segunda-feira, 8 de junho de 2026

SERVIÇO PÚBLICO

Serviço público é bater palmas
convidar abutres para banquetes de ossadas
dar banho a cães sarnentos
abraçar cobras peçonhentas
beijar mãos e pés ao Papa
catar macacos do nariz
fazer sala em cock tails de fim de tarde
traduzir cock
traduzir tails
juntar as letras e produzir palavras
juntar palavras e produzir expressões
juntar expressões e produzir frases
com que varrer para debaixo do tapete
as migalhas percentuais do apoio às artes
é servir educação em pratos recicláveis
ter prato vegetariano na cantina geral
incluir géneros e identidades
classes e elites
ser altamente experimental
com sonolentas respirações aos pulos
excluir burcas
e déjà vodus com caras de ministros
é andar aos papéis em plataformas digitais
patinar
cair
levantar
e cumprir airosamente os objectivos traçados
com avaliações da casa traçadas com gasosa
ao preço do melhor Cabernet Sauvignon
é por exemplo esturrar ao sol
depois de deixar esturrar a torrada
mergulhada em manteiga vegetal
para dieta neuronal
é meter gosto na página certa
párretilhárre e cômentárre
num comprimento de não sei quantos subscritores
que dêem a volta ao cozido na ponte vasco da gama
a palitar os dentes da consciência
com unhaca de taberneiro
Serviço público é ligar a RTP
pagar taxa audiovisual
adivinhar o preço certo
dançar na praça da alegria
ser ignorado nas opções do palmeirim
em horário salsicha
fazer orelhas moucas dos santos
furtar catarinas
e manter actualziado o relatório de actividades
que algum sub sub secretário do secretário da ministra
lerá nos intervalos da selecção nacional

quinta-feira, 4 de junho de 2026

MARJANE SATRAPI (1969-2026)

 


ESPECTÁCULO

 
Esta noite sonhei que estava no teatro. Andava numa correria, era o único assistente de sala num auditório enorme. As bichas de espectadores davam a volta ao quarteirão, com uma particularidade: eram todos poetas. Neo-realistas, surrealistas, experimentalistas, criacionistas, modernistas, pós-modernistas, farsistas, românticos, neo e proto, classicistas, parnasianistas, futuristas, marginais, concretistas, maneiristas, barroquistas e barraqueiros, espiritualistas, sensacionalistas, sensacionistas, humanistas, anedotistas, naturalistas, naturistas, entre outros. Todos sentados e instalados, a luz do público baixou num lentíssimo e interminável fade out. O actor entrou. Curiosamente, tinha a minha cara e o meu corpo, mas não era eu. Subiu a luz no palco e o actor esperou, esperou, esperou, esperou e continuou a esperar que o público exclusivamente composto por poetas se manifestasse, que dissesse um poema, um verso que fosse. Nada, silêncio sepulcral. Os poetas não falavam, não sabiam poemas, não sabiam dizer, apenas escreviam e pronto, estavam ali para ver e para ouvir sem saberem que o espectáculo consistia naquilo: um actor em cena a observá-los, à espera que dissessem alguma coisa. Não disseram nada, não diziam nada, ficaram mudos e calados.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

ODE A KAVÁFIS

 
Os dias começam sempre à hora errada
e só no fim vencem com a paz do sono
 
Impelidos pela vaidade dos deuses
em busca de louros sem espinhos
seguimos em trânsito das aldeias para as vilas
e destas até às cidades
sentindo nos ombros o peso da derrota
que nos devolve ao ponto de partida
 
Com o tempo aprendemos talvez a queda de Roma
e de Bizâncio, que Babilónia afundou-se
e dos impérios restam ruínas e destroços
nada didácticos nesta corrente de futuros babélicos
 
Queixamo-nos da pouca sorte
da fortuna madrasta
do desconcerto do mundo
do mortal quebranto lançado por inimigos
tão fantasmáticos quanto os heróis literários
 
Lançada a semente na terra
só com paciência poderá ser regada a planta
até o fruto falar na boca de quem come
 
É certa a repetição dos dias
como a distribuição das horas pelos calendários
com que ateamos piras
onde cremar frustrações
mas um dia paramos e vemos arrastadas pelas águas
as ambições outrora vigorosas
os sonhos outrora vigilantes
 
Fama, reconhecimento e prestígio
são então coroas de espinhos na cabeça dos vencidos
 
Derrotados e derreados dançamos ao som de apupos
agradecemos a pateada com sorrisos no rosto
a indiferença é o nosso escudo de Aquiles
contra a espada de Dâmocles
 
