quarta-feira, 19 de junho de 2019

MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES





Temos vindo a acordar lentamente para o desastre, uns mais incrédulos que outros. Presumo que quando estivermos todos acordados já o dia tenha terminado. Que fazer para travar isto? Só há uma solução: mudar radicalmente de vida, varrendo desde logo para o lixo as políticas que nos trouxeram a este estado lastimável de coisas.



Imagens para quê?

LIVRO REDONDO


   É a autora quem o explica num epílogo, “libros redondos” foi o nome atribuído pelo sacerdote Diego de Torres Villarroel (n. 1693 – m. 1770) aos globos terrestres que adquiriu numa viagem por vários países europeus: «sínteses esmeradas do mundo. Livros que guardam a forma, que repetem o movimento: o círculo, o ciclo, o completo-incompleto, o um», acrescenta Catarina Nunes de Almeida (n. 1982). Tendo em conta os estudos orientais a que a poeta se tem dedicado, a tentação imediata de associar esta síntese ao velho problema da unidade e da multiplicidade do ser pode não constituir pecadilho maior. Todo o pensamento filosófico do Ocidente foi sendo erigido a partir desta relação problemática, a qual encontra no taoísmo uma solução que aceita entre o diverso relações unificadoras de complementaridade. Deus é o problema ocidental por excelência, o Deus uno e indivisível herdado da tradição judaico-cristã. Ora, independentemente do entendimento que fizermos desta noção de divindade, o que importa  reter é o conceito de Universo, mistério imenso para o qual nem ciência nem religião vislumbram explicações definitivas.
   As epígrafes que surgem como separadores neste Livro Redondo (Língua Morta, Abril de 2019) dão conta de uma preocupação com a temática do sagrado que tem nos autores convocados exemplos maiores de inquietação e complexidade, sejam eles Pasolini, Adélia Prado, Ruy Belo, Alberto Caeiro, Anacrenote. Nos poemas de Catarina Nunes de Almeida essa preocupação é ponto de partida temático para o desenvolvimento de uma «arte dos entrelaçamentos» (p. 8) que tende para o amor, sobretudo o amor materno, como momento de superação. Esse amor relativiza o problema essencial, ontológico, cosmológico, na medida em que o chama à terra impondo dúvidas maiores: «Como descrever a sintaxe dum seio que se encheu de leite? / Que importa a meteorologia dos planetas lá longe?» (p. 69). Os últimos versos concluem a favor de uma reconciliação que tem que ver com certa forma de olhar e aceitar as coisas do mundo, sejam elas do domínio material (finitas) ou espiritual (eternas). Entre o Universo e aquele que procura compreendê-lo deixa de haver distância, mas antes um acolhimento e necessidade de cuidar cuja urgência dispensa teorias.
   Apercebemo-nos ao longo desta viagem de uma espécie de divisão que poderia corresponder aos elementos essenciais ou aos pontos cardeais de uma rosa-dos-ventos, sendo certo que o mais estimulante e revelador nesta poesia é a capacidade denotada de exceder fronteiras concentrando-se num livre cruzamento de referências e alusões. De livros sagrados mais ou menos obscuros a mitologias diversas, dos evangelhos aos clássicos científicos, de obras fundadoras de culturas e civilizações, passando inclusive pelos domínios do esotérico e das artes divinatórias, tudo vale no contexto de uma indagação viva e intensa dos temas que dizemos serem de fé: «Compelir os cépticos mais zelosos a aceitar / a realidade das máquinas voadoras / o que me traria há três ou quatro séculos? / Uma corda ao pescoço. / É por isso preferível à leitura dos búzios / a leitura da receita da feijoada de búzios. / A divisão matemática do tempo / sem as numerologias as aromaterapias as teosofias / e os seus vibrantes murais» (p. 32). Qualquer que seja a conclusão, certo é que a secularidade e a degeneração de múltiplos representantes do divino na Terra vieram impor novas formas de organização interna dessa força inerente ao homem que dá pelo nome de «sentimento do sagrado». Julgo que este livro pode ser lido a partir desse ímpeto questionador, sem prejuízo do cruzamento que nele se opera entre tradição e actualidade.
   Alguns poemas surgem-nos como orações dirigidas a uma segunda pessoa com corpo e forma indefinidas, outros resultam de um pensamento inquieto em festa, cruzando-se neles o trivial quotidiano e o indecifrável, já não apenas como elevada e inalcançável sublimação de um mistério, mas sob a forma de ideia intrometida nas horas domésticas. Há ainda aqueles em que o tom de confissão emerge sem tropeçar necessariamente naquilo a que daríamos o nome de confessionalismo: «Confesso-te, hoje bastava-me furar um bolo quente madrugada adentro / fazer do indicador o centro de irradiação da meninice / e sair para a rua pedindo a palavra» (p. 31). Ironia e metáfora (“olho simbólico”) minam o sentido literal do texto, o corpo material e os «nomes de deus» confundem-se, misturam-se, estabelecendo-se entre lucidez e fé uma irónica relação de impossibilidades. Para ver fecha os olhos. Nos últimos poemas torna-se evidente como é no corpo que o sagrado opera: «Uma luz tem jorrado na obscuridade do corpo / precisa como deus» (p. 63). Homem e mulher são a dualidade reconciliada pelo amor cujo fruto é recomeço, princípio, residindo aí o verdadeiro mistério desse “livro redondo” que é o Universo, terra onde o ciclo da vida se cumpre independentemente dos edifícios teóricos que possam ser arquitectados acerca do tema. Talvez em busca de uma inocência perdida, uma inocência de ver e de contemplar, não no sentido de ausência de culpa, inocência anterior à culpa, olhar livremente estendido sobre as coisas para delas colher a luz irradiada.

