antologia do esquecimento
sábado, 4 de julho de 2026
VIVA A MORTE
sexta-feira, 3 de julho de 2026
À MARGEM DOS DIAS
quinta-feira, 2 de julho de 2026
O MAESTRO
dirige com o mindinho
tem pé de atleta chato
tropeça amiúde nas micoses
e por isso teme sobretudo
a folha cadente do velho plátano
o pó na passadeira vermelha
dos mosquitos ziguezagueantes
é maestro de mau estro
atonal do pensamento
e bufa pelas narinas
enquanto dirige as próprias gralhas
que em bando esvoaçam alegremente
sobre coros e ensembles
quarta-feira, 1 de julho de 2026
50 x 43
Escrever a partir de não é o mesmo que escrever como. Na música fala-se de cover, versão, e raramente o original é, por assim dizer, superado. A não ser que seja a base a partir da qual outra coisa nasça, algo em relação com que não é cópia de. Também na poesia os motes e as formas sugeriam variantes, versões, variações, tantas vezes confundidas com plágio. Hoje fala-se de intertextualidade, paráfrase, mas isso já pouco tem que ver com os modelos a partir dos quais, segundo determinadas regras, algo inovador desabrochava. Não se pode meter mel onde há vinagre. Na série American, Johnny Cash mostrou como se faz, assimilando originais que acolheu como seus para nos oferecer versões tantas vezes preferíveis ao ponto de partida. Canções dos U2, Depeche Mode, Nine Inch Nails conheceram novas formas de vida na sua voz, com arranjos minimalistas, em toada acústica, ao lado de baladas tradicionais como Mary of the Wild Moor. É uma lição que nos explica qualquer coisa de precioso, o modo como o outro encarna em nós, diálogo secreto entre essências aparentemente distantes a ponto de nos parecerem inconciliáveis. E, no entanto, aí estão as versões a dar conta de que o ponto de chegada está ao nível do ponto de partida, ou supera-o, quando o acolhemos não apenas por lhe tocarmos a pele, a superfície, mas por lhe chegarmos à alma, isto é, ao osso revestido de carne, músculo, veias, nervos. A vida de Cash deu origem a um belo filme, ele próprio foi actor, deu origem a novelas gráficas, vai dando origem a muita coisa por ser uma vida que diz muito a muita gente. Na série American ele mostrou-nos por que trilhos as almas se ligam. Estou a ouvir repetidamente a versão que fez da canção The Mercy Seat, de Nick Cave & The Bad Seeds, e a pensar como tudo seria mais honesto se não nos quiséssemos impor aos outros, antes aceitando-os como parte integrante de nós a partir do que nos liga, do que nos aproxima, dessa essência que define esta coisa chamada transitoriedade e que não carece, definitivamente, de mel onde existe vinagre.
terça-feira, 30 de junho de 2026
INVERNO
Eu estive lá
várias vezes
à tua espera
à tua procura
Mas tu nunca estavas lá
Várias noites
Fui lá
A MULHER
Sim
Jon Fosse, in Inverno, tradução de Pedro Porto Fernandes, Artistas Unidos, Cotovia, Fevereiro de 2005, p. 62.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
UMA CRIA
Entalado entre as tiras dum tapete de alumínio
a cria caída do ninho bate insistentemente as asas
tentando sobreviver no hostil universo dos homens
Fico a olhar para aquele ser frágil e inofensivo
sem saber qual o melhor procedimento
Devolvo-a ao ninho ou deixo que a natureza se cumpra?
É da natureza das crias caírem dos ninhos
mas será natural ficarem entaladas entre tiras de alumínio
como criminosos condenados por crime nenhum?
Que crime cometeu aquela criatura? Tentar voar?
E enquanto rastejo em cogitações inúteis
a desafortunada ave perece sem ninho nem voo
domingo, 28 de junho de 2026
AGÊNCIA FUNERÁRIA
Esta noite sonhei que tinha sido contratado para fazer um anúncio da Agência Funerária Tarzan. Era assim: um velório, sala vazia, o morto dentro do caixão. De respente, o morto erguia o tronco e fazia o grito do Tarzan: "Aaah -eeh- aaah- eeh- aaah" (pedi ao ChatGPT ajuda para reproduzir isto). Começavam a aparecer animais de todo o lado. Voz-off: "Com agência funerária Tarzan ninguém fica esquecido". Depois morri, isto é, acordei.
sábado, 27 de junho de 2026
BESTIÁRIO VISIGODO
sexta-feira, 26 de junho de 2026
MÃE DO OUTRO LADO DO ESPELHO
Escuro. A luz sobe muito lentamente sobre uma figura central. A pouco e pouco, apercebemo-nos de uma mulher idosa em cena, sentada numa poltrona grená, a segurar um búzio junto a um dos ouvidos. Ao lado da poltrona, repousa uma cana de pesca.
Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
26 de Janeiro de 2021. Não recordo há quanto longe minha mãe morreu.
Esqueci-me do som da sua voz. Guardas a voz de minha mãe?
Mal a compreendo no reflexo das águas do meu tempo, parece-me tudo tão vago, não há um único contorno definido, definitivo.
A mulher pousa o búzio no chão. Pega na cana de pesca e lança o fio na direcção do público.
Mãe, onde estavas quando eu morri?
Ouviste-me gritar enquanto me vestiam aquelas roupas idiotas e pediam que posasse para a fotografia com um crucifixo nas mãos? Terás escutado as minhas preces?
O padre Armando dizia: com dois pais nossos e três avé-marias isso passa.
Ajoelhei-me logo ali, à saída do confessionário, e rezei na esperança de que me ouvisses. Mas tu não ouviste, estavas demasiado atenta aos pormenores para que pudesses ouvir-me.
O fio da cana de pesca treme.
O quê?
Quem és tu que mordeste o isco invisível das minhas dores?
Desculpa, mãe, tu não tens culpa pelas minhas culpas.
És tu, peixe da minha infância?
A mulher gira a manivela, olha o anzol, sorri.
Vês mãe, continuas sob o reflexo das águas, invisível como sempre. Não há meio de morderes o isco.
Seremos o isco do tempo, mãe?
Eu rezo, eu oro, suplico, imploro: olha para mim.
Volta a lançar o fio na direcção do público.
Só queria que olhasses para mim, não que olhasses por mim, bastava-me que olhasses para mim. E que visses, que dissesses qualquer coisa, que por um momento te aproximasses medindo as bainhas das avé-marias e dos pais-nossos com que era suposto limparmos o corpo.
Ouves-me no reflexo das águas?
Vês-me no silêncio dos búzios?
Voltei-me para o mar à espera de ser salva por um naufrágio, de uma baleia que me engolisse e vomitasse, de um silêncio que me calasse. Agora estou velha, não digo coisa com coisa, não penso coisa com coisa, não faço coisa com coisa. Tenho a tua ausência dentro de mim e o homem de saias continua a dizer-me: reza que isso passa.
E eu rezo, mas não passa, não há meio de passar.
O fio da cana de pesca treme. A mulher gira a manivela, observa o anzol, sorri.
Nada.
Ninguém.
A mulher morde o isco, gira a manivela, tenta pescar-se a si mesma. Gira a manivela sem parar, luta consigo própria, puxa-se, resiste a si mesma, cospe o isco, larga a cana, senta-se exausta. Acalma a respiração. Passa algum tempo em silêncio. Volta a pegar no búzio, retomando a posição inicial.
Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
Já não me recordo há quanto longe morri.
Esqueci-me da cor da minha voz. Esqueci-me do som da minha pele.
Guardas a pele de minha mãe?
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
Podes repetir?
Eu rezo e não passa.
quinta-feira, 25 de junho de 2026
AMOR BABÉLICO
quarta-feira, 24 de junho de 2026
FASCISTAS DE ESQUERDA
Os fascistas de esquerda estão preocupados
com a cor dos sapatos
com o tamanho da fonte
com a hierarquia dos apelidos
com abreviaturas e extensões
com acrónimos e títulos
com o número da reserva
com a posição na bicha
com o posicionamento central
com a justificação das margens
com a fotografia de perfil
com convites e dedicatórias
com a sensível selecção de prioridades
com o tratamento
com a ordem do serviço
com o cocktail de fim de tarde
com o número de estrelas
com as unidades de medida
com o rigoroso cumprimento dos protocolos
com a mosca na sopa
e também com as assimetrias neste mundo
cada vez mais inadmissivelmente desigual
terça-feira, 23 de junho de 2026
segunda-feira, 22 de junho de 2026
AOS QUE PARTIRAM
Hoje é em vós que penso
Vem não sei d'onde nem porquê
esta nostalgia dos corpos desaparecidos
esgares envoltos em neblina
vozes que por vezes 'inda ouço
mas chegam-me agora sem rosto
mas é mesmo num leito de melancolia
que mergulho em busca de vestígios
memórias vagas de momentos passados
e então a tristeza muda de cor
como um réptil à passagem do tempo
imagens projectam-se no escuro
e há corpos a caminhar sobre as águas
tornando presente o último abraço
a mensagem derradeira
falhas irredimíveis à espera de silêncio
domingo, 21 de junho de 2026
GENEBRA
sábado, 20 de junho de 2026
SÍSIFO
B observa A a dormir. A acorda.
