sábado, 4 de dezembro de 2021

JANELA (2004)

 


Éramos dois ou três, talvez quatro, não mais, acabados de aportar na capital e sem muito que fazer para além de responder semestralmente às expectativas da família. Encontrámos porto de abrigo no Centro Cultural de Belém, erigido entre o Padrão dos Descobrimentos, onde nunca fui, e o Mosteiro dos Jerónimos, onde nunca entrei. Preferia os pastéis de Belém quando ainda era possível ficar por lá a folhear um livro acabado de adquirir num alfarrabista da baixa. Uma vez dei com o Pimenta numa mesa defronte e estive para meter conversa, mas como nunca fui de meter conversa fiquei na minha e deixei-o na dele. Comi mais um pastel, provavelmente o sexto, bebi mais um café, provavelmente o décimo, fumei mais um cigarro, provavelmente o trigésimo, e regressei ao livro. Isto era antes dos concertos das 7 às 9, acho que se chamavam assim. Foi numa dessas borlas que ouvi pela primeira vez o contrabaixo do Pedro Gonçalves. Mais tarde, em 2004, com curso feito e capital para trás das costas, fiquei surpreendido ao vê-lo ao lado do Tó Trips, que conhecia dos Lulu Blind. Entre 1992 e 1998 frequentei muito os lugares por onde passava a malta do punk, era habitué, acho que é assim que se diz, do Gingão, depois do Johnny Guitar, depois d’afins. Quando os Dead Combo publicaram o tomo I tornei-me fã sem reservas. Vi-os várias vezes ao vivo. Julgo que a primeira foi em Alcobaça. Lembro-me bem de um concerto na Festa do Avante, com a Beatriz, muito novita, a dançar em cima das colunas. São imagens que uma pessoa guarda, coisas que ficam. Gosto muito dos Dead Combo, da fusão operada na música que foram apurando ao longo dos anos. Fala-se de fado e spaghetti western, mas há por ali tango, bolero, uma miscelânea de referências que resultou em algo singular e inédito na música popular portuguesa. Estava aqui a pensar se não terei ouvido também o Pedro Gonçalves no festival de Valado dos Frades. Talvez não. Às vezes inventamos coisas, convencidos de que aconteceram. E no final vai-se a ver e nada, era lapso, recriação da memória, falsa reminiscência, imaginação. Lamento esta perda. Caramba, lamento mesmo. Tanta gente que não faz falta nenhuma e.

domingo, 28 de novembro de 2021

FAZER RENDER O PEIXE

 


A multiplicação de formas impressas de texto, sendo consequência do processo de revisão e rescrita dos autores, não deixava de ser também um procedimento para maximizar os rendimentos de autores e editores. Alexander Pope, por exemplo, que satirizou esta prática em The Dunciad enquanto manifestação do predomínio da lógica mercantil nas novas condições de criação literária, foi ao mesmo tempo um especialista na comercialização de várias versões dos mesmos textos, lançadas no mercado com escassos meses ou anos de intervalo umas das outras, como refiro adiante.
   Outro caso semelhante teria sido o do poeta James Thomson (1700-1748), cujo poema The Seasons foi sendo sucessivamente acrescentado e reeditado até à versão completa: «Winter» foi expandido da primeira (folio) para a segunda edição (octavo), em 1726; a estas duas acrescentou-se a primeira edição de «Summer», em inícios de 1727; depois, a primeira edição de «Spring», em 1728, acompanhada da proposta de subscrição para a futura edição da sequência The Four Seasons seguida de um hino. Em 1729, Thomson vendera os direitos de «Spring» a Andrew Millar e os direitos dos restantes poemas («Winter», «Summer», «Autumn» e «Hymn») a John Millan. Millan fez também uma edição separada de «Autumn» (octavo, 1730, preço 1 xelim). Segundo o contrato, ambos os editores poderiam publicá-los apenas no formato octavo, evitando assim a concorrência com a edição completa por subscrição que o próprio Thomson preparava, em quarto. Esta edição completa surgiu finalmente em 1730. Ao copyright de cada uma das edições separadas e ao rendimento da subscrição, Thomson juntou ainda os proventos das dedicatórias: pela dedicatória de «Winter», a Lord Wilmington (Spencer Compton), teria recebido 20 guinéus. As dedicatórias das outras partes foram provavelmente reconhecidas com uma quantia similar: «Summer» foi dedicado a Bubb Dodington; «Spring», à Condessa de Hertford: e «Autumn», a Arthur Onslow. Deste modo, por acrescentamento e revisão sucessiva enquanto compunha o poema, Thomson conseguira gerar uma série de edições parcialmente idênticas de forma a aumentar o seu rendimento. Combinava ainda vários segmentos do mercado com a esfera aristocrática do reconhecimento pessoal. 

