quinta-feira, 9 de abril de 2026

CARTA BRANCA

 
Israel tem carta branca para matar. A Organização das Nações Unidas nada consegue contra, a União Europeia nem pia, os Estados Unidos da América apoiam, os países árabes olham sobre o ombro dos Estados Unidos da América, África e América do Sul não contam, Coreia do Norte cala-se, China cala-se, Federação Russa mata na Ucrânia, o Japão cala-se, o mundo de joelhos legitima Benjamin Netanyahu como um inimputável que pode cometer os crimes que lhe apetecer. Israel tem carta branca para matar. Nem a Palestina nem o Líbano interessam, podem desaparecer, milhares e milhares de pessoas a morrer, outras a sofrer, o mundo a assistir. Israel a matar.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

CONTAGEM DECRESCENTE

 
Diz Manuel Cardoso no Expresso:

"A CNN, a SIC Notícias e a NOW, durante toda a emissão de terça-feira, optaram por exibir um cronómetro em contagem decrescente que culminava no fim do prazo que Trump tinha dado ao Irão para reabrir o estreito de Ormuz. Aparentemente, o conflito atual em que se tomam decisões mais destrutivas é a guerra de audiências. Para competir com uma noite de Champions, os diretores de informação decidiram pôr no ar um contrarrelógio para o momento em que podiam ser lançadas armas nucleares. O telespectador ficou indeciso entre ver o Arsenal e ver o arsenal. Apesar de tudo, o canal de notícias da Media Livre perdeu a oportunidade de reforçar ainda mais o dramatismo: podia ter alterado, durante 24 horas, o seu nome para Apocalipse NOW."

O Manuel é humorista e isto não tem piada, é mero relato do que se passou, não é caricatural, é verdadeiro, é um retrato fiel da absoluta miséria em que estamos atolados. Felizmente, entre teatro, exposições, instalações e performances, escapei do pântano e passei ao lado do fim do mundo. Que já foi, porque o mundo era composto de seres humanos. Restam simulacros.

PARALELISMO

 
António José Seguro é a versão José Tolentino Mendonça do socialismo. Filosofia política da Quitéria.

domingo, 5 de abril de 2026

UMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS (EMANCIPADAS) DE PEDRO OOM

 


AS 20 HISTÓRIAS DA AVOZINHA

   O menino Zeca gostava muito de ouvir as histórias que a avozinha lhe contava.
   Mas chegou um dia em que, quando a avó tinha começado a contar uma das suas histórias, o Zequinha interrompeu-a e disse:
   «Esse conto não, avozinha, já ouvi, é o do Lobo Mau.»
   A avozinha começou a contar outra história mas o Zequinha voltou a interromper:
   «Essa também já conheço, avozinha, é a do macaco sem rabo.»
   E a avozinha foi começando a contar outras histórias mas sempre o Zequinha ia dizendo:
   «Essa não, já conheço, avozinha, conte outra.»
   A avozinha, que era analfabeta e só tinha aprendido a contar pelos dedos, contou dez dedos das mãos e dez dedos dos pés e nessa altura viu que já tinha contado ao netinho todas as histórias que sabia.
   Então a avozinha disse ao netinho:
   «Olha, Zequinha, já não sei mais nenhuma história, pede ao teu pai que tas conte.»
   Mas o pai do Zequinha não sabia nenhuma história porque era uma vítima de «Talidomida» que tinha nascido sem braços e sem pernas.
   E as histórias do Zequinha ficaram por aqui.


NOTA DO AUTOR: Nós que somos do tempo em que a «Escola era risonha e franca» e não existia ainda o Ensino Básico obrigatório, e que igualmente só aprendemos a contar pelos dedos, nunca tendo conseguir preencher por completo os dedos das mãos e dos pés com qualquer espécie de contos (de Reis ou de Fadas), também resolvemos ficar por aqui.
   Até porque acreditamos não existir, sequer, meia-dúzia de crianças verdadeiramente emancipadas no mundo inteiro.

Pedro Oom, in Actuação Escrita 1, &etc, 1980, p. 103.

sábado, 4 de abril de 2026

ENJEITADOS

 
"Filhos de todos... Filhos de quem?", exposição na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa dedicada aos enjeitados, bebés deixados na roda por razões várias. Os sinais impressionam, objectos simples de uma singularidade comovente, um sapatinho, uma pulseira, um casaco de malha, fitinhas com nomes e datas de nascimento, a identidade revelada como uma raiz cerceada pela miséria que levava ao abandono. Uma fotografia comovente de um tal Joaquim, rebaptizado Esdras pelo Hospital dos Expostos. Cresceu com uma outra menina nas mesmas condições, acabando ambos por casar. Sabina, de seu nome, morreu jovem, mas Esdras nunca mais se deixou fotografar sem ter junto a si a fotografia da mulher com quem iniciou a vida na roda dos enjeitados. Talvez fosse filho do Visconde de Alcobaça ou do Rei D. Luís I, portugueses de bem. Enjeitados, expostos, na roda.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

SANTA-RITA

 
Os jornais informam que Artemis II completa o primeiro dia da sua missão lunar da NASA. Ao lado, uma fotografia de Gaza em cinzas. Na Terra. Visito o Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, seguido de uma cerveja àCapela. Lugar curioso, este requintado complexo de obras de arte onde fui dar com um Santa-Rita. A tuberculose levou-o deste mundo ainda não tinha completado 29 primaveras. Colaborou nas revistas Orpheu e Portugal Futurista, órgãos da vanguarda que desbravou o caminho do Modernismo português. Antes de morrer, Guilherme de Santa-Rita, conhecido por Santa-Rita Pintor, ordenou que todos os seus quadros fossem queimados. Acabou este numa galeria de um Hotel de cinco estrelas. Chama-se "Orfeu nos infernos" (1909). Nem de propósito. Noutra galeria, um trabalho em vídeo do espanhol Carlos Aires. Dois agentes do corpo de intervenção dançam tango num salão aristocrático. Depois de “Color is Dangerous”, da Pipilotti Rist, deve ser das coisas mais marcantes em vídeo que vi até hoje. Entre missões lunares, galerias de arte em hotéis de luxo, capelas convertidas em bares, as cinzas de Gaza não me saem da cabeça.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

