domingo, 22 de março de 2026

DANOS COLATERAIS

 
Vem no The Guardian: "Quase 100 feridos em ataques com mísseis iranianos no sul de Israel. Sistemas de defesa aérea israelitas falharam a intercepção de pelo menos dois projécteis durante ataques às cidades de Arad e Dimona". A guerra que ia durar dois dias continua a fazer baixas nos dois lados, isto depois de Trump ter garantido, uma vez, uma segunda vez e uma terceira vez, que as capacidades bélicas do Irão estavam aniquiladas. Já destruíram tudo, mas eles continuam a responder nisto que Pete Hegseth considera ter um "propósito divino": "acções militares dos Estados Unidos são aprovadas por Deus e estão imbuídas de moral cristã", garante o templário com cabeça de KKK. Acabar com teocracias, portanto. Entretanto, no artigo do The Guardian diz-se que "entre os feridos estavam um rapaz de 12 anos e uma menina de cinco anos, ambos em estado grave." Crianças, os danos colaterais dos propósitos divinos.

sábado, 21 de março de 2026

MAIS ROSAS

 
Mais rosas, disse a mãe
rosas-rubras, rosas brancas
espinhosas como milagres
com pétalas de veludo
selvagens, mas rosas
 
Mais rosas nos vasos
nos jardins, canteiros
de luz na noite clara
rosas regadas com sangue
lágrimas, roseiras de raiz
 
Mais rosas, estames
estigmas, rosas com que
quebrar em pedaços
o vidro desses olhos
envolto em ervas daninhas
 
Que as rosas emerjam
dos solos, que cantem
com lábios de seda
Rosas plantadas no cabelo
de mulheres sem medo
 
Uma alameda de rosas
que nos salve dos homens
e das suas traições
Mais rosas no regaço
das mães, encantos, rosas

quinta-feira, 19 de março de 2026

TRUMP JUST SAYS SHIT

Trump says the Iran war will end ‘very soon’ – but it is not clear how. Trump says Iran war will be over 'pretty quickly' but US hasn't 'won enough' yet. Trump says Iran war will end in 'very near future'. Trump: Iran war will end when I ‘feel it in my bones’. Trump says "the war is very complete," and he's considering taking over Strait of Hormuz. Trump Says War Could Last Weeks and Offers Contradictory Visions of New Regime. Trump tells CNN the ‘big wave’ is yet to come in war with Iran. Trump just says shit.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A MAIOR POTÊNCIA

 
Trump, líder da maior potência bélica do mundo, meteu-se numa guerra de mão dada com o exército que mata crianças, mulheres, idosos, jornalistas, médicos, destrói escolas, hospitais, um exército de violadores sob a bandeira de Israel e o comando do facínora Benjamin Netanyahu. Agora quer empurrar os aliados para este abismo. Ameaça com o futuro da NATO se os seus aliados não o forem ajudar no inferno em que se meteu, enviando navios para o estreito de Ormuz. Este lunático acusado de pedofilia, empresário falido que se arroga rei de uma república que anda a matar e a perseguir os seus com uma horda de encapuçados conhecida pelo acrónimo ICE, está a empurrar o mundo para uma guerra enquanto o amigo Putin esfrega as mãos de contentamento e os pobres ucranianos caíram no esquecimento. O pior que podia acontecer ao mundo já aconteceu, a sala está cheia de elefantes e, mais uma vez, as únicas vozes sensatas parecem vir lá do Extremo Oriente. Tudo "isto" é do piorio que pudéssemos imaginar e o pior é não passarmos incólumes a "isto" com os nossos tartufos do costume.

domingo, 15 de março de 2026

UM POEMA DE BERTOLT BRECHT

 


DO POBRE B. B.

1
Eu, Bertolt Brecht, sou das negras florestas.
Minha mãe resolveu pelas cidades andar
Comigo no ventre. E o frio das florestas
Até à morte me há-de acompanhar.

2
A minha casa é a cidade do asfalto. Desde o início
Apetrechado com os sacramentos da morte:
Com jornais. E tabaco. E aguardente.
Desconfiado, sorna, e no fim com sorte.

3
Sou amável com as pessoas. Até ponho
Chapéu de coco, como elas gostam de usar.
Digo: Têm um cheiro especial estes bichos
E digo: Não faz mal, o meu não é melhor.

4
Nas minhas cadeiras de baloiço, de manhã,
Às vezes um bando de mulheres faço sentar
E olho para elas descuidado e digo:
Com este aqui não podem vocês contar.

