sexta-feira, 10 de setembro de 2021

JORGE SAMPAIO (1939-2021)

 


“Há mais vida para além do orçamento. A economia é mais do que finanças públicas”.
Jorge Sampaio
 
Faleceu o único político do Partido Socialista em quem alguma vez votei. Tinha 21 anos. Aos 21 anos pensamos que já sabemos alguma coisa, mas o tempo encarregar-se-á rapidamente de nos desmentir. No entanto, não me arrependi. Foi o voto certo na pessoa certa no momento certo. A primeira memória que tenho dele transporta-me para um comício em Santarém, onde fui levado pela mão do meu pai. Impressionou-me o vigor do discurso, recordo-me que em casa o nome dele foi muito comentado por esses dias. A minha família era toda soarista, eu fui sempre outra coisa. À época ainda não sabia qual. Quando entrei na Universidade, em 1992, tinha ainda 17 anos. Sampaio era então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, reeleito no ano seguinte. O sucesso da coligação inesperada com o Partido Comunista Português, ao qual aderi muitos anos depois, dava frutos. Lembro-me bem do que era entrar em Lisboa pelo lado do aeroporto, os extensos bairros de barracas que serviam de cartão-de-visita. Lembro-me da paisagem quando, a caminho da Sobreda, onde residida uma tia minha, atravessávamos o Tejo pela Ponte 25 de Abril. Votei nele em 1995, contra Cavaco. Ouvi ontem o Carlos Brito revelar que o Álvaro Cunhal terá dito, ao tomar conhecimento da intenção da candidatura de Sampaio à Presidência da República, que o PCP devia fazer tudo para que ele ganhasse, pois os portugueses jamais conseguiriam eleger um Presidente da República tão à esquerda. Era um humanista convicto, mais do que qualquer outra coisa. Que descanse em paz, o ex-PR que nos tempos da ditadura esteve sempre ao lado dos perseguidos, dos humilhados e dos ofendidos pelo regime de então. Como advogado, deixa esse legado de haver estado do lado certo quando outros andavam a olhar para o próprio umbigo com oportunismo e cobardia. Como político, foi um excelente Presidente da Câmara da nossa capital e o melhor Presidente da República que este país alguma vez conheceu.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

FESTA DOS PÃES SEM FERMENTO

(com citação de Miguel Torga)

 

Escapámos da servidão sem ver o pão crescer. Ansiávamos por ser livres e partimos, nem tempo tivemos para dizer adeus ao mal que nos fora feito. Apartados passo a passo, lentamente, da levedura com que erguemos pirâmides no forno da terra, em certo sentido fomos o fermento dos nossos senhores, escravos de carga com pedregulhos de Aswan carregados aos ombros. Curvados andámos durante séculos, esturrando ao sol as chagas abertas pelos chicotes dos tiranos. Nada mais nos restava senão fugir, agarrados uns aos outros pela corrente da fé. Assim nos libertámos de uma prisão para noutra nos encarcerarmos. Neste maldito mar andámos à deriva até aqui encalharem os nossos sonhos, rodeados de muros altos como animais selvagens num zoológico de homens, mulheres e crianças. Minha mãe aqui chegou transportada nos alforges dum burro. Eu e meus irmãos somos filhos de refugiados, esta é a história do povo eleito. Deus quis assim. Vem no segundo livro das nossas memórias. Desde então, nosso Pai ordenou que pela Páscoa nos alimentássemos com pão ázimo em memória da maldade padecida. Lembramo-nos do que passámos esquecendo-nos do que somos. Uma boca não pede o que lhe é dado. Por Deus nos foi dada a liberdade que os homens nos roubam. Foram tantas as privações e tão profunda a aflição, eram tempos sem luz e pela treva seguimos por carreiros de cabras como rebanhos extraviados. Oprimidos, pelo deserto nos encaminhou Moisés até ao lugar de Canaã. A nado chegámos à ilha de Lesbos, agora aqui estamos sem ter para onde ir. Encalhados na surdez da Europa, os gritos da nossa fome retumbam mudos na indiferença de quem nos viu partir sem ter onde chegar. Há anos que ouvimos mal. Não é bem não ouvir, é não perceber. Nós ouvimos, mas não percebemos a palavra. Eis a história do nosso êxodo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

HADEWIJCH


 

O amor faz crescer, avassaladora e adstringente, a sua ausência
no teu corpo; e eu amo-te como o amor ama:
— eu desejo a presença da tua ausência no meu corpo.

O teu corpo magro, batido e flagelado pelo vento do espírito
Que ergue, eriça e embaraça os teus húmidos cabelos 
— deixa-me que to beije, que te imponha a marca do silêncio
Marca do mundo e dos amantes
na boca do teu corpo

Pela boca d[esse, teu] copo sopras as vibrações da flauta, as vibrações da
música do teu espírito que apaga e acende (n)o meu corpo. Eu

sacudo a cabeça para me libertar dessa música. Mas ela contaminou
já as nuvens e os lençóis aquáticos. Ela é já o próprio ar.
O ar que a respirar (me) obrigas. Desde antigamente. E agora
O ar é então a tua música soando, a tua música soprada
Por mil tubos.
E as vibrações da música
Entretecem as paisagens
enquanto um barco avança majestoso no mar de erva verde
que o separa de nós.

