quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

NOTÍCIA TRISTE



Aqui. Conheci-o na Nazaré, aquando da apresentação deste livro e de uma exposição sobre fanzines organizada pelo Luís Paulo Meireles. Na fotografia ao alto, o Meireles mais à esquerda, Geraldes Lino mais à direita. Nascido em Lisboa, Geraldes Lino frequentou Filologia Germânica na Faculdade de Letras. Era um entusiasta da BD e da língua portuguesa. Escreveu para vários jornais e revistas. Foi comissário de várias exposições de BD, sócio fundador do Clube Português de Banda Desenhada, fundador da Tertúlia BD de Lisboa. Editor de inúmeros fanzines, coordenou uma página de banda desenhada no semanário Mundo Universitário. Atribuíram-lhe, em 1999, o Prémio Imprensa no Festival Internacional BD da Amadora, recebendo em 2001 o Troféu de Honra atribuído no mesmo festival. 

O AMOR COMO AZAR

Conhecemos a inveja, a cobardia e o amor como se fossem azares e não razões. Eu creio que a presença de espírito perante a vida vem desse encontro com as peripécias que não nos atingem, só nos alimentam a imaginação. Aprendemos a não nos desiludir porque não aspiramos a ser protagonistas de nada deste mundo. Bastamo-nos com ser parceiros na história que, por ser fingida, nos dá a garantia de ser inofensiva. Passa-se com os outros, e portanto temos a liberdade melhor de todas que é a de acreditar que estamos a salvo de tudo o que sucedeu e sucederá.

Agustina Bessa-Luís, in Doidos e Amantes, Guimarães Editores, 2005, p. 20, citada por Isabel Rio Novo, in O Poço e A Estrada - biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 432.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

DIGA 33: FEVEREIRO


Com Fernando Assis Pacheco (n. 1 de Fevereiro de 1937) e Ruy Belo (n. 27 de Fevereiro de 1933) em pano de fundo.

HERDADE DE SÃO MIGUEL, TINTO



Vinho Regional Alentejano
(Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Syrah, Cabernet Sauvignon)

"Elegante e guloso". Confirmo o guloso.

INGESTÃO E CONTACTO




Poderia perguntar, além disso,
quantas palavras seriam necessárias
para rasurar uma palavra,
quantas, quais e com que prazo de validade.
Qual o procedimento, estratégia ou artifício,
que lhe permitiria detê-las antes que jorro
lhe empapasse a boca. Cuspia as que podia,
mas alguma coisa por detrás da garganta
lhe alimentava a língua, solta e descontrolada
como uma mangueira de incêndio.
Álcool sobre as chamas, gasolina,
em golfadas fundas que ameaçavam,
via, sepultar o mundo sob o seu peso.
Tentava evitá-las. Retinha a respiração,
premia as mãos contra a cova da boca, mas
era inútil, jorravam-lhe como de uma ferida aberta.
E ainda que soubesse controlar-se,
à sua volta havia
mais bocas do que aquelas que conseguia calar.
Multiplicavam-se. Na rua, nos livros, nos ecrãs,
num débito verbal que ultrapassava tudo
o que algum dia pudessem ter tido para dizer.
Bocas velhas,
novas, brancas, negras, de machos, de fêmeas,
de todas as formas, de todas as línguas.
Bocas virgens,
bocas penetradas, bocas pervertidas,
cínicas, ingénuas, generosas, bocas, bocas, bocas.
Há muito que, de facto,
esmagadas por um peso que as sufocava,
as coisas se afundavam sob tantas palavras.
Por vezes procurava-as. Era em vão.
Talvez, se cosesse a boca, como quem cose a vulva
para não parir o filho do ventre,
a sua, a das outras, a de todas, a de todos,
a humanidade inteira
numa censura prévia e sem piedade.
Talvez, se arrancasse o nome às coisas, como quem
retira a roupa para expor a carne, crua mas concreta,
ou raspa da pele o pó acumulado pelos anos.
Talvez, se os objectos se revoltassem, como cavalo
que rejeita a rédea, talvez, talvez, talvez
tivéssemos direito a um pouco de realidade.

Madalena de Castro Campos (n. 1984), in A Gun in the Garland. Três livros publicados na Companhia das Ilhas: O fardo do homem branco (2013), La mariée mise à nu (2017), A gun in the Garland (2019). Recorrendo amiúde a terceira pessoa, os versos remetem para uma figura feminina gerando um efeito de reflexo que acrescenta ambiguidade ao sujeito poético. A linguagem é crua, violenta, agressiva, desconstrói os padrões de feminilidade impostos por uma sociedade machista. Onde seria de esperar uma figura frágil, carente de protecção, encontramos antes uma personagem rude, provocadora, «tentando não ceder à moralidade». Transformada em tema, a poesia surge num quadro de doença contaminadora do meio. Poemas tais como Lavandaria Lusitana ou O meio literal português colocam-nos um problema: não percebermos se os retratos surgem a partir do olhar de quem se sente por estar fora ou de quem observa à distância, menosprezando tácticas, gestos, hábitos, manias, nos quais não se revê mas com os quais perde tempo (pelo menos o de denunciá-los com versos furiosos). Prefiro quando a atenção se desvia para os deuses, para a actualidade, para os temas sociais e políticos, tornando a violência muito mais pertinente face ao objecto. A série intitulada Figuras do quotidiano é bom exemplo de como a notícia do crime pode ser transposta da dispersão dos dias para um lugar fixo, readquirindo um vigor que a intoxicação quotidiana banaliza.

