Também o som tem o seu tempo. Da boca que fala ao ouvido que escuta, o som demora-se e faz-se palavra, navega nas ondas do espaço como uma nave invisível cuja tripulação é feita de signos. É um sinal que ondoleia, o som. Demora-se, estende-se, segue em espiral abrindo buracos no tempo. O tempo do som ocupa o seu espaço, o espaço do som demora-se no tempo. (em casa do Francisco, a ouvir ecos)
antologia do esquecimento
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
domingo, 23 de agosto de 2026
ARCA DE LIVROS
Huig de Groot, ou, à portuguesa, Hugo Grócio, escreveu poesia, teatro, foi historiador, filósofo e teólogo, mas notabilizou-se, antes de mais, como jurista, uma espécie de pai do direito internacional após a publicação, em 1625, da obra "De Jure Belli Ac Pacis". Começou a escrever o livro na prisão, condenado a perpétua na sequência de conflitos nos Países Baixos entre calvinistas e os seguidores do pastor Jacó Arminio. Preso no castelo de Loevestein, de lá conseguiu escapar, ajudado pela mulher, escondido no interior de uma arca de livros. Teve a cabeça a prémio durante alguns anos, até morrer de exaustão. Diz-se que as suas palavras finais terão sido: «Mesmo tendo compreendido muitas coisas, nada realizei.» Agradam-me muito estas palavras finais e gosto de imaginá-lo escondido na arca de livros, em fuga para a liberdade numa arca de livros.
sábado, 22 de agosto de 2026
MANUEL
É mais um texto inclassificável quanto ao género, de uma hibridez observável, desde logo, nas sucessivas metamorfoses que foi sofrendo ao longo dos anos (plástica, acústica, cénica, literária). Há, porém, uma componente visual neste livro, não tão evidente noutras obras, que passa pela disposição tipográfica, pela inclusão de símbolos, de pictogramas, de ilustrações, até desenhos, mas também pela presença de vários sistemas de escrita aqui representados através de logogramas, grafemas, hieróglifos, toda uma alfabetografia que extrema a natureza multilingue anteriormente explorada na obra do autor. Dos hieróglifos às linguagens de programação há de tudo um pouco, num “processo” que tende, mais uma vez, para a (con)fusão de múltiplas linguagens acompanhado pela fusão de múltiplas línguas e idiomas. Outro aspecto relevante, directamente associado à polifonia decorrente do uso de várias línguas, é a dimensão sonora numa escrita em que as marcações rítmicas parecem determinantes, aproximando-se amiúde de técnicas de versificação ou de composição poética que assentam na conjugação de palavras através de aproximações fonéticas e gráficas. O próprio título Manuel – Manuel de lecture brinca com o duplo significado do nome próprio Manuel e do substantivo masculino francês que significa manual. Este é também um factor lúdico muito activo e atractivo na obra de Zúñiga, por vezes com resultados desconcertantemente cómicos: «APÊNDICE / Fue en su próprio entierro que Manuel supo que le habían sacado el apêndice» (Manuel – Manuel de Lecture, p. 33).
Se Joyce nos desafiou com a exploração de todos os géneros literários nas 24 horas de vida de Leopold Bloom, Alvaro García de Zúñiga desafia-nos com a totalidade da linguagem na história de um Manuel que é, ao mesmo tempo, nome de personagem e manual de leitura mais dado a problematizações do que a instruções, com alusões que, aqui e acolá, permitem imaginar tratar-se este de um forte testemunho da relação entusiasmada que o autor manteve com as problemáticas da filosofia da linguagem. Sabotando a ideia de biografia, esta é também uma obra com certa dimensão autobiográfica. Longe de haver aqui um qualquer programa narrativo, a verdade é que a viagem aparentemente delirante proposta assim que levantamos voo com a leitura de Manuel - «Pour ouvrir lever» -, percorre as etapas de uma vida amplamente biografada, a de alguém que procurou compreender a realidade através dos livros ou, pela inversa, os livros através da realidade. Talvez a única instrução a ter em conta deva ser a que surge logo a páginas 21: «Antes da Primeira Utilização / Desmonte o livro. Assim poderá familiarizar-se com as suas diferentes partes e peças e compreender melhor o seu funcionamento.» Este trabalho de desmontagem, que não é exactamente de interpretação ou de análise, até porque a obra se encarrega de resistir a isso minando constantemente qualquer tipo de compreensão definitiva, corresponde a uma familiarização com os processos inerentes à sua própria composição. Ele informa-nos ser um «audio libro» (p. 23), mas, ainda que o seja, é também um livro-jogo que propõe ao leitor um «Manuel enredado en la redacción de si mismo» (p. 29). E a partir daqui, só há que entrar no jogo aceitando as suas regras, que são as do bluff, isto é, da simulação, ou seja, de uma incansável desconstrução das metodologias interpretativas.
