quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O HOMEM DA FLOR NA BOCA

 


(...)

E era isto que era de demonstrar, está a ver? Com provas e exemplos contínuos, a nós próprios, implacavelmente. Porque, caro senhor, nós não sabemos de que coisa é feito, mas é que, é que, todos o sentimos aqui, como um nó na garganta, o sabor da vida, sempre insatisfeita, que nunca se pode satisfazer, porque a vida, no próprio acto de a vivermos, é assim, sempre ávida de si mesma, não se deixa saborear. O saber está no passado, que permanece vivo cá dentro. O gosto da vida vem-nos daí, das recordações que nos têm amarrados. Mas amarrados a quê? A esta sensaboria aqui... a este tédio... a tantas estúpidas ilusões... insípidas ocupações... Sim, sim. Isto que agora, aqui, é uma sensaboria... isto que agora é para nós uma desventura, uma verdadeira desventura... sim senhor, à distância de quatro, cinco, dez anos, quem sabe que sabor terá tomado... que gosto, estas lágrimas... E a vida, santo Deus, só o pensar em perdê-la... especialmente quando se sabe que é uma questão de dias...

(...)

Luigi Pirandello, in O Homem da Flor na Boca seguido de Sonho (mas talvez não), tradução e prefácio de Isabel Lopes e Fernando Mora Ramos, Cotovia/Teatro Nacional S. João, 1998, p. 29.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

UM POEMA DE JOSÉ EMÍLIO-NELSON

 


Um HOMEM DE PORLOCK  bateu à porta de estrofes sonhadas.
E a pluma de Coleridge não mais abriu-se ao sonho <de que
antes, febrilmente, se lembrava>. [Plot]

(Ai! Cinza de versos! Quem me chama?)

José Emílio-Nelson, in O Homem de Porlock - Film, posfácio de Tiago Cfer, insert de Marcelo Ariel, fotografias de Sebastião Resende, Edições Esgotadas, Setembro de 2026, p. 74.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

DAR NAS VISTAS

 
As pessoas que gostam de dar nas vistas podiam começar por beliscar as próprias retinas. Ia dizer esbofetear, mas não é preciso tanto. Em vez de darem chapadas nas vistas, belisquem as vistas. É que estão muito em sintonia com estes tempos, com as práticas mais bem sucedidas do exibicionismo reinante e do narcisismo metódico. Nem precisamos de ligar a televisão para ver o telejornal, povoado de gente a fazer tudo para dar nas vistas. Até o pino. Começando pelos próprios jornalistas, que ora fazem o pino, ora denotam impressionantes competências contorcionistas. Malabarismos também há, ser discreto é que não rende, não produz efeitos, a discrição deixa-te na penumbra, ali esquecido e ignorado, pobre de ti, pelo que o melhor é começares por beliscar as próprias retinas. Imagina-te a ser entrevistado na rua por um jornalista que pretende saber porque estás numa manifestação. Não tentes sequer responder com discrição, dá logo nas vistas, belisca as retinas de imediato. Caso contrário, ele vai antecipar-se com perguntas que nada têm que ver com o início da conversa. Perguntas para dar nas vistas. A antecipação é o segredo de quem procura dar nas vistas com sucesso. Mais do que qualquer outra táctica, a antecipação é assaz refrescante para os egos inflamados e agigantados que não se têm em si de tanto desejarem dar nas vistas. Objectivo: ser o centro das atenções, o ponto em torno do qual o mundo gira, e desse modo impor as suas perspectivas esbofeteadas de darem nas vistas. Reparem como há tantos jornalistas que pretendem ser o centro das atenções, é típico nas sociedades rendidas ao espectáculo. Quanto mais no centro das atenções, mais no topo da carreira. O centro das atenções é um potente elevador social que faz quem quer dar nas vistas ascender à condição de estrela, por vezes até à condição de alpha ursae minoris. Minoris, mas grandis, enormis, gigantesquis, porque quando ocupamos o lugar polar todas as atenções se viram para nós. E então já nem precisaremos de dar nas vistas, beliscar retinas, bastará abrir a pestana. E o ego baterá asas.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O TEATRO É PURO CINEMA

 


(...)

- Quando eu era pequeno queria ser actor. E agora que sou actor, o que eu queria era voltar a ser pequeno, porque o teatro é uma traição. O teatro é uma verdadeira mentira. Não é mais do que um sonho feito de palavras débeis inábeis habilitadas e vestidas para se esconderem por detrás do vestuário extraordinário (e) da decoração.