VHS

 
Regresso à Fábrica Braço de Prata numa deambulação de salas com término nas gravações caseiras de um tal Mario Perez. Cubano exilado em Nova Iorque, segundo o curador deste Cinema Invisível. Sinto certa resistência em chamar-lhe cinema, são imagens perdidas entre o fetichismo e o narcisismo de quem perspectiva o mundo através de uma lente. Arquivo pessoal em VHS, retalhado por alguém que terá construído uma linha narrativa ou cronológica infiel à espontaneidade do próprio registo. Documento eventualmente interessante sobre a cena gay nova-iorquina num determinado período, anos de 1990 para diante, mas que pouco mais tem a oferecer. Ocorrem-me as minhas próprias gravações, horas de fita engavetadas em múltiplas cassetes que, muito provavelmente, nunca mais voltarei a usar. Tenho de me desfazer daquilo tudo, não deixar rastro de nada, queimar o que julgava relevante e por isso registei. Passados todos estes anos, constata-se nada haver ali que faça alguma falta ao mundo. O ideal será sair de mansinho. Noutra sala, tocava-se jazz. Reconheci o Resende ao piano e o Frazão na bateria, entre três jovens músicos que não fiquei para ouvir. Isolada numa mesa, uma jovem branca com penteado afro bebia sozinha uma garrafa de vinho. Eis um retrato do que realmente faz falta ao mundo. Terá alguém registado aquele momento? 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

DIA DAS MENTIRAS

 
A notícia é de 31 de Março: Três quartos dos trabalhadores do setor afirmam ter vivido situações de assédio moral e metade de assédio sexual, conclui estudo apresentado pelo projeto MUDA – Assédio nas Artes. DGArtes, ACT e sindicato do setor já tinham conhecimento do fenómeno, mas desconheciam a sua dimensão. Infelizmente, escaparam-me o debate, as manifestações de indignação, as denúncias corajosas, as reflexões, os posts... Numa rede onde tudo é objecto de acesa discussão, sobre isto um silêncio embaraçoso. Não percebo porquê. É uma notícia importante, desmistificadora, porque generaliza a pulhice, demonstra, como outras antes desta, a inexistência de paraísos na Terra. Entre humanos, sejam eles vates do amor, trovadores ou comediantes, pintores apaixonados, bailarinos esvoaçantes ou cineastas sensíveis, enfim, vigora a humanidade e a sua mais básica lei: comam-se uns aos outros, devorem-se em matilha, explorem-se, dêem aos tiranetes que trazem dentro os prazeres do poder, a manipulação, a intriga, o abuso, a violência psicológica, quando não física, usem-se e abusem-se, mas com respeito e doses calculadas de hipocrisia. Era assim no tempo de Maquiavel, não melhorou. Desconfio até que a tendência seja para piorar, a despeito das leis e dos decretos que não protegem os homens dos homens. Não havendo uma base humanista na educação, e ela está cada vez menos presente onde as relações são toldadas pela obsessão do sucesso e pelas lógicas competitivas do capitalismo mais selvagem, faltando essa base humanista que nos educa a olhar para o outro como um ser humano e não como uma máquina de produzir resultados, então tudo falha e a ética, os valores, a moral subsumem-se sob a lei do mais forte, que é a das bestas. Mais ou menos ardilosos, é neste covil de lobos que estamos enfiados. Vingam os insensíveis, a hypokrités (que, se bem sei, quer dizer actor, aquele que dissimula, o que usa máscara).

terça-feira, 31 de março de 2026

[CANÇÃO DE BATER NO CHÃO]

Nasce o sol trabalhamos
Põe-se o sol descansamos.
Cavamos um poço para beber,
Lavramos um campo, p'ra comer:
O Imperador e o seu poder
- Queremos lá saber!

Anónimo, c -1000?. Versão de Gil de Carvalho, in Uma Antologia de Poesia Chinesa. Nota: «Serviria aos camponeses mais velhos - batendo no chão - para marcar o tempo, segundo outros tratar-se-ia de um instrumento musical em barro no qual se batia - rang.» TPC: Reler o Shijing - Livro dos Cantares, também conhecido por Cancioneiro Chinês, 305 poemas que usam rima de forma sistemática. Séculos VI a VII a.C., ao que se diz. 

segunda-feira, 30 de março de 2026

A ROSA DEVORADA PELOS ESPINHOS

 


1. A ler "A Rosa Devorada Pelos Espinhos – Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Primeiro Quartel do Século XXI" (Língua Morta, 2026), concluímos tratar-se de um esforço meritório de peneiração para cultivo da ca(u)sa própria, ficando, sobretudo, a impressão de elogio aos velhos contra os novos, entre os quais, como é óbvio, não se incluem os jardineiros de regador na mão que lavram parágrafos infindáveis onde semente nenhuma vinga e citam Baudrillard como beatas a ler epístolas aos Coríntios na missa de domingo. Ainda a páginas 56 e já dava para perceber que mulher não entraria no Panteão dos jovens mucros. Não faltava por onde escolher, para mais numa viragem de século indelevelmente marcada pela emergência e afirmação de várias vozes femininas. Talvez por não terem pretendido a indelicadeza de chamar velhas às senhoras, no Panteão dos epígonos a que deram o título estafado “O Cativeiro do Eco”, nem uma singela referência a Ana Hatherly, Luísa Freire, Eduarda Chiote, Fiama Hasse Pais Brandão, Yvette Centeno, Maria Teresa Horta, Hélia Correia, Fátima Maldonado, Inês Lourenço, Rosa Oliveira, Rosa Maria Martelo, R. Lino, Ana Luísa Amaral, Isabel de Sá, Silvina Rodrigues Lopes, Maria Gabriela Llansol... Ficaram elas a ganhar.

