida, sempre souberam
que a segunda vida é, afinal, a velhice, e deixam-se
ficar ao sol, brancos como o mármore, nunca escurecem.
E, sem desprezarem os prazeres da história, olham fixamente
um ponto distante. Pois que, quanto mais os pontos forem,
mais manchas terão os ovos — jogamos aqui ao esconde-esconde —
da codorniz, da galinhola e da perdiz que se levanta não sei onde.


Iosif Brodskii (n. São Petersburgo, antiga Leninegrado, 24 de Maio de 1940 - m. Nova Iorque, 28 de Janeiro de 1996), in Paisagem com Inundação, trad. Carlos Leite, Cotovia, Outubro de 2001, pp. 53-55.

TOMASZ STAŃKO (1942-2018)


Comecei a ouvi-lo apenas em 2002, por causa de Soul of Things. A capa reproduzia um fotograma do filme Éloge de l'amour, do realizador Jean-Luc Godard. Devo a chamada de atenção ao Carlos, do Alinhavar, que não vejo há anos e de quem tenho saudades.

13 DE AGOSTO DE 2018


Regresso com uma colecção de picadas de insectos espalhadas pelo corpo. Explicam-me que resultam dos medos e das ânsias dos bichos, que para se defenderem resolvem importunar-nos com ferroadas. Não aceito a explicação, pois em nenhuma circunstância os ataquei ou sequer me defendi das suas investidas. Limitei-me a interrogar a utilidade da sua existência.

Estava a ler Billy Collins, sentado no alpendre da casa onde pernoitámos durante as duas últimas semanas, quando obtive resposta à minha interrogação. Inesperadamente, a leitura foi interrompida por um pardal em voo desvairado a caçar insectos no ar. Não subestimar, portanto, o alimento de quem nos alegre dias, tardes e noites com melodias suaves. 


Rolas, andorinhas, melros, chapins, pardais, tentilhões, pintassilgos, todos esses seres merecem seus insectos como alimento. Que façam grandes patuscadas é tudo quanto desejamos quando andamos pelo campo. Estas aves combinam sons no ar como o pintor mistura cores numa paleta, oferecem à atmosfera um colorido do qual o homem parece ter-se desinteressado como se desinteressa de tudo o que é natural. 


Incapaz de permanecer em silêncio, o homem conspurca-o com batidas e batuques e vozearias insuportáveis. Grilos e cigarras ficam mudos para ouvir passar os motores. O homem das ilhas de plástico, especialista em incêndios e consumidor excessivo, exactamente o mesmo que perora sabiamente sobre as aterradoras transformações do clima sem mostrar qualquer preocupação com o desperdício que deixa no prato à hora de almoço. Ou com a poluição que imprime no ar à hora de se calar. 


Curiosamente, encontrei vários pássaros na poesia de Billy Collins. Há aquele Christmas Sparrow, por exemplo, que nos comoveu como poucos. Mas a antologia Amor Universal começa com um poema sobre uma “casa de campo”. No meu imaginário a casa de campo pressupõe uma habitação urbana, é o refúgio aburguesado da vida servil que levamos na cidade. Vamos para o campo como quem suspende em período de férias os acelerados ritmos quotidianos da urbe ou como quem vai à terra, se formos um desses deslocados cuja ambição burguesa não resistiu aos chamamentos do inferno. 


O campo, esse, ficou ao abandono. Está polvilhado de ruínas em grandes espaços abertos. Nalguns montes, as casas de família foram recuperadas e abriram-se buracos na terra a que os ocupantes dão o nome de piscinas. São alugadas sazonalmente a quem tenha como pagá-las. Não se vêem hortas, apenas girassóis sedentos. Praticamente não se semeia, a não ser o lixo do veraneante descontraído que abre o jornal defronte ao Atlântico para saber de incêndios na serra ou de refugiados no mar. 


Eu sento-me no alpendre a ler poetas, a resmungar dos insectos, a receber amigos, a ser surpreendido por aves canoras, a observar duas osgas desesperadamente à procura de sombra, a domesticar um grilo verde que a minha filha repugna. E nesse mesmo lugar serei coroado por chuvas de estrelas, por um clarão vindo detrás dos montes que começou por parecer os faróis de um carro para passar a ser fenómeno estranho e finalmente se revelar uma lua cheia de alegria. Parecer, ser, revelar, exactamente por esta ordem.


