segunda-feira, 22 de junho de 2026

AOS QUE PARTIRAM

 
Hoje é em vós que penso
Vem não sei d'onde nem porquê
esta nostalgia dos corpos desaparecidos
esgares envoltos em neblina
vozes que por vezes 'inda ouço
mas chegam-me agora sem rosto
 
Perdoem-me o sentimentalismo
mas é mesmo num leito de melancolia
que mergulho em busca de vestígios
memórias vagas de momentos passados
e então a tristeza muda de cor
como um réptil à passagem do tempo
 
Dentro da cabeça zunem os insectos
imagens projectam-se no escuro
e há corpos a caminhar sobre as águas
tornando presente o último abraço
a mensagem derradeira
falhas irredimíveis à espera de silêncio

domingo, 21 de junho de 2026

GENEBRA

 
Alguém sabe como está a vida em Genebra? Já recuperaram das escolas destruídas, dos hospitais em ruínas, das zonas habitacionais em cinzas? E dos jornalistas assassinados, dos médicos executados, das crianças, dos velhos, das mulheres e dos doentes exterminados? Alguém pode dizer se Genebra ainda existe? Estou preocupado, os extremistas da extrema-esquerda andavam a destruir aquilo tudo. Terá sobrado alguma coisa? Não deviam a RTP, a SIC, a TVI, a CNN, a CMTV, o Now agendar uma entrevista exclusiva com André Ventura para nos esclarecerem sobre o massacre em Genebra?

terça-feira, 16 de junho de 2026

LIXO EM CHAMAS

 
Tanto comentador indignado com caixotes do lixo e carros a arder em Genebra, tantos jornalistas a encher a boca com grupos de jovens radicais de extrema-esquerda, horas e mais horas em directo diabolizador. Na Irlanda do Norte prossegue o pogrom, Gaza são cinzas, o Líbano foi invadido, na América continua o mundial da vergonha... O ICE pode perseguir, torturar e matar, Netanyahu pode exterminar, nas televisões os cúmplices do genocídio têm antena sem contraditório, queimar carros e baldes do lixo é que não pode ser, que horror. Vendam já a RTP ao Ventura, vendam-lhes o mundo inteiro, será o paraíso na Terra.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

CONGROSSOS

 
Esta noite sonhei que tinha organizado um congresso de congressistas. A sala estava cheia de pessoas que passam a vida em encontros a falar para o boneco, que, no meu sonho, era uma vasta plateia de congressistas, todos com cara de manequim em montra de estabelecimento falido no centro histórico da cidade. Falavam para o boneco sobre o sexo dos anjos, apresentando power points, isto é, pontos poderosos do tipo ponto de exclamação travestido de herói da Marvel, ponto de interrogação que mais parecia a mulher maravilha ou super mulher ou lá o que era, ponto final com cara de reticências. Neste congresso de congressistas, a certa altura houve um intervalo para café, ou seja, um coffee break, em que os oradores que oravam para outros oradores puderam trocar impressões sobre o clima, a selecção nacional e a temperatura ambiente. Também houve uma sessão de networking com vários congressistas a desfiar novelos de lã, exercitando ponto de cruz antes do drink de fim de tarde, mais propriamente dito intervalo para copos e acepipes. Alguns pontos de interrogação cortaram na casaca de um ponto de exclamação antes de regressarem às reticências. No final, depois das conclusões inconclusivas, as pessoas-manequim foram para casa com a sensação de dever cumprido em mais uma reunião para reunir sem nada concretizar. Levaram de recordação um saco de plástico com uma esferográfica bic azul e as centrais do Correio da Manhã (patrocinador do grande congresso de congressistas profissionais). Tinham falado, tinham orado, tinham obrado e os croquetes até não era maus. Eu despertei com a boca seca.