AQUELE OLHAR



   Clint Eastwood está à beira dos 89 anos de idade. Confiando no IMDB, estreou-se como actor nos anos de 1950. Tem mais de meio século de experiência, como actor, primeiro, e como realizador, desde 1971. Neste domínio, são muitos os filmes que assinou para ficarem na história. Westerns como O Rebelde do Kansas (1976), Justiceiro Solitário (1985), Imperdoável (1992). O inesperado, pelo romantismo, As Pontes de Madison County (1995). Uma homenagem ao jazz: Bird – Fim do Sonho (1988). Filmes de guerra, tais como As Bandeiras dos Nossos Pais (2006) e Cartas de Iwo Jima (2006). São diversos os géneros que abordou, sendo difícil encontrar no seu curriculum enquanto realizador um filme medíocre. The Mule/Correio de Droga (2018) é o mais recente, e vem reposicionar, isto é, reforçar, isto é, consolidar, isto é, reafirmar o actor e o realizador Clint Eastwood entre os maiores que o cinema gerou. 
   Feito à medida de um homem com quase 90 anos, The Mule conta a história de um improvável correio de droga na fronteira que separa os EUA do México. Tendo em conta a actualidade, o tema é deveras sensível. E não deixa de ser irónico que, apesar do cartel ser mexicano, o transportador seja um velho veterano tipicamente norte-americano. Podemos ensaiar várias leituras do assunto, até tendo em conta as posições políticas do protagonista. Mas nestas matérias prefiro deixar de lado factos biográficos. Não estou particularmente interessado nas posições políticas de Eastwood, ainda que me pareçam mais politicamente incorrectas (ou controversas) do que tantas vezes se pretende insinuar. Desde a série Dirty Harry que o problema se coloca, sobretudo devido a um suposto elogio do voluntarismo que arrasta consigo excessos de violência e inúmeros equívocos.
   Se uma coisa é a realidade, outra é o cinema, e a verdade é que os filmes de Eastwood procuraram sempre reflectir a realidade de pontos de vista que não me parecem nada conservadores. Antes pelo contrário, há nas suas histórias uma problemática da ambivalência. Com o velho Earl Stone deste The Mule não é diferente, a complexidade da personagem surge enquadrada na complexidade da própria existência. Não é possível tomar partido, só é possível tentar compreender. Sem desculpabilizar, o que o próprio não faz. 
   Com uma vida dedicada ao cultivo de flores, Earl negligenciou a família. Ofereceu Às flores uma atenção que nunca teve para com a ex-mulher e a filha. Marido ausente, pai ausente. O mundo moderno arruinou-lhe o negócio. A Internet, esse elemento abstruso num filme que também por aí pretende elogiar as formas clássicas do cinema, é inimiga não só do seu optimismo como lhe oferece uma visão pessimista do futuro. Mas o que pode esperar da vida um homem com 90 anos? Sem perceber muito bem como, Earl torna-se correio de droga. Com o dinheiro, paga o casamento da neta, remodela o bar dos veteranos de guerra, faz coisas socialmente positivas, aceitáveis, recomendáveis. É um simpático criminoso que não mata ninguém, que até interrompe o trabalho para ajudar um jovem casal “negro” a mudar um pneu furado no meio do nada. 
   Inocente ou culpado? No meio de tudo, sobressai a face conservadora e clássica do autor num elogio da família enquanto valor supremo. Não devemos colocar o trabalho à frente da família, a família deve vir em primeiro lugar. O diálogo que mantém com o agente Colin Bates, interpretado por Bradley Cooper, é memorável, quer pela sua simplicidade, quer pela tensão que transporta numa cena onde o final ainda se encontra em aberto, onde nenhum desfecho se prevê.
   Do elenco fazem parte Dianne Wiest e Andy Garcia, todos mais velhos (mas tão bons). Neste filme para actores crescidos, convém sublinhar a presença de Alison Eastwood a fazer de filha de Eastwood. Faz lembrar o que sucedeu com Henry Fonda e Jane Fonda em On Golden Pond/A Casa do Lago (1981). Se alguma mensagem pessoal, de cunho familiar, existe aqui, não é matéria em que devamos meter-nos. Mas que é bonito, lá isso é. Como as flores que surgem no princípio e no fim, símbolo de dádiva e de cuidados e do lado luminoso da vida que realmente importa cada vez mais não negligenciar. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

CONAN OSIRIS


Chegou o momento, sinto que devo ter uma opinião acerca de Conan Osiris. Toda a gente tem “bués”. Temos d’ estar ao nível. Portanto, aqui vai: não acho piadinha nenhuma. A minha cena é mais Klaus Nomi, ‘tás a ver?