2. As primeiras 200 páginas de "A Rosa Devorada Pelos Espinhos" são ocupadas por 16 homens, velhos vates que, se bem entendemos a tese proposta, souberam assimilar e digerir a tradição, reinventando o presente para estrumar um futuro que os desaproveita. Nenhum dos poemas seleccionados é negligenciável, ainda que possamos questionar a velhice de um José António Almeida (1960), coitado, assim exposto naquela capela dos ossos. Registe-se: segundo o dogma sugerido, nenhuma voz feminina que valha a pena resgatar de XX para XXI. E, como dissemos, havia muito por onde respigar, a começar pelo trabalho realizado em antologias que, num passado recente, denotaram uma vontade de correr riscos mais cativante do que as propostas saturadas de autoelogio neste tijolo de barro refractário. Note-se, a título de exemplo, a inclusão de Silvina Rodrigues Lopes em “Ao Ouvido de um Moribundo”, inesperada e, por isso, agradável opção, agora completamente varrida para debaixo da tapeçaria rosácea. O que decepciona no presente volume é a total ausência de risco e de rasgo, preterida pela oração de um Pai Nosso afectado para agrado das Igrejas antes de se queimarem cordeiros para não decepcionar os deuses. Sentenciosos e dogmáticos, estes jovens críticos assemelham-se àqueles melhores alunos que passam a vida a tirar apontamentos para repetir os professores. São cara chapada do que os próprios condenam. A prosa enfatuada perdida em panegíricos labirínticos redunda em algo profundamente decepcionante, é um desfile de referências de inegável bom gosto, mas sem qualquer trabalho comparativo que permita sustentar a tese: os velhos são bons, os novos são “uma coisa em forma de assim”. Acontece que, é lei da vida, os velhos já foram novos e os novos serão velhos, pelo menos aqueles que não nasceram já amarrotados e curvados como estes reverenciais discentes.

3. A páginas 117, o “O Cativeiro do Eco” dá ares de programa de rádio, um desses programas tardios para DJs palavrosos que brindam os ouvintes com medleys e adormecem ao som de histórias de embalar a que chamam crítica. Diz o DJ: «Tropeçamos diariamente em escritores que buscam constantemente a sua validação na réplica de vozes anteriores, reduzindo-as a apostas seguras para legitimar a sua escrita.» A gente lê e é como se estivesse a ouvir um disco riscado que, ecoando na sala oval, leva a questionar se não será a si mesmo que se refere o autor de tais sentenças. De outra forma, como explicar aquela amálgama de velhos a introduzir o que se julga ter a dizer acerca dos novos? E logo para instruir néscios, todos os demais além deles, sobre o que falta aos discípulos imprecavidos deste tempo: «Espumam-se para existir, mas esquecem-se de comunicar, e é impossível pensar numa língua poética que evite ou exclua por princípio a comunicação.» Isto dito num intróito à poesia de Alberto Pimenta, ali metido entre Rui Nunes e Manuel Gusmão, o mesmo Pimenta a quem cremos ter ouvido dizer que se fosse para comunicar os homens não escreviam poemas, limitavam-se a palrar como pardais. Talvez a palavra expressão fizesse mais sentido, deixando a comunicação ao cuidado dos DJs que passam a vida a dar música a morcegos ensonados, espionagem do print screen, meninas odetes, ramalheiros e outros desnortes.

4. Depois há aqueles discursos impelidos por “dantes” nostálgicos que choram paraísos perdidos ao mesmo tempo que apontam focos de degenerescência, como este de uma poesia que era o modo mais comum da escrita até, e passo a citar, «a rima, essa penetra enervante, que só se generalizou já como uma afectação cortesã.» Diríamos estar perante um número de stand up, aventando mundos imaginários sem chinas nem grécias antigas onde a rima, enfim, já fazia das suas entre a tradição oral do povo analfabeto. Creio ter lido em Borges qualquer coisa sobre isso. Mais engraçado, porém, é como a “penetra enervante” adquire, uma dúzia de páginas percorridas, um outro estatuto na poesia do incensado António Franco Alexandre: «As rimas ampliam a proporção dos poemas, dão-lhes sombras maiores que o corpo, cercam-nos num labirinto de sons e rumores que nos exigem uma leitura demorada, que se quede ali a sentir a tensa dilatação dos seus efeitos.» Bela prosa, cheia de razão. Também a “penetra enervante” reaparece no Barahona dos sonetos ou no Graça Moura das gárgulas, extraordinário poema, de resto, a lembrar-nos como há tanto dessas figuras grotescas nestes textos que se propõem vigilantes. A gente olha para elas, as gárgulas, fascinados com a incoerência das formas e dispensa-lhes o sentido, são aquele ornamento que estimula o riso. Pura rima.