Manuel nasceu em Ipanema de um pai panamenho (Manuel Papá-Mé), cônsul do Panamá em Paname (gíria para Paris), e de uma mãe senegalesa (N’d’laine Mó-páne) que passou a infância e a adolescência em Fès, e deve ao irmão mais velho (Manuel Freire Frère) a paixão por línguas. Dito isto, são várias as notas de rodapé, bem mais extensas que o corpo de texto principal, até chegarmos a um Manuel que se dedicou a explicar si mesmo a si mesmo, interessando-se por um «método fundamental de investigación que puede llevarnos a entender y resolver definitivamente el funcionamento interno del processo mental que va de las palabras pensadas a su expressión, sea esta escrita o dicha» (p. 48). Não nos cabe contar a história de Manuel, que a certa altura assume contornos de ficção científica colocando o leitor num labirinto do qual dificilmente se libertará sem inventar asas que o protejam da tentação interpretativa. «Et tout irradié qu’il est, va se mettre á émettre de la littérature pour le dit» (p. 92). Eis o programa: percorrer a espiral de notas de rodapé sobre notas de rodapé deixando-se levar pelo caos aparente de resignificações, pela desmesura das alusões, ligações, conexões, diremos hoje dos intermináveis links que vão impelindo a «Una lectura, anormal, de escucha, deficiente. Una lectura de escucha deficiente y anormal» (p. 112). Manuel antecipa a pós-verdade do mundo digital, virtual, da era do “pensamento artificial”, provocando-nos com materiais que escapam às delimitações lógicas de um pensamento que já não pode posicionar-se diante da realidade como se ela fosse totalmente percepcionável: «le problème du langage n’a rien à voir avec celui de la perception» (p. 170). A hipótese de captação do real é estimulante, sobretudo, para a imaginação, a qual não se rege, como é sabido, pelas regras do pensamento lógico, antes se encarrega de a ele escapar como prisioneiro numa cela. As percepções são altamente erróneas, ao contrário da imaginação que é altamente criativa.
