domingo, 1 de novembro de 2026

ATÉ QUANDO?

 
A mando de um ministro acossado, os cães de fila são atiçados e atiram-se às presas indefesas. Há gente detida, há feridos, mas, ao contrário do que vemos por essa Europa fora, não por incendiarem as ruas, saquearem lojas ou atirarem pedras. Em Portugal, os detidos cantam, dançam, dormem, rezam, fazem uso de um direito que a Constituição da República Portuguesa consagra. Mas como ninguém quer saber da Constituição para nada, nomeadamente o inócuo Presidente da República e os seus sucessivos pedidos de esclarecimento, a polícia avança a mando de um ministro suspeito de várias práticas, essas sim, merecedoras de bastonadas. As televisões por ali andam com seus directos, sempre na ânsia do confronto que garante audiências, porque em casa e nos cafés há muita gente a salivar colada aos televisores. O sensacionalismo afoga bocas atónitas. Este governo acabou, já nada justifica que se mantenha. As acções policiais dos últimos dias e a política que as vem legitimando não têm qualquer justificação sustentável. A partir daqui, será sempre a crescer. O povo vai encher praças e ruas, vejamos até quando quedará sereno. É que provocações não têm faltado, na AR, nas redacções por onde passeiam os mesmos da AR, a ânsia pelo cheiro a napalm pela manhã é evidente. Há imensa gente desejosa de confrontos sérios que permitam depois justificar o injustificável, cargas policiais sobre manifestantes indefesos. Vimos isso há uns anos valentes nos protestos na ponte 25 de Abril, com consequências em 1994 que não queremos ver repetidas em 2026. Até quando o povo resistirá? Até quando?

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A HISTÓRIA EM LOOP

 

Há muito que vem sendo denunciada e debatida a participação de polícias em grupos de extrema-direita ou as ligações a partidos políticos, por vias diversas, ideologicamente próximos dessas organizações declaradamente simpatizantes do nazismo e do fascismo, recentemente celebrado, em claro desrespeito da Constituição da República Portuguesa, num festival levado a cabo na Póvoa de Varzim. Não é claro para um cidadão minimamente informado qual a actuação da lei e da ordem nestes casos. O artigo 46.º, n.º 4, da CRP estabelece que "não são consentidas associações que perfilhem a ideologia fascista". O que é feito aos polícias que infringem a Constituição? Quantos elementos das forças policiais foram afastados por pertencerem a tais grupos? Qual o papel de um partido político como o Chega na legitimação destas infracções? Quem faz cumprir a lei? Diz-se que “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”, mas nestes casos a honestidade foi mesmo rasurada da equação. Não há honestidade alguma onde a hipocrisia passou a ser regra e norma. As multas a condutores solidários com as manifestações são mais uma provocação germinada no terreno da hipocrisia que há muito vem sendo lavrado por esses a quem chamam populistas mas, na verdade, são mesmo herdeiros do pior dos fascismos e nazismos que a Europa conheceu há um século. A História está em loop.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

ORIGINAL: ESQUECER

 

Terminada a tertúlia, um amigo aproximou-se e devolveu-me um original escrito há 27 anos. Confiei-lho então, e agora, passados estes anos, regressou às minhas mãos repleto de notas e sublinhados. Já não me lembrava sequer de o ter escrito, o que apenas vem reforçar esta ideia antiga de que é para isso mesmo que escrevo: esquecer.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

TERRORISMO OFICIAL

 
Foi detido o rapaz que numa manifestação apontou a residência de Montenegro como bom alvo para um tijolo. Na AR, um deputado com cara de pólipo no cu, apelou à violência policial sobre manifestantes, discriminados, no discurso do pólipo, como "feios, porcos e maus" por não vestirem segundo os parâmetros do senhor deputado, por não cheirarem como o senhor deputado gosta, por não usarem um rego anal na cabeça como o senhor deputado usa. O rapazola do tijolo é detido, o rapazola deputado que discrimina e apela ao ódio sobre seres humanos é aplaudido pelos energúmenos do costume. Para a direita, a protecção da propriedade privada sempre se sobrepôs à protecção dos seres humanos. Há coisas que nunca mudam.

domingo, 25 de outubro de 2026

UNS E OS OUTROS

 
Tó Zé está a pensar na melhor forma de incluir a palavra robótica numa intervenção sobre os acontecimentos da noite passada. Montenegro não viu nada, estava com a família no Casino de Espinho a assistir ao espectáculo do Baião. Adorou. As noras também. Ventura discute com o staff as próximas produções para o TikTok, talvez de pernas e braços abertos, à laia de Van Damme, entre polícias e manifestantes. Tresandando a álcool, Tânia Laranjo queixa-se do cheiro a ganza no Rossio. Rita Maria exige fraldários para meninos e para meninas. Leitão Amaro está a fazer um reel com as mãos na cabeça. Luís Neves vai transformar em jacuzzi a piscina que já foi tanque para que os portugueses finalmente percebam o que é um elevador social. Carlos Abreu Amorim devora croissants de chocolate barrados com manteiga enquanto assiste ao relato da partida entre PSP e arruaceiros. Paulo Núncio juntou-se numa picaria àquele rapaz do Chega com cara de fiambre. Pedro Pinto fez de boi. Nuno Melo lamenta as lamentáveis lamentações dos jovens lamechas que não se alistam no exército para recuperar Olivença. Há casamatas para todos. Nas televisões, os comentadores comentam. Na rua, os sem-abrigo passam frio. No escritório, a banca lucra, as seguradoras lucram, as gasolineiras lucram, a especulação imobiliária lucra.

