quarta-feira, 18 de maio de 2022

LEVEDURA

 


Levedura

Edições Húmus

Maio de 2022

terça-feira, 17 de maio de 2022

BENEFICIÁRIOS LÍQUIDOS

 


Benificiária líquida da situação
rendo-me à moda metida na cama
Como um bruto sem coração
digo coisas e ninguém reclama
 
Querer a paz é que está mal
tresanda logo a foice e martelo
Neste penico que é Portugal
reina o hipócrita stôr Marcelo
 
Bem o merecem, fiquem com ele
sejam felizes e façam a festa
Eu cá vou ler mais um livrito
para depois dormir uma sesta
 
Quitéria
 
Nota: onde na notícia se lê, com paninhos quentes, situação internacional, leia-se o que o protagonista em causa de facto disse: situação vivida, guerra.


segunda-feira, 16 de maio de 2022

NATOVISION

 


Que se felicite a Ucrânia por esta vitória, está muito bem. Sempre é uma alegria para um povo macerado pela guerra e as pessoas no geral adoram estes gestos paternalistas. Que se atribua aos russos o prémio da "guerra mais brutal e cínica desde a II Grande Guerra", não admira. É a desfaçatez do costume. (Ainda ontem, para me entreter, via um filmezito chamado Barry Seal: Traficante Americano e desatei a rir ao lembrar-me destas declarações. Infelizmente, a tosse travou o riso e tive de ir à casa de banho escarrar.) O que deixa um tipo sem forças neste cenário é a sensação de já estar a viver numa quinta dimensão da alienação mental. A indefensável invasão da Ucrânia pela Federação Russa tem produzido este efeito estranho, percebemos de um modo claro e inequívoco como o espectáculo tomou conta de nós e tudo se processa numa lógica pop que revira, contorce, subverte e volta a inverter velhos valores. O que disto deve ficar registado é simples: 2022, ano em que a OTAN, uma aliança militar, se pronunciou sobre o Festival Eurovisão da Canção. Não quero imaginar a galhofa que será, daqui a cem anos, os historiadores tentarem compreender este nosso tempo. Se ainda houver historiadores daqui a cem anos.

domingo, 15 de maio de 2022

ISTO NÃO É SOBRE FUTEBOL

 
Estou-me nas tintas para a Eurovisão. Por mim até podem dar o prémio ao Agir, à Cuca Roseta ou ao Zé Cabra (Deus o conserve nos hortos a cuidar de alfaces). Já não sou indiferente à participação de Portugal no mundial do Catar, um evento desportivo sobre o qual pesa a escravatura e a morte de milhares de trabalhadores. Ontem, um treinador de futebol dizia não compreender que se falasse mais num rapaz que foi esfaqueado até à morte do que no campeonato por si conquistado. Realmente, o que importa uma vida perdida ao pé de um campeonato conquistado? Esta merda está toda do avesso, é o que vos digo. O mundo é dos hipócritas e dos patifes, contra isso nada há a fazer. O melhor é cuidar do bonsai, ler poemas, ouvir compositores do período barroco.

sábado, 14 de maio de 2022

PRIORIDADES

 
   Hoje acordei com saudades dos tempos em que João Soares ameaçava com bofetadas os colunistas do Público, mas não é disso que quero falar. Tive um sonho. Partilho? Não partilho? A vida agora é esta angústia de hesitação, o receio de melindrar tanta sensibilidade à solta. Como estou doentinho, mas francamente melhor (já tenho sonhos), vossas excelências perdoarão.
   Pois bem, a noite passada sonhei que estava na bicha para pagar as compras do supermercado. Ao olhar para trás, reparei numa velhinha com bengala. Cedi prioridade, mas logo ela me devolveu esgares de reprovação.
   Sou alguma deficiente?, perguntou.
   Nada disso, minha senhora, está na lei, tem prioridade.
   Qual lei?, insistiu.
   Ora, expliquei, a lei do atendimento prioritário. A alinha b prevê que se conceda prioridade a "pessoas idosas com idade igual ou superior a 65 anos e que apresentem evidente alteração ou limitação das funções físicas ou mentais". Fim de citação.
   Está a chamar-me doida? Acha que sou deficiente mental?
   Nada disso, nada disso, peço desculpa, só tentava ser simpático.
   Vá ser simpático para a sua terra. Aposto que é por eu ser preta, não é? Racistas! Não podem ver um preto por trás pensam logo que vão ser roubados.
   Eu nem tinha reparado na tez da mulher, que estava possessa. Queria lá saber se era preta, amarela ou vermelha, só pretendia ser simpático e cidadão exemplar, respeitador da lei. A mulher desviou para a bicha do lado rematando a contenda, deixando atrás de mim uma grávida.
   Pode passar, disse-lhe com um sorriso nos lábios.
   Mas porquê?
   Então, está de esperanças.
   E isso é alguma doença?
   Não, Jesus, mas, mas, mas...
   É verdade que gaguejei, a situação anterior com a velha deixara-me sem resposta, titubeante. A grávida aproximou-se com um dedo em riste e começou a barafustar, enquanto afagava a pança com a outra mão:
    Vocês, homens, são todos iguais, não podem ver uma mulher grávida e pensam logo que somos inferiores, cambada de patriarcado opressor, mas alguém lhe pediu consentimento para passar à frente, deve ter a mania que é o imperador de Roma, mete a prioridade no cu, ó machista do caralho.
   Perdoem-me a linguagem, uma pessoa não tem mão nos sonhos. Nem queria acreditar no que me estava a acontecer. Fiquei mesmo triste. Tão triste que resolvi abandonar a bicha, não fosse aparecer alguém de cadeira de rodas. Quedei-me junto aos gelados, agarrei numa caixa de Cookie Dough Ben & Jerry e desatei a devorá-lo com os próprios dedos. Vai nisto aparece um empregado.
   Ó querido, disse ele, não pode fazer isso.
   O quê?, questionei.
   Aí a lambuzar-se todo, uma pessoa até fica sem ar a vê-lo chupar os dedos dessa maneira.
   O tipo tinha um ar efeminado, mas como não ligo a essas coisas nem o tomei em consideração. Pedi-lhe que me deixasse em paz, quando regressasse à fila pagaria o gelado.
   Fila, qual fila?, questionou-me com semblante a transparecer indignação.
   A fila para pagar, respondi.
   Não se diz fila, amor, diz-se bicha. Tens algum problema com as bichas, ó macho?
   E voltou-me as costas.
   Respirei fundo e meti mais uma dedada de gelado na boca, antes de aproveitar uma caixa sem ninguém na bicha ou fila ou como preferirem e correr para pagar. Nisto, esbarrei num resto de gelado inadvertidamente caído no chão, fui de encontro a um tipo com uma criança de colo, segui sem lhe dirigir palavra, paguei e zarpei. Estava saturado de conversas. Ainda olhei sobre o ombro e reparei no tipo com a criança de colo a falar com o caixa. Acho que falavam de mim, não me pareceu que dissessem coisa boa.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

