segunda-feira, 27 de abril de 2026

RALAÇÕES HUMANAS

 
Quando as relações humanas são maioritariamente definidas por conveniências de circunstância, num cartar e descartar à medida de interesses e de ambições pessoais, ninguém está verdadeiramente legitimado a criticar governantes que actuem da mesma maneira. A vaidade que corrói a maioria dos homens, calcando o mínimo de discernimento oferecido pela humildade, comanda opções estratégicas despudoradamente, como se vê na distribuição de cargos um pouco por todo o lado. Nada disto deve afectar-nos particularmente, sobretudo se não tivermos sido assaltados pelas ânsias do sucesso. “Murphy”, o primeiro romance de Beckett, foi várias vezes rejeitado, acabando por conhecer uma primeira edição de 1500 exemplares na sua maioria destruídos por bombardeamentos durante a guerra. Era o que se dizia à época, para não ter de se reconhecer que entre 1938 e 1942 foi vendida metade da primeira edição. 782 cópias desapareceram misteriosamente. Da edição francesa fizeram-se 3000 cópias, de que se venderam apenas 95 exemplares. Outra história maravilhosa é a da primeira edição de “Uma semana nos Rios Concord e Merrimack”, de Henry David Thoreau. Fizeram-se mil cópias de que se venderam 200 em quatro anos. As sobras terão sido oferecidas ao autor, que dizia ter ficado com uma das maiores bibliotecas do país. Composta, na sua maioria, por um único livro. O dele. Vem isto a propósito de relações humanas, que são como os livros: as melhores resistem ao fracasso e é com ele que se revigoram.

domingo, 26 de abril de 2026

DOS AFUNDANÇOS SENSUAIS

 
Não deixa de ser impressionante a agilidade, a eficácia, a ligeireza, elegância e coordenação motora, aquele pragmatismo que só pode vir da prática, enfim o desembaraço de Melania Trump a ajoelhar-se debaixo da mesa.

sábado, 25 de abril de 2026

VESTIDOS

 
Quitéria comenta os vestidos. O da Carla: com um vestido preto nunca me comprometo. O da Margarida: de vermelho e de cravo, mando às favas o pato-bravo.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

APOSTAS

 
O mundo transformado num casino, com políticos a actuar como jogadores de poker exímios no bluff. Revela o The New York Times que o filho mais novo de Trump tem ligações aos dois maiores "prediction markets" (mercados de profecias), o Polymarket e o seu concorrente, o Kalshi: «É consultor remunerado do Kalshi. E a 1789 Capital [grande nome!], uma empresa de capital de risco da qual Donald Trump Jr. é sócio, investiu no Polymarket. Trump é também consultor não remunerado da empresa.» O que são estas empresas de oráculos? São, basicamente, casas de apostas que permitem aos jogadores apostar numa vasta gama de eventos futuros. Vão os EUA transformar Gaza num resort de luxo? E o povo aposta com a mesma excitação de quem se entrega às raspadinhas, mas ganha quem estiver na posse de informações sobre o futuro. Quem são os Tirésias da actualidade? Por exemplo: «um soldado das forças especiais do Exército dos EUA envolvido na captura do presidente Nicolás Maduro da Venezuela foi acusado de usar informações confidenciais para apostar em eventos relacionados com a missão.» Nestes sites de apostas tanto se pode apostar em quanto tempo o primeiro-ministro britânico Keir Starmer se aguentará no cargo como em quantas mensagens Elon Musk enviará nas redes sociais no próximo mês ou qual será a temperatura em Paris num determinado dia. Resultado: «Antes de grandes acontecimentos, como o ataque americano-israelita ao Irão ou os Óscares, um grande número de apostas surgiu nos mercados de previsão, a maioria delas a prever correctamente o que estava prestes a acontecer. Talvez estas pessoas tivessem sorte ou fossem extremamente perspicazes. Mas também surgiu a suspeita de que poderiam ter tido informações privilegiadas e usá-las nas suas apostas — tal como alguns investidores podem usar informações privilegiadas para ganhar dinheiro ilegalmente no mercado bolsista. Uma análise do New York Times baseada em dados da Polymarket mostrou centenas de apostas num único dia de Junho passado a prever que os Estados Unidos atacariam o Irão. O Times descobriu que tais apostas eram bastante incomuns até então.» Estão a ver a coisa? Chama-se economia de casino, os cidadãos são jogadores. Para quê leis laborais se podemos ganhar a vida a apostar na aprovação do pacote? Diz a ainda o TNYT que, em 2003, «o Pentágono planeou um mercado online no qual os apostadores poderiam prever ataques terroristas, assassinatos e outros acontecimentos políticos de grande impacto, na esperança de obter dados úteis. O plano gerou protestos por parte dos legisladores que consideraram macabro a ideia de as pessoas lucrarem com acontecimentos terríveis, e foi rapidamente descartado.» Foi há 23 anos. Já não é. O que há duas décadas era do domínio da ficção científica e das mais improváveis distopias, faz hoje parte do nosso quotidiano. É neste mundo que estamos a viver, o da lógica do bluff.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS # 40