Manuel Portela, in O Comércio da Literatura - Mercado e Representação, Edições Antígona, Outubro de 2003, p. 72. Ao alto está o senhor Pope, que hoje seria acusado de autoplágio. Refira-se, a propósito do mercado de dedicatórias, a paródia de Charlotte Charke (1713-1760), que, em 1755, dedicou a sua autobiografia a si mesma:

Escolher-vos a vós, Minha Senhora, para patrocinar as minhas Obras, é Prova evidente de que não sou desinteressada nesse Particular; pois o Mundo há-de convencer-se facilmente, pela vossa natural Parcialidade em relação a tudo aquilo que até aqui produzi, que carinhosamente deixareis passar os seus Erros, e que, tanto quanto estiver em vosso Poder, vos esforçareis por aumentar os seus Méritos. Se, graças a Aprovação vossa, o mundo puder ser persuadido a ficar com uma Opinião aceitável do meu Labor, eu hei-de, por amor da Novidade, aventurar-me a chamar-vos por uma vez, AMIGA; um nome, reconheço, pelo qual ainda nunca vos conheci.

Idem, p. 92.

sábado, 27 de novembro de 2021

QATAR

Os números mais actuais apontam gastos de 60 biliões de dólares em estádios e 140 biliões de dólares em infraestruturas. É o mundial do Qatar, espectáculo para entretenimento das massas em 2022. Excepto das que neste momento morrem de frio na fronteira da Bielorrússia com a Polónia, afogadas no Mediterrâneo ou emparedadas entre os milhares de quilómetros de muro construídos depois da queda do muro de Berlim. Viva a globalização! Viva! Viva o capitalismo selvagem! Viva! Morram os pobres! Morram! Fiquem só os ricos! Fiquem! E quem lhes lambe as botas! Lambe!

SURTOS

 


Com a cara destapada e de frente para as câmaras, uma adepta de futebol diz que a atitude dos jogadores do B -SAD na segunda parte foi vergonhosa porque inventaram lesões para não jogar. Este assunto não teria relevância alguma, não fosse o caso de nos demonstrar, mais uma vez e com bastante simplicidade, que os bárbaros andam à solta. E votam. A Hannah Arendt escreveu sobre estas coisas e sobre o modo como a barbárie se escuda nos regulamentos para justificar as suas acções. Sociedade doente.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

A CAMA A MESA

 