JÁ NADA ME ESPANTA?

 


As pessoas acreditam que depois de operar todo o tipo de milagres, Jesus foi crucificado, ressuscitou e subiu que nem um foguetão na direcção dos céus. Acreditam que a 13 de Maio de 1917, a Virgem Maria, que em tempos havia engravidado sem dar uma queca, apareceu a três pastorinhos. Portanto, não me espanta que acreditem que Putin vá desnazificar a Ucrânia. Nem que a Ucrânia seja uma democracia liberal com todas as condições para aderir à UE. Espanta-me, porém, que a justiça portuguesa, em pleno século XXI, não considere a Nova Ordem Social um grupo racista. Não é questão de fé, neste caso. E é por isso que me espanta. Um dia destes vamos todos perceber que o racismo não é racista.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

NICOLAU MAQUIAVEL

 

   Maquiavel. Quem foi o homem por detrás do nome que o tempo transformou numa etiqueta, adjectivo de tudo quanto consideramos amoral e ignominioso? Sabemos que nasceu no dia 4 de Maio de 1469 em Florença, terceiro de quatro irmãos. Duas raparigas e dois rapazes foi o que tiveram Bernardo Machiavelli e Bartolomea d’Nelli, progenitores de uma linhagem sem raízes de monta num tempo em que os apelidos pesavam e contavam mais do que hoje seria suposto contarem. «Pigmeus que somos, atacamos gigantes», declarou Nicolau a propósito de uma dessas contendas entre famílias florentinas. O pai chegou a exercer o cargo de jurista, antes de cair em desgraça sob denúncia anónima de bastardia.
   A Itália era um país dividido, partido em cinco principais centros de poder — Veneza, Milão, Florença, os Estados Pontifícios (ou papais) e Nápoles — entregues a casas poderosas que pagavam aos condottieri (mercenários) para serem defendidas e por elas fazerem novas conquistas. Em Florença dominava a oligarquia médiciana, antes de Carlos VIII de França a ter ocupado em 1494 obrigando à fuga de Pedro de Médicis. Maquiavel crescera entre a cidade e o campo, tivera uma educação modesta, mas rodeada de livros. O pai investia nas obras e na sua encadernação grande parte dos poucos rendimentos que auferia, pelo que o jovem Maquiavel se entretinha a fazer cópias de Lucrécio e a transcrever ou resumir peças do teatro latino antigo.
   É importante referir, a despeito da oligarquia governamental então em voga, o papel exercido por Lourenço de Médicis no investimento de uma Florença elevada a centro cultural do mundo, protegendo escritores e artistas, impulsionando a imprensa italiana, contribuindo para um renascimento que preferia voltar-se para a Antiguidade grega e latina, a favor da secularização, em detrimento da escolástica. Lourenço não só acolhia artistas, filósofos e literatos na sua corte, como participava activamente nas discussões e escrevia poesia. Morreu em 1492, sendo sucedido por Pedro.
   A chegada de Carlos VIII a Itália, com um exército de cerca de 40000 homens, e a facilidade com que domina Florença, ofereceu a Maquiavel a visão de um país impreparado para a guerra, fragmentado em cidades-Estado protegidas por condottieri movidos por interesses duvidosos. É o advento da república em Florença, cidade marcada pela presença do dominicano Jerónimo Savonarola. A fama de profeta ganhou-a com visões em que predizia o futuro e o futuro foi-lhe amistoso como defensor da república. Maquiavel não nutria de estima pela figura do padre, como, de resto, não nutria de simpatias pela Igreja no geral, mas reconhecia-lhe a defesa de uma Itália unificada. Considerava-o um manipulador que se adaptava às circunstâncias, inimigo da cultura que procurava reduzir a cinzas com as suas famosas fogueiras de vaidades. Obras de Dante, Boccaccio, Ovídio, Botticelli, eram queimadas nessas esconjurações.
   A morte de Carlos VIII, em Abril de 1498, precipita a morte de Savonarola, no mês seguinte, preso sem resistência, submetido ao suplício da estrapada, enforcado e queimado na praça Signoria, «após ter afirmado que Deus lhe concederia a graça de passar sem ferimentos pelo meio do fogo». O fogo não perdoou. Maquiavel tem quase 30 anos e a sua vida está prestes a sofrer uma inflexão determinante, é surpreendentemente eleito secretário da Segunda Chancelaria de Florença. Começa por exercer o cargo dos assuntos internos, ao qual rapidamente se acumularão responsabilidades nos assuntos externos. A função de diplomata estava na moda e Maquiavel, nunca chegando exactamente a sê-lo, sem qualquer poder de decisão, acabou por ficar ao serviço da república durante 14 anos, correndo o país montado a cavalo, fazendo incursões por França e Alemanha, participando como observador e relator das coisas do mundo. Valeu-lhe a reputação de «homem sério, fiável e competente.»
   O encontro com César Bórgia será igualmente determinante. Filho do papa Alexandre VI, César prescindiu da carreira eclesiástica em favor da vida militar. Era um guerreiro temido pelos adversários, implacável a livrar-se dos inimigos, acabando por ser promovido pelo pai a gonfaloneiro (capitão de milícias profissionais) da Igreja Romana. Tacticista, estratega, começava por ganhar a confiança daqueles que pretendia eliminar para finalmente dizimá-los. Foi nele que Maquiavel encontrou inspiração para alguns dos seus escritos políticos e de doutrina militar, nomeadamente a noção de «aproveitamento da ocasião» ou sentido de oportunidade e a recusa das meias-medidas: «Força e sabedoria são, portanto, o nervo de todos os regimes que alguma vez existiram ou existirão neste mundo.»