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
CRÍTICA DO TEATRO
Tomemos como ponto de partida o “teatro da crueldade” idealizado por Antonin Artaud (1896-1948), que, ficando por concretizar, terá tido o mérito de haver sido pensado. Podemos depois passar pelo “teatro épico” e a noção de gestus em Bertolt Brecht (1898-1956), a defesa de um teatro anti-aristotélico (o que quererá isto dizer?) inscrito nas dinâmicas da História. Um teatro socialmente empenhado, portanto, não necessariamente ideológico. Peter Brook (1925-2022) distinguiu um “teatro do aborrecimento mortal” de um “teatro sagrado” de um “teatro bruto” de um “teatro imediato”: «O teatro é a arena na qual pode ocorrer um confronto vivo.» O Espaço Vazio é um livro extraordinário, tanto pelo diagnóstico como peloS exemplos que acompanham o diagnóstico. Vamos ao “teatro pobre” e ao “teatro laboratório” de Jerzy Grotowski (1933-1999) e daremos com o horror da maquilhagem, as limitações do teatro face à televisão e ao cinema, a urgência de recentrar a atenção no actor, «o teatro é um veículo, um meio de análise e exploração pessoal» (dirá Brook a propósito de Grotowski). E para Alain Badiou (1937), o da “ideia-teatro”, «o teatro não dá explicações, mostra.» Um teatro-filosofia, portanto. Jean-Pierre Sarrazac fala-nos do “teatro popular”, com referências ao Théâtre National Populaire de Jean Vilar (1912-1971) e à revista Théâtre Populaire onde escreviam Roland Barthes (1915-1980) e Bernard Dort (1929-1994), explorando a ideia de um “teatro público” ameaçado pela cultura de massas que o liberalismo económico privilegia. Distingue um público-cidadão do espectador-cliente, levando-nos a crer que o ideal seria um espectador-cidadão (não confundir com citadino). Falemos de teatro público, teatro serviço-público ou teatro-cidadão, iremos sempre encalhar na dúvida das dúvidas: quem é o público do teatro? A quem se dirige o teatro ou, mais exactamente, os teatros que hoje se oferecem nas suas múltiplas hipóteses de realização? Todas essas formas de teatro não escapam a um denominador comum, a necessidade sentida pelas pessoas do teatro de o reflectirem no contexto social e económico em que se inscrevem, tantas vezes parecendo confundir a ideia de serviço-público com serviço prestado aos públicos. Sarrazac lembra que o teatro-crítico propunha não só uma crítica do teatro como uma crítica à crítica de teatro. Por necessidade de sobrevivência, eis os limites impostos à reflexão: o tempo em que estamos. Ora, não seria preferível não impor limites, isto é, reflectir para lá das necessidades imediatas? Talvez com esse exercício almejássemos respostas menos imediatistas no seu pragmatismo e, porventura, menos desencantadas, o que não significa que sejam utópicas (e se forem?). Hoje dá a sensação de já tudo ter sido experimentado e, no entanto, fica igualmente a sensação de estar tudo por fazer, nomeadamente no que diz respeito à formação de cidadãos críticos que prefiram a reflexão ao entretenimento, ou, ultrapassando tais dicotomias, cidadãos que se divirtam a pensar. O teatro elitista para todos, de Antoine Vitez (1930), é um achado. O desafio será em aqueles que fazem teatro não se subordinarem a uma tipificação do receptor a que se dirigem, partindo do princípio que o público de teatro seja composto por uma diversidade resistente a qualquer tentativa de padronização. Talvez não exista um público de teatro, mas sim pessoas que vão mais ou menos esporadicamente, mais ou menos repetidamente, ao teatro, os infiéis e os fiéis, participando de experiência teatrais mais ou menos activamente, mais ou menos passivamente. Portanto, recentre-se a reflexão teórica num campo que não esteja tão preocupado com quem vê, mas antes com aquilo que se pretende dar a ver. Ou mostrar, como diria Badiou. Teatro épico, teatro da crueldade, teatro