5
À noitinha reúno homens à minha volta
Por gentlemen nos vamos tratando.
Eles põem os pés nas minhas mesas
E dizem: Vamos melhorar. E eu
nem pergunto: Quando?

6
Cedinho ainda, no pardo amanhecer, os abetos mijam
E a passarada, os seus parasitas, começa a gritar.
A essa hora bebo um último copo na cidade e deito
Fora a beata e, inquieto, vou-me deitar.

7
Fomos vivendo, nós, leviana geração,
Em casas tidas por indestrutíveis
(Assim construímos os altos caixotes da Ilha de Manhattan
E, para divertir o Atlântico, as antenas flexíveis).

8
Destas cidades ficará o que as atravessou: o vento!
A casa alegra quem come... e a esvazia.
Sabemos que somos meros transeuntes
O que depois virá é de pouca valia.

9
Nos terramotos que aí vêm, espero,
Não vou deixar apagar o charuto Virginia, amargurado
Eu, Bertolt Brecht, vindo das negras florestas pr'as cidades de asfalto
E em tempos no ventre de minha mãe pr' aí lançado.

Bertolt Brecht in A Luz das Trevas - Poemas e canções, selecção, tradução e introdução de João Barrento, edição bilingue, livros nanook, 11, Companhia das Ilhas, Fevereiro de 2026, pp. 21-25.

sábado, 14 de março de 2026

COUTADAS

 
Dentro das coutadas os bichos farejam com apetites interesseiros, em torno de reinados de papelão povoados por serviçais, bobos e outros anões, a fazerem piruetas e números de equilibrismo. Aduladores, bajuladores, especialistas da lisonja açucarada compõem parágrafos intermináveis enquanto chupam a língua ressequida dos papas. A gente ri como num número de stand up a vê-los ora mansos, ora histéricos, compondo a própria história curricular com estratégicas permutas e alianças. Na verdade, atiram-se a terceiros para se enaltecerem a si próprios, adubados pela vaidade que Camões não pôs no último verso de Os lusíadas, mas podia ter posto. Ficou a inveja, que é, por assim dizer, a consequência mais imediata da vanitas matricial. Nada disto é particularmente inóspito, obriga apenas a alguma humidade, temperaturas baixas e paciência nos dedos para continuar a passar páginas coladas umas às outras de tão velhas. Mesmo quando cheiram a novas, sobretudo quando cheiram a novas. Depois escolhe-se um cantinho na margem, à sombra de uma árvore qualquer, e fica-se a contemplar o horizonte por cima do meio onde necrófagos de várias origens se digladiam por ossos de presas velhas.

sexta-feira, 13 de março de 2026

OS CONINHAS

 
A cumplicidade do mundo político com os crimes de Netanyahu em Gaza, cujo exército se comporta como um General Zaroff à caça de palestinos indefesos, mete-me nojo, assim como me enoja a complacência para com Donald Trump e o seu lacaio Pete Hegseth, com discursos que só diferem dos generais da Alemanha Nazi por serem menos sofisticados, mais saloios. Tudo isto é um nojo pegado. Escarro em montenegros e rangéis, antónios costas e ursulas, escarro nessa gente toda incapaz de se distanciar destes nazis que empurram o mundo para o abismo. Mete dó ouvir os coninhas da UE, todos engasgados nas suas gravatas e fatos de marca, cúmplices dos crimes destes pulhas como outrora foram os descolhoados cúmplices dos nazis, tal como mete dó a total falta de verticalidade de gente no mundo da cultura que continua a viver como se nada estivesse a acontecer no mundo. Tudo isto é um nojo pegado, qualquer pessoa decente jamais sujará as mãos com estes porcos. Ver alguém que outrora admirámos a receber medalhinhas deste caldo de séquitos é um desgosto sem cura. Por mim, que se fodam todos mais os beija-mãos e a puta que os pariu.

quinta-feira, 12 de março de 2026

MÁRIO ZAMBUJAL (1936-2026)

 


Conheci-o nos tempos de livreiro. Organizei algumas sessões de autógrafos com ele e uma vez pediram-me que o apresentasse e dinamizasse uma conversa sobre os seus livros. Trouxe para casa algumas dedicatórias e ofereci-lhe uma garrafa de ginja. Era simpático, belo contador de histórias, sem peneiras, qualidade cada vez mais rara. Gosto da "Crónica dos bons malandros" e de alguns contos. Hoje beberei em sua honra.