E é simultaneamente no sonho da tua cabeça inquieta
Nos teus olhos que a luz mediterrânea cega
que ele se afirma sobre o mar original como se fosse
uma longa frase que demoradamente estivesse
a chegar, sílaba
após sílaba,
enquanto um verso vindo do interior
se desfere em rajadas sucessivas sobre as vogais
deixando-as a vibrar contra a abóbada do céu
antigo, ou contra
o céu da boca da deusa que na praia se levanta
para
receber o herói

— tu ias virando as páginas 
passas, agora,
por baixo do arco alto e entras no fim duma rua
que dá para um largo que dá para os campos e campos
da memória, — outra página
e estás deitado
numa duna e outra: passas a ter apoiadas as costas
num maciço de pequenas pedras e de formidáveis raízes
que rebentaram a primeira capa da crosta da terra.

Olhando em frente vês — como se fossem
cabras negras empinando-se magras e empinadas
nas arestas cimeiras das colinas
e minuciosamente
dedicadas
ao seu antigo ofício de cabras: o de pastarem
e ruminarem a erva rala daqueles lugares altos
da paisagem —
um bando de jovens raparigas
em flor
que projectavam a sua voz e a sua sombra cristalina
sobre as águas correntes do masculino rio
que de leste a oeste corta como um raio
o verde vale que escondia as minas
ou a veleira praia que contigo trazias
na areia que te magoava nos sapatos os pés.


Manuel Gusmão, in Contra todas as evidências - Poemas Reunidos III, Edições Avante, Agosto de 2015, pp. 136-137.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

DISCUTIR O INÚTIL

Quem é o primeiro-ministro, António Costa ou Miguel Sousa Tavares? Então porque será que depois de uma entrevista se discute mais o que o entrevistador disse do que aquilo que o primeiro-ministro declarou? Estão satisfeitos com o tom beatífico com que o primeiro-ministro garantiu que um jovem altamente qualificado jamais auferirá um vencimento decente num primeiro emprego? Porreiro, pá. Depois admiram-se de serem governados por Cavacos e Sócrates e afins. Volta Berardo, estás perdoado. Volta Ricardo Salgado, estás perdoado. De resto, nunca fostes condenados. Mas isso também não interessa.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

MY SWEET PASSION (1963)


 

Há tempos um amigo sugeriu-me que publicasse uma antologia da minha poesia. Devolvi-lhe um sorriso, mas fiquei a matutar no assunto. Concluí entretanto que a sugestão só pode ter uma de duas razões: ou esse meu amigo não leu de todo os meus livros ou não percebeu absolutamente nada do que neles ficou gravado. Podem estar mais ou menos bem escritos, podem ter erros, lapsos, gralhas, certamente revê-los-ia a todos com um rigor que nunca mereceram em matéria de revisão, mas foram severamente ponderados, pensados, montados. Cada livro tem uma estrutura e conta qualquer coisa que seria ingrato desmembrar. Não se mistura um poema em prosa de Suicidas (título de que já me arrependi um milhão de vezes) com um poema em verso de A Dança das Feridas, o caminho percorrido em Estação 2012 não se pode baralhar com a sequência intitulada A Grua. Transferir um poema desses livros para uma antologia seria retirar-lhe o sentido fundamental de serem partes integrantes de um corpo com um sentido próprio e exclusivo. Não me interessa nada ser lido por ser lido, e muito menos estou preocupado em agradar a quem quer que seja com o que escrevo. O problema inicial já foi colocado por Manuel Gusmão: viesses tu ao teu encontro e quem estaria lá? É ainda o velho filósofo quem ecoa nestes versos. Conhece-te a ti mesmo, dizia, para que em saindo de nós próprios nos pudéssemos reconhecer ao largo. Escrever um livro tem essa dimensão de sairmos de nós próprios. Jamais me reconheceria numa amálgama de virtudes, prefiro conservar o reflexo da virtude de mãos dadas com o vício. A ideia de perfeição repugna-me, a adoração repele-me, a obra completa traz-me a melancolia dos mortos. Porque nos fixamos num lugar? Quem o escolheu, nós ou as circunstâncias? Aqueles que antes de nós povoaram a paisagem, como aqui chegaram? De onde vinham? Têm saudade? Porque abandonaram o lugar de origem e escolheram este para habitar? Que terão visto aqui, que terão encontrado? Que esperamos nós ainda descobrir? O pianista Duke Pearson, que tinha a minha idade quando faleceu, vítima de esclerose múltipla, compôs a maioria dos temas do álbum Little Johnny C. É um álbum atribuído ao trompetista Johnny Coles, que não tem uma única composição sua no alinhamento. Isto, em literatura, seria o quê? De quem é o poema, de quem o assina ou das vozes escondidas por detrás da assinatura?

domingo, 5 de setembro de 2021

CLÁSSICOS

A maior vantagem de ler os clássicos é eles não passarem o tempo todo a citar os contemporâneos.

