
1. A ler "A Rosa Devorada
Pelos Espinhos – Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Primeiro Quartel do
Século XXI" (Língua Morta, 2026), concluímos tratar-se de um esforço meritório de peneiração
para cultivo da ca(u)sa própria, ficando, sobretudo, a impressão de elogio aos
velhos contra os novos, entre os quais, como é óbvio, não se incluem os
jardineiros de regador na mão que lavram parágrafos infindáveis onde semente
nenhuma vinga e citam Baudrillard como beatas a ler epístolas aos Coríntios na
missa de domingo. Ainda a páginas 56 e já dava para perceber que mulher não
entraria no Panteão dos jovens mucros. Não faltava por onde escolher, para mais numa
viragem de século indelevelmente marcada pela emergência e afirmação de várias
vozes femininas. Talvez por não terem pretendido a indelicadeza de chamar
velhas às senhoras, no Panteão dos epígonos a que deram o título estafado “O
Cativeiro do Eco”, nem uma singela referência a Ana Hatherly, Luísa Freire,
Eduarda Chiote, Fiama Hasse Pais Brandão, Yvette Centeno, Maria Teresa Horta,
Hélia Correia, Fátima Maldonado, Inês Lourenço, Rosa Oliveira, Rosa Maria
Martelo, R. Lino, Ana Luísa Amaral, Isabel de Sá, Silvina Rodrigues Lopes,
Maria Gabriela Llansol... Ficaram elas a ganhar.
2. As primeiras 200 páginas de
"A Rosa Devorada Pelos Espinhos" são ocupadas por 16 homens, velhos
vates que, se bem entendemos a tese proposta, souberam assimilar e digerir a tradição,
reinventando o presente para estrumar um futuro que os desaproveita. Nenhum dos
poemas seleccionados é negligenciável, ainda que possamos questionar a velhice
de um José António Almeida (1960), coitado, assim exposto naquela capela dos
ossos. Registe-se: segundo o dogma sugerido, nenhuma voz feminina que valha a
pena resgatar de XX para XXI. E, como dissemos, havia muito por onde respigar, a
começar pelo trabalho realizado em antologias que, num passado recente,
denotaram uma vontade de correr riscos mais cativante do que as propostas
saturadas de autoelogio neste tijolo de barro refractário. Note-se, a título de
exemplo, a inclusão de Silvina Rodrigues Lopes em “Ao Ouvido de um Moribundo”,
inesperada e, por isso, agradável opção, agora completamente varrida para
debaixo da tapeçaria rosácea. O que decepciona no presente volume é a total
ausência de risco e de rasgo, preterida pela oração de um Pai Nosso afectado
para agrado das Igrejas antes de se queimarem cordeiros para não decepcionar os
deuses. Sentenciosos e dogmáticos, estes jovens críticos assemelham-se àqueles
melhores alunos que passam a vida a tirar apontamentos para repetir os
professores. São cara chapada do que os próprios condenam. A prosa enfatuada
perdida em panegíricos labirínticos redunda em algo profundamente
decepcionante, é um desfile de referências de inegável bom gosto, mas sem
qualquer trabalho comparativo que permita sustentar a tese: os velhos são bons,
os novos são “uma coisa em forma de assim”. Acontece que, é lei da vida, os
velhos já foram novos e os novos serão velhos, pelo menos aqueles que não
nasceram já amarrotados e curvados como estes reverenciais discentes.
3. A páginas 117, o “O
Cativeiro do Eco” dá ares de programa de rádio, um desses programas tardios
para DJs palavrosos que brindam os ouvintes com medleys e adormecem ao som de
histórias de embalar a que chamam crítica. Diz o DJ: «Tropeçamos diariamente em
escritores que buscam constantemente a sua validação na réplica de vozes
anteriores, reduzindo-as a apostas seguras para legitimar a sua escrita.» A
gente lê e é como se estivesse a ouvir um disco riscado que, ecoando na sala
oval, leva a questionar se não será a si mesmo que se refere o autor de tais
sentenças. De outra forma, como explicar aquela amálgama de velhos a introduzir
o que se julga ter a dizer acerca dos novos? E logo para instruir néscios, todos
os demais além deles, sobre o que falta aos discípulos imprecavidos deste
tempo: «Espumam-se para existir, mas esquecem-se de comunicar, e é impossível
pensar numa língua poética que evite ou exclua por princípio a comunicação.»