domingo, 14 de junho de 2026

PRAIA DOS SUPERTUBOS

 
Como tornar claro junto de alguém a ignorância que impede ver para lá do que se julga certo? Pessoas cheias de certezas são, geralmente, as menos informadas ou, pelo menos, as menos predispostas a aprender, isto é, a pôr em causa o que se supõe inequívoco. É um esforço tremendamente ingrato tentar demonstrar a alguém a fragilidade das suas convicções inabaláveis, pois acabarão por te julgar pretensioso, tomar-te-ão por arrogante ou convencido quando, na verdade, só pretendes dizer: desconfia de ti, tal como eu desconfio de mim. À desconfiança, preferem verdadeS coladas com cuspo, certezas fundamentadas em percepções subjectivas, historietas. Esses que demonstram ter pânico do silêncio e, por isso, não se calam com o relato das suas experiências pessoais, convencidos de que a verdade se alicerça nessas experiências, reduzindo o mundo ao que experienciaram, recusando ver para lá da ponta do próprio nariz.

sábado, 13 de junho de 2026

O ARTISTA

O artista, a artista, o espectáculo, puta de palavra que me irrita cada vez mais, a pose, a fotografia, a entrevista, o nome, em gordas, please, li no Pontalis que os livros deviam ser todos publicados sem nome de autor, cita alguém, não me lembro de quem, fica ideia sem nome, são as melhores, porque, ai, o autor, os autores, páginas e mais páginas cheias deles, com fotografias, muitas, imensas, inúmeras fotografias, e letras garrafais, e lantejoulas, e néones, e palmas, claro, muitas palmas, bravos e bravíssimos lançados com perdigotos na direcção do proscénio, da mesa redonda, nunca esquecer que o bravo vem acompanhado de cuspo, a matéria sensível do escarro, bravos são escarretas, portanto aplausos, luzes, muitas luzes, cartazes, currículos, olhem para mim aqui, tão genial entre génios, ao pé de mim Homero nem homem foi, foi um erro, foi um homem erro, homerro, por corrupção ficou Homero, percebem, agora eu, eu assino, eu autografo, eu cá sou bom, tenho penas, levanto voo nas festas, nas feiras, nos festivais, sou um tapete voador com aladinos de pés chatos, pés de atleta comidos por vermes, sou um tapete voador onde limpar os pés, sou um colchão, alguém se deita em cima de mim e faz o amor ao ritmo das penas, são de pavão, de galaró, de capão, amor capão é que é, e eu a ler sozinho mais um Rimbaud Rembrandt enquanto van grogo girassóis domesticados, nunca ninguém perceberá que aquilo vem dos índios, foram os selvagens que domesticaram os girassóis, é preciso dizê-lo para que percebam e, em percebendo, fazem-se entendidos, mas ó miséria, nem a ponta do nariz conseguem tocar com a língua que dizem pátria, limpam os pés, descalçam-se à entrada, é triste, um desconsolo, valha-nos o silêncio da garrafa vazia que olha para nós no umbral da janela.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

UM SONHO DE BERNARD RÉQUICHOT

 


   Sonho do dia 4 de Agosto, continuação.
   a minha mãe, sentada não muito longe de mim, insistiu veementemente para que eu continuasse a tomar os medicamentos. Respondi-lhe que ela não era ninguém para me dar lições. O padre Coudert aproximou-se de nós e também me recomendou um medicamento de nome desconhecido. Uma longa chave inglesa de aço fino saía do meu bolso: eu não estava nada confuso, pois era o único a saber que essa chave inglesa tinha sido a minha pila.
   Depois, eu estava na rue Féray, em Corbeil, e cruzei-me com o meu pai, que me disse para onde ia. Entrei no jardim de casa; um homem suspeito seguia-me: polícia, ladrão, assassino? Foi no meu encalço, tirei da caixa de correio um calhau que talvez fosse de gesso e atirei-lho à cara; a pedra não caiu, ficou-lhe pousada no nariz, parecendo até que se transformava em carne. Perante tal prodígio, senti-me impotente e compreendi que a morte estava a chegar. Mas também compreendi que, para me libertar da minha preocupação, nada melhor do que não temer a morte; saindo do jardim, atiro-me para a frente de um camião em movimento, ou terá sido o camião que se atirou para cima de mim? Não importa! Atravessei o camião radiante como um espírito puro. Estava banhado por uma onda de felicidade. Uma luz intensa acordou-me.
   Ela, a Isolda, a Beatriz, a Ofélia dos teus sonhos, hoje mensageira de um mundo desconhecido, ela que te parece ser a fada, a aurora de um novo dia, ela que é bela, mas talvez apenas para ti e somente enquanto durarem as rosas, o que será ela para ti, após a 365ª noite de amor, além de uma carne familiar? Uma propriedade legítima, um bem imóvel, pouco mais do que um  armário e quase tanto quanto um gato? Um material utilizável para prazeres sem alegria, alívios sem felicidade, hábitos desprovidos de poesia que terão perdido todo o encanto das coisas desconhecidas, proibidas ou raras. A tua 365ª noite de amor pesar-te-á em lassidão, qualquer que seja a tua ternura por essa carne contra a tua carne, quaisquer que sejam as tuas palavras: meu amor, meu coelhinho, meu chuchuzinho; gentilezas de que te cansarás, do rápido que se desgastam essas palavras que nos levam a dizer... «o amor consiste em poder sermos parvos juntos».
   Nessa altura, as horas mais belas da tua vida não serão mais do que o leitmotiv das velhas histórias que contarás aos teus amigos e que a tua mulher saberá de cor; não guardarás mais no fundo de ti senão o amargo arrependimento de já teres tido 24 anos, amplificado pelo remorso pesado de teres escolhido tu mesmo a abdicação da tua juventude.