UM POEMA CONTRA TODAS AS EVIDÊNCIAS

 


Do ritmo das ondas: algumas estações

Algumas estações atam e desatam os dias
em que o labirinto do destino se inventa e ramifica
instável constelação ameaçada e efémera.

Séculos antes
daquilo a que eles chamam o início do primeiro milénio
entre as duas margens do mar mediterrâneo
outros terão inventado e reiventado alfabetos,
essa terceira margem do mundo, em que o mundo
constrói os seus teatros solares, de água e
pedra e tempo: o coral em ondas.
Essas letras escreviam árvores nas páginas do ar.

Revoluções mudavam-lhes a ordem.
E enquanto as consoantes
duravam um mês de antiga medida
as vogais abriam em leque o início
cantavam os nomes de cada estação.
I árvore do nascimento I a árvore da morte
reuniam-se no solstício do inverno.
E assim é da natureza das coisas que tudo

tudo vai entrando na sua morte e tudo
continua a nascer porque
os átomos como as letras continuam
a declinar os corpos e os nomes de cada coisa,
as suas auras irradiantes e os seus simulacros
nómadas atravessando as fronteiras. Nós
quase surdos quase mudos desenhávamos as letras
em que o sol gravava emprestadas as suas sombras.

E então as imagens da terra crepitavam
nos gestos da voz que renascia: cintilações
fugazes, vertiginosos meteoros alumiando por dentro
os corpos cantantes e as vozes dos corpos
no lugar do nascimento oras in luminis.
Nesses teatros de água, ouvimos as ondas em voz alta
assistimos às tempestades de luz acometendo a face das coisas
e recitamos aquilo que com as mãos inquietas desconhecemos.


Cada vogal representava um trimestre do ano: O (giesta), o Equinócio da Primavera; U (Urze), o Solstício do Verão; E (choupo), o equinócio de Outono. O A (abeto, ou palmeira), a árvore do nascimento, e o I (teixo), a árvore da morte, partilhavam entre si o Solstício do Inverno.
Robert Graves: Os mitos gregos


Manuel Gusmão, in Contra todas as evidências - Poemas Reunidos II, do livro teatros do tempo (Caminho, 2001), Editorial «Avante!», Abril de 2014, pp. 22-23.

sábado, 4 de setembro de 2021

BLUES WITH HELEN (1938?)

 


Para a Marina Tadeu.

 

Fui aos CTT enviar dois livros. Um, para pessoa que não conheço senão via Facebook. Outro, para pessoa que admiro e tive o prazer de conhecer na última Festa do Avante. E isto fez-me lembrar Helen Humes. Ninguém fala dela, a rapariga que aprendeu a cantar no coro da igreja e aos 14 anos de idade gravava os primeiros blues. 10 anos a estudar economia e a trabalhar num banco afastaram-na da música. Foi Al Sears quem a resgatou do tédio, acompanhando-a no The Cotton Club. Count Baise, na plateia, ouviu-a cantar e logo sugeriu que substituísse Billie Holiday na orquestra atómica. Humes permaneceu 4 anos na orquestra de Basie, “Blues with Helen” data desses tempos gloriosos com Lester Young no saxofone tenor. O stress acumulado nas digressões voltou a afastá-la. Continuou a cantar, acompanhada pelo genial Art Tatum ao piano, gravando bandas sonoras, participando discretamente em musicais. Esta opção por uma carreira mais sóbria gerou especulação, mas Humes defendeu-se em grande: «I'm not trying to be a star! I want to work and be happy and just go along and have my friends – and that's my career.» Não a imagino em grandes discussões sobre arte, mas acredito que lá no fundo também julgasse que toda a arte é uma máquina reprodutora de espanto. Agora um blues, a voz das privações a intrometer-se para que coisas sejam ditas. A sintaxe das horas também não é rectilínea, a despeito das medidas tomadas para que de 24 em 24 horas novas esperanças esmoreçam e velhas angústias futurem. Há que improvisar verbos, palavras que substituam desabafos, pois ruinosa é a imaginação de quem tanto diz. O blues, na sua simplicidade repousa e irrompe, tal um vulcão cutâneo, aquilo que há de essencial se essencial houvesse. E é alguma coisa, nada de socalcos e vinhas em terrenos escarpados com vides imaginárias trepando as paredes do ar. Pevides não dão sumo, uvas não dão sangue. Que nome atribuir à voz que semeia emoções profundas nas terras lavradas do peito? Que nome para os edifícios azuis florescendo nos olhos com raízes robustas, mais que imagens indecifráveis e indefiníveis com que povoamos páginas boas para arder? Livros há que dariam óptimas acendalhas de cinza. O blues chega para eles, tão espontaneamente desabrochado na boca de quem canta. Agora a exaustiva prestação dos vocábulos ambiciosos: a página no jornal, o prémio, admiração boquiaberta de moscas ignorantes, vaidade. Porque no fim de tudo a vaidade activa o motor de arranque nos homens que não desejam e nas mulheres que desistiram dos homens que não desejam e dos filhos que não compreendem a potência inerente à solidão. Ela disse: «I'm not trying to be a star! I want to work and be happy and just go along and have my friends – and that's my career.» Quantos desses actores de revista já caídos em esquecimento teriam inteligência para tal?