5. Já que parecem apreciar mitos, lendas e fábulas, recordemos ao trio maravilha essa Eco que passava a vida a repetir o que os outros diziam, pobre ninfa refugiada nas cavernas condenada a ouvir para sempre na própria voz as palavras dos outros. Chegados ao ponto de viragem, aceitando a premissa da sua existência, constatamos nada haver de novo na introdução aos novos, apenas o costumeiro e repisado rol de queixumes e de lamúrias acompanhados de uma incoerência que, mais do que derivar de contradições estimulantes, parece resultar de uma hipocrisia que deixa o exercício crítico em apuros, sobretudo se pretendermos convencer alguém de que «O problema da poesia não é moral nem literário, é político e histórico.» Não será a hipocrisia um dos males maiores da política? Como aceitá-la num texto que acusa a editora Assírio & Alvim de abdicar das suas responsabilidades rendendo-se ao comércio das obras completas, mas propõe Daniel Jonas e Rui Lage, e nós não discordamos, enquanto poetas que «demonstram uma sagaz compreensão da tradição»? Não têm estes poetas publicado nessa mesma Assírio & Alvim, propriedade da Porto Editora, por sinal, tanto quanto julgamos saber, igualmente proprietária da revista LER onde o crítico Diogo Vaz Pinto faz publicar textos de não sei quantas páginas que acena como bandeiras numa ilha de call center? Nos últimos anos, Rui Lage publicou na Assírio & Alvim os livros “Física Espiritual” (2026), “Adeus, Campos Felizes” (2025), “Firmamento” (2022). De Daniel Jonas, encontramos no mesmo catálogo os livros “Idade da Perda” (2025), “Cães de Chuva” (2021), “Oblívio” (2017), “Bisonte” (2016), “Nó” (2014). Em que se sustenta, então, o dedo apontado a um putativo «cemitério da Assírio & Alvim»? Sustenta-se, talvez, nessa ideia de que «a poesia se tornou indistinta da actividade de escrever e publicar poemas», para o que contribuem tanto a Língua Morta, a Maldoror, a Cutelo, entre outras, como a Assírio & Alvim. Se é verdade que a esta vertigem editorial assistem a «fome de novidade», «muitos versos criados em estufa», a anteposição da «quantidade à qualidade», isso não é exclusivo de uns contra outros, é prática comum para que todos contribuem com o seu quinhão de obras reunidas, tijolos, canhenhos e ecos. O mais são lapalissadas como esta: «Ao longo destes vinte e cinco anos escreveram-se poemas notáveis, mas não se pode dizer que todos os poetas que os publicaram tenham sido igualmente notáveis.» Ficamos a cogitar como terá sido nos últimos 50. E nos últimos 100? E nos último 150? E nos últimos 200? Além das lapalissadas somos brindados com presunções como a de não ser «uma casualidade que praticamente não haja críticos entre os poetas da nossa geração», algo que qualquer passeio pelos índices das revistas literárias facilmente desmente. Basta ler a LER, onde publica o poeta a anticrítico Diogo Vaz Pinto. Ou a Colóquio Letras, onde Elisabete Marques, Golgona Anghel, Rui Lage, só para dar três exemplos entre tantos outros que podiam ser dados, têm publicado textos críticos. Assim vamos, entre lapalissadas, presunções e a exaltação de supostos méritos próprios: «Com todos os que se estrearam ou publicaram a grande maioria dos livros neste século, bastar-nos-ia encostá-los aos da geração precedente para notarmos não só uma chata suficiência como um desnível embaraçoso, e nos envergonharmos com o modo como a nossa elegeu os seus poetas – talvez por isso não tenha ainda surgido uma antologia como esta que os contrapusesse.» Deo gratias.

6. Temos, assim, que nos momentos em que se afasta das formas clássicas, Daniel Jonas dá à luz poemas que «perdem o pé e vão trôpegos, ziguezagueando e empobrecendo» - “Canícula” (2017) ou “Passageiro Frequente” (2013), ambos editados pela Língua Morta, serão disso exemplo? -, Rui Lage «é talvez aquele que melhor conhece a tradição», Vasco Gato continua imerso numa diversidade de expressões, Miguel-Manso prometeu muito, mas deu pouco, Margarida Vale de Gato, pecadora por excesso, cede ao extremo artificialismo mostrando em demasia as suas capacidades, Luís Quintais começou a mudar de côr [sic] e a apanhar moscas com a língua, José Miguel Silva deixou-se invadir pelo fatalismo, Rui Pires Cabral dedicou-se às colagens, postalecos e outros recortes de gaveta, Manuel de Freitas é o pai morto que Édipo anda numa cegueira de matar, Miguel Martins resvalou na sanha autobiográfica e lá ficou a afundar-se no pântano, «Tiago Araújo deixou-se encadear pelo sol-posto da alma», Nuno Moura e Nunes da Rocha são os bêbados de serviço, Golgona Anghel «é a convidada ideal num quadro em que tudo propende para o festival», David Teles Pereira, que desistiu antes de ter começado, é extraordinário – quem diria? -, Jorge Roque é ainda melhor e Renata Correia Botelho nem se fala. Tudo isto servido sem ânimo exegético, mas temperado por montões de metáforas e comparações e paráfrases e alegorias e historietas da carochinha, prosseguidas de carimbadelas na repartição dos iluminados. Carne sem osso, proveito sem trabalho. Mas a pérola, porque nestas coisas também as há, chega-nos a páginas 271 rodeada de prantos pelos eclipses da crítica, ausência de manifestos e de movimentos, arrogada de rabecadas distribuídas a eito para higienização do Planeta Poesia. Assim se vêem os autoproclamados vanguardistas deste malfadado tempo, mestres-escola a distribuir reguadas aos maus alunos. A pérola merece citação, de tão gostosa que é. Nesse glorioso ano de 2008, três coisas maravilhosas sucederam à poesia. E uma delas foi, imagine-se, a aparição da «revista Criatura, o antecedente directo desta editora, sendo o primeiro sinal em muito tempo de um desejo de reafirmação colectiva...» Assim colocados no centro do salão com a revista que deu a conhecer a poesia de Sara F. Costa, os rapazes da Criatura mostram ao que vêm com o tijolo de 600 páginas que querem fazer passar por antologia crítica. São um Geppetto ababalhado a olhar para Pinóquio. No fundo, tudo não passa, mais uma vez, de água benta para matar a sede de autoimportância, a sede de protagonismo do príncipe que, por se considerar legítimo herdeiro do génio perdido, se coroa a si mesmo senhor de todos os reinos. Caso para concluir que o rei vai nu e não são nada agradáveis à vista os traços da sua nudez.

