segunda-feira, 2 de março de 2026

ALMOCREVE

 
Grandes colunas de fumo em instalação petrolífera na Arábia Saudita. Base militar inglesa no Chipre atacada por drone suspeito. Aviões americanos despenham-se no Kuwait. Explosões abalam a Arábia Saudita, o Qatar, Emirado Árabes Unidos, Iraque, Bahrein, Omã, Jordânia e Kuwait. Israel ataca Líbano. Manifestações pró-Irão junto às embaixadas americanas no Paquistão e Iraque fazem várias vítimas. Embaixada dos EUA no Kuwait sob ameaça. Dois mortos e 14 feridos em tiroteio no Texas, FBI investiga possível "acto de terrorismo". Depois das depressões Cláudia, Davide, Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta, vem aí a depressão Regina. O Almocreve tem óptimo preço no Lidl. Sigam-me para mais dicas sobre mandar o mundo às favas.

domingo, 1 de março de 2026

OS BONS ASSASSINOS

 
Vem no The Guardian. Como é óbvio, o governo português não vai condenar: "As explosões abalaram a capital iraniana, Teerão, com imagens de satélite a mostrarem extensos danos no complexo residencial do líder supremo do país, o ayatollah Ali Khamenei, embora o seu paradeiro permaneça incerto. Dezenas de alunos terão sido mortos num ataque a uma escola primária no sudeste do país. A comunicação social iraniana reporta 201 mortos e 747 feridos." Se as crianças de Gaza e da Cisjordânia não interessam, que interesse poderão ter as do Irão face ao bom coração do nosso aliado Donald Trump? Obrigado Espanha, obrigado Irlanda, por não me fazerem sentir uma vergonha total e absoluta de ser europeu. Da de ser português já não me livro.

IRAQUE 2.0.

 
Depois da invasão do Iraque, em busca de armas nunca descobertas, e da Ucrânia, para supostamente acabar com viveiros neonazis, voltamos a ter um momento de nós contra eles, como se defender o direito internacional e, sei lá eu, as resoluções da ONU, fosse uma espécie de comprometimento com regimes totalitários, ditaduras, teocracias, tudo o que há de mau neste mundo, excluindo-se, claro está, o sionismo ou o imperialismo norte-americano (este é aliado, os outros são maus). Pois bem, a defesa intransigente do direito internacional, ido pelo esgoto em Gaza, rasgado na Venezuela com o rapto de Maduro, enterrado agora no Irão, não compromete ninguém senão com a defesa da lei. Até o facínora Putin teve cuidados na Ucrânia que os facínoras Trump e Netanyahu não têm tido, porque ninguém lhos exige. Os meus desejos mais profundos são que todos esses facínoras impludam, sejam eles eleitos, nomeados, ayatollahs ou papas da puta que os pariu. Não sendo possível a satisfação dos nossos desejos mais profundos, não me resta senão, enquanto humilde cidadão de uma Europa de cu para o ar, defender o direito internacional, mesmo que isso implique a conservação de regimes execráveis num poder que só a força e organização populares têm legitimidade para derrubar. Dito isto, preparemo-nos para o que o Iraque nos ofereceu: a disseminação de mais terror.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

BONS EXEMPLOS

 
Colonizar é feio. Matar é feio. Raptar é feio. Destruir é feio. Atentar contra a soberania dos estados é feio. Ora, se os EUA e Israel podem fazer estas coisas feias, porque não hão-de poder os outros também? Quando falarmos de política internacional lembremo-nos dos colonatos na Cisjordânia, do assassinato de líderes políticos e civis indefesos, do rapto de Maduro na Venezuela, da política de terra queimada em Gaza... Se os EUA podem, porque não há-de poder a China? Se Israel pode, porque não há-de poder a Federação Russa?

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

SE NÃO ESPALMAR, FICA SOLTO

 


MARTÍRIO DE SANTA ÚRSULA

A flecha foi feita para atingir de longe e a faca, de perto. Levar mais longe a flecha foi inventar as balas minúsculas que saem das espingardas. Talvez um dia a bala vá tão longe e tão rápida que eu possa matar pelas costas quem me quer matar pelas costas. Mas no quadro de Caravaggio o rei dos Hunos acabou agora mesmo de atingir o coração de Santa Úrsula com uma flecha disparada à distância de uma facada. É tão extraordinário que me aproximo para ver mais de perto e o alarme do museu começa a tocar porque atravessei com o nariz a linha proibida de ultrapassar desenhada no chão. E algumas balas de Auguste Blanqui ainda voam desde que foram disparadas, como ele proclamou em Julho de 1830, dando voltas ao mundo até que tenham atingido todos os inimigos da justiça e da felicidade, mas, oh miséria, quase sempre acertando em inocentes.