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

UM POEMA DE ANNE CARSON

 


VL LIMPAR OS TEUS CASCOS AQUI É UMA DANÇA EM HONRA DA UVA QUE ATRAVÉS DA HISTÓRIA TEM SIDO UM SÍMBOLO DE FESTIVIDADE E ALEGRIA PARA NÃO MENCIONAR DE ANALOGIA DA NOIVA ENQUANTO FLOR POR COLHER

Cheiro
Nunca me hei-de esquecer.
Lá fora através da vinha.
Um lugar de pedra talvez uma arrecadação ou uma câmara frigorífica em desuso.
Outubro, algum frio. Feno no chão. Tínhamos ido à quinta do avô dele para dar uma ajuda

a pisar
as uvas para o vinho.
Não podes imaginar como é se nunca o fizeste 
como bolbos endurecidos de seda vermelha e molhada a explodir debaixo dos teus pés,
entre os dedos dos pés e pernas acima braços cara salpicando por todo o lado 
Atravessa logo pela roupa adentro sabes foi o que ele disse enquanto calcávamos para cima e para baixo

na cuba.
Quando as despires
vais estar toda suja de sumo.
Os olhos dele levantaram-se para mim e disse Vamos conferir.
Nua no lugar de pedra era verdade, manchas pegajosas, pele, eu deitei-me no feno
e ele lambeu.
Lambeu tudo.
Correu lá fora e trouxe nas mãos mais borras e espalhou-as
nos meus joelhos pescoço barriga lambendo. Mordiscando. Mergulhando.
Língua é para mim o cheiro de Outubro. Lembro-me que foi
como nadar num rio com uma corrente forte porque continuava a mexer-me e era difícil mexer-me

enquanto tudo à minha volta
se mexia também, aquele cheiro
de terra revirada e plantas arrefecidas e a noite a cair e
a velha cuba a fumegar ao de leve lá fora no crepúsculo e ele,

a crueza do sumo nele.
Estames nele
e como Kafka disse no fim
não me valeu de nada saber nadar sabes eu afinal não sei nadar.
Dá-se o caso de mais de 90% de todas as espécies de uva cultivadas serem variedades de

Vitis vinifera
a uva do velho mundo ou europeia
as uvas nativas da América derivam
de certas espécies de Vitis e diferem pelo seu odor intenso
bem como pelo facto de a casca se separar da polpa tão liquidamente.

A uva ideal para o vinho
é aquela que é facilmente esmagada.
Estas coisas aprendi-as com o avô
quando nos sentámos na cozinha à noite a descascar castanhas.
E também que sob circunstância alguma me devia casar com o neto
a quem ele chamou tragikos palavra do campo que tanto significa trágico como bode.

Anne Carson, in A beleza do marido - um ensaio ficcional em 29 tangos, trad. Tatiana Faia, não (edições), 2.ª edição, Junho de 2020, pp. 37-39.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

LOCOMOTION (1957)

 


Ia longa a espera e as pernas cada vez mais doridas por sobre elas o peso manter-se fiel ao corpo, quando dei por mim a distrair dores observando três meninas que brincavam com uma bandeira sobre o campo pelado. Uma delas caiu e sujou a bandeira, logo as outras a ajudaram a erguer-se, sacudiram-se e continuaram a correr de um lado para o outro. A bandeira era um papagaio na praia, muito semelhante ao que eu havia vislumbrado no dia anterior durante um passeio solitário. Fiquei a olhar para ele questionando-me se o que à minha frente se abria em deslumbrados tons seria mar ou rio, porventura estuário ou talvez a foz em que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo. A lógica herdada de Aristóteles é insuficiente, precisamos de mais espaçamento entre as linhas para que o pensamento não tropece em imagens de que nos arrependeremos no futuro por serem tão curtas, isto é, exíguas. Sinto que o meu corpo não cabe nelas quando vejo, como vi, uma mãe a passar o bebé para os braços do pai, deixando-o atrapalhado com protestos chorosos. Ah, é tão simples calar o choro de uma criança assim traída, basta erguê-la como uma bandeira fingindo que voa. Começam logo a sorrir. Depois vi ainda uma filha a dançar com a mãe idosa, feliz por fazê-la feliz, ambas satisfeitas com a velocidade própria de cada contentamento. Há quem seja alegre a abrir e se meta na fórmula 1 da felicidade, há quem imite lesmas e caracóis enquanto atravessa as paredes da alegria. Eu vim pela auto-estrada a cumprir os limites, não por respeito aos limites, mas por julgá-los mais do que adequados às circunstâncias e à banda sonora de Coltrone escolhida para a viagem. E vim o caminho todo a pensar naquelas quatro ou cinco idades dos meus últimos dias, desde a criança de colo à idosa que dançava pela mão da filha, vim a pensar como se estivesse no cais a observar-me em trânsito na ponte. Parado a ver-me caminhar é como estou melhor.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