7. Se as primeiras 200 páginas de "A Rosa Devorada Pelos Espinhos – Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Primeiro Quartel do Século XXI" são um elogio dos velhos contra os novos, as 241 que se seguem apresentam-se, pelos próprios organizadores, como escrutínio do que se destaca da espuma dos dias. O encantamento projectado sobre o passado, louvando paraísos perdidos de que restam as configurações imaginárias dos nossos escolásticos, parte desse princípio errado e tantas vezes repetido que levava alguém já no tempo de Sócrates, o outro, a queixar-se da juventude extraviada. Formulam-se os axiomas, escolhem-se uns nomes que lhes sirvam de sustento, e vende-se tudo o pataco sem lugar à complexidade, passando por cima da crítica como se esta pudesse ser reduzida a generalidades do tipo “faltam-nos grupos e manifestos”, “já não há ousadia”, “são todos uns vendidos”, “dantes é que era bom”, «esta geração não produziu grandes nomes.» Grandes nomes, vejam bem, grandes de enormes, colossais, gigantescos, gigantes que nos consolem esta mania das grandezas como se os séculos e as literaturas neles engendradas fossem viveiros de génio. Olhem só para o século XX, aquilo é um enxame de GRANDES NOMES que nunca mais tem fim. Só que a gente depois olha lá para longe e ficamos à rasca por não conseguirmos vislumbrar um Camões que não seja o próprio Camões, um Bocage que não seja o próprio Bocage, um Pessoa que não seja o próprio Pessoa, e tantos houve no tempo destes que o tempo deixou na penumbra oferecendo-nos, assim, a lição segundo a qual para se chegar a grande é preciso muito mais do que 25 anos e maus leitores. Um pouco de calma e paciência, senhores. Se houver futuro, e segundo o mais básico raciocínio indutivo tudo indica que haverá, quando este século produzir o seu grande, um único que seja, nenhum de nós já cá estará, mas sobrarão, com toda a certeza, uns sete artolas para formarem uma equipa de andebol e divertirem-se a passar poesias de mão em mão. Fosse este desfile de nomes a Poesia Portuguesa do Primeiro Quartel do Século XXI, estaríamos conversados. Não é. Basta lembrar o nome de Rui Costa, afortunadamente deixado no lado de fora deste scriptorium, para concluir a total ausência de seriedade no balancete. O que a presente antologia oferece é uma perspectiva enviesada pela experiência pessoal dos próprios organizadores, não como críticos, mas como poetas, editores, aspirantes ao título nobiliárquico da academia, em mais uma ensaboadela interesseira à necessidade de afirmação egocêntrica de discípulos em ruptura com mestres, filhos zangados com pais, comadres desavindas com cheiro de flores e de mar. Haverá resquícios de verdade aqui e acolá, mas tudo tão disperso e sem fundamento que ficam as verdades esmagadas pelo chiste afectado, a intriga palaciana, o narcisismo assoberbado dos bullys, sobrando de poesia apenas os poemas citados na íntegra e de crítica nada que valha verdadeiramente a pena conservar. O trabalho de compreensão fica por fazer, trabalho esse que implica distância e humildade, uma verdadeira luta contra um tempo incompatível com estas correrias desenfreadas. Fica-se a pensar no que seria a poesia se fosse realmente o que esta gente deseja ao dar recados, como esse endereçado a Andreia C. Faria, num tom de avô dirigindo-se à neta, para se precaver contra o prestígio e não se deixar levar «pela ânsia invertebrada do sucesso.» Sucesso... em Portugal... poesia... Uma pessoa até se engasga.

8. Se ainda não foi, devia ser inventada a figura do poetólogo, alguém que esclarecesse aristocracia, clero e plebe sobre as trágicas crises do universo poético português num desses segmentos pseudo-noticiosos disseminados por horários nobres de tudo quanto é TV. Inscritos num seminário orientado por António Guerreiro sobre a obra de Alfonso Berardinelli, os organizadores de “A Rosa Devorada pelos Espinhos” são fortes candidatos a ocupar o cargo, substituindo Milhazes e majores-generais no comentário estratégico e  belicista. Depois de darem conta da «ausência de erotismo na nova poesia portuguesa» - o que se atesta, desde logo, lendo os próprios -, brindam o leitor com 172 páginas de prosa ensaística num tom que começa em registo melodramático - «Foi-se o tempo em que as magias silvavam por todas as árvores» -, prossegue em toada autoirónica - «O desastre maior da nossa época é essa presunção da inconsequência das coisas que se dizem ou escrevem» - e termina num festim de citações, para não fugir à tendência parafrástica dos tempos. Se os poetas portugueses nossos coetâneos já não fornicam, o mesmo não podemos dizer quanto ao apetite voraz que demonstram ter, tal é a dinâmica de comes com que nos brindam. Pois que «Como diz Eduardo Lizalde», «escreve Marcuse», «escreve Didi-Huberman», traz-se à baila Husserl (valha-me Deus Nosso Senhor) aproveitando asserção do colega do lado, e «como vincava há mais de um século Ezra Pound», «já havia notado Eduardo Lourenço», porque «como disse Juan de Valdés», «foi denunciado por Eduardo Prado Coelho», e «como notava Joaquim Manuel Magalhães», «como assinala Baudrillard» (lá está ele, mais uma vez), «como as palavras de Saint-John Pense» [sic], que não pensa nada, «É a poeta Carolyb D. Wright quem o anota», «nuns versos do poeta mexicano Eduardo Lizalde» (devia andar a lê-lo, estava à mão), «como assinala Benjamim», «Como vinca Didi-Huberman», «Como vincava Camus», «como refere Didi-Huberman», que nem só de vincos vive um homem, «Musil dizia que Thomas Mann», «uns versos de Lorca», «como vincou Bardinelli», pois claro, já estava a faltar, «de que falava Baudrillard» (porra, deixem o homem em paz), «diz-nos Baudrillard» (desisto), «garante Baudrillard» (ora, fosga-se), «lembra Louis Bougeois», «Por isso nos dizia Natália», «como assinala Walter Siti», «aquilo que Nabokov», «Como vincou Auden», «como lembra Siti», «como assinala Berardinelli»... E isto é mera amostra de “como” a tendência para desimportantizar se transformou numa importantização que, fôssemos nós docentes, avaliaríamos com um pedido de desculpas pelo mal feito e pediríamos resumo em três linhas, por obséquio, desse «ímpeto transformador» que tanto se advoga e tão pouco se pratica. Podemos não ter poetas alegóricos, mas não nos faltam críticos a encher linguiça. Eu, confesso, estou deveras preocupado com a poesia portuguesa, não vislumbro prescrição contra tanta maleita. Melhor será fazer como aqueles que durante a pandemia usavam vassouras para medir distanciamentos sociais e improvisavam máscaras com folhas de couve. Assim como assim, passando por doido escapa-se ao contágio. É uma chatice, esta crítica que mais do que dar a ver aproximando-se humildemente do objecto em análise para perscrutá-lo, resolve exibir-se como prostituta numa montra à espera do próximo cliente que compre amor por serviço. Haverá sempre quem pague, claro, assim como há quem se alegre com troncos de árvores cobertos de rendilhados e tricotados terapeuticamente coloridos. Para estes tipos, a poesia devia andar de uniforme, não lhes passa sequer pela cabeça que esse passado a que prestam culto é fruto de mistificações incapazes de aceitar quanto em qualquer tempo há de diverso, desigual e díspar. O problema, de facto, é político, mas dessa política cuja ética pressupõe pódios e medalhas e rupturas como se estivéssemos numas olimpíadas epistemológicas ou num campo de batalha fenomenológico sem sangue, só palavras ao vento, uma ética desprovida da humildade com que nos posicionamos face ao outro mais para o compreender do que para explicar, mais para o descobrir do que para determinar. O mundo está repleto destes coveiros sorridentes que se entretêm a abrir covas para enterrarem as próprias vítimas, mas acabam eles próprios aos saltos dentro dos buracos que cavaram gritando «estou aqui, estou aqui, olhem para mim, sou o futuro, o amanhã que canta». O Kitsch é o menor dos males numa política assim, alicerçada na vaidade que nos traz melhores do mundo em nossa casa, na nossa rua, na nossa freguesia, que a cidade já é grande de mais para tanto amargurado incapaz de se olhar ao espelho e descobrir a caveira escondida por detrás da carne, rindo dos castelos de areia que as marés hão-de desfazer. É amiudadamente um problema dos teóricos, serem incapazes de levar à prática as teorias reveladas, como estes que, nos intervalos de oficinas de escrita criativa, palestras e papers, saltam de weblogs para facebooks, de facebooks para podcasts, de podcasts para instagrans, queixando-se dos meios internéticos e das suas terríveis conspurcações, como se não fossem também eles parte integrante do espectáculo a que há muito se renderam. Há que aceitar com algumas reservas certos diagnósticos, louvando a iniciativa e o esfoço da empreitada, mas, no termo das 600 páginas, não temos como escapar à vulgaridade estafada de uma expressão que exprime a verdade: «já comi melhor.» Deixo para o fim o menos mau, à laia de citação que podia servir de epígrafe ao gigantismo que assaltou esta rapaziada: «Hoje, os elementos rigorosos da ciência têm mais potência do que o génio das metáforas humanas, razão pela qual a poesia tem que roubar à ciência a sua força motriz, a convicção, a busca incessante pelo sentido do mundo.» Venham daí os drones a disparar metáforas.

