quarta-feira, 16 de setembro de 2026

UM POEMA DE ALVARO GARCÍA DE ZÚÑIGA

 


questionário-cantilena
questionário para um inquirido

 
Posso colocar-lhe uma questão?
Se eu colocar uma questão, onde a coloco?
Onde estava a questão antes de ser colocada?
Podemos responder a uma questão com outra questão?
Porque podemos responder a uma questão com outra questão?
Será uma resposta?
Ou porventura uma questão-resposta?
Uma pessoa que responda com uma questão é um respondedor?
Ou um questionador?
Pode-se levantar uma questão?
Até onde se pode levantar uma questão?
Pode-se levantar uma questão já colocada?
Porquê colocar uma questão se podemos continuar a levantá-la?
Pode-se colocar uma resposta?
Ou levantar uma questão colocada?
Podemos levantar respostas?
Pode-se levantar uma questão acima da resposta?
Uma questão-resposta é uma questão?
Uma questão-resposta é uma resposta?
Uma boa questão é uma questão que não faz mal à resposta?
Uma boa resposta é uma resposta que não faz mal à questão?
Uma boa questão é colocada num lugar diferente de uma questão vulgar?
Uma questão por colocar, terá ela respostas?
Onde estão as respostas das questões por colocar?
Uma questão por colocar, será ela uma questão?
As respostas das questões por colocar, repousam?
Uma questão põe-se e uma resposta repousa-se?
Se eu carregar uma questão e a colocar, será possível inverter colocação e carregação?
E a questão?
Podemos responder a uma questão invertida?
Uma questão invertida é uma resposta?
Responda.
 
Alvaro García de Zúñiga, in “Peaux et Scies", BlablaLab, Novembro de 2017, pp. 81-82. Original em francês. Versão portuguessível de HMBF.

domingo, 13 de setembro de 2026

UM POEMA DE KAVÁFIS

 



SACERDOTE DE SERÁPIS
 
Meu bom e velho pai,
que com o mesmo afecto sempre me amou:
meu bom e velho pai eu choro,
que morreu anteontem, pouco antes da madrugada.
 
Jesus Cristo, que eu guarde sempre
os preceitos da tua santíssima Igreja
em cada acto, em cada palavra,
em cada pensamento – eis o meu zelo
quotidiano. E a quem vos nega,
abomino. – Mas agora choro:
deploro, Cristo, a morte de meu pai
embora ele tenha sido – terrível é dizê-lo –
sacerdote do execrável Serápis.
 
[1926]
 
K. P. Kaváfis, in Aquele Belo Rapaz – poesia completa, tradução de José Luís Costa, posfácio de Tatiana Faia, Assírio & Alvim, Novembro de 2025, p. 141. Nota de José Luís Costa na p. 443 da mesma obra: «O culto de Serápis, promovido pelos monarcas ptolomaicos no Egipto desde 300 a.C., é um caso evidente de hibridismo, uma amálgama entre deuses egípcios (Ápis e Osíris) e gregos (Zeus, Hades, Asclépio, Dioniso, Hélio), numa tentativa de unidade cultural. O seu templo, o Serapeum (no original), era uma das maravilhas da cidade de Alexandria.» A fotografia foi tirada ontem no Santuário de Panóias, onde, dizem os entendidos, prestar-se-ia culto a Serápis.

sábado, 12 de setembro de 2026

CADÁVER ESQUISITO

 
Era uma vez um médico que era como um íman
tão grave como cogumelos com textura de amendoins
TORRADOS, ACABADOS DE COMER, E O VINHO ENTORNADO
pelo palco, libertando o perfume da poesia
e então, olha, ainda bem que não vieste. De qualquer forma, não teria espaço para ti. A tua presença é como um tipo
de coca-cola, casa de banho ou pano muito malcheiroso!
Ó sapo dum cabrão, lava-te, cheiras a cão.
Rããããã hmmmmmmmmmm
Cããããã, TAN, TAN, PUM, PUM
Poing, fez a bola quando bateu na rede, o público gritou e então o touro
entrou e saiu. foi curto desta vez para variar
como num teatro de variedades
daqueles filhos da mãe que gritavam pelo pai e diziam vai, vai, é um sapo na piscina seca
Na água
 