sábado, 24 de outubro de 2026

VARIANTES

 
As variantes incontroláveis: o que os outros vêem, o que os outros dizem, os outros, o que dentro de nós germina, o que em nós repousa recalcado e lá do fundo emerge e determina gestos, decisões precipitadas, abismos tentadores, os terramotos, os incêndios, os acidentes, as intempéries, os fenómenos extremos que deixam tudo em ruínas, a passagem do tempo nos corpos desapaixonados, a dor repisada dos dias, aqueles que partem ou se afastam sem deixar rastro, a morte súbita, mas também o instante comovente que faz valer a vida inteira, a meteorologia da sombra interior para a sombra exterior, ataques de que somos alvo imprevisível, o indeterminável dilema da consciência perdida nos labirintos da frustração, decifrem, a cinza que cai sobre a página deixando elegíveis as palavras mais espontâneas, o amor que fenece como as plantas por regar, etc.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A FALTA QUE NOS FAZEM OS FRANCESES

 
A malta que anda na rua de microfone em riste e câmara de filmar ao ombro tem dado provas suficientes do ridículo a que submeteu a sua profissão. Dos terríveis tremores de terra que afugentam gatos à procissão do refluxo gastroesofágico, do CR7 em debandada ao contentor a arder, são inúmeros os exemplos recentes desta ânsia pelo espectacular, da ávida busca do epifenómeno sensacionalista que mete toda a gente e mais um par de periquitos a debater o sexo dos anjos. Uma pessoa desprevenida que olhe para as televisões julgará que o sismo de 1755 foi brincadeira de crianças quando comparado com o que está a acontecer neste país das helenas matos e dos zé manéis fernandes. Eu cá tenho opinião diferente, acho que devíamos ser mais espanhóis e menos osórios, acho que devíamos ser mais franceses e menos tinocos, acho que somos mesmo um país de poetas... da cidade. E que falta nos fazem Brites de Almeida, mondadeiras e povinhos para quem o respeitinho não fosse esta porra triste de conchinhas no Rossio e fiambres no Parlamento e botas-de-elástico nas televisões.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

50 x 49

 


Quem nos sobra? Agora que todos partiram, quem resta para cantar as nossas mágoas e paixões, alegrias e tristezas, coisas que a boca não se atreveria a enunciar? Quem anda por aí que ainda mereça encómios à hora da despedida? Vem de tempos distantes este rapaz com guitarra a tiracolo, com Etelvina pela mão e o coro de velhas a divertir um primeiro dia que resume a vida inteira. Não é certo que tenha começado a ouvir esta voz e as palavras nesta voz com maturidade suficiente para a entender, mas algo semeado foi crescendo com o tempo. As pessoas, isto é, quem elas são, como se comportam, interessam-me cada vez menos, mas o fruto da criação ainda me convence de alguma maneira, ainda me comove. Nesses anos 80 em que era eu um petiz imberbe de galochas a caminho da escola, com o walkman à cintura como um coldre de cowboy, ouvia o que mais ninguém ouvia e dizia: isto é mesmo bom. Mas à minha volta ninguém ligava àquelas BASF vindas sei lá eu de onde, andava tudo no hard rock indigente de que nada sobra. Quem nos sobra? Sobram-nos estas palavras escritas como quem retrata os dias, um modo de cantar em língua portuguesa diferente de tudo o mais, por vezes dizendo como que cantando porque as palavras aqui têm uma relevância fulcral. A música também, claro, os arranjos, claro, e tudo isso sendo renovado com o passar das décadas que aproximou o cantautor da pop, do rock, do hip-hop e de outras modernices programadas que a tecnologia imprimiu nas nossas vidas. Ainda assim, sempre as palavras, este rapaz de palavras que tanto canta Camões como O’Neill ou Rimbaud. Já devem andar por aí arquivados, à espera de ver a luz, os necrológios que a morte desperta, tenho a certeza de que já andam por aí desfilando elogios. Eu lembro-me do homem detido no Brasil, a polémica que foi, e como isso me despertou para as certezas do meu mais brilhante amor. Era uma vez um rapaz, creio ter sido a porta aberta para esta companhia ininterrupta. Ainda ponderei o divórcio, mas as palavras falaram sempre mais alto. São poderosas as palavras.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

PRECONCEITO

 
Chamavam-lhe preconceituoso, mas ele sempre dizia: «onde há padres não se pode ter fé, onde há polícia ninguém está seguro.»

