segunda-feira, 26 de setembro de 2022

(GI)ORGIA DE FACHOS

 
Os senhores da UE não gostavam do Varoufakis, enquanto não fizerem da Grécia o que queriam não descansaram. Foram condescendendo com a Polónia e as reformas num sistema judicial cuja independência ficou "altamente comprometida". Têm sido condescendentes com Viktor Orbán na Hungria, apesar de reclamarem de "insuficientes medidas anticorrupção". Na Suécia, a extrema-direita xenófoba conseguiu mais de 20% dos votos. São os Democratas da Suécia. Na Holanda, o ano passado, a extrema-direita nunca teve tantos votos. Idem para Marine Le Pen, em França. Por cá a mesma coisa. Agora foi Itália e outros se seguirão. Entretanto, cidadãos de pleno direito, num mundo que há muito garante haver abolido a escravatura, continuam a amontoar-se em campos... de concentração? de refugiados? de migrantes? Grécia, Itália, França, Espanha têm sido o muro dessa gente que levantou um problema para o qual parece não haver solução, a não ser devolvê-los à proveniência, deixá-los naufragar no Mediterrâneo, detê-los em "campos de acolhimento". A extrema-direita continuará a crescer, diabolizando os migrantes como outrora diabolizaram os judeus, gritando muito em nome de um Deus que em pleno século XXI, a despeito de progresso científico e tecnológico, permanece nas cabeças das pessoas com mais clareza do que a tabuada. A fé está a ganhar terreno à razão, as novas tecnologias não ajudam e uma comunicação social subserviente também não. A máquina de estupidificação é fortíssima e será imparável, alimenta-se tanto da letargia e da apatia de uns como do fanatismo de outros. Se o presente é dos hipócritas, o futuro será, sem dúvida nenhuma, dos arrivistas. Meteram o socialismo na gaveta e hipotecaram o estado social a bem da saúde dos mercados. Pois agora aguentem a doença das sociedades.

domingo, 25 de setembro de 2022

NATUREZA, LÍNGUA E AMOR

 
Trabalho é trabalho, não é actividade. Um trabalhador é um trabalhador, não é um colaborador. Resistência é resistência, não é resiliência. Censura é censura, não é cancelamento. Dito isto, não podemos abdicar do direito ao prazer. Não podemos abdicar do direito à alegria. Não podemos abdicar de poder abdicar do que nos intimida, constrange, limita, diminui. A liberdade é um direito, não é uma benesse. A Deus, Pátria e Família eu preferirei sempre a Natureza, a Língua e o Amor.

sábado, 24 de setembro de 2022

DOIS LIVROS DE ANTÓNIO FERRA

 