UM POEMA DE MANUEL GUSMÃO

A noite folhosa

8

É isto : a noite de manhã
Tu levantaste-te

Manhã e noite não se vêem ao espelho
antes o estilhaçam para dentro
desencontram-se interminavelmente

mas ouvem-se uma à outra entre as salas da casa

Tu estás súbita ali na esquina do corredor
sinto por momentos a tua cara negra
e a imensidão do teu corpo anoitecido

passas-me a manhã devagar
de mão a mão
como um mapa fosforescente

onde por certo íamos morrer

Manuel Gusmão, do livro mapas/o assombro a sombra, in Contra todas as evidências — Poemas Reunidos I, Edições Avante, Agosto de 2013, p. 242.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #33

 

Agora que o Verão ameaça esmorecer e o sol ficará embaciado por nuvens intimidantes, permitam-me que vos fale de sombras. Há um par de milhares de anos, um filósofo chamado Platão inventou uma parábola para nos encaminhar na direcção da verdade. Nessa parábola as pessoas viviam acorrentadas dentro de um caverna, forçadas a olhar para uma parede onde eram projectadas sombras do movimento no exterior da caverna. A realidade para os homens no interior da gruta resumia-se àquele mundo de sombras captado pelos sentidos, nada mais havia senão as sombras e os sons chegados do exterior. Até que um deles se libertou dos grilhões, tendo então oportunidade de descobrir o que se escondia por detrás das sombras. Um novo mundo se apresentava diante dos seus olhos, um mundo de luz, mas mais relevante ainda era a descoberta de que a realidade não podia ser resumida ao que os nossos sentidos percepcionam. Por detrás dos sentidos, algo se escondia. Por detrás das sombras, algo havia. Essa descoberta de um mundo para além das sombras encaminhou-nos na direcção da luz, ou seja, da verdade. Ora, foram precisos muitos anos para desfazer o mito de que a verdade é assim tão luminosa e de que nas sombras não existe algo de substancialmente verdadeiro.
   Apresento-vos, minhas filhas, Pedro Schlemil, o homem que, segundo Adelbert von Chamisso (1781-1838), cedeu a sua sombra a um desconhecido em troca da bolsa de Fortunatus, «uma bolsa de marroquim com grossos cordões, muito sólidos», cheia de moedas de ouro sem fim. «De que serviam as asas a um homem solidamente amarrado com correntes de ferro? Só para lhe acrescentarem o desespero», conclui Schlemil. De facto, podeis imaginar o desespero de alguém que, subitamente, deixe de ser perseguido pela própria sombra. É como deixar de ser iluminado. Para passar despercebido no meio dos outros, só mesmo deixando de andar ao sol. O resto da história ficará a vosso encargo, pois pretendo também apresentar-vos Erasmo Spikher. Devemos a E. T. A. Hoffmann (1776-1822) o relato das suas angústias. Tal como Schlemil, também Spikher negociou algo de que não imaginaríamos um corpo privado: o seu reflexo. Fê-lo por paixão, depois de haver sido infiel, não resistindo à tentação de uma figura estranha em conluio com uma dama cuja beleza o inebriava. «Um dia encontrou-se com um tal Pedro Schlemihl. Este tinha vendido a sombra; ambos pensaram caminhar juntos, na esperança de que Erasmo Spikher projectasse a sombra necessária, enquanto Pedro Sschlemil fornecia o reflexo que faltava. Mas não deu resultado.» Por fim, apresento-vos o sábio cuja sombra ganhou vida própria. Conta-nos Hans Christian Andersen (1805-1875): o desplante da sombra foi tal que, a dada altura, chegou a sugerir ao próprio sábio que lhe fizesse de sombra, invertendo assim os papéis: «A sombra era dono e senhor e o homem passou a ser sombra.»
   Podeis encontrar todas estas histórias no livro Contos dos Homens Sombra (Editorial Estampa, 1983), traduzidas e introduzidas por Manuel João Gomes, facto que, por si só, é já bom motivo para as terdes em boa consideração. Saltei o homem que perdeu o nariz, também constante no volume, por dele vos ter dado nota a propósito dos contos de Nikolai Gógol que outrora vos ofereci. Pretendo antes salientar que sem sombra e sem reflexo um homem está condenado à solidão. Não só ninguém entenderia que andássemos por aí sem sombra ou o reflexo, como ficaríamos privados de algo essencial à nossa natureza. A sombra e o reflexo de um ser humano são a sua linguagem, pois todas as palavras são sombras das coisas, são reflexos de pensamentos e ideias, concepções. Ninguém vê o infinito senão através do seu reflexo na palavra que o nomeia. Em perdendo sombra e reflexo, estamos condenados a esconder-nos nas trevas para não cairmos no desespero de sermos incompreendidos.
   Aceitai como fundamentais as sombras projectadas na parede e o rosto reflectido no espelho. Se ao longo dos anos ele adquire diferentes aspectos é, precisamente, para nos dar conta de quão contingencial é a nossa permanência neste mundo iluminado por uma estrela rodeada de treva. Que não desperdiceis nenhuma das dimensões do vosso ser é o meu desejo ao falar-vos destes homens que negociaram sombra e reflexo sem se darem conta de que estavam a negociar-se a si mesmos, privando-se de identidade, vestindo o fato do defunto. Diferente será se a nossa sombra adquirir vida própria, o que também não é raro e disso estais prevenidas por saberdes ser essa a condição necessária à criação. Não é o livro que escrevemos, o quadro que pintamos, o filme que realizamos, não é a peça que encenamos a nossa própria sombra ganhando autonomia para nos fazer perdurar no tempo e nos dispersar no espaço? «A palavra é uma sombra», diz-se no conto de Andersen . A sombra que nos projecta, acrescento eu. Mas tende mão nela, que nem por um momento deixeis de ter mão nela. Se a perderdes, tendes a loucura à perna. Um tormento.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