B: Pareceu-me que estavas a dormir.
A: Nada, absolutamente nada.
B: Nem um bocadinho?
A: Nada.
B: Nem um segundo?
A: Nada.
B: Nem uma fracção de segundo?
A: Nada.
B: Pareceu-me que estavas a dormir.
A: Estava só de olhos fechados.
B: Sim, estavas de olhos fechados. Só.
A: A tentar adormecer. Só.
B: Estive a observar-te. Estiveste longas horas de olhos fechados.
A: Só a tentar adormecer.
B: Nem pestanejaste.
A: Estava à espera.
B: À espera de quê?
A: À espera de adormecer.
B: Esperaste longas horas pelo sono.
A: Esperei?
B: Eu vi-te à espera. Estive a observar-te.
A: Não foi pelo sono que eu esperei, o sono chegou. Não consegui foi adormecer.
B: Entendo. Estavas com sono, mas não conseguiste adormecer.
A: Isso mesmo.
B: E então esperaste de olhos fechados.
A: Esperei de olhos fechados para me libertar do sono. Só queria dormir para me libertar do sono.
B: Mas não conseguiste.
A: Não, continuo a carregar o sono.
B: Como um fardo.
A: Isso, como um fardo.
B: E o sono pesa muito?
A: Sim, sonhei que o sono pesava muito.
B: Sonhaste?
A: Sonhei.
B: Se não dormiste como é que sonhaste?
A: Sonhei acordado, mas de olhos fechados.
B: Deliraste?
A: Não, sonhei acordado.
B: Imaginaste?
A: Não, sonhei acordado que sono pesava muito.
B: E depois?
A: Sonhei que carregava com o sono, que o sono pesava, era um fardo, era só um fardo, e eu ora fechava os olhos, ora abria os olhos, mas não me libertava do sono, carregava com ele às costas, os ombros pesavam-me, carregava com ele aos ombros, e o sono pesava, os ombros pesavam-me, o sono pesava cada vez mais e eu carregava.
B: Quanto pesa o sono?
A: Pesa muito, pesa imenso.
B: Talvez possas libertar-te dele.
A: Como?
B: Largando-o num lugar qualquer.
A: E como é que eu poderei largar o sono num lugar qualquer?
B: Varrê-lo dos ombros, largá-lo das costas.
A: O sono pesa dentro de mim.
B: Então esvazia-te.
A: Está na minha alma.
B: Desfaz-te da alma.
A: Está na minha cabeça.
B: Corta a cabeça.
A: Corto a cabeça?
B: Sim, corta a cabeça.
A: Entendo. Se me decapitar, então perderei a cabeça. Logo, decapitarei o sono.
B: Isso, liberta-te do sono, liberta-te da tua cabeça.
A: Não sei se será boa ideia.
B: Mas afinal o que preferes, continuar a carregar o sono?
A: E depois?
B: E depois o quê?
A: Depois de cortar a cabeça seria o fim, nem sono, nem cabeça, nem ombros nem costas, seria o meu fim.
B: Seria uma leveza.
A: A ausência de peso.
B: Finalmente adormecerias, finalmente o sono iria à vida dele.
A: E eu à minha.
B: E tu à tua.
A: Acho que vou fazer isso.
B: O quê?
A: Cortar a cabeça.
B: Eu continuarei a observar-te, continuarei aqui a observar-te, não te preocupes, logo te direi coisas.
A acena com os braços.
B: Sim ou não?
A acena com os braços, percebe-se que a resposta é negativa.
B: Caramba, nem sem cabeça conseguiste adormecer?
A acena com os braços, percebe-se que a resposta é afirmativa.
B: Nesse caso, talvez possas livrar-te dos braços.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Seria complicado?
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Pois claro, estou a ver, com dois braços só conseguirias desfazer-te de um.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Absolutamente, tens toda a razão, só com um braço não é certo que conseguisses adormecer.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Queres que eu te corte os braços?
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Só um braço?
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Mas eu não posso fazer isso.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Nem pensar, isso não.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Porra, que pesadelo, não, já disse que não, nem pensar, isso é que era bom, eu não vou cortar-te os braços.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B vai-se afastando sorrateiramente.
A acena com os braços, não pára de acenar com os braços, continua a acenar com os braços.
B desaparece.
A acena com os braços.