   Dois livros bastante diferentes um do outro, publicados ambos este ano: “A Poesia Ri Unida” (Eufeme, Maio de 2022) e “Lengas e Narrativas” (Edições Húmus, Junho de 2022). Comecemos pelo primeiro. Tal como o título indica, num humor desimportantizante característico do autor, trata-se de uma reunião, não da obra anteriormente editada em livro, mas de poemas dispersos por revistas publicadas entre 2009 e 2021. A excepção é um inédito intitulado “Dores”, poema pungente em que o mal-estar contagioso da actualidade vem à tona com fúria desmedida: «e eu sem potência para apagar filhos da puta» (p. 37). Não é comum nesta poesia temperaturas coléricas tão elevadas, sendo mais frequente o recurso ao riso enquanto sabotagem da realidade decadente e de um quotidiano pulverizado de personagens por vezes picarescas, noutras ocasiões risíveis, amiudadamente desvalidas. Portanto, a poesia que ri neste volume transborda os domínios da ironia e da sátira reconhecíveis noutros momentos da obra de António Ferra (n. 1947). Mantém-se, no geral, a paisagem suburbana enquanto palco privilegiado das observações do sujeito poético, mergulhado num “modo funcionário de viver” onde recolhe quadros de uma actualidade estrangeirada. O teatro é o da «tirania / num campo de refugiados suburbanos» (p. 11), por vezes em poemas sequenciais que retratam com linguagem militantemente coloquial «o constrangimento dos sonhos, / a severidade das sombras» (p. 48).
   Dá-se especial atenção nestes poemas aos pobres, aos excluídos, aos exilados, aos humilhados e ofendidos, a essa massa de gente infinda usada e usurpada pelas forças que dessa gente se servem esgotando-a, tornando-a impotente e incapaz. É curioso, mais ainda pela dispersão inerente ao conjunto, como em diversos destes poemas surge essa imagem de fraqueza que vai do sentimento de «culpa de não combater» (p. 11) à falta de «voz para gritar a injustiça» (p. 48), desembocando no apelo quase desesperado do poema “Contaminação”: «não feches o riso / que se abre nas tuas mãos abertas, / não feches o grito de revolta / quando a janela se abre aos odores de um fogo extinto» (p. 52). Uma dúvida a esclarecer: o riso é arma ao serviço da revolta ou solução para a impotência?
   Bem diferente, em todos os aspectos, é o segundo livro acima aludido, introduzido por uma explicação prévia à laia de prefácio: «Trata-se de poemas com deliberada intenção de trazer à luz os mais sombrios actos criativos — e caritativos — das palavras, dançando ao ritmo cardíaco dos versos estampados, não negando, todavia, a forte influência de uma corrente barroca, e neoclássica, surrealmente presente nos critérios de recolecção dos versos que integram a antologia “lengas e narrativas”». Neste caso, o espaço de representação confunde-se com a pura experimentação formal. Mais maneiristas do que barrocos, estes poemas afirmam-se pelos desequilíbrios, pelos exageros expressivos, aqui grotescos, acolá burlescos, gozando de uma variedade (in)formal que vai da redondilha à canção. São experiências lúdicas com palavras, a linguagem poética cedendo ao gozo dos efeitos fonéticos — «a salsugem dos barcos / a penugem dos braços» — e polissémicos, jogo que não prescinde do seu inventário intensivo de caricaturas: «o pobre de porshe» (p. 10), «o rico sem cheta» (p. 12), «os ais obscenos / de suínos urbanos» (p. 31), «o mendigo enganado / o bardo e o frade / de cotão no umbigo / e espinho do cardo // o carneiro inchado / a donzela porreira / de seio fanado / e liga de freira // o cilício de nastro / o amante filtrado / o cu de alabastro / da alcoviteira» (p. 41).
   Ao barroco foi António Ferra buscar certa pompa para a desmontar e desfazer ironicamente, nomeadamente ao minar modelos métricos, ao grafitar o luxo das imagens com o corriqueiro, apostando em conceitos rebuscados e títulos extensos: «de autor anónimo (sec. XVIII) publicado na Gazeta «O Furjão» em depósito na biblioteca da Junta de Freguesia de Albergaria de Loivã» (p. 33). Tudo isto é escárnio da pompa e da circunstância, dos efeitos supérfluos e palavrosos, da cagança espaventosa e da solenidade que, em pleno século XXI, se conserva intacta no espírito e nos comportamentos de uma horda de artistas eximiamente distribuídos pelas diversas instituições nacionais. Fique, a título de exemplo, a «efémera fama de um opinion maker»:
 
a efémera fama
tua alma aclama
 
na tua lama
a tarântula branca
anémona plana
numa feira franca
 
tua alma acalma
a efémera fama
abre o melodrama
alimenta a chama
da boca que trama
 
tua alma aclama
a tua boca brama
tua efémera fama

PHAROAH SANDERS (1940-2022)

 


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

CAUSAS QUE VALEM A PENA

Os protestos no Irão pelos direitos das mulheres e as manifestações na Rússia contra a guerra e a mobilização de reservistas. Era isto que nos devia ocupar os dias, em vez do circo da morte de uma rainha e do palco dado a cretinos. Acontece que a comunicação social prefere o espectáculo às causas, as patacoadas do Milhazes à voz indignada dos povos. Quem viu uma jovem iraniana a cortar o cabelo e a queimar o hijab em protesto contra a polícia da moralidade, rodeada de uma multidão de homens e de mulheres que gritavam por liberdade, percebe quão errados andamos quando perdemos tempo com inanidades e futilidades. A pergunta é: porque perdem mais tempo os telejornais com tais inanidades e futilidades do que com as reivindicações dos povos? Uma resposta possível: porque são a caixa de ressonância dos facínoras. Agora convençam-me do contrário.

UM ESPELHO DO GALEANO

 


É PROIBIDO RIR
 
As antigas festas dos ciclos da natureza chamam-se agora Natal e Semana Santa, e já não são homenagens aos deuses pagãos, mas rituais solenes de veneração à divindade que ocupou esses dias e se apoderou dos símbolos pagãos.
As Hilárias, herdadas ou inventadas por Roma, saudavam a chegada da Primavera. A deusa Cibele banhava-se no rio, enquanto os romanos, vestidos com roupas caricatas, se rebolavam de riso. Todos troçavam de todos e não havia no mundo nada nem ninguém que não fosse digno de riso.
Por decisão da Igreja católica, esta festa pagã da hilaridade, que festejava a ressurreição da primavera através do riso, coincide em Março, mais dia, menos dia, com a ressurreição de Jesus, de quem os evangelhos não registam uma única gargalhada.
E, por decisão da Igreja, o Vaticano foi construído no local exacto onde culminava a festa da alegria. Aí, na praça ampla onde ecoavam as gargalhadas da multidão, ouve-se agora a voz grave do papa a ler páginas da Bíblia, um livro onde nunca ninguém se ri.