UM POEMA DE ALFREDO VEIRAVÉ


JÁ NÃO HÁ LUGAR PARA A FRIVOLIDADE

Todos têm um limite; as leituras no jardim
absorvem o desejo das plantas húmidas e o mundo visionário
só fala aí com alguns seres animados de olhos abertos e profundos.
(Entre os eleitos e os ternos animais inocentes o espaço passa
como um equilibrista que abre o guarda-sol para não cair no vazio.) Há
diferentes formas de fracasso quando o jovem trapezista sente medo
nas prisões do pesadelo,
ainda que no fundo saiba que algozes e torturadores
juntam-se no inferno da história, caindo as folhas sobre eles
para convertê-los em terra ignóbil. Por isso agora canta e olha
apenas para a frente / a vida não dará explicações: o corpo sabe
evitar as lanças venenosas do rancor, quem sabe uma forma vedada do amor
não correspondido. Às vezes os limites abrem-se e o voo começa;
então, já não há espaço para as frivolidades tal como sabem
os que regressam da guerra ou do exílio errático (do poema).



Alfredo Veiravé, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 294-295.

terça-feira, 18 de junho de 2019

VARANDA


ESCREVER COM UM MACHADO


Ora vejamos, só nos dois primeiros textos «como pó», «como uma névoa», «como sombras», «como ossos», «como a um sol», «como do cântaro» e mais não sei quantos «como este» e «como se». Mas o glutão não ficou saciado, logo brindando o leitor com mais iguarias do género: «como estranhos», «como a um terço», «como tarefa», «como um pássaro» (coitadinho do pássaro), «como contas», «como um museu» (porra!), «como pode», isto numa «rua inteira a comer a melancia das mãos dela» (ah poeta), e «como se Deus», «como lhe», «o coma às colheres», «como um bilhete». Só de pensar fico com dores no estômago. E insiste: «como uma prece», «como no postal», «como se tudo» e «A lama ressequida depois comendo os meus gestos», com muita citação de premeio e pérolas líricas ao gosto “presencista”: «Bebendo no tempo da aurora o seu grito mudo». É tudo comes e bebes, e ainda só vou na página 26. Passa este tipo a vida a achincalhar os textos dos outros. Diz que escreve com um machado. Não duvido.

JOHN BERRYMAN


(...)

   Quando aqui cheguei confundia sonhos com números. Em Minneapolis os sonhos têm números, nem sequer são autocarros, podem ser 55, mas nunca carreiras. Quando cheguei ainda tinha o aconchego das mantas a aquecer-me o corpo. Rapidamente percebi que de nada me valeria mudar o sotaque. Um homem é o que nasce. Eu conhecia o Peter, mas não aquele que todos queriam conhecer. Eu saía sozinho, subia às pontes, descia aos portos, trocava balcões com bêbados e os que eu julgava serem marginais, até um dia ter entrado numa poça de água turva e aí ter descoberto um infinito mundo subaquático.

(...)

   Não gosto de Minneapolis, não quero ir para esse lugarejo, nessa furna de esperas com as costas largas, nesse lugar de gente sem gente, foi-me dado ver apenas o pior que é dado ver a quem vê. Atacado de psicose maníaco-depressiva, vim parar ao mistério que me traz por perto uma velha cigana, de mãos encardidas, falando para a terra, com a terra, o que alguns dizem ser diálogo de si para consigo. Vem devagarinho para a minha beira, vem cigana, vem como os amigos que nunca vieram sem vontade de partir, sem a urdidura de uma traição, vem cigana, o mundo é bola de fogo, nem todos ficam a arder.


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, pp. 57-59. Nota: o pai suicidou-se quando Berryman tinha 11 anos, facto que o marcou para a vida. Alcoólico, deprimido, saltou da ponte Washington Avenue no dia 7 de Janeiro de 1972. Ficou conhecido pelas suas Dream SongsO primeiro verso da Dream Song 55 é: «Peter's not friendly. He gives me sideways looks.»

BOM SAMARITANO



Finalmente uma notícia nova sobre a Venezuela. Não é propriamente nova, mas dadas as preocupações de veracidad na imprensa portuguesa foi preciso apurar todos os factos. O jornal Panam Post resume o caso nestes termos: «Desvío de dineros, malversación de fondos, inflación de cifras, fraude y amenazas para que emisarios del presidente Guaidó se rodeen de lujos». Propaganda do regime? Enfim, leiam o Panam Post que ficarão a perceber se é propaganda do regime. O ministro Santos Silva e o eurodeputado Paulo Rangel reafirmam a sua total confiança no bom samaritano Guaidó. Nota: um post de Maio.

DESCUBRA AS DIFERENÇAS

Já repararam como o José Mário Branco e o Juan Gelman são tão parecidos?

CIRCO DE MENTIRAS A BEM DA VERDADE



Com a guerra das audiências transformada numa luta pela sobrevivência, assiste-se hoje a algo verdadeiramente triste nos media portugueses. O exemplo mais flagrante dessa tristeza é uma coisa chamada polígrafo, meia dúzia de minutos simulados de investigação que pretendem fazer-nos crer na função da imprensa como garantia de verdade. Assim seria, não se desse o facto de quando chega o polígrafo já termos aguentado cerca de uma hora de palhaçada, de entretenimento jornalístico, de sensacionalismo, de mentiras, de manipulação. Os exemplos são diversos e vão sendo desmascarados, não vale a pena perder tempo com eles. Para quem acredita que o jornalismo tem uma missão a cumprir, é deprimente assistir a "guerrinhas de alecrim" com as redes sociais dando ares de combate a fake news tantas vezes propaladas por redacções de sacristia. Seria fastidioso perder tempo com exemplos, mas fica apenas para nota o tempo perdido com a putativa transferência de um puto de 19 anos que joga à bola em comparação com a quase ausência de notícias sobre Miguel Duarte – o português que arrisca pena de prisão no governo de Matteo Salvini por andar a salvar imigrantes no Mediterrâneo. Depois não querem definhar e morrer, transformados em donas brancas e afins.