   Em 1501, Nicolau Maquiavel casou com Marietta Corsini. Bernardo, o primeiro filho, nasceu dois anos depois. Seguiu-se Lodovico, em 1504, no ano em que Bórgia fugiu para Espanha perseguido pelo sucessor de seu pai: o papa Júlio II. Maquiavel compõe então Decennale primo, uma narrativa em verso dos acontecimentos ocorridos desde a incursão de Carlos VIII até à fuga de César Bórgia.
   Na prossecução do trabalho ao serviço do governo florentino, cruzou-se com Leonardo da Vinci. Tinha-lhe sido encomendada a construção de diques com o propósito de desviar o curso do Arno, a fim de tornar possível a reconquista de Pisa por Florença. Os conflitos continuaram, com avanços e recuos, as tarefas diplomáticas foram ora bem, ora mal sucedidas, e no final de 1510 encontramo-lo a redigir aquela que virá a ser a sua única obra publicada em vida, o diálogo A Arte da Guerra (1521).
   A Arte da Guerra foi um verdadeiro best-seller, com 23 edições no século XVI, objecto de plágios e contrafacções, como à época era comum acontecer às obras de maior sucesso. Dois anos passados, tudo mudou para Maquiavel. Infelizmente para ele, ainda bem para nós. O papa alia-se a Veneza e a Espanha contra os franceses, o governo republicano de Florença cai e os Médicis regressam à cidade. Maquiavel é destituído das funções que ocupava, sendo posteriormente acusado de prevaricação e, já no início de 1513, de conspirar contra os Médicis. Submetido a tortura — «seis rasgões de corda destinados a deslocar-lhe os membros» —, resiste estoicamente: «Quero que os meus tormentos vos dêem pelo menos o prazer de saber que os suportei tão firmemente quanto gosto de mim mesmo e creio ser superior ao que pensava.» Defende-se com poemas junto dos Médicis, escapando assim à prisão perpétua. Juliano ordena-lhe o exílio na residência rural, o domínio de Sant’Andrea in Percussina. Ao mesmo tempo, João é eleito papa com o nome de Leão X.
   É neste clima que Nicolau Maquiavel conceberá aquelas que consideramos hoje as suas obras mais importantes, nomeadamente O Príncipe (dedicado a Lourenço de Médicis), publicado postumamente, em Roma e Florença, no ano de 1532, colocado no Index pelo Vaticano em 1551 e aí permanecendo até 1929. Os Discursos Sobre a Primeira Década de Tito Lívio são também deste período. Alterna a escrita com a caça, partidas de gamão, momentos de isolamento nos bosques a ler Dante, Petrarca, Ovídeo. Nunca perderá a paixão pelos assuntos de Estado, e a eles regressará desempenhando funções menores. O reconhecimento nas letras conhecê-lo-á através do teatro, nomeadamente com as peças A Mandrágora e Clizia: «Tanto no teatro como na reflexão política, Maquiavel deu provas de uma relação ambivalente com a cultura humanista: conhece-a, aprecia-a e inspira-se nela, mas sabe também libertar-se e cultivar com ela uma certa distância.»
  A peça A Mandrágora, de que sobra apenas um manuscrito datado de 1519, terá sido concebida para uma festa ou celebração, granjeando sucesso imediato. Apareceu pela primeira vez em 1518, precisamente na cidade de Florença, sob o título Commedia di Callimaco e Lucrezia, sendo aí apresentada por diversas ocasiões em cenários concebidos por Bastiano da San Gallo e pintados por Andrea del Sarto. Foi igualmente representada em Veneza, Bolonha e Roma. O sucesso foi tal que lhe encomendaram outra peça, tendo assim surgido Clizia. São comédias que Maquiavel aproveita «para beliscar a Igreja, retratando padres ávidos e pouco interessados na virtude dos seus rebanhos.» A actriz Barbara Salutati, que cantava nos entreactos musicais, é a nova amante do autor. Maquiavel volta a ter a aprovação dos Médicis e retoma alguns trabalhos ao serviço da cidade. No entanto, recusa uma proposta para se tornar secretário da república de Ragusa em 1521. Florença falava mais alto, mesmo que em funções mais baixas.
   Alexandre e Hipólito de Médicis assistem à representação de Clizia na propriedade de Jacopo Falconetti. As pazes com a família todo-poderosa de Florença estão feitas e em 1525 parte para Roma com a missão de apresentar a Clemente VII A História de Florença que lhe haviam encomendado. É o historiógrafo oficial da cidade. «Ao relatar a sua missão junto dos monges franciscanos de Carpi, pôde declarar a Francesco Guicciardini, não sem alguma fanfarronice, que se tornou mestre na arte da mentira: «Há muito tempo que nunca digo o que creio e nunca creio no que digo, e se por vezes me escapa algum pingo de verdade, escondo-o debaixo de tantas mentiras que é difícil de a encontrar.»
   É assim Maquiavel, astuto e hábil, observador nato das circunstâncias e crítico acérrimo da Igreja, corajoso e, sem dúvida alguma, de convicções fortes, entre as quais a de que uma Itália unificada, capaz de fazer frente aos invasores, só seria possível com um exército de homens que lutassem mais por devoção à liberdade do que pelo dinheiro. Morreu em 1527, com 58 anos, de dores de barriga causadas por um medicamento. «Os seus últimos discursos, se é permitido acreditá-lo, foram da última impiedade. Dizia que preferia estar no Inferno com Sócrates, Alcibíades, César, Pompeu e os outros grandes homens da Antiguidade, que no Céu com os fundadores do cristianismo.»