domingo, 29 de março de 2026

IMAGINE-SE

 


Agora imaginem vocês que eles destruíam escolas e hospitais, matavam mulheres, crianças, velhos e enfermos, executavam famílias inteiras, atiravam a matar sobre ambulâncias, médicos, enfermeiros e jornalistas, não uma, não duas, não três, mas incontáveis vezes. Imaginem que arrasavam com cidades inteiras deixando tudo sob escombros para que cães famintos se alimentassem dos ossos, enquanto incentivavam colonos a invadir e a tomar à força mais parcelas de terreno que nunca foi seu. Imaginem se tudo isto. Não, a porra da missa é que não pode ser. Saturado até ao tutano desta padralhada toda que nos governa, moles eleitos pela lei do mal menor de que não nos livramos. Que tédio.

sábado, 28 de março de 2026

IDEIA PARA LIVRO

 
Uma gralha trouxe-me uma ideia: escrever um livro de trás para a frente, a começar na última página, podia ser a 700, e a terminar na primeira, podia ser a 0. Provavelmente já foi feito, mas eu acrescentaria a esta contagem decrescente um elemento explosivo. Qual pager israelita, o livro implodiria nas mãos de quem chegasse ao fim, ao zero, ao nada. Deste modo, leitor e livro iriam desta para melhor. Abandonei a ideia ao constatar que, muito provavelmente, não sobreviveria a tal objecto, o primeiro leitor seria eu, o autor do livro, a figura tutelar da obra, o criador da criatura. Portanto, a modos que o livro assassino redundaria num livro suicida. Fica para depois.

PARVENU

 
Fosse possível, algumas pessoas até do caixão tiravam selfies para se partilharem cadáveres nas redes sociais. Ouvi agora a Quitéria dizer.

sexta-feira, 27 de março de 2026

UM CANTO DE NUNO MOURA

 


I

Foi antes de existir Mirandela
tudo o que havia era 10 por 10 m2
mas ainda conseguíamos meter lá dentro
uma braçada da envergadura de uma lata
de feijão com meia dúzia de sábias petingas
e uma cama de cordel pendurada
em palitos de prata falsa
que dobravam ao primeiro pesadelo.

Ruiu o seminário onde me queria salvar
internar em banhos orais e espumas
de copos rasos
estava tudo na cara
ou na balança parada num mercado vazio.

Era dia de irmos todos ao dermatologista
tratar das borbulhas lilases nas nádegas
era, excesso de selim e suores
de rissóis de berbigão e algas de São
Martinho secas ao sol do areal
enquanto gravávamos os nossos nomes
nas boias de salvação.

Cada pessoa terá a sua
voltaremos a viver na água
talvez pensem em boias tamanho familiar
um rendilhado facilmente apontado a partir
de qualquer estação espacial com varanda.

A Terra parecia um palácio subaquático
mas menor que o meu pavilhão, o 41
ali no início de todos os tapetes vermelhos
e de todas as avenidas que um dia alcançarão
Palatino.

Com a subida das águas como poderei
continuar a enviar rapazes com uma bola
e um sumol para ringues de piso imperial
em aldeias desaparecidas?

Para cada boia o cemitério do seu ocupante.

Logo surgirá o negócio da boia desocupada
a sua posse, a sua venda, o seu aluguer
em pouco tempo esqueceremos canalizações
nomes de países, ter que levar o cão à rua
ou mesmo respirar dentro de confusões
flanquearemos botes, abordaremos navios
para fazer churrascadas, maldades
pois haverá o mar de uns e o mar de outros
os salgados e os doces
os vikings contra as torres
as pulgas contra as antenas.

Milhões de boias contra milhões de barcos
boias de onde admiraremos, dia e noite
o vaivém do abastecimento das naves em órbita
e o tom esverdeado que se instalará na nossa pele.

Não será pela memória das ondas infantis
da terra estreita
será o reflexo da nossa condição social
uns mais cinzentos, outros mais roxos
tostados, e novas profissões florescerão
timoneiros da ondulação
professores de perna cruzada com obstáculo
terapeutas de uma nova sincronia
mergulho beirinho
boias glovo emergidas dos grandes navios
boias express para fugas de ar e desinchos
boias recolectoras após as mandíbulas 
que vêm de baixo alimentarem a lua com alguns
complacentes que ainda pescavam peixe com pão

Livros plastificados nas catacumbas
de um velho torpedeiro recuperado
nos estaleiros de Viana 
quando nos chegará um exemplar?