ALFREDO VEIRAVÉ



MUITOS ESCRITORES TÊM QUE DEDICAR-SE AO ENSINO PARA SOBREVIVER

Muitos escritores do nosso tempo têm que dedicar-se ao ensino
nos claustros pontificais para sobreviver:
tiram todas as manhãs das gaiolas os grandes pássaros do amanhecer
sacodem-lhes a plumagem negra e põem-lhes grãos de ouro no bico
Queriam poder navegar na marina e entrar no Oceano
ou levar as notícias dos canibais sul-americanos à delicada Florença
mas a sua missão na catequização dos locais é mais
                                                                                           triste:
abrem
e
fecham
os evangelhos carcomidos pela atmosfera salgada
do Oceano e enquanto ensinam a palavra de Deus
«aquele que põe a alma em paz» (dizem), «aquele que organiza o caos»
                                                                                          (abjuram)
sonham com músicos ciganos com actores da Bretanha e para cúmulo
com as belas putas que vivem de rendas nos palácios
                                                                                           de Ayesha
e por cima das Epístolas de Paulo vêem belos cus redondos
(e)
castos que desejam beijar ou morder
nos dias de chuva.


Com uma infância e adolescência passadas na província, tornou-se professor de Literatura Latino Americana na Universidade Nacional do Nordeste. Foi Prémio Nacional de Poesia Leopoldo Lugones. Poeta, ensaísta, crítico literário, exerceu uma forte influência na década de 1950. Foi nessa época que a sua poesia revelou uma forte inflexão na direcção da chamada «antipoesia», tornando os seus poemas mais narrativos, irónicos, abertos a inúmeras e aparentemente contraditórias referências.  Alfredo Veiravé (n. Gualeguay, Entre Ríos, 29 de Março de 1928 – m. Resistencia, Chaco, 22 de Novembro de 1991), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 290-291.

domingo, 16 de junho de 2019

JEAN-JOSEPH RABEARIVELO




Quem quiser meter mão nesta terra, saiba que aqui nascido hei-de aqui morrer. Em cada rasto uma bandeira, um fóssil, esta terra é meu corpo. Nasci de acordes nunca antes ouvidos, um sopro. Não nasci do barro nem do sémen, não nasci sequer de uma língua, nasci deste chão pisado por quem caminha à noite sob a luz do luar. Podeis dizer, ele foi concebido por homem e mulher, por espírito santo. Nenhuma ciência determinará meu nascimento, nasci deste chão e só a ele todo o ar que respiro se vergará. 

Em tempos, li nos livros teorias infindáveis acerca do amor, cosmologias urdidas pelos dedos hábeis das mentes mais invulgares, em tempos ouvi dos xamãs histórias sobre o princípio de todas as coisas, fiquei a saber como se erigem edifícios altíssimos, em tempos caminhei sobre as águas e mergulhei fundo na oceânica dúvida do desânimo. Agora, com os sentidos entorpecidos pelos mitos, pelas teses, pelas cosmogonias, limito-me a mergulhar o corpo na terra para do mergulho assomar purificado por sementes e raízes.

Podia dizer: as árvores agitam-se à passagem do vento, os pássaros divertem-se balouçando nos ramos das árvores, as nuvens descem à terra para atapetarem os campos com sua humidade fortificante. Podia dizer: o cheiro da terra molhada, estrume espalhado pela pele rejuvenescida, banalidades, lugares-comuns. A hora não é de poesia, as bucólicas são dores no estômago da Terra. Digo antes que aqui nascido, aqui pretendo morrer. 

Traduzo da noite as falas do silêncio. Quando meio mundo dorme para que a metade que sobra possa destruir, traduzo da noite a espera, a calmaria, o sossego da que permite às corujas alimentarem suas crias, traduzo o sono compensador das palavras dormentes, a cabeça à deriva em florestas labirínticas, secretas, adorável deriva de florestas labirínticas, com «olhos, coração, mente, sonhos», e pelo sonho minhas mãos tocam no tronco das árvores e amparam a seiva que escorre pelo corpo e nela bebem a quietude inteligente dos animais com eles aprendendo a fazer apenas quanto baste. 

Este meu sonho sem pontuação liga tudo a tudo, na floresta quieta somos um pássaro que canta, sol que boceja, uma canoa que se liberta das amarras e desce ao sabor da corrente na direcção de uma nova infância, somos uma trepadeira de dúvidas enrodilhando-se à volta do corpo para em chegando à cabeça desabrochar em corolas multicoloridas de um pranto terno, pacificador. 

Tive uma mãe que disse: as árvores agitam-se à passagem do vento, os pássaros divertem-se balouçando nos ramos das árvores, as nuvens descem à terra para atapetarem os campos com sua humidade fortificante. Tive um pai que disse: o cheiro da terra molhada, estrume espalhado pela pele rejuvenescida, banalidades, lugares-comuns. Mas eu agora digo apenas que aqui nascido hei-de aqui morrer, reivindico meu direito inalienável de morrer quando, como e onde quero, com metade do corpo enterrado sob pedras brancas e a outra metade sob pedras pretas, corpo de amor consolado, agora na terra para sempre da terra, imune ao ruído poluente das coisas que ouvimos dizer e nos abrem dentro feridas que ninguém vê. 

