quinta-feira, 16 de julho de 2026

ASAS DE CERA

 
Comecei por tentar dominar a linguagem da pintura. Como um domador de cavalos, fui rapidamente ao chão. Tentei dominar a linguagem da música e fracassei. Depois apliquei-me no domínio da linguagem filosófica, aprendendo ser coisa indómita. Parti para os domínios da poesia e acabei completamente dominada. Acusaram-me de não dominar a linguagem teatral, mal sabendo quão certos estavam. Acabo sempre por ser dominado e sem saber o que cada uma destas linguagens é autonomamente. Uns dizem uma coisa, outros outra, e no labirinto das coisas que se pensam, escrevem, dizem, somos ícaros no dedáleo labirinto de Minotauro. Haverá sempre quem julgue dominar alguma coisa, dominadores dominantes nunca faltaram neste mundo. Os dominadores das linguagens têm asas de cera.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

CONTAR UMA HISTÓRIA

 


Não podemos refalar. Mas reescrever podemos.
Susan Sontag

terça-feira, 14 de julho de 2026

BESTIÁRIO VISIGODO

 
De focinho na ponta da cauda
o leopardus tigrinus asperge com urina
o próprio rastro
para não se perder de si mesmo
nas patéticas digressões empreendidas
no matagal daninho da memória
 
Autor anónimo do século V, Septem Provinciæ.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

COME PALHA

 
Esta noite sonhei que estava sempre a regressar a um restaurante onde havia sido mal servido só para dizer repetidamente que tinha sido mal servido. Ao acordar, reparei que me haviam nascido quatro patas no pensamento. Vá lá que na mesa de cabeceira estavam as "Confissões" de Santo Agostinho para me lembrar que persistir no erro é a mais asinina forma de se ser humano. "Come palha", disse-me o dono do restaurante. Ups, afinal ainda não tinha acordado. Era tudo parte do sonho.

domingo, 12 de julho de 2026

NARCISISMO PÓS-MODERNO

 
Esta noite sonhei que estava a fazer um vídeo de mim próprio enquanto tirava uma selfie a ver-me a um espelho reflectido nas águas paradas de um rio. Acordei com uma fortíssima sensação de enjoo.

sábado, 11 de julho de 2026

DESCOBERTA

 
Descoberta incrível entre milhares de velharias numa feira de Constantinopla, este pergaminho atribuído ao nosso Luís de Camões, escrito, provavelmente, com um olho no burro e outro no cigano, a caminho do degredo em terras orientais:

"Tomei a mais importante decisão da minha vida: a partir de hoje só escreverei poemas curtos e práticos. Vou abrir conta no TikTok e fazer um podcast. Serei o Poeta da Aldeia [Global]. Terei sucesso garantido pelos milhares de visualizações, comentários e partilhas. Aqui vai o primeiro poema:
Queria dizer Amor num verso
Mas Amor era tão grande
Que num só verso não cabia"

sexta-feira, 10 de julho de 2026

POETA-CAMALEÃO

 


FRAGMENTO. ONDE ESTÁ O POETA?

Onde está o Poeta? Mostrem-no! Mostrem-no,
Ó minhas nove Musas! Para que saiba quem é.
É o homem que de outro homem
é semelhante, seja ele Rei,
ou o mais pobre do clã dos mendigos
ou qualquer outra coisa maravilhosa
que se possa ser entre macaco e Platão;
É aquele que, como um pássaro,
águia ou carriça, encontra o caminho
que o leva a todos os instintos; Ele escuta
o Leão a rugir e poderá traduzir
o que tal ávida garganta expressa,
aquele para quem o grito do Tigre
é um som bem definido, soando-lhe
aos ouvidos como língua materna.

John Keats, in Poeta-Camaleão - Uma antologia de John Keats (1795-1821), edição e tradução de Ricardo Marques, Abril de 2026, p. 70.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

PANDEMÓNIO

 
Há décadas a lidar com a ideia peregrina de que ler e escrever, duas actividades interdependentes, não são trabalho, vou escutando cada vez mais frequentemente queixas quanto à iliteracia das gerações mais novas. Vêm de directores disto e daquilo e daqueloutro, provavelmente muitos deles também convencidos de que leitura e escrita são actividades recreativas. Educados sob batuta tecnocrática, os mais novos são garantia de um futuro burrocrático renovado pela inteligência artificial. O digital não combate a burocracia, a burocracia está dentro de nós. O pandemónio está à vista de todos, mas poucos estão disponíveis para atacá-lo na mais básica e fundamental e elementar das soluções. Invista-se na leitura e, por consequência, na escrita, que não sobrevive sem aquela. Dão trabalho e é por isso mesmo que há quem fuja dos livros, mais do que da escrita (para nossa desgraça), como o diabo da cruz. Se a opção for por insistir no menosprezo dessas ferramentas essenciais, pois que podem esperar sentados por quem vos saiba endereçar uma carta, escrever uma notícia, interpretar uma missiva.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

PROJECTORES

 


Desviem a luz dos meus olhos
cortem a electricidade
O meu lugar é na sombra
por detrás dos candeeiros
o mais distante dos holofotes
Que a noite me proteja
de luas e de sóis resplandecentes
Venham nuvens
levem-me convosco para refúgios
de paz e de silêncio
onde nem relâmpagos nem trovoadas
atraiam atenções indesejáveis
Devolvam-me ao útero sossegado
das casas sem nome
dos nomes sem efeito
da respiração anónima das moradas
mais remotas
Devolvam-me ao deserto dos anacoretas
onde aprendi a dizer: vida

terça-feira, 7 de julho de 2026

FUNERAL

Esta noite sonhei que estava num funeral. Ao contrário do costume, fui espreitar as trombas do morto. Digo trombas por ter sido tal como o sonhei, o defunto fora mesmo trombudo em vida, aquele tipo de gente que atravessa o paraíso apontando defeitos à perfeição. Para meu espanto, o trombudo estava sorridente dentro do caixão. E os olhos dele falavam. Finalmente a rir em morto, sozinho, encerrado no interior mais fundo de si mesmo, sem nada nem ninguém que lhe lamentasse a partida, para ali abandonado como animal na berma da estrada, só comigo por perto para lhe espreitar as trombas, o cadáver dizia: aqui é que se está bem. Repetia isto incessantemente: aqui é que se está bem, aqui é que se está bem, aqui é que se está bem. Respondi-lhe “bom proveito” e voltei-lhe as costas, isto é, acordei.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