Só então arriscarei o poema, depois de muitas tardes de praia, depois de muitas manhãs de leitura na companhia dos insectos, depois de muitas horas passadas à volta dos tachos, grelhando carnes e peixes e pimentos, temperando saladas, experimentando especiarias. Podia ser um poema quotidiano, não fosse um poema de férias. Logo, é um poema onde o quotidiano foi suspenso, mais um poema-interrupção. Ainda que não tenha epígrafe, podia ter. Talvez um verso de Billy Collins, pela ironia que o confronto de estilos pudesse suscitar: «then feels the sudden sting of salt».



Ao tentar escrever girassol
ocorreu-me a imagem de uma gema
a ser fermentada pela Terra:
caule esguio na direcção do astro rei.

Podia dizer casa acesa por escritores japoneses,
zumbindo como vespas em torno do tronco nu
do homem que pensa
enquanto observa duas osgas
à procura de sombra
numa tórrida tarde de Verão.

Se «o antónimo de flor é vento»,
então para que servem moscas, melgas,
mosquitos, formigas aladas,
senão como alimento
de aves desvairadas?

Asco, saco, caso, casca, oca casa acesa
pela temperatura branca do pensamento.
Dias prolongados nas noites,
noites repetidas nos dias,
enquanto por detrás dos montes,
espreitando dentre pinheiros mansos,
uma lua cheia cresce na direcção dos nossos olhos.

E só então compreendemos
os dois astros que temos no rosto,
como na sua direcção tudo se levanta,
e que todo o nosso corpo é um universo de planetas
reduzíveis a picadas de insectos
na terra acesa de uma casa que circula
como o rosto de um girassol.




terça-feira, 7 de agosto de 2018

7 DE AGOSTO DE 2018

  • Vida não programável, improviso em monte alentejano, noite tórrida... Pulgas, mosquitos, melgas, moscas, gafanhotos, vespas, formigas, sardaniscas, abelhas, grilos, cigarras, ah, como é belo o campo. Paisagem com inundação. Sombras de sombras. A ordem do dia. Terra de neve. Escola de náufragos. A rapariga sem carne. E o homem revoltado a banhos com as confissões de uma máscara a meio. Leituras até ver. O quinta do breijinho gelado, a ceviche, a lua à espreita entre pinheiros mansos. Digo girassol, gema chocada pela terra em caule esguio na direcção de Rà. Postal para amigos. Volto já. 

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A FESTA DOS CAÇADORES


A Festa dos Caçadores (Abysmo, Abril de 2018) encontra-se disponível para encomenda através do sítio do editor (aqui), ou nos sítios da Wook e da Bertrand. Também está disponível nas livrarias Bertrand, sendo possível reservar através do site: aqui. Entretanto ficou disponível na FNAC (aqui).


Histórias, surpresas, absurdos — tudo bem escrito.
Francisco José Viegas, a propósito de A Festa dos Caçadores, no Correio da Manhã.

A epígrafe é de Lucia Berlin: 


"Hush John," Florida said. "That's only phantom pain."
"Is it real?"" I asked her.
She shrugged. "All pain is real."

27 DE JULHO DE 2018


Escolhida a banda sonora, entretanto acrescentada com um CD onde constam The Aloof, Cornelius, Isotope 217º, Tango Orkestret, Propellerheads e demais épicos para ilhas desertas, é hora de se fazer a biblioteca portátil. Materiais distintos preenchem o saco prévio, não sendo certo que venham a ser lidos. As opções serão momentâneas, conforme a disposição e os lugares. Em matéria de ficção, é muito provável que Julio Cortázar venha a fazer-me companhia com “Os Prémios” (Cavalo de Ferro).  Mais curto, mas bastante apetecível, “A Ordem do Dia” (D. Quixote), de Éric Vuillard, será leitura certa. Foi Prémio Goncourt 2017. Em matéria de poesia, constarão no leque a “Poesia Reunida” (Cotovia), de Manuel Resende, uma antologia de Luis García Montero intitulada “As Lições da Intimidade” (Abysmo) e as plaquetes “Privilégio de Penumbra” (Abysmo), de Felipe Benítez Reyes, e “Exupéry Significa Perder-se” (Douda Correria), de Yannis Stiggas. Depois temos Galeano em dose dupla. A Antígona não dá tréguas: “Espelhos Uma História Quase Universal” e “As Palavras Andantes”. Pelo sim, pelo não, levarei também “O Homem Revoltado” e as “Investigações Filosóficas”. Gosto de filosofar na praia, rodeado de gente despida e com o mar a refrescar-me o pensamento.  