Miguel Castro Caldas, in Se Não Espalmar, Fica Solto, Edições Tinta-da-china, Maio de 2025, p. 248. Peças de teatro, textos ensaísticos e pérolas como esta compõem um volume que é mais do que uma antologia, é um corpo coeso composto por diferentes géneros ligados pela prática teatral. Como num colectivo em que cada um, feito da sua singularidade, contribui para um desenlace. Belo livro.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NO MEU TEMPO

 
Massacre de Tiananmen, invasão do Kuwait, guerras da Bósnia, Tchetchénia, genocídio no Ruanda, guerra do Kosovo, ataque às Torres Gémeas, guerra no Afeganistão, invasão do Iraque, ISIS, Darfur, no Sudão, guerra civil da Síria, Primavera Árabe, guerra civil Iemenita, invasão da Ucrânia, Gaza, Irão...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

MUSEUS DE OSSOS

 

Vem no Expresso. A fotografia é excelente, a legenda é óptima. E eu fico cheio de ideias. Por exemplo, roubar ossos para os traficar como se fossem um Van Gogh. Ou abrir um museu de ossadas. Ou, numa acção pelo clima, soltar uma matilha de cães esfomeados sobre os ossos. Ou levar alunos de artes em visita de estudo, largar "conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." sobre o chão e dizer: "vá, agora copiem".

REUNIÃO DE TRABALHO

 
o vazio do nada
a nado no vazio
quase pífio
nem isso
apenas oco
um ermo
cheio de oco
antes fosse choco
um ermoco
no choco
uma pavão depenado
uma pena
podia dizer frívolo
podia dizer fútil
nem isso
um deserto
as poeiras do deserto
depois das chuvas
dos tremores
dos diques
uma ventania
e eu pelos ares
no dia seguinte
à procura de mim próprio
sem me encontrar
antes um soco
e era pouco

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

DÚVIDAS

 
Pode o eu desdobrar-se em diversas identidades sem deixar de ser eu? Quando estás fora não estás dentro? E se o observador estiver a ser observado? Como posso eu ver-me a partir do lugar do outro? Se representar para um espelho o meu reflexo é público? Pode a plateia ser a superfície de um espelho? O que quis dizer quando disse: o tempo não passa por si? Ao longo de trinta anos a professora deu sempre aulas a adolescentes de 15. O tempo não passou pelas sucessivas turmas de alunos. Terá passado pela professora? Um actor diz: estou aqui. Onde é o aqui do actor? O autor diz: vou pô-lo ali? Este ali é concebível, mas será alcançável? Uma pessoa desloca-se no espaço deslocando-se no tempo? Uma pessoa desloca-se no tempo deslocando-se no espaço? Agora já foi, o agora está sempre a ir. Para onde foi o agora? Conseguimos apanhar o agora?

TUDO É MUITA COISA

 
Rui Costa sobre Prestianni: "Posso garantir que ele é tudo menos racista." Já Quitéria garante que um dos maiores problemas da humanidade é as pessoas não se darem conta dos disparates que dizem.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ADIANTE

 
Há umas décadas, chateavam-me os reencontros com os comparsas da adolescência por iniciarem as conversas, quase invariavelmente, por um «lembras-te quando estivemos?» Agora, enfadam-me os convívios com gente que já esteve, que também já foi, que já fez. Quanto mais o tempo passa, mais anseio por pessoas com os olhos no futuro. O passado interessa-me, mas para sopesá-lo em solidão. Com os outros prefiro vistas largas, horizontes, adiantes.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

AS AVENTURAS PERDIDAS

 

