quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

BOAS PERGUNTAS

Aqui.

CONTRIBUTO PARA AS ESTATÍSTICAS


Em cem pessoas,

sabedoras de tudo melhor —
cinquenta e duas;

inseguras de cada passo —
quase todo o resto;

prontas para ajudar,
desde que não demore muito —
quarenta e nove;

sempre boas,
porque não conseguem de outra forma —
quatro, talvez cinco;

dispostas a admirar sem inveja —
dezoito;

constantemente receosas
de algo ou alguém —
setenta e sete;

aptas para a felicidade —
vinte e tal, quando muito;

individualmente inofensivas,
em grupo ameaçadoras —
mais de metade, com certeza;

cruéis, 
por força das circunstâncias —
é melhor não sabê-lo,
nem aproximadamente;

com trancas na porta depois da casa roubada —
quase tantas como
aquelas que as têm, antes da casa roubada;

não levando nada da vida a não ser coisas —
quarenta,
embora preferisse estar enganada;

agachadas, doloridas
e sem lanterna no escuro —
oitenta e três,
mais tarde ou mais cedo;

dignas de compaixão —
noventa e nove;

mortais —
cem em cem.
Número, até agora, não sujeito a alterações.

Wisława Szymborska, in Instante, tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio D'Água, Janeiro de 2006, pp. 63-65.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

EL PUCHERO MISTERIOSO



Não sei quando chegaram os telemóveis à Argentina, mas não deve ter sido muito antes de terem chegado a Portugal. O mundo moderno é deveras imparcial na distribuição que opera dos produtos da sua amada revolução (refiro-me à tecnológica). Penso nisto por causa de um poema do argentino Raúl González Tuñón, que morreu no ano em que eu nasci: 1974. O poema chama-se “El Puchero Misterioso”, refere-se a uma hospedaria desaparecida ao tempo de Tuñón. Puchero pode referir-se a muitas coisas, a um guisado, a fazer beicinho, a uma espécie de tijela ou púcara, pode ser a comida do dia-a-dia. Para o caso importa o tom nostálgico do poema, a referência a algo que desapareceu acompanhada de uma espécie de inventário de memórias pessoais, coisas e hábitos caídos em desuso, como os amigos, os cocheiros, a boémia, os encontros, a confraternização que diariamente sucedia no “Puchero Misterioso”. O leitor adquire por este lugar a mesma afeição que tem pelos lugares desaparecidos da sua infância. Torna-se mistério como enigmáticos são os fantasmas. Eu lembrei-me de imediato da taberna da Dona Ilda, num bairro onde os meus pais viviam, onde bebi a primeira ginja com a idade hoje absolutamente proibitiva de para aí uns 8 ou 9 anos. O poema é sobre os “verdes anos”, expressão que de resto surge num verso, é sobre a “nostalgia enquanto quarto habitado pelo insone”. Mas se fosse apenas isso, seria como inúmeros outros poemas voltados para o passado, mais ou menos atormentados com o que se perde e não se recupera, profissões desaparecidas, objectos com elas caídos em desuso, hábitos, costumes e tradições fossilizados, espécies extintas, sinais de uma ruína continuamente produzida pela passagem do tempo. Não é apenas isso o poema, o remate finta a história, trama-nos o sentimento. Passo a citar, segundo tradução minha dos derradeiros três versos: «Tudo se perdeu, tudo, menos o que virá. / E a chuva, os circos, a esperança, / o carteiro». Estávamos em 1974, o carteiro ainda chega e circos não faltam. Para todos os gostos. Apesar das alterações climáticas, rogamos por chuva como outrora rogávamos. Raúl González Tuñón não falhou nos vaticínios, embora nos obrigue a perguntar pelo que fizemos da esperança. Por esta entendo uma espécie de confiança no futuro, o optimismo da vontade que certo intelectual italiano apregoava, pela esperança entendo o contrário de fé. O que esta tem de desespero, aquela tem de confiança. À entrada do terceiro anel deste Diga 33, esboçado em 2018 e desenhado em 2019, julgo eu termos chegado ao momento da coloração. Tínhamos o propósito inicial que continuamos a ter, fazer da poesia um estímulo para a reflexão acerca deste nosso tempo tão pouco dado a reflexões. Fazemos o caminho na companhia daqueles que diariamente insistem nesta forma de arte, os autores, os editores, não por julgarmos que são melhores do que os outros, mas por confiarmos na sua teimosia. Procurámos fazer do Teatro da Rainha, pelo menos uma vez por mês, o “Puchero Misterioso” onde se dá esta coisa fantástica das pessoas prescindirem um pouco da sua contemporaneidade, para penetrarem numa outra espécie de futuro, um futuro paradoxal, aquele em que tornaremos a voltar costas ao sedentarismo quotidiano, saindo de casa porque, isto sou eu a profetizar, as paredes das casas tornar-se-ão absolutamente sufocantes. Tenho esta mania de que as pessoas hão-de gostar de voltar a estar umas com as outras, não apenas como quem se permite substituir emoções por emojis, mas como quem abraça de facto o outro, como quem cheira e toca e sente, corpo a corpo, olhos nos olhos. É este o futuro que pretendemos, tendo esperança de que a poesia e o teatro possam ser a ponte que a tal nos levará, pois se há coisa que o passado mostra é que, em matéria de poesia e de teatro, nem tudo se perdeu. Certos lugares de resistência continuam a resistir. A poesia segue dentro de momentos. Tudo se perdeu, menos o que virá.