Cadáver esquisito por Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Barros, José Carlos Faria, Nuno Machado e Rebeca Vendrell, a 11 de Setembro de 2026, no Bar Portinha, em Vila Real.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ECOS

Também o som tem o seu tempo. Da boca que fala ao ouvido que escuta, o som demora-se e faz-se palavra, navega nas ondas do espaço como uma nave invisível cuja tripulação é feita de signos. É um sinal que ondoleia, o som. Demora-se, estende-se, segue em espiral abrindo buracos no tempo. O tempo do som ocupa o seu espaço, o espaço do som demora-se no tempo. (em casa do Francisco, a ouvir ecos)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

sábado, 29 de agosto de 2026

JAVALIS

 
Estou apaixonado pelos javalis que atacam pessoas nas praias, pessoas que ficam de telemóvel na mão a gravar os javalis que as atacam. Belos bichos, os javalis.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

CICLOS

 
Agora que os campos secam
com sementes de pó lavradas
venham os ventos
tragam as águas
para que da morte vida nova renasça
e em descanso possa o fruto apodrecer
na boca faminta dos mortos

Amenotepe IV, Egito, 1334 a.C.. Versão de Epifânio Carmino.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

AUTO DA PERSIGNAÇÃO

 

Um homem sem braços entra na Capela de Nossa Senhora dos Prazeres. A seu lado, uma auxiliar vai dizendo os apartes justificados à direita. Diante do altar, ajoelha-se o homem e persigna-se com a ponta do nariz, invocando a Santíssima Trindade:
 
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
aqui estamos, Senhor, por tua obra e desgraça
Graça.
Melhor fora que não estivéssemos
pois no estado em que nos encontramos
nem para dar descanso à comichão servimos
 
A auxiliar prepara o sermão, à laia de vira-páginas.
 
Já os antigos lamentavam:
Zeus pai, nenhum deus é mais destrutivo que tu.
Não sentes compaixão dos homens, apesar de os teres criado:
envolves-nos na miséria e nos sofrimentos dolorosos.
Palavras de Filécio, Condutor de Homens.
Vede bem, ó pai omnisciente, a miséria
em que ficámos por culpa de ignotos pecados
Que mal fizemos? Em que te traímos?
Não foi em teu nome que matámos, saqueámos, despojámos, violámos?
Não foi por ti, ó Criador, que tanto destruímos?
Criador de todas as coisas
justiça com as próprias mãos já não farei
Consente nesta hora que com a língua a faça
Dizei, por Deus.
 
Ah, pobre de mim, se dos meus braços uma mulher tivesses moldado
como da costela em sono retirada Eva geraste
Génesis, 2,22.
Agora nem mulher nem mãos, nada me resta,
a ânsias insaciáveis vejo-me condenado
Viril ‘inda me sinto quando de pé permaneço
mas a dor fantasma persiste
onde antes havia dedos em que pôr anéis
mãos com que embalar o berço
e braços com força de bois
Por quem sois.
persiste a dor e tudo em mim esmorece
nada se anima, tudo distrai, tudo desfalece
 
Ensinam os evangelhos:
Assim como na mão há dez dedos
também dez são as espécies de disciplina
Santo António de Lisboa.
Deverei contá-las por estes cotos?
Morto de vontade aqui estou
exercitando os restos do meu corpo
vilmente vestido em tua honra
Tende tu compaixão pelas minhas necessidades
derramando lágrimas de piedade
Ó Deus que te calas e nos queres calados
orando pela noite dentro
com leituras discretas
não vês quanto me desprezo
quando a ti me dirijo sem saber para quem falo?
 