Estes gestos dantes eram mais frequentes, correspondiam a uma espécie de reconhecimento entre pares cujo principal valor se caracterizava, creio, pelo desinteresse absoluto da distinção. Não conheço o Pedro Correia, como nunca conheci a maioria dos pastores de weblogs com quem fui ou venho interagindo vai fazer 23 anos. Migrados para redes sociais menos insulares e mais ruidosas, os “blogonautas”, para citar o Pedro, metamorfosearam-se com o tempo em perfis, produtores de conteúdos, selfie brothers (ocorreu-me esta agora). Continuo fiel ao weblog, é uma ferramenta de trabalho, para dizer a verdade, um laboratório diário de que não prescindirei enquanto for à borla. É também um arquivo onde vou reencontrando, por via de visitas em massa provocadas por ligações algures situadas, poemas como este Árbol de Diana que verti para português em 2011 e teve na última semana centenas de visualizações:

23

uma olhadela a partir do esgoto
pode ser uma visão do mundo

a revolução consiste em olhar uma rosa
até que os olhos sejam pulverizados

37

para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência


Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)
Versão de HMBF


sábado, 21 de fevereiro de 2026

REVOLUÇÕES

 
Almoço de trabalho no Real Balcão 5. Congeminemos a revolução, mas de estômago reconfortado. A transformação do mundo exige filete de peixe-galo regado com Alvarinho e rematado com uma mousse de chocolate pingada. Primeira nota a pedir conclusão: a política deixou de ser feita pelas pessoas para acabar nas mãos de profissionais, funcionários com direito a sindicato ao abrigo do Código do Trabalho. Anda tudo a tratar da vidinha, o povo, as elites, a burguesia, o clero, a corte tomada de assalto por saloios secretariados & etc. Haja sentido de humor para digerir isto, a despeito da verdadeiramente revolucionária açorda que acompanhava o peixe-galo. Segunda nota a pedir conclusão, ocorrida no decorrer de leituras outras: as revoluções foram sendo sucessivamente adiadas no nosso burgo exíguo porque os revolucionários, isto é, os porta-estandarte da revolução, entre os quais destacamos anarquista e libertários, comunistas e situacionistas, entre outros istas mais ou menos dilatados pela vontade, sempre estiveram demasiadamente empenhados a lerem os livros uns dos outros e a produzirem comentários sobre comentários teóricos, também eles escravos dos papers nas universidades colectivas e partidárias. Nunca no nosso povo houve um ímpeto verdadeiramente revolucionário, o povo foi sempre a reboque, nunca ergueu a forquilha de modo organizado, foi sempre em rebanho atrás desses pastores de ideias sem consequência. Dito isto, venha a aguardente.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

MULHERES AO PALCO

 


   No que diz respeito ao loisir, a morte de Louis XIV põe fim a um período de rigor e austeridade que esmagava o Teatro, inaugurando um tempo de divertissement em que os philosophes têm significativa influência, viz, pela introdução, na comédia, de temas que dão ao RISO uma virtualidade subversiva. 
   Em Londres, a partir de 1660, quando morreu Cromwell (que tinha proibido o Teatro), os ingleses mais affluent (re)descobriram que a frequência dos Teatros podia ser um excelente meio de ocupar alegremente o seu tempo de leisures.
   De resto, Charles II - regressado do seu exílio francês - trouxe consigo um numeroso séquito de comediantes e performers que materializavam a sua paixão pelo Teatro, divulgando-o entre as gentes de todos os quadrantes. Pela primeira vez, as mulheres podiam subir ao palco, e a música, fantasias, e outros adereços extravagantes, florescem, provocando na audience o RISO que desconstrói toda a espécie de authority.

Henrique Garcia Pereira, in Memórias do século XX para a contestação satírica da ordem vigente no século XXI, Companhia das Ilhas, Agosto de 2025, p. 66.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

UM FILME

 

Um filme: Valor Sentimental (2025), Joachim Trier (Noruega, 1974). Será alguma coisa ao Lars von Trier? Belo filme nos ofereceu com um dos actores fetiche do segundo: Stellan Skarsgård. Como fixar o nome do sueco? O mesmo problema com o dinamarquês Mads Mikkelsen. Tudo gente que me tem oferecido horas de infindável deleite. Tão diferente de Cão Preto (2024), do chinês Guan Hu, Valor Sentimental é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. A relação distante entre um pai cineasta e uma filha actriz de teatro, aproximada pela perda no interior de uma casa de família por onde passaram várias gerações. Uma história de família que é mais do que uma história de família, é também metacinema, criação, com o tema do suicídio presente de um modo subtil mas profundo. Tenho de colar este nome à memória: Stellan Skarsgård. Serei capaz?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