Até o medo de encontrar repentinamente
o filho do senhorio de braço dado
com a mãe se foi. 

Nuno Moura, in Cantos, do Canto XI, Hora de Afundar, 11 Andamentos, Douda Correria, Outubro de 2024, pp. 271-273.

ESTRADA ESTREITA

 
Depois da estrada larga de Whitman, o que nos resta? A estreiteza dos corredores do poder onde a intriga palaciana circula com fibra de alta velocidade, redes esquemáticas tecidas por aranhas insidiosas, tácticas, equações, cálculos, tudo muito liquefeito, condensado, sintetizado sob telhados de vidro e paredes com ouvidos. Cuidados, muitos cuidados, surdinas, muitas surdinas, nestas estradas cada vez mais apertadas, pequenas, diminutas, exíguas, ínfimas estradas portajadas por gente avara e mesquinha. Nas margens da estrada, transitam indigentes de mão estendida e calças baixas. Que os destroços tragam alguma esperança e nos salvem desta delgadeza, destas ossadas a que se atiram cães em fúria.

quinta-feira, 26 de março de 2026

DAQUI NINGUÉM SAI MORTO

Não há como escapar a “Daqui Ninguém Sai Vivo”, segundo volume da colecção Rei Lagarto, da Assírio & Alvim, onde pela primeira vez dei com os nomes de Friedrich Nietzsche, Arthur Rimbaud, Kerouac, Ginsberg, Ferlinghetti, Gregory Corso, James Joyce, Molière, Whitman, Baudelaire, Dylan Thomas... “Aurora”, de Nietzsche, numa edição manhosa da RÉS, haveria de mudar-me a vida tornando evidentes as potencialidades do aforismo, a força dessa escrita que acompanha o ritmo do pensamento na denúncia de uma pobre humanidade espartilhada pela moral cristã. A descoberta de Nietzsche foi não só a descoberta de um pensador, mas também a descoberta de um músico e, com isso, a de alguém que pensava a música, que pensava o mundo a partir da arte, da música, da tragédia.
   The Doors introduziram-me no universo do jovem James Douglas Morrison e, através dele, cheguei à filosofia do alemão que me pôs a ouvir Wagner e a ler tragédia grega: Ésquilo, Sófocles, Eurípedes. Mas também se abriram as portas para outros universos, como o da Geração Beat que os The The lembraram e popularizaram numa extraordinária letra sobre jovens massacrados por políticas retrógradas: “The Beat(en) Generation” (1989), «open your eyes, open your imagination.» Tão actual. Cabe aqui Kerouac, claro, o jazz das décadas de 40-50, o bebop e o hard bop mais tarde dedicadamente coleccionados, todo aquele ambiente de fusão entre a música e a palavra em recitais anárquicos, a dedicatória de Corso a Miles Davis: «O teu som é impecável...»
   As primeiras pedras estavam inauguradas, do rock ao jazz, do jazz à música clássica, através de um cantor que era poeta e de um filósofo que foi músico. Se a música me transportou até ao planeta dos livros, e já atravessaremos outras pontes, também desde cedo os livros me levaram à música proporcionando descobertas e aguçando a curiosidade. “Arte de Música” (1968), de Jorge de Sena, que comecei a ler bem cedo numa antologia que havia lá por casa, transformou-se numa espécie de catálogo. Lá pelo meio, as Variações Goldberg, que me acompanharam em repeat depois de as adquirir numa interpretação de Glenn Gould, pianista canadiano que murmurava enquanto tocava. “Genius Within: The Inner Life of Glenn Gould”, documentário dirigido por Peter Raymont e Michèle Hozer, dá-nos conta da personalidade excêntrica dessa figura mítica.
   Tanto a ficção como a poesia ofereceram-me muita música, mais esta, talvez, pelo que concentrarei a revisitação apoiado na pulsação rítmica dos versos. Casos há, como nos escritores de canções, em que essa ancestral tradição de proporcionar encontros entre a palavra e o som nutriram a alma como poucos outros alimentos. Sempre fui fã de escritores de canções e muitos deles deram-me a conhecer livros, autores, literaturas, mas noutros encontrei uma espécie de balança equilibradíssima entre as artes literária e musical. Casos de Tom Waits, Leonard Cohen, Chico Buarque, Nick Cave... Ah, o poder inspirador das murder ballads. Mas também o trabalho de Angélique Ionatos sobre a poesia de Odysséas Elýtis, a exploração de Rimbaud através de Hector Zazou, a poesia de Giórgos Seféris pelos Sigmatropic.
  No caso português, o exemplo mais flagrante é José Afonso. Ainda hoje estou para perceber o que seria desse extraordinário poema “Era um Redondo Vocábulo”, escrito na prisão de Caxias, sem a melodia que o acompanha e, na mesma medida, o que seria da melodia sem aquelas palavras. Depois Sérgio Godinho, também ele tocado por Rimbaud, José Mário Branco a musicar Natália, Bertolt Brecht na voz de Jorge Palma, a magnífica Peregrinação de Fernão Mendes Pinto em “Por Este Rio Acima”, de Fausto. Não fui dos que estranharam a atribuição de um Nobel da Literatura a Bob Dylan, autor de canções pejadas de referências literárias. Pecou por tardio, este reconhecimento da canção como peça literária. Não começámos todos pelos cancioneiros?
   Nas suas crónicas, nomeadamente quando se refere à estadia nova-iorquina em casa de Ray Gooch e Chloe Kiel, Dylan fala-nos de livros, dos poetas que leu, das histórias de aventuras que apreciava. Edgar Rice Burroughs, o de Tarzan, chegou-nos pela sua mão, mas também os românticos ingleses, Byron, Shelley, e, claro está, Poe. Daí a Mary Shelley foi um pequeno passo. Ouvir Bob Dylan com atenção, identificar-lhe as referências, perscrutar as letras, procurar os livros, eis um exercício frutuoso.
   Mais recentemente, poetas como Levi Condinho, Joaquim M. Palma, Amadeu Baptista e José Ricardo Nunes, dedicaram especial atenção à música em livros tais como “Pequeno Roteiro Cego” (2019), “Vox Humana” (2024), “O Bosque Cintilante” (2008) e “Compositores do Período Barroco” (2013), desbravando caminho para diversas sonoridades com as quais os poemas mantêm relações dissemelhantes. Seja enquanto motivo, seja como ambiente, seja também através da desconstrução biográfica ou por outros dispositivos e metodologias, a paisagem sonora emerge nestes livros como uma companhia inalienável das palavras.  Em Al Berto, as evocações musicais eram tanto uma espécie de marca geracional como a declarada e exibida adopção de uma rota desviante, a da contra-cultura, como bem notou Manuel de Freitas no ensaio “A Noite dos Espelhos” - outro poeta em que as referências musicais são constantes.
   Muito mais haveria a dizer sobre esta trajectória que nos desloca das palavras para os sons, da literatura para a música, da música para a literatura, mas o trajecto inverso merece igualmente desenvolvimentos para além dos atalhos acima mencionados. Em 1988, uma canção de Leonard Cohen deu-me a conhecer o nome de Federico Garcia Lorca. “Take This Waltz” é a versão inglesa, musicada, do poema “Pequeño Vals Vienés”. E talvez o primeiro contacto com o nome Antonin Artaud se tenha dado através da canção dos Bauhaus com o mesmo nome. Por cá, merecem referência especial os Mão Morta, a mais literária das bandas portuguesas. “Müller no Hotel Hessischer Hof” (1997) levou o nome de Heiner Müller, poeta e dramaturgo alemão, onde ele nunca fora ouvido. “Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável” (1998) reavivou os nomes de Guy Debord, Raoul Vaneigem, entre outros situacionistas, a que devemos acrescentar as referências ao Conde de Lautréamont, de seu nome Isidore Lucien Ducasse, que percorrem a obra da banda nortenha.
   Deixando de lado discos, álbuns, peças musicais baseados ou escritos sobre obras literárias, que são inúmeros – alguns já aqui referidos -, poderíamos ainda sublinhar como nos domínios da Ópera o literário vai para a cama com o musical. Caso curioso é “Carmina Burana”, de Carl Orff, que nos deu a conhecer extraordinárias poesias medievais com uma componente satírica que levou à redescoberta dos domínios do escárnio e do maldizer, da pornografia e do cómico, relegados para segundíssimo plano pelo Index, mas altamente presentes e de uma riqueza incomparável na história de literatura europeia.
  Para o fim, fica propositadamente “Chatterton”, de Serge Gainsbourg”, um inventário que escolhi para epígrafe de “Suicidas”, livro publicado em 2013. Thomas Chatterton, poeta britânico, que se suicidou com apenas 17 anos por não aguentar o insucesso dos seus versos, deu nome à canção de Gainsbourg que introduz o meu périplo pelos escritores suicidas. Um livro polvilhado de referências musicais, diga-se de passagem, desde logo pelo modo como os ambientes sonoros serviram de fertilizante aos textos. «Contra a doença, prescrevo música», escrevo no texto patrocinado por Ángel Escobar Varela. A música como refúgio num mundo que nos agride.  Mas também em “Call Center” a música teve um papel fundamental, o que se nota, desde logo, nos títulos de algumas histórias: “Afterglow” (Loop), “Changes” (Black Sabbath), “Freak Sceane” (Dinosaur Jr.), “Guayaquil City” (Mano Negra), etc. Qual o papel da música nestes textos? Foi, talvez, a água lançada sobre a terra para que a semente do desespero brotasse e desse frutos. Creio que a música sempre teve esse papel na minha vida, não como um medicamento, não como um lenitivo, mas mesmo como água imprescindível à sobrevivência. Não sei se sobreviveria sem música. Se me imagino no deserto a morrer de sede, começo a trautear qualquer coisa para que pelo menos a lama não morra de sede. Não falem de deuses, nem dos que dancem, falem-me de música. E basta. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