BRANDOS COSTUMES


domingo, 17 de fevereiro de 2019

VINHA DA OSGA, TINTO


Quinta da Faísca, Favaios
Douro
(Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Touriga Nacional)

"Elegantes notas florais", o que deve querer dizer qualquer coisa muito interessante. Boa pinga, digo eu.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

BRUNO GANZ (1941-2019)



Natural de Zurique, tornou-se estrela do cinema alemão com realizadores tais como Wim Wenders e Werner Herzog. Excelente em O Amigo Americano (1977) e As Asas do Desejo (1987). É Alexandros no magnífico A Eternidade e Um Dia (1998), de Theo Angelopoulos. Oliver Hirschbiegel ofereceu-lhe o papel de uma vida em A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich (2004). Tem lugar reservado na história do cinema europeu.

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #9 & #10




   Desconheço as razões, minhas filhas, que fazem com que neste nosso país tantas vezes os melhores versos surjam em prosa e a melhor prosa surja em verso. Deve haver algo que o explique, matéria na qual não sou versado nem me inspira empenhos para lá do gozo proporcionado pela leitura. Com o pensamento ocupado noutras elucubrações, prefiro entreter-me com objectos ambíguos na forma, híbridos no género, paradoxais na moral. Sempre me atraiu o indefinido, na literatura ainda mais. Daí o deslumbre com tudo quanto alente a androginia do espírito, mais ainda se acarretar aquela força do iconoclasta capaz de abalar os pilares dos bons costumes (que são, quase sempre, maus conselheiros). 
   Um nome: Mário-Henrique Leiria (n. 1923 – m. 1980). 
  Dois títulos: Contos do Gin-Tonic (Estampa, 2.ª edição, Outubro de 1976) e Novos Contos do Gin seguido de Fábulas do Próximo Futuro (idem, 2.ª edição, Janeiro de 1978). 
   Sobre o nome pouco se sabe e muito se diz, o que é comum entre as nossas gentes. Terá sido expulso das Belas Artes, em 1942, por más inclinações políticas. No surrealismo à portuguesa também não se manteve muito tempo, saindo em dissidência para formar um segundo grupo com aqueles que são hoje por todos tomados como os primeiros: António Maria Lisboa, Mário Cesariny, etc. Na nota biográfica oficial diz-se que «teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil» e que andou à deriva por vários cantos do mundo. O que não se diz tão oficialmente é que a fome lhe terá corrido as entranhas. Numa das primeiras pequenas histórias dos Contos do Gin-Tonic, percebemos ao que vinha no Portugal do Carreirismo:

   Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
   Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
   Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
   Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.

   Conclusão: se um homem tem de começar por algum lado, pois que comece por conhecer os métodos do inimigo. Sobre as viagens com carteira nada abastada, há quem diga que vinham do patrocínio comunista. Não tenho provas. Certo é ter morrido só e magro. Andou nove anos pela América Latina, para onde partiu em 1961, fazendo sabe Deus o quê. Ou talvez nem Deus o saiba, tão distraído que sempre anda. Minhas filhas, Portugal também tem esta coisa curiosa de serem poucas as biografias disponíveis de quem realmente teve vida para contar. Salvo raríssimas excepções, o que vai surgindo pouco acrescenta ao ramerrão das pessoas comuns. Pessoa essa que este Mário-Henrique não era, não podia ser, jamais terá sido. Caso contrário, como poderia ele em tão poucas palavras definir o sentido da existência num conto em verso que coloca em cena uma nêspera e uma velha?

RIFÃO QUOTIDIANO

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o acontece

  Portanto, se não quereis ser devoradas por uma velha, erguei-vos da cama e protestai, não fiqueis mudas à espera do que acontece, fazei acontecer. É deste caminhar caminhando, é deste fazer fazendo, é desta vontade, deste desejo, desta paixão, que toda e qualquer existência necessita se não quiser resumir-se ao pouco mais que nada de por cá andar com a cabeça entre as orelhas. Aproveitai a lição, ide ou deixai que as pernas vos levem, com a autonomia que é delas, para onde os "tiranos" da consciência jamais vos levarão: uma aventura sem portos.

BIÓGRAFA OU BIOGRAFADA?


Ando a ler O Poço e a Estrada Biografia de Agustina Bessa-Luís (Contraponto, Fevereiro de 2019), de Isabel Rio Novo. Logo no capítulo de apresentação a autora faz questão de nos informar: «Eu, que para este livro reli a obra completa de Agustina, ficcional e não ficcional (…)». Não espera o leitor outra coisa de um biógrafo, pelo que é escusado dizê-lo. Pouco depois: «Respirei Agustina; digo-o sem medo e sem rebuços». Respirou Agustina? Esperemos que não lhe crie nenhum problema pulmonar. Mas o cúmulo desta obsessão com o eu, estranho numa biografia, surge a páginas 50 (e ainda só vou na 56): «Digamos que não me foi difícil compreender Agustina. Também eu, na minha pequena infância, cresci longe de outras crianças, recolhida por longos períodos numa aldeia minhota». E a quem isso interessa?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