terça-feira, 20 de outubro de 2026

PAREDES DA ALMA

 
Está visto que o bicho tricéfalo já comeu a cabeça do artista estelar, com sua musa melancólica a dar calinadas no português poético. Todos tão ágeis a censurar a falta de competências técnicas, revelam-se à vez pobres de espírito sem lugar no reino dos céus. Lá não se curtem epidermes, lê-se nas entrelinhas, o que não sabem fazer por falta de concentração. Observamos, no entanto, a condescendência para com o lixo reciclado da linguagem, tudo tão medianamente à medida de uns e de outros, todos por igual, sem excepção. Que fazer quando o génio autoproclamado dos imbecis cresceu sem espelhos nas paredes da alma?

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

IDADES

 
Velhos que se comportam como crianças mimadas, cinquentões com atitudes adolescentes, jovens que nascem já velhos. Qual a idade mais adequada para sermos quem somos?

domingo, 18 de outubro de 2026

O FIM DO MUNDO

 
O fim do mundo será a nossa salvação
nenhuma fome restará para comer
nenhuma doença, nenhuma dor
nem uma palavra para contar pelos dedos
o alfabeto irrespirável dos mortos

Apenas um pássaro de asas partidas
cantará pousado num galho de ferro
adejando com o pio terras devastadas
cordilheiras d' ossos à sombra dos abutres

sábado, 17 de outubro de 2026

BOTAS-DE-ELÁSTICO

 
Vou usar uma expressão que não aprecio particularmente para descrever um sonho que tive esta noite, a expressão bota-de-elástico. O sonho é simples, sonhei com uma manada de botas-de-elástico a pastarem num vasto campo de golf. É verdade, em vez de prado tínhamos um golf course, em vez de gado tínhamos botas-de-elástico. Acontece que a tudo isto assistia eu como se estivesse a ver televisão, ou seja, a televisão era um golf course onde apascentava uma manada de botas-de-elástico. O mais impressionante é que eu sabia o nome das cabeças de gado, isto é, das botas-de-elástico, e chamava-as pelo nome como se fosse pastor ou coisa que o valha. Ali, a vaca Helena Matagal, acolá, o cabrão Miguel Morgadinho, além, a cabra Helena Ferro Enferrujado de Gouveia, adiante, o boi Josué Manuel Fernandes, uma manada diversa de botas-de-elástico a pastarem num campo de golf chamado TV.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

BOLSA DE FINADOS

 
Quando tudo é campeonato, quando tudo é submetido à lógica competitiva, dos números de seguidores aos concursos de casados, dos campeonatos de poesia às maratonas festivaleiras, damos conta do calcanhar de Aquiles em que a humanidade inteira se transformou. A vida enquanto game show, jogo de azar, concurso público, tabuleiro sem peças, a vida raspadinha aí está diante de nós com seus rankings de mérito e felicidade. O Império capitalista ganhou, não há refúgio que nos valha, a toxicidade concorrencial infiltrou-se até onde a julgávamos abolida, no amor, na amizade, na liberdade. É para aí um ver se te avias de campeões, de heróis e giovannis, que uma pessoa até tem medo, tal o gigantismo dos egos exacerbados e a proliferação de génio. Vamos todos finar burros que nem portas, mas só alguns carregados de medalhas e condecorações e taças e bicicletas. Pobres goghs, kafkas, pessoas, pobres de todos esses que em vida passaram ao lado dos pódios atravessando em último as metas do sucesso. Está para breve a substituição do baptismo pelo chip dos campeões. Se é para nascer, que seja para os primeiros lugares na bolsa de finados.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O HOMEM DA FLOR NA BOCA

 


(...)

E era isto que era de demonstrar, está a ver? Com provas e exemplos contínuos, a nós próprios, implacavelmente. Porque, caro senhor, nós não sabemos de que coisa é feito, mas é que, é que, todos o sentimos aqui, como um nó na garganta, o sabor da vida, sempre insatisfeita, que nunca se pode satisfazer, porque a vida, no próprio acto de a vivermos, é assim, sempre ávida de si mesma, não se deixa saborear. O saber está no passado, que permanece vivo cá dentro. O gosto da vida vem-nos daí, das recordações que nos têm amarrados. Mas amarrados a quê? A esta sensaboria aqui... a este tédio... a tantas estúpidas ilusões... insípidas ocupações... Sim, sim. Isto que agora, aqui, é uma sensaboria... isto que agora é para nós uma desventura, uma verdadeira desventura... sim senhor, à distância de quatro, cinco, dez anos, quem sabe que sabor terá tomado... que gosto, estas lágrimas... E a vida, santo Deus, só o pensar em perdê-la... especialmente quando se sabe que é uma questão de dias...

(...)

Luigi Pirandello, in O Homem da Flor na Boca seguido de Sonho (mas talvez não), tradução e prefácio de Isabel Lopes e Fernando Mora Ramos, Cotovia/Teatro Nacional S. João, 1998, p. 29.