ESTAR A PRAZO

 
Estar a prazo
eis a nossa vocação
não mais nem menos grandiosa
do que a das baratas
agitando-se em busca de abrigo
covil sob lava-louças
a reclamar detergente
mais eficaz
do que as gentes detidas
no fascinante relapso
dos estrategas
 
Sempre tão dadas
a honoríficas causas
que fazem saudar a caça
aos passarinhos
estas baratas tontas
sob os lava-louças
onde todo o tipo de porcaria
se acumula
com o passar dos anos
e a disseminação de manchas
na pele encarquilhada
 
Ah, o discípulo
legitimado plo mestre
figura tão a despropósito
como a porra das baratas
a saírem por fendas
que nem desconfiávamos existirem
lembrando-nos uma vez mais
que só elas restarão para
contar a nossa história
após o fim
Apocalipse eternamente adiado
que não há meio nem margem
nem forma alguma de revolver

terça-feira, 24 de março de 2026

CADERNETA DE PULHAS

 


Mais um português de bem para a nossa caderneta de cromos preferida. Chama-se Ivo Ferreira Faria, candidato pelo Chega (quem mais?) à União de Freguesias de Antime e Silvares S. Clemente, em Fafe, e foi detido «em flagrante delito por abuso sexual da filha de cinco anos, devassa da vida privada e pornografia de menores.» Mais se acrescenta que: «A mãe da criança, que não é a actual companheira, precisa que a filha tem cinco anos – e diz ao PÚBLICO que fez queixa por violência doméstica contra Ivo Faria.» Como é óbvio, o Ventrulha e a Rita Matias e o Pedro Opus Dei e mais aquela pandilha retrógrada a que as TVs dão tempo de antena desmesurado, lá virão dizer que, ao contrário dos outros, agiram logo de imediato com expulsões. Acontece que, ao contrário dos outros, não têm mostrado capacidades preventivas, transformando-se num viveiro de todo o tipo de criminosos e mais alguns. O povo que vota neles que se sinta orgulhoso do bem que está a fazer ao país. Que prossiga a limpeza.