Henrique Manuel Bento Fialho
05/Janeiro/2020

domingo, 19 de janeiro de 2020

LER OS OUTROS


No navio onde trabalho, estranham sempre que eu não participe nos jantares de natal ou nas festas de tripulação, preferindo ou a costumeira ida ao ginásio ou a leitura de um livro.
Explico e desculpo-me com a criação de rapaz do campo; há duas coisas de que é prudente guardar uma certa distância: de animais no cio e de árvores em queda.

sábado, 18 de janeiro de 2020

OS GRANDES ANIMAIS


   Com o passar dos anos, depois de ter sido várias vezes chamado a apresentar as obras dos meus pares, sobram-me dúvidas acerca da função daquele que se acha na posição em que agora me encontro. Como apresentar um livro de poesia? Mais fácil seria discuti-lo, se pela frente tivéssemos interlocutores com quem pudéssemos trocar impressões de leitura. Mas como apresentá-lo a quem o desconheça, a quem o não tenha lido, a quem não tenha dele senão os efeitos causados pelo nome de um autor, pelo selo de uma editora ou pelas cores de uma capa? A idade só me tem trazido dúvidas. Apesar das convicções de que não abro mão, talvez a única certeza que o tempo vem consolidando em mim seja esta de que temos muito mais a ganhar com a permeabilidade da dúvida do que com a inflexibilidade dos preconceitos. É isto o que digo às minhas filhas, sem pretender fazer disso sermão.
  A Matilde, que anda a estudar epistemologia, questionava-me há dias sobre o conceito de verdade em Karl Popper. Respondi-lhe o melhor que sabia, não lhe revelando, porém, que nunca me entusiasmei com Karl Popper. Preferia o austríaco Paul Karl Feyerabend, talvez influenciado pelo tom provocador de títulos tais como “Contra o Método” e “Adeus à Razão”. Foi através deste que tomei conhecimento de uma história deliciosa, e que passo a partilhar:

   Dario, rei da Pérsia, convocou os gregos presentes na sua corte para lhes perguntar por quanto dinheiro seriam capazes de comer os cadáveres dos seus pais. Escandalizados, os gregos responderam que dinheiro algum poderia fazê-los comer os cadáveres dos seus pais. Depois chamou uns indianos, de uma tribo que tinha por hábito comer os cadáveres dos pais, e perguntou-lhes quanto é que eles queriam para os incinerar em vez de os comer. Os indianos escandalizaram-se em coro. Como era possível tamanha afronta, sugerir que esturrassem os cadáveres dos pais?

   Esta história, originalmente narrada por Heródoto, ilustra a força e o poder do costume junto de uma comunidade, exactamente o mesmo poder e a mesma força que o hábito exerce nas nossas vidas, alimentando amiúde preconceitos e ideias feitas acerca dos hábitos dos outros, levando à censura do diferente sem sequer nos darmos conta de que a alteridade não tem uma única direcção. Para o outro… eu sou um outro.
   E que tem isto que ver com um livro de poemas? Que tem isto que ver com este livro de poemas em concreto? Tudo, na minha opinião. O livro é o “outro” diante do qual eu me encontro, restando-me duas possibilidades: abro-me à sua diferença e busco compreendê-lo na sua natureza própria ou fecho-me interpretando-o à luz dos meus hábitos, dos meus costumes, das tradições por mim respeitadas, dos meus credos, das minhas convicções, dos meus preconceitos? Suponho preferível a primeira hipótese, pois ela desfecha o campo que torna possível o “encontro inesperado do diverso” (título de um livro de Maria Gabriela Llansol que bem devia ser máxima de vida nos dias que correm).
   Não se espere de mim senão que favoreça esse lugar de encontro com o diverso, sublinhando as impressões de uma leitura que, sem procurar definir, tenta compreender, como era desejável que gregos e indianos procurassem compreender-se em matéria do destino a dar aos cadáveres de seus pais. Quero, desde já, falar-vos deste título, “Os Grandes Animais”, o qual foi pedido de empréstimo a um poema arrumado na primeira de cinco partes que dão corpo ao livro. A epígrafe de Albert Camus indica-nos o caminho: «Ser senhor dos seus humores é o privilégio dos grandes animais.» Provém esta frase de um livro intitulado “A Queda”, publicado em 1956, quando o seu autor tentava mediar os partidos em confronto na guerra da Argélia. Gregos e indianos, o que fazer com os cadáveres de nossos pais?
   A intenção de pôr a dialogar famílias desavindas levou Camus a experimentar o sabor amargo do fracasso, pelo que acabou por se decidir por um monólogo. O título “A Queda” pode ter inúmeros significados, remetendo tanto para o mito de Ícaro como para o pecado original no Antigo Testamento. As ressonâncias bíblicas não são estranhas à poesia de Inês Fonseca Santos, que neste poema, “Os Grandes Animais”, desloca o leitor para Auschwitz-Birkenau com uma pergunta fundamental: que quis Deus com os campos de concentração? Gosto de poemas que fazem perguntas, mais ainda se forem as perguntas certas. A última estrofe oferece-nos uma imagem do papel ocupado pela humanidade neste teatro de operações que é a vida: «Ah, os grandes animais: não o cavalo / que cospe quem o monta, mas a barata / que silenciosamente escapa / ao pé que a pisa» (p. 19).
   Sendo este livro de uma grande diversidade nos temas e na forma, nele se coligindo, tanto quanto pude perceber, alguns inéditos e uma maioria poemas dispersos, parece-me que um ponto de partida sólido para a sua compreensão é, por um lado, a vontade de problematizar o tema da morte na sua relação com a face mais débil e mais visível da existência humana e, por outro, explorar a noção de poema enquanto fixação de uma experiência, de uma ideia, de uma reflexão, já não sujeitos às contingências da idade e da passagem do tempo. A noção da morte, a própria palavra morte, enraíza uma espécie de fé no poema enquanto “cura contra o esquecimento”, pelo que se confere às palavras um poder que pode ser tão fundador (quando a palavra é raiz) quão destrutivo (quando a palavra é bala e, por isso, ameaça e fere).
   Do poeta espera-se que dê peito às palavras, como quem dá peito às balas, que se coloque defronte ao mundo, ao seu tempo, à História, «Sem colete à prova da palavra» (p. 17). A Inês não falha nas expectativas, também ela carrega uma bagagem de dúvidas à medida que se desloca no tempo e no espaço. Tem consciência dos nomes que perduram para lá de uma existência concebível, entre os quais os das personagens bíblicas evocadas serão mistério jamais decifrável; não se furta ao exercício de se pensar nos seus lugares mais próximos e íntimos, acolhendo no interior do poema os elementos de uma genealogia pessoal, mas transmissível; cede até, por vezes, a um tom confessional que não prescinde de se olhar com ironia e autocrítica, como quando nos previne, no início de uma “Marcha Nupcial”, que «A infelicidade engorda mais / do que vinte tabletes / de chocolate Regina» (p. 46); ou quando, num belíssimo poema ao 25 de Abril, do conjunto “O Chão dos Teus Lugares.”, diz: «Eu sou uma burguesa endividada, / uma nobre de brasão no prego» (p. 74). Quem assim se expõe não o faz por temer as palavras, mas antes por saber do seu rigor, por compreender a sua natureza, por lhes ter o respeito que nós, que escrevemos poesia, devemos àquilo que nos é mais sagrado.
   Ao rigor na distribuição temática dos poemas devemos acrescentar o risco da disparidade, risco esse que se mantém vivo num universo de leitores de poesia que, contra tudo quanto seria expectável, se conserva altamente faccioso, sectário e estupidamente mesquinho. Pela parte que me toca, devo dizer que entre as obras que mais aprecio estão precisamente aquelas que ou resultam inacabadas (Pessoa é o exemplo mais radical disto mesmo) ou assumiram o tal risco da disparidade (Pessoa é, novamente, o exemplo mais radical disto mesmo), recusando trajar de uniforme onde, pela ordem natural das coisas, era suposto andarmos nus.
   Num livro que ao longo das páginas se vai inclinando para o narrativo, abrigando já no termo do quarto conjunto dois poemas em prosa, é ao texto final que reconheço o maior risco, por nele o poema testar a resistência da sua própria natureza, estendendo ao leitor uma manta de retalhos referencial onde tudo parece caber: diálogo, drama, epístola, conto. Todo o livro foi organizado a partir deste texto final, como alguém que só no fim vislumbra o sentido das etapas pelas quais passou. No interior do epílogo, um tal de Natália adormece um tal de Mário com uma carta encontrada nas “Capelas Imperfeitas” do Mosteiro da Batalha. Despeço-me eu agora com uma carta a Natália, na esperança de que também vós possais adormecer, se estiverdes cansados de me ouvir, ou vos deixeis embalar pelas palavras mantendo vigilantes os sentidos:

Minha querida Natália,

Acabei agora mesmo de comer um livro de poemas, honrando a indicação prescrita em versos por demais conhecidos de uma tua homónima. Estou de barriga cheia. Em tempos também eu ofereci atenção à aurora, a das manhãs cobertas de neblina com outeiros aspergidos de orvalho, a aurora dos sonhos que fazem levantar da cama homens sonolentos, impelidos por horizontes de utopia, a aurora dos rios que correm no sentido contrário dos ponteiros, porventura lembrando-nos que nem tudo quanto passa é passageiro. Vede as caixas de esmola espalhadas pelas paredes da Sé onde em tempos se ajoelharam pecadores, olhai como se mantêm intactas, pelo menos, desde a criação do mundo. Entre a matéria perene do mundo, Natália, esta dor de estarmos sós na dor, de ninguém por nós poder sentir quanto sentimos de paixão por aqui andarmos a espalhar promessas que não cumprimos. Reencontrei algures no livro, agora mesmo acabado de ler, certo poeta britânico que muito estimo. Ouvi falar de Auden, pela primeira vez, numa comédia romântica em que a personagem mais cómica morre com um enfarte: «Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me», lê-lhe o amante no decorrer do funeral. Creio ser esta transitoriedade aquilo que melhor nos define, e não vislumbro senão sabedoria em que assim seja. Morremos para que se possa perceber quanto de nós merece ser amado, somos o exemplo de que a Natureza ou Deus se servem, não para exercerem qualquer forma de poder, mas para nos fazerem entender a dádiva que é estarmos vivos e podermos dançar embalados pelo silêncio das palavras. Na minha infância havia um quintal, e nele uma árvore de fruto que dava umas pêras muito pequeninas e saborosas. Cresci a escalar o tronco dessa árvore, a imaginar-me Tom Sawyer sentado num dos seus ramos, a fingir ser pássaro ainda antes de ter provado o fruto do pecado. A árvore, Natália, transformou-se desde então para mim no símbolo de uma herança que remonta aos tempos em que Adão e Eva encantavam serpentes. Não sei quanto disto que em mim sinto sentirá a autora dos poemas que acabei de ler, mas desconfio serem da mesma ordem nossas súplicas e orações. Nisto de sermos diferentes há tanto de sermos iguais que, a certa altura, é como se a nossa sombra nos abandonasse para ir ao encontro da luz pelo outro irradiada. O que do passado vamos carregando pela vida é raiz escondida na Terra, para que em nós a Terra se vá renovando com as sementes pelo corpo germinadas. Sobre isto restarão poucas dúvidas. Mas que dizer dos desertos e das árvores ressequidas, que dizer das ruínas onde já não moram senão fantasmas, e dos escombros deixados pela guerra, pelo infortúnio, que dizer da extinção preservada em inventários infindáveis de coisas desaparecidas? Que dizer da tinta a apagar-se no papel? Que dizer da infância que não volta mais? Que dizer do tempo em que éramos felizes, talvez por ainda não termos formada dentro de nós a consciência interna do tempo que tudo torna perecível? Sobre isto, Natália, prefiro o riso a uma terapêutica de lamúrias. Daí que tanto me agrade ouvir-te ecoar, mais ainda nesse estado de gravidez em que te encontravas, que te rias porque tinhas medo. Que razão mais nobre haverá para rir? Se for nosso o medo da morte, riamos dele então. Que a morte nos encontre a rir quando chegar, que ela nos encontre com as mãos cheias de uma terra devastada da qual já não conseguimos senão rir às gargalhadas. Não tem tanta graça este fim? Olha, Natália, nem tudo é desesperante no Novo Mundo. Podemos entreter-nos a ver no YouTube as entrevistas do Tom Waits na década de 1970, a pesquisar na Wikipédia o conteúdo do “Livro de Judite”, a sacar sem censura os filmes de Carl Theodor Dreyer, a acompanhar com os olhos um bailado de Lídia Lopokova. Não são nada desdenháveis as vantagens do mundo moderno, nem que seja para no fim acabarmos a ressonar estúpida e eternamente… enquanto rimos.