Eu digo: aqui nascido, aqui pretendo morrer.

Nota: natural de Madagáscar, onde nasceu a 4 de Março de 1901/1903 (?), Jean-Joseph Rabearivelo cresceu sob a colonização francesa. Escreveu poesia, crítica, uma ópera, dois romances, trabalhou como editor. É considerado um dos primeiros poetas africanos verdadeiramente modernistas. A elite cultural francesa sempre o desconsiderou. Suicidou-se com cianeto no dia 22 de Junho de 1937.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

JACK LONDON


(...)

Os meus olhos vêem-te por todo o lado sob todas as formas. E eu mudo-te o nome a cada instante. És igualzinha a um banho de sol em delírio, a uma guitarra distorcendo as ancas que dançam e pulam e giram e se abanam como se quisessem espanar do ar as poeiras que o vento traz. De onde traz o vento todas estas poeiras? Não quero saber. Já preparei a mochila, em breve seguirei por aí à procura de um rumo para os estilhaços espalhados pelo chão. Estou no ir. Há algo no ar que o vento traz, estou no ir. Todas as evidências enterradas, um passado inteiro atirado para a berma da estrada, estou no ir, uma ossada ganhando músculos, desabrochando, os nervos crescendo no corpo como uma flor na terra, sementes de pele rebentando sobre a carne viva, desnascer só pode ser isto, estar no ir, e eu estou a chover dentro de mim próprio para que alguma coisa nova nasça, estou a fecundar as terras do meu corpo para que alguma coisa nele brote, alguma coisa que se possa cultivar sem os cuidados das hortas lavradas, alguma coisa selvagem, um silvado carregado de amoras, um silvado excessivo onde alguém mergulhará cada um dos seus anseios para de lá sair com o corpo cravado de espinhos, estou a flectir as pálpebras, a revirar os olhos para melhor observar o que dentro me vai impedindo de estar em sintonia com o que está fora, estou no ir. Podes ficar com a poesia.


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 56. Nota: não é certo que Jack London se tenha suicidado, mantendo-se ainda hoje a questão em aberto. A certidão de óbito fala de uremia após cólica renal aguda. Vários biógrafos apontam o consumo excessivo de morfina, por causa das dores motivadas por diversos problemas de saúde, como a causa principal da morte. 

MADAME BOVARY POR ALFREDO VEIRAVÉ


MADAME BOVARY

Enganaste-te Emma
   quando saíste de casa numa carruagem com grandes  
   rodas que rodavam para trás como nos
                                                                      filmes do Oeste
porque a tua solidão era algo que apenas devia ser teu
e porque era fatal que
   ninguém te compreenderia naquela aldeia provinciana
nem mesmo teu marido
   pobre homem grisalho ferido pelo teu amor
Bem, não me fales agora das tuas taquicardias
   ou dos vestidos com saiotes e rendas
deixa-me explicar-te
   que apenas lastimo
que te tenham perseguido furiosamente
   os vizinhos inaptos no jogo
do teu coração virgem
e lastimo que o teu século tenha sido de lenta
   mudança observada através das gelosias do convento
   põe talvez o anel ou os colares dos hippies
e pensa em Carnaby Street em como ser infiel
   sem ter de recorrer à consciência
de pobre rapariga provinciana
Eu penso que tu apenas querias saber
como te despiriam os outros
   e estes outros cretinos traíram-te Emma
   Dá-me a mão não chores mais
fica em silêncio
   escutemos juntos estes discos dos Beatles.

Alfredo Veiravé (n. Gualeguay, Entre Ríos, 29 de Março de 1928 – m. Resistencia, Chaco, 22 de Novembro de 1991), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 288-289.