Bernard Réquichot, in Escritos Diversos, tradução de Joana Jacinto, prefácio da historiadora de arte Claire Viallat-Patonnier, Barco Bêbado, pp. 148-149.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

INFANTINO

 


Gianni Infantino é, por estes dias, o rosto da mais ignóbil venalidade que assaltou o mundo. Depois do gesto bajulador com prémios da paz a cheirar a tumefação, aí o temos diariamente a pôr água na fervura, a usar paninhos quentes, a oferecer a sua cara de pau careca a uma organização que é a antítese do espírito desportivo. Mas não nos iludamos, a uma escala micro este mundo está repleto de infantinos cujo propósito único e final é apenas e tão-só ficar bem na fotografia ao lado de quem lhes possa ser útil às ambiçõezinhas mais fúteis. Sem o mínimo escrúpulo daquilo a que podemos chamar ética social, o que move esta gente é a vaidade, o egoísmo, enfim, a vanitas. E o povo vai atrás como n’A Parábola dos Cegos, de Bruegel, o Velho, a fazer bicha no beija-mão que sempre entusiasma as hostes e sintonizando o canal na selecção porque, enfim, as violações anais do CR7 serão sempre mais entusiasmantes do que o extermínio em Gaza. Depois é ouvi-los queixarem-se de berardos e espíritos santos a quem só não beijaram o cu se não puderam, pois a culpa é da justiça portuguesa, dos ciganos e dos comunistas.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O MEU PAÍS É O MEU CORPO

 
O meu país é o meu corpo
Para lá das fronteiras do meu corpo
não me reconheço de país algum
Da língua não faço pátria
Por fortuna ou azar
calhou-me esta e não outra
A ter mátria seria talvez
uma língua de fogo no deserto
Do passado não me orgulho
nem me envergonho
Não foi meu e já passou
O que me desassossega é ter
de carregar comigo para todo o lado
este presente a cada segundo desfeito
sem futuro que nos motive
Bandeiras são trapos ao vento
Hinos são fraseados de mau gosto
Não me digam de um país
que não seja a minha própria morte
a cada dia vivida em tragos sôfregos
de bebedeira e liberdade

terça-feira, 9 de junho de 2026

LUCRECIA

 


São quilómetros de cabelagem até chegar aqui, a este estado de afasia diante do monumento. A Lucrecia de Shakespeare mergulhou no Tejo e por ali ficou como Ofélia a gerar sargaço, sonhando com troncos hamletianos que se abrem ao meio como casacos com fecho de correr. Lazaro ergueu-se da morte para brincar com tarolas e tambores, é uma criança no seu parque infantil privado, veste e despe um Lou Reed berlinense enquanto mete o povo aos saltos. Vertiginoso ritual percutido nos músculos que cedem sem esforço algum à agitação preliminar, ainda que o meu coração palpite por outros abismos. Lucrecia aproxima-se, vinda de outras paragens, com um copo de vinho branco na mão, «divina, desviada». Dirige-se-nos numa língua e tom compreensíveis, diz que gosta do nosso peixe, justifica a lentidão das canções que vai discorrendo «hasta el final» com serenidade invejável. E sorri. Sabemos que somos um perigo para nós próprios ao ouvi-la. Podíamos dizer “amo-te” convencidos de que o pronome oblíquo átono sairia disparado do verbo como flecha no arco de um qualquer querubim. «¿donde caes, si caes?» Talvez de mim mesmo, aqui especado a seguir com os olhos os cabos enrodilhados como um novelo de lã que te embrulha a voz. Por vezes, perco o equilíbrio, sinto-me vacilar, penso que vou desmaiar, aquela sensação de quebra logo arrematada em tronco firme. É da coluna, penso, sempre a ceder a puta da coluna. E não é que corro o fecho da maçã-de-adão ao umbigo e também de mim brota um mar de sargaços como uma espécie de sistema venoso vegetal. Sou uma planta de mim mesmo, um projecto em construção, ainda respiro, é possível que sim. (Alex Lazaro e Lucrecia Dalt no B.Leza Club.)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