Para sempre teu,
Henrique Manuel Bento Fialho
Caldas da Rainha, 16/Janeiro/2020


Nota: texto lido na apresentação de "Os Grandes Animais" (Abysmo, Janeiro de 2020), de Inês Fonseca Santos, a 17/Janeiro/2020, no Bar A Barraca - Teatro Cinearte. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

HIGIENE


A história da arte é um desfile de escândalos, para o qual tanto contribui a força desafiante da linguagem artística como as resistências de sociedades enraizadas no costume e na tradição. O final do ano de 2019 ficou marcado por uma peça de Maurizio Cattelan que tudo tinha para passar despercebida, não fosse a facilidade com que hoje se transforma em polémica universal qualquer gesto que afronte ou desmonte a hipocrisia sobre a qual se ergue o chamado mundo civilizado. A banana colada à parede teve esse mérito de pôr a discutir, ainda que falhasse no objecto de discussão. A intenção do artista seria representar o comércio global, não sendo de enjeitar que os 120 mil dólares pagos pela banana, dias antes de ser exposta numa feira de arte contemporânea, fossem uma das componentes da instalação. O caso não se ficou por aqui. David Datuna, artista nova-iorquino, foi ver a banana e comeu-a. Deu um nome à performance: “Artista com fome”. Assim vai o mundo da arte nas sociedades civilizadas, as superiores. 
   Já este ano, e à medida que nos convém, fomos surpreendidos pelo escândalo de Leça da Palmeira. Uma escultura de Pedro Cabrita Reis, vandalizada por grafites, tornou-se assunto nacional pelas piores razões. O vandalismo a que foi sujeita? Não propriamente. Interessava antes saber a origem política do vandalismo, para perceber a legitimidade da indignação. O motivo das inscrições era o custo da obra: 300 mil euros. Como é possível, com tanta gente a morrer de fome, alardeou-se aos quatro ventos. Algures, alguém, nunca se sabe exactamente quem, encarregou-se de chamar a atenção para o “investimento” dos nossos municípios em fogo-de-artifício. Ora, o que leva alguém a indignar-se com o custo de uma obra de arte, independentemente do mérito que possa ser reconhecido à mesma, e a não se indignar com o desperdício de dinheiros públicos em fogo-de-artifício? 
   Mais uma vez, eis-nos perante exemplos práticos e factuais de como a arte ainda leva ao escândalo e à discussão. Involuntariamente? Pelas piores razões? Pouco importa. Julgo ser mais relevante assinalar esta pulsão para debates contaminados a priori por preconceitos, ideias feitas, lugares comuns, disseminados por áreas onde o pensamento vai sendo paulatinamente higienizado pelos modos de fazer e de estar incapacitantes do espírito autocrítico. O mais recente livro de poemas de Rui Almeida (n. 1972) confronta-nos com matérias semelhantes, fazendo uso de exemplos diversos. Em poemas onde se evocam quadros milionários de Basquiat e Francis Bacon, o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro ou a “higienização” do Miradouro de Santa Catarina, ao serviço de certo hotel de luxo, sobressaem as contradições do mundo actual e o ambiente de desorientação generalizada que patrocina a angústia e o medo, o sufoco e o pânico, levando à saturação aqueles cuja sensibilidade já só resiste sob a forma de sujeito poético (uma espécie de perfil falso). 
   Aproximando-se de um tempo real, misturando-se nos factos da vida, estes poemas adoptam uma perspectiva crítica e assumem a sua vertente política sem perderem de vista um lirismo a que se agarram como a um molho de ramos se agarra quem se afunda num pântano: «Itinerantes / São todos os humanos, / Logo ao nascer, e / Sinuosos como regatos / Apenas por terem começado, / A dado momento, a ingerir / O ar venenoso do mundo» (p. 27). Há uma ironia no título que não passa despercebida. A higiene aqui retratada pode assumir vários significados, arriscando eu naquele que é o de uma higiene que, mais do que purificar ou expurgar, simplesmente conspurca, é a higiene dos falsos moralismos e das doutrinações simplistas empenhadas numa uniformização do pensamento que desprovê as pessoas de ferramentas críticas, ferramentas que levam a pensar antes de julgar, a ponderar antes de agir, a reflectir antes de generalizar. Sinal de tempos, é certo, que nos remetem para outros tempos. Isto da história se repetir tem também muito que se lhe diga. 
   Não me parece por acaso que, num livro cujo tema essencial parece ser o da falsificação dos homens, ou seja, da adulteração de um humanismo que livrou o homem de ser besta, Rui Almeida se socorra de vários exemplos colhidos no mundo das artes. Não foi na e pela arte que começámos a trabalhar a sensibilidade e o pensamento? Não foi através dessa dimensão criativa dos homens que conquistámos as maiores vitórias em matérias de empatia e de compaixão? Ora, o que se passa é que desde a desacreditação da ciência à promoção de fanatismos alienantes, passando também por uma subsunção do artístico às leis do consumismo desenfreado e da sociedade do espectáculo, sobra-nos este tédio da “violência nas ruas”: «Os felizes permanecem ignaros / E o mal dos outros é ainda / Aquilo com que vivemos melhor» (p. 20). "Higiene" (volta d’mar, Outubro de 2019) é um grito de alerta sem megafone, é um grito que se reconhece maioritariamente para surdos, circunscrito que está ao núcleo restrito daqueles que ainda passam cotonetes pelos ouvidos da consciência interrogando-se ao espelho sobre quanto valem neste mundo.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