UMA IMAGEM PARA O DIA


A CIDADE E AS SERRAS


Campo ou cidade? A questão coloca-se como se fosse obrigatório optar por uma das alternativas, como se não fosse possível conciliá-las. O maniqueísmo nesta questão, como noutras, aliás, surge contaminado por preconceitos e por ideias feitas. Os apologistas do campo são quase sempre aqueles que não têm de sobreviver no campo, vivem na cidade alimentando uma nostalgia bucólica de sossego, paz e silêncio, como se a vida no campo pudesse ser reduzida à pureza do ar. Os do campo olham para a cidade sonhando com riquezas e confortos, ambicionando aceder aos lustres da fama, pensam na cidade como um mar de oportunidades. Até nelas naufragarem. Diz-se que no campo se é livre e saudável, que na cidade se leva uma vida doentia de servidão. Mas será mesmo assim? Eça de Queiroz (1845-1900), em A Cidade e as Serras, obra póstuma de 1901, parece não escapar ao padrão nesta divisão entre campo e cidade. A Paris de Jacinto, a que ele chama Civilização, surge retratada no início como palco da «vantagem de viver». O campo é dos brutos e das bestas, a cidade é dos homens cultos, das gentes instruídas, é de uma cultura académica, livresca, de biblioteca que fascina até ao ponto de o tumulto se tornar tédio absoluto. Também em Baudelaire encontramos o tédio como o sangue que corre nas veias da cidade. O fascínio pelas máquinas, pela indústria, pelas tecnologias, o gozo da novidade, das modas, a febre de ter e de aparecer, preenchem a agenda daquele que dela se torna escravo. Às tantas só ouvimos Jacinto suspirar: que maçada! Tudo se torna repetitivo, a multidão esboroa-se numa monotonia previsível, as máquinas falham, as tecnologias começam a desiludir, entram em desuso, e as pessoas, sobretudo as pessoas, adquirem em vida a lividez dos mortos. A cidade é uma paisagem de marcas, de montras, de teorias inúteis, a erudição revela-se vazia, supérflua, até o amor se resume à transacção comercial, uma infecção sentimental curável com distância, solidão, exílio. Da «vantagem de viver» chegamos ao «embaraço de viver», sobretudo quando a consciência se abre a uma contemplação que acabará por descobrir nas avenidas e nos becos da Cidade um acumular de lixo e de miséria, exploração, ruína, poluição: «E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arrátel, como a de vaca!» (p. 95) E isto é dito como se no campo não houvesse casas de putas, o campo, esse paraíso na terra onde se conserva a doçura dos gestos em gente bruta, animal, mas pura. Tretas! Tanto o campo como a cidade têm as suas abundâncias, e parece inegável que nesta o tempo vale mais do que naquele por serem acelerados os ritmos da vida. É o tempo, a experiência do tempo, aquilo que melhor nos permite separar ambas as realidades. Porque quanto ao mais são, o campo e a cidade, palcos onde os homens definham nesse processo de viver que consiste em fracassar, ou seja, em subir o mais alto possível para continuar constatando quanto se é ínfimo, porque se é efémero, finito, mortal. Façamos justiça ao escritor, que também no Campo viu misérias denunciáveis. Mas nem a sua panorâmica de Paris, nem as vistas de Tormes, encerram o problema: no limite, todo o espaço ocupado por homens se torna humano, deixa de ser selvagem ou civilizado, passa simplesmente a ser humano. E, enquanto espaço humanizado, não é senão organismo degradável, perecível. Hoje, os que da cidade migram para o campo em busca de tempo talvez busquem uma vontade de viver que o ruído das buzinas não permite como permitirá o ruído da passarada. E essa vontade de viver talvez seja uma fuga ao tédio, um tédio que a província desde cedo incute a quem nela nasce: aqui não se passa nada. Uma maçada. Mas tal como não se passa nada no campo, nada se passa na cidade, desde que abramos o pensamento a ambas as realidades constatando que tudo se resume a uma repetição fastidiosa de gestos, estações sobre estações, que não nos livrarão da tristeza, do pessimismo, da melancolia enquanto não adoptarmos aquela humildade de saber que a nossa grandeza está na nossa insignificância, que por ser tão curta a vida, tão passageira, a despeito de teses e teorias opostas, o melhor mesmo é aproveitá-la provando de tudo quanto há para provar. Não resumir a vida a uma mecânica de casa, trabalho, casa, trabalho, casa, trabalho... É isso, não é? A questão coloca-a Eça do seguinte modo: «Sendo tudo inútil, e não conduzindo senão a maior desilusão, que podia importar a mais rutilante actividade ou a mais desgostada inércia?» E esta mostra-se como sendo a questão definitiva, a mais profunda e urgente, a verdadeira questão para a qual ninguém precisa de uma biblioteca de 30000 livros. Melhor fora que tivesse uma boa garrafeira, pão caseiro e bom queijo ou um chouriço. A Natureza encarregar-se-á de oferecer o resto, a pontuação certa. Isto se não dermos cabo dela antes de ela dar cabo de nós.