A partir de Marie Gaille-Nikodimov, Maquiavel, tradução de Pedro Elói Duarte, Edições 70, Outubro de 2008.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

PEDRO ADÃO ISSILVA

A precariedade
em muitas situações
não é um mal absoluto
 
O próprio mal
em muitas situações
não é um mal absoluto
 
Males absolutos
só conhecemos dois:
morrerem as vacas
ficarem os bois
 
Quitéria

Пригнобленим слава!

 
(…) «A PEC chama ainda a atenção para a actual situação que se vive na guerra da Faixa de Gaza, destacando a necessidade de discutir o problema do acesso da imprensa às zonas de conflito e recorda o facto de "Israel ter impedido os jornalistas não residentes de entrarem em Gaza durante as três semanas que durou o conflito". Quatro jornalistas perderam a vida durante a ofensiva israelita…» (Diário de Notícias, 4 de Fevereiro de 2009) «Desde o início dos últimos confrontos em Gaza já morreram três jornalistas palestinianos.» (Público, 22 de Novembro de 2012) «Desde que Israel deu início à operação militar na Faixa de Gaza, em 8 de julho, nove jornalistas já foram mortos cobrindo bombardeios na região.» (Portal Imprensa, 31 de Julho de 2014) «Gaza: jornalista morre durante desmantelamento de míssil» (TVI24CNN Portugal, 13 de Agosto de 2014) «Jornalista palestino morre ao cobrir protesto na fronteira entre Israel e Gaza» (Folha de S. Paulo, 7 de Abril de 2018) «Israel derruba 3º prédio de empresas jornalísticas em Gaza...» (Poder 360, 15 de Maio de 2021) «Haia recebe queixa contra Israel por ataques sistemáticos a jornalistas» (Memo, 28 de Abril de 2022) «Jornalista da Al Jazeera morre em operação israelita na Cisjordânia» (RTP, 11 de Maio de 2022) (…)
 
Quem verá esta publicação? Quem viu as que estão lá para baixo sobre o Pegasus? Assuntos sem importância, algoritmados em favor do esclarecimento universal e da democracia entre os povos.

terça-feira, 10 de maio de 2022

IVÃ VI & ISABEL

 