UMA DÉCADA EM RESUMO


1 - O Laço Branco (2009), de Michael Haneke. Estreou por cá a 14 de Janeiro de 2010.
2 – Um Ano Mais (2010), de Mike Leigh. Estreou por cá a 27 de Janeiro de 2011.
3 – Poesia (2010), de Chang-dong Lee. Estreou por cá a 3 de Março de 2011.
4 – Cosmopolis (2012), de David Cronenberg. Estreou por cá a 31 de Maio de 2012.
5 – Nebraska (2013), de Alexander Paybe. Estreou por cá a 27 de Fevereiro de 2014. 
6 - Ida (2013), de Pawel Pawlikowski. Estreou por cá a 25 de Outubro de 2013.
7 – Joe (2013), de David Gordon Green. Estreou por cá a 19 de Junho de 2014.
8 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014), de Alejandro G. Iñárritu. Estreou por cá a 17 de Outubro de 2014.
9 - The Revenant: O Renascido (2015), de Alejandro G. Iñárritu. Estreou por cá a 21 de Janeiro de 2016.
10 – Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino. Estreou por cá a 4 de Fevereiro de 2016.
11 – Christine (2016), de Antonio Campos. Lançado a 14 de Outubro de 2016.
12 - Paterson (2016), de Jim Jarmusch. Estreou por cá a 17 de Novembro de 2016.
13 – Uma Mulher Não Chora (2017), de Fatih Akin. Estreou por cá a 23 de Novembro de 2017.
14 – Roma (2018), de Alfonso Cuarón. Lançado a 27 de Outrubro de 2018.
15 - Parasitas (2019), de Bong Joon Ho. Estreou por cá a 26 de Setembro de 2019.
16 - Joker (2019), de Todd Phillips. Estreou por cá a 3 de Outubro de 2019.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

NUNO REBOCHO (1945-2019)



MORITURI

a câmara dos óbitos reúne a amostragem
as lágrimas os sussurros e os odores.
o luto faz contas de cabeça
enquanto as donzelas dedejam os seus amores.
a morte está morta
alheia ao silêncio e ao ruído:
orienta-se pelo ouvido
e só as coroas importunam os vivos.

o morto está morto: a morte só lhe custou
no primeiro momento.
depois habituou-se e tomou-lhe o jeito
e foi pela morte dentro
de peito feito. os viúvos os órfãos os enlutados
bem lhe puxaram pela manga
mas o morto lá ia
mudo aos apelos e aos desvelos
e cansado da cerimónia.
já levava o corpo gasto
como em vida
— mas de diferente maneira.

Nuno Rebocho, in O Discurso do Método, Canto Escuro, Janeiro de 2008, p. 40.

domingo, 12 de janeiro de 2020

EU CIGANO ME CONFESSO


Portugal tem um problema com as minorias étnicas, apregoa-se aos quatro ventos e eu não discordo. A minoria étnica dos arrivistas, a minoria étnica dos oligarcas, entre outras minorias étnicas congéneres, são não apenas um, mas vários problemas com os quais a nossa ilustre nação se depara na actualidade. Penso, por exemplo, em Duarte Lima, o bom Domingos para os amigos, arrancado ao seio humilde de nove irmãos, algures em Miranda do Douro, rumando à capital sob alto patrocínio de gente capaz de sustentar estudos na Universidade Católica e nas melhores universidades italianas. Duarte, esse de quem se diz ter acabado a assassinar uma velhinha para lhe sacar o guito, é um problema para o país. Desconfio que haja nele algo de cigano que possa ser apontado e criticado e vilipendiado, assim como o há em José Sócrates, Zé dos Cofres para os amigos, nascido em Vilar de Maçada. Quem nasce numa terra com tal nome só pode trazer ruindade dentro de si, uma ruindade gitana como sói ser a de quem chega a primeiro-ministro e abandona o cargo cheio de bons samaritanos amigos de seu amigo. Eu, que sou cigano do lado da mãe e sarraceno do lado do pai, o mais que consegui na vida em matéria de esmolas foi uns trocos do Sousa Lara, que, como é sabido, faz parte dessa minoria étnica de políticos bafejados pela sorte das subvenções vitalícias. Fita-se o 4.º Marquês de Lara, 2.º Conde de Guedes, e o que se topa? Um cigano sob capa monárquica, só para disfarçar. É um problema para o país. De resto, esta gente tem-se organizado com o passar dos anos, já não são os dançarinos e cantadeiros ilustrados por Youssef Chahine no filme “O Destino”, muito menos os romanis atabalhoados e castiços de Emir Kusturica. Não, esta gente tem hoje ao seu serviço autênticas Mossad, com infiltrações em inúmeros serviços de informação de segurança, tentáculos espalhados pelo mundo com perfis falsos nas redes sociais, uma autêntica NSA, dita Agência de Segurança Nacional, supostamente americana, zíngara de verdade, que nos ludibria, manipula, marioneta. Cuidado com esta raça altamente sofisticada, capaz de se fazer passar por ilustres banqueiros nas pessoas de José de Oliveira e Costa, o do BPN, fiel amigo de seu amigo Cavaco, muito provavelmente também este etnicamente obscuro, ou João Rendeiro, o do BPP, o tal que é capaz de passar entre os pingos da chuva sem se molhar ou queimar ou lá o que é. São coisas que aprendem na escola de ciganos, magias. Depois iludem-nos com ricardos Quaresma e djangos Reinhardt, aquele a quem faltavam dedos, como leitoras de sina na Feira do Relógio. Sim, caros concidadãos, temos um grave problema a resolver com as nossas minorias étnicas. Eu, na qualidade de cigano, isto é, na falta de qualidades, quero aqui deixar o meu testemunho garantindo que nunca me cruzei com Ricardo Salgado, o Dono Disto Tudo (só a sigla já cheira a pesticida), excepto daquela vez, no Mercado de Santana, em que a minha senhora lhe tentou vender um jogo de lençóis bancos (sic) em sacos azuis, para que o cigano da Lapa pudesse ir amealhando trocos antes de se ver vilmente espoliado por uma justiça tão cega e lenta como as lemas. O Pedro Dias, esse bom homem, português de raça, é que a sabe toda, ele e o Manuel Palito e o Rei Ghob e a mulher do triatleta, mais uns quantos finos exemplares de puros lusitanos, denegridos por uma sociedade doentia que teima em não ver as coisas como elas são. E como são as coisas? São em forma de assim, já dizia o poeta e eu não discordo. Abaixo, pois então, os ciganos e todas as minorias étnicas que conspurcam a nossa nação com vis acções, cotadas na bolsa e nos paraísos fiscais da Madeira, paraíso onde os ciganos não chegam. Abaixo eu próprio, mim mesmo, que cigano me confesso. Abaixo toda essa gente minoritária, excepto os que expiam pecados na missa ao beijarem as mãos de padres pedófilos (não digo em Portugal, que os não há). A propósito, é impressão minha ou o Bibi tinha uma tez aciganada? Estou desconfiado de que o era.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