- Quando eu era novo era um verdadeiro imbecil. Pergunto-me se terei aprendido alguma coisa.

(...)

Alvaro García de Zúñiga, in O Teatro é Puro Cinema, trad. Jorge Melícias (a partir da versão espanhola), Blablalab / Teresa Albuquerque, Abril de 2024, p. 9.

domingo, 11 de outubro de 2026

EU CÁ SOU BOM

 
Olho-me nos olhos em loop, adoro rever-me, devolver-me a mim mesmo no reflexo do espelho e do eco, interpretar-me no vídeo, na selfie, para quando na presença de ministros, secretários, jornalistas, ter o corpo na mais favorável das posições, a três quartos, de perfil, rosto no rosto. Ah, como eu me admiro na repetição do vídeo caseiro, eloquente como só eu, homem de palavra estudada, ritmo marcado, respiração certa, tudo ali tão pronto para vencer e ficar na história e sobre mim escreverem mil e uma maravilhas. O gesto esquemático, a pose a cada momento ensaiada, a frase sublinhada pela própria língua. Maravilha de mim, génio esquecido, incompreendido, ignorado, mas génio, que sempre elogia e reconhece a discrição, a simplicidade e a humildade dos outros.

sábado, 10 de outubro de 2026

UM POEMA DE RUI LAGE

 


ELEGIA PRATEADA PARA RUI COSTA

A morte é uma bicicleta
Rui Costa

Sim, a morte é uma bicicleta
e a ladeira que não acaba de esfolar a infância
com quedas que não custavam o que hoje custa
erguer os ossos
e saber ao espelho este presente interminável,
puramente indicativo,
em frias torres de vidro - ó quem dera abolidas!

Que será de nós, hóspedes inconsoláveis de Aquitânica?
Não mais nos será dado enviuvar da única estrela?
Erguer a taça à indomável Natura,
partilhar o pão e o vinho pré-industriais?

Ficheiros, relatórios, folhas de cálculo,
para tais misérias é que somos fadados?
Que é da pedra, do peixe, da planta,
do pássaro? Saberão os vindouros o que são?
Sim, havemos de imprimi-los a três dimensões,
descarregá-los nos olhos, sóis negros
a pairarem sobre jazidas de gigabytes,
tudo vagamente olvidado e vagamente lembrado
como as coisas longínquas que nos perseguem os sonhos
e o éter da manhã desfaz em fumos
pestanejantes.

Sim, a morte é o passado,
talvez um adro, sinos,
o futuro infundado, o valor
e a virtude, rochedos a refundar.

Ainda ontem pela raiz nos arrancavam ventanias
e sobre nós mesmos caídos
mordíamos o pó sob as lápides da lembrança,
as bocas ensanguentadas de símiles vetustos.
E tudo pela pátria: não foi sempre ela,
essa puta velha, a arrastar a voz
do outro lado da linha?

Oh dias quietos envidraçados
de sol a sovar o rio.
Continuamos encarcerados em nuvens graves.

Como nos achas, vistos daí?
Sim, vistos daí onde a água não canta ao saltar
entre as pedras?

Mochila às costas, livros, cachaça:
teremos aprendido alguma coisa?
Teremos aprendido a não escrever poemas?

Sim, é preciso deserdar a felicidade
antes que nos morra na sala, de boca ao lado.

Do mais não vale tirar sentido: pelintras da unidade,
somos ainda o chão.

A morte é uma bicicleta.

Continuamos por aqui a pedalar.

Rui Lage, in Física Espiritual - antologia pessoal, posfácio de Arnaldo Saraiva, Assírio & Alvim, Janeiro de 2026, pp. 202-204.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

RECLAMAÇÃO

 
Fazem-me falta poetas que cantem as cabeleiras grisalhas das mulheres exangues, os músculos flácidos dos homens estéreis, as constelações de manchas na pele ressequida, dentes debilitados por cáries internas, a carne engelhada dos velhos, rostos amarrotados por olheiras fundas, fazem-me falta poetas que cantem a velhice sem resvalarem na retórica saudosista dos gloriosos passados e dos paraísos perdidos e dos amanhãs silenciados, sem canto, mortificados. Fazem-me falta poetas que falem do corpo como uma cedência por comodato e da vida como um instante perdurável e do tempo como o sopro estanque de humanidade que sempre foi o que é. Poetas capazes de abolir o uso do advérbio agora por contramedida a um antes que não foi melhor nem pior, foi diferente. Poetas que não temam a tristeza nem a imponham ao presente por nostalgia de magistrais infâncias, oníricas infâncias de colo e mimo, sem pés descalços nem fome nem nódoas negras de trabalho infantil forçado. Cansado que me encontro desses paraísos íntimos e pessoais, cantados como se mundo outro não houvesse, quedo-me a assobiar a falta que me fazem os poetas que permutem o canto não pelo lamento, mas, vá lá, pela assumpção de um destino para todos igual, a despeito das paisagens em que um corpo brota. Faz-me falta a verdade, a honestidade, o grito autêntico que não tema a melancolia nem a loucura nem a morte.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