Pelejamos com esquecimento e morte
até ao último suspiro
e continuamos depois de mortos
a fazer do fracasso uma festa

terça-feira, 2 de junho de 2026

SANTOS POPULARES

 

Arraiais, carnavais, cortejos, desfiles, feiras medievais, festas e festivais, peregrinações, picarias, queimas das fitas, marchas populares, sunset parties, tasquinhas, touradas, largadas. E conceitos, muitos conceitos, conceitos para tudo e para mais alguma coisa. Até já inventaram as sardinhas e os manjericos de conceito. Espremido, é mais do mesmo, tédio, boçalidade, a uniformização do gosto, um calendário repetitivo, monótono, promotor da parolice, da saloiíce, com multidões de indivíduos que não se distinguem uns dos outros, singularidades hipotecadas, chusmas de criaturas copiadas a papel químico, robots, clones aos pulos tingidos de alegrias infinitas e ruas repletas de lixo a cheirarem a mijo.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

BANQUETE

 
São tantos dentro de um só, em busca de sentido para a multidão que corre e se agasta e se prostra como bandos de abutres a pairar sobre carcaças velhas. Tantos dentro de um só a remoer os ossos cegos, surdos e mudos das ambições sem mesura, a vomitarem pelos olhos o que emprenharam pelos ouvidos: nada com eles, não sabem, não viram, e só a curiosidade pesa no voo rasante que serpenteia com renovados venenos as presas fáceis de capturar. Horas e mais horas investidas a projectar futuros que chegam sempre com atraso e não raras vezes se perdem pelo caminho, como génios na esquina do esquecimento. Mas descansai, ó abutres, há mortos que emergem do Hades com a mesma cara de parvos que tiveram em vida para que possais satisfazer vossa ávida gula necrófila. Podeis então palitar o bico com perónios desossados pelo cansaço das peregrinações que sempre levaram os fiéis a lugar nenhum. (Numa exposição de Manuel João Vieira, Maat).

domingo, 31 de maio de 2026

UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD

 


VÉNUS ANADIÓMENA

Como de um verde caixão de lata, a cabeça
De uma mulher, cabelo castanho e pastoso,
Lenta e estulta, emerge de uma velha banheira,
Cheia de deformidades mal disfarçadas;

Depois a farta nuca, as grandes omoplatas
Saídas; as costas cheias de reentrâncias;
E os bolbos dos rins, que parecem descolar;
Sob a pele, a banha surge em lisas camadas;

Um tanto vermelha, a espinha, e o todo liberta,
Que estranho, um cheiro horrível; vê-se sobretudo
Singularidades que requerem a lupa...

Nas nalgas, dois nomes gravados: Clara Venus;
- E toda em requebros alça e larga garupa
E expõe, bela e medonha, uma chaga no ânus.

27 de Julho de 1870

Arthur Rimbaud, in Poesia, tradução e notas de João Moita, prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Assírio & Alvim, Setembro de 2025, p. 61.

DIGRESSÃO

Passaram o amigo de infância, a antiga colega de curso, a estrela da telenovela, o crítico histórico – na reforma -, o radialista, o realizador de cinema (dose dupla), o animador cultural, o designer, os amigos e os amigos dos amigos, colegas de trabalho, etc. Nem um poeta, um único. Nem um poeta.

sábado, 30 de maio de 2026

LX 26

27.05: Está aqui um tipo à minha frente a raspar raspadinhas com a língua de fora. Subitamente, ocorre-me haver qualquer coisa de onanista nisto das raspadinhas. Devíamos passar a dizer bater raspadinhas. Onde vais? Vou ali bater uma raspadinha.

*

28.05: O patrão da petisqueira Estrelinha trata-me por querido. A patroa trata-me por menino. A empregada chama-me jovem. Estou à espera que um dia alguém se me dirija por "querido jovem menino". Então querido jovem menino, o que é que vai ser? Vou ser querido, vou ser jovem, vou ser menino.

*

29.05: Está a decorrer a maior Feira do Livro de Lisboa de sempre, rendida a dois ou três grandes grupos editoriais com pavilhões como nunca se viu. Por esta altura, o Parque Eduardo VII povoa-se de pavões nos pavilhões e de crocodilos que se fartam de chorar sempre que uma livraria independente desaparece.

