Escuro. A luz sobe muito
lentamente sobre uma figura central. A pouco e pouco, apercebemo-nos de uma
mulher idosa em cena, sentada numa poltrona grená, a segurar um búzio junto a
um dos ouvidos. Ao lado da poltrona, repousa uma cana de pesca.
Que me dizes, velho
companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que
as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos
de longe?
26 de Janeiro de 2021. Não
recordo há quanto longe minha mãe morreu.
Esqueci-me do som da sua
voz. Guardas a voz de minha mãe?
Mal a compreendo no
reflexo das águas do meu tempo, parece-me tudo tão vago, não há um único
contorno definido, definitivo.
A mulher pousa o búzio no
chão. Pega na cana de pesca e lança o fio na direcção do público.
Mãe, onde estavas quando
eu morri?
Ouviste-me gritar
enquanto me vestiam aquelas roupas idiotas e pediam que posasse para a
fotografia com um crucifixo nas mãos? Terás escutado as minhas preces?
O padre Armando dizia:
com dois pais nossos e três avé-marias isso passa.
Ajoelhei-me logo ali, à
saída do confessionário, e rezei na esperança de que me ouvisses. Mas tu não
ouviste, estavas demasiado atenta aos pormenores para que pudesses ouvir-me.
O fio da cana de pesca
treme.
O quê?
Quem és tu que mordeste o
isco invisível das minhas dores?
Desculpa, mãe, tu não
tens culpa pelas minhas culpas.
És tu, peixe da minha
infância?
A mulher gira a manivela,
olha o anzol, sorri.
Vês mãe, continuas sob o
reflexo das águas, invisível como sempre. Não há meio de morderes o isco.
Seremos o isco do tempo,
mãe?
Eu rezo, eu oro, suplico,
imploro: olha para mim.
Volta a lançar o fio na
direcção do público.
Só queria que olhasses
para mim, não que olhasses por mim, bastava-me que olhasses para mim. E que
visses, que dissesses qualquer coisa, que por um momento te aproximasses
medindo as bainhas das avé-marias e dos pais-nossos com que era suposto
limparmos o corpo.
Ouves-me no reflexo das
águas?
Vês-me no silêncio dos
búzios?
Voltei-me para o mar à
espera de ser salva por um naufrágio, de uma baleia que me engolisse e
vomitasse, de um silêncio que me calasse. Agora estou velha, não digo coisa com
coisa, não penso coisa com coisa, não faço coisa com coisa. Tenho a tua
ausência dentro de mim e o homem de saias continua a dizer-me: reza que isso
passa.
E eu rezo, mas não passa,
não há meio de passar.
O fio da cana de pesca
treme. A mulher gira a manivela, observa o anzol, sorri.
Nada.
Ninguém.
A mulher morde o isco,
gira a manivela, tenta pescar-se a si mesma. Gira a manivela sem parar, luta
consigo própria, puxa-se, resiste a si mesma, cospe o isco, larga a cana,
senta-se exausta. Acalma a respiração. Passa algum tempo em silêncio. Volta a
pegar no búzio, retomando a posição inicial.
Que me dizes, velho
companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que
as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos
de longe?
Já não me recordo há
quanto longe morri.
Esqueci-me da cor da
minha voz. Esqueci-me do som da minha pele.
Guardas a pele de minha
mãe?
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
Podes repetir?
Eu rezo e não passa.