ABSOLUTA PRESENÇA



Tão l...e...n...t...o... era o tempo naquela casa_que os números do relógio se desprendiam,
e
s
c
o
r
r
e
g
a
n
d
o pela parede branca até chegarem ao chão. 
   Tombados, confundiam-se com baratas que os habitantes da casa prontamente esmagavam. O homem permanecia eterno ao lado da mulher, deitados tal qual se deitam fantasmas. Levantavam-se para esmagar números tombados no soalho, eles próprios por vezes se inclinavam perfazendo ângulos mortos.
   A mesa posta aguardava pelo homem e pela mulher. Como não tinham estômago, apenas fingiam ter fome. Como não tinham peso, apenas fingiam esmagar números

e p      d
 s a h     o  s
     l  a         

pelo chão. 
   Na realidade e na fantasia, na verdade e na mentira, o homem e a mulher eram duas sombras projectadas de dentro para fora. 

Há casas que têm sóis escondidos na mobília, 
sóis apagados como candeeiros 
que de vez em quando se acendem. 

Quando o tempo pára__ ou quando os números dos relógios de parede
e
s
c
o
r
r
e
g
a
m
   de cansaço__ até caírem no soalho. 
   Esta casa não tem afagadores, ninguém trabalha nesta casa, é uma casa de silêncio onde nada se escuta. Apenas a respiração das sombras. 
  Então alguém surge de fora para dentro, então alguém se levanta de dentro para fora, então um sol acende-se dentro da casa e ilumina o homem e a mulher deitados no chão como dois números cansados. 1 + 1 = 0 . O amor que os aproxima é o amor que os afasta, sombriamente envolvidos um no outro, águas confundidas, sombras fundidas numa casa acesa de dentro para fora. 
   Um telefone ligava-os ao exterior, pelo telefone recebiam notícias de um mundo estranho, distante, o mundo fora de casa, nas ruas. Dizemos homem e mulher quando sabemos nem isso ser susceptível de comprovação. Eram apenas sombras sem estômago. Logo, não podiam ser homem nem mulher. Eram apenas habitantes inconclusivos de uma casa com sóis dentro, presenças, presenças absolutas de uma ausência particular. 
   
   Alguém observa essas presenças, sim. 
   Alguém tem que as observar. 

   O narrador pressente as presenças absolutas na casa vazia, na casa aparentemente vazia, o narrador pressente que o lugar dessas presenças é no interior da casa___a esmagarem números tombados pelo chão, migalhas de números, partículas de pó............. O narrador fala de um homem e de uma mulher quando pretendia dizer Monstro, isto é, Sombra, ou seja, presença absoluta. E então respira à mesa como qualquer coisa sentada perante um prato vazio, olha para o telefone há muito inutilizado, telefone sem voz porque no interior da caixa ficaram detidas para sempre todas as vozes, vozes reclusas de um silêncio que une as sombras no chão, silêncio entendido enquanto música, música entendida enquanto dança, dança entendida enquanto corpo, corpo estendido enquanto pó, sombra, 
             presença absoluta
   Esta história acabará quando a porta for finalmente aberta, quando alguém abrir a porta para entrar nesta história com a missão exacta de arrumar tudo nela, recolher os números do chão e voltar a c-o-l-o-c-á-l-o-s no relógio de parede, levantar o auscultador para libertar as vozes aprisionadas no interior da caixa do telefone, quando alguém se sentar à mesa enchendo o prato com o homem e a mulher sombriamente presentes no lugar absoluto da sua ausência. 
   Esta história terminará com alguém a comer sombras, a alimentar-se das sombras, transformando-se naquilo que come__porque todo o ser se transforma no que o alimenta.