50 x 42

 


Não gosto da palavra espectáculo, nunca gostei. Infelizmente, vejo-me a pronunciá-la vezes sem conta nos últimos tempos. Defeitos de ofício. Tudo o que repousa na palavra espectáculo repugna-me, dos egos inflamados do criador em busca de aplausos à ritualística pose dos espectadores que se levantam a bater palmas enquanto cospem bravos da sala para a cena. As pessoas não deixam de ser pessoas por se deslocarem do quarto para a cozinha, a intriga move-as, a perspectiva de sucesso motiva-as, a vaidade alimenta-as, a concorrência transforma-as, e no fim resta pouco mais do que castelos de areia enquanto adornos de uma vida que é sempre de passagem. Por outro lado, chegar a casa e sentar-me a ouvir “Hunky Dory”, gravado ainda eu não era nascido, leva-me a pensar que a hipótese de vida em Marte não tornaria melhor a certeza de vida na Terra. Isto é o que é, o dever único que se nos impõe é encontrar maneira de ser, pelo menos, um pouco mais agradável, ou seja, não cairmos nós também na teia de ambições que nos enoja, aprender a caminhar sob as areias movediças do pântano em que vemos afundarem-se os ricos de espírito. Bowie deixou antes de morrer uma lição chamada “Blackstar”, ele que andou por baixo, pelo meio, por cima, sempre a escrever canções mais sólidas do que castelos de areia.  Tem a eternidade garantida. O último disco, revelado pouco antes da viagem derradeira, é uma lição de aprendizagem da morte, objectivo de qualquer ser humano neste mundo segundo ensina o “Fédon”. E vem tudo numa estrofe do tema que oferece título ao conjunto: «I can't answer why (I'm a blackstar) / Just go with me (I'm not a film star) / I'mma take you home (I'm a blackstar) / Take your passport and shoes (I'm not a pop star) / And your sedatives, boo (I'm a blackstar) / You're the flash in the pan (I'm not a marvel star) / I'm the great I am (I'm a blackstar).» E é isto, somos estrelas negras. Poalha que por aí ficará a pairar para lá de qualquer foco luminoso.

domingo, 7 de junho de 2026

UM POEMA DE KAVÁFIS

 


ÍTICA
(1911)

Quando abalares, de ida para Ítaca,
Faz votos por que seja longa a viagem,
Cheia de aventuras, cheia de experiências.
E quanto aos Lestrigões, quanto aos Ciclopes,
O irado Poséidon, não os temas,
Disso não verás nunca no caminho,
Se o teu pensar guardares alto, e uma nobre
Emoção tocar tua mente e corpo.
E nem os Lestrigões, nem os Ciclopes,
Nem o fero Poséidon hás-de ver,
Se dentro d'alma não os trasnportares,
Se não tos puser a alma à tua frente.

Faz votos por que seja longa a viagem.
As manhãs de Verão que sejam muitas
Em que o prazer te invada e a alegria
Ao entrares em portos nunca vistos;
Hás-de parar nas lojas dos fenícios
Para mercar os mais belos artigos:
Ébano, corais, âmbar, madrepérolas,
E sensuais perfumes de todas as sortes,
E quanto houver de aromas deleitosos;
Vai a muitas cidades do Egipto
Aprender a aprender com os doutores.

