sábado, 14 de fevereiro de 2026

UMA CANÇÃO DE MINA LOY

 


XXIX

Evolução   ao arrepio da
Igualdade Sexual
Errar lindamente o cálculo
Da similitude

Selecção contranatura
Cria filhos e filhas tais
Que uns aos outros desvariem
Criptónimos indecifráveis
Sob a lua

Dá-lhes uma forma
De esbravejar estridentemente
Para meigos chamamentos
Ou soluços homófonos
Transpõe o riso

Deixa-os crer que lágrimas
São flocos de neve ou melaço
Ou qualquer coisa
Que não humanas insuficiências
A pedir vértebras dorsais

Deixa que o encontro seja a viragem
Para os antípodas
E a Forma   um borrão
Qualquer coisa
Que não seduzi-los
Para um
Como mera compensação
Pelo outro

Deixa que se abalroem
A parytir dos seus incógnitos
Em orgasmo sísmico

Para muito maior
Diferenciação
Em vez de verem
A distorção de si mesmos
Nos esgares do ego alheio

Mina Loy, in Canções para Joannes, tradução de Miguel Cardoso, não (edições), Setembro de 2022, pp. 41-43.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

ESPERA SENTADO

 
Família Amorim, grupo Jerónimo Martins, Grupo José de Mello, Sonae, Grupo Pestana e BA Group vão disponibilizar milhões dos seus lucros anuais para apoio às famílias e a reconstrução das áreas afectadas pelo alfabeto de depressões que ameaça afundar o país na lama. A Conferência Episcopal Portuguesa agradece e promete missas grátis em honra de todos os milionários benfeitores, com lugar no céu garantido à direita do Senhor.

MEIO

 
Estar no meio, entre jovens ambiciosos, ávidos de fama, convencidos de que sabem alguma coisa, e velhos amargurados por lhes faltar o reconhecimento que julgam merecer. Estar a meio e sem vontade, sem desejo, sem paixão, indiferente a tudo o que não seja o simples gozo frugal e efémero de estar.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ESCASSEZ

 
A escassez grave de aviões no combate aos incêndios, a escassez grave de ventiladores na pandemia, a escassez grave de geradores nas catástrofes naturais, a escassez grave de meios para tudo e mais alguma coisa. Este é o país das escassezes graves. Só grunhos é que temos de sobra. Grunhos, burgessos e machos alfa.

NÃO TER PALAVRAS

 
Perguntaram-me se continuo a ler os jovens poetas. Respondi que sim. Perguntaram se sou daqueles que pensam que os novos poetas escrevem com menos palavras. Respondi que talvez seja verdade, mas não é necessariamente mau. Mau é passarmos a vida a dizer que não temos palavras para descrever o que sentimos ou vemos, como se não houvesse de facto palavras para o descrever.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

MONDEGO

 
O Rio Mondego nasce na Serra da Estrela, mas Luís Montenegro garante que, desde Janeiro, está a gerir os caudais do rio com as entidades espanholas. Esta gente não existe, não conhecem o país que governam, são uma anedota triste.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

UM POEMA DE RAQUEL SEREJO MARTINS


L’AMOUR A CŒUR PERDU

Só penso em coisas em que não quero pensar 
só penso em ti, em nós, um nós que não existe
fora das fronteiras de uma cama
não passamos de refugiados
cidadãos desapossados
objectos perdidos e nunca achados
variáveis sujeitas à vontade dos mercados

Hoje rezei pela primeira vez a São Miguel
o príncipe da milícia celeste
rezei para me defender no combate que estou a viver
a brutalidade do boxe
a elegância da esgrima
a indispensável pontaria para praticar tiro ao alvo
a solidão da natação
a audácia dos afogados
o cansaço crónico, em coro, canónico.

Mas desde quando és uma pessoa de fé?

Rezar também é uma forma de não pensar.
Acreditar também é uma forma de não pensar
e quanto mais precisamos, mais Deus existe.

Se queres saber o que uma pessoa realmente pensa, dizes
tens de olhar para o que faz
não para o que diz
diz-se tanto dislate sem sentido
tanto disparate
diz-se até de um filho perdido

E ocupei as mãos para ocupar os pensamentos
gestos de jardineiro de bonsais
de relojoeiro helvético
de cirurgião cardíaco
desarrumei e arrumei a cozinha
ficou impecavelmente limpa
até o forno ficou a brilhar por dentro
limpava o interior do forno e pensava em Sylvia Plath
enquanto tu fizeste um bule de chá.

