Não deixa de ser impressionante a agilidade, a eficácia, a ligeireza, elegância e coordenação motora, aquele pragmatismo que só pode vir da prática, enfim o desembaraço de Melania Trump a ajoelhar-se debaixo da mesa.
antologia do esquecimento
domingo, 26 de abril de 2026
DOS AFUNDANÇOS SENSUAIS
Não deixa de ser impressionante a agilidade, a eficácia, a ligeireza, elegância e coordenação motora, aquele pragmatismo que só pode vir da prática, enfim o desembaraço de Melania Trump a ajoelhar-se debaixo da mesa.
sábado, 25 de abril de 2026
VESTIDOS
Quitéria comenta os vestidos. O da Carla: com um vestido preto nunca me comprometo. O da Margarida: de vermelho e de cravo, mando às favas o pato-bravo.
sexta-feira, 24 de abril de 2026
APOSTAS
terça-feira, 21 de abril de 2026
ESTAR ON
Em “Fahrenheit 451” os bombeiros ateiam fogos em vez de os combaterem, cães-polícia de metal patrulham as ruas, a felicidade é obrigatória, há pílulas e comprimidos para todos os gostos, os espectadores representam papéis em falta nas peças servidas à la carte e nos cafés as jukeboxes foram substituídas por joke-boxes. Não andamos longe desta alegria obrigatória, a despeito de horas intermináveis de trágica realidade. O Instagram, a mais bem-disposta de todas as redes sociais, não nos oferece senão esse mundo satisfeito dos abraços, das flores, da boa gastronomia, da cor, do amor, mesmo que depois as mesmas pessoas que são todas sorrisos no Instagram vão para o X despejar o ódio que as consome e passem pelo Facebook para partilhar um pensamento profundo e paradoxal do tipo “perco-me de me encontrar” ou “o mundo é uma folha sem avesso” ou “como é negra a luz que ilumina a noite clara”, etc. Para além disto, de facto e de jure, a realidade é um comboio de frases feitas, cumprimentos furtivos, uma sucessão de concessões para, enfim, evitar chatices, sim senhor, porque cá vamos indo com a cabeça entre as orelhas e eu já não estou para me chatear. Quem vier atrás, que fecha a porta. Estou ligado.
segunda-feira, 20 de abril de 2026
A/C DOS JORNALISTAS PORTUGUESES
domingo, 19 de abril de 2026
25 DE ABRIL SEMPRE
Ao longo de dezassete capítulos compostos por vários textos com vozes narrativas diversas, percorrem-se três gerações que vão da luta na clandestinidade até às comemorações do cinquentenário da chamada Revolução dos Cravos. Cada texto é a peça de um puzzle labiríntico que captura o leitor pela desmontagem das lógicas de pensamento mais convencionais, estabelecendo-se ligações inesperadas e entrelaçando percursos, porque tudo se liga através de uma História comum, a despeito das mais paradoxais leituras que essa História inspire. «O fim da História, se assim quiseres, acontecerá no preciso momento em que a roupa se tornar supérflua, essa pretensão que pomos sobre o quê para sermos quem», escreve-se a páginas 233. E o leitor continua até à página 490 fisgando os dentes às pontas soltas para «desnovelar, desnovelar...»
sábado, 18 de abril de 2026
SOBRETRAIR
Equação do intriguista: Dividir para reinar. Multiplicar problemas. Somar amarguras. Subtrair, isto é, sobretrair.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
MURMÚRIO CICIANTE
quinta-feira, 16 de abril de 2026
CRISTINAS
quarta-feira, 15 de abril de 2026
INSEMINADOR
De palito na boca, atravessa a cena a ranger os dentes na direcção dos bastidores. Tivesse sido eu a criar o mundo, palestrou, onde está um círculo estaria um triângulo, onde está um quadrado estaria um rectângulo, onde está um hexágono estaria um paralelograma. E assim sucessivamente. Atentos como discípulos a ouvir mestres, secretários a concordar com ministros, acólitos persignados em bicha para o beija-mão, todos os vigilantes emprenhavam pelos ouvidos as teses e as teorias do palitado palestrante. Depois, seguiam eles mesmos pelos corredores a cochichar por cima dos ombros, não fossem as paredes ouvir comentários inconvenientes, recolhendo-se a cozinhar esquemas e estratégias para disseminarem a palavra do inseminador de tímpanos.