Por onde andas quando em suplicas me desfaço
implorando clemência por males não cometidos?
Logo eu, tão devoto e esforçado,
amigo até das moscas, filho cumpridor e amante fiel
Porque me privaste dos membros
com que Aarão te apresentou os levitas
na terra onde corre leite e mel
Números, 8,10 e 13,17.
 
Com as mãos o teu filho curou o empregado dum oficial romano
Com as mãos curou muitos doentes, um homem com lepra
homens com espíritos maus e paralíticos
Até da morte escura ressuscitou meninas e homens
Só para mim parece não haver cura
amputado dos membros
com o nariz me persigne
até chegar a hora de descer à sepultura
 
Senhor, aqui me tens diante de ti
em verdade confessando
que das dez disciplinas uma não cumpri:
Segundo o que sinto, vós, Senhor, quereis
que queira sofrer, e meu mal não quer
Gil Vicente, Pater noster.
De vinho e de pão não me absterei
por isso trago por companhia esta velha mulher
que de comida e de bebida me sacia
compensando de outros apetites a azia
Milhor é exp’rimentá-o que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exp’rimentá-lo.
Camões, Canto IX (persignando-se.)
 
Louvor ao Pai que tudo quer
pois a quem se confessa Ele perdoa
não restando polegares em qualquer mão
com o nariz me persigno
o gesto não importa, conta a intenção

(A cantar.)
Seja dada glória, honra e reverência,
Seja dado louvor e bênção ao Princípio sem Fim
Amém

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ÁGUAS PARADAS

 Quem nos trouxe aqui? Dos gregos sobram ruínas sob um manto negro de poluição, dos romanos conservamos a numeração em relógios cada vez mais ilegíveis, de Bizâncio pouco sabemos e do califadio herdámos o prefixo para altruísmo. Depois, reverentes ao Sacro Império Católico Apostólico Romano, matámos mouros, expulsámos judeus, queimámos bruxas, exportámos escravos capturados em África e explorámos quase até à extinção absoluta povos indígenas nas Américas. Trouxe-nos aqui o desejo de sermos alguém, a ambição desmedida, o orgulho e a necessidade, acabámos nesta redundância insignificante. De um ladro, "microtalibãs" conservadores adeptos do liberalismo económico e da família tradicional, do outro progressistas aburguesados e liberais nos costumes que são a antítese de qualquer ímpeto revolucionário. Uns contra outros de arrastão na rede, vão sendo comidos pela indústria centralizada dos poderes instalados, com seus tentáculos em governos de marionetas. Fazer o quê num ambiente destes? Esperar que Caronte não tenha descanso.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

E ASSIM SUCESSIVAMENTE

A palavra palra, palra com a larva. A larva lavra, lavra a palavra. A palavra palra com a larva que lavra a palavra. A pala pára a larva, a lavra lava a pala e abre alas e abre asas e voa e ova e na sala oval a lavra  lava as asas  à palavra que voa. Então desova, quadra e desquadra, triangula na pala lavada  da larva que lavra a palavra alada. Não é à toa que a palavra voa, não é à tona que povoa a larva enquanto lavra a palavra. É boa a palavra que soa enquanto a larva boa sua. Enquanto lavra, enquanto ladra, sou a palavra larva que soa a lavra. 3nquanto a lavra alada ladra, a palavra passa e sua. Etc.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

NORMALIDADE

 
Esta noite sonhei que eu não era eu. Para ser mais exacto, eu era eu, estava no sonho, mas não aparecia, havia um outro que era o meu corpo, a minha voz, com quem eu interagia, se bem que não fosse eu. E esse outro-eu estava sempre a repreender-me porque eu fazia tudo ao contrário do que era esperado. Por exemplo, o eu-outro pedia-me que abrisse um chapéu de chuva. Eu abria, mas o chapéu chovia. Era um chapéu que dava chuva em vez de nos proteger da chuva. A cada porta que o eu-outro me pedia para fechar, eu abria, ainda que depois, ao atravessar a porta, eu sentisse que entrava quando saía e saía quando entrava. Acordei muito angustiado, a ponto de sentir necessidade de me levantar e dirigir-me à casa de banho para lavar o rosto. Assim fiz, reparando, ao chegar à casa de banho, que havia calçado os chinelos ao contrário, o esquerdo no direito e o direito no esquerdo. Fiquei então muito aliviado, estava tudo certo no sonho, acabei até a lavar os pés em vez do rosto, não havia problema algum comigo, entre o sonho e a realidade tudo batia certo, a normalidade é que não me cabia nos pés.

