antologia do esquecimento
segunda-feira, 8 de junho de 2026
SERVIÇO PÚBLICO
quinta-feira, 4 de junho de 2026
ESPECTÁCULO
quarta-feira, 3 de junho de 2026
ODE A KAVÁFIS
Os dias começam sempre à hora errada
e só no fim vencem com a paz do sono
em busca de louros sem espinhos
seguimos em trânsito das aldeias para as vilas
e destas até às cidades
sentindo nos ombros o peso da derrota
que nos devolve ao ponto de partida
e de Bizâncio, que Babilónia afundou-se
e dos impérios restam ruínas e destroços
nada didácticos nesta corrente de futuros babélicos
da fortuna madrasta
do desconcerto do mundo
do mortal quebranto lançado por inimigos
tão fantasmáticos quanto os heróis literários
só com paciência poderá ser regada a planta
até o fruto falar na boca de quem come
como a distribuição das horas pelos calendários
com que ateamos piras
onde cremar frustrações
mas um dia paramos e vemos arrastadas pelas águas
as ambições outrora vigorosas
os sonhos outrora vigilantes
são então coroas de espinhos na cabeça dos vencidos
agradecemos a pateada com sorrisos no rosto
a indiferença é o nosso escudo de Aquiles
contra a espada de Dâmocles
até ao último suspiro
e continuamos depois de mortos
a fazer do fracasso uma festa
terça-feira, 2 de junho de 2026
SANTOS POPULARES
Arraiais, carnavais, cortejos, desfiles, feiras
medievais, festas e festivais, peregrinações, picarias, queimas das fitas,
marchas populares, sunset parties, tasquinhas, touradas, largadas. E conceitos,
muitos conceitos, conceitos para tudo e para mais alguma coisa. Até já
inventaram as sardinhas e os manjericos de conceito. Espremido, é mais do
mesmo, tédio, boçalidade, a uniformização do gosto, um calendário repetitivo,
monótono, promotor da parolice, da saloiíce, com multidões de indivíduos que
não se distinguem uns dos outros, singularidades hipotecadas, chusmas de
criaturas copiadas a papel químico, robots, clones aos pulos tingidos de
alegrias infinitas e ruas repletas de lixo a cheirarem a mijo.
segunda-feira, 1 de junho de 2026
BANQUETE
São tantos dentro de um só, em busca de sentido para a multidão que corre e se agasta e se prostra como bandos de abutres a pairar sobre carcaças velhas. Tantos dentro de um só a remoer os ossos cegos, surdos e mudos das ambições sem mesura, a vomitarem pelos olhos o que emprenharam pelos ouvidos: nada com eles, não sabem, não viram, e só a curiosidade pesa no voo rasante que serpenteia com renovados venenos as presas fáceis de capturar. Horas e mais horas investidas a projectar futuros que chegam sempre com atraso e não raras vezes se perdem pelo caminho, como génios na esquina do esquecimento. Mas descansai, ó abutres, há mortos que emergem do Hades com a mesma cara de parvos que tiveram em vida para que possais satisfazer vossa ávida gula necrófila. Podeis então palitar o bico com perónios desossados pelo cansaço das peregrinações que sempre levaram os fiéis a lugar nenhum. (Numa exposição de Manuel João Vieira, Maat).
domingo, 31 de maio de 2026
UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD
DIGRESSÃO
sábado, 30 de maio de 2026
LX 26
*
28.05: O patrão da petisqueira Estrelinha trata-me por querido. A patroa trata-me por menino. A empregada chama-me jovem. Estou à espera que um dia alguém se me dirija por "querido jovem menino". Então querido jovem menino, o que é que vai ser? Vou ser querido, vou ser jovem, vou ser menino.
*
29.05: Está a decorrer a maior Feira do Livro de Lisboa de sempre, rendida a dois ou três grandes grupos editoriais com pavilhões como nunca se viu. Por esta altura, o Parque Eduardo VII povoa-se de pavões nos pavilhões e de crocodilos que se fartam de chorar sempre que uma livraria independente desaparece.