   Para a memória que construímos de um poeta podem concorrer diferentes aspectos, nem sempre determinados pela obra produzida. Uma bofetada no eternamente jovem René Crevel (1900-1935), por exemplo, pode condicionar a imagem construída sobre a personalidade de Paul Éluard (1895-1952), o autor de Liberté (1942) e de outros poemas contra o nazismo que circulavam clandestinamente durante o período da Segunda Grande Guerra. A filiação no Partido Comunista Francês contribui para uma infindável especulação acerca das relações do surrealismo com o comunismo, num período em que tanto o engajamento político como o engajamento artístico se fartaram de fazer vítimas mortais em todos os lados da barricada. O prefácio de Louis Aragon (1897-1982) aos Poemas Políticos, por cá publicados pela Presença com tradução de Carlos Grifo, é outro elemento a ter em conta na leitura de Éluard. A este poeta da liberdade e do amor — a relação com Helena Diakonova (1894-1982), mais conhecida por Gala Éluard Dalí, figura no museu das musas eternas —não poupou António Ramos Rosa os adjectivos mais elogiosos, nomeadamente num curioso artigo intitulado O Sim de Éluard e o Não de Michaux (1952): puro, por um lado, e «uma das mais abstractas poesias do mundo», por outro, para em suma lhe atribuir «a voz mais genuinamente harmoniosa, mais sabiamente espontânea do surrealismo». Majestoso é outro dos adjectivos recorrentes no que toca a caracterizar a poesia de Paul Éluard, recentemente traduzido por Luís Lima para a editora Barco Bêbado.
   De acordo com a nota apensa ao cólofon, A Cama A Mesa (Agosto de 2021) «teve a sua edição primitiva no dealbar de 1944», ou seja, no ano da Libertação de Paris. Paul Éluard havia casado com Maria Benz 10 anos antes. Excluído do Partido Comunista Francês, viajou pela Europa como embaixador do movimento surrealista. A amizade com Picasso levou-o a Espanha, sendo muito provavelmente consequência desse périplo os poemas finais de La Lit La Table (Enterrar Y Callar, Crítica da poesia, este com referência aos assassinatos de García Lorca, Saint-Pol-Roux e Jacques Decour). É um dos aspectos que devemos ter em conta ao ler Paul Éluard, o modo como na sua poesia o poema de cunho social se equilibra entre os aspectos de denúncia de um tempo histórico concreto e uma axiologia fundada na fraternidade. Este livro não escapa à dimensão política, embora esteja longe de se esgotar nela. Mesmo nos poemas que mais obviamente associamos a uma necessidade interventiva no curso da história, através do seu registo e testemunho, há uma voz que se eleva da intimidade e sobressai pelo modo como contorna o chamado realismo social.
   A Cama A Mesa reúne 4 conjuntos de poemas, num total de 27, alguns deles construídos em sequência, onde frequentemente somos surpreendidos por uma carga emocional que não é necessariamente negativa nem indolentemente desinteressada, nela confluindo a leveza da lírica amorosa com a experiência penosa da guerra. Veja-se como na sequência intitulada Fresco, o segundo conjunto do livro, a memória da juventude, essa idade em que a consciência do mal está ausente (ver p. 16), atravessando a experiência do amor flui, através do correr das estações, para uma espécie de sentença maturada pelo tempo: «Evitai apenas a sorte hostil a miséria / E o tédio a fraqueza e na sombra de joelhos / A promessa de chumbo de uma vida sem raiva / À vista das cauções de uma injusta felicidade» (p. 35). A possibilidade do amor num cenário de guerra é, talvez, a imagem que melhor se adequa à poesia de Paul Éluard, uma poesia onde a catástrofe nunca é absoluta, mas o terreno agreste em que a beleza pode desabrochar e, em desabrochando, reluzir mais esplendorosamente.
   Poeta do extraordinário, se é que o termo se adequa, no sentido de nos seus versos a vulgaridade ser superada pelo surpreendente, o autor de Les sept poèmes d’amour en guerre (1944) faz brilhar no escuro uma chama que nos desvia amiúde de quadros trágicos para paisagens idílicas pautadas pela clareza das manhãs. Não para aí se instalar confortavelmente, como se a viagem não tivesse regresso. O erotismo é nestes poemas uma janela aberta sobre a beleza possível, oscilando entre a felicidade da presença e a tristeza da ausência (como no poema intitulado Sem Ti). Isto provoca, por vezes, uma sensação estranha, pois ao contrário do que é costume a nostalgia surge superada pela celebração das coisas presentes: «Celebro o essencial celebro a tua presença / Nada é passado a vida tem folhas novas / Os mais jovens riachos emergem na erva fresca» (p. 21). Talvez a leitura de Ramos Rosa se mantenha pertinente: «A sua vontade de ver claro exerce-se no próprio seio da obscuridade, num combate corpo a corpo, sem qualquer espécie de intervenção sobre-humana». Resta saber se se trata de uma vontade de ver claro, à laia de um desejo de tipo utópico, ou se, por outro lado, se trata de uma visão efectiva fundada na aceitação do carácter antinómico de toda e qualquer existência. Neste sentido, a clareza andaria a par da obscuridade. Não se negam, complementam-se. Tal como a morte complementa a vida.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