Imagem ao alto: tinta-da-china, grafite e aguarela sobre papel, de André Ramos.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

26 DE JULHO DE 2018


A tradição mantém-se. Todos os anos gravo uma banda sonora para as férias de Verão, espécie de resenha musical do (meu) ano que passou com intentos pedagógicos junto das filhas. Eis o alinhamento deste ano:

Kamasi Washington, “Cherokee”
Dan Auerbach, “Malibu Man”
Warhaus, “Leave With Me”
Jesca Hoop, “Memories Are Now”
David Bowie, “Girl Loves Me”
Benjamin Clementine, “Phantom of Aleppoville”
Tricky, “Running Wild”
Kate Tempest, “Lionmouth Door Knocker”
Savages, “I Need Something New”
Franz Ferdinand, “Come on Home”
The XX, “Sunset”
WhoMadeWho, “Out the Door”
Johnny Cash, “Personal Jesus”
Laura Marling, “I Feel Your Love”
Jack White, “Machine Gun Silhouette”
Stanley Jordan, “Eleanor Rigby”
Jimi Hendrix, “Castles Made of Sand”
Bon Iver, “_45_”
Janis Joplin, “Trust Me”

terça-feira, 24 de julho de 2018

MEMÓRIA DE UM EXOESQUELETO




era uma cidade escura e infernal
onde a ansiedade existia horizontalmente
como um condomínio
impossível de fugir

de repente abria-se uma janela absoluta
como um sonho dentro do sonho
e tu aparecias no escuro dentro dela
avançavas como o último cigarro
de um condenado destronando
as ruínas da incerteza
até desaparecer

sonhei que escapava
na direcção da tua boca
mas a manhã fazia já uma âncora
dos meus pés

quando acordei tinhas deixado
um lugar vago dentro de mim
e a memória  tão esparsa  e perene  é agora
de uma amplitude inescapável  solidificada
durante o processo da tua evaporação
a melhor prisão que alguma vez construí
para não acordar completamente
(e assim te conseguir libertar)

se te perguntarem podes dizer agora
que sei como o fim se prolonga
antes e depois de acontecer
agora que o dia se desmorona
ninguém me há-de salvar tão cedo
nunca gostei de ser invadido
pelas manhãs e tarde será
sempre

um bom modo
de acabar


José Anjos (n. 1978), in Somos Contemporâneos do Impossível (Abysmo, Dezembro de 2017). Publicou Manual de Instruções Para Desaparecer (Abysmo, Abril de 2015) e Somos Contemporâneos do Impossível (Abysmo, Dezembro de 2017), tendo ficado clara neste último a filiação surrealista. As duas variações em Daniel Faria relevam um diálogo com a contemporaneidade que não passa pela reprodução de modelos consensuais, preferindo-se arriscar o poema num lugar de difícil acesso hermenêutico. Ainda que o sentido pareça esquivo, a organização dos livros indica alguma preocupação com aquilo a que podemos dar o nome de conjuntos temáticos correndo o sério risco de trair a “liberdade livre” de que estes poemas se reclamam herdeiros. A infância, a natureza do poema, o amor, a morte, são temas abordados invariavelmente de um modo conotativo, isto é, recorrendo a uma linguagem imagética povoada de memórias estilhaçadas, derivas imaginárias, observações fantasiosas. Poeta com uma forte ligação aos novos modos de dizer poesia, José Anjos talvez possa ser incluído num grupo algo restrito de poetas que escreve para ser dito. A provocação está em que neste dizer não se intenta a leitura, mantendo abertos os caminhos do sentido com sugestões rítmicas marcadas por disposições vocabulares inesperadas, espaçamentos singulares, rigorosas quebras de verso, uma multiplicidade de possibilidades sintácticas que apenas a respiração do leitor determinará.

SEM COMENTÁRIOS


Acabei de ler isto: Santana Lopes eleito académico honorário da Academia Portuguesa da História. Pensava que era matéria do Inimigo Público, mas logo concluí ser notícia com fundamento: Ex-provedor da Santa Casa foi hoje eleito académico honorário. Instituição apoiou a publicação da Obra Completa do Padre António Vieira. Este país é uma completa anedota, só que não tem graça alguma. É pior que uma piada seca, é uma piada triste, uma pocilga, como dizia o outro, onde a porcaria é quem mais engorda.