CONCEITO & NARRATIVA

 

Terá sido em 1997, durante uma aula de Filosofia Contemporânea, que o escritor Abel Neves proferiu as palavras a seguir reproduzidas, fixadas posteriormente no volume Algures entre a resposta e a interrogação — em volta do teatro (Edições Cotovia, Outubro de 2002):

 

A filosofia das empresas. A ilusão do real.
Alturas houve em que os empresários diziam “ a filosofia da minha empresa” e ficámos todos a saber que as empresas tinham uma filosofia. Agora os generais falam do “teatro das operações” e ficamos à espera de vê-los criar e em nós a ilusão do real mais do que nos dar o sábio conhecimento de que nada existe que não seja assim mesmo, real.

 

Perder o norte.
Por tudo e por nada, o cenário.
Às vezes gosto de perder o norte na caminhada de um texto e ele perder-se como cabra no monte e deixá-lo refrescar-se na corrente dum ribeiro. É tão delicado falar da guerra, eu sei, falar com o cuidado que merece o rigor da morte e talvez por isso falem os generais tão à-vontade dos “cenários da guerra”. E toda a gente, sem dar por isso, fala dos cenários, de trás para a frene, cenários disto e daquilo, o cenário na ordem do dia, ou na ordem do mundo, ou ele ,mesmo, o mundo, como cenário.

 

Podíamos acrescentar as "cenas dantescas" e as "situações kafkianas" ou, tão cada vez mais frequente, a exclamação "porra, surreal!” O mundo anda estranho. Se calhar sempre andou, mas agora parece mais. Estamos muito em cima do mundo e o mundo está muito em cima de nós. Eu aprecio particularmente quando alguém acusa um terceiro de ser "um poeta", assim mesmo, com o pronome a demarcar o território metonímico da expressão, no sentido de idilista ou sonhador ou lunático (em sentido figurado, claro, que as palavras são cada vez menos a sua raiz semântica e cada vez mais a sua contingência prática). Também há aqueles que, referindo-se a certos projectos, logo atiram com a sentença "isso é poesia", querendo dizer que é impossível, porque talvez a poesia se tenha tornado impossível ou, pelo menos, improvável. Ultimamente é tudo conceito e narrativa. Qualquer tasco tem de ter um conceito para servir cafés e águas com gás e os argumentos utilizados na apresentação do conceito redundam em narrativas. Talvez isto esteja certo. Falamos por metáforas ou lá o que é. E certas expressões funcionam como que metáforas de factos e dados que pronunciados objectivamente perdem a graça. Estamos carentes de graça, por isso dizemos aflorar como se estivéssemos a tratar de um jardim e desarvoramos como quem descortiça. Isto são comparações. Felizes ou infelizes fazem parte do nosso dia-a-dia com as palavras. O que definitivamente perdeu sentido foi a expressão "vida de cão". Há deles com uma vidinha tão invejável. É ainda Abel Neves quem diz: «Não importa que as pequenas coisas sejam pensadas, trabalhadas e apresentadas de modo complexo. O que importa é que as grandes coisas o sejam de um modo simples.» Karl Kraus também disse algo semelhante num dos seus famosos aforismos: «O uso de palavras pouco usuais é um vício literário. Só se deve atrapalhar o público com dificuldades intelectuais.» Eu julgo que andamos todos a dizer coisas sabendo que o silêncio seria mais aconselhável. Ainda assim, dizemos e escrevemos o que é suposto pensarmos. Ou não. Às vezes as palavras surgem automaticamente, depois alindam-se ou desconstroem-se. Talvez devêssemos dizer derridam-se. Há quem invente palavras, as que tem não chegam, há quem precise de palavras novas para dizer coisas velhas. Nada de novo há a dizer, está tudo mais ou menos na mesma. O essencial foi dito e escrito. A gente finge que não e então cita este e aquele e aqueloutro, acumulamos frases que disparamos como balas na direcção dos ouvintes. Os ouvintes são as presas. O leitor é a presa do escritor. O escritor é um caçador. Mas deixa-me estar calado, já falei mais do que devia. A caça agora está tão mal vista. É a caça e as touradas.