 
Eduardo Galeano (1940-2015), in “Espelhos – Uma história quase universal”, tradução de Helena Pitta, Antígona, Junho de 2018.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

TALE OF THE FINGERS (1956)

 


A mais nova faz anos, dezasseis. Seria natural dizer que passaram num instante. Acontece que o nascimento dos filhos fez-me sentir o tempo de um modo diferente. Lembro-me das ressacas antes de ser pai, eram mais difíceis de ultrapassar. Depois da primeira nascer, foram-se as ressacas. Não dá. O corpo obriga-se a estar disponível, vai-se a moleza e a indolência. Se a criança chora, a bebedeira passa. É mais forte o choro. Não há melhor antídoto para uma ressaca do que um filho a chorar. Outra coisa que mudou foi a relevância atribuída a certos fenómenos. Pelo menos comigo foi assim, deixei de me chatear com pneus furados e equivalências. O equivalente a um pneu furado é, por exemplo, uma querela literária. São coisas que perdem importância com o nascimento de um filho, a gente mantém-se à distância a observar os pregos muito agitados em torno dos pneus e ri-se de quando se espetam na borracha e ficam ali às voltas e voltas e voltas a fazer uns barulhos irritantes até que na oficina lhes dêem o devido destino. Há uma diferença de três anos entre as duas. Confesso que houve com a mais velha certo deslumbramento da novidade que não existiu com a mais nova, mas depois vi-as crescerem tão diferentes uma da outra que o deslumbramento deu lugar ao espanto e deste se tem feito a observação dos anos que passam. Não fui pai porque quis, sou pai porque quero. E tem sido divertido como tocar numa banda. Há 16 anos ia eu fazer 33, já tinha idade para saber que estar vivo é um instante. Não julgá-lo significativo permite-me não desperdiçá-lo, é o meu modo de fazer bluff num poker com a morte.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

NÃO HÁ ESTÔMAGO QUE AGUENTE

 


   Com a morte da rainha de Inglaterra ficámos a saber que há um imperialismo querido e bonzinho. A hipocrisia com que um pouco por todo o lado, de alto a baixo, se têm calado os crimes e os massacres da coroa britânica é revelador quer da falta de consciência histórica que grassa entre nós, quer de quão subjectiva é a avaliação que as pessoas fazem da maldade perpetrada pelos estados. Já o modo como a imprensa tem abordado o assunto é mais uma prova claríssima dos processos de lavagem cerebral, negacionismo, higienização, hipocrisia e doutrinação que o poder em vigor nos impõe sob a falsa capa do serviço público e de uma democracia cada vez mais incapaz de se defender da sua maior ameaça: o pensamento único.
   Em tempos mais recentes, a coroa britânica torturou e massacrou os independentistas Mau Mau no Quénia. Tal como hoje criticamos à Federação Russsa de Putin o que está a fazer na Ucrânia, seria suposto que tivéssemos uma postura pelo menos igualmente crítica relativamente à potência colonial britânica. Basta o Quénia para obtermos uma contabilidade impressionante: 100 mil mortos, 300 mil prisioneiros em campos de concentração e de tortura. Muthoni Mathenge não foi fotografada pela Vogue, mas sempre podiam fazer uma breve pesquisa no Google sobre o que representa.
   Ou talvez conheçam aquela canção dos U2, "Sunday Bloody Sunday". Que vos sirva de banda sonora quando pesquisarem sobre os crimes ingleses na Irlanda. O "Domingo Sangrento" é só um desses casos emblemáticos de opressão dos britânicos sobre a luta dos irlandeses contra o desrespeito do Reino Unido pelos direitos humanos. Vários civis desarmados foram assassinados pelas forças que sobre eles atiraram indiscriminadamente. Eram russos? Não. Eram ingleses. E esta rainha agora morta já estava no trono, o mesmíssimo trono que continua a julgar que Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia lhe pertencem, tal como Putin também julga que a Ucrânia lhe pertence. Não viram "Fome", o filme de Steve McQueen? Nem "Em Nome do Pai", de Jim Sheridan?
   O Gana, em África, é outro país cuja história vos devia fazer pensar um “niquinho”, em vez de andarem para aí a patrocinar lutos por reinados sanguinolentos. Depois da independência, os britânicos foram financiando golpes militares no Gana até terem o que queriam: um governo títere da Commonwealth. De onde julgam que veio/vem o ouro dos ingleses?
   E das Malvinas, valerá a pena falar? Terão interesse ou também irão fechar hipocritamente os olhos como se esse arquipélago na costa Argentina não estivesse nas mãos dos ingleses? Sabem quantos argentinos foram massacrados para que a coroa britânica ficasse com as Malvinas? Espreitem na Wikipédia.
   Podem continuar com as vossas bandeirinhas de perfil facebookiano e o vosso respeitinho pela rainha boazinha que de uma coisa não se livram, serem cúmplices do colonialismo racista e do imperialismo assassino britânico. A invasão do Iraque também não existiu? Será outra invenção de Hollywood? Nojo, é o que tudo isto mete. E vergonha por ser governado por marcelos e costas, fantoches num país que mais parece um teatro de marionetas.
   Na imagem está Miriam Muthoni Mathenge, viúva do veterano de guerra Mau Mau General Mathenge Mirugi, durante uma entrevista na sua casa em Laburra, condado de Nyeri, a 17 de Outubro de 2020. Por estes ninguém chora, nasceram para ser explorados e escravizados pela parte boa do mundo.