Ítaca guarda sempre em tua mente.
Hás-de lá chegar, é o teu destino.
Mas a viagem, não a apresses nunca.
Melhor será que muitos anos dure
E que já velho aportes à tua ilha
Rico do que ganhaste no caminho
Não esperando de Ítaca riquezas.

Ítaca te deu essa bela viagem.
Sem ela não te punhas a caminho.
Não tem, porém, mais nada que te dar.

E se a fores achar pobre, não te enganou.
Tão sábio te tornaste, tão experiente,
Que percebes enfim que significam Ítacas.

Konstantinos Kaváfis, 145 Poemas, tradução e apresentação de Manuel Resende, FLOP, Outubro de 2017, pp. 35-37.

sábado, 6 de junho de 2026

SERVIÇO PÚBLICO

Serviço público é bater palmas
convidar abutres para banquetes de ossadas
dar banho a cães sarnentos
abraçar cobras peçonhentas
beijar mãos e pés ao Papa
catar macacos do nariz
fazer sala em cock tails de fim de tarde
traduzir cock
traduzir tails
juntar as letras e produzir palavras
juntar palavras e produzir expressões
juntar expressões e produzir frases
com que varrer para debaixo do tapete
as migalhas percentuais do apoio às artes
é servir educação em pratos recicláveis
ter prato vegetariano na cantina geral
incluir géneros e identidades
classes e elites
ser altamente experimental
com sonolentas respirações aos pulos
excluir burcas
e déjà vodus com caras de ministros
é andar aos papéis em plataformas digitais
patinar
cair
levantar
e cumprir airosamente os objectivos traçados
com avaliações da casa traçadas com gasosa
ao preço do melhor Cabernet Sauvignon
é por exemplo esturrar ao sol
depois de deixar esturrar a torrada
mergulhada em manteiga vegetal
para dieta neuronal
é meter gosto na página certa
párretilhárre e cômentárre
num comprimento de não sei quantos subscritores
que dêem a volta ao cozido na ponte vasco da gama
a palitar os dentes da consciência
com unhaca de taberneiro
Serviço público é ligar a RTP
pagar taxa audiovisual
adivinhar o preço certo
dançar na praça da alegria
ser ignorado nas opções do palmeirim
em horário salsicha
fazer orelhas moucas dos santos
furtar catarinas
e manter actualziado o relatório de actividades
que algum sub sub secretário do secretário da ministra
lerá nos intervalos da selecção nacional

sexta-feira, 5 de junho de 2026

EL CERCO DE NUMANCIA

 


QUINTO

Sin duda que los fieros numantinos,
del bárbaro furor suyo incitados,
viéndose sin remedio de salvarse,
antes quisieron entregar las vidas
al filo agudo de sus proprios hierros
que no a las vencedores manos nuestras,
aborrecidas de ellos lo posible.

Miguel de Cervantes Saavedra, in La Numancia, Linkgua Teatro 121, Barcelona, 2019, pp. 92-93.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

MARJANE SATRAPI (1969-2026)

 


ESPECTÁCULO

 
Esta noite sonhei que estava no teatro. Andava numa correria, era o único assistente de sala num auditório enorme. As bichas de espectadores davam a volta ao quarteirão, com uma particularidade: eram todos poetas. Neo-realistas, surrealistas, experimentalistas, criacionistas, modernistas, pós-modernistas, farsistas, românticos, neo e proto, classicistas, parnasianistas, futuristas, marginais, concretistas, maneiristas, barroquistas e barraqueiros, espiritualistas, sensacionalistas, sensacionistas, humanistas, anedotistas, naturalistas, naturistas, entre outros. Todos sentados e instalados, a luz do público baixou num lentíssimo e interminável fade out. O actor entrou. Curiosamente, tinha a minha cara e o meu corpo, mas não era eu. Subiu a luz no palco e o actor esperou, esperou, esperou, esperou e continuou a esperar que o público exclusivamente composto por poetas se manifestasse, que dissesse um poema, um verso que fosse. Nada, silêncio sepulcral. Os poetas não falavam, não sabiam poemas, não sabiam dizer, apenas escreviam e pronto, estavam ali para ver e para ouvir sem saberem que o espectáculo consistia naquilo: um actor em cena a observá-los, à espera que dissessem alguma coisa. Não disseram nada, não diziam nada, ficaram mudos e calados.