 


Temos tempo, o futuro há-de chegar, está sempre a chegar, pelo que não valerá a pena acelerar no relógio as horas que do outro lado do horizonte aguardam por nós. Todavia, aconteceu ler há dias no livro de um autor português que em 2060 teremos de ir ao dicionário procurar o significado da palavra “escritor”. Será? O mundo está a mudar rapidamente. Por mundo entendemos a vida dos homens na Terra. Os homens, capturados pela tecnologia, têm vindo a transformar-se por dentro e por fora, nas relações que estabelecem uns com outros e de si para si. Vocês sabem como é, saberão melhor do que eu como é, nasceram já com monitores no lugar de janelas. O esforço foi, desde cedo, fazer com que percebessem mais do que os olhos captam, indo ao encontro daquilo que vemos, tocando nas coisas, cheirando-as, mergulhando nelas se for o caso, para não ficarmos erradamente convencidos de que a realidade não tem textura e que os textos, por não terem textura, não têm realidade. Estes livros que vos deixo de herança são feitos de muitas realidades num tempo em que ainda não é preciso buscar o sentido da palavra escritor, embora já sintamos não faltar muito para que tal se verifique. Em 1953, terminada a Segunda Grande Guerra, a ameaça nuclear levava os homens à rua, obrigava-os a pensar no que seria se viesse a ser essa amostra de apocalipse experimentada no Japão. A imaginação, fértil como nada mais, produziu imensos futuros, uns plausíveis, outros menos, mas muitas vezes certeiros enquanto alegorias ou metáforas de um tempo que agora se encarrega de confirmar o que só a imaginação alvitrava. Em “Fahrenheit 451”, temperatura a que um livro se inflama e consome, Ray Bradbury imaginou um futuro sem livros, com bombeiros que em vez de apagarem fogos se encarregavam de ateá-los, fazendo como Savonarola fez no século XV com as suas fogueiras de vaidades. Nesse futuro imaginado pelo escritor norte-americano a alegria era obrigatória e os livros proibidos, pois os livros inspiram tristeza, melancolia, nostalgia, sentimentos e sensações prejudiciais ao comprazimento com a realidade. «O homem via, mas sem ver o que via o Olho.» Intoxicados com pílulas, comprimidos, sedativos, os homens eram protegidos por cães-robot, animais mecânicos que atacavam quando era necessário atacar, entretidos por clowns, preenchiam papéis vagos em peças de um parágrafo, ligavam-se aos monitores e tinham joke-boxes com que se divertir para que não doesse respirar. O entretenimento, como sabeis, distrai-nos e, por nos distrair, é tão querido de quem não nos quer atentos e vigilantes. Um homem, de seu nome Montag, terá percebido isso ao começar a recolher, pela calada, alguns livros destinados à fogueira, obras que o inquietavam e desassossegavam enquanto à sua volta discutir política resumia-se a considerações sobre o aspecto físico dos candidatos a um qualquer cargo. «Não temos necessidade de que nos deixem sossegados. Temos necessidade de sermos seriamente incomodados de vez em quando», dizia Montag à sua mulher. Mas ela não compreendia, era apenas mais uma individualidade subsumida nas massas que se encarregam de usurpar identidades modelando, uniformizando, regulando, em nome da «paz de espírito.» Montag descobriu por si a importância da desobediência, foi ela que o levou a encontrar outros homens, exilados dessa sociedade padronizada, que transportavam dentro de si livros inteiros, eram cada um deles um clássico completo, garantiam através da memória que as chamas não reduziriam o passado a cinzas. Talvez vos questioneis sobre as vantagens da memória neste tempo desmemoriado, tão negligente da história que abdica do exemplo passado na interpretação do facto presente. É que se o erro se nos apresenta vantajoso, já Descartes o dizia e Beckett corroborou, não menos vantajosa será a consciência do erro, a capacidade de aceitar a falha pelo entendimento que dela fazemos. Só os estúpidos não reconhecem que são estúpidos, certos que estão de tudo. É neste campo que a memória vinga: dando-nos a ver como foi para que compreendamos como é, de modo a que no futuro possa ser melhor. Temos tempo, o futuro há-de chegar.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