PEQUENO ROTEIRO CEGO

Tal como me aconteceu com outros poetas da mesma linhagem, ouvi falar pela primeira vez de Levi Condinho (n. 1941) na antologia Sião (frenesi, Fevereiro de 1987). Uma nota biobliográfica que apontava a «herança beatnick» aguçou a curiosidade, embora hoje me surja algo deslocalizada tal ascendência. Condinho tinha 6 anos de idade quando o movimento (grupo?) imortalizado por Jack Kerouac (1922-1969) no romance On the Road (1957) vagueava freneticamente por uma América saída da II Grande Guerra, vivia num país amordaçado pela censura política, cultural e religiosa, com a (des)vantagem de ter nascido em meio rural (Bárrio, Alcobaça). Quando Kerouac se lançava na escrita de On the Road, Levi Condinho entrava para o Seminário de Santarém. Só mais tarde descobriu o jazz e ainda mais tarde a poesia, dados biográficos que o próprio revela no final deste Pequeno Roteiro Cego (Abysmo, Abril de 2019), antologia organizada por António Cabrita e Miguel Martins. Nessa descoberta tardia, acelerada no pós revolucionário, o que possa ecoar de beatnick é banda sonora e utopia (no único sentido que a palavra me merece, o melhor, que é o de horizonte desejado).
   O prefácio assinado por António Cabrita contribui para uma mais clara contextualização do ambiente geracional em que esta poesia surgiu: «os poemas de Levi Condinho não derivam de demoradas e sonâmbulas meditações, resultando ao invés de encontros com entes que lhe interceptaram o acaso dos dias. Esses encontros podem ser musicais, provirem da leitura ou de outra ordem emocional, e devemos assentar na ideia de que esta é uma poesia da imanência e da intercepção entre a vida e as manifestações com que a pauta do acaso lhe suscitou o testemunho de um trânsito» (p. 10). De facto, mesmo o leitor menos atento não deixará de se espantar com o acumulado de referências, mormente musicais, que nos poemas aparecem sob a forma de motivo e de alusão, mas talvez seja justo reconhecer, no que à questão musical diz respeito, que estas referências não se esgotam em si mesmas, constituindo-se antes como pontes sob as quais apreendemos, no reflexo das águas, temas diversos. 
   Seria interessante aprofundar a relação aqui estabelecida entre a música e a experiência do sagrado, mais ainda tendo em conta as raízes católicas do poeta em causa. Entre a música e Deus funda-se, mais do que um diálogo, a experiência de uma manifestação: «Bach regressa sempre como se fora Deus» (p. 49). Este verso, remate isolado no poema Ranhuras, dá bem conta das duas margens entre as quais discorre o caudal do tempo, nele seguindo, a esmo ou vigiada, a embarcação da vida: «o homem vai no transporte da sua vida / e a escrita faz-se no andar do transporte» (p. 42). Há entre a vida e o acto de escrevê-la uma proximidade que por vezes redunda em biografia, sendo exemplo claro deste movimento poemas tais como Canto Ecuménico (a descoberto do jazz em plena casa de Deus), Ano Bom (sobre as noites de infância) ou mesmo a crítica de tom geracional sugerida em Ginsberg Morreu
   Memória e biografia contribuem, assim, para uma poesia de “instantâneos” e de “inventários” diversos, onde entre trânsitos, viagens, deslocações próprias dos movimentos da existência, apreendemos certo olhar melancólico e voluntariamente solitário: «se perguntarem por mim / diz-lhes que continuo no meio dos homens / cheio de solidão / mas é aí que quero estar» (p. 28). Num outro poema, intitulado Luigi Nono «hay que caminhar» soñando, lê-se: «vivo em cada traço de cometa ou fragmento de solidão» (p. 70). Apesar de disfarçada pela derisão e pela agitação de referências, esta componente emocional não foi varrida dos poemas. Surge até transformada numa espécie de “política de vida”, partilhável em breves manifestos sob os quais ressoa a melodia de “Give me the Simple Life”. 
   Também não é de descurar a veia naturalmente experimental, por assim dizer, que ressalta no poema NIN, mas se expressa sob formas menos óbvias na insistente busca de uma musicalidade para os «mistérios da terra». Estes decorrem ainda de um olhar contemplativo sobre a paisagem natural: «Contemplo a folha da palmeira / a vagem da ervilha o bico do pintassilgo / os lábios da criança a célula do mar» (p. 70). Ou, no díptico José Aurélio Uma cosmologia adivinhada: «essa tranquila respiração dos regatos / no arco perfeito do amor consumado / brando desafio à harmonia da esfera / réplica de astros ao alcance da mão» (p. 74). Julgo que o melhor elogio que podemos fazer a esta poesia é o de aceitá-la enquanto hino à vida, não desprovido de irrisão quando tal se justifica, mas principalmente concentrado na exaltação de tudo quanto propicia prazer no decorrer da viagem. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

UM (ANTI)POEMA DE ALFREDO VEIRAVÉ




LABORATÓRIO CENTRAL

Quando me encontrar numa montanha russa
com o meu primeiro extraterrestre
por certo temerei um pouco a sua figura
   humana diferente
como defronte ao poema que me fala
após uma noite mal dormida,
como mudo a quem devolveram a palavra,
e por certo tentarei explicar-lhe que a nossa cabeça
também é um laboratório central onde se produz uma reacção
em cadeia de fenómenos eléctricos e fenómenos
   químicos
que alguns alimentam com alucinogénios com
   álcool
   (mais modesto, eu recorro ao fatal cigarro da vida)
   com levitações de uma só volta
   pelo inconsciente estruturado como uma linguagem,
e que é aí nessa pequena zona onde se produzem
todas as
tormentas e as festas do texto,
esta memória que sonha com as palavras
   da insónia, mas por certo ele fugirá
entre as árvores até à sua nave-mãe,
   deixando-me novamente só
   no meu escritório, sobre estes papéis.

Teremos vencido essa batalha antes de começar
a navegar pelo silêncio.


Alfredo Veiravé (n. Gualeguay, Entre Ríos, 29 de Março de 1928 – m. Resistencia, Chaco, 22 de Novembro de 1991), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 296-297.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

#112



Fui a Valado dos Frades ver um sexteto, mas regressei com um quarteto debaixo do braço. Mário Santos (n. 1965) é o responsável por tamanha anarquia, ele que chegou a integrar grupos de música pop mas também tocou com respeitáveis nomes do jazz. Em trio, quarteto ou sexteto, o saxofone tenor de Mário Santos é uma pérola incapaz de desiludir. Se bem julgo saber, Nuvem (2011) é o segundo álbum de Mário Santos. A acompanhá-lo estão um experiente contrabaixista, de seu nome António Augusto Aguiar, o baterista Marcos Cavaleiro e um guitarrista de mão-cheia chamado Miguel Moreira. Este quarteto foi formado em 2009, pelo que passados 10 anos, mesmo com dois elementos adicionais nos sopros, a cumplicidade entre todos é evidente. Ao vivo, a guitarra sobressai entre os demais enquanto componente experimental. A bateria é o recurso mais discreto. Mas no CD surge tudo mais naturalmente equilibrado. Os cinco temas que compõem Nuvem exibem estruturas melódicas diferenciadas, sendo Entre as Margens aquele em que a guitarra mais se afirma como elemento dominante. Dança no Ventre estabelece inicialmente uma atmosfera nostálgica, evoluindo depois para ritmos que de algum modo sugerem, tal como o título, uma viagem por paisagens menos identificáveis. O contrabaixo é uma maravilha. Da Nuvem colhemos diálogos entre formas abstractas, com o saxofone a introduzir a atmosfera, o contrabaixo tocado com arco e a guitarra a divagar como vento. São mais de doze minutos que nos transportam por tempestade e bonança. Tanto no CD como ao vivo a viagem nunca é insuportável, ou seja, não nos golpeia com turbulências nem nos enfada com engarrafamentos, flui com naturalidade, transita sem choques nem acidentes de percurso. Beleza, como diria o meu amigo Jairo.


