antologia do esquecimento
terça-feira, 22 de setembro de 2026
JOSÉ VIALE MOUTINHO (1945-2026)
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
JORGE PALMA (1950-2026)
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
SIGUR RÓS NO CAMPO PEQUENO
Acontece por vezes pressentir uma muralha no olhar, um filtro, não, uma bolha, não, uma raiva escondida, talvez, inveja, será, um olhar que nos trava, empurra, afasta. Acontece por vezes alguém olhar-nos assim com pedras nos olhos, acontece por vezes alguém parecer-nos inflamado, prestes a explodir, gestos como martelos, acontece. E também acontece quem trema, não de medo, não de frio, mas de paralisia, quem trema de nervos contidos, a ansiedade que toma conta do corpo e se manifesta à superfície das mãos, das faces. E acontece o cansaço tomar conta de nós como uma corrente no pescoço de um cão, acontece aquela saturação escavadora de abismos, o pensamento sem rumo nem organização, as palavras retidas numa fadiga impaciente. Nada nos acalma, nada pacifica. Acontece muito. Mais raro é no meio do turbilhão a paz emergir e a pele dar de si com arrepios que insuflam o cérebro e te fazem retomar um certo equilíbrio, uma certa esperança, uma certa vontade de permanecer. Acontece muito pensar na morte como alívio, o termo de todas as dores e frustrações, o teu ansiado silêncio, mais raro é acontecer pensar na vida enquanto possibilidade de silêncio recortado por melodias apaziguadoras, regeneradoras. Estamos sempre a renascer da morte em que vivemos. Não sei se mais fortes, se igualmente débeis, pois os olhos murados de pedra inacessível permanecem ameaçadores. Diz-se que o distanciamento é a melhor cura contra a toxicidade, mas o distanciamento pode impelir-nos para uma solidão irreversível. Acontece por vezes ser a proximidade o melhor remédio contra o cansaço de si mesmo. Então, levados pelas ondas de luz e de som, emalados pelo coro e pelas orquestras, mesmo que não nos sintamos rejuvenescidos temos, pelo menos, mais uma razão para dizer: ainda vale a pena respirar.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
UM POEMA DE ALVARO GARCÍA DE ZÚÑIGA
questionário para um inquirido
Se eu colocar uma questão, onde a coloco?
Onde estava a questão antes de ser colocada?
Podemos responder a uma questão com outra questão?
Porque podemos responder a uma questão com outra questão?
Será uma resposta?
Ou porventura uma questão-resposta?
Uma pessoa que responda com uma questão é um respondedor?
Ou um questionador?
Pode-se levantar uma questão?
Até onde se pode levantar uma questão?
Pode-se levantar uma questão já colocada?
Porquê colocar uma questão se podemos continuar a levantá-la?
Pode-se colocar uma resposta?
Ou levantar uma questão colocada?
Podemos levantar respostas?
Pode-se levantar uma questão acima da resposta?
Uma questão-resposta é uma questão?
Uma questão-resposta é uma resposta?
Uma boa questão é uma questão que não faz mal à resposta?
Uma boa resposta é uma resposta que não faz mal à questão?
Uma boa questão é colocada num lugar diferente de uma questão vulgar?
Uma questão por colocar, terá ela respostas?
Onde estão as respostas das questões por colocar?
Uma questão por colocar, será ela uma questão?
As respostas das questões por colocar, repousam?
Uma questão põe-se e uma resposta repousa-se?
Se eu carregar uma questão e a colocar, será possível inverter colocação e carregação?
E a questão?
Podemos responder a uma questão invertida?
Uma questão invertida é uma resposta?
Responda.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
FIO MENTAL [fragmento]
domingo, 13 de setembro de 2026
UM POEMA DE KAVÁFIS
sábado, 12 de setembro de 2026
CADÁVER ESQUISITO
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
LER UM POEMA
João Pedro Mésseder e Rachel Caiano, in Tudo é Sempre Outra Coisa, Editorial Caminho, 3.ª edição, 2014, p. 40.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
ÁCAROS
domingo, 6 de setembro de 2026
50 x 46
Por vezes o cansaço é tanto que a concentração dispersa, leva-nos para paragens ruidosas que fazem ansiar por silêncio e solidão. O pântano da mundanidade, chamemos-lhe assim, obriga-nos a estar com quem não queríamos estar, a falar com quem preferíamos não ouvir, a calar, a engolir, e o corpo desequilibra-se e a cabeça dispersa e o caos instala-se. Fechar os olhos, como nos anos 90 ensinava a banda de Stuart A. Staples. Chorar não choro, é raro, ou choro por razões inadvertidas, pueris, uma cena num filme comovente, algo lido que desperta sentimentos recalcados, a memória do perdido ou daqueles que, sem estarem perdidos, a distância como que matou. Por vezes vasculho em cadernos antigos a tentar reencontrar uma caligrafia menos saturada, a caligrafia de um corpo protegido das víboras e dos ratos, da peçonha desses olhos dentados que mordem sem nos tocar. O que é feito da alegria de viver? Onde se meteu ela? Ainda sorrimos, é certo, mas no sorriso contorcem-se os nervos e uma espécie de amargura toma-nos conta da boca. O mais estranho é estarmos cientes dos perigos acarretados pelo envelhecimento. Neste momento, neste preciso momento, falham as palavras, o teclado parece ter as teclas fora do lugar, o abecedário todo baralhado. Em boa verdade, tudo parece fora do lugar e o mais estranho é talvez ser esse o lugar mais apropriado das coisas. Entre o primeiro álbum dos Tindersticks e Simple Pleasure, de 1999, passaram seis anos cruciais: o esgotamento, os ataques de pânico, a depressão. Iniciado um novo século, esforçámo-nos por esconder a dor silenciosa da insatisfação. Hoje alguém disse “genial” e foi como se nada, nenhum prazer retirado do elogio, nenhuma consolação. Resolvi, então, regressar à banda britânica na esperança de reencontrar, pelo menos, um certo conforto na melancolia das canções, uma orquestração capaz de embalar o tédio. Vou continuar a tentar.
sábado, 5 de setembro de 2026
KAMA SUleTRA
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
A FINGER FOR A NOSE
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
ECOS
Também o som tem o seu tempo. Da boca que fala ao ouvido que escuta, o som demora-se e faz-se palavra, navega nas ondas do espaço como uma nave invisível cuja tripulação é feita de signos. É um sinal que ondoleia, o som. Demora-se, estende-se, segue em espiral abrindo buracos no tempo. O tempo do som ocupa o seu espaço, o espaço do som demora-se no tempo. (em casa do Francisco, a ouvir ecos)