Estás a perguntar-me se quero um chá?
Achas que isto se resolve com um chá?

Raquel Serejo Martins, in Devoluto, prefácio de Ricardo Marques, Abysmo, Janeiro de 2026, pp. 83-84.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

FUNERAL

 


Na Igreja, os homens mantinham-se de pé do lado direito. As mulheres estavam sentadas do lado esquerdo. Desconhecia tal disposição cénica. Cumprimentei uns, ignorei outros. Com o tempo, venho-me apercebendo que nada entendo dos nossos rituais de morte. A pouco e pouco a aprendizagem vai sendo feita. Ovar.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

RÉS-DO-CHÃO

 


Eu não te morro e tu não me morres. Eu quero viver, eu quero muito viver. Não me morras, ouviste? Senão mato-me.

Vítor Nogueira, in Rés-do-Chão, Averno, Outubro de 2021, p. 38.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

PÂNTANO

 
O pântano em que nos afundamos diariamente
neste país sem alma feita em lama
tem telhados de neblina na noite escura
É um país de estradas sem caminho
florestas partidas ao meio
lençóis de cinza
e milhares de mãos estendidas à espera de luz
O mar retomará seu rumo
a terra voltará a ser semeada
a seca extrema não tem os dias contados
nem a miséria em que diariamente nos enterram
os botões de punho engravatados

UM OUTRO TEATRO

 


(...)
«A velocidade de apresentações é tão grande que não é por acaso que aparecerá o "Teatro Rápido" em 2012 ("Microteatro" com quatro salas em pleno Chiado, um centro de flagship stores já reconstruído do fogo) onde, ao longo do dia, são apresentados espectáculos de 15 minutos por variadxs artistas que vingarão no panorama nacional.»
(...)

André e. Teodósio, in Um Outro Teatro - Histórias do Teatro Experimental em Portugal, Sistema Solar, ed._______, Março de 2025, p. 203.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

CONCÍLIO

 
Vinte anos depois, conheço pessoalmente o autor desses livros que me chegavam pelo correio com simpáticas dedicatórias. Conversa animada. Ao termo da noite, ele foi pelo chocolate quente. Eu preferi a aguardente. Falou-se do passado, do presente e dos futuros possíveis. Feliz coincidência entre duas pessoas, esta de ambas apreciarem cada vez mais a solidão e o isolamento fugindo do que nessa noite fizeram. Concílio de solidões, portanto. Vila Real.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

ACERCA DO TEATRO QUOTIDIANO

 