domingo, 18 de setembro de 2022

GRANDE CIRCO IMPERIAL LUSO

 

"Bajazeto e a revolução" é o título de um projecto de Jorge de Sena para teatro que nunca chegou a ser concluído, ao que parece com a intenção de satirizar "as circunstâncias de um abortado golpe de Estado em que participara" (palavras de Mécia de Sena). Estávamos em 1959, o título da peça projectada glosa o "Bajazet", de Racine, que de Sena teria ido ver na noite do golpe para "despistar as desconfianças". Do pouco que sobrou desse esboço, há a referência a um cartaz que diria assim:

GRANDE CIRCO IMPERIAL LUSO

Leões, Navegações, Naufrágios e Conquistas. Mártires e Heróis, todos os dias. A descoberta do caminho marítimo para a Índia, com o Infante D. Henrique e Camões nas caravelas, ao domingo. São Francisco Xavier, às quintas. Aljubarrota, à sexta, em matinée infantil. Palhaços, equilibristas, domadores, trapezistas. Voos à Gago Coutinho. O grande sketch, ao sábado, por toda a companhia: Oito Séculos e meio de História Universal, com grande figuração de negros, mouros, e indianos autênticos. Nu artístico por indígenas do Brasil (em sessão reservada aos homens e a mulheres casadas acompanhadas pelos maridos). Orquestra sinfónica, coros e bailarinas(os) do Estado Português, sob a regência de vários maestros de categoria internacional. Hinos patrióticos e funções folclóricas. Uma Pátria em Armas exposta aos olhos do Futuro.

A ilustração é de Hippolyte Louis Emile Pauquet (1797-1871).
 

sábado, 17 de setembro de 2022

FESTAS GALANTES

 

