
Um dois em um: as 238 pp.
de Manuel & as 39 pp. de Manuel – Manuel de lecture (TNDMII,
2014), que assumiremos como embrião do texto mais extenso. Uma nota prévia
informa-nos que Manuel nasceu no ano 2000, primeiro como parte
integrante de um livro apresentado na primeira bienal de Oeiras, evoluindo
posteriormente para uma peça de teatro radiofónico e encontrando a sua configuração
“literária” neste volume: «Manuel é uma obra que passou por uma fase plástica,
acústica e cénica para integrar as três na sua forma final.» Numa Carta ao
Leitor endereçada por Teresa Albuquerque, somos ainda informados de que o
texto da primeira edição foi concluído por Alvaro García de Zúñiga (1958-2014)
nos últimos dias de vida: «Embora completo é um livro que potencialmente não
tem fim, contém muitos outros livros e combinatórias infinitas. É um
livro-processo (...)». Antes de mais, refira-se estarmos perante uma obra de
fôlego, uma espécie de testamento onde são identificáveis os problemas
aflorados em textos anteriores mais curtos, tais como Teatro Impossível,
Actueur ou s/t, aqui exaustivamente desenvolvidos através de um
processo de desconstrução das formas e das convenções literárias que tudo
coloca em diálogo. Esta dimensão testamentária, de resto, foi de algum modo
assumida na inscrição frontispicial: «Alvaro: Manuel Post-Mortem / Manuel de
Conserva / Conversa & Acciones, una vez inerte el cuerpo que, com espíritu,
pensó sobre & produjo todo y de cuanto aqui se trata. Viaje dentro de tales
Obras y sus Fuentes.»
É mais um texto inclassificável
quanto ao género, de uma hibridez observável, desde logo, nas sucessivas
metamorfoses que foi sofrendo ao longo dos anos (plástica, acústica, cénica, literária). Há, porém, uma componente
visual neste livro, não tão evidente noutras obras, que passa pela disposição
tipográfica, pela inclusão de símbolos, de pictogramas, de ilustrações, até
desenhos, mas também pela presença de vários sistemas de escrita aqui
representados através de logogramas, grafemas, hieróglifos, toda uma
alfabetografia que extrema a natureza multilingue anteriormente explorada na
obra do autor. Dos hieróglifos às linguagens de programação há de tudo um pouco,
num “processo” que tende, mais uma vez, para a (con)fusão de múltiplas
linguagens acompanhado pela fusão de múltiplas línguas e idiomas. Outro aspecto relevante, directamente associado à polifonia
decorrente do uso de várias línguas, é a dimensão sonora numa
escrita em que as marcações rítmicas parecem determinantes, aproximando-se
amiúde de técnicas de versificação ou de composição poética que assentam na
conjugação de palavras através de aproximações fonéticas e gráficas. O próprio
título Manuel – Manuel de lecture brinca com o duplo significado do nome
próprio Manuel e do substantivo masculino francês que significa manual. Este é
também um factor lúdico muito activo e atractivo na obra de Zúñiga, por vezes
com resultados desconcertantemente cómicos: «APÊNDICE / Fue en su próprio
entierro que Manuel supo que le habían sacado el apêndice» (Manuel – Manuel
de Lecture, p. 33).
Se Joyce nos desafiou com
a exploração de todos os géneros literários nas 24 horas de vida de Leopold
Bloom, Alvaro García de Zúñiga desafia-nos com a totalidade da linguagem na
história de um Manuel que é, ao mesmo tempo, nome de personagem e manual de
leitura mais dado a problematizações do que a instruções, com alusões que, aqui
e acolá, permitem imaginar tratar-se este de um forte testemunho da relação
entusiasmada que o autor manteve com as problemáticas da filosofia da
linguagem. Sabotando a ideia de biografia, esta é também uma obra com certa
dimensão autobiográfica. Longe de haver aqui um qualquer programa narrativo, a
verdade é que a viagem aparentemente delirante proposta assim que levantamos
voo com a leitura de Manuel - «Pour ouvrir lever» -, percorre as etapas de uma vida amplamente
biografada, a de alguém que procurou compreender a realidade através dos livros
ou, pela inversa, os livros através da realidade. Talvez a única instrução a
ter em conta deva ser a que surge logo a páginas 21: «Antes da Primeira
Utilização / Desmonte o livro. Assim poderá familiarizar-se com as suas
diferentes partes e peças e compreender melhor o seu funcionamento.» Este
trabalho de desmontagem, que não é exactamente de interpretação ou de análise,
até porque a obra se encarrega de resistir a isso minando constantemente
qualquer tipo de compreensão definitiva, corresponde a uma familiarização com
os processos inerentes à sua própria composição. Ele informa-nos ser um «audio
libro» (p. 23), mas, ainda que o seja, é também um livro-jogo que propõe ao
leitor um «Manuel enredado en la redacción de si mismo» (p. 29). E a partir
daqui, só há que entrar no jogo aceitando as suas regras, que são as do bluff,
isto é, da simulação, ou seja, de uma incansável desconstrução das metodologias
interpretativas.