domingo, 23 de agosto de 2026

ARCA DE LIVROS

Huig de Groot, ou, à portuguesa, Hugo Grócio, escreveu poesia, teatro, foi historiador, filósofo e teólogo, mas notabilizou-se, antes de mais, como jurista, uma espécie de pai do direito internacional após a publicação, em 1625, da obra "De Jure Belli Ac Pacis". Começou a escrever o livro na prisão, condenado a perpétua na sequência de conflitos nos Países Baixos entre calvinistas e os seguidores do pastor Jacó Arminio. Preso no castelo de Loevestein, de lá conseguiu escapar, ajudado pela mulher, escondido no interior de uma arca de livros. Teve a cabeça a prémio durante alguns anos, até morrer de exaustão. Diz-se que as suas palavras finais terão sido: «Mesmo tendo compreendido muitas coisas, nada realizei.» Agradam-me muito estas palavras finais e gosto de imaginá-lo escondido na arca de livros, em fuga para a liberdade numa arca de livros.

sábado, 22 de agosto de 2026

MANUEL

 


   Um dois em um: as 238 pp. de Manuel & as 39 pp. de Manuel – Manuel de lecture (TNDMII, 2014), que assumiremos como embrião do texto mais extenso. Uma nota prévia informa-nos que Manuel nasceu no ano 2000, primeiro como parte integrante de um livro apresentado na primeira bienal de Oeiras, evoluindo posteriormente para uma peça de teatro radiofónico e encontrando a sua configuração “literária” neste volume: «Manuel é uma obra que passou por uma fase plástica, acústica e cénica para integrar as três na sua forma final.» Numa Carta ao Leitor endereçada por Teresa Albuquerque, somos ainda informados de que o texto da primeira edição foi concluído por Alvaro García de Zúñiga (1958-2014) nos últimos dias de vida: «Embora completo é um livro que potencialmente não tem fim, contém muitos outros livros e combinatórias infinitas. É um livro-processo (...)». Antes de mais, refira-se estarmos perante uma obra de fôlego, uma espécie de testamento onde são identificáveis os problemas aflorados em textos anteriores mais curtos, tais como Teatro Impossível, Actueur ou s/t, aqui exaustivamente desenvolvidos através de um processo de desconstrução das formas e das convenções literárias que tudo coloca em diálogo. Esta dimensão testamentária, de resto, foi de algum modo assumida na inscrição frontispicial: «Alvaro: Manuel Post-Mortem / Manuel de Conserva / Conversa & Acciones, una vez inerte el cuerpo que, com espíritu, pensó sobre & produjo todo y de cuanto aqui se trata. Viaje dentro de tales Obras y sus Fuentes.»
   É mais um texto inclassificável quanto ao género, de uma hibridez observável, desde logo, nas sucessivas metamorfoses que foi sofrendo ao longo dos anos (plástica, acústica, cénica, literária). Há, porém, uma componente visual neste livro, não tão evidente noutras obras, que passa pela disposição tipográfica, pela inclusão de símbolos, de pictogramas, de ilustrações, até desenhos, mas também pela presença de vários sistemas de escrita aqui representados através de logogramas, grafemas, hieróglifos, toda uma alfabetografia que extrema a natureza multilingue anteriormente explorada na obra do autor. Dos hieróglifos às linguagens de programação há de tudo um pouco, num “processo” que tende, mais uma vez, para a (con)fusão de múltiplas linguagens acompanhado pela fusão de múltiplas línguas e idiomas. Outro aspecto relevante, directamente associado à polifonia