BIBLIOTERAPIA

Imaginem um retiro de leitura, seja lá isso o que for, num espaço gerido pelos descendentes de Almeida Garrett. Pobre coitado. Imaginem que o retiro será orientado por uma biblioterapeuta, seja lá isso o que for, que promete uma receita prévia de leituras personalizadas, especificamente indicadas para cada participante, ou paciente, mediante consulta especializada. Haverá direito a palestra sobre as propriedades terapêuticas da leitura, para que os enfermos não fiquem às cegas quando sujeitos à biblioterapia, presumindo-se que esta seja apresentada de acordo com parâmetros científicos universalmente reconhecidos. A troca de impressões sobre os livros receitados será acompanhada de tertúlia com autor convidado, tudo ao preço de módicos 345 €. Se julgam anedota este spa literário, esqueçam. Ocorreu-me em tempos a ideia de uma loja de poemas a metro, mas faltou-me empreendedorismo para levar o projecto a bom porto. Resta-me agora vomitar para dentro, curioso, porém, por saber a opinião deste senhor sobre as propriedades terapêuticas da literatura.

P. S. : todo um novo mundo por descobrir aqui

LIVROS COM RUM

Podeis escutar aqui (emissão 619) a conversa que tive com António Ferreira, algures em Braga numa tarde de Dezembro passado. "A Festa dos Caçadores" como pretexto, dores fantasma como destino.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O PEDIDO DE EMPREGO



   Havia, não sei se ainda há, um programa chamado Shark Tank, com versão portuguesa traduzida como Lago dos Tubarões. O peixe graúdo, temível, era composto por certo tipo de gente a quem eufemisticamente se dá o nome de “investidores”, malta com pilim a quem o peixe miúdo submete reverencialmente as suas ideias na esperança de poder vir a crescer, adquirindo no futuro, quem sabe, o estatuto de tubarão. É o mundo do empreendedorismo na sua versão soft, para entreter famílias depois da telenovela. Chamar “lago” ao habitat dos tubarões é só parvo, era preferível a literalidade do termo tanque ou aquário ou piscina ou reservatório. 
   Kevin O’Leary, estrela do programa, pelo estilo implacável, dito pragmático, muito à maneira do que se espera de um magnata, competitivo, agressivo ou, como agora se diz, impactante, ficou conhecido no meio como Mr. Wonderful, apesar do discurso que qualquer humilde fã do Papa Francisco consideraria abjecto não fossem as necessidades. “Sou o teu melhor amigo, os teus sentimentos não me interessam”, “se está furioso, mate”, são algumas das máximas atribuídas a este aparentemente bem-sucedido homem de negócios. Diríamos que o mundo está cheio de homens destes, não fôssemos desmentidos pelas estatísticas. 
   Os 26 mais ricos do mundo têm tanto dinheiro quanto a metade mais pobre da população mundial, o que nos pode levar a pensar nos tubarões como uma espécie em vias de extinção. Na realidade, há vários tipos de tubarões. São cerca de 375 espécies, 88 das quais, curiosamente, nos mares do Brasil, variando de tamanho sem nunca largarem o topo da cadeia alimentar. No mundo dos homens, o peixe miúdo é a metade mais pobre da população mundial que serve de alimento aos tais 26. A desproporção devia chocar toda a gente preocupada com desigualdades sociais, mas nas sociedades de espectáculo promovidas pelo capitalismo selvagem aqueles 26 são uma espécie de luz que maravilha os idealistas, que fascina os lunáticos, que seduz os sonhadores, que garante o sucesso dos tais Mr. Wonderful, reproduzindo em massa vidas que alternam entre a absoluta escravidão, nos países subdesenvolvidos, a servidão, nos países em vias de desenvolvimento, e uma submissão voluntarista, nos países civilizados (o termo não é meu). 
   O dramaturgo Michel Vinaver topou cedo a mecânica das coisas, não apenas através de uma capacidade reflexiva de tipo académico, mas fazendo uso daquilo a que em ciências sociais e humanas se dá o nome de observação participante. Nascido em 1927, formou-se em literatura na Sorbonne. Mas, em 1953, entra como estagiário para a Gillette, acabando como chefe de serviços administrativos. A experiência como alto quadro de uma multinacional ofereceu-lhe uma perspectiva clarividente sobre matérias que outros apanham apenas pela rama. A peça “O Pedido de Emprego” é uma de várias que escreveu, dedicadas a estes assuntos da sobrevivência na selva dos homens. Assinala agora a estreia de António Parra como encenador. 
   Depois da estreia no Teatro da Rainha, a trupe segue em digressão pelo Teatro das Beiras já no próximo dia 10 de Janeiro. É mais uma oportunidade para assistir a um competente trabalho de encenação, em torno de um texto que adivinhamos altamente desafiante de colocar em cena. Nuno Machado é Fage, quarentão em busca de uma nova oportunidade de trabalho. José Carlos Faria, na personagem de Wallace, é o técnico de recursos humanos que submete Fage a interrogatório. Depois há Luísa, interpretada por Inês Fouto, mulher de Fage, e Mafalda Taveira no papel de Natália, a filha adolescente de Fage e Luísa, perdida de amores por um jovem revolucionário que a engravida nos intervalos da formação em anedotário progressista. A teia de diálogos cruza tempos e situações a um ritmo alucinante, levando a pensar tanto no cubismo, enquanto capacidade de multiplicar perspectivas num só enquadramento, como em algo muito mais prosaico, como seja a impressão de frenesim social que faz da vida mero instante. 
   Interessa-me Fage, encurralado entre as obrigações familiares e os deveres profissionais, esforçando-se por causar boa impressão àqueles que sabe serem os seus algozes, perdido num labirinto de vozes disparadas de todos os lados, sem saber para onde se voltar se quiser encontrar a saída. Imagino-o assim mesmo, dentro de um labirinto (peixinho às voltas no aquário?), a tentar escutar quem o chama. Chegam-lhe ecos de todos os lados, ele concentra-se, tenta perceber-lhes a origem, quer chegar ao corpo que emite o chamamento, porventura para ser abraçado ou abraçá-lo, gestos humanos luxuosos numa sociedade cujo princípio e propósito é desumanizar. Porquê? Para quê? Ora, para garantir o estatuto de wonderful àqueles cujo fascínio exercido pela maioria procura justificar uma vida, esse instante efémero, de servilismo, sem sequer deixar hipótese de nos intervalos da servidão a considerarmos desperdiçada.
   Para mim, depois de 11 anos ao serviço de uma empresa cuja mecânica consiste em explorar à exaustão as capacidades dos serventes, pagando-lhes pelo mínimo o que se propagandeia como máximo, “O Pedido de Emprego” retrata já não apenas a descartabilidade da pessoa humana em contexto laboral, mas como somos levados a desperdiçar a vida dando de comer aos tubarões a nossa própria consciência. Olho para Fage e para a sua família, olho-o e penso se é justo acusá-lo de desperdiçar a vida. Que alternativas lhe restavam? Em nome de quê, o desperdício? Talvez em nome dos chamados pequenos luxos que nos fazem enganar o tempo, julgando valer a pena morrer de velhos sem um único ano das nossas vidas ter sido verdadeiramente vivido, luxos esses tão bem ilustrados pela gravata que Luísa engoma, pelos sapatos que engraxa. Num mundo assim estruturado, que futuro sobra para a criança no ventre de Natália? Talvez seja preferível não responder, deixemos em aberto a possibilidade de vir a ser ela a escolhê-lo. Se for essa a vontade da progenitora... e de quem lhe dê emprego?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

