Esta noite sonhei que estava num funeral. Ao contrário do costume, fui espreitar as trombas do morto. Digo trombas por ter sido tal como o sonhei, o defunto fora mesmo trombudo em vida, aquele tipo de gente que atravessa o paraíso apontando defeitos à perfeição. Para meu espanto, o trombudo estava sorridente dentro do caixão. E os olhos dele falavam. Finalmente a rir em morto, sozinho, encerrado no interior mais fundo de si mesmo, sem nada nem ninguém que lhe lamentasse a partida, para ali abandonado como animal na berma da estrada, só comigo por perto para lhe espreitar as trombas, o cadáver dizia: aqui é que se está bem. Repetia isto incessantemente: aqui é que se está bem, aqui é que se está bem, aqui é que se está bem. Respondi-lhe “bom proveito” e voltei-lhe as costas, isto é, acordei.
antologia do esquecimento
terça-feira, 7 de julho de 2026
segunda-feira, 6 de julho de 2026
ÁCIDO
domingo, 5 de julho de 2026
EPÍSTOLA
Escrevo-te para que saibas
quanto a noite continua noite
de madrugada há quem recolha o lixo
pela manhã passeiam-se os cães
no escuro as gaivotas dão descanso ao céu
por vezes chove
o vento nada traz de novo
e o sol repete-se por entre nuvens instáveis
e eu entretenho-me a fazer abecedários
de cidades por visitar
de pintores obscuros
de canções antigas
repito os nomes que não quero esquecer
recolho-me em silêncio a desenhar baratas
passo a mão pelo pêlo doméstico das horas vagas
em que escapamos a nós próprios
o cemitério d' eus perfilados de génio
as ruas com nome de gente a fazer número
a água que ainda cambaleia entre comas
tu aí deste lado
eu aqui desse lado
a lembrar Inventários de ossos
constelações de pó
o bendito esquecimento que nos abrirá os olhos
a paz
o que importa
cão a lamber caldo entornado
sopas de nódoas na camisa engomada dos dias
ainda há vaga no espectáculo da morte
sábado, 4 de julho de 2026
VIVA A MORTE
sexta-feira, 3 de julho de 2026
À MARGEM DOS DIAS
quinta-feira, 2 de julho de 2026
O MAESTRO
dirige com o mindinho
tem pé de atleta chato
tropeça amiúde nas micoses
e por isso teme sobretudo
a folha cadente do velho plátano
o pó na passadeira vermelha
dos mosquitos ziguezagueantes
é maestro de mau estro
atonal do pensamento
e bufa pelas narinas
enquanto dirige as próprias gralhas
que em bando esvoaçam alegremente
sobre coros e ensembles
quarta-feira, 1 de julho de 2026
50 x 43
Escrever a partir de não é o mesmo que escrever como. Na música fala-se de cover, versão, e raramente o original é, por assim dizer, superado. A não ser que seja a base a partir da qual outra coisa nasça, algo em relação com que não é cópia de. Também na poesia os motes e as formas sugeriam variantes, versões, variações, tantas vezes confundidas com plágio. Hoje fala-se de intertextualidade, paráfrase, mas isso já pouco tem que ver com os modelos a partir dos quais, segundo determinadas regras, algo inovador desabrochava. Não se pode meter mel onde há vinagre. Na série American, Johnny Cash mostrou como se faz, assimilando originais que acolheu como seus para nos oferecer versões tantas vezes preferíveis ao ponto de partida. Canções dos U2, Depeche Mode, Nine Inch Nails conheceram novas formas de vida na sua voz, com arranjos minimalistas, em toada acústica, ao lado de baladas tradicionais como Mary of the Wild Moor. É uma lição que nos explica qualquer coisa de precioso, o modo como o outro encarna em nós, diálogo secreto entre essências aparentemente distantes a ponto de nos parecerem inconciliáveis. E, no entanto, aí estão as versões a dar conta de que o ponto de chegada está ao nível do ponto de partida, ou supera-o, quando o acolhemos não apenas por lhe tocarmos a pele, a superfície, mas por lhe chegarmos à alma, isto é, ao osso revestido de carne, músculo, veias, nervos. A vida de Cash deu origem a um belo filme, ele próprio foi actor, deu origem a novelas gráficas, vai dando origem a muita coisa por ser uma vida que diz muito a muita gente. Na série American ele mostrou-nos por que trilhos as almas se ligam. Estou a ouvir repetidamente a versão que fez da canção The Mercy Seat, de Nick Cave & The Bad Seeds, e a pensar como tudo seria mais honesto se não nos quiséssemos impor aos outros, antes aceitando-os como parte integrante de nós a partir do que nos liga, do que nos aproxima, dessa essência que define esta coisa chamada transitoriedade e que não carece, definitivamente, de mel onde existe vinagre.
terça-feira, 30 de junho de 2026
INVERNO
Eu estive lá
várias vezes
à tua espera
à tua procura
Mas tu nunca estavas lá
Várias noites
Fui lá
A MULHER
Sim
Jon Fosse, in Inverno, tradução de Pedro Porto Fernandes, Artistas Unidos, Cotovia, Fevereiro de 2005, p. 62.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
UMA CRIA
Entalado entre as tiras dum tapete de alumínio
a cria caída do ninho bate insistentemente as asas
tentando sobreviver no hostil universo dos homens
Fico a olhar para aquele ser frágil e inofensivo
sem saber qual o melhor procedimento
Devolvo-a ao ninho ou deixo que a natureza se cumpra?