OLIVER GOLDSMITH

 


«As Dificuldades do Autor Contratado» recapitula tópicos que, desde o último quartel do século XVII, tinham passado a caracterizar o labor literário. Para Goldsmith, as transformações do modo de produção literário decorreram da transformação da escrita num ofício mecânico e das consequentes alterações do ritmo e das relações de trabalho. A relação assalariada entre editor e autor, instituída por um mercado que é preciso alimentar constantemente com novas mercadorias, substituíra o patrocínio. Esta alteração das relações sociais de produção e do ritmo de trabalho tivera consequências nos géneros literários: a poesia fora substituída pela política e pela crítica, uma alusão ao mercado cada vez mais importante da imprensa periódica. A lógica da expansão comercial levava mesmo a que os autores alienassem o seu juízo crítico, vendo-se constrangidos a promover um livro para servirem o editor de quem dependiam. 
   A relação monetária mercantil perturbou também as hierarquias sociais, uma vez que o editor, que dirige a produção e interfere na escrita, tem geralmente uma instrução rudimentar e inferior à do autor. Além disso, a própria classe dos autores tem agora outra composição social. Goldsmith contrapõe o poeta, isto é, a identidade autoral clássica, ao autor, isto é, à identidade autoral estabelecida pela participação no comércio das letras. Integrando-se no processo genérico de valorização das formas de riqueza comercial numa economia capitalista, a arte literária deixara assim de ser apanágio dos gentlemen, tanto no caso dos editores como no caso dos autores.

Manuel Portela, in O Comércio da Literatura - Mercado e Representação, Edições Antígona, Outubro de 2003, p. 12.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

TODOS OS DIAS... (1994)

 


Entre leituras dos pseudónimos literários arquitectados por António Quadros, o pintor, fui enviado para “Todos os Dias…” (1994), um disco de Amélia Muge com direcção artística de José Mário Branco. São cinco os poemas de João Pedro Grabato Dias que aparecem musicados nesse disco: “O Mal Lavado”, “Leões e Mais”, “Estar Vivo é Estar à Morte”, “Passarinho da Charneca”, “A Viúva do Enforcado”. Qualquer um deles assentaria bem nos Panfletos que Pedro Tadeu mantém na Antena 1. Eis uma das poucas razões que ainda tenho para ouvir rádio. A ideia, diz o autor, passa por tratar da «relação íntima, ao longo dos tempos, da arte musical com a vida e a luta dos povos.» Cada programa é um momento cada vez mais raro de reflexão livre e aprendizagem efectiva sobre a relação estreita da criação artística com a luta por direitos fundamentais. António Quadros, o pintor, foi um criador imenso que rivalizou com Camões no poema anti-épico “As Quybyrycas” e com Pessoa no modo como engendrou heterónimos para dar à estampa uma obra poética de excelência enterrada e esquecida, talvez, por não ser conveniente aos doutos das letras lusas. Ora, mais do que nunca convém trasladar essa obra do ignominioso silêncio em que a confinaram para o merecido lugar de destaque na literatura escrita em língua portuguesa. Normalmente é assim, aquilo que é bom porque desafiante encontra sempre mãos invisíveis que empurram para baixo, escondem, atiram para trás das costas na esperança de que ninguém dê pelo gesto. Isto obriga a uma atenção redobrada, obriga a que nos empenhemos na defesa do que verdadeiramente importa por se opor à lógica publicitária e espectacular e vazia e efémera a que nos querem restringir. «Estar vivo é estar à morte / Cativo de um Plim! da sorte», canta Amélia Muge. Outra hipótese seria os “Cantares do Andarilho”, de José Afonso, também sobre palavras de João Pedro Grabato Dias: «Já fiz recados às bruxas / Do Caselho à Portelada / Dei-lhes a minha inocência / Elas não me deram nada.» Portanto, é bom que demos um pouco a quem nos dá tanto. Estas palavras, em forma de agradecimento, vão para o autor dos Panfletos, na Antena 1, que tanto me tem dado com as histórias que nos conta.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