   As intrigas da corte, as invejas dos príncipes estrangeiros que cercam a regente [Ana], o descontentamento permanente da aristocracia e a cobiça de outros estrangeiros da intimidade de Isabel Petrovna, filha de Catarina I, dão a esta princesa ocasião de fazer vingar um golpe de Estado. Seguiram-se as brutalidades e perseguições clássicas, tendo apenas escapado a elas um dignitário escocês, que à pergunta feita ao seu lealismo respondeu: «estou com quem estiver no poder». A nova soberana deixou que todos os perseguidos sofressem o terror da pena de morte, já decretada, transformando-a depois em degredo perpétuo. Isabel mandou demonstrar os seus direitos como herdeira de Pedro Grande, ao trono da Rússia, não se esquecendo todavia do filho de Ana Leopoldovna [irmã da Imperatriz Ana], o pequeno Ivan.
   Foi esta sombra, que a encheu de terror, a causa principal da sua bárbara perseguição a toda a família Lopukhine. Uma mulher desta família causava também engulhos de inveja feminina à espectaculosa imperatriz. Um dia que ela apareceu com uma rosa nos cabelos como a imperatriz — esta obriga-a a ajoelhar em público, corta a rosa com os cabelos que a seguravam e esbofeteia a elegante Lopukhine. Mais tarde envolveu os parentes desta em suspeitas de conjura, e estes, depois de convenientemente torturados, foram condenados ao esquartejamento e língua cortada. A Lopukhine teve a língua cortada, que o carrasco mostrou-a à multidão cruel e sôfrega. Esta venceu o suplício e pôde ainda acompanhar o seu marido, barbaramente chicoteado, para o degredo na Sibéria. Isabel, passando dum amante para outro, ostentava uma corte luxuosa no meio do jogo, das danças e das mascaradas, que lhe serviam para o exibicionismo de uma plástica de que era extremamente ciosa. O seu reinado é de luxo e elegância, e a aristocracia planetária deste astro ostenta o mesmo luxo. Tudo isto é, no entanto, falso e exterior: qualquer coisa que lembra uma decadência do fim, embora não seja mais que uma mascarada de civilização. Memórias da época contam-nos episódios que parecem da Roma de Juvenal. Uma Galitzine diz a um amigo que a visita: «Como gosto de vos ver! Chove, é impossível sair, meu marido não está, aborreço-me de morte. Nem sabia o que havia de fazer: ia agora, para me distrair, mandar chicotear os meus criados.»
   O luxo das classes aristocráticas custava muito dinheiro, e isto levava os funcionários à mais escandalosa venalidade e à venda ou hipoteca dos servos. No entanto, algumas guerras felizes foram feitas no tempo de Isabel. Venceu a Suécia; entrou a Rússia na Guerra dos Sete Anos e derrotou a Alemanha, chegando a Berlim a despeito de claras e evidentes traições dos generais e do próprio grão-duque, que Isabel destinava ao trono da Rússia. Isabel, de acordo com Frederico II da Prússia, resolveu casar o grão-duque herdeiro com a princesa Sofia Frederica Anhalt. A despeito da oposição de alguns dos seus homens de confiança e até, por causa do próximo parentesco dos cônjuges, do esforço da Igreja, o casamento realizou-se, porque, como dizia Frederico II, não se tinha poupado o dinheiro. Pedro, o herdeiro, era fisicamente disforme e moralmente degenerado. Sua esposa Sofia, a futura grande Catarina, encontrou-o um dia a julgar um rato, que tinha deitado a terra as sentinelas duma fortaleza de cartão com que Pedro se divertia. Julgou-o e condenou-o à forca, executando ele mesmo a sentença. Um tal Saltikow, confidente de PEdro, parece ter tido interesse pessoal, dadas as suas prováveis relações com a futura Catarina, em resolver o problema da pretendida impossibilidade genética do grão-duque. Com efeito ele mandou aconselhar à imperatriz Isabel uma operação, que tornaria o grão-duque um homem apto a poder arranjar sucessão. Este mandou um dia de presente à imperatriz a prova das suas possibilidades e do retardado cumprimento dos seus deveres conjugais.

Leonardo Coimbra, in A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre (1935). Pedro, o GrandeCatarina Primeira e Pedro II, Ana.

CORDAS VOCAIS

 

Perante o objecto várias hipóteses se colocam: o silêncio talvez seja a mais avisada, a descrição é inútil, a interpretação resulta de uma invenção que de algum modo atraiçoa o objecto. Mas interpretar não é propriamente inventar o que não está, é antes criar sobre o que está. Tomemos de exemplo este trabalho de José Maria Bustorff, outrora Jochen Maria Bustorff, da exposição intitulada «José Afonso, seus amigos e outras telas de intervenção» (Pombal, Fevereiro-Maio de 2022).O que salta à vista, desde logo nas margens, são representações de personalidades políticas contemporâneas mais ou menos identificáveis: Bashar al-Assad, Erdoğan, Benjamin Netanyahu e António Guterres do lado esquerdo; Putin, Ali Khamenei, Papa Francisco e Abu Musab al-Zarqawi do lado direito. Repare-se no modo como a composição adopta a disposição do conjunto, quatro telas organizadas porventura à laia de pontos cardeais. Tanto os homens do oeste como os de este têm o dedo indicador levantado e hirto, não como quem pede para falar, mas como quem acusa ou impõe uma posição. Aviso? Advertência? Ameaça? A excepção é Guterres, que, com as duas mãos erguidas e um rosto suplicante, parece mendigar ponderação, ou talvez união onde a regra é desunir. São figuras de um tempo histórico concreto. Daqui a uns séculos deixarão de ter nome, cairão no esquecimento, o que as define é a posição das mãos e os trajes de político ou de líder religioso. Qualquer pessoa saberá identificar nelas representações possíveis do poder. Depois há os aviões militares, a verde, como varejeiras, o helicóptero, blindados, a força dos exércitos concentrada a norte, sobrevoando o povo anónimo disposto a sul. O cenário é de guerra, de conflito, de angústia, de confusão. A ausência de vermelho cor de sangue demove qualquer tipo de propósito sensacionalista. O fundo é ocre como o dos mapas demográficos, tudo gira em torno daquela citação central de “O grito”, de Edvard Munch. Mas o que mais me atingiu neste trabalho não foi nada do que acabei de descrever fugaz e toscamente, o que mais me impressionou foi a concentração de branco em torno do grito, da figura indígena a lembrar, pelas formas, uma das mulheres de Gauguin, do recém-nascido no berçário. Afastando-me, esse branco forma como que dois pulmões. E aí eu vejo o sistema respiratório da humanidade atacado por vírus, vejo uma radiografia do tórax planetário e as manchas que aparecem nos pulmões transformam-se em indicadores de tumores cancerígenos. Isto que eu vejo está lá sem estar, resulta da minha interpretação, é um modo de ver que acrescenta à obra realizada um pouco de nós. O silêncio talvez fosse a hipótese mais avisada. Ou talvez não. O próprio quadro, a composição, curiosa e paradoxalmente, é também ele/ela uma invenção sobre o criado. No fundo, o que neste trabalho surge representado é a razão de ser do grito, o motivo do desespero, a raiz da angústia. Nesse sentido, a expressividade é talvez a sua maior força. Como se tivesse entrado pela boca de quem grita e, chegando à garganta, compreendesse os motivos que agitam com tamanha energia as cordas vocais do desespero.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