   E se fosse hoje? É uma questão que me coloco cada vez mais frequentemente, sobretudo ao lidar com todo o tipo de licenciosidade literária e artística produzida ao longo de vários séculos de exercício da liberdade de expressão. Exercício que, nalguns casos e em múltiplas circunstâncias, levou à morte executada, quando não lenta e tortuosa, por silenciamento infligido e exclusão imposta. O último Eixo do Mal terminou com um apontamento humorístico, disse o apresentador, e salvo erro, recortado de uma série dos anos de 1990. Parece ter sido há séculos. Pai e filho indianos falavam da monarquia inglesa, com o pai a explicar ao filho porque é que a família real era indiana. Excepto Carlos, que com aquelas orelhas só podia ser africano. “Se fosse hoje”, comentou alguém com aquele tipo de sorriso que não disfarça a angústia implícita no comentário. Também eu me angustio amiudadamente quando pergunto: e se fosse hoje?
   O riso, disse-o Baudelaire, é satânico, ameaça as estruturas do poder. Mas não é apenas o riso, o problema não me parece exclusivo da comédia nem das suas variantes humorísticas. Também no trágico a gente encontra esses trechos que nos levam a pensar no que seria de tais discursos à luz de paradigmas actuais de avaliação de uma obra de arte, seja porque logo imaginamos acusações de misoginia aqui, falta de respeito pelo culto religioso acolá, atentado às minorias além, apropriação cultural aquém, heresia, heresia, etc e tal. “Uma pessoa hoje até tem medo de falar”, sussurra-me o lado demoníaco ao ouvido. As redes sociais, com seus pelourinhos e parabolanos, lá vão exercendo juízos e tecendo sentenças de julgamentos sumários, por vezes com consequências trágicas. Pior quando entramos no domínio do discurso oficial e das leis que nos regem, assistindo a estúpidas censuras ideológicas e imbecis banimentos de obras acusadas de promoverem racismo ou outra qualquer forma de desigualdade. A higienização tem muitas vias, por vezes tão ínvias e perniciosas que nem damos por elas.
   O tempo em que a poesia chocava parece ter sido ultrapassado por um tempo em que a poesia embasbaca, sendo já estreitos e praticamente irrelevantes os poucos episódios de agitação moral que a lírica actual estimula. Escreve-se para se ser lido em soirée sem perturbar o conforto de quem escuta. É por isso que ao ler as “Festas Galantes” (Guerra & Paz, Março de 2022) de Paul Verlaine (1844-1896), um dos tais que morreu na miséria, um sorriso malévolo se nos forma no rosto, o sorriso de quem sabe serem já poucos aqueles que se aperceberão de quanto nesses poemas originalmente publicados em 1869 havia já de desassombro num autor ainda longe do homoerotismo explícito de “Hombres” (1891). Ao terceiro livro, as festas eram a do galanteio entre homens e mulheres, jogos de sedução recriados por interpostas personagens da commedia dell’arte, uma “trupe de otários” a cantar o amor ao luar, disfarçados de Pierrot, Clitandre, Arlequim e Colombina…
   Aqui o retrato da donzela maquilhada que desce a alameda pavoneando-se, acolá um passeio no parque com amantes a meterem as mãos onde não deviam: «Hábeis farsantes e belas coquetes, / Cheios de amor, mas das juras libertos, / Com doce lábia cavaqueamos, / E se mãos se insinuam nas amantes // Como quem não quer respondem por vezes / Com uma bofetada que trocamos / Por um beijo na ponta da falange / Do dedo mindinho, e uma vez que a coisa // Já está a passar de todas as marcas, / Castigam-nos com um olhar severo, / Que, de resto, contrasta com o amuo / Clemente que a boca faz com esmero» (p. 35). Hoje seria caso de assédio e o poema talvez não tivesse piada por, lá está, condescender com o infractor e tolerar a infracção. Mais grave, porém, é o “Cortejo” da donzela rodeada por um macaco e «um pretinho corado»: «Por vezes o preto levanta / Mais do que deve, o diabrete, / O rico fardo, vendo assim / Aquilo com que à noite sonha» (p. 47). Racismo? Exclua-se a obra do Plano Nacional de Leitura.
   Isto que aqui se diz em tom jocoso e porventura cínico é mais grave do que aparenta, tem que ver com a disponibilidade existente para redescobrir o passado à luz do que ele foi e não à luz do que é o presente. Há muito extintos, os banquetes substituíram o vinho na mesa por água mineral. Perdeu-se em verdade, ganhou-se em sobriedade. Haverá verdade na sobriedade? Duvido. A rectidão moralizante das narrativas vigentes chocam, portanto, com essa literatura que ousava mostrar-nos tal qual somos, não muito anatomicamente diferentes dos porcos, mais símios do que à partida nos julgamos. Quando o algoritmo censura a Vénus de Willendorf ou, como a mim já aconteceu, poemas de Antonin Artaud ou Katerina Gogou, são décadas, séculos, de progresso mental que acabam por ser postos em causa por uma máquina de padronização que, estupidificando, cristalizando, coloca de facto marcha atrás no pensamento crítico, atirando-nos para um fosso de literalidade que nos transformará cada vez mais em robots incapazes de rir de si mesmos, hipócritas e mesquinhos.
   Terminemos com um fauno de terracota, o mais curto poema desta colectânea de Paul Verlaine, belíssimo livro com as ilustrações em estilo déco de George Barbier (1882-1932) e tradução competente de João Moita:
 
O FAUNO
 
Um velho fauno de terracota
Pôs-se a rir por entre os canteiros,
Pressagia decerto o triste
Fim desses instantes serenos
 
Que nos conduziram aos dois,
Melancólicos peregrinos,
A esta hora cuja coda
Volteja ao som dos tamborins.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