MILES SEATON (1979-2021)

 


A trabalhar ao som dos Akron/Family interroguei-me sobre o que seria feito deles. Sub Verses (2013), o último álbum, já tem uns anitos. Nunca mais deram notícias. Fui averiguar e dou com a triste notícia do falecimento de Miles Seaton, um dos fundadores da banda que assinou um dos meus álbuns preferidos de sempre: Love Is Simple (2007). Nunca tiveram muito sucesso por cá, felizmente. São um daqueles tesouros para presentear amigos em noites de copos. Seaton faleceu em Fevereiro passado, com apenas 41 anos de idade, vítima de acidente de viação. Como os outros elementos que estiveram na origem da banda, tocava vários instrumentos. Publicou alguns discos em nome individual, assinados como Miles Copper Seaton. Phases in Exile (2017) é um deles. Deixa saudades.



segunda-feira, 22 de novembro de 2021

UM POEMA DE JOÃO PEDRO GRABATO DIAS

 


12/3/77

Tenho no arquivo das opções operativas
uma gaveta de tédio que abro às vezes.
Gosto de sentir o desconforto assumido logo que digo:
Que chatice de vida! Que spleen! Que cafard!
Quedo-me tão regozijado quanto me sei sem razão
e porque sei a cachimbada uma intrusa carrego o cachimbo.
É inevitável. Sabe-me mal a boca. Tinha razão.
Ó alegria, que chatice a vida!

Que aconteceu entre mim e os velhos amigos
despindo a pouco e pouco a veste que eram?
Estão todos aqui no cabide vazios de bafo.
Estão todos aqui onde não esperaram chegar.
Será minha esta culpa de estar feito menina de vestiário
com as mãos cheias de senhas coladas por bolores eficazes
e os olhos fixos na saída da sala do espectáculo?
Ó tristeza, que chatice a vida!

Onde estão todas as vozes escritas e acreditadas
na primavera própria para acreditar em vozes?
Não fugi a nada. Não penso ser surdimutis.
Que aconteceu portanto a toda a banda de som
na distância que cresce medonha entre mim e isso
que era o consultar contente das pedras lavradas?
Será minha esta culpa de estar na cadeira sentado
olhando crescer a distância fora do espaço do tempo?
Ó tristeza, que chatice a vida!

Porque me perturbo com um verso saído a mais sem mais
excessivo mas maduro e esperando ser prestável?
Em nome de que rigor me apoio para cortá-lo
sabendo-o essencial como uma mão com dedos
operando à revelia da sua própria vontade?
Na distância medonha que cresce entre mim e isso
que seria o vulnerável do verso abatido à carga
é a tristeza uma chatice, vida?

Que me seduz: o tédio, ou tê-lo em arquivo?
Tê-lo assim chamável a qualquer hora do dia
é só salgar a carne, de outro modo insossa
ou apenas ocultar de mim o que em mim contido
serve de continente ou mortalha? Ó tristeza!
Levo de vencida o poema como quem varre cinzas
e vejo-as tomar formas próprias a partir do chão.
...Chatice e facúndia. Ó manas alegres!