É SÓ HISTÓRIA


 
Conferência de Yalta (Crimeia). Foi em Fevereiro. Em Maio, a Alemanha nazi claudicou. Em Setembro deu-se a rendição do Japão. Por mais ágil que seja o contorcionismo histórico, é indiscutível o papel fundamental da União Soviética no chamado Dia da Vitória da Europa. Por isso é que Estaline aparece na fotografia, não é por outra razão. Com o que a URSS já não teve nada que ver foi com as bombas atómicas de Hiroxima e Nagasaki, largadas pelos EUA a 6 e 9 de Agosto de 1945. Isso é legado exclusivamente americano. Isto é História, não é tomar partido por A ou B, não é branquear X ou Y.

domingo, 8 de maio de 2022

FODER NA LOMBARDIA

 


   «Quanto a mim, chegado aqui há alguns dias, já não vendo de tanta abstinência, encontrei uma velha que me lavava as camisas e que vivia numa casa meio enterrada, onde a luz só entrava pela porta. Como passava por lá um dia, pediu-me que entrasse por um momento, pois queria mostrar-me umas belas camisas, para o caso de eu as querer comprar. Então, como um idiota, fui na conversa. Entrei e vi na luz fraca uma mulher com uma toalha na cabeça e no rosto, feita estúpida e enrolada num canto. A velha marafona segurou-me pela mão e conduziu-me até ela: "Aqui está a camisa que lhe quero vender, mas experimente-a primeiro, depois logo paga." Tímido como sou, fiquei completamente apavorado. Todavia, sozinho com ela no escuro (porque a velha saíra logo e fechara a porta), para despachar, fodi-a uma vez. Apesar de lhe ter achado as coxas moles, o sexo húmido e o hálito empestado, o meu desejo era tão forte que gozei.» Ao descobrir a sua fealdade — os cabelos brancos e raros, corpo enrugado e cara deformada, a baba a escorre-lhe da boca desdentada, etc., Maquiavel concluiu a sua narrativa com a esperança de que Deus lhe poupasse o «desprazer» de ter novamente «de foder» na Lombardia. 

Niccolò Machiavelli, numa carta a Luigi Guicciardini, datada de 8 de Dezembro de 1509. Citado por Marie Gaille-Nikodimov, in Maquiavel, Edições 70, Outubro de 2008, pp. 11-12.

O LADO CERTO

 
Se te perguntarem
qual o lado certo
da história
não hesites:
 
ou o de baixo
ou o de fora.
 
Todos os demais
são incertos
quando não estão
totalmente errados.
 
Quitéria

sábado, 7 de maio de 2022

MERCY (1995)

 


Ter revisto Paris, Texas levou-me de novo a eles. Não por terem alguma coisa que ver com o filme de Wim Wenders, mas apenas pela coincidente referência ao deserto de Mojave. E por sentir uma saudade imensa do deserto, o vazio estendido diante de nós como lençol na cama por fazer. Estou infectado. Apareceram ontem os primeiros sintomas, nada de grave. Fiz o que ditam as regras, isolei-me a ler e a ouvir música. Nada mau. Pior é o palato esbatido e a energia desmaiada. O mundo fica assim protegido da minha presença, pelo menos durante uma semana. Não contagio ninguém com a doença que me traz os pulmões atados à tristeza mesquinha de quem insiste em procurar sentido para o absurdo. Tenho andado de um lado para o outro, a esmo, com um pé no abismo e outro na joi de vivre. Quantas vezes se repete em mim a palavra loucura? Fico parvo a olhar para as ocorrências, duas filhas a crescer, livros que ninguém lê sucedendo-se, uma pilha de lixo acumulado, terras herdadas que nunca pisei, duas casas pelas quais nem um tostão investi, o amor trocado pela cómoda em que se arrumam retratos, fotografias, passados, um cansaço tremendo de cativo de mim mesmo não conseguir sair de mim. Tento olhar as coisas à minha volta como se nelas não jazessem os meus olhos. Atingem-me as interpretações que faço do que vejo e sinto como dardos a trespassarem um corpo morto. É-me insuportável a facilidade com que as pessoas saltam de uma crise para a outra sem nem um dedo sujarem nos problemas que as afectam, pelo que me isolo e asilo na doença pedindo misericórdia a um deus que nunca me convenceu.

ANA

 


   A vida da corte passa-se em divertimentos cómicos, de mistura com a crueldade e o sadismo orgiástico duma imperatriz dissoluta. As melhores famílias da Rússia fornecem bobos para a corte, que a imperatriz aprecia, fustigando-os e condecorando-os, obrigando-os a lutas sangrentas: aperitivo para as suas orgias eróticas. A imperatriz teve um dia um estranho capricho. Comunicou a um dos seus bobos, um príncipe Galitzine, que o ia casar. Mandou construir no Neva uma casa feita de sólidos blocos com gelo, com um quarto de cama todo mobilado com gelo — cama, cortinados, cobertões, lençóis e travesseiros.
   Todos os povos do império foram convidados para o festim nupcial. O casamento foi na Igreja; e, depois, um grotesco cortejo, com colaboração de bois, cavalos, bodes, porcos, etc., acompanhou os noivis ao palácio do duque de Curlândia, onde foi servido um banquete. O poeta obsceno Trediakovsky, a quem a imperatriz fazia ler de joelhos diante dela poesias eróticas, leu uma composição comemorativa. À tarde o cortejo acompanhou os noivos ao seu palácio de gelo, onde estes foram obrigados a passar a noite, impedidos de sair por sentinelas militares, de vigia às portas. A esta extravagante senhora sucedeu como regente sua sobrinha Ana, que ela fizera casar à sua vontade contra todas as tendência do seu coração. A segunda Ana, esbofeteada por sua tia, tivera de aceitar não só o casamento mas até o cumprimento de todos os deveres conjugais. Esta, feita regente, chama o seu amante e tenta casá-lo com uma amiga, que lho ponha à disposição. Todo o seu governo é ligado à sua vida de amante e a política exterior é descurada, apesar dum encontro feliz com a Suécia.