SE, ENTÃO

 
Por vezes penso que podia ter sido diferente, se na encruzilhada tivesse optado por outro caminho, se tivesse dito que não em vez de sim quando respondi sim em vez de não, se a fortuna tivesse faltado naquele acidente, se o azar não se tivesse afirmado quando afirmou, se, se, se, mas acabo sempre por me convencer de que quaisquer que fossem as opções, fosse qual fosse a decisão tomada neste ou naquele momento, acabaria inevitavelmente a pensar que a vida podia ter sido diferente, pelo que não importa verdadeiramente o que a vida podia ter sido, mas antes o que vamos fazendo com o que ela vai sendo. 

terça-feira, 21 de abril de 2026

ESTAR ON

 
Em “Fahrenheit 451” os bombeiros ateiam fogos em vez de os combaterem, cães-polícia de metal patrulham as ruas, a felicidade é obrigatória, há pílulas e comprimidos para todos os gostos, os espectadores representam papéis em falta nas peças servidas à la carte e nos cafés as jukeboxes foram substituídas por joke-boxes. Não andamos longe desta alegria obrigatória, a despeito de horas intermináveis de trágica realidade. O Instagram, a mais bem-disposta de todas as redes sociais, não nos oferece senão esse mundo satisfeito dos abraços, das flores, da boa gastronomia, da cor, do amor, mesmo que depois as mesmas pessoas que são todas sorrisos no Instagram vão para o X despejar o ódio que as consome e passem pelo Facebook para partilhar um pensamento profundo e paradoxal do tipo “perco-me de me encontrar” ou “o mundo é uma folha sem avesso” ou “como é negra a luz que ilumina a noite clara”, etc. Para além disto, de facto e de jure, a realidade é um comboio de frases feitas, cumprimentos furtivos, uma sucessão de concessões para, enfim, evitar chatices, sim senhor, porque cá vamos indo com a cabeça entre as orelhas e eu já não estou para me chatear. Quem vier atrás, que fecha a porta. Estou ligado.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A/C DOS JORNALISTAS PORTUGUESES

André Ventura já acordou e lavou os dentes, está na hora de uma entrevista exclusiva, uma reportagem, um directo: dormiu bem? sonhou? teve pesadelos? a sua senhora teve um soninho descansado? que pasta dentífrica usou? que tipo de escova de dentes usa, manual, eléctrica, interdental, ortodôntica? deu algum pum durante a noite? Portugal precisa de saber, é dever dos jornalistas informar, o povo merece.

domingo, 19 de abril de 2026

25 DE ABRIL SEMPRE

 


Ao longo de dezassete capítulos compostos por vários textos com vozes narrativas diversas, percorrem-se três gerações que vão da luta na clandestinidade até às comemorações do cinquentenário da chamada Revolução dos Cravos. Cada texto é a peça de um puzzle labiríntico que captura o leitor pela desmontagem das lógicas de pensamento mais convencionais, estabelecendo-se ligações inesperadas e entrelaçando percursos, porque tudo se liga através de uma História comum, a despeito das mais paradoxais leituras que essa História inspire. «O fim da História, se assim quiseres, acontecerá no preciso momento em que a roupa se tornar supérflua, essa pretensão que pomos sobre o quê para sermos quem», escreve-se a páginas 233. E o leitor continua até à página 490 fisgando os dentes às pontas soltas para «desnovelar, desnovelar...»

sábado, 18 de abril de 2026

SOBRETRAIR

 
Equação do intriguista: Dividir para reinar. Multiplicar problemas. Somar amarguras. Subtrair, isto é, sobretrair.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