PEQUENO PINTOR, TINTO


Vinho Regional Alentejano
(Trincadeira, Aragonez, Alicante Bouschet)

Bebi da colheita de 2012. Todo o meu coração foi tingido de cores vivas.

MENINOS


O cumprimento é uma das formas que tenho de apurar o carácter de uma pessoa. Não me refiro ao tipo de cumprimento, mas ao cumprimento ele mesmo. Alguém que te conhece e te vê em algum lado fingindo que não viu, evitando o cumprimento ou adiando-o à espera, porventura, de ser cumprimentado, não é propriamente um cretino. É só uma pessoa infantil. Como não suporto gente adulta com comportamentos infantis, faço questão de mostrar o que é ser homenzinho e estendo a mão com complacência e afecto. Às vezes até faço uma festinha no ombro, como quem afaga o pêlo ao cão. É uma questão de educação, assim como quem diz: vês, não custa nada, só fica bem, depois podemos voltar a ignorar-nos para o resto das nossas vidas.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #61




   Quem será esta estranha figura com perfil de sombra? Tem nome: Noel Scott Engel. No mundo da música, onde aterrou muito jovem, ainda nos anos de 1950, fez um percurso hoje difícil de acreditar. Começou como baixista e segunda voz de bandas pop, até saltar para a frente do palco como cantor principal dos The Walker Brothers. Música simples, melódica e harmonicamente balanceada ao estilo easy listening de Burt Bacharach. O sucesso rapidamente lhes bateu à porta, tornando-se a voz de Scott Walker, como então passou a ser conhecido Noel Scott Engel, numa das mais ouvidas durante o início da década de 1960. Baladas com orquestrações pomposas, ambientes neo-românticos, abriram as portas a uma carreira em nome individual com considerável sucesso por terras de Sua Majestade. Iniciou-se com quatro discos simplesmente intitulados Scott (1967), Scott 2 (1968), Scott 3 (1969), Scott 4 (1969), sendo perceptíveis tanto a influência de cantores como Jacques Brel e Frank Sinatra como do cinema de Bergman ou da poesia Beatnik.
   Muitos anos depois, na trilogia iniciada com Tilt (1995), pouco, muito pouco, restará dos primeiros tempos, embora as sementes tenham sido lançadas com letras negras e instantes indiciadores de uma mente atormentada. Uma personalidade obsessiva levou-o a estudar música erudita e canto gregoriano, afastando-se progressivamente das metodologias impostas pelo reino do entretenimento. O sucesso esvaneceu, a pressão colocou-o no limite do que o sistema nervoso de um homem pode suportar. Sem que nunca tivesse deixado de trabalhar, Tilt marca uma inflexão no percurso musical de Scott Walker. Obscura, enigmática, misteriosa, é o menos que pode ser dito desta música. Farmer in the City, o tema inicial, homenageia o poeta italiano Pier Paolo Pasolini com arranjos de cordas melodramáticos, repetindo-se o registo no tema Patriot (a single), ainda que com algumas variantes ao nível da complexidade da estrutura musical. No tema Bolivia ’95 envereda por ambientes étnicos num ritual de expurgação mental: «opiate me / with that / key doctor / babaloo».


   O imaginário de Scott Walker é um desafio constante, levando-nos a crer que ao ouvirmos estes discos estamos a penetrar numa dimensão onírica povoada por criaturas desfiguradas, informes, indefinidas. Se Tilt encerra o seu esoterismo com a simplicidade de um tema onde Walker se faz acompanhar apenas da guitarra, sendo o último verso revelador de um estado de alma que os anos de exílio faziam prever — «And I gotta / quit» —, The Drift (2006) adensa a percepção de uma desistência com composições completamente alienadas do ouvinte. Que pensar deste percurso que levou um artista do easy listening a uma música tão abstracta que chega a ferir? 



   O interesse pela cultura italiana mantém-se, mas desta feita com uma evocação de Clara Petacci (amante de Mussolini que fez questão de ser executada com o ditador). Os arranjos melodramáticos de alguns temas anteriores dão lugar a ressonâncias industriais, elevam o drama a tragédia, evocam personalidades obscuras, secundárias, mas sugestivas psicanaliticamente, como o irmão gémeo nado morto de Elvis Presley. The Drift é expressionismo abstracto, habitado por cenas de violência e gestos bruscos, é uma ópera da crueldade com momentos assustadores, aterradores. Walker já não está interessado em seduzir e entreter, a pop foi radicalmente largada no lixo, as melodias acabaram estilhaçadas pelos pesados martelos da impiedosa realidade. Palavras que se escutam em Cue: vírus, verme, herpes, ossos, gorjetas, sémen, tumor… E tudo isto sugere um olhar sobre o mundo que começa com a mais simples das perguntas: o que têm Seoul e o Sudão em comum? Ambas as palavras começam por S:


   Bish Bosch (2012) é o derradeiro tomo da trilogia iniciada com Tilt (1995) e prosseguida com The Drift (2006), resultando todos de uma estreita colaboração com o produtor Peter Walsh. Nos três álbuns encontramos referências que se impõem como coordenadas de um universo singularíssimo, dos assassinatos de Pasolini e Mussolini, da Guerra do Golfo ao 11 de Setembro, passando por conversas com cadáveres, atmosferas surrealistas, combinações aparentemente aleatórias de orquestrações clássicas com elementos rock, vozes distorcidas como nos filmes de terror (o pato Donald possesso no tema The Escape), até cenas de tortura, radiografias de corpos doentes, cancerosos, momentos minimalistas como nos temas Rosary e A Lover Lovers.