decorrente do uso de várias línguas, é a dimensão sonora numa escrita em que as marcações rítmicas parecem determinantes, aproximando-se amiúde de técnicas de versificação ou de composição poética que assentam na conjugação de palavras através de aproximações fonéticas e gráficas. O próprio título Manuel – Manuel de lecture brinca com o duplo significado do nome próprio Manuel e do substantivo masculino francês que significa manual. Este é também um factor lúdico muito activo e atractivo na obra de Zúñiga, por vezes com resultados desconcertantemente cómicos: «APÊNDICE / Fue en su próprio entierro que Manuel supo que le habían sacado el apêndice» (Manuel – Manuel de Lecture, p. 33).
   Se Joyce nos desafiou com a exploração de todos os géneros literários nas 24 horas de vida de Leopold Bloom, Alvaro García de Zúñiga desafia-nos com a totalidade da linguagem na história de um Manuel que é, ao mesmo tempo, nome de personagem e manual de leitura mais dado a problematizações do que a instruções, com alusões que, aqui e acolá, permitem imaginar tratar-se este de um forte testemunho da relação entusiasmada que o autor manteve com as problemáticas da filosofia da linguagem. Sabotando a ideia de biografia, esta é também uma obra com certa dimensão autobiográfica. Longe de haver aqui um qualquer programa narrativo, a verdade é que a viagem aparentemente delirante proposta assim que levantamos voo com a leitura de Manuel - «Pour ouvrir lever» -,  percorre as etapas de uma vida amplamente biografada, a de alguém que procurou compreender a realidade através dos livros ou, pela inversa, os livros através da realidade. Talvez a única instrução a ter em conta deva ser a que surge logo a páginas 21: «Antes da Primeira Utilização / Desmonte o livro. Assim poderá familiarizar-se com as suas diferentes partes e peças e compreender melhor o seu funcionamento.» Este trabalho de desmontagem, que não é exactamente de interpretação ou de análise, até porque a obra se encarrega de resistir a isso minando constantemente qualquer tipo de compreensão definitiva, corresponde a uma familiarização com os processos inerentes à sua própria composição. Ele informa-nos ser um «audio libro» (p. 23), mas, ainda que o seja, é também um livro-jogo que propõe ao leitor um «Manuel enredado en la redacción de si mismo» (p. 29). E a partir daqui, só há que entrar no jogo aceitando as suas regras, que são as do bluff, isto é, da simulação, ou seja, de uma incansável desconstrução das metodologias interpretativas.
   Manuel nasceu em Ipanema de um pai panamenho (Manuel Papá-Mé), cônsul do Panamá em Paname (gíria para Paris), e de uma mãe senegalesa (N’d’laine Mó-páne) que passou a infância e a adolescência em Fès, e deve ao irmão mais velho (Manuel Freire Frère) a paixão por línguas. Dito isto, são várias as notas de rodapé, bem mais extensas que o corpo de texto principal, até chegarmos a um Manuel que se dedicou a explicar si mesmo a si mesmo, interessando-se por um «método fundamental de investigación que puede llevarnos a entender y resolver definitivamente el funcionamento interno del processo mental que va de las palabras pensadas a su expressión, sea esta escrita o dicha» (p. 48). Não nos cabe contar a história de Manuel, que a certa altura assume contornos de ficção científica colocando o leitor num labirinto do qual