BACTÉRIAS

 
Israel e os EUA arrastaram o mundo para uma guerra cujas consequências vão ser por todos sentidas, economicamente mas não só. As almas néscias que exultaram com o fim da teocracia iraniana têm já à vista as consequências da putativa mudança, o exército a dizer na televisão que tratará qualquer manifestação pública contra a liderança iraniana como trata os seus inimigos. Sobre a destruição perpetrada resultará, como sempre e a história ensina, um ódio reforçado, mais terrorismo, mais repressão, mais medo e o desejo de vingar centenas de crianças ceifadas. O que Israel fez em Gaza e pretende fazer no Irão e no Líbano devia ser suficiente para não ceder um milímetro na defesa do direito internacional, das convenções que nos ofereceram alguma paz e garantiam mínimos de dignidade, mas a hipocrisia reina e a consciência moral definha. Sob os escombros desta guerra jazem a ética, a moral, as leis, as regras, as normas, a justiça, a diplomacia. A lei do mais forte reverbera nos discursos de Netanyahu e Trump, este último apoiado por uma horda de fanáticos religiosos que não se distinguem dos ayatollahs senão pelas vestes. E são mais ignorantes, diga-se de passagem. A autocracia norte-americana e o sionismo estão bem um para o outro, o que não se compreende é a subserviência de uma União Europeia (escapam Espanha, Irlanda e agora, ao que parece, a Itália de Meloni sob pressão migratória) tão lesta nas sanções e todo o tipo de cancelamentos à Federação Russa, mas absolutamente conivente com os crimes de Israel e EUA. Quem no final pagará a conta já todos sabemos, é o povinho que, nas urnas, continuará a gratificar facínoras. Na verdade, à escala universal a humanidade não passa de uma população bacteriana. Somos vírus, micróbios, uma porcaria que se vai reproduzindo até dar cabo do seu habitat. Portanto, não há com o que nos preocuparmos. O fim é certinho.

quarta-feira, 11 de março de 2026

CAFÉ DA MANHÃ

 
no raiar da chuva miúda
que levanta da terra
aromáticas sombras
 
os pombos reúnem-se
à volta de migalhas
e os cães farejam penas
 
e alguém espantosamente
parecido com quem eu fui
agasalha-se na solidão
 
dando graças pelo silêncio
das bocas desdentadas
pela distância dos braços
 
esculpidos por vanidade
folheando árvores verticais
como o vento das tempestades

terça-feira, 10 de março de 2026

DIAS DE GUERRA

 
Feitas as contas, tudo se resume a táctica, a velha táctica que ora nos aproxima, ora nos afasta, por mera conveniência. Não há amor nem amizade, não há respeito, reverência ou admiração, naquele sentido de apreço, que vença a táctica nas motivações humanas. E isso será mesmo o que torna os seres humanos os mais desprezíveis animais à face da terra. O amor enquanto fraqueza vem no Brecht. Não sei se apenas o escreveu ou se cumpriu em vida, há um fosso enorme entre o que os artistas dizem e o que fazem. Na superfície branca da página somos todos imaculados, na face rugosa dos dias nem por isso. Aquele que pintava flores tinha pedras no coração, o que escrevia versos translúcidos era opaco nos gestos, a que dançava como pétalas agia como as feras, no músico do silêncio a consciência era ruído. Se por incoerência ou hipocrisia, pouco importa. É táctica. Mais ridícula é a constatação de que na raiz da táctica medra a semente da frustração, tão frequentemente regada por complexos insanáveis, razões tão ridículas como um pé chato, a dislexia que nos faz chorar quando rimos, o sorriso engolido na boca pintada do palhaço. O palhaço das roupas rasgadas carregava um sorriso rubro em que de vez em quando tropeçava para fazer rir quem o via:

Tinha a cabeça avariada
por incurável dislexia
fazia rir quem chorava
fazia chorar quem ria

Dias de guerra, estes em que nos encontramos imersos. Podia ser diferente? Não deposito esperança nisso, a não ser que nos cinjamos ao jardim privado para o qual convidamos o sol das manhãs, um gato vadio, o animal de companhia. A solidão é o melhor dos medicamentos contra o jogo das simulações e a histeria da dissimulação que entretém mascarados, foliões, fantasistas.

segunda-feira, 9 de março de 2026

O LEITE ESTÁ AZEDO

 
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de
muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Mário Cesariny