Isto dito num intróito à poesia de Alberto Pimenta, ali metido entre Rui Nunes
e Manuel Gusmão, o mesmo Pimenta a quem cremos ter ouvido dizer que se fosse
para comunicar os homens não escreviam poemas, limitavam-se a palrar como
pardais. Talvez a palavra expressão fizesse mais sentido, deixando a
comunicação ao cuidado dos DJs que passam a vida a dar música a morcegos
ensonados, espionagem do print screen, meninas odetes, ramalheiros e outros
desnortes.
4. Depois há aqueles discursos
impelidos por “dantes” nostálgicos que choram paraísos perdidos ao mesmo tempo
que apontam focos de degenerescência, como este de uma poesia que era o modo
mais comum da escrita até, e passo a citar, «a rima, essa penetra enervante,
que só se generalizou já como uma afectação cortesã.» Diríamos estar perante um
número de stand up, aventando mundos imaginários sem chinas nem grécias antigas
onde a rima, enfim, já fazia das suas entre a tradição oral do povo analfabeto.
Creio ter lido em Borges qualquer coisa sobre isso. Mais engraçado, porém, é
como a “penetra enervante” adquire, uma dúzia de páginas percorridas, um outro
estatuto na poesia do incensado António Franco Alexandre: «As rimas ampliam a
proporção dos poemas, dão-lhes sombras maiores que o corpo, cercam-nos num
labirinto de sons e rumores que nos exigem uma leitura demorada, que se quede
ali a sentir a tensa dilatação dos seus efeitos.» Bela prosa, cheia de razão.
Também a “penetra enervante” reaparece no Barahona dos sonetos ou no Graça
Moura das gárgulas, extraordinário poema, de resto, a lembrar-nos como há tanto
dessas figuras grotescas nestes textos que se propõem vigilantes. A gente olha
para elas, as gárgulas, fascinados com a incoerência das formas e dispensa-lhes
o sentido, são aquele ornamento que estimula o riso. Pura rima.
5. Já que parecem apreciar mitos, lendas e fábulas, recordemos ao trio
maravilha essa Eco que passava a vida a repetir o que os outros diziam, pobre
ninfa refugiada nas cavernas condenada a ouvir para sempre na própria voz as
palavras dos outros. Chegados ao ponto de viragem, aceitando a premissa da sua
existência, constatamos nada haver de novo na introdução aos novos, apenas o
costumeiro e repisado rol de queixumes e de lamúrias acompanhados de uma
incoerência que, mais do que derivar de contradições estimulantes, parece
resultar de uma hipocrisia que deixa o exercício crítico em apuros, sobretudo
se pretendermos convencer alguém de que «O problema da poesia não é moral nem
literário, é político e histórico.» Não será a hipocrisia um dos males maiores
da política? Como aceitá-la num texto que acusa a editora Assírio & Alvim
de abdicar das suas responsabilidades rendendo-se ao comércio das obras
completas, mas propõe Daniel Jonas e Rui Lage, e nós não discordamos, enquanto
poetas que «demonstram uma sagaz compreensão da tradição»? Não têm estes poetas
publicado nessa mesma Assírio & Alvim, propriedade da Porto Editora, por
sinal, tanto quanto julgamos saber, igualmente proprietária da revista LER onde
o crítico Diogo Vaz Pinto faz publicar textos de não sei quantas páginas que
acena como bandeiras numa ilha de call center? Nos últimos anos, Rui Lage publicou
na Assírio & Alvim os livros “Física Espiritual” (2026), “Adeus, Campos
Felizes” (2025), “Firmamento” (2022). De Daniel Jonas, encontramos no mesmo
catálogo os livros “Idade da Perda” (2025), “Cães de Chuva” (2021), “Oblívio”
(2017), “Bisonte” (2016), “Nó” (2014). Em que se sustenta, então, o dedo
apontado a um putativo «cemitério da Assírio & Alvim»? Sustenta-se, talvez,
nessa ideia de que «a poesia se tornou indistinta da actividade de escrever e
publicar poemas», para o que contribuem tanto a Língua Morta, a Maldoror, a
Cutelo, entre outras, como a Assírio & Alvim. Se é verdade que a esta
vertigem editorial assistem a «fome de novidade», «muitos versos criados em estufa»,
a anteposição da «quantidade à qualidade», isso não é exclusivo de uns contra
outros, é prática comum para que todos contribuem com o seu quinhão de obras
reunidas, tijolos, canhenhos e ecos. O mais são lapalissadas como esta: «Ao
longo destes vinte e cinco anos escreveram-se poemas notáveis, mas não se pode
dizer que todos os poetas que os publicaram tenham sido igualmente notáveis.»