*
30.05: 45 minutos à espera para ser atendido numa
farmácia. Dois funcionários no atendimento ao público, três a andar de um lado
para o outro. Gente a reclamar para orelhas moucas. Finalmente chamado, lá vou
debitando os números da receita. Um, dois, três números. Quatro vezes
pronunciados, porque havia sempre algum que falhava. Quer genérico ou de marca,
perguntou a estimável de serviço. Quero ir-me embora daqui quanto antes,
respondi-lhe. Ah, é que posso não ter genérico. Então traga o que tiver, eu
depois pago-lhe com a minha simpatia genérica. E pronto, é isto.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
UMA CRIANÇA OCUPA O TEMPO
quinta-feira, 28 de maio de 2026
DE UMA PEÇA DE ANTON TCHÉKHOV
quarta-feira, 27 de maio de 2026
CATARATAS DE BARATAS
terça-feira, 26 de maio de 2026
SENTIDO ÚNICO
Pagas a água, pagas o gás
pagas o gasóleo, pagas a luz
pagas a renda, pagas o IMI
pagas IRS, descontas, pagas
pagas o que comes, pagas o que vestes
pagas portagens, pagas passe
pagas bilhete, pagas ingresso
pagas a factura, pagas a taxa
pagas a contribuição audiovisual
pagas o médico, pagas a farmácia
pagas o avio, o diploma, a concessão
pagas o alívio, o ar condicionado
pagas o mobiliário, os talheres
pagas para provar que existes
pagas a multa, o atraso, a infracção
pagas com as próprias mãos
pagas o comprovativo, o papel
pagas juros, despesas de manutenção
pagas com trabalho
trabalhas para pagar
pagas para viver
vives para trabalhar
vives para pagar
e depois morres
segunda-feira, 25 de maio de 2026
OS JUGOSLAVOS
domingo, 24 de maio de 2026
GALETO
bate asas no meu peito
Com toldos nos olhos
levanta voo o desejo
Do lado direito rodopiam
pernas escancaradas
sob sedas serpenteadas
Um croquete preliminar
e fico-me pela bifana
GENTRIFICAÇÃO
Escreve João Vieira
Pereira, no Expresso:
"A
gentrificação não só arrasou bairros inteiros como está a mudar cidades e até
regiões. O centro de Lisboa é hoje disputado entre o turista e o residente
milionário. O mesmo se passa na linha de Cascais. A poucos minutos para norte,
a Ericeira tornou-se um dormitório de jovens estrangeiros a viverem o sonho de
serem nómadas digitais. Troia e Comporta estão a transformar-se em guetos para
milionários que acham que ganharam o direito de escorraçar todos os outros que
não partilham o mesmo gestor de fortunas. Os condomínios privados, com preços
em que apenas um lote de terreno chega aos vários milhões de euros, são
recebidos com orgulho pelo português, pacóvio e deslumbrado, mas que nunca terá
dinheiro para lá entrar. O mesmo que não percebe que a abertura de escolas
internacionais com mensalidades de vários milhares de euros é apenas uma
resposta de uma elite predisposta a sugar a qualidade de vida que encontraram e
que nessa senda procuram transformar-nos no espelho do país que deixaram para
trás. Esta invasão milionária está a descaracterizar Portugal a uma velocidade
vertiginosa."
Um país a saque,
cada vez mais desigual, entretido com feiras, festas e festivais, fátimas,
futebóis e fados, um país que é cada vez mais aquela imagem de um homem a
afundar-se num pântano que Manoel de Oliveira nos legou: a mão, a mão,
suplicava o desgraçado, enquanto à volta dele os miseráveis bulhavam sem
conseguirem organizar-se. Na AR, horas infindáveis de questiúnculas sem
sentido, burcas, notas de pesar e palermices entretêm o pagode. E o país é
isto, esta boçalidade, esta indigência, tudo rendido ao negócio, ao lucro, à
sala cheia a qualquer preço. Mas fiquem descansados: não há qualquer proibição
de colocar os chapéus à frente das zonas concessionadas nas praias. Que alívio.
sábado, 23 de maio de 2026
MEMÓRIA E ESQUECIMENTO
Visita aos arquivos Ephemera na Vila da Marmeleira. Guardem tudo, não destruam nada, repetiu insistentemente JPP, que começou por citar Brecht para justificar uma história que se recupera não só pelos Césares, mas também pelo quotidiano comum. Evitarei juízos de valor sobre o bicho que corrói as provas, até por vivermos num tempo em que a memória está sob ataque. O esquecimento diz-me muito, é o motor da escrita, da criação, é esta paradoxal vontade de deslocar para fora o que pesa dentro. E depois as coisas ficam por aí, pilhas sobre pilhas de objectos, palavras, documentos que alguém se encarregará de conservar ou transformar em cinza. No jardim, um prato de parede com uma quadra: «Os calos das tuas mãos / São bem as tuas medalhas, / São o símbolo da nobreza / Que tu tens porque trabalhas.» Poesia popular, dizem, sem autor que se conheça. E no entanto, ali está para a eternidade.