impossível, não-teatro, teatro pobre, teatro experimental, teatro performativo, teatro de texto? Como tivemos oportunidade de ver, Antoine Vitez (1930) encenou três vezes “Electra”, a tragédia de Sófocles, em 1966, 1971 e 1986, toda as encenações consideravelmente diferentes umas das outras. Só o texto foi sempre o mesmo. Terá o público sido sempre o mesmo? Quem viu a encenação de 66 teria pensado o mesmo se antes tivesse visto a de 86? Quem viu a de 71 e depois foi ver a de 86, manteve a mesma leitura do que viu? Gosto de pensar que tudo o que já foi feito ficou por fazer. A desenvolver: «O teatro oferece reparação». (apontamentos após leitura de “Crítica do Teatro, da utopia ao desencanto”, tradução de Alexandra Moreira da Silva, Bicho-do-Mato, Teatro Nacional D. Maria II, Setembro de 2024)
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
PRIORIDADE AOS PATEGOS
O que significa prioridade aos nossos? Que entre a Rosa Grilo e um imigrante nepalês vocês escolhiam a Rosa, que entre o Pedro Dias e um santo do Bangladesh vocês escolhiam o Pedro, que entre o Manuel Palito e um refugiado sírio vocês optavam pelo Palito, que entre o Joe Berardo, o Luís Filipe Vieira, o Ricardo Salgado, o José Sócrates ou outro qualquer a quem andaram os portugueses a lamber as botas e um imigrante que faz por ganhar a vida vocês não hesitariam na escolha: votavam no trafulha. Porquê? Por ser português. Ora, é precisamente esta mentalidade que faz de nós um relógio atrasado pela Inquisição, denunciou-o o Cavaleiro de Oliveira no século XVIII e a coisa não mudou. Somos o que somos, uns pategos. Portanto, prioridade aos pategos.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
ELOGIO DO AEDO
A relevância do aedo não será ingénua num poema escrito para ser dito, mas ela percorre toda a Odisseia levando-nos a crer que, a despeito do interesse de quem dizia, havia o reconhecimento do ouvinte quanto ao papel determinante desta figura: «Cantava para eles o célebre aedo, e eles em silêncio / estavam sentados a ouvir» (Canto I). Eles são o público que hoje se esquece amiúde de desligar os telemóveis e vai desembrulhando rebuçados no decorrer da récita. Enfim, naquele tempo talvez fizessem coisas ainda mais desagradáveis. Mas lembremos, entretanto, que o próprio Odisseu é várias vezes comparado a um aedo, tantas vezes referido na companhia do epíteto “divino” (divino aedo): «Contaste a história com a perícia de um aedo» (diz Alcínoo a Odisseu) ou, mais extraordinariamente no Canto 21, «Assim falavam os pretendentes; mas o astucioso Odisseu, / após ter levantado o grande arco e de o ter examinado, / tal como um homem conhecedor da lira e do canto / facilmente estica uma corda a partir de uma cravelha nova, / atando bem a tripa torcida de ovelha de um lado e de outro - / assim sem qualquer esforço Odisseu armou o grande arco.» Convenhamos que não será para qualquer um comparar a perícia de um arqueiro, para mais um herói de Troia, aos talentos de um aedo.
No entanto, é quando Odisseu está entre os Feaces, estadia completamente ignorada no filme de Christopher Nolan, a ouvir o divino e exímio aedo Demódoco, amado pela Musa, porém cego de doce canto, que nos apercebemos melhor da relevância desta figura. Cantando as façanhas dos heróis, o aedo faz perdurar no tempo os exemplos do passado através da memória reavivada nas palavras. É assim que Odisseu se vê ali relembrado, sem que ninguém saiba estar na sua presença, entre outros que já partiram, tais como Aquiles ou Agamémnon. Odisseu tem então um vislumbre de como a história o conservará. Não admira que esconda as lágrimas levado pela emoção, nem que depois brinde o aedo com uma fatia de javali mostrando-lhe enorme apreço: «(...) entre todos os homens que estão na terra, os aedos / granjeiam a reverência: a eles ensinou a Musa / o canto porque estima as tribos dos aedos» (Canto 8).