O HOMEM DO MOMENTO


Quando um homem que sempre te fez rir consegue fazer-te chorar.

terça-feira, 11 de junho de 2019

DOIS LIVROS DE ANTÓNIO POPPE


Acolhemos a poesia de António Poppe (n. 1968) como a uma oferenda, ela dirige-se-nos sem qualquer tipo de imposição, não chega sequer a pedir que a aceitemos, oferece-se-nos, e nós ou a rejeitamos ou a acolhemos. Dois anos precisos separaram as publicações de “medicin.” (Douda Correria, Maio de 2015) e “come coral” (Douda Correria, Maio de 2017), dois anos passados aqui estamos a lê-los e a partilhar com quem nos leia o que da sua leitura nos ficou. Em ambos os casos há contextualizações que convém ter em conta, a mais relevante das quais é a declaração de uma polifonia com origens muito díspares. O primeiro paradoxo, pelo menos aparente, é o modo como na raiz dessa polifonia encontramos a experiência do silêncio. A nota que precede “come coral” disso dá conta, aí se revelando que o livro surgiu de um «retiro de meditação Vipashyana». As palavras que lemos terão sido proferidas «literalmente de cor» para um gravador após dez dias de silêncio, apresentando-se como uma impressão do silêncio naquele que as diz. À superfície surdem então as palavras sem que um qualquer sentido lógico e sintáctico as delimite, surgem expurgadas de significados semânticos precisos, surgem como uma espécie de luz que se levanta ao raiar do dia ou como o som do vento percepcionado pelo corpo entendido enquanto vibração.
   Em ambos os livros o processo assemelha-se, embora no segundo seja mais evidente até pelos efeitos ecóicos dos versos. Há sonoridades de “medicin.” que se repetem em "come coral", este mesmo título provém do livro anterior. Mais do que recordação, como previne António Poppe, trata-se de (re)impressão, ou seja, trata-se já do modo como o corpo assimilou as palavras permitindo que as mesmas fluam no sangue e na respiração. A subordinação do corpo à mente, belamente ilustrada na capa de “medicin.”, não é tanto uma subordinação como resulta numa libertação. A prática do yoga consiste precisamente nessa educação do corpo para a dança, isto é, para uma libertação daquilo que o leva ao sofrimento, daquilo que o aprisiona e fere. Assim sendo, devemos também elevar o facto de toda esta poesia nos chegar como uma manifestação rítmica, musical, onde não só as vozes se misturam, como as próprias línguas e linguagens se fundem, num processo de transmutação da palavra que me parece especialmente enriquecedor. É óbvio que neste processo encontramos jogos fonéticos típicos, resultantes de aliterações, cacofonias, aglutinações, anacolutos, embora o resultado tenha muito mais que ver com uma forma ocidental de assimilar o mantra do que com um trabalho de desconstrução gramatical.
   Estamos a falar de um discurso altamente espontâneo e livre, um discurso através do qual as imagens irrompem com configurações sonoras e luminosas que resistem a qualquer tentativa de resolução formal. Talvez faça até mais sentido falar de anti-discurso. Por isso mesmo não devemos admirar-nos daquilo a que em circunstâncias normais chamaríamos um mesmo poema surgir em ocasiões diferentes naturalmente transformado em pormenores vocabulares que estão relacionados com a espontaneidade da construção subjacente ao próprio poema: «pousa de amamentar   pedra-amante / achado o veio   entre boca e nariz» (in “medicin.”); «pausa de amamentar    desfechado aqui achado o / veio   entre boca e nariz» (in “come coral”). São vários os exemplos que podíamos dar desta transformação a que o poema é sujeito, já não entendido como fixação, palavra petrificada, mas antes oferecido como corpo vivo, fruto de uma respiração incessante.
   Ka, sílaba semente que surge em ambos os conjuntos à maneira de princípio fundador, pode tanto aludir a essa alma que ligava os homens aos deuses no antigo Egipto como a um mantra semelhante ao Om hindu, som de cuja vibração o universo surge. São sons que semeiam, são a mais primitiva origem das palavras, é na direcção dessa origem que António Poppe mergulha fazendo expandir em círculos e ciclos uma poesia diferente das demais que vão sendo publicadas entre nós. A espaços, surge uma alegoria, uma parábola, colhida entre os índios Yanomami ou na filosofia zen, mas surgem sempre inseridas num absoluto do qual não se destacam, são inerentes ao ser, são parte integrante de um todo em que cada partícula manifesta esse todo mais do que se manifesta a si mesma isoladamente. Do mesmo modo, as múltiplas vozes que se fundem nestes textos como que abdicam da sua individualidade para, fundindo-se umas nas outras, gerarem um novo corpo, uma nova e multicolorida voz. Porque o som mais vibrante desta poesia é precisamente a sua universalidade, a capacidade de aglutinar numa sílaba as tonalidades aparentemente mais antagónicas. 

RUBEN DE CARVALHO (1944-2019)


Uma referência para a vida. Há gente que sabe estar.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

AINDA AGUSTINA


A grande maioria da população só terá lido o que lhe foi impingido - estou a ser otimista, talvez também paternalista, mas diria que Agustina levou aí algum avanço. Além de que as adaptações das suas obras ao cinema (mesmo que Manoel de Oliveira não seja de massas) e ao teatro (La Feria já será mais popular) terão ajudado a criar burburinho em torno do seu nome na hora da classe média fazer a sua compra da feira do livro ou adquirir prendas na Fnac.