É da natureza das crias caírem dos ninhos
mas será natural ficarem entaladas entre tiras de alumínio
como criminosos condenados por crime nenhum?
Que crime cometeu aquela criatura? Tentar voar?
E enquanto rastejo em cogitações inúteis
a desafortunada ave perece sem ninho nem voo
domingo, 28 de junho de 2026
AGÊNCIA FUNERÁRIA
Esta noite sonhei que tinha sido contratado para fazer um anúncio da Agência Funerária Tarzan. Era assim: um velório, sala vazia, o morto dentro do caixão. De respente, o morto erguia o tronco e fazia o grito do Tarzan: "Aaah -eeh- aaah- eeh- aaah" (pedi ao ChatGPT ajuda para reproduzir isto). Começavam a aparecer animais de todo o lado. Voz-off: "Com agência funerária Tarzan ninguém fica esquecido". Depois morri, isto é, acordei.
sábado, 27 de junho de 2026
BESTIÁRIO VISIGODO
sexta-feira, 26 de junho de 2026
MÃE DO OUTRO LADO DO ESPELHO
Escuro. A luz sobe muito lentamente sobre uma figura central. A pouco e pouco, apercebemo-nos de uma mulher idosa em cena, sentada numa poltrona grená, a segurar um búzio junto a um dos ouvidos. Ao lado da poltrona, repousa uma cana de pesca.
Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
26 de Janeiro de 2021. Não recordo há quanto longe minha mãe morreu.
Esqueci-me do som da sua voz. Guardas a voz de minha mãe?
Mal a compreendo no reflexo das águas do meu tempo, parece-me tudo tão vago, não há um único contorno definido, definitivo.
A mulher pousa o búzio no chão. Pega na cana de pesca e lança o fio na direcção do público.
Mãe, onde estavas quando eu morri?
Ouviste-me gritar enquanto me vestiam aquelas roupas idiotas e pediam que posasse para a fotografia com um crucifixo nas mãos? Terás escutado as minhas preces?
O padre Armando dizia: com dois pais nossos e três avé-marias isso passa.
Ajoelhei-me logo ali, à saída do confessionário, e rezei na esperança de que me ouvisses. Mas tu não ouviste, estavas demasiado atenta aos pormenores para que pudesses ouvir-me.
O fio da cana de pesca treme.
O quê?
Quem és tu que mordeste o isco invisível das minhas dores?
Desculpa, mãe, tu não tens culpa pelas minhas culpas.
És tu, peixe da minha infância?
A mulher gira a manivela, olha o anzol, sorri.
Vês mãe, continuas sob o reflexo das águas, invisível como sempre. Não há meio de morderes o isco.
Seremos o isco do tempo, mãe?
Eu rezo, eu oro, suplico, imploro: olha para mim.
Volta a lançar o fio na direcção do público.
Só queria que olhasses para mim, não que olhasses por mim, bastava-me que olhasses para mim. E que visses, que dissesses qualquer coisa, que por um momento te aproximasses medindo as bainhas das avé-marias e dos pais-nossos com que era suposto limparmos o corpo.
Ouves-me no reflexo das águas?
Vês-me no silêncio dos búzios?
Voltei-me para o mar à espera de ser salva por um naufrágio, de uma baleia que me engolisse e vomitasse, de um silêncio que me calasse. Agora estou velha, não digo coisa com coisa, não penso coisa com coisa, não faço coisa com coisa. Tenho a tua ausência dentro de mim e o homem de saias continua a dizer-me: reza que isso passa.
E eu rezo, mas não passa, não há meio de passar.
O fio da cana de pesca treme. A mulher gira a manivela, observa o anzol, sorri.
Nada.
Ninguém.
A mulher morde o isco, gira a manivela, tenta pescar-se a si mesma. Gira a manivela sem parar, luta consigo própria, puxa-se, resiste a si mesma, cospe o isco, larga a cana, senta-se exausta. Acalma a respiração. Passa algum tempo em silêncio. Volta a pegar no búzio, retomando a posição inicial.
Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
Já não me recordo há quanto longe morri.
Esqueci-me da cor da minha voz. Esqueci-me do som da minha pele.
Guardas a pele de minha mãe?
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
Podes repetir?
Eu rezo e não passa.
quinta-feira, 25 de junho de 2026
AMOR BABÉLICO
quarta-feira, 24 de junho de 2026
FASCISTAS DE ESQUERDA
Os fascistas de esquerda estão preocupados
com a cor dos sapatos
com o tamanho da fonte
com a hierarquia dos apelidos
com abreviaturas e extensões
com acrónimos e títulos
com o número da reserva
com a posição na bicha
com o posicionamento central
com a justificação das margens
com a fotografia de perfil
com convites e dedicatórias
com a sensível selecção de prioridades
com o tratamento
com a ordem do serviço
com o cocktail de fim de tarde
com o número de estrelas
com as unidades de medida
com o rigoroso cumprimento dos protocolos
com a mosca na sopa
e também com as assimetrias neste mundo
cada vez mais inadmissivelmente desigual