O estatuto do aedo ficará elucidado quando, no Canto 17, o veremos comparado pela utilidade pública a um demiurgo, um vidente, um médico ou um carpinteiro. Era, portanto, figura central na vida em comunidade, equiparável pela utilidade pública às mais relevantes profissões, comparável a um herói como Odisseu que, passados 3000 anos sobre a história desta humanidade, ainda anda por aí nos ecrãs e nos livros a ser lembrado e recriado de inúmeras maneiras. Odisseu teria caído no esquecimento sem Homero, seja lá quem tiver sido Homero, que, já agora, não seria quem é sem Odisseu e outros que cantou. Eis-nos diante de um panegírico da criação artística concebido no séc. VII ou VI a.C., chapada de luva branca na boçalidade que, em 2026, equipara a cultura ao mendigo que pede esmola.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
ERRÂNCIAS
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
A ODISSEIA
Será um erro ver "A Odisseia", de Christopher Nolan, à espera de uma adaptação cinematográfica de "A Odisseia", de Homero, livro que, em boa verdade, até podem ter sido dois: a história de Telémaco em busca do pai (Telemaquia) e a história de Odisseu, veterano da guerra de Troia, de regresso a Ítaca, onde a família o espera há 20 anos (Odisseia). Há imensos episódios no clássico que escapam ao filme, alguns sem perdão, como, por exemplo, o encontro de Odisseu com sua mãe, Anticleia, no Hades. Cada leitor de Homero terá as suas reclamações a fazer, mas o filme de Nolan torna-se insuportável em domínios que pouco têm que ver com liberdades no argumento. A paisagem é asséptica, para não falar da ausência de vinha. Polifemo, o cíclope, parece saído de um filme de terror dos anos 80, desprovido de qualquer diálogo com o herói da acção que, nesse episódio, tem aquela deixa original de dizer chamar-se Ninguém. Circe, a bruxa, é made in imaginário Harry Potter, logo ela, com quem Odisseu, o mais ardiloso e aldrabão dos heróis na história da literatura, vai para a cama. Foi desprovida de qualquer densidade psicológica. E a ideia de pôr Odisseu a comer a flor de lótus, que é a do esquecimento, ao mesmo tempo que recorda as suas errâncias na ilha de Calipso, é só estúpida. De resto, Calipso e Odisseu parecem o casal da “Lagoa Azul”. Imperdoável, para mim, é passar-se por cima dos Feaces como se, no original, fossem uma espécie de adereço literário, logo esse povo que se sacrifica para devolver Odisseu a Ítaca. Serem massacrados por Posídon depois de cometerem uma boa acção é coisa que não pode ser ignorada. A vergonha de Odisseu quando se apanha nu diante de Nausícaa e das escravas não é pormenor de somenos importância, nem o desafio que os Feaces lhe fazem nos jogos, nem a comoção que o herói sente ao ouvir os seus feitos cantados por um aedo, nem tantas outras coisas que se passam naquele festim de 4 ou 5 cantos cujo valor simbólico foi completamente esquecido no filme, em prol de uma tentativa de oferecer linearidade a uma narrativa cuja grandeza sobrevive também das incoerências geográficas e temporais. Nolan realizou um filme sobre os conflitos interiores de um vetereno de guerra no regresso a casa, a Odisseia é muito mais do que isso, no limite nem sequer é sobre isso, pois não é sobre nada em geral sendo acerca de tudo em particular, ou seja, é uma obra sobre a qual passaram milhares de anos e, ainda assim, continua a confrontar-nos com a estranheza instaurada entre os planos da vida e da morte, do amor e do ódio, da paz e da guerra, da virtude e do vício, entre outros e demais dilemas, para nos dizer algo que os gregos julgavam essencial: o que importa é alimentar o pensamento com dúvidas. Nolan não oferece dúvidas, prefere as certezas e os lugares-comuns de uma ética e de uma estética à medida dos padrões e dos uniformes destes tempos rendidos à indústria. O paradigma disto está na figura de Agamemnon transformado em Darth Vader, feito à medida de uma história de aventuras usurpada de contradições, paradoxos e enigmas estimulantes para a reflexão e o pensamento. Cinema de mero entretenimento, em resumo.
domingo, 16 de agosto de 2026
O PROBLEMA DAS BURCAS
sábado, 15 de agosto de 2026
UM ESTRANHO CORPO DÁ AO PALCO
Fernando Mora Ramos, Um Estranho Corpo dá ao Palco seguido de Pé Direito, apresentação de Henrique Manuel Bento Fialho, Parece um Deserto, Companhia das Ilhas | Teatro da Rainha, Setembro de 2026.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
POEMA PEQUENO
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
AUTORRETRATO DE ODISSEU
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
UM MOTIVO FÚTIL
Maria Antónia Oliveira, in Alexandre O'Neill, Uma Biografia Literária, Assírio & Alvim, Abril de 2024, pp. 61-62.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
AUTO-RETRATO DE ALEXANDRE O'NEILL
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
ACTE
“Acte” (blablalab, Novembro de 2017), que traduziremos por acto, é outro exemplo de Nem Teatro (Ni Théâtre), exemplo abreviadíssimo, elíptico, na linha de “Actueur” (idem, Dezembro de 2006). Ironicamente, ao contrário de “Actueur”, composto por três actos, este “Acte” manifesta-se «en cinq actes»: a actividade anterior ao acto (I), como, por exemplo, os actos reflexos irreflectidos, o acto em acção (II), como, por exemplo, o acto executório, o acto activo (III), como, por exemplo, a memória, o acto de contrição (IV) e o último acto (V), isto é, a morte. Estamos a simplificar. Cada um desestes actos é composto por um brevíssimo inventário de expressões e de palavras que, conjugadas, nos enviam para um dos mais antigos problemas da filosofia da linguagem: a relação entre o pensamento, a linguagem e a acção.