PONTO FINAL


"Irão ataca alvos norte-americanos no Iraque com mísseis balísticos." Não perder de vista que há dias os EUA assassinaram o general iraniano Qasem Soleimani, argumentando que: "O ataque tinha como objetivo impedir futuros planos de ataques iranianos". Ou seja, o assassinato do general iraniano tinha como objectivo impedir coisas que ainda não aconteceram mas na cabeça de Trump e dos seus lacaios estariam prestes a acontecer se não fossem impedidas executando quem as poderia fazer acontecer. A guerra começou assim, não de outro modo. É importante que o percebam, pois entretanto serão intoxicados com campanhas de ódio contra o Irão e os iranianos e os muçulmanos em geral e o modo de vida daquela gente e as execuções de homossexuais e as mulheres que nem podem tirar a carta e etc. A guerra não começou hoje, com o ataque do Irão. A guerra começou com o assassinato de um general iraniano. Quem começou a guerra? Os EUA. 


Adenda retroactiva: em breve andará toda a gente a discutir se fica na claque da América ou na claque do Irão, como se estivessem a discutir bola. A pergunta que mais se ouvirá, para nos distrair do problema, será: preferias viver no Irão ou nos EUA? E no fim tudo se resumirá a mais destruição, mortos, famílias desfeitas, mais refugiados, mais caos, mais ódio, mais fundamentalismo. Alguém ganhará com isto, os que não "irão" à guerra. A indústria do armamento também, claro, e os senhores do petróleo. (3 de Janeiro de 2020)

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

MOTIVAÇÕES BRUTAIS


15 energúmenos fizeram uma espera a um rapaz e deram-lhe cabo da vida, espancando-o com paus e cintos e, desconfio, com as próprias mãos. O grande debate do momento é se o crime teve na sua origem motivações raciais, debate tão aceso e luminoso que acabaremos todos ofuscados pela sabedoria universal, omitindo ou esquecendo que 15 energúmenos fizeram uma espera a um rapaz e deram-lhe cabo da vida, espancando-o com paus e cintos e, desconfio, com as próprias mãos. Antes de mais, é disto que se trata. Se as motivações foram raciais, faciais, anormais ou banais, pouco me importa. Certo é que foram brutais, pelo que não devemos deixar cair no esquecimento o essencial: 15 energúmenos continuam à solta depois de fazerem uma espera a um rapaz e lhe darem cabo da vida, espancando-o com paus e cintos e, desconfio, com as próprias mãos.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

UMA CANÇÃO FESCENINA DE JOSÉ LUIZ TAVARES

CAVALGADA DA SABURA


Ó poldra que me arroteaste a tusa,
loba que uivasses, dura musa,
nem sabes, na hora do tesão,
que o diabo te tem na mão; ou não

montasse eu em ti, tal potranca
que, com arreganho, dando o pinote,
diz: «saudades do repinicante chicote,
que me faz viva, mesmo se desanca.»

Poldra ou puta, tudo é anelo
de destreza ou lhaneza na largura;
mas se descomposta, na hora da sabura,
nem pra recobro se recolhe o martelo

— bumba que zumba, na crica
que replica, ó brutal cavalgada,
só vida que fervilhasse na danada,
na hora em que, sem pose, se claudica. 

José Luiz Tavares, in Arder a Vida Inteira, Abysmo, Maio de 2019, p. 66.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

HIPOCRISIA ULULANTE


(...)

O populismo ainda não chegou ao poder mas já condiciona a opinião publicada. Não encontrei nenhuma defesa descomplexada da obra de Cabrita Reis e da decisão de a comprar vinda de quem não esteve envolvido neste episódio, muito provavelmente porque já não podemos ser elitistas. Os economistas, que não viram a crise, as redes sociais, que democratizaram a opinião, e os intelectuais de direita, traumatizados pelo marxismo cultural, deram cabo do elitismo. Quem hoje defender a existência de um serviço público de televisão que, em  detrimento das audiências, da pimbalhada e da telenovela, deixe a música erudita e os filmes da criterion collection ao alcance de todos, será imediatamente acusado de elitismo ou apelidado de "pseudo-intelectual". Há nisto uma hipocrisia ululante.