Ficamos a cogitar como terá sido nos últimos 50. E nos últimos 100? E nos
último 150? E nos últimos 200? Além das lapalissadas somos
brindados com presunções como a de não ser «uma casualidade que praticamente
não haja críticos entre os poetas da nossa geração», algo que qualquer passeio
pelos índices das revistas literárias facilmente desmente. Basta ler a LER,
onde publica o poeta a anticrítico Diogo Vaz Pinto. Ou a Colóquio Letras, onde
Elisabete Marques, Golgona Anghel, Rui Lage, só para dar três exemplos entre
tantos outros que podiam ser dados, têm publicado textos críticos. Assim vamos,
entre lapalissadas, presunções e a exaltação de supostos méritos próprios: «Com
todos os que se estrearam ou publicaram a grande maioria dos livros neste
século, bastar-nos-ia encostá-los aos da geração precedente para notarmos não
só uma chata suficiência como um desnível embaraçoso, e nos envergonharmos com
o modo como a nossa elegeu os seus poetas – talvez por isso não tenha ainda
surgido uma antologia como esta que os contrapusesse.» Deo gratias.
6. Temos, assim, que nos momentos em que se afasta das formas clássicas, Daniel
Jonas dá à luz poemas que «perdem o pé e vão trôpegos, ziguezagueando e
empobrecendo» - “Canícula” (2017) ou “Passageiro Frequente” (2013), ambos
editados pela Língua Morta, serão disso exemplo? -, Rui Lage «é talvez aquele
que melhor conhece a tradição», Vasco Gato continua imerso numa diversidade de
expressões, Miguel-Manso prometeu muito, mas deu pouco, Margarida Vale de Gato,
pecadora por excesso, cede ao extremo artificialismo mostrando em demasia as
suas capacidades, Luís Quintais começou a mudar de côr [sic] e a apanhar moscas
com a língua, José Miguel Silva deixou-se invadir pelo fatalismo, Rui Pires
Cabral dedicou-se às colagens, postalecos e outros recortes de gaveta, Manuel
de Freitas é o pai morto que Édipo anda numa cegueira de matar, Miguel Martins
resvalou na sanha autobiográfica e lá ficou a afundar-se no pântano, «Tiago
Araújo deixou-se encadear pelo sol-posto da alma», Nuno Moura e Nunes da Rocha
são os bêbados de serviço, Golgona Anghel «é a convidada ideal num quadro em
que tudo propende para o festival», David Teles Pereira, que desistiu antes de
ter começado, é extraordinário – quem diria? -, Jorge Roque é ainda melhor e
Renata Correia Botelho nem se fala. Tudo isto servido sem ânimo exegético, mas
temperado por montões de metáforas e comparações e paráfrases e alegorias e historietas
da carochinha, prosseguidas de carimbadelas na repartição dos iluminados. Carne
sem osso, proveito sem trabalho. Mas a pérola, porque nestas coisas também as
há, chega-nos a páginas 271 rodeada de prantos pelos eclipses da crítica,
ausência de manifestos e de movimentos, arrogada de rabecadas distribuídas a
eito para higienização do Planeta Poesia. Assim se vêem os autoproclamados
vanguardistas deste malfadado tempo, mestres-escola a distribuir reguadas aos
maus alunos. A pérola merece citação, de tão gostosa que é. Nesse glorioso ano
de 2008, três coisas maravilhosas sucederam à poesia. E uma delas foi,
imagine-se, a aparição da «revista Criatura, o antecedente directo desta
editora, sendo o primeiro sinal em muito tempo de um desejo de reafirmação
colectiva...» Assim colocados no centro do salão com a revista que deu a
conhecer a poesia de Sara F. Costa, os rapazes da Criatura mostram ao que vêm
com o tijolo de 600 páginas que querem fazer passar por antologia crítica. São
um Geppetto ababalhado a olhar para Pinóquio. No fundo, tudo não passa, mais
uma vez, de água benta para matar a sede de autoimportância, a sede de
protagonismo do príncipe que, por se considerar legítimo herdeiro do génio perdido,
se coroa a si mesmo senhor de todos os reinos. Caso para concluir que o rei vai
nu e não são nada agradáveis à vista os traços da sua nudez.
7. Se as primeiras 200 páginas de "A Rosa Devorada Pelos Espinhos
– Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Primeiro Quartel do Século
XXI" são um elogio dos velhos contra os novos, as 241 que se seguem
apresentam-se, pelos próprios organizadores, como escrutínio do que se destaca
da espuma dos dias. O encantamento projectado sobre o passado, louvando
paraísos perdidos de que restam as configurações imaginárias dos nossos
escolásticos, parte desse princípio errado e tantas vezes repetido que levava
alguém já no tempo de Sócrates, o outro, a queixar-se da juventude extraviada.