   Bish Bosh podia ser compreendido enquanto síntese deste mundo perturbado e perturbador. Mas não há tese nem antítese, pelo que seria erro crasso esperar uma síntese. A trilogia é antes a santíssima trindade de um mundo colapsado. O tomo final abre num registo industrial, com percussão repetitiva e uma guitarra distorcida a ameaçar riffs logo descontinuados. From Here to Eternity, o filme de Fred Zinnemann, dá o mote. Logo a seguir a voz de Walker surge isolada numa espécie de oração, perdendo-se posteriormente num longo labirinto de imagens com sons sobrepostos entre os quais seria frustrante tentar encontrar alguma ligação harmónica. A única tese é o silêncio, a única antítese é o ruído. Talvez a música seja então a síntese. 
   Free rock, como dizemos do free jazz, sustentando uma lírica da violência sumamente ilustrada pelo som de catanas amoladas. No tema Phrasing o verso «Pain is not alone» é exaustivamente repetido, acompanhado de referências ao KKK e a Khrushchev que culminam com a sentença: «Here’s to a lousy life». Talvez o sentido de tudo isto seja impenetrável, conquanto admitamos haver nesta trilogia o testemunho de uma guerra contra a indústria, ávida de produtos descartáveis e avessa a uma noção artística da música. Este Scott Walker é para ser ouvido com calma, de quando em vez, levando-nos a pensar sobre e através da música no que possa ser, afinal, o sentido de uma arte suprema:


"Certamente, meu Príncipe, uma ilusão!"

E a mais amarga, porque o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda — esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular; vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... A sua tranquilidade (bem tão alto que Deus com ela recompensa os santos) onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar — e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? 

Eça de Queiroz, in A Cidade e as Serras, Livros do Brasil, 1.ª edição na Livros do Brasil/Porto Editora, Março de 2016, pp. 94-95.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A REALIDADE E O DESEJO



A Luis Cernuda

A realidade, sim, a realidade,
esse relâmpago do invisível
que em nós revela a solidão de Deus.

É este céu que foge.
É este território adornado pelas borbulhas da morte.
É esta mesa larga à deriva
em que os comensais perduram ataviados pelo prestígio de não estar.
A cada qual seu copo
para medir o vinho que acaba onde começa a sede.
A cada qual seu prato
para acabar com a fome que se extingue sem que jamais seja saciada.
E a divisão do pão aos pares:
o milagre ao contrário, a comunhão somente no impossível.
E no meio do amor,
a queda entre um e outro corpo,
algo semelhante ao batimento sombrio de umas asas que voltam da eternidade,
ao pulso da despedida debaixo da terra.

A realidade, sim, a realidade:
anúncio de encerrado em todas as portas do desejo.

Olga Orozco (n. 17 de Março de 1920, Toay, Argentina – m. 15 de Agosto de 1999, Buenos Aires), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 157.162-163. Estudou na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires, integrando desde cedo o grupo surrealista Terceira Vanguarda. Esteve associada à revista Canto nos anos 40. Foi uma famosa actriz de teatro radiofónico, usando vários pseudónimos na imprensa escrita onde se dedicou à crítica teatral. Nos anos 70, elaborava horóscopos e respondia a consultas sentimentais praticando tarot. Amiga de Pizarnik, de Amelia Biagioni, de Alberto Girri e de Enrique Molina, dedicou-se também à crítica literária e à tradução. Desde lejos (1946) foi o seu primeiro livro.

BEYRA, TINTO


Beira Interior
(Tinta Roriz - Tempranillo -, Touriga Nacional)

Solos graníticos e xistosos com filões de quartzo... Ok, mas escorrega que nem veludo. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #8


   Por mais voltas que dêmos iremos invariavelmente parar na casa do amor, pelo que livro mais útil não ides encontrar na vida. A Ars amatoria servir-vos-á em dois partidos, já que o mestre escreveu-a a pensar tanto nos interesses dos homens como nos das mulheres. Nisso descansai, nada tendes aqui que conflitue com as novas tendências da política de equidade de género. E pela voz de um homem ser-vos-ão abertas as portas da mente máscula.
   Públio Ovídio Nasão nasceu numa pequena cidade italiana em 43 a. C., vindo a falecer em Tomos (Constança), na Roménia, já 18 anos depois de Cristo ter andado pela terra. Os parabolanos bem que tentaram silenciá-lo, mas os versos foram mais fortes que as pedras e aí estão perdurando na eternidade. Expulso de Roma por Augusto, condenado ao exílio na terra onde viria a morrer, não baixou armas contra caluniadores, dedicando-lhes versos verrinosos bem diferentes da dissolução de costumes cantada na Arte de Amar.
   Encontrareis nesta obra três livros, dois dirigidos aos homens e um terceiro votado às mulheres. Dos primeiros podeis colher o pensamento, as tácticas e manhas no processo de sedução, as regras que comandam o jogo levando o jogador a actuar deste modo ou daquela maneira. São ensinamentos indispensáveis a quem pretenda precaver-se contra as investidas do depredador, pelo que deveis tê-los em boa consideração:

O vinho põe o coração a jeito e torna-o pronto para a fogueira;
os cuidados desvanecem-se e diluem-se numa boa dose de vinho puro;
chega, então, o riso, então o pobre ganha coragem,
então a dor e os cuidados e as rugas desaparecem do rosto,
então a simplicidade, tão rara no nosso tempo, abre os
corações, sacudidos que foram os artifícios pelo deus.

   Dos versos aproveitai tamanho saber: «a bebedeira, tanto é nefasta, se verdadeira, como é útil, se fingida». Corroboro. Mas são inúmeros os conselhos, julgai-lhes a utilidade colocando-os em prática. Sobre tudo quanto tem que ver com o amor nos fala Ovídio, e não é de um amor dito platónico ou ideal que ele fala, mas sim do amor que corre no sangue e dá vida à carne, movido pelo desejo e alentado pela paixão, é do amor tal qual o vivem e experimentam todos quantos possam ter neles o que de animal herdámos.
   Esta arte de amar não se dirige aos hipócritas, muito menos aos moralistas, para quem o amor do espírito pretende impor sacrifícios à carne. Ela dirige-se aos amantes, ao corpo dos amantes, pelo que deveis considerar todas as possibilidades: «Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros / (eis por que me apraz menos o amor com rapazes); / odeio aquela que se entrega por ser preciso entregar-se / e que, na sua secura, só pensa na sua lã; / prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo; / um dever, que nenhuma mulher o pratique comigo».
   Dito como na canção, para haver amor não pode haver obrigação. Portanto, minhas filhas, cuidai de meter na agenda:

Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo algum na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
Há que aproveitar a idade.

E o resto são cantigas.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #60



   O álbum mais ouvido na escola em 1987/1988 foi A Momentary Lapse of Reason, levando muita rapaziada da minha geração a descobrir os Pink Floyd por esses anos. Para mim não foi uma descoberta absoluta, já que Another Brick in the Wall era um dos singles mais rodados lá em casa. Os Pink Floyd dos anos 1980 espelhavam a desintegração do agrupamento original, com o afastamento de Roger Waters após The Final Cut (1983). Mas a verdade é que foram canções como Learning to Fly e On the Turning Away que me despertaram a curiosidade para o que ficou para trás. 
   Comecei a coleccionar a discografia da banda britânica desde The Piper at the Gates of Dawn (1967), disco que me introduziu no universo psicadélico através do fascínio exercido por um génio atormentado chamado Syd Barrett (1946-2006). As drogas e subsequente descompensação psíquica afastaram-no da banda, sendo difícil imaginar o que esta poderia ter sido se David Gilmour não tivesse substituído Barrett. Mas se a década de 1960 foi de absoluta experimentação e descoberta para os Pink Floyd, com uma criatividade repartida que o álbum Ummagumma (1969) registou magistralmente, já a de 1970 foi de consolidação de ideias, enveredando o grupo por registos mais sinfónicos e menos psicadélicos, assumindo posições políticas e de intervenção social, descendo do espaço sideral aos factos terrenos como um meteorito caído do céu. 
   Waters impôs-se enquanto principal compositor, dividindo atenções com Gilmour. The Dark Side of the Moon (1973) e Wish You Were Here (1975), que toda a gente considera hoje obras-primas, são fruto dessa sinergia nem sempre pacífica entre dois excelentes compositores. Assim sendo, a década de 1970 não podia ter terminado de melhor maneira para os Pink Floyd. O duplo álbum The Wall (1979) não só condensa a história da banda como a teatraliza, elevando a música rock a um estatuto operático que não muitos conseguiram lograr sem caírem no ridículo. 
   São múltiplas as leituras que podemos fazer deste disco, parecendo certo que o muro aqui desenhado simboliza todas as barreiras erguidas entre a natureza humana e o desejo de liberdade. O problema é inerente ao ser, é de consciência, mental, mas desenvolve-se na relação com o exterior. O julgamento final da personagem retratada remete-nos para O Estrangeiro, de Albert Camus, ao mesmo tempo que expõe as ameaças a que o ser social está sujeito. A família, as leis de uma suposta justiça, a política, a religião, tudo se questiona neste disco com um imaginário filosófico cuja pertinência se mantém inquestionável. Os temas sucedem-se sem intervalos silenciosos, como se cada canção fosse um acto e cada acto fizesse parte integrante de uma sequência que tem no tema Outside The Wall a sentença final. 
   A vida de Roger Waters parece ser o que motivou a distribuição de matérias, embora me pareça algo redutor ler um disco destes fixando o interesse numa perspectiva biográfica. Prefiro lê-lo/ouvi-lo colocando em perspectiva um problema universal, ainda que sumariado na existência de uma personagem. 


sábado, 9 de fevereiro de 2019

AUTOCARRO 27, TINTO


Vinho Regional da Península de Setúbal
Herdade de Portocarro


Cheguei ao fim da viagem enquanto o diabo esfrega um olho.