(...)


RAMELA


O episódio do Papa a enxotar uma beata é comparável, pela perda de compostura, ao de António Costa a enxotar um velho durante a campanha nas legislativas. A simpatia que nutro por um é a mesma que nutro pelo outro, mas não posso deixar de reparar nas avaliações tão díspares inspiradas pelos dois episódios. Aí está um reflexo da nossa incapacidade de discutir o que quer que seja sem os olhos remelosos do clubismo. Pensar pela própria cabeça dá uma trabalheira danada, vestir uma camisola é muito mais simples.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

ARMADILHA PARA CAÇAR HIPÓCRITAS



   Começar o ano a ler teatro, nomeadamente duas peças de Luigi Pirandello (n. 1867 – m. 1936). Com tradução de Isabel Lopes, “O Barrete de Guizos” e “O Homem, A Besta e A Virtude” são as duas peças, reunidas num só volume, que marcaram o início da parceria estabelecida entre o Teatro da Rainha e a editora Companhia das Ilhas. Entretanto, foram publicados na mesma colecção volumes de Beckett, Martin Crimp e Jean-Pierre Sarrazac. À maneira de prefácio, Fernando Mora Ramos apresenta Pirandello como um “contra-aristotélico”. Assim o é, quer na lógica, quer na ética. A ligar estas duas peças, por exemplo, o tema do adultério surge expurgado de qualquer consideração moralizante, sublevando as partes implicadas num processo que tem tanto de humorístico como de desmistificador. 
   Em “O Barrete de Guizos”: uma mulher ciumenta e desconfiada procura incriminar o marido, tentando apanhá-lo em flagrante com a suposta amante. Esquece-se de que ao fazê-lo põe também em xeque a honra do marido da amante, servo fiel do presumível marido adúltero. A quadratura poderia fechar-se neste cruzamento de interesses em que tanto a “corda da civilidade” como a “corda da seriedade” parecem desafinadas, não fosse haver entre o interior e o exterior da quadratura um desajustamento  que nos leva ao que é verdadeiramente essencial nestas peças: desmontar a hipocrisia com que, por interesse ou pressão social, somos levados a fazer o que não queremos e, por com sequência, a ser o que não somos. 
   Ciampa, corno eventual, sabe bem onde está metido, tem até uma tese sobre o assunto fundada no que poderíamos apelidar de alegoria das marionetas: «No íntimo, ninguém está contente com o seu papel. Cada qual, tendo diante de si a sua própria marioneta, havia certamente de lhe cuspir na cara. Mas pelos outros não, pelos outros gostaria de a ver respeitada»
   Também o professor Paolino, da peça “O Homem, A Besta e a Virtude”, fala de hipocrisia aos seus alunos: «Uma pessoa que finge, precisamente como um comediante, que finge ser, por exemplo, um rei e, no entanto, não passa de um pobre piolhoso, ou que representa qualquer outro papel. Que mal há nisso? Nenhum. Dever! Profissão! — Então onde é que está o mal? O mal é quando não se é hipócrita dessa maneira, por dever, por profissão, em cima do palco; mas por gosto, por interesse, por maldade, por hábito, na vida — ou mesmo por educação — não haja dúvida, porque educado, ser educado, quer dizer isso mesmo: — por dentro, negros como corvos; por fora, brancos como pombas; fel no corpo, mel na boca. O mal é quando se entra aqui a dizer: Bom dia, senhor professor, em vez de: — Vá para o diabo, senhor professor!» Mas aqui a história é outra. O professor é o homem, ou seja, aquele que trai, por razões que considera não apenas justas como até virtuosas. A Besta é o marido traído, por razões que somos levados a considerar mais que justificadas. E a Virtude é a mulher adúltera, com motivos mais que razoáveis para que o seja. 
   A inversão dos padrões morais levada a cabo nestas duas peças tem um sentido divertido do tipo “crítica de costumes”, cem anos depois estupidamente actualizada com a virtualização das relações humanas a permitir um crescendo de moralismo evangelizador disseminado um pouco por todo o mundo. Claro está que por detrás do véu moralista, castrador e puritano, outras devassas se vão perpetuando sem que ninguém se preocupe em disfarçá-las, de tão entretidas andarem as massas a discutir futilidades. Nestas duas peças do Nobel Pirandello, a “santa paz doméstica” é antes a fachada que derrui para que o público assista um pouco ao ridículo de si mesmo. A verdade e a mentira deixam de ser avaliáveis segundo padrões axiológicos, podendo, dadas as circunstâncias, assumir num mesmo rosto faces viciosas e ao mesmo tempo cheias de virtude. 
   Engraçado é perceber a fragilidade dos absolutismos e das tão fáceis, urgentes e comuns precipitações do julgamento alheio, estabelecendo paradigmas e estereótipos acerca dos comportamentos humanos como se não fosse paradoxal a realidade a que em todo o momento estamos enredados. O que é a honestidade e a virtude onde o vício surge legitimado pela prática comum? Por cá, o povo diz «ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão». Que é isto senão uma legitimação da gatunagem? Quem nunca pecou, atire a primeira pedra. Será esta uma mensagem de perdão universal? 
   Mais do que sublinhar virtudes ou apontar pecados, mais do que legitimar comportamentos, a arte que deste modo nos revela enquanto seres ambíguos e paradoxais, resulta de uma auscultação, de um diagnóstico, de uma observação que dá a ver a realidade sem filtros morais, tal qual ela se apresenta a quem a viva na plenitude das suas contradições intrínsecas. Talvez por isso este também seja um teatro de denúncia, denúncia da hipocrisia com que disfarçamos a nossa natureza para nos desresponsabilizarmos das nossas acções. A graça está em assim nos vermos a descoberto, como na antiguidade o actor que apontava sentado na plateia o visado que inspirara a personagem. A arte também é uma armadilha para caçar hipócritas.