domingo, 29 de agosto de 2021

BOTA-DE-ELÁSTICO

O Facebook é uma máquina de reprodução de especialistas. Assim que uma polémica rebenta, logo os especialistas medram como cogumelos. Pois bem, há que aproveitar o inbound marketing destas novas ferramentas, rentabilizar o tempo dispensado, gerir os recursos disponíveis de modo a deles retirarmos o maior rendimento, há que aumentar a eficácia com checklists de insights obtendo feedback autêntico em nome do proveito, do lucro e da vantagem. Mesmo que não tenha percebido nada do que disse anteriormente, o importante é reter este facto: o Facebook é um campo minado de especialistas. Pois bem, pisemos a mina, espoletemos a bomba. A partir de hoje, tentarei recorrer à sapiência omnisciente dos facebookianos em busca de respostas para as questões que me atormentam. Primeira: qual a origem do nome de dois géneros bota-de-elástico? Uso umas há anos e não entendo a razão de ser do significado. Além de que é termo concordante com as mais modernas exigências em sede de igualdade de género. Queiram-me esclarecer-me, por obséquio, como se dirá bota-de-elástico em linguagem neutra? Bote-de-elástique? Mas botes não são barcos? Tratando-se de um nome de dois géneros, poderá o termo ficar na mesma? Ajudem-me.

INHOS

É assunto que me desassossega há décadas, embora só agora tenha conseguido formular uma opinião. Muitos jogadores de futebol são conhecidos por nomes com sufixos diminutivos. É o caso do Chiquinho, do Benfica, Luisinho, que está no Leixões, do Joãozinho do Estoril Praia ou do Paulinho do Sporting. Estou em crer que esta tendência para os diminutivos prejudica o rendimento dos jogadores, pelo que o Paulinho devia passar a chamar-se Paulão. O inho é rebaixador, chega a ser ofensivo, psicológicamente devastador e subconscientemente aniquilador do potencial existente num atleta. Dir-me-ão que tal não se verifica num jogador como o Palhinha, como se inha fosse diminutivo de Palha. Não é. Trata-se de um apelido e jamais de nome próprio abandalhado por inhos. À direcção do Sporting de Portugal, ao Rúben Amorim, a todo o stafe, incluindo o roupeiro Paulinho, que assim pode chamar-se porque até tem uma deficiência, eu sugiro que mudem rapidamente o nome do Paulinho para Paulão. Tenho a certeza que com esta simples mudança o homem começa a jogar à bola como deve ser.

sábado, 28 de agosto de 2021

TRÊS POEMAS DE ALBERTO PIMENTA


 

MARTHIYA DE ABDEL HAMID

9.

Se me vires
Um sorriso
E um cesto de pão
Nas mãos,
Não é um mistério:
Sabes
Que estou a contemplar
O passado.

O passado
É hoje
A visão do paraíso.

16.

Só onde Deus é grande
É grande
Também
O homem
Diz
O seu papa.

Têm
Então um Deus
Muito pequeno.
E o seu molde de vida
É naturalmente
À sua semelhança.

23.

O poema
Não é escrito com armas
É escrito cm o corpo.


Mas o corpo arde um pouco
De cada vez
Que escreve.


Alberto Pimenta, in Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta, &etc, Setembro de 2005.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

ATIRAR PARA O TORTO

 