*

30.05: 45 minutos à espera para ser atendido numa farmácia. Dois funcionários no atendimento ao público, três a andar de um lado para o outro. Gente a reclamar para orelhas moucas. Finalmente chamado, lá vou debitando os números da receita. Um, dois, três números. Quatro vezes pronunciados, porque havia sempre algum que falhava. Quer genérico ou de marca, perguntou a estimável de serviço. Quero ir-me embora daqui quanto antes, respondi-lhe. Ah, é que posso não ter genérico. Então traga o que tiver, eu depois pago-lhe com a minha simpatia genérica. E pronto, é isto.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

UMA CRIANÇA OCUPA O TEMPO

 
Uma criança ocupa o tempo
a construir castelos de areia
Senta-se à espera que a maré
engula o que ela construiu
 
Um velho entra dentro do castelo
e instala-se numa das torres
Espera que a maré o leve
até uma qualquer ilha deserta
 
Mas o tempo passa e a criança
regressa a casa de mão dada
com o velho que por ali ficou
enrolado nas ondas dos sonhos
 
que são como castelos de areia

quinta-feira, 28 de maio de 2026

DE UMA PEÇA DE ANTON TCHÉKHOV

 


JIDÁLOV (Para Dimba)
   Mais uma rodada, ou quê? (Serve.) Em qualquer momento se pode beber. O mais importante é a acção, Kharlampi Spiridónitch, para não esquecermos os assuntos. Bebe, mas mantém a cabeça fresca... Mas se é para beber, porque não se há-de beber? Pode-se beber... à sua saúde!
Bebem.
   Vocês lá na Grécia têm tigres?
DIMBA
   Temos.
JIGÁLOV
   E leões?
DIMBA
   E também há leões. Na Rússia é que não há nada, mas na Grécia há de tudo. Eu tenho lá o meu pai e um tio, e irmãos, e aqui não tenho nada.
JIGÁLOV
   Hum... E há cachalotes na Grécia?
DIMBA
   Há de tudo.
NASTÁCIA TIMOFÉIEVNA (Para o marido.)
   Para quê estar para aí a beber e a petiscar à toa? É tempo de todos se sentarem. Não espetes o garfo nos lagostins... Isso está aí para o general... Pode ser que ele ainda venha...
JIGÁLOV
   E na Grécia também há lagostins?
DIMBA
   Há--- Há de tudo.
JIGÁLOV
   Hum... E também há funcionários civis? Há?
ZMEIÚKINA
   Posso imaginar a atmosfera que há na Grécia!
JIGÁLOV
   E por certo também há muita gatunice. Os gregos são como os arménios ou os ciganos. Para nos venderem uma esponja ou um peixe-dourado falam de uma maneira que nos intrujam. Repetimos, ou quê?

Anton Tchékhov, traduzido por António Pescada, da peça A Boda, in Peças em Um Acto, Relógio D'Água, Abril de 2026, pp. 142-143.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

CATARATAS DE BARATAS

 
Em "Na estrada real", de Anton Tchékhov, a peregrina Nazárovna comenta, enquanto descansa na taberna de Tíkhon: "Ouves? Soltaram-se as cataratas do céu." Leio isto e vem-me à memória Luís Miguel Cintra, em "Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço", de João César Monteiro: "agora já caem baratas do tecto”, dizia ele sentado à mesa de um café. Cataratas que caem do céu, baratas que caem do tecto. Escolham vocês.

terça-feira, 26 de maio de 2026

SENTIDO ÚNICO

 
Pagas a água, pagas o gás
pagas o gasóleo, pagas a luz
pagas a renda, pagas o IMI
pagas IRS, descontas, pagas
pagas o que comes, pagas o que vestes
pagas portagens, pagas passe
pagas bilhete, pagas ingresso
pagas a factura, pagas a taxa
pagas a contribuição audiovisual
pagas o médico, pagas a farmácia
pagas o avio, o diploma, a concessão
pagas o alívio, o ar condicionado
pagas o mobiliário, os talheres
pagas para provar que existes
pagas a multa, o atraso, a infracção
pagas com as próprias mãos
pagas o comprovativo, o papel
pagas juros, despesas de manutenção
pagas com trabalho
trabalhas para pagar
pagas para viver
vives para trabalhar
vives para pagar
e depois morres

segunda-feira, 25 de maio de 2026

OS JUGOSLAVOS

 


Não sei de onde vem a tristeza. Está sempre aí, à espreita, e de repente lança-se sobre nós. É o maior dos mistérios, porque é que as pessoas ficam tristes. Eu vi pessoas a rir que se fechavam na casa de banho a chorar, e vi homens que diziam coisas terríveis ao espelho. De certeza que também há mulheres que falam aos espelhos. Suponho que essas pessoas, as pessoas que falam aos espelhos, precisam de dizer qualquer coisa e não encontram a quem o dizer. Alguém que seja suficientemente forte, porque é preciso ser-se muito forte para correr o risco de que os outros nos arrastem. Porque, tal como a alegria, a tristeza de outra pessoa também pode levar-nos consigo.