João Pedro Grabato Dias, in Sagapress - poesia com datas, edições pouco, 1992, s/p.

domingo, 21 de novembro de 2021

WALKIN’ THE FROG (1960)

 

Um príncipe ou um sapo? Não poderá ser um sapo príncipe governando a monarquia dos charcos ao som do coaxar de coros de rãs? As rãs de Aristófenes, isso, já temos por onde ir. Há nas palavras um efeito electromagnético, umas puxam outras e estas puxam-nos a nós e a gente vai sem saber para onde, mas vai, porque a gente precisa de ir a algum lado. Nem que seja um lado ao lado do lado onde melhor nos ajustaríamos, talvez um lago, talvez não um charco, talvez um lago com peixinhos e sapos e rãs e outros anfíbios. Que elegância, eu para aqui aflito sem ter o que dizer e a inventar coisas, a ver se alguma chega ao tipo daquela da noite passada: as palavras não estão sozinhas no mundo, sozinhos estamos nós, as palavras têm muita companhia, andam de boca em boca absorvendo significados novos ou renovados ou velhos ou revelhos. Para dizer a verdade, acho que não tenho nada a dizer, estou sem emoção nem sentimento, a cabeça atolada de imagens e sem palavras, caminho como um sapo aos pulos, detenho-me por instantes encostado às paredes da memória, sou assaltado por saudades e nostalgias, começo frases a que não me apetece dar continuidade. Para quê? Para quem? Fosse viva, faria anos hoje. Lembro-me disto e basta-me. Bebo para esquecer e nesse esquecimento vislumbro alegria e na alegria lavro e semeio e colho grãos de vontade com que alimento os dias, um a um de cada vez, para não doer muito, ajustando-lhes a banda sonora ideal: Cambridge Blues, Brute’s Roots, Walkin’ The Frog, Rabbit Pie… Se não for o saxofone de Johnny Hodges a salvar-me deste vazio, da monotonia e do tédio, o que poderá salvar-me? Um príncipe sapo encantado? A quem deverei dirigir as orações? Por mais que sejam as coisas feitas, realizadas, sempre o buraco negro da insatisfação sugando-me para o estômago da baleia. Por mais que faça, tudo por fazer e nisso nenhuma excitação, apenas e tão-somente esta sensação de não valer a pena ou talvez a de ser o esforço a pena que vale, aquela que mergulhada na tinta nos permite assinar a página em branco de uma vida que passou e se cumpriu fazendo coisas, assobiando coisas, decantando coisas.

sábado, 20 de novembro de 2021

UM POEMA DE NUNES DA ROCHA

 


Que me interessa escrever poemas bonitos,
Ele há tantos!
Bem escritos? Muitos, muitos,
Desde o latinório ao recém acordo ortopédico da fala.
É preciso animar a malta?
Também, também há, Edições Sem Leitores,
Com espingardas floridas e passeio a Ribatejo.
Poema coisa?, ui, resmas desde 61 do passado século
E além.
Mas sejamos sinceros, o poema bonito hoje
Está inda mais bonito e vale a pena,
Com sua água-de-colónia
E flores na fotografia.

Nunes da Rocha, in Colóquio dos Simples, Averno, Junho de 2020, p. 20.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

TORRES DE CRISTAL

Esta noite sonhei que andava a passear por Madrid com a Ana e os meus pais. O meu pai falava um castelhano impecável e dizia que as ruas de Madrid lhe lembravam Vila Franca de Xira. Em castelhano ficava Pueblo Libre de Xira. Eu não achava muita piada à comparação e, por isso, afastei-me quando eles se sentaram num restaurante, aproveitando para tirar fotografias às ruínas de uns moinhos que me remetiam para Torres Vedras. Em castelhano dizia-se Torres de Cristal, mas soava como Torres de Ventanas. O mais inesperado do sonho é que eu andava vestido de palhaço, andava pelas ruas de Madrid vestido de palhaço. Não me sentia propriamente desconfortável, se exceptuarmos as calças lassas na cintura que me deixavam o cu à mostra. Mas era estranho andar vestido de palhaço. Ainda por cima fazia anos. Há 40 e tal anos a ser abusado, pensava. Em castelhano abusado é abusado, anos é años, cu é culo e palhaço é payaso. E lá continuava, pelas ruas de Madrid vestido de palhaço.