MURMÚRIO CICIANTE

 
Quitéria, na pastelaria Infante: «Falam em conversa de bastidores e intriga palaciana, mas nos corredores do poder nada bate o murmúrio ciciante dos tachos na cozinha.»

quinta-feira, 16 de abril de 2026

CRISTINAS

 
Há anos, vi-me envolvido numa polémica de lana-caprina por ter declarado ódio à Dona Cristina. Dizia, e repito, que representa tudo o que mais odeio no mundo, a saber o culto da estupidez que tanto leva à veneração de ídolos de pechisbeque como à reverência a líderes alarves. Vide Trump e seu séquito de imbecis. O histerismo da Dona Cristina deu-lhe popularidade num país de histéricos, de que os pulos do Baião com o macaco foram precursores e as parolices do Goucha fizeram escola. A programação matinal das televisões é uma panela em que se confecciona todo o tipo de imbecilidades, as quais entram pela tarde e se instalam nas casas dos segredos e big brothers. É assim há anos porque o nível desceu, a fasquia ficou tão baixa que só importa a audiência, a sala cheia. E os senhores políticos, sem excepção, aproveitam o embalo aceitando convite para a conversa fiada em período eleitoral. Isto é o que temos um pouco por todo o país, a televisão contamina e retrata o resto, esta indigente rendição aos formatos do sucesso, os quais, para nossa desgraça, revelam sempre valores negativos no termómetro da inteligência. Fizeram da Dona Cristina uma estrela ao ombro da qual adoram pousar para a fotografia, indiferentes às alarvices que a senhora profira e as suzanas garcias de serviço corroborem. Não se admirem, depois, da teia em que foram apanhados, ela aí está com trumps, chegas e afins. Se julgam que isto não está tudo ligado, desenganem-se. Sempre que somos complacentes com a merda, o mais certo é acabarmos cagados.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

INSEMINADOR

 
De palito na boca, atravessa a cena a ranger os dentes na direcção dos bastidores. Tivesse sido eu a criar o mundo, palestrou, onde está um círculo estaria um triângulo, onde está um quadrado estaria um rectângulo, onde está um hexágono estaria um paralelograma. E assim sucessivamente. Atentos como discípulos a ouvir mestres, secretários a concordar com ministros, acólitos persignados em bicha para o beija-mão, todos os vigilantes emprenhavam pelos ouvidos as teses e as teorias do palitado palestrante. Depois, seguiam eles mesmos pelos corredores a cochichar por cima dos ombros, não fossem as paredes ouvir comentários inconvenientes, recolhendo-se a cozinhar esquemas e estratégias para disseminarem a palavra do inseminador de tímpanos.
 
Nota: Segundo o Governo da Nação, inseminador é um técnico qualificado responsável por realizar a inseminação artificial em animais, utilizando um aplicador para introduzir o sémen no útero, sendo que por útero podemos entender diversas reentrâncias na fisionomia humana. Este profissional manipula o aparelho reprodutivo para promover o melhoramento genético do rebanho.

terça-feira, 14 de abril de 2026

ERÍSTICA

Há mais de dois mil anos, um senhor chamado Aristóteles dedicou alguma atenção aos paralogismos, ou seja, argumentos que parecem sê-lo, por oposição aos silogismos. Pretendia ele refutar os sofistas que negociavam uma sabedoria aparente preferindo parecer sábios a sê-lo de facto. Enumerou argumentos, dividindo-os segundo a espécie, desmontou os propósitos de quem polemiza, denunciou falácias, "erros que acompanham a opinião fundada na percepção", enfim, as tretas dos sofistas. Assim mesmo, tretas. Isto foi antes de a sociedade do espectáculo impor as suas regras, as quais já nada têm que ver com a busca da verdade. Parte integrante desta tragédia deprimente, os polígrafos procuram desmentir fake news partindo de uma perspectiva equívoca sobre a realidade: a de que os factos resultam de um jogo com regras claras. Ontem, um homem quis fazer de polígrafo e acabou a fazer a figura triste que sempre fazem os velhos que teimam em não aceitar as novas regras do jogo. O jovem sofista, exímio na exibição de uma sabedoria aparente, lucrou. A razão é óbvia, não lhe interessa minimamente a verdade. Só tem em vista a vitória, seja lá por que meios for. Assim temos, mais uma vez, o espectáculo garantido num canal televisivo cujos investidores esfregam hoje as mãos de contentamento e brindam com Moët & Chandon.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