SULCOS

   - Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfacto, e estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado à alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura intolerável pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela impertinência, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se não pode sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são as pequeninas misérias de uma Civilização deliciosa!

Eça de Queiroz, in A Cidade e as Serras, Livros do Brasil, 1.ª edição na Livros do Brasil/Porto Editora, Março de 2016, p. 46.

O TEMPO DOS PRIMEIROS VERSOS #2


CAIS

agora que embarcados rumamos ao sol nascente
na traineira que outrora sabíamos abandonada
talvez se aproxime de novo a luz que nos separou

porque o amor não é apenas o outro lado do ódio
é também uma calha de afectos e reencontros
ainda que no cais onde ancorámos a solidão
tenha ficado para sempre o medo de sermos um

agora que embarcados rumamos ao sol nascente
naufraguemos de novo os corpos num mar de cetim
para que não mais a luz se dispa da sombra
para que não mais os dedos sangrem de espera

*

LAMÚRIA

tinhas um jeito
que me domesticava
como a um cão faz o dono
encaravas-me como o resto
de uma refeição mal digerida

retraí os ombros
as mãos e as pernas
continuei indiferente às horas
encerradas na lamúria do desejo

podia aguardar nos teus gestos
o amadurecimento das palavras
que cantei sem garganta

podia
mas não aguardei

agora
lamento apenas
que seja tão banal
o nosso amor

*

OS SAMURAIS

os samurais subiam às cerejeiras
penduravam-se nos ramos
até darem flor
esmagavam as cerejas como quem quebra nozes
no dorso da mão
e besuntavam o corpo com o suco da polpa
para ficarem mais próximos do sangue

depois
cuspiam os caroços até perfurarem a carne
no sentido do coração

é bom saber que o ritual permanece vivo
que os poetas continuam a descer à página
para aí
esmagarem poemas
como quem amassa frutos

é bom saber que as folhas afiadas de versos
ainda nos podem lavrar o sangue
no sentido do coração

*

QUASE SONETO

No último poema escreverei
que esqueci todos os versos
na mesa do café onde habituei
as partidas aos regressos

Os dias sucedem-se abruptos
no aqui já indissolúvel.
Embalo-te com credos a furto
na ecúmena de mel e fel.

Agora que sou apenas por ti,
apolítico, grito: matéria, matéria!
Se existo, é porque estou aqui.

E se estou nesta miséria
é porque morro. Faço-me poema
e revivo. Só mais um estratagema.

É pena.

Notas:
1. Os poemas Cais e Os Samurais foram publicados na antologia “Cerejas – Poemas de Amor de Autores Portugueses Contemporâneos” (Editorial Tágide, Junho de 2004), a convite de Gonçalo Salvado. Abertura de Eduardo Lourenço e posfácio de António Ramos Rosa.
2. O poema Lamúria foi publicado em “Antologia do Esquecimento” (Edição do autor, Maio de 2003).
3. Quase Soneto surgiu inicialmente em “Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe” (Edição do autor, Julho de 2000), sendo posteriormente reeditado em “Antologia do Esquecimento” (Edição do autor, Maio de 2003).

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

ANTÓNIO


   António é discriminado na escola: é o único que não tem os pais divorciados. No recreio todos os amigos gozam com ele. Atiram-lhe frases cruéis à cara: «O António tem os pais juntos! O António tem os pais juntos! O António tem os pais juntos!».
   António sente-se envergonhado. Vai chorar para um canto com a humilhação.
   Na semana passada, António foi chamado a um gabinete: o Gabinete de Apoio a Filhos que Têm os Pais Juntos. Dois técnicos aconselharam-no a arranjar estratagema certo para acabar com o sofrimento:   criar conflitos em casa entre as entidades paternas. Todos os dias, António trabalha para isso - inventando e-mails de amantes, por exemplo. Este ano, acha ele, vai ser finalmente uma criança aceite pela sociedade.

Nuno Costa Santos, in A Mais Absurda das Religiões, Escritório, Outubro de 2017, pp. 189-190.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

UM POEMA DE OLGA OROZCO



DIA PARA ESQUECER

Vai-te, dia maldito;
guarda sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que melhor me esquece;
caminha sobre mim com passo selvagem, simulando um deserto entre fome e sede,
para que todos creiam que não estou,
que sou um sinal de despedida sobre as pedras;
fecha de par em lar, longe de mim, tuas faces sem crueldade e sem misericórdia,
como se fosse já a invulnerável,
aquela que sem pena pode provar os gestos dos outros;
e deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,
o sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:
esta geada que percorre a minha cara.
Ainda assim, hei-de chegar contigo.
Ainda assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos.


Olga Orozco, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 157.