ENFISEMA

É sempre dia de comemorar alguma coisa,
mais ainda em Portugal, todo ele, o país,
revestido de génios a reclamar efemérides.
Hoje é dia de lembrar quem há X anos -
escolha o leitor a data redonda que mais
lhe aprouver - morreu por ter nascido, nasceu
por ter morrido, e entre datas como entre
os dentes foi palitando os dias e coroando
insónias com utopias e poucas glórias.
Aos poetas erguem-se estátuas em praças
poluídas para que os pombos tenham onde
pousar, aos artistas em geral roubam-se
os nomes para ruas de dez em dez anos
varridas pelas vassouras do pensamento.
Quem ainda se lembra desse ás de espadas
da prosa lusa que faria agora mesmo 99
anos, 3 horas, 15 minutos e 30 segundos,
fosse vivo de carne e osso nas páginas
que escreveu ou no pensamento de quem
finja lê-lo de lido porque há sempre um
sarro de vergonha nas unhas da memória?
O tempo é tramado, envia encomendas
extraviadas pelo descaminho dos códigos
postais. Não fora o esquecimento ter
tomado conta dos serviços, os correios
por certo arrulhariam como os pombos
nos beirais e seríamos todos mais sérios,
mais honestos, embora talvez menos geniais.
 
Juraan Vink, dos "Diários".

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

JÁ OUVISTE UM CUCO CANTAR?


 (...)

MANEL
Já ouviste um cuco cantar? Imita o cuco Sobre por mim acima uma sensação estranha quando ouço o cuco cantar... e gosto... não sei porquê mas gosto... gosto de cantar como cantam os cucos... dizem que andam os ciúmes no ar quando cantam os cucos... Larga-o

JOHN
Deixa lá o cuco...

MANEL
Deixo, deixo... mas está a subir por mim a cima uma sensação... Patético, sofrido, indica o kilt Olha para mim... achas.me bem assim, nesta figura? Breve silêncio Há dias alguém me contou uma história quando se pôs a olhar para a relíquia do meu avô. Pausa. Numa destas guerras, um soldado telefona para a mãe a dizer-lhe: "Mãe, tenho um amigo que ficou muito ferido num combate. Está cego e sem uma perna e eu queria levá-lo comigo para nossa casa". A mãe ficou silenciosa e depois disse-lhe: "Mas, meu filho, vais trazer assim uma pessoa nessas condições, é melhor não, já basta o teu sofrimento". Umas horas depois o rapaz suicidou-se. Pausa O amigo era ele. Breve silêncio Não sei porque me lembrei... Saindo, patético Ah, o que eu sinto ninguém pode sentir por mim... é um grito que sobe por mim acima como um foguete em dia de festa... John está apavorado vendo Manel desaparecer. Ouve-se o cantar do cuco e, de mistura, em gravação, um grito de dor de Manel, como se ecoasse num vale imenso. Escuro.

(...)

Abel Neves, in  El Gringo seguido de Lobo-Wolf, Edições Cotovia, Setembro de 1998, pp. 93-94.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

FILOSOFIA

Acabei de apanhar no Facebook publicidade a um Festival de Filosofia, em Abrantes. Nada contra tais modernices, mas fiquei algo surpreendido quando ao espreitar, por curiosidade, os oradores do dia, não encontrei um único filósofo. O mais que se aproxima disso é Miguel Serras Pereira, de quem li, em tempos, "Outra coisa: poesia, psicanálise e política – algumas linhas". Isto deu-me ideias. Imaginem um festival de poesia sem poetas (já se vão fazendo, eu sei), ou um festival de música sem músicos. Imaginem um festival de marisco sem marisco. Uma vez, há muitos anos, entrei com a família numa croissanteria que não vendia croissants. Tem a sua piada. Um festival da canção sem canções, com o José Gil a "rappar" sobre o obstáculo da identidade e com o Manuel Maria Carrilho a especular sobre o anti-édipo em registo de cante alentejano e com o sociólogo José Bragança de Miranda a trautear Jean-François Lyotard.