24 DE JULHO DE 2018


As últimas horas foram de apreensão, com a Matilde em viagem por uma Grécia em chamas. Memórias recentes tornam este inferno dos incêndios ainda mais traumático. Sofro imenso com tudo isto, mais ainda por há muito me preocupar o desinteresse da generalidade das pessoas pela Natureza. Ilhas de plástico, oceanos poluidíssimos, alterações no clima, sobreaquecimento global, tudo isto tem uma razão de ser básica: adoramos os deuses errados. Devíamos adorar o sol, a lua, os mares, os ventos, a terra, as plantas, as árvores, os animais, devíamos adorar quem sacrificamos continuadamente com a nossa incúria. Para mal de todos, para mal de uma humanidade que ainda não se deu conta do mal que vem fazendo a si própria. É triste, é medonho, é trágico, é desencorajador.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #47



   Isto podia começar assim: Daydream Nation (1988) faz 30 anos. Deixemo-nos, porém, de nostalgias. Decorria o ano de 1992 quando os Sonic Youth adquiriram uma popularidade inusitada por causa de um teledisco que metia putos com skates e festas privadas, aspecto visual embalado pela vaga Smells Like Teen Spirit que inundou esses anos como um tsunami chegado de Seattle. A origem não era assim tão imprevisível, já que ali havia nascido, a 27 de Novembro de 1942, Jimi Hendrix. Mas os Sonic Youth, oriundos de New York City, andavam a tocar há pelo menos 10 anos quando os Nirvana desabrocharam. E tinham muito mais que ver com The Velvet Underground ou Joy Division do que com o mago da guitarra psicadélica.
   Sister (1987) foi o primeiro álbum dos Sonic Youth que adquiri, fascinado por ritmos que os ligavam directamente à banda de Ian Curtis (evidentes nos temas Schizophrenia e Stereo Sanctity) com uma dose adicional de energia e menos lirismo. Guitarras estrategicamente preparadas para a dissonância provocavam certa estranheza inicial rapidamente ultrapassada pela dramatização do ruído, orientada pela secção rítmica a cargo de Kim Gordon e Steve Shelley. Falemos dessa dramatização do ruído. Há quem confunda ruído com lixo sonoro, o que pode colocar ao mesmo nível sons emitidos por um motor desafinado e música ambiente de um shopping. Ora, o ruído é outra coisa.
   Por ruído entendo a robustez de determinado som, a qual pode ser trabalhada artisticamente como quem alarma cores com o ritmo da pincelada. Geralmente associado a gestos violentos, o ruído pode, no entanto, adquirir uma inesperada elegância. É isso que sucede com bandas como os Sonic Youth. Os riffs são aqui e acolá perceptíveis, a distorção do som atinge níveis aceitáveis que permite tal percepção. O que lhes oferece elegância é o modo de tratamento de sons que noutras circunstâncias seriam considerados musicalmente desprezíveis. Chama-se a isso arte, a capacidade de aproveitar determinada matéria transformando-lhe a natureza. Já não está em causa uma mera reprodução das formas, uma transfiguração, mas antes uma leitura subjectiva do corpo material com o qual se trabalha. Neste caso: o som.
   Escutemos um tema como White Cross, as linhas melódicas minimalistas transportadas por um ritmo surpreendente que a determinada altura ameaça perecer para, logo de seguida, retomar a marcha anterior até à explosão final. Aquilo a que chamamos “noise” neste tema é do mesmo tipo daquilo que nos leva a falar de absurdo a propósito de Kafka, ou seja, uma desordem emocional que ameaça o sentido literal dos termos, as convenções semânticas com que organizamos uma linguagem declarativa, descritiva. Neste caso, a linguagem capta uma emoção, faz com que um sentimento profundo venha à tona, para usar a imagem psicanalítica, liberta o recalcamento cuspindo-o para a atmosfera. Por isso dizemos que é uma linguagem libertadora, porventura catártica. Embora talvez seja mais exacto ficarmos apenas pelo conceito de libertadora:


CAPA HISTÓRICA



Esta capa vai fazer história. É verdade que dedico pouquíssima atenção ao que sai na imprensa escrita, mas não me recordo de nos tempos mais recentes um poeta ter sido capa de jornal. A não ser por ter morrido ou por exercer outras funções que não o ofício da poesia. Talvez por lhe ter sido atribuído um prémio a que também não atribuí relevância. António Barahona da Fonseca está vivo e recomenda-se, como prova a entrevista oferecida ao jornal I. Recordar que Barahona foi um dos que não coube na Antologia (aqui).

VERSÃO LIVRE PARA POEMA DE JAMES JOYCE


Da sua vida sombria, sem um amigo, sem paixão,
Eis, de facto, uma conclusão.

Não há lábios que beijem seus restos mortais,
Ó morte suja e incasta!
O anátema da solidão gera silêncio no alambique,
Cumprindo sua última vontade,
E a uma estreita tumba será pelo homem lançado,
Triste destino amargo.