«Pois suas naus são rápidas como uma flecha ou um pensamento», diz-se na Odisseia manifestando uma ideia que já em Tales de Mileto estava presente: a da velocidade do pensamento. Desde Descartes que a noção de que pensamos corresponde à consciência de uma actividade que me confere existência, pelo que pensar será a condição sem a qual não se existe. Não é por acaso que o óbito corresponde à morte cerebral, independentemente de, ainda activos, pensarmos ordenada ou desordenadamente. A morte cerebral introduz a inacção. Segundo a teoria linguística behaviorista, falar é uma acção. Também segundo a teoria dos actos de fala, lembra-nos Josef Simon, «a linguagem é essencialmente um falar, portanto, uma actividade.» Não será difícil para um leigo aceitar tais conclusões, mais complexo se torna admitir o pensamento anterior à linguagem enquanto acção. Mas haverá pensamento anterior à linguagem? Haverá pensamento sem linguagem? Não cremos que haja, o que há é pensamento anterior à sua materialização ou projecção através de uma linguagem que se manifesta na oralidade e na escrita.
Estando o teatro, enquanto arte performativa, iminentemente ligado à acção – falamos da acção que decorre em cena, falamos de actos enquanto divisões dessa acção -, o “nem teatro” é como que uma jogada de xadrez que põe em xeque as convenções fazendo equivaler à acção o pensamento. Neste sentido, avizinha, talvez, o teatro estático pessoano, embora este se revele demasiado palavroso diante do “nem teatro”. Podemos antes imaginar uma peça com um actor a pensar sem dizer, sem projectar a voz ou imaginar um qualquer mecanismo que projectasse numa tela a actividade cerebral em tempo real. Na música, Cage fez algo semelhante com a peça para piano intitulada 4’33’’.
No seu “Exame de Conscência”, W. Somerset Maugham dizia esta coisa extraordinária que nos persegue há décadas: «se confessasse cada acção da minha vida e cada pensamento que me atravessou o espírito, o Mundo me julgaria um monstro de depravação.» Subtraiamos à frase a carga moral e até religiosa que aparenta ter e imaginemos um tal dispositivo que projectasse os nossos pensamentos a todo o instante e a conclusão seria, muito provavelmente, a mesma.
“Acte en cinq actes”, como o próprio título indica, dá conta, no entanto, de uma possibilidade de decomposição das acções que podia ser infinita, um pouco como acontece nas aporias de Zenão. A subdivisão (ou a segmentação) do acto em cinco actos recoloca-nos no centro do problema que é o do acto primeiro, a energia anterior ao acto, a força propulsionadora da acção, a actividade cerebral que motiva o gesto. Anterior ao gesto é o pensamento em acção, resta saber o que será anterior ao pensamento em acção. Haverá algo anterior ao pensamento em acção? Tanto o Teatro Impossível como o Nem Teatro revelam-se-nos formas teatrais do pensamento em acção, um questionamento experimental da acção com princípios que poderão ser os mais diversos. Neste sentido, poderíamos talvez falar de uma dramaturgia da filosofia da linguagem. O termo, o fim, é o silêncio, a extinção da palavra, do pensamento, é a morte.