SANTINHA

 
Assaltam-me por vezes memórias estranhíssimas, talvez motivadas por associações livres entre a percepção do presente e o modo como organizamos o passado dentro de nós. O rei irritado com os dedos borrados de tinta enviou-me para uma visita algures, não me lembro onde, a uma capela ou igreja ou catedral onde os restos mortais de uma santinha permaneciam, passados séculos, com os cabelos intactos. Eu ia pela mão de minha mãe, espreitámos o cadáver e seguimos. Dizia-se também que a santinha chorava incessantemente, exibindo lágrimas reluzentes no rosto, e vertia pingos de sangue no lugar das chagas de Cristo. Tudo aquilo me causou muita impressão. Como a tendência para a filosofia é coisa que nasce connosco, resolvi colocar questões: será que também tem pêlos púbicos? E o período, terá? Urina? Defeca? Espirra? Se tem lágrimas, porque não tem ramelas? E ranho? Tal como nunca acreditei no sangue azul da aristocracia, sempre desconfiei de santinhas que choram e não espirram.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

EPICURO

 


Com o tempo, o epicurismo tornou-se sinónimo de voluptuosidade. É o que o tempo faz às coisas: mais do que curar, desvirtua. Longe de mim advogar a ausência de virtude no voluptuoso. Creio na voluptuosidade toda-poderosa. Sucede que o mestre Epicuro terá sido bem mais reservado do que se julga. A mãe era curandeira, andava de casa em casa a conjurar feitiços para curar gente pobre. O rapaz foi educado pelo pai, que era mestre-escola, e, posteriormente, por um tal de Nausífanes a quem se referiu nos seguintes termos: «Este indivíduo não cessava de parir pela boca a jactância sofística, à semelhança de muitos outros escravos». Daqui se conclui ter Epicuro sido um aluno difícil. Em Atenas cumpriu serviços militares e fixou-se fundando a sua própria escola, o famigerado jardim que admitia mulheres e escravos. Está de ver que a má-língua fez o resto. Como podia uma escola digna admitir mulheres e escravos? Pois que começaram a circular rumores de orgias na escola que defendia o prazer como o bem supremo. Só que o prazer para Epicuro tem muito menos que ver com o excesso dionisíaco do que com o amor filial de Deméter, era o prazer de certa forma de exílio, fenómeno muito antigo, da malta que se retira da vida cívica para se dedicar a coisas inúteis como a filosofia e a poesia. Portanto, o prazer exaltado à entrada do jardim tem pouco que ver com excessos hedonistas. O que é curioso, até paradoxal, é a constatação de que os epicuristas acabaram por ser vítimas da maior dor de que fugiam, isto é, as falsas opiniões. Entre os detractores, o estóico Diotimo. Diz que difundiu 50 cartas licenciosas atribuindo-as a Epicuro. Posidónio, outro estóico, encarregou-se de lhe caluniar a família, chamando bruxa à mãe de Epicuro e acusando um dos seus irmãos de proxenetismo. Epicteto chamou-lhe obsceno e Timócrates dizia que Epicuro vomitava duas vezes por dia por causa dos excessos. Devemos a Diógenes Laércio a defesa de Epicuro: «A sua excessiva rectidão levou-o mesmo a privar-se de todo o contacto com a vida pública», levando uma vida simples e frugal. Os caluniadores teriam sido «completamente loucos». Entre as suas “Máximas Capitais”, gosto particularmente desta: «Não é possível viver com prazer sem viver de forma prudente, nobre e justa, nem viver de forma prudente, nobre e justa sem viver com prazer. Quem não dispõe dos meios de viver de forma prudente, nobre e justa, não pode viver com prazer». O que tem esta máxima de absolutamente revolucionário? Pois, isso mesmo, aquela necessidade de “dispor dos meios”. Como não haviam de denegrir alguém que, aceitando escravos e mulheres na sua escola, lhes dizia que era preciso dispor dos meios para viver de forma prudente, nobre e justa? 

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

UM CONTO PLAUSÍVEL DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 


A TERRA DO ÍNDIO

   O Índio, informado de que aquela era a Semana do Índio, esperava na oca a chegada de visitantes, que certamente iriam cumprimentá-lo e levar-lhe algumas utilidades como presente.
   Chegou foi um homem de papel na mão, convidando-o a mudar-se com presteza, pois a terra fora adquirida por uma empresa de reflorestamento, que estava com toda a documentação em ordem.
   O índio objetou que naquele chão viveram seu pai, o pai de seu pai e todos os pais anteriores, juntamente com a tribo. E ele não tinha para onde ir.
   O homem sugeriu-lhe que fosse trabalhar na construção do metrô do Rio de Janeiro, cuja empresa não alimenta discriminação contra índios. Era solução a curto prazo. A longo prazo, cogitava-se de criar a reserva indígena urbana de Jacarepaguá — a Indiamares —, financiada pelo BNH e controlada pela Riotur. Os índios teriam direito a INPS, férias e aposentadoria, apresentando-se em shows, como autônomos. Mas ali, não. Aquela terra tinha dono, com papel passado. Fim.