SOB ATAQUE

Esta noite sonhei que Portugal estava a ser atacado por mar e pelo ar. Os ataques por ar consistiam em tsunamis sucessivos. Teorias da conspiração espalhavam a hipótese de que seria obra do grande controlador das marés, o vice-almirante Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo. Tudo para disfarçar as vagas de covid-19, metendo as massas a discutir o que não interessa: tsunamis. Pelo ar o assunto era mais complexo. Como Portugal não tem altas torres, os aviões despenhavam-se contra as gigantescas árvores de Natal que, para deleite das massas distraídas com tsunamis, enfeitam as cidades por esta época. Várias teorias conspirativas circulavam, que era obra do pai Natal, diziam uns, que eram ataques perpetrados por Jesus Cristo, diziam outros, que era isto e mais aquilo e aqueloutro. Curiosamente, as vítimas mortais eram todas escritores, nomeadamente os que vendem mais no período natalício: José Rodrigues dos Santos, dito o orelhas, morto, Helena de Sacadura Cabral, dita mãe dos Portas, morta, Margarida Rebelo Pinto e Gustavo Santos, ambos mortos, Isabel Stilwell, Raul Minh'alma, Miguel Sousa Tavares, tudo morto. Havia mais, mas estes são aqueles de que me recordo melhor. Uns diziam que era obra dos escritores que não vendem, por inveja, outros garantiam que se tratava de trabalho de alguns críticos malévolos, por saberão eles que razão, e havia também quem falasse da mão invisível de um tal Futuro. Pormenor engraçado, os aviões quando caíam não explodiam nem se desfaziam em chamas. Transformavam-se automaticamente em pó. Eram nuvens de uma poalha muito fina. Cada grão dessa poalha tinha a forma de uma letrinha, como aquelas massas com forma de letras. Mas em minúsculo.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

LISBOETICES

Com cada vez menos paciência para lisboetices. Segundo o dicionário priberam a lisboetice é o equivalente a saloiice aplicado às boas gentes alfacinhas, que vistas de Paris, como sabemos, têm todas um ar muito pacóvio, isto é, parolo, ou seja, saloio. Não se apoquentem, em Berlim há quem diga o mesmo dos de Paris e em Londres há quem diga o mesmo dos de Berlim e o senhor Dijsselbloem, dos países baixos (para quê as maiúsculas neste caso?), disse que a rapaziada do sul da Europa gastava tudo em copos e mulheres. Era o que deviam fazer, de facto, se não fossem saloios como o senhor Dijsselbloem, que é holandês, logo fala como um alemão quando está com os copos. E tem aquele gel todo na cabeça, tal um saloio na festa da aldeia. Enfim, era o que devíamos mesmo fazer reservando o direito a que algumas mulheres gastassem tudo em homens e copos. Mais que direito isto até devia ser um dever, uma obrigação, um imperativo categórico. Percebem ou estão armados em saloios?

PARA ENFEITAR

No país dos 0,25%: "São 12 as cidades portuguesas na corrida a Capital Europeia da Cultura 2027, desde Vila Real a Braga, Aveiro, Coimbra, Guarda, Leiria, Oeiras, Évora, Faro, Funchal e Ponta Delgada." Como será o dia-a-dia kóltural nestas belas cidades? Presumo que de uma vitalidade estonteante, com salas cheias, novos públicos a serem formados, dezenas de pessoas a ler nas esplanadas, exposições, peças teatrais em cena meses a fio, cinema, música, milhares de cidadãos interessados e participantes. E artistas bem pagos, com contratos de trabalho e direitos garantidos como qualquer trabalhador, laborando em rede de norte a sul do país, fazendo digressões, regressando ao lar com a alegria do dever cumprido. E livrarias ao virar da esquina, com bichas intermináveis em busca de clássicos e novidades. Ou então não, isto é tudo mais uma anedota do show-off nacional que aprendeu com os romanos a regra do pão e circo e nunca mais a largou. Porque acha que dá resultado, é útil à nação, esta cultura de adereço em formato bibelot.