Versão livre a partir de um dos poemas da juventude coligidos em Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 1991, p. 84.

domingo, 22 de julho de 2018

O MATADOR FICA



E vai ser campeão. Querem apostar?
Força Varandas!


P.S.: o velho Sousa Cintra está a fazer um excelente trabalho. Agradecido. Só falta extinguirem de uma vez por todas a Juve Leo e marcarem a escumalha neonazi que anda há muito por ali a poluir o ambiente.

22 DE JULHO DE 2018


Almoço na Ericeira. Com a Matilde por Atenas, resolvemos combater saudades com um domingo burguês. Queijo assado, mexilhões com alho francês e champanhe para entrada. Encharéu grelhado para quatro pessoas, acompanhado de batatas a murro (fritas, para a Beatriz) e salada. Tudo regado com uma garrafa de Planalto Reserva 2016. Uma mousse de lima para sobremesa, cafés. Serviço impecável, de uma simpatia que merece a referência: Cozinha 21. A boa companhia de um simpático labrador retriever na esplanada, a desafiar-nos com o olhar uma enorme vontade de abraçá-lo. Fiz a digestão na praia. Primeiro, a ler poemas. Depois, a dormir. A Ana ainda mergulhou, acompanhada/desafiada pela M. A Beatriz só molhou os pés. Esta vida de escravo vai dar cabo de mim.

DENTADURA À PORTUGUESA



Há dias sugeri um livro sobre Nelson Mandela a uma cliente, a qual me respondeu que nunca gostou de Nelson Mandela porque, e passo a citar, “se um homem vai preso, por alguma razão é”. Não vale a pena reproduzir a conversa, que acabou com uma declaração reveladora: “Não sei se estamos melhor do que quando havia escravatura, ainda há tanta escravatura”. Portugal está cheio de gente que pensa assim, ao mesmo tempo que exibe vidas aparentemente felizes nas redes sociais e partilha citações do Chagas Freitas, do Minh’alma, do Noite-Luar, com a mesma ligeireza que se dedica aos recortes de Fernando Pessoa. 
   Nos tempos de Cavaco, aceitámos de mão estendida subsídios de toda a ordem para investirmos em jipes. Lá para Pedrogão parece repito e sublinho: parece — que nem a tragédia imbuiu de moral ou simples vergonha algumas das nossas gentes. As trafulhices com apoios, provindos da tão celebrada generosidade portuguesa, serviram para transformar em casas o que antes dos fogos eram ruínas. Também há quem volte a falar de uma repovoação de jipes novinhos em folha pelas freguesias afectadas. Somos generosos a dar, humildes a receber, mas estupidamente imorais a investir. Perdoem-me a generalização os que discordarem do aforismo. 
   Povo ingovernável, diziam os romanos. Talvez tivessem razão. Nesta época de manuais escolares o que mais ouço são queixas. Mesmo quando os manuais até ao sexto ano passam a ser oferecidos, escuto desconfianças. Oferecidos para serem devolvidos? Ninguém dá nada a ninguém. Esta é a máxima preferida dos portugueses. Ninguém dá nada a ninguém porque aquele que recebe fica a sentir-se em dívida, não há o culto do saber associado ao investimento. É tudo pequeno comércio, permuta, a nossa capacidade de raciocínio social ainda está ao nível do escambo. Depois somos roubados na factura da luz, do gás, da água, no preço da gasolina, na roubalheira dos manuais escolares e sentimo-nos desarmados. Mais facilmente nos indignamos e organizamos e protestamos por sportingues e benficas do que por estas questões que dizem respeito à vida de todos. É um mal social evidente, um cancro, uma peste, uma cárie. 
   A notícia reproduzida acima serve apenas de exemplo, mais um exemplo, de como somos ingovernáveis, incapazes de olhar para o futuro sem recebermos o fruto imediato da perspectiva. Só vemos um palmo à frente dos olhos, quando vemos, porque para lá do horizonte ninguém consegue vislumbrar puto. A imaginação foi comida pelo tártaro, abstracção não temos, há muito que nos extraíram os dentes da imaginação, espírito crítico foi pelo esgoto, cuspido, escarrado, depois de bochecharmos com as águas do desenrascanço e da chico-espertice. Dinheiro para os caracóis e para a imperial não há-de faltar, 'tá-se bem.