Ler o post na íntegra: aqui. Escusado será dizer que concordo com tudo. E quanto a títulos do tipo "a última grande romancista viva", o meu romance português preferido escrito por uma mulher chama-se Adoecer. A autora está viva e recomenda-se.

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #19


Começar por onde? Por um país. Nascemos e dão-nos nome, ensinam-nos uma língua, metem-nos o país dentro da cabeça. E depois? Sugiro passeios, muitas partidas e regressos, sugiro viagens, sugiro que andeis, caminheis, divagueis, sugiro que singrais. Temos uma pátria para podermos dizer de onde viemos, mesmo que não sejamos de um único lugar. A nossa pátria devia ser sempre o mundo. Ter o mundo por pátria quer dizer: respeitamos todos os homens, adoramos a Natureza, repugnam-nos as fronteiras. Mas um homem nasce dentro de alguma coisa, somos gerados e germinamos dentro, rodeados de paredes, protegidos por fronteiras. Estas protegem-nos do medo porque nascemos a ter medo dos espaços abertos, livres, dos espaços de sonho. E nisso, a pátria que nos ensinam é sempre uma pátria de medo. Em dia de país, falemos então desta "raça" de comer e calar, de calar e chorar por mais, raça de gente amorfa e respeitosamente servil, gente barata, os melhores entre os melhores, mas a preço de saldo. Daqui convenha, minhas filhas, começar por aprender a rir do medo. Para em termos aprendido, podermos criticar livremente, podermos dizer mal, até achincalhar, podermos pecar sem remorso, injuriando, afrontando, ofendendo tudo quanto se oponha a esse direito básico que é viver livre a única vida que temos, de a vivermos determinados pela nossa consciência, apenas por ela, por nada mais senão ela. 
   Que a crítica comece por ser feita para dentro, de fora para dentro, que a crítica comece por ter-nos como objecto é, antes de mais, prova de respeito por nós próprios. Não nos convençamos da verdade que se esquiva, que a pretensão de sermos donos da verdade não nos assalte é o melhor conselho que poderei dar-vos. Começai sempre por duvidar de vossas próprias certezas, para que da dúvida possais erguer o edifício do pensamento com ferramentas de riso. A quem assim opera, ficai sabendo, apelidam muitas vezes os demais de vulgar. Vede o caso de Tomás Pinto Brandão (1664-1743), amigo da fera demoníaca Gregório de Matos (1636-1696), com quem partiu para o desconhecido em busca de aventura. Logo foi feito prisioneiro, degredado para Angola, e depois para o Rio de Janeiro. Esbanjando tudo quanto ganhava, dedicou-se à poesia. Só na poesia encontrou alcova para a liberdade, regando-a com sátiras inflamadas que causavam escândalo e polémica. Tomando-se a si mesmo como objecto de riso, não deixou a pátria por mãos alheias. Pinto Renascido foi o volume vindo a lume em 1732. 
   Passados muitos anos, João Palma-Ferreira faz dele um produto de seu tempo, reconhecendo-lhe a subtileza de haver sabido «denunciar as injustiças sociais, fraudes, corrupção administrativa e proteccionismos escandalosos que caracterizavam o reinado». Exemplo maior de tal denúncia: Este é o Bom Governo de Portugal, sátira atribuída a um Gregório de Matos ressuscitado. Os versos apareceram quando há muito havia desaparecido o amigo Gregório. Aí sobressaem a “hipocrisia nacional”, a “mediocridade dos costumes”, a “vilania das gentes”, a beatice e os desastres da administração. Ficai com alguns exemplos e tentai mudar-lhes os tempos, as personagens, que as vontades perduram as mesmas:

(…)

Que haja um Conselho de Estado
para mil resoluções
e que em todas as ocasiões
é sempre desacertado,
o parecer sempre errado
foi de seus desacertos
obrar com desconcertos,
e só para os bons intentos
lhe segura os entendimentos
o grão Demónio Infernal.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Da Câmara e Senado
que em obras, taxas, licenças
deve com toda a presteza
ter particular cuidado,
o governo é de estado
e são as ruas da cidade
monturos e porquidade;
e o que tem que vender
o vende pelo que quer
por ter seguro o costal.
Este é o bom governo de Portugal.

Os Ministros de Justiça
que nunca a fizeram direita,
porque a valia respeita
pela puta, ou por cobiça,
o Demónio assim lhe atiça
este fogo em seus ardores,
juiz e corregedores,
letrados e escrivães,
alcaides e tabeliães,
todos vestem de um saial.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Quem as conquistas governa
manda para desabonos
uns pataratas fanchonos
sem para nada prestar,
e que se hão-de aumentar;
uns redicolhos sujeitos,
sem obras, acções, nem feitos,
e se há fatal ocasião,
de ter a espada na mão,
a fuga lhe é cordial.
Este é o bom governo de Portugal.