ANÓDINO

 
Despertado pelo raiar dos motores, Dr. Anódino sentou-se na cama, calçou as pantufas, ergueu-se, correu os estores, mirou o clima e, ao soltar um bocejo involuntário, apressou-se a tapar a boca não fosse alguém vê-lo naqueles modos impróprios de opinião instintiva. Dirigiu-se à casa de banho, baixou as calças, sentou-se na sanita e afrouxou uma bufa contraindo o esfíncter antes de libertar a primeira bolota de fezes. Contraiu bastante, não fosse alguém ouvi-lo naqueles preparos escatológicos. Apesar de viver sem companhia, sempre lhe pareciam as paredes demasiado permeáveis a todo o tipo de sonoridades. Há que estar precavido contra a indiscrição das paredes, pensava. E, depois de pensar, higienizava o sulco interglúteo, antes de se erguer, puxar as calças acima do umbigo, descarregar o autoclismo e aclarar a bacia com o piaçaba. Tinha agora o primeiro dilema do dia a carecer de resolução. Limpada a bacia, reparara em restos de porcaria na escova do piaçaba. O Dr. Anódino cogitou a melhor solução para o seu problema. Esperou que o autoclismo voltasse a encher e descarregou-o uma segunda vez, esperançado que uma segunda descarga expurgasse a escova conspurcada. Infelizmente tal não sucedeu, pelo que não restou ao Dr. Anódino outra hipótese senão ligar o chuveiro e higienizar o piaçaba após consistentes borrifadelas com detergente lava-tudo. Resolvido o dilema, espalhou do mesmo detergente pela base do duche e ligou o chuveiro no máximo para que a base ficasse impecavelmente desinfectada. Finalmente podia lavar os dentes, o que fez antes de entrar no duche e ensaboar o corpo, esfregando bem sovacos, virilhas e espaços interdigitais podais. Aplicou menos intensidade na glande, não fosse alguém entrar de rompante dando com ele a esfregar o pénis. Uma pessoa nunca sabe e o Dr. Anódino era adepto do mais vale prevenir do que remediar. Terminado o duche, secou-se com um toalhão turco, perfumou-se com desodorizante, vestiu-se, calçou-se e só não se penteou porque era careca. Pegou na carteira, no porta-chaves, correu os estores, saiu de casa, não sem antes se certificar de que todas as luzes haviam sido apagadas. O Dr. Anódino preferia o adjectivo plural feminino apagadas ao congénere desligadas. Há que poupar energia, repetia tantas vezes o Dr. Anódino de si para consigo. Ao abandonar o lar, isto é, ao sair de casa, que o lar era parte integrante do Dr. Anódino, nunca o abandonava, cumprimentou com acenos e deu deferentes bons dias a todos os vizinhos com quem se cruzou. Incluindo o gato Trivilhão do vizinhe três cabeças. Repetiu a mesma cordialidade ao entrar no café, ao dirigir-se ao balcão, ao afastar um pires com migalhas e guardanapos de papel amarrotados, ao solicitar um abatanado e meia torrada, ao pagar a conta, ao afastar-se a caminho do trabalho. Fez todo o percurso dividindo o olhar entre o que lhe aparecia pela frente e o chão que pisava, minado de armadilhas diversas tais como restos de lixo humano e dejectos animais. Serviu-se da ponta do nariz adunco como quem se serve de uma bússola. Já uma vez lhe acontecera pisar bosta de cão, foi uma aventura que não pretendia repetir. Até porque não tinha feitio aventureiro. Felizmente, desta feita, nada de inusitado aconteceu. Chegou ao local de trabalho e continuou a distribuir simpatia até ao fim de turno, com pausa para almoço na companhia de um pão sem sal. Foi cumpridor, exemplar, o preferido do patrão com quem nunca ousava a mais pequena discordância. E nestes sucessivos cumprimentos japoneses, a vida corria-lhe como leitos inócuos na direcção de marés inofensivas. A rotina repetia-se e cada novo dia era uma mudança, uma transformação, uma deslocação, uma modificação, uma alteração, uma trasladação para mais do mesmo.