NOBEL DA LITERATURA: ANNE CARSON

 


Sobre Anne Carson, neste pardieiro:

1. Antigonick, uma peça de teatro: aqui.
2. Autobiografia do Vermelho: aqui.
3. Vidro, Ironia e Deus: aqui.
4. Um fragmento de Águalisa - ensaios e poesia: aqui.
5. Um poema de A Beleza do Marido - um ensaio ficcional em 29 tangos: aqui.
6. Albertine - Rutina de ejercicios: aqui. Deste último, que creio não estar publicado em Portugal, deixo uma borla:

Apêndice 4 sobre Samuel Beckett
 
Os hábitos, o sofrimento, o tédio, a memória, beber chá, biscoitos e a inescrutável banalidade da existência são tópicos que Beckett e Proust têm em comum. Cada qual anatomiza-os de maneira diferente. Aquilo que para Proust se encontra localizado na cabeça, a boca ou a mente, move-se pelo corpo abaixo em Beckett. Por exemplo, a cena em que molha a madalena no chá, que transporta Marcel ao interior de um sonho metafísico. Ao primeiro gole de chá, segue-se um segundo e um terceiro, pois pretende prosseguir o estudo desta inesperada delícia. Porém, decepciona-se ao descobrir que a sensação diminui ao repetir-se: «Bebo um segundo gole em que não encontro nada de mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo», diz. Compare-se com o bebedor de chá Murphy, protagonista da novela homónima de Samuel Beckett: «A sensação de um assento que, finalmente, se juntava ao seu traseiro derreado era tão deliciosa que se levantou de chofre e repetiu o movimento. Para não se deixar comover com tais ternuras, teria de as conhecer melhor. Mas a segunda junção foi uma enorme decepção.» No geral, Beckett está mais interessado do que Proust na parte posterior do corpo. Veja-se, por exemplo, a personagem de Pim em Beckett, apunhalado no cu com um abre-latas, ou Krapp a queixar-se do intestino enquanto continua a comer bananas, ou o abundante discurso anal em Murphy, ou a exaustiva excrementação do mundo nas expressões de Vladimir e Estragón, para não falar do modo como Beckett rebaptiza os editores Chatto & Windus, que lhe rejeitaram uma colecção de poemas em 1934, como “Calaboca & Jáera”  (Shatupon & Windup). 

Versão de HMBF. Nas citações de Proust e Beckett usei as traduções de Mário Quintana e Maria Jorge Vilar de Figueiredo. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

HIPERFÓLICO

 
Tal como a Feira do Livro de Lisboa, o Fólio deste ano é o maior de sempre. 450 autores em 300 iniciativas repartidas por 10 dias, o que perfaz 1,25 iniciativas em cada hora das 24 que um dia tem, numa média de 1,5 autores por cada iniciativa. Tenho a certeza de que serão momentos de profunda reflexão e muita partilha de saber. Estou com expectativas elevadíssimas sobre as contribuições das metades de autor distribuídas pelas 300 iniciativas, de que por certo resultarão para cima de 600 consequências.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

MICRODRAMA

 Diálogo escutado durante o passeio da cadela numa manhã de neblina:

- Estou aqui a ver se chega o D. Sebastião.
- Só se vier à boleia. Como as coisas andam, o cavalo já deve ter morrido.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

CROMELEQUE DOS ALMENDRES

 


7000 anos, dizem, por razões que só a especulação explica. A esperança média de vida não era assunto, pelo que de certeza seriam mais felizes.