dificilmente se libertará sem inventar asas que o protejam da tentação interpretativa. «Et tout irradié qu’il est, va se mettre á émettre de la littérature pour le dit» (p. 92). Eis o programa: percorrer a espiral de notas de rodapé sobre notas de rodapé deixando-se levar pelo caos aparente de resignificações, pela desmesura das alusões, ligações, conexões, diremos hoje dos intermináveis links que vão impelindo a «Una lectura, anormal, de escucha, deficiente. Una lectura de escucha deficiente y anormal» (p. 112). Manuel antecipa a pós-verdade do mundo digital, virtual, da era do “pensamento artificial”, provocando-nos com materiais que escapam às delimitações lógicas de um pensamento que já não pode posicionar-se diante da realidade como se ela fosse totalmente percepcionável: «le problème du langage n’a rien à voir avec celui de la perception» (p. 170). A hipótese de captação do real é estimulante, sobretudo, para a imaginação, a qual não se rege, como é sabido, pelas regras do pensamento lógico, antes se encarrega de a ele escapar como prisioneiro numa cela. As percepções são altamente erróneas, ao contrário da imaginação que é altamente criativa.
   O texto vai deixando pistas que levam a uma única saída, a que sempre surge na obra de Zúñiga como término de um (infinito) exercício reflexivo: a morte, o silêncio, a inacção. Em Manuel – Manuel de lecture isso é ainda mais evidente, com um Manuel no leito de morte dividido entre os ténues fios de luz percepcionados pelos olhos ainda postos na televisão do quarto no hospital e o som do pip nas máquinas que o conservam vivo até um fim, mais uma vez, de comicidade desconcertante: «MANUEL, SMILE, YOU*RE IN INTERNET» (p. 35). Apetece dizer que o que acabou ainda agora começou, pois até chegarmos ao destino a viagem processa-se nos carris da “batalha de ideias” (p. 147) com múltiplos desvios, inflexões, derivações, saltando da linguagem comercial para a biologia molecular, da indústria da vida para a exploração aeroespacial, sem prescindir de uma moral efectiva e assaz concreta: «- Pienso – piensa Manuel – que la prueba mas acabada que somos unos animales de la peor espécie es olvidarmos de ello» (p. 157). A Carta Magna Ética de Manuel, que é uma carta magnética, prevê que os fins sejam meios que contribuam para a alteração dos ditos fins, pelo que o que importa sublinhar é, precisamente, a tal ideia de processo, de “livro-processo”, introduzida por Tereza Albuquerque na Carta ao Leitor, à qual devemos acrescentar esta síntese inescapável: «A reflexão sobre o papel e a natureza do pensamento, da linguagem e da escrita estão no centro desta desconstrução.» A morte é, portanto, um descanso para este Manuel que pensou exaustivamente descobrindo que os pensamentos, mais do que as conversas, são como as cerejas e é essa hiperactividade num corpo vivo que aqui surge registada sob a forma de palavras – unidades compostas por símbolos que emitem sons produtores de significados. «Manuel sonha com línguas fluindo sem fronteira, como paisagens à janela de um comboio. Línguas rios. Num comboio» (p. 180). Talvez seja esta a imagem mais poética de um Manuel que, deparando-se com a extinção dos idiomas como quem se depara com a extinção da própria vida, conclui que o sentido repousa mais implacavelmente na ausência de sentido. «Manuel se fue Alejandro.»