Leonardo Coimbra, in A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre (1935). Pedro, o Grande, Catarina Primeira e Pedro II.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

HOMEM ELEFANTE DO ROSSIO

 


Proletários da agiotagem de todo o mundo, uni-vos! Exigei masturbódromos municipais!
Miguel Martin, Cirrose, Fenda, 2003.
 
Às voltas com leituras várias, dou com uma referência ao "homem elefante do Rossio" num livro do Miguel Martins (próximo convidado a dizer 33, na sala estúdio do Teatro da Rainha, dia 17 de Maio). Que será feito do "homem elefante" português? Habituei-me a vê-lo no Rossio, pedinte de rosto deformado, mão estendida a causar impressão. Confesso que me deixava desconfortável. Não tenho como escapar a isso. Fiquei curioso e pesquisei, dando com notícia da morte a 17/12/2021:
 
"Morreu José Mestre, o 'homem sem rosto' que era conhecido de quem vivia em Lisboa nos anos 80 e 90, por circular na zona do Rossio, na Baixa."
 
Ninguém por aí acusou a perda, esta atracção da baixa lisboeta não mereceu encómios nem referências. Ao contrário de outros "mitos urbanos", José Mestre, o homem que tinha o rosto desfigurado por um tumor de 5 quilos, passou despercebido na morte como não passava em vida. Merecido silêncio. Chegou a ser operado nos states, tema de documentário no Discovery. Tinha uma irmã que cuidava dele. Morreu.

CATARINA, A PRIMEIRA

 


   Pedro-o-Grande morre, não deixando testamento, nem indicação de sucessor. Ele tinha coroado a sua «Katarinucha» e é ela que lhe vai suceder; assentando-se no trono de todas as Rússias esta aventureira adúltera. O seu governo é insignificante, fazendo-se apenas alguns actos que, em inércia, vinham já de Pedro-o-Grande, como, por exemplo, a inauguração da Academia das Ciências. O cómico assenta-se por momentos no trono imperial com a vinda da família da imperatriz. Um dos seus irmãos, antigo sapateiro, é feito conde, bem como outro, um antigo servo. Os modos de toda esta gente cobrem de ridículo a corte da Rússia.
   Mas os deboches da imperatriz conseguem exceder todas as vergonhas da família. Embriaga-se todas as noites até que a madrugada a leva, cheia de baixo cio animal, para a cama com o amante «da ordem da noite». A indignação cresce e ela faz nomear herdeiro, Pedro, o neto do grande imperador e filho do desgraçado Aléxis (interrogado e torturado pelo próprio pai, obrigado a renunciar aos seus direitos ao trono, acusado de conspiração). 


Pedro II sucede a Catarina I... e é no seu governo que o grande amigo de Pedro-o-Grande e antigo amante de «Katainucha», o pdoeroso Menchikof, é, com toda a família, desterrado para a morte fatal da Sibéria. Os áulicos, os Dolgorukyi, conseguem trazer o imperador para Moscovo, assinalando assim um protesto contra a política petroviana, e resolvem casá-lo com sua irmã. Esta, que amava um secretário da embaixada da Áustria, é obrigada a ir a uma caçada do imperador. Depois dum bem dirigido repasto, é a princesa deixada a sós, pelos irmãos, com o imperador. Este, caído no laço, compromete-se a reabilitar a honra da princesa Dolgorukyi, casando com ela.
   Pouco depois do casamento agoniza. Os Dolgorukyi falsificam um testamento que não conseguem fazer assinar ao moribundo. Quando este morre, Ivan Dolgorukyi corre pelo palácio de espada em punho gritando: Viva a imperatriz Catarina. Ninguém lhe responde e fica vago o trono da Rússia. «O Conselho Supremo» escolhe, na família de Pedro Grande, a princesa Ana da Curlândia, na esperança de poder impor condições, que alarguem o poder dos nobres. De facto esta Ana assina tudo o que lhe pedem e aceita o poder . A nobreza da província, temendo o domínio do Conselho, pede-lhe que aceite o poder autocrático — o que ela faz rasgando as condições que assinara. Ana quisera trazer o seu amante, que ela tinha casado com uma amiga complacente. A oposição dos Dolgorukyi custou mais tarde a Ivan o esquartejamento, a seus tios e outro Dolgorukyi a decapitação; a outro Dolgorukyi foi cortada a língua e a bela viúva de Pedro II foi enclausurada num convento. Ana mudou de novo a capital para Petersburgo, indo com a nova corte dos seus parentes e amigos — os Buhrren, os Munnich, os Loewenwold, etc, etc.

Leonardo Coimbra, in A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre (1935). 

quinta-feira, 5 de maio de 2022

UM POEMA DE AMADEU PATISTA

 


Sabemos bem que vamos morrer,
Tudo está certo e tudo é incerto.
Quanto mais me debruço para ti
O que parece errado mais parece certo.

A terra cheira a terra, o Outono
Confirma a verdade que sabíamos de cor
Desde o início, as marés e as ondas
Cumprem os ciclos e mantêm-se

As verdades eternas e as suas crispações.
Hoje viemos à falésia, amanhã
Voltaremos à busca incessante do norte

Magnético que nos aproxima. Pouco importa
Quem somos ou se vamos morrer.
O amor que existiu perdura para sempre.

Amadeu Baptista, in Luz Possível, volta d'mar, Novembro de 2021, p. 35.