A expressão «formalismo informal» é usada na primeira badana de Atirar para o Torto (Tinta-da-China, Maio de 2021) como síntese da poesia de Margarida Vale de Gato (n. 1973). Faz sentido para quem conheça o trabalho desenvolvido desde Mulher ao Mar (Mariposa Azual, Abril de 2010), actualizado e acrescentado em pelo menos duas reedições, mas ainda mais na obra publicada este ano na colecção coordenada por Pedro Mexia. Tomemos de exemplo o poema que ofereceu título ao volume. São três estrofes com número irregular de versos (15-13-15), apresentando estes extensões muito diversas, o que contrasta, desde logo, com muitos outros poemas da autora em que o autodomínio formal é exercido com bastante rigor. Isto é especialmente detectável nos sonetos (são 8 neste livro), mas não só. Também o poema aqui em causa obedece a um nexo narrativo que não exclui por absoluto a dimensão formalista. Cada uma das estrofes vincula-se, logo no início, a um “eu” em registo de auto-exame. A primeira oferece enquadramento histórico ao sujeito: «Quando eu nasci a penúltima guerra mundial tinha sido há vinte e oito anos» (p. 73); a segunda contextualiza esse mesmo sujeito no âmbito da sua arte: «eu que o diga que fiz estudos / ganhei uma cadeira de armar à sombra da academia / e quando o rei faz anos espremo as tetas / da poesia de cada vez o leite é mais ralo» (p. 73); a terceira oferece uma declaração de tipo conclusivo: «sei lá eu sou das letras tudo passa» (p. 74). Percebe-se, pois, uma disposição silogística no desenvolvimento do poema  que atribui forma a um raciocínio. As duas primeiras estrofes são premissas que concorrem para a conclusão exposta na terceira.
   Do mesmo modo, neste poema residem algumas das linhas gerais que encontramos ao longo do livro e que têm que ver com uma constatação de desacerto no mundo que levam à desconfiança sobre o sentido da própria prática poética, para mais ela mesma exercida num meio também ele desacertado: «tanta húbris esta bílis» (p. 74). Alguns poemas deste livro, para mim os menos interessantes, tendem a evidenciar a problemática do sentido da poesia, a utilidade da sua prática e as guerrilhas a essa prática associadas. São questões menores se as pensarmos a par de outras, bem mais prementes e interessantes, aludidas num Atirar para o Torto escrito sem «remédio / para a catástrofe» (p. 74) a não ser o de cantar «um exultante afogamento» (p. 74), assumindo que também essa sensação de impotência face ao desastre possa ser parte do problema. Não escapamos à imagem da Mulher ao Mar quando pensamos no afogamento aludido. De resto, o mesmo sucede quando, logo no primeiro poema deste livro, o único independente dos quatro conjuntos que o compõem, é estabelecido um elo com a obra anterior através de uma referência que envia, ao jeito de oração entre parêntesis, para um conhecido poema da Autora: «(Deus, / faz com que eu nunca seja / uma poeta ressabiada)» (p. 7). A súplica funciona como pré-aviso, pois o que se segue é uma digressão atormentada pelos dilemas actuais da humanidade: a pandemia, a crise climática, o legado colonialista e o racismo institucional, a violência doméstica, o Mediterrâneo da nossa vergonha…
   O título do primeiro conjunto Desamparar a Queda — dá o tom, bem como o primeiro poema desta secção, intitulado Menopausa, estabelece desde logo a questão das marcas deixadas na carne pela passagem do tempo como um dos núcleos fortes a partir do qual o livro se organiza. Se hoje a carne fala menos (vide p. 22), o que fala então por ela? A consciência? O pensamento? Não será por acaso que o último poema do livro se intitula Maior Idade. A forma como o erotismo surge abordado, nomeadamente em Balada de Núpcias, Menopausa (II), Vírus e Virgens, Chamar Puta Durante, todos da III parte — Este Jogo Já Não Funciona —, evidencia uma sensação de declínio que percorre este livro do início ao fim. Como manter atiçada a paixão? O tempo (última palavra do livro, já agora) traz previsibilidade e rotina, traz decadência, traz a memória do que se viveu, a percepção do que não foi vivido e dúvida sobre o que podia ter sido e poderá ainda ser. Entre o eu individual, efémero, perecível, e o eu político, actuante, mas desconfiado, esta poesia reflecte-se a si mesma colocando permanentemente as questões do sentido e da utilidade. Envereda, a espaços, pela memória pessoal, pelo dado biográfico, pela circunstância quotidiana, mas não tem sobre tais raízes qualquer tipo de complacência. No fundo, essas memórias misturam-se com contextos vivenciais muito concretos que aproximam grande parte destes poemas de uma poesia de teor social.
   A viagem iniciada com uma queda desamparada, continuada com os seus conflitos de princípios, encalhada num jogo que já não funciona, termina num regresso à terra. Voltas à Terra, o título da última secção, instaura a estranheza. No fundo, a queda inicial corresponde ao naufrágio e à deriva da Mulher ao Mar. Assim entendida a organização dos poemas, o regresso à terra aceita correspondências e perdão. As voltas que a vida dá. O périplo, conturbado, acidentado, aqui e acolá com as suas pinceladas de tragédia e de comédia, corresponde a uma aprendizagem. Aprender, como sabemos, não significa obter certezas. Antes pelo contrário. A aprendizagem fomenta a desconfiança, esta leva à dúvida, à interrogação. A epígrafe de Rilke no antes da viagem fica com um aspecto redentor. Ela tem o aspecto de certeza «Senhor: é tempo.» , mas no fundo não passa de uma possibilidade ou, melhor dizendo, de duma declaração de princípios, mesmo que entre o senhor e o tempo estejam dois pontos e não uma vírgula. O tempo imprime a perda, contra ela nada a fazer senão uma espécie de conformação. É a vida, como se diz vulgarmente quando alguém morre. É a vida. Tomem lá uma receita:

 
TORTA
 
para o Edgar
 
Do remate do banquete fica a folha
fóssil, franja de fruto fatiado, grande bola
de calor que faz olhar atrás à cozedura
lenta, àquilo que se usou, ao tempo
e ao gás que doura e endurece
 
à morte passando, a gula permanece.