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

CRÍTICA DO TEATRO

 


Tomemos como ponto de partida o “teatro da crueldade” idealizado por Antonin Artaud (1896-1948), que, ficando por concretizar, terá tido o mérito de haver sido pensado. Podemos depois passar pelo “teatro épico” e a noção de gestus em Bertolt Brecht (1898-1956), a defesa de um teatro anti-aristotélico (o que quererá isto dizer?) inscrito nas dinâmicas da História. Um teatro socialmente empenhado, portanto, não necessariamente ideológico. Peter Brook (1925-2022) distinguiu um “teatro do aborrecimento mortal” de um “teatro sagrado” de um “teatro bruto” de um “teatro imediato”: «O teatro é a arena na qual pode ocorrer um confronto vivo.» O Espaço Vazio é um livro extraordinário, tanto pelo diagnóstico como peloS exemplos que acompanham o diagnóstico. Vamos ao “teatro pobre” e ao “teatro laboratório” de Jerzy Grotowski (1933-1999) e daremos com o horror da maquilhagem, as limitações do teatro face à televisão e ao cinema, a urgência de recentrar a atenção no actor, «o teatro é um veículo, um meio de análise e exploração pessoal» (dirá Brook a propósito de Grotowski). E para Alain Badiou (1937), o da “ideia-teatro”, «o teatro não dá explicações, mostra.» Um teatro-filosofia, portanto. Jean-Pierre Sarrazac fala-nos do “teatro popular”, com referências ao Théâtre National Populaire de Jean Vilar (1912-1971) e à revista Théâtre Populaire onde escreviam Roland Barthes (1915-1980) e Bernard Dort (1929-1994), explorando a ideia de um “teatro público” ameaçado pela cultura de massas que o liberalismo económico privilegia. Distingue um público-cidadão do espectador-cliente, levando-nos a crer que o ideal seria um espectador-cidadão (não confundir com citadino). Falemos de teatro público, teatro serviço-público ou teatro-cidadão, iremos sempre encalhar na dúvida das dúvidas: quem é o público do teatro? A quem se dirige o teatro ou, mais exactamente, os teatros que hoje se oferecem nas suas múltiplas hipóteses de realização? Todas essas formas de teatro não escapam a um denominador comum, a necessidade sentida pelas pessoas do teatro de o reflectirem no contexto social e económico em que se inscrevem, tantas vezes parecendo confundir a ideia de serviço-público com serviço prestado aos públicos. Sarrazac lembra que o teatro-crítico propunha não só uma crítica do teatro como uma crítica à crítica de teatro. Por necessidade de sobrevivência, eis os limites impostos à reflexão: o tempo em que estamos. Ora, não seria preferível não impor limites, isto é, reflectir para lá das necessidades imediatas? Talvez com esse exercício almejássemos respostas menos imediatistas no seu pragmatismo e, porventura, menos desencantadas, o que não significa que sejam utópicas (e se forem?). Hoje dá a sensação de já tudo ter sido experimentado e, no entanto, fica igualmente a sensação de estar tudo por fazer, nomeadamente no que diz respeito à formação de cidadãos críticos que prefiram a reflexão ao entretenimento, ou, ultrapassando tais dicotomias, cidadãos que se divirtam a pensar. O teatro elitista para todos, de Antoine Vitez (1930), é um achado. O desafio será em aqueles que fazem teatro não se subordinarem a uma tipificação do receptor a que se dirigem, partindo do princípio que o público de teatro seja composto por uma diversidade resistente a qualquer tentativa de padronização. Talvez não exista um público de teatro, mas sim pessoas que vão mais ou menos esporadicamente, mais ou menos repetidamente, ao teatro, os infiéis e os fiéis, participando de experiência teatrais mais ou menos activamente, mais ou menos passivamente. Portanto, recentre-se a reflexão teórica num campo que não esteja tão preocupado com quem vê, mas antes com aquilo que se pretende dar a ver. Ou mostrar, como diria Badiou. Teatro épico, teatro da crueldade, teatro impossível, não-teatro, teatro pobre, teatro experimental, teatro performativo, teatro de texto? Como tivemos oportunidade de ver, Antoine Vitez (1930) encenou três vezes “Electra”, a tragédia de Sófocles, em 1966, 1971 e 1986, toda as encenações consideravelmente diferentes umas das outras. Só o texto foi sempre o mesmo. Terá o público sido sempre o mesmo? Quem viu a encenação de 66 teria pensado o mesmo se antes tivesse visto a de 86? Quem viu a de 71 e depois foi ver a de 86, manteve a mesma leitura do que viu? Gosto de pensar que tudo o que já foi feito ficou por fazer. A desenvolver: «O teatro oferece reparação». (apontamentos após leitura de “Crítica do Teatro, da utopia ao desencanto”, tradução de Alexandra Moreira da Silva, Bicho-do-Mato, Teatro Nacional D. Maria II, Setembro de 2024)