Carlos Drummond de Andrade, in "Contos Palusíveis", Livraria José Olympio Editora S.A., Rio de Janeiro, 1985, p. 48. Ilustrações de Irene Peixoto e Márcia Cabral.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

JEAN-LUC GODARD (1930-2022)

 


Acredito no homem desde que ele crie coisas. Os homens têm de ser respeitados porque criam coisas, sejam elas um cinzeiro, um carro, um filme ou um quadro. Desse ponto de vista, não sou de todo um humanista. François Truffaut falava da “política dos autores”. Hoje, tudo o que sobra é o termo “autor”, mas o que era interessante era o termo “política”. Os autores não são importantes. Hoje, é suposto respeitarmos tanto o homem que já não respeitamos a obra, e no fim só podemos respeitar o homem com palavras, e já nem sequer respeitamos as palavras.
 
“Godard 1985-1999”, org. Luís Miguel Oliveira, Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1999.
 
Jean-Luc Godard (1930-2022), “Viver a Sua Vida” (1962). "O Acossado": aqui.


ERA MUITO DIVERTIDO

 


"É preciso fazer teatro no cinema, misturar as coisas. Em tudo. Principalmente, e sobretudo, nos festivais. Parece-me grotesco que no festival de cinema de Veneza não tenha ao mesmo tempo lugar a música ou o teatro. Devia haver uma noite de música, uma noite de cinema, etc. Lembram-se daquelas jornadas em Pesaro, quando depois de vermos um filme íamos ouvir jazz? Era muito divertido."

"Creio que as pessoas que lêem são o mais extraordinário que se pode filmar. Porque é que nenhum cineasta o faz? Filmar alguém enquanto lê seria já muito mais interessante do que a maioria dos filmes que se fazem. Porque não pode o cinema consistir simplesmente em filmar pessoas a lerem bons livros? E porque não vemos isso na televisão, sobretudo agora que já não se lê nada? Aqueles que sabem contar, inventar, como Polanski, Giono, Doniol, criariam e contariam por detrás da câmara. Poderíamos escutá-los, porque quando alguém conta uma história, se for agradável, nós escutamos durante horas... O cinema recuperaria, assim, a tradição e a função do contador oriental. Foi uma enorme perda quando perdemos o interesse pelos contadores."

Jean-Luc Godard, 1967. 
Versão de HMBF.


PAIS HÁ MUITOS

 
2010: Chamado pelo semanário Der Spiegel de "pai fundador do novo cinema francês", Rohmer também é lembrado pelo "mar de possibilidades" que sempre ofereceu a seus heróis e heroínas na tela.
2014: Morre Alain Resnais, o patriarca da Nouvelle Vague.
2016: O cineasta francês Jacques Rivette, considerado o pai da "Nouvelle Vague" junto a Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Chabrol, morreu nesta sexta-feira, aos 87 anos, informou sua produtora, Martine Marignac.
2016: Morreu o cineasta e escritor francês Alexandre Astruc, pai espiritual da Nova Vaga.
2022: Morreu o cineasta Jean-Luc Godard. Pai da Nova Vaga francesa morreu esta terça-feira aos 91 anos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

domingo, 11 de setembro de 2022

IMBROCHÁVEL

 


Um apoiante de Bolsonaro esfaqueou até à morte um apoiante de Lula, no mais recente caso de crescentes tensões políticas na preparação para as eleições deste ano. A violência aconteceu no estado de Mato Grosso durante uma discussão sobre o apoio aos dois candidatos. Bolsonaro está atrás de Lula nas sondagens, numa disputa marcada por extrema polarização. De acordo com o boletim de ocorrência da agressão, Rafael Silva de Oliveira, 24 anos, matou Benedito Cardoso dos Santos, 42, esfaqueando-o com uma faca. O suspeito confessou o crime e foi detido. Presumo que para os apoiantes de Bolsonaro este episódio venha dar razão à intenção de ampliar o acesso a armas no Brasil. Se o apoiante de Lula estivesse armado, podia ter-se defendido disparando sobre o apoiante de Bolsonaro. O Messias não falha, o Messias não erra, o Messias é o maior. Em nome do Pai, dos filhos dele, belos rapazes, e do Espírito Santo que anda a comprar imóveis (51?) em dinheiro vivo. Ah, valentes.

sábado, 10 de setembro de 2022

A MANUAL FOR CLEANING WOMEN

 