Que a mais da Fidalguia
que na soberba se enfronha,
nela se acha sem vergonha
toda a má velhacaria;
a franqueza e a covardia
se vê contra os castelhanos,
e para os nobres paisanos
são uns tigres, uns leões,
e parecem uns supiões,
no proceder tão cabal.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Que venha todo o estrangeiro
e cada um negociando,
o ouro e prata vão levando
deixando-nos sem dinheiro;
e não há já conselheiro
que seja homem de talento,
que apurado o entendimento
algum remédio lhe aplique,
para que o Reino não fique
exausto deste metal.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Toda a mais canalha vil,
mercadores, vendilhões,
que estão ganhando milhões
com empregar um ceitil,
têm toda a graça gentil
para poderem roubar,
podendo-se isto emendar
 com uns açoutes ou galés,
porque assim em que lhe pês
tenham menos cabedal.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Deixo sete estrofes, esperando com elas convencer-vos da pertinência dos versos. Não sendo estes o bastante para pensardes o poder pátrio, outros hão-de haver que sirvam para detonar o respeitinho subserviente que é entre os males da gente um dos maiores e mais nefastos.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

SARA


Além de integrar o corpo editorial da revista TrêsTrês, Ricardo Norte (n. 1978) editou uma sequência de cadernos intitulados Perigo, onde se propunha reflectir o niilismo contemporâneo num diálogo aberto entre textos da sua autoria e de outros autores, a maioria estrangeiros por si traduzidos. Um dos aspectos mais singulares dessas publicações era a resistência a interpretações unívocas, preferindo-se arriscar a palavra em territórios do pensamento e da expressão que, não sendo labirínticos, imprimiam no leitor uma estimulante estranheza. Neles o texto surgia alienado de géneros, impondo-se pela força sugestiva das imagens e das associações. Sara (Língua Morta, Abril de 2019) de algum modo oferece continuidade a esse processo de geminação, enxertando a palavra poética no contexto de uma narrativa constituída por fases sem delimitações evidentes. 
   Podemos dizer que numa primeira fase, destacada pelo uso do itálico, como que somos enviados para um lugar iniciático: «A passagem do lume para a tosse do primeiro travo foi o começo de uma exploração carnívora» (p. 5). A linguagem é metafórica, fazendo uso de termos cuja carga simbólica remete para mitos criacionistas. Não é clara a natureza do narrador, embora o uso do passado e da primeira pessoa do plural nos leve a crer em situações modeladas pela memória. Ao sermos colocados no «começo de uma exploração carnívora» percebemos que estamos já numa fase posterior à inocência, momento em que à explosão do desejo nos corpos correspondem sinais de ruína e de perda. Os nomes próprios escolhidos são bíblicos, embora entre eles as conexões sejam altamente livres. Ricardo Norte concebe através das suas personagens uma cosmogonia diversa daquela que a história consagra, repensa a jovialidade, o adolescer, a entrada no mundo do desejo carnal a partir de pressupostos de algum modo anteriormente estabelecidos por George Bataille (1897-1962), citado em epígrafe, em livros como “O Erotismo” ou “As Lágrimas de Eros”. O corpo é o palco onde a grande aventura espiritual actua, já sem Deus de atalaia e com uma espécie de “niilismo radical” a estilhaçar as fronteiras da lei, da regra, da norma. 
   Num segundo momento do livro, a imagem inicial dos cães agarrados é suficientemente elucidativa do modo como sexualidade e violência se conjugam no centro desta aventura. As personagens surgem com deformações corporais (perna esquerda paralisada, maxilares colados, sem braços), são transgressivas, selváticas, apaixonadas. Há uma vila, uma taverna, actividades comuns, mas os cenários e a acção muitas vezes redundam num ambiente onírico. Há referências à puberdade, a erupções de entusiasmo, a um erotismo carnal, nada platónico, nada ideal, (im)puro tesão. Entre o narrador e Sara estabelece-se uma relação de distância, de admiração, desejo. Quem é Sara? «Sara, monda de olhos, ouve as membranas celestes e os ratos que copulam pelas caves» (p. 22). «Sara, uma leoa cega», é objecto desejado cuja inacessibilidade fortalece o próprio desejo: «o seu corpo é esse impossível que olho com palavras» (p. 42). Sara é o fruto proibido, a violenta dor de um querer insatisfeito. Apesar de se tocarem, o ser desejante e o objecto desejado nunca consubstanciam a vontade carnal, o sexo fica suspenso como uma espécie de condenação. 
   A comunicação entre aquele que deseja e o objecto desejado surge num terceiro momento, ainda que através de intermediário. Percebemos que existem camadas no texto onde a posição do narrador vai sendo diferente. Já saídos da infância e da adolescência, Sara e Simão correspondem-se. Ana é o mensageiro. «Possa por momentos voltar da minha morte adolescente» (p. 73), diz Simão. E nesse instante percebemos o jogo que entre ambos se estabelece, mística de uma carne onde o pensamento se processa. Se quiséssemos abusar poderíamos arriscar analogias com Simão, depois Pedro, primeiro bispo de Roma, pedra sobre a qual a igreja edificou todas as muralhas contra o desejo. E podíamos também ver nesta Sara a mulher estéril de Abraão, a que teve Isaac numa idade em que já não era suposto ter filhos. E foi de Isaac, o filho com que deus pôs à prova Abraão, que toda a humanidade descendeu. «Se tudo é amor porque hei-de querer a pedra onde ele se acumula como limo?» (p. 77) As alusões bíblicas estimulam os abusos interpretativos, embora reconheçamos o abuso. 
   Sara e Simão são aqueles a quem encanta o joio, são os transgressores, aqueles que amam para lá do desejo e da morte, amam com o corpo ferido de insatisfação, sem limites.  É este o paradoxo. Nisto têm qualquer coisa de sagrado, um sagrado selvagem de que restam apenas vestígios no vazio das fórmulas universais para o amor. Estão um dentro do outro sem que entre ambos tenha havido sexo, simplesmente toque, o toque ligeiro de quem sente ter ficado aquém do desejo desejando, desejando ardentemente. A sua história é uma história de crescimento a caminho do nada, tal como a história do poeta que do amor à palavra colhe apenas o brilho silencioso de uma imagem que irrompe na cabeça. Belo e inquietante livro.