Manuel nasceu em Ipanema
de um pai panamenho (Manuel Papá-Mé), cônsul do Panamá em Paname (gíria para
Paris), e de uma mãe senegalesa (N’d’laine Mó-páne) que passou a infância e a
adolescência em Fès, e deve ao irmão mais velho (Manuel Freire Frère) a paixão
por línguas. Dito isto, são várias as notas de rodapé, bem mais extensas que o
corpo de texto principal, até chegarmos a um Manuel que se dedicou a explicar si mesmo a
si mesmo, interessando-se por um «método fundamental de investigación que puede
llevarnos a entender y resolver definitivamente el funcionamento interno del
processo mental que va de las palabras pensadas a su expressión, sea esta
escrita o dicha» (p. 48). Não nos cabe contar a história de Manuel, que a certa
altura assume contornos de ficção científica colocando o leitor num labirinto
do qual dificilmente se libertará sem inventar asas que o protejam da
tentação interpretativa. «Et
tout irradié qu’il est, va se mettre á émettre de la littérature pour le dit»
(p. 92). Eis o programa: percorrer a espiral de notas de rodapé
sobre notas de rodapé deixando-se levar pelo caos aparente de resignificações,
pela desmesura das alusões, ligações, conexões, diremos hoje dos intermináveis links
que vão impelindo a «Una lectura, anormal, de escucha, deficiente. Una lectura
de escucha deficiente y anormal» (p. 112). Manuel antecipa a pós-verdade
do mundo digital, virtual, da era do “pensamento artificial”, provocando-nos
com materiais que escapam às delimitações lógicas de um pensamento que já não
pode posicionar-se diante da realidade como se ela fosse totalmente
percepcionável: «le problème du langage n’a rien à voir avec celui de la
perception» (p. 170). A hipótese de captação do real é estimulante, sobretudo,
para a imaginação, a qual não se rege, como é sabido, pelas regras do
pensamento lógico, antes se encarrega de a ele escapar como prisioneiro numa cela. As
percepções são altamente erróneas, ao contrário da imaginação que é altamente
criativa.
O texto vai deixando
pistas que levam a uma única saída, a que sempre surge na obra de Zúñiga como
término de um (infinito) exercício reflexivo: a morte, o silêncio, a inacção.
Em Manuel – Manuel de lecture isso é ainda mais evidente, com um Manuel
no leito de morte dividido entre os ténues fios de luz percepcionados pelos
olhos ainda postos na televisão do quarto no hospital e o som do pip nas
máquinas que o conservam vivo até um fim, mais uma vez, de comicidade desconcertante:
«MANUEL, SMILE, YOU*RE IN INTERNET» (p. 35). Apetece dizer que o que acabou ainda agora começou, pois até chegarmos ao destino a viagem
processa-se nos carris da “batalha de ideias” (p. 147) com múltiplos desvios,
inflexões, derivações, saltando da linguagem comercial para a biologia
molecular, da indústria da vida para a exploração aeroespacial, sem prescindir
de uma moral efectiva e assaz concreta: «- Pienso – piensa Manuel – que la prueba
mas acabada que somos unos animales de la peor espécie es olvidarmos de ello»
(p. 157). A Carta Magna Ética de Manuel, que é uma carta magnética, prevê que
os fins sejam meios que contribuam para a alteração dos ditos fins, pelo que o
que importa sublinhar é, precisamente, a tal ideia de processo, de “livro-processo”,
introduzida por Tereza Albuquerque na Carta ao Leitor, à qual devemos
acrescentar esta síntese inescapável: «A reflexão sobre o papel e a natureza do
pensamento, da linguagem e da escrita estão no centro desta desconstrução.» A
morte é, portanto, um descanso para este Manuel que pensou exaustivamente
descobrindo que os pensamentos, mais do que as conversas, são como as cerejas e
é essa hiperactividade num corpo vivo que aqui surge registada sob a forma de
palavras – unidades compostas por símbolos que emitem sons produtores de
significados. «Manuel sonha com línguas fluindo sem fronteira, como paisagens à
janela de um comboio. Línguas rios. Num comboio» (p. 180). Talvez seja esta a
imagem mais poética de um Manuel que, deparando-se com a extinção dos idiomas
como quem se depara com a extinção da própria vida, conclui que o sentido repousa
mais implacavelmente na ausência de sentido. «Manuel se fue Alejandro.»