Formulam-se os axiomas, escolhem-se uns nomes que lhes sirvam de sustento, e
vende-se tudo o pataco sem lugar à complexidade, passando por cima da crítica
como se esta pudesse ser reduzida a generalidades do tipo “faltam-nos grupos e
manifestos”, “já não há ousadia”, “são todos uns vendidos”, “dantes é que era
bom”, «esta geração não produziu grandes nomes.» Grandes nomes, vejam bem,
grandes de enormes, colossais, gigantescos, gigantes que nos consolem esta
mania das grandezas como se os séculos e as literaturas neles engendradas
fossem viveiros de génio. Olhem só para o século XX, aquilo é um enxame de
GRANDES NOMES que nunca mais tem fim. Só que a gente depois olha lá para longe
e ficamos à rasca por não conseguirmos vislumbrar um Camões que não seja o
próprio Camões, um Bocage que não seja o próprio Bocage, um Pessoa que não seja
o próprio Pessoa, e tantos houve no tempo destes que o tempo deixou na penumbra
oferecendo-nos, assim, a lição segundo a qual para se chegar a grande é preciso
muito mais do que 25 anos e maus leitores. Um pouco de calma e paciência, senhores. Se houver futuro, e segundo o mais básico raciocínio indutivo tudo
indica que haverá, quando este século produzir o seu grande, um único que seja,
nenhum de nós já cá estará, mas sobrarão, com toda a certeza, uns sete artolas
para formarem uma equipa de andebol e divertirem-se a passar poesias de mão em
mão. Fosse este desfile de nomes a Poesia Portuguesa do Primeiro Quartel do
Século XXI, estaríamos conversados. Não é. Basta lembrar o nome de Rui Costa,
afortunadamente deixado no lado de fora deste scriptorium, para concluir a
total ausência de seriedade no balancete. O que a presente antologia oferece é
uma perspectiva enviesada pela experiência pessoal dos próprios organizadores,
não como críticos, mas como poetas, editores, aspirantes ao título
nobiliárquico da academia, em mais uma ensaboadela interesseira à necessidade
de afirmação egocêntrica de discípulos em ruptura com mestres, filhos
zangados com pais, comadres desavindas com cheiro de flores e de mar. Haverá
resquícios de verdade aqui e acolá, mas tudo tão disperso e sem fundamento que
ficam as verdades esmagadas pelo chiste afectado, a intriga palaciana, o
narcisismo assoberbado dos bullys, sobrando de poesia apenas os poemas citados
na íntegra e de crítica nada que valha verdadeiramente a pena conservar. O
trabalho de compreensão fica por fazer, trabalho esse que implica distância e
humildade, uma verdadeira luta contra um tempo incompatível com estas correrias
desenfreadas. Fica-se a pensar no que
seria a poesia se fosse realmente o que esta gente deseja ao dar recados, como
esse endereçado a Andreia C. Faria, num tom de avô dirigindo-se à neta, para se
precaver contra o prestígio e não se deixar levar «pela ânsia invertebrada do
sucesso.» Sucesso... em Portugal... poesia... Uma pessoa até se engasga.
8. Se ainda não foi, devia ser inventada a figura do poetólogo, alguém que esclarecesse
aristocracia, clero e plebe sobre as trágicas crises do universo poético
português num desses segmentos pseudo-noticiosos disseminados por horários
nobres de tudo quanto é TV. Inscritos num seminário orientado por António
Guerreiro sobre a obra de Alfonso Berardinelli, os organizadores de “A Rosa
Devorada pelos Espinhos” são fortes candidatos a ocupar o cargo, substituindo
Milhazes e majores-generais no comentário estratégico e belicista. Depois de darem conta da
«ausência de erotismo na nova poesia portuguesa» - o que se atesta, desde logo,
lendo os próprios -, brindam o leitor com 172 páginas de prosa ensaística num
tom que começa em registo melodramático - «Foi-se o tempo em que as magias
silvavam por todas as árvores» -, prossegue em toada autoirónica - «O desastre
maior da nossa época é essa presunção da inconsequência das coisas que se dizem
ou escrevem» - e termina num festim de citações, para não fugir à tendência
parafrástica dos tempos. Se os poetas portugueses nossos coetâneos já não
fornicam, o mesmo não podemos dizer quanto ao apetite voraz que demonstram ter,
tal é a dinâmica de comes com que nos brindam. Pois que «Como
diz Eduardo Lizalde», «escreve Marcuse», «escreve Didi-Huberman», traz-se à
baila Husserl (valha-me Deus Nosso Senhor) aproveitando asserção do colega do
lado, e «como vincava há mais de um século Ezra Pound», «já havia notado