Juan Mayorga, in Os Jugoslavos, tradução de António Gonçalves, Artistas Unidos / Livrinhos de Teatro, SNOB, Janeiro de 2026, p. 49.

SONNY ROLLINS (1930-2026)

 


domingo, 24 de maio de 2026

GALETO

Uma borboleta defronte
bate asas no meu peito

Com toldos nos olhos
levanta voo o desejo

Do lado direito rodopiam
pernas escancaradas
sob sedas serpenteadas

Um croquete preliminar
e fico-me pela bifana

GENTRIFICAÇÃO

 

Escreve João Vieira Pereira, no Expresso:

"A gentrificação não só arrasou bairros inteiros como está a mudar cidades e até regiões. O centro de Lisboa é hoje disputado entre o turista e o residente milionário. O mesmo se passa na linha de Cascais. A poucos minutos para norte, a Ericeira tornou-se um dormitório de jovens estrangeiros a viverem o sonho de serem nómadas digitais. Troia e Comporta estão a transformar-se em guetos para milionários que acham que ganharam o direito de escorraçar todos os outros que não partilham o mesmo gestor de fortunas. Os condomínios privados, com preços em que apenas um lote de terreno chega aos vários milhões de euros, são recebidos com orgulho pelo português, pacóvio e deslumbrado, mas que nunca terá dinheiro para lá entrar. O mesmo que não percebe que a abertura de escolas internacionais com mensalidades de vários milhares de euros é apenas uma resposta de uma elite predisposta a sugar a qualidade de vida que encontraram e que nessa senda procuram transformar-nos no espelho do país que deixaram para trás. Esta invasão milionária está a descaracterizar Portugal a uma velocidade vertiginosa."

Um país a saque, cada vez mais desigual, entretido com feiras, festas e festivais, fátimas, futebóis e fados, um país que é cada vez mais aquela imagem de um homem a afundar-se num pântano que Manoel de Oliveira nos legou: a mão, a mão, suplicava o desgraçado, enquanto à volta dele os miseráveis bulhavam sem conseguirem organizar-se. Na AR, horas infindáveis de questiúnculas sem sentido, burcas, notas de pesar e palermices entretêm o pagode. E o país é isto, esta boçalidade, esta indigência, tudo rendido ao negócio, ao lucro, à sala cheia a qualquer preço. Mas fiquem descansados: não há qualquer proibição de colocar os chapéus à frente das zonas concessionadas nas praias. Que alívio.

sábado, 23 de maio de 2026

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

 


Visita aos arquivos Ephemera na Vila da Marmeleira. Guardem tudo, não destruam nada, repetiu insistentemente JPP, que começou por citar Brecht para justificar uma história que se recupera não só pelos Césares, mas também pelo quotidiano comum. Evitarei juízos de valor sobre o bicho que corrói as provas, até por vivermos num tempo em que a memória está sob ataque. O esquecimento diz-me muito, é o motor da escrita, da criação, é esta paradoxal vontade de deslocar para fora o que pesa dentro. E depois as coisas ficam por aí, pilhas sobre pilhas de objectos, palavras, documentos que alguém se encarregará de conservar ou transformar em cinza. No jardim, um prato de parede com uma quadra: «Os calos das tuas mãos / São bem as tuas medalhas, / São o símbolo da nobreza / Que tu tens porque trabalhas.» Poesia popular, dizem, sem autor que se conheça. E no entanto, ali está para a eternidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

MISSA DE DOMINGO

 
dói-me a boca de tanto escrever
com os pés
chatos
 
dói-me o carácter móvel
a tinta-de-choco norueguês
 
ah como me dói
o opus orgelwerke
a assobiar para o ar
mandamentos do Senhor
 
amarás o time-sharing com todo o teu coração
que eventos leva-os o vento
nas poeiras de África
 
amarás com toda a tua lama e com todas as tuas forcas
a audiência
a quota de mercado
e não invocarás os santos especuladores em vão
 
santifica domingos
sunset parties
feiras festas e festivais
 
é dia da ração
dia de poetas
honra pai mãe filhos e espíritos santos
atacados de Alzheimer
 
não matarás colonos sionistas
guardarás castidade nas palavras e nas obras
obrarás sem refreio
que nada se constrói sem destruição
 
não furtarás
colonizarás árvores de furto
from the river to the sea
 
ó deus dos incrédulos
ó misericordioso do cinema às cinco
guarda castidade nos pensamentos e nos desejos
usa preservativo
preserva
pré-reserva
USA
 
e se por acaso alguém levantar falsos testemunhos
condena
não perdoes
que este é o reino das coisas alheias à cobiça
reino de encher chouriços
do cu
para a missa