ÁCIDO

 
Através do cinema, imaginámos uma Roma rendida ao circo, hipnotizada por leões a devorar cristãos e gladiadores que lutavam até à morte. Terá sido assim? Pouco importa hoje sabê-lo quando verificamos, mesmo diante de nós, um povo rendido ao futebol, mais empenhado nos resultados de uma pandilha de multimilionários do que nos seus próprios direitos em matérias de saúde, educação, segurança, habitação, trabalho, justiça. O Império pode ter caído, mas o ácido desoxirribonucleico do Império permanece entre nós.

domingo, 5 de julho de 2026

EPÍSTOLA

 
Escrevo-te para que saibas
quanto a noite continua noite
de madrugada há quem recolha o lixo
pela manhã passeiam-se os cães
no escuro as gaivotas dão descanso ao céu
por vezes chove
o vento nada traz de novo
e o sol repete-se por entre nuvens instáveis
 
Também o que muda se torna rotineiro
e eu entretenho-me a fazer abecedários
de cidades por visitar
de pintores obscuros
de canções antigas
repito os nomes que não quero esquecer
recolho-me em silêncio a desenhar baratas
passo a mão pelo pêlo doméstico das horas vagas
 
Valham-nos os sonhos
em que escapamos a nós próprios
o cemitério d' eus perfilados de génio
as ruas com nome de gente a fazer número
a água que ainda cambaleia entre comas
tu aí deste lado
eu aqui desse lado
 
Tu sabes e por isso te escrevo
a lembrar Inventários de ossos
constelações de pó
o bendito esquecimento que nos abrirá os olhos
a paz
o que importa
cão a lamber caldo entornado
sopas de nódoas na camisa engomada dos dias
 
Escrevo-te para que saibas
ainda há vaga no espectáculo da morte

sábado, 4 de julho de 2026

VIVA A MORTE

 
É imperioso que se morra, são muitas bocas a comer e a máquina de guerra não pode parar. Se parar, o que fazer com tanta ciência? São muitos milhões investidos na tecnologia da morte, na tanatologia mais sofisticada. Há que comandar à distância o drone de alta precisão. Sem ruínas, como garantiremos o futuro da construção civil? E o turismo? O turismo carece de ruínas, a guerra é amiga do turismo, o nosso ganha-pão. Temos de reduzir drasticamente a população mundial. Caso contrário, ninguém sobreviverá. Façamos, portanto, a apologia da morte, da guerra, da ciência a ela associada, a bem do turismo, da construção civil e da medicina avançada. Sem ruína, não há fotografia que nos valha, a arte alimenta-se da ruína. Sem fome, não há desespero. A bem do consolo espiritual, a insatisfação na terra. A tristeza, a melancolia, a aflição são artisticamente inspiradores. E não só. Graças a eles, toda uma indústria farmacológica prospera e as clínicas de psicologia e de psiquiatria crescem como cogumelos para bem da humanidade. A guerra é favorável à humanidade, aos medos que alimentam os mercados, às aflições que dão audiência, os media requerem desastres, não há notícias sem acidentes, provoquemos os acidentes a bem das notícias. Precisamos de mais miséria neste mundo, sem miséria ninguém progride, a miséria é altamente lucrativa a todos os níveis, o êxito vive da miséria como de água vive um corpo, um corpo vivo, um corpo à morte, um corpo cheio de sede, um corpo a atravessar o deserto. Viva a miséria, viva a guerra, viva a morte, viva a ruína. Sem elas, nada feito. É o caos, a estagnação, a pobreza generalizada, o fim do progresso.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

À MARGEM DOS DIAS

 


   Se escrever fosse querer reencontrar esse tempo, ao sair da infância, em que, febrilmente, repetitivamente, procurávamos uma assinatura, experimentando esta e a seguir aquela numa folha de papel: uma assinatura que marcasse para sempre a nossa identidade nesse tempo em que ela era tão incerta. Como assegurá-la senão depois de a ensaiarmos mil vezes, para descobrirmos a nossa assinatura, uma marca que não fosse senão nossa?
   "Persisto e assino": assino a minha persistência. Herdei o meu patrónimo. O meu primeiro nome foi escolhido pelos meus pais. Da minha assinatura sou eu o autor.
   Creio ter sido Jean Paulhan, um tanto por provocação, quem propôs que os livros fossem publicados sem nome de autor. Ninguém aderiu a essa utopia.

J.-B. Pontalis, in À Margem dos Dias, tradução de Miguel Serras Pereira, livros nanook, Companhia das Ilhas, Maio de 2026, p. 25.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O MAESTRO

In memoriam
A.B.W.
 
O maestro preocupa-se com a sola dos sapatos
dirige com o mindinho
tem pé de atleta chato
tropeça amiúde nas micoses
e por isso teme sobretudo
a folha cadente do velho plátano
o pó na passadeira vermelha
dos mosquitos ziguezagueantes
é maestro de mau estro
atonal do pensamento
e bufa pelas narinas
enquanto dirige as próprias gralhas
que em bando esvoaçam alegremente
sobre coros e ensembles