Eduardo Lourenço», porque «como disse Juan de Valdés», «foi denunciado por
Eduardo Prado Coelho», e «como notava Joaquim Manuel Magalhães», «como assinala
Baudrillard» (lá está ele, mais uma vez), «como as palavras de Saint-John
Pense» [sic], que não pensa nada, «É a poeta Carolyb D. Wright quem o anota»,
«nuns versos do poeta mexicano Eduardo Lizalde» (devia andar a lê-lo, estava à
mão), «como assinala Benjamim», «Como vinca Didi-Huberman», «Como vincava
Camus», «como refere Didi-Huberman», que nem só de vincos vive um homem, «Musil
dizia que Thomas Mann», «uns versos de Lorca», «como vincou Bardinelli», pois
claro, já estava a faltar, «de que falava Baudrillard» (porra, deixem o homem
em paz), «diz-nos Baudrillard» (desisto), «garante Baudrillard» (ora,
fosga-se), «lembra Louis Bougeois», «Por isso nos dizia Natália», «como
assinala Walter Siti», «aquilo que Nabokov», «Como vincou Auden», «como lembra
Siti», «como assinala Berardinelli»... E isto é mera amostra de “como” a
tendência para desimportantizar se transformou numa importantização que,
fôssemos nós docentes, avaliaríamos com um pedido de desculpas pelo mal feito e
pediríamos resumo em três linhas, por obséquio, desse «ímpeto transformador»
que tanto se advoga e tão pouco se pratica. Podemos não ter poetas alegóricos,
mas não nos faltam críticos a encher linguiça. Eu, confesso, estou deveras
preocupado com a poesia portuguesa, não vislumbro prescrição contra tanta
maleita. Melhor será fazer como aqueles que durante a pandemia usavam vassouras
para medir distanciamentos sociais e improvisavam máscaras com folhas de couve.
Assim como assim, passando por doido escapa-se ao contágio. É uma chatice, esta
crítica que mais do que dar a ver aproximando-se humildemente do objecto em
análise para perscrutá-lo, resolve exibir-se como prostituta numa montra à espera do próximo
cliente que compre amor por serviço. Haverá sempre quem pague, claro, assim
como há quem se alegre com troncos de árvores cobertos de rendilhados e tricotados terapeuticamente coloridos.
Para estes tipos, a poesia devia andar de uniforme, não lhes passa sequer pela
cabeça que esse passado a que prestam culto é fruto de mistificações incapazes de
aceitar quanto em qualquer tempo há de diverso, desigual e díspar. O problema,
de facto, é político, mas dessa política cuja ética pressupõe pódios e medalhas
e rupturas como se estivéssemos numas olimpíadas epistemológicas ou num campo de batalha fenomenológico sem
sangue, só palavras ao vento, uma ética desprovida da humildade com que nos
posicionamos face ao outro mais para o compreender do que para explicar, mais
para o descobrir do que para determinar. O mundo está repleto destes coveiros
sorridentes que se entretêm a abrir covas para enterrarem as próprias vítimas,
mas acabam eles próprios aos saltos dentro dos buracos que cavaram gritando
«estou aqui, estou aqui, olhem para mim, sou o futuro, o amanhã que canta». O Kitsch é o menor dos
males numa política assim, alicerçada na vaidade que nos traz melhores do mundo
em nossa casa, na nossa rua, na nossa freguesia, que a cidade já é grande de
mais para tanto amargurado incapaz de se olhar ao espelho e descobrir a caveira
escondida por detrás da carne, rindo dos castelos de areia que as marés
hão-de desfazer. É amiudadamente um problema dos teóricos, serem incapazes de
levar à prática as teorias reveladas, como estes que, nos intervalos de
oficinas de escrita criativa, palestras e papers, saltam de weblogs para
facebooks, de facebooks para podcasts, de podcasts para instagrans, queixando-se
dos meios internéticos e das suas terríveis conspurcações, como se não fossem
também eles parte integrante do espectáculo a que há muito se renderam. Há que
aceitar com algumas reservas certos diagnósticos, louvando a iniciativa e o
esfoço da empreitada, mas, no termo das 600 páginas, não temos como escapar à
vulgaridade estafada de uma expressão que exprime a verdade: «já comi melhor.» Deixo
para o fim o menos mau, à laia de citação que podia servir de epígrafe ao gigantismo
que assaltou esta rapaziada: «Hoje, os elementos rigorosos da ciência têm mais
potência do que o génio das metáforas humanas, razão pela qual a poesia tem que
roubar à ciência a sua força motriz, a convicção, a busca incessante pelo
sentido do mundo.» Venham daí os drones a disparar metáforas.