   Já não sei se foi em 2015, ano desta edição de “A Manual for Cleaning Women”, ou em 2016 que o Vítor Rodrigues me deu a conhecer os contos de Lucia Berlin (1936-2004). Há-de ter sido por aí. Li-o com o entusiasmo de quem faz uma grande descoberta, conquistado pela escrita crua e transparente, mas também pela agilidade com que supostamente o biográfico era fintado pela ficção e esta se deixava frequentemente contaminar por aquela. Entretanto, o livro foi publicado por cá, ao qual se seguiram outros dois, e muita tinta correu sobre a escritora norte-americana. Recordo-me de pensar, enquanto a lia pela primeira vez, que nunca tinha lido uma mulher a escrever de um modo tão aberto, tecendo à época comparações com a escritora beat Diane di Prima (1934-2020) e com Grace Paley (1922-2007), conjecturas inadequadas quer pelas comparações, quer pela estúpida tendência para pensar a “escrita no feminino” como uma espécie de gueto no campo da literatura.
   Na verdade, não há muitos escritores com a capacidade que Berlin demonstrou ter de ouvir atentamente o mundo à sua volta fazendo da ficção um registo urgente dessas auscultações. Com uma vida tão rica em experiências e aventuras, não admira que tenha aproveitado esse material para escrever os seus contos. Isto não lhe nega inventividade. Antes pelo contrário, a sua particularidade mais cativante é precisamente o modo como logra moldar o material biográfico resgatando-o do registo meramente confessional, oferecendo-lhe uma dramaticidade que já pouco tem que ver, por exemplo, com a ausência de encenação num Charles Bukowski (1920-1994). Neste, vida e escrita confundem-se. São uma e a mesma coisa. A gente lê-o como se estivesse a vê-lo, acompanhando-o como uma sombra. Em Lucia Berlin, a escrita resulta já de uma encenação do vivido. O que vemos é uma peça, estamos na posição do público que observa um actor, não na do fetichista que espreita pelo buraco da fechadura: «E se os nossos corpos fossem transparentes, como a janela numa máquina de lavar roupa? Quão maravilhoso seria podermos observar-nos» (Do conto “Temps Perdu”).
   Lydia Davis (1947), outra excelente contista, sublinha-lhe o wit e a ironia. O wit é uma forma de humor muito norte-americana, enraizada na verve satírica de Ambrose Bierce (1842-1913), e tem que ver com o modo como a sagacidade se mistura com a mordacidade: «Não podia ir para o paraíso porque era protestante. Ficaria pelo limbo. Preferia ir para o inferno a ficar no limbo, palavra horrível, tipo bimbo, ou pimba, um lugar sem nenhuma dignidade» (Do conto “Stars and Saints”). Resulta de um olhar atento, perscrutador, porventura cínico, à moda dos gregos, capaz de num rasgo desmontar preconceitos e denunciar hipocrisias.
   Os contos desta colectânea oferecem-nos, com peso e medida, algumas dessas frases que, destacadas, dariam aforismos cáusticos, saídos de um leque de personagens estigmatizadas por vícios vários (álcool, droga), num estado de desolação que alterna com instantes de ternura, vivendo as suas vidas de imigrantes excluídos, gente deslocada e isolada, peças defeituosas na linha de montagem do grande sonho americano, vivendo as suas vidas concretas com os problemas concretos que afectam as pessoas concretas: aborto, cancro, psiquiatria, divórcio, incerteza religiosa, «Medo, pobreza, alcoolismo, solidão, são doenças terminais. Na verdade, urgências» (Do conto “Emergency Room Notebook, 1977”).
   Também há momentos de pura felicidade, claro, memórias familiares, relações amorosas (quase sempre falhadas), paixões (quase sempre intensas), o jazz, e uma paisagem humana tão diversa quanto é a da sociedade norte-americana, do velho índio solitário à imigrante mexicana que trabalha nas limpezas, passando por rufiões, foras da lei, rapazes dos gangues, prostitutas, gente sem-abrigo. Que alegria, ler livros em que as personagens não são escritores atormentados com o meio literário nem gente culta que passa a vida em óperas e a ver cinema francês e a discutir música erudita. Mexicanos, sírios, negroes, gente com quem Lucia Berlin conviveu ao longo da vida e nestes contos de algum modo expia: «Talvez isto não seja uma coisa assim tão perigosa, permitir que o passado regresse com o prefácio “ E se?” E se eu tivesse falado com o Paul antes de ele partir? E se eu tivesse pedido ajuda? E se tivesse casado com o H? Aqui sentada, a olhar pela janela a árvore onde agora não há galhos nem corvos, as respostas para cada “e se” são estranhamente reconfortantes. Não podiam ter acontecido, este “e se”, aquele “e se”. Tudo o que de bom ou mau aconteceu na minha vida era inevitável e previsível, sobretudo as opções e as acções que explicam a minha completa solidão» (Do conto “Homing”).