terça-feira, 14 de abril de 2026
ERÍSTICA
Há mais de dois mil anos, um senhor chamado Aristóteles dedicou alguma atenção aos paralogismos, ou seja, argumentos que parecem sê-lo, por oposição aos silogismos. Pretendia ele refutar os sofistas que negociavam uma sabedoria aparente preferindo parecer sábios a sê-lo de facto. Enumerou argumentos, dividindo-os segundo a espécie, desmontou os propósitos de quem polemiza, denunciou falácias, "erros que acompanham a opinião fundada na percepção", enfim, as tretas dos sofistas. Assim mesmo, tretas. Isto foi antes de a sociedade do espectáculo impor as suas regras, as quais já nada têm que ver com a busca da verdade. Parte integrante desta tragédia deprimente, os polígrafos procuram desmentir fake news partindo de uma perspectiva equívoca sobre a realidade: a de que os factos resultam de um jogo com regras claras. Ontem, um homem quis fazer de polígrafo e acabou a fazer a figura triste que sempre fazem os velhos que teimam em não aceitar as novas regras do jogo. O jovem sofista, exímio na exibição de uma sabedoria aparente, lucrou. A razão é óbvia, não lhe interessa minimamente a verdade. Só tem em vista a vitória, seja lá por que meios for. Assim temos, mais uma vez, o espectáculo garantido num canal televisivo cujos investidores esfregam hoje as mãos de contentamento e brindam com Moët & Chandon.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
ANÓDINO
domingo, 12 de abril de 2026
KAMA SUTRA
Um dos aspectos interessantes no Kama Sutra, curioso livro de instruções que o Ocidente reduziu ao ilustrativo fetichista, é o modo como "a arte de amar" também não prescinde da táctica e da estratégia. Os termos surgem ocasionalmente, explícita ou implicitamente, sendo magistralmente tratados nos capítulos dedicados aos eunucos e às cortesãs, neste caso com especial clarividência nos processos de ganhar dinheiro com um amante. Nos antípodas da ética kantiana, o Kama Sutra é mais honesto ao propor acções por dever interesseiro, isto é, as que assumem o lucro enquanto fim. Em vez de um amor desinteressado - porventura idealista -, temos todo um conjunto de meios ao serviço do prazer sexual. Se te queres desembaraçar de um amante, toma lá 28 artimanhas. Usa uma ou todas à vez. O dever é, deste modo, acompanhado pelas conveniências, o que faz desta uma filosofia verdadeiramente "humana, demasiado humana", genuína, protegendo-nos pela clareza da hipocrisia a que estamos condenados quando sacrificamos as acções a um ideal de pureza que em lado nenhum se vislumbra.
sábado, 11 de abril de 2026
MÉTODO ÚTIL À REFUTAÇÃO
sexta-feira, 10 de abril de 2026
SHIJING - CANCIONEIRO CHINÊS
O Shijing debruça-se sobre a realidade social de há três mil a dois mil e quinhentos anos, em várias perspectivas diferentes, sendo um material muito precioso para o estudo da antiga sociedade chinesa. Através da temática dos seus poemas, podemos reconstruir a vida social, o sistema económico e produtivo, assim como alguns acontecimentos históricos importantes. Os seus temas, muito diversos, falavam do trabalho do povo, amor, sofrimento, fome, jornadas longe de casa ao serviço do estado, guerra, queixas e lutas contra a exploração, vida desafortunada das mulheres abandonadas pelo seu namorado, sátiras políticas, críticas e descontentamento face à injustiça e corrupção.»
Shijing - Cancioneiro Chinês, visto numa perspectiva ocidental, tradução e comentários dos alunos do Curso de Chinês I, coordenação de Zhang Weimin, com desenhos de João Lemos, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Junho de 2000, p. 11.

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