THIS BEAUTIFUL DISEASE (1996)

 


Ardem-me os olhos e não é de sonos mal passados nem de álcoois ou tristezas, ardem-me de cansaços antigos. Fui ver o que era feito dele, o rapaz que dava pelo nome de Baby Bird. Quando eu era feliz, ele aparecia muito nas capas dos jornais. Depois desapareceu. Terei alguma vez sido feliz? Quantas vezes merece alguém ser feliz durante o percurso de uma vida? Pouco descobri sobre esse que escreveu centenas de canções de um dia para outro, mas aquilo só tinha interesse em gravações rudimentares. Quando passou para um estúdio em condições perdeu a graça, o sucesso matou-o. Dedicou-se à escrita, é o que fazem as pessoas cuja graça se perdeu num fugaz momento de fama. Levava-o comigo para todo o lado e ontem aconteceu levá-lo novamente quando, a caminho de um café, bati com o nariz na porta fechada, contornei o prédio e entrei pelas traseiras reivindicando o tinto e a sandes de presunto a que tinha direito. Já nada me liga àquele sangue. Vim para casa a pensar nisso mesmo, sem remorsos. As coisas são como são, tortas. Não vale a pena o esforço de tentar endireitá-las. À noite, os cafés enchem-se de gente aos berros sobre televisões ligadas num qualquer canal desportivo. Os homens falam demasiado alto, aparentemente tolhidos por uma embriaguez que é só vontade de dar nas vistas. Elas servem-lhes sorrisos perscrutados por uma tristeza comezinha retocada ao espelho da casa de banho. Eles têm barrigas grávidas de excessos e desperdícios, prazeres arrotados para dissimular sentidos. Perdem demasiado tempo com piadas sem piada alguma, armados em brutos como se fosse necessário fingir aquilo que naturalmente se é. Ardem-me os olhos de cansaços antigos, doença bela espalhando-se pela alma, atingindo o corpo, corroendo o espírito que obriga a óculos de sol na noite mais escura. Talvez uns minutos a mais no banho possam adiar esta morte.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

[HÁ POETAS ASSIM]

 


Há poetas assim,
uns gramas de aletria, fina e doce,
traficados como se fossem cocaína pura.
Alimento energético, é certo,
adequado ao passo de galope
com que esperam chegar a algum lado
e, ao mesmo tempo, agradável ao olfacto
de quem nunca suou, nem sequer a foder.
 
Massa e açúcar, como disse, muito,
mas também o leitinho da infância,
um toque exótico a canela do Ceilão
e o ingrediente secreto,
que pode ser qualquer coisa
e dizem as más-línguas que é apenas
uma irreprimível vontade de parecer interessante.
 
Sim, há poemas que só se assemelham
ao remate perfeito de uma consoada vulgar,
antes de cada um regressar a casa,
maldizer a família e dar início
à gestação de umas saudades nobres,
que aguardarão um ano pela matança.
 
Melhor dizendo, parecem-se com tudo
menos com poesia, essa grainha
de uva alojada na cárie de um molar,
que há que suportar só com morte interior,
porque essas coisas acontecem sempre
quando todos os dentistas se mascaram de renas
e vão passar uns dias à puta que os pariu.
 
Miguel Martins  (n. 1969), in Do Lado de Fora (Abysmo, Outubro de 2021). Formado em Antropologia, começou por nos surpreender com um livro onde somos deslocados para Moçambique em busca do rastro desaparecido de um poeta obscuro que dá pelo nome de Mariano Gracias. Muhípiti (Erasmus, 1997) é obra “transgénero”, repleta de curiosidades e com a indicação clara de um gosto irreparável pelo desconhecido, pelo marginal, por existências cumpridas à margem de honrarias, estrelato, foguetório de salão: «a única dignidade é ser pobre à grande e à francesa» (p. 10). Mais facilmente encontrarão neste autor taberneiros, putas e vagabundos, do que letrados canónicos, embora ele não prescinda de grandes temas tais como o amor ou a morte, abordados, lá está, sem pinga de solenidade, conforme ditam as regras do estado de alma que os produz, tolhido por vezes por «beberragens espúrias» (p. 22), noutras em diapasão intimista, com ternura ou melancolia, desesperadamente visceral como o suicida momentos antes do tiro fatal. Miguel Martins já publicava desde os finais da década de 1980, embora o primeiro poema viesse a aparecer apenas em 1991, pela mão de Emanuel Félix, no defunto jornal “A União”, da Ilha Terceira. Disso mesmo somos informados numa nota apensa a Do Lado de Fora, volume em que o disperso se reúne e conjuga numa poesia em verso solto e despreocupado, tantas vezes espontâneo, aqui e acolá trabalhado no metro e na rima, com o quotidiano em pano de fundo à maneira de um Assis Pacheco em que pressentimos ser a poesia lavagem a seco da alma. Outro verbo seria desimportantizar, mas Alexandre O’Neill já lhe deu uso. É uma poesia semeada nessas terras áridas da des-ilusão, isto é, como quem tem presente e não afasta a mosca do desperdício que é a vida se não for para vivê-la. À maneira de Ruy Belo, estes poemas surgem de uma vontade que o autor tem de viver para se matar (a viver? a escrever? não vai dar ao mesmo nestes casos?): «Morramos com os olhos no futuro / estúpidos como sempre» (p. 21). Tudo isto é acidental. O poema impõe-se no caos dos dias, motivado por acasos que fazem dos versos acidentes inofensivos como lanhos: «Não há verso que leia ou reescreva / que se distinga de um golpe ao barbear-me» (p. 26). Ainda assim, sangram.