Cabe tudo dentro daquelas paredes, cães e gatos, azeite e vinagre, gregos e troianos, e tanto uns como outros, complacentes com administrações e gerências, acham bem dizer que sim, não estão nem aí, vendem-se por um prato de lentilhas e uma ensaboadela no ego. Ouvi dizer que, em certos lugares, a máfia começou a ser combatida com cuspidelas. Quando um mafioso chegava, alguém escarrava para o chão. O povo levantava-se, abandonava a sala e deixava o mafioso a falar sozinho. É uma bela imagem que hoje se revela quase impossível. Ninguém cospe para o chão porque é feio, bonito é termos todos cu para as mesmas cadeiras. Ora senta-se o fascista, ora senta-se o democrata, com o tempo a cadeira ficará disforme. Mas o que importa isso? Alguém depois se encarregará de mudar as cadeiras.

domingo, 8 de março de 2026

ENCENA-SE UM DIRECTO

 
Khamenei sucede a Khamenei, num sinal claro do sentido que esta guerra tem. Em directo imprecavido, vimos um míssil iraniano cair em Tel Aviv. Ao que parece, a democracia israelita pune quem divulgar imagens dos estragos da guerra em território interno. O petróleo em Teerão arde, espargindo a cidade com uma chuva negra. Uma forte explosão foi ouvida em Oslo, junto da embaixada dos Estados Unidos. A guerra continua, o aumento do custo de vida também. A indústria do armamento prospera, tal como o ódio e a morte.

BURACOS NEGROS - UCRÂNIA E IRÃO

 



sábado, 7 de março de 2026

AS SINOPSES DAS VÍSCERAS

 
Desaparece um escritor dito maior e lá aparece um desfile de patos e de galinhas nas exéquias, a cacarejarem e grasnarem os maiores disparates. Aposto o tomate esquerdo em como não leram um único livro do defunto, nem aquele que convida o Tony no dia da família, nem o outro que cambaleia pelas ruas, nem aquela que coisa. De resto, o dito maior há muito que não tinha leitores. Quero dizer, tinha os que tinha, mas as vendas haviam decrescido nos últimos anos consideravelmente. Vai agora regressar aos tops, por certo empurrado pela morte e o voo das campanhas necrófagas. Foi assim com a Santa Agustina, assim será com o Santo Antunes e outros lhe seguirão. Lembro-me que nos últimos anos, mais ou menos a partir de "Sôbolos Rios Que Vão" (2010), as devoluções eram consideráveis. No Natal, lá marchavam algumas remessas. Ficava bem oferecer um livro do Lobo, desde que não uivasse para inquietação das almas. Os títulos eram difíceis - "Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera" (2016), "Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água" (2017) -, pelo que os putativos leitores pediam o último Lobo Antunes e pronto, quando pediam. Tantas vezes nem nome de autor, quando mais o barroquismo dos títulos. Aquele que é candidato ao Nobel, diziam. Enfim, a distância entre as palmas e o coração é sempre um fosso imenso onde a inteligência em queda espera não se estatelar. "Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo.", disse o dos Negócios Estrangeiros. E eu a desesperar por um jornalista, um único, que lhes perguntasse uma coisa tão simples como: qual o livro dele que aconselha e porquê?

sexta-feira, 6 de março de 2026

50 x 40

 


"Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável": Mão Morta

Foi o último disco de rock português a entusiasmar-me verdadeiramente, já lá vão 28 anos. De uma coisa não podem os Mão Morta ser acusados, da rendição ao vazio absoluto que tem vindo a tomar conta de nós. Depois de Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável (1998), concebido a partir das teses situacionistas, já nos ofereceram material inspirado no Conde de Lautréamont, abordaram as teorias apocalípticas, exploraram o caos climático em que estamos envolvidos, etc. E isto leva-me a outros temas. Na Assembleia Municipal de Lisboa, a 13 de Janeiro de 2026, a deputada Margarida Bentes Penedo, com a pasta da Habitação no Governo Sombra do Chega – na Cultura teríamos Teresa Nogueira Pinto (rica peça) – airou-se à linha artística do Teatro do Bairro Alto. Mais recentemente, foi visado o Teatro Animação de Setúbal, atacado pelos vereadores do Chega por ter uma “agenda ideológica”. Em causa uma peça de Rui Zink, imagine-se, intitulada “Manual do bom fascista”, e um recital de poesia Queer – os do Chega pronunciam Quer. Estes ataques à cultura vão repetir-se, são ataques não à cultura em sentido lato – a das picarias e touradas não os afecta, nem outros inócuos entretenimentos de massas -, mas a opções de programação, sempre na base do mesmo argumento: estar o dinheiro público a financiar aquilo a que eles chamam “endoutrinação”, exactamente o mesmo argumento utilizado contra a disciplina de Cidadania. Ora, a endoutrinação ou endoutrinamento é precisamente o que a extrema-direita faz ao pretender limitar o acesso à diversidade, ao pretender restringir a produção cultural à cultura de massas anódina, ao tentar cercear as liberdades criativas apontando o dedo ao que julgam ser minorias privilegiadas. Qualquer objecto cultural que aborde temas como o racismo, a identidade de género, o problema da imigração, a violência doméstica, ou se foque, por exemplo, no crescimento dos populismos e da extrema-direita conservadora, cristalizante, será sempre por essa gente considerado doutrinário, na medida em que não admitem o debate, a reflexão, a discussão como um propósito artístico inerente à própria criação, olham para um objecto artístico como um produto fechado, propagandístico, reduzido a uma ideia de utilidade prática que não deve transpor as fronteiras do entretenimento. Foi sempre assim, temos os exemplos fornecidos pela História do século XX. A única forma de resistir a isto é unir forças no sentido de propor, através da diversidade – eu, por exemplo, sou consumidor de cultura de massas, já papei tudo o que é festivais de música neste país -, alternativas o mais abrangentes possível, estimulando o debate, a reflexão crítica, provocando até quando é necessário provocar, derrubando os muros que impedem a crítica. Sem essa energia transformadora vamos acabar comidos pelo “espectáculo” vazio, inofensivo, do mero entretenimento, esse sim verdadeiramente doutrinário da letargia legitimadora dos males que assolam o mundo. Sem estarem confinados pelo meio, os Mão Morta nunca deixaram de andar no interior do meio desbravando caminho para as margens. Honra lhes seja feita.

quinta-feira, 5 de março de 2026

NOTÍCIAS DA GUERRA

"As tropas norte-americanas foram informadas de que a guerra contra o Irão fazia "parte do plano divino de Deus", alega organização de defesa dos direitos humanos. Grupo de defesa da liberdade religiosa afirma que 200 soldados enviaram queixas de que os seus superiores usaram retórica cristã extremista para justificar a guerra."

Alguém fala sobre a teocracia norte-americana?

*

À margem do direito internacional e sem qualquer justificação minimamente credível, duas das maiores potências militares do mundo unem-se na agressão a um país com raízes ancestrais. Ao pé do Irão, tanto Israel como os Estados Unidos são jovens imberbes. Para alguns comentadores que por aí proliferam como cogumelos tóxicos, o Irão tem um regime horrível que deve ser aniquilado. Não vale sequer a pena chamar a atenção para tantos outros regimes horríveis que não mereceram dos actuais agressores nenhuma atenção especial. Sucede que é no Irão que têm crescido de dia para dia as baixas dos extraordinários ataques de precisão dos aliados EUA e Israel. No Irão e no Líbano. Portanto, os maus são os que morrem, não são os que matam. Até ver, não sabemos de baixas heróicas nos lados de Israel e EUA. Devem estar a ser alvo de bombinhas de carnaval, os terríveis países que eles atacaram não têm feito vítimas. Ali e acolá, lá se noticia uma coluna de fumo. Mas nada de vidas humanas. Ainda bem que os maus deixaram de conseguir matar. O que seria de nós sem os bons que matam centenas de civis, crianças, velhos, mulheres, jovens, fazendo explodir bombas em escolas e hospitais? Ufa, que sossego para as nossas consciências.

*

Vem no The Guardian: "Investigadores norte-americanos acreditam que o ataque à escola de raparigas iranianas foi provavelmente levado a cabo pelas forças norte-americanas. As autoridades militares norte-americanas informadas sobre a investigação fazem revelações, enquanto o Pentágono apenas confirmou que a investigação está em curso." Por cá, temos quem não só encontre maneira de justificar isto como de dizer que foram os iranianos a matar as suas próprias crianças. Nas televisões, criaturas como Helena Ferro de Gouveia usam a favor de Israel e dos EUA os mesmos argumentos que Putin usou para invadir a Ucrânia. Tudo o que na Ucrânia era inadmissível é agora compreensível.

 *

Se a ideia é salvar o povo iraniano de uma tirania desumana, quem salvará o mundo dessas tenebrosas figuras que dão pelos nomes Donald Trump e Benjamin Netanyahu?