SUBSERVIÊNCIA

 

O ponto de partida poderiam ser os dois versos de Almada sobre Camões, o poema de Sophia, a tença, ou as acusações de Joaquim Manuel Magalhães a propósito de Ruy Belo, talvez os lamentos de Tolentino, os esforços de Francisco Rodrigues Lobo ou as sujeições de Camilo, a precariedade eterna do escritor profissional, o que é isso?, os leitores em escala reduzida, os intermediários na produção, a distribuição deficiente, este eterno amadorismo, o mercado do livro a partir do século XVIII, fenómenos de popularidade versus legitimação académica, o Pessoa praticamente desconhecido à hora da morte, entretanto convertido em capa de sabonete, as feiras, os festivais, os saraus e os serões, toda essa parafernália de encontros que desencontram, a monopolização do mercado, as medidas avulsas, as bibliotecas, a míngua, a segunda actividade, a eterna subjugação do ímpeto criativo à necessidade de sobrevivência.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

SELECTIVO

 

Cada vez menos preocupado com as expectativas, esforço-me por responder ao solicitado com o desinteresse de quem segue uma rotina. A capacidade para registar nomes, factos, diminuiu com o tempo, o espaço que sobra à memória fustigada é diminuto. O método passa por não atribuir relevância à maioria das coisas que nos vão acontecendo, àqueles livros que lemos para passar o tempo, aos filmes, às peças, às exposições, a esses milhares de páginas com nomes e títulos que vão pesando, de dia para dia, sobre os ombros curvados de um corpo que se inclina cada vez mais para o chão, apoiando-se nas moletas que são pilares ou faróis inseparáveis. E depois, ouvir-me na boca dos outros nunca me agradou particularmente.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

FRAGMENTO DE UMA PEÇA

 


ALGO OU ALGUÉM (retomando) Desde criança, Marcelo sempre gostou de contar e ouvir histórias. Era a sua parte favorita de conhecer outras pessoas. Que histórias teria para ouvir e descobrir daquela pessoa que estava a começar a conhecer? E como reagiria essa pessoa às suas histórias? Mas começou a perceber que este entusiasmo não era partilhado consigo. As pessoas gostavam de contar as suas histórias, mas nem sempre de ouvir as que MArcelo tinha para contar. Além disso, Marcelo também foi progressivamente reparando num padrão, e notou que, em situações de stress e ansiedade, as pessoas iam sempre ter consigo e desabafavam. E parecia que era o único momento em que se interessavam por ele. Foi num desses dias, enquanto ouvia a história de um recém-conhecido, que um pensamento assolou Marcelo: «Eu sou um candelabro humano.» E esta conclusão deixou-o apavorado e a sentir-se profundamente sozinho. «Eu estou aqui, pronto para ajudar e cuidar des outres, mas sem nunca me perguntarem como estou e o que sinto. Então, só posso ser um candelabro, e a minha função é iluminar a vida das outras pessoas, fazendo algo muito simples - apenas escutar.» Nesse silêncio, e sem a possibilidade de expor às outras pessoas aquilo que sentia e pensava, issos eria algo que ficaria para sempre dentro dele e que um dia o poderia entupir e ter consequências devastadoras; mas, até lá, ele iria apenas escutar. Isso faria com que deixasse de existir? «Se eu sinto, penso, mas não comunico nem mostro nada disto a ninguém. Será que isso significa que deixo de existir?»

Mário Coelho, da peça Tulpa, in PANOS - Palcos Novos Palavras Novas, Teatro Nacional D. Maria II, 2025, p. 59.

PEDRAS NO CAMINHO

O que era para ter sido mas não foi, o que será mas não é, o começado interrompido, o que é para ser assim mas depois era para ser assado, o que faremos mas não concretizamos, o vamos fazer que outros façam, as convocatórias desconvocadas, a suspensão, a eterna e descontinuada suspensão, o diz que disse, eu não disse isso, a truncagem, o desdizer, o adultério, as explicações pela metade, a tresleitura, o cansaço e a saturação trazida pela incapacidade de organização, a interrupção que impede o fluxo do pensamento, que obstaculiza o trânsito que vai da cabeça à mão.