domingo, 4 de outubro de 2026

O PRINCÍPIO DA ALIENAÇÃO

Tenho sido revisitado por sonhos antigos. Às vezes, só por imagens e situações fragmentadas desses sonhos. Uma casa de férias, um lugar misterioso, um complexo arqueológico junto a uma praia, situações de convívio com pessoas conhecidas. Algumas destas imagens são tão vívidas que fico na dúvida se não terei vivido efectivamente aquelas situações. Hoje sinto-me impelido a telefonar a um amigo para confirmar uma situação. Talvez venha a julgar-me louco, mas sinto mesmo necessidade de esclarecer a veracidade do sonho. Deve ser isto o princípio da alienação.

sábado, 3 de outubro de 2026

SENHOR E SERVO

Passados 52 anos sobre a queda do Estado Novo, verificamos que a ditadura perdura no íntimo dos portugueses. O regime mudou, fez-se o 25 de Abril, aprovou-se uma Constituição, temos eleições. Mas isto quer dizer o quê? A Constituição nunca foi cumprida, objecto de sucessivos ataques e violações sem consequências. Veja-se o modo de lidar com as manifestações populares, com cargas policiais sobre um povo que, muito provavelmente, nem sabe o que vem escrito no artigo 45⁰ da CRP. Nem o povo, nem os polícias, nem os políticos, nem nenhum dos tiranetes que, no exercício dos seus pequenos poderes, se julga dono e senhor do mundo. A ditadura perdura dentro dos portugueses, um povo que, por incúria, incultura e falta de educação, ainda não aprendeu a lidar nem com a liberdade, nem com o poder. Só sabe que o respeitinho é muito bonito e que a si ninguém o cala, formas populares arquetípicas de dizer servo e senhor.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A MULHER QUE CANTA

 



Baseado na peça homónima do libanês Wajdi Mouawad (1968), Incendies (2010), do canadiano Denis Villeneuve, esteve nomeado para melhor filme estrangeiro nos Oscars. Ganhou Hævnen, do dinamarquês Anders Thomas Jensen. É frequente nas peças de Mouawad os tempos misturarem-se, o passado conviver com o presente em dramas familiares que exploram a descoberta da humanidade ocultada por detrás da barbárie. Incendies é o segundo tomo de uma tetralogia iniciada em 1997 com Littoral, proposta de reflexão sobre o problema das origens. O filme começa com a leitura do testamento de Nawal Marwan, uma mulher cuja trágica história de vida vamos descobrindo enquanto acompanhamos os filhos gémeos, um rapaz e uma rapariga, na tentativa de cumprir os últimos desejos da mãe: entregar duas cartas, uma ao pai desaparecido, outra a um irmão desconhecido. As revelações surpreendentes, mais do que reabrir feridas de um passado marcado por conflitos vários, lutas políticas, prisões, massacres, tortura, exílio, pretendem sarar o que a memória manteve vivo. Esquecendo? Não. Buscando uma reconciliação com a dor fundada no amor.  

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

SEIS NOITES NA ACRÓPOLE

 


Prémio Nobel da Literatura em 1963, Yórgos Seféris (Esmirna, Império Otomano, 1900 – Atenas, 1971) só publicou poesia e ensaio em vida. Também Strátis, personagem principal de Seis Noites na Acrópole (1974), aspira a poeta e ensaísta. Publicado agora em Portugal pela E-Primatur, com tradução de José Luís Costa, este romance póstumo transporta-nos para a Grécia «nos tempos da ditadura de Pángalos», portanto, entre 1925-26, através de um grupo de jovens intelectuais que busca «ganhar coesão» reunindo-se na Acrópole em noites de lua cheia. O retrato é de desalento, uma Grécia com a identidade em ruínas, visitada por turistas, povoada por bêbados, putas e jovens desencantados. As relações no interior deste grupo de aspirantes a intelectuais, são, de algum modo, metonímicas da dispersão, do desterro, do exílio em que os gregos viveram carregando aos ombros os destroços de um passado glorioso. As aventuras amorosas, também elas malogradas, encontram no lugar do bordel a representação mais naturalista da decadência social em que as personagens estão metidas. Alternando entre a prosa diarística de uma personagem e o relato dos acontecimentos, Seféris deixou-nos nesta obra um testemunho pungente do sentimento de solidão que o perseguiu como sombra de uma identidade cultural fracturada. Restam ruínas:
 
«Repara como os nossos gestos, movimentos e actos se transformam de modo fulminante em mármore mal entram no passado, como se se afundassem em ar liquefeito. E tudo permanece sólido e imóvel pelos séculos dos séculos; nada pode mudar a sua consumada posição. Geramos estátuas a cada momento. Feriu-me esta ideia como uma súbita visão. É de enlouquecer, se insistirmos na reflexão.»