Vós, ó artistas que fazeis teatro
Em salas enormes, sob sóis artificiais de luz,
Perante uma multidão silenciosa, procurai, uma vez por outra,
O teatro que acontece em plena rua.
O teatro quotidiano, multímodo e anónimo,
Mas bem vivo e terreno, que se alimenta
Do convívio dos homens e acontece em plena rua.
Eis que a vizinha imita o senhorio e mostra
Com precisão, reproduzindo a sua loquacidade,
Como ele intenta desviar a conversa,
Desviá-la da canalização da água que rebentou!
Nos jardins públicos, os rapazes mostram, à noite,
As raparigas, que riem veladamente, a forma como elas,
Por um lado, se defendem e, por outro, põem à mostra, hábeis, os seios.
E aquele bêbado imita o padre a dizer a prédica e a remeter
Os desprotegidos da fortuna para as férteis campinas do Paraíso.
Como é útil, sério e divertido um teatro assim,
E que digno! Não se trata de papagaios nem de símios,
A imitarem por amor da imitação, indiferentes 
Ao que imitam, só para mostrar que sabem imitar bem, 
Trata-se de pessoas com um propósito bem determinado.
Vós, que sois grandes artistas, imitadores magistrais,
Não queirais ficar atrás deles! Não vos afasteis muito,
Por mais que aperfeiçoeis a vossa arte,
Desse teatro do dia-a-dia que
Acontece em plena rua.
Vede, aquele homem, além à esquina! Está a mostrar
Como se passou o desastre. Está a expor
O motorista à crítica da multidão. Mostra como ele ia sentado
Ao volante; mas eis que imita, agora, o sinistrado,
simulando um velho. De ambos revela, apenas,
O suficiente para tornar o desastre compreensível, o suficiente
Para fazê-los surgir perante os nossos olhos. No entanto,
Do modo como no-los mostra não lhes seria impossível escaparem-se ao desastre.
O desastre torna-se, assim, compreensível e incompreensível,
Pois ambos poderiam ter executado movimentos completamente diversos;
E eis que mostra como poderiam ter sido
Esses movimentos para que o acidente não ocorresse. Não há
Superstição alguma, nesta testemunha ocular,
Mas, sim, aos seus erros.
Reparai, também,
Na circunspecção e no escrúpulo com que imita. Ele
Sabe quanto depende da sua exactidão: se o inocente
Escapa à condenação, se a vítima será indemnizada. Vede,
Repete agora o que já fez antes. Rectifica isto ou aquilo,
Hesitante, chamando a memória em seu auxílio, inseguro
De estar a imitar devidamente, detendo-se
E solicitando auxílio a mais alguém. Observai tudo isto
Com respeito!
Com espanto
Reparai como este imitador
Se não perde nunca na sua imitação. Jamais se transforma
Por inteiro no objecto da sua imitação. Permanece sempre como
O sujeito que mostra que não está implicado no caso. A pessoa
Imitada não lhe revelou os seus segredos,
Não partilhou com ele nem os seus sentimentos
Nem as suas ideias. Dela
Pouco sabe. Não encontramos na sua imitação uma terceira personagem,
Uma fusão de elementos seus e do outro,
Ou, porventura, constituída por ambos, em que bata um único coração
E um cérebro funcione.
O sujeito que faz a descrição,
Com o auxílio de todos os seus sentidos, 
Descreve o próximo que lhe é alheio.
Nem a misteriosa metamorfose
Que se desenrola, ao que consta, nos vossos teatros
Entre os camarins e o palco - um actor que sai do camarim, 
Um rei que pisa a cena -, feitiço
De que tantas vezes já vi rir (à mesa da cervejaria)
Os assistentes de cena, se verificam, aqui, na rua.
O nosso imitador à esquina da rua
Não é um sonâmbulo que não convém interpelarmos. Tão-pouco
Será um sacerdote magno no culto da divindade. Em qualquer altura
O podeis interromper; ele responder-vos-á calmamente
E prosseguirá a sua representação,
Uma vez finda a conversa.

(...)

Bertolt Brecht, in Estudos Sobre Teatro, tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, Portugália, s/d, 265-268.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

CRISTINA

Cristina, creio, assim se chamava a do bar artístico no Pátio dos Escuteiros. Fechou a porta e colocou um cinzeiro no centro da mesa. Continuámos a beber Guiness e a trincar amendoins, a conversa fluía. Depois alguém abriu um piano, depois alguém me passou uma guitarra, depois Cristina agradeceu as canções dos génios do seu tempo. O tempo dela não era diferente do meu, mas desconfio que ambos sintamos já o passado encurtar-se. Lembrou-me a irmã de um amigo da adolescência com quem ouvia The Doors e fumei os primeiros charros. Covilhã.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

LIVRARIA PÚBLICA

Esta noite sonhei que me encontrava numa livraria chamada Paralelo W, embora o espaço físico se assemelhasse mais à Utopia. Ao balcão, um velho amigo de Rio Maior com o rosto de um ex-colega de trabalho. Acontece-me frequentemente, nos sonhos e não só, ver nas pessoas rostos que não são os delas. Eu procurava a poesia completa do Paulo Leminski. Os livros tinham todos lombadas em tons quentes, amarelos, laranjas, vermelhos. A pessoa que me acompanhava criticou a parca selecção de livros de fotografia. De repente, a livraria começou a encher. Entraram sobretudo mulheres. Uma delas cumprimentou-me, mas não a reconheci. Outra trazia um carrinho de bebé. A livraria, que ficava junto à casa da pessoa que me acompanhava, começou a descolocar-se transformando-se num autocarro ou noutro qualquer transporte público. Uma das mulheres que entrara, supostamente cliente, marcava agora os livros com uma máquina manual das antigas. A do carrinho de bebé pediu-me que a ajudasse a arrumar uns sacos, como se fôssemos amigos ou conhecidos. A pessoa que me acompanhava reclamava agora da parca selecção de livros sobre música.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

S/T

 


Talvez o Teatro Impossível seja um teatro sem corpo. Beckett ter-se-á aproximado dessa possibilidade em Not I (1972), peça que levou a actriz Billie Whitelaw a afirmar depois de a representar: «I felt I had no body.» Por outro lado, sentimo-nos tentados a supor no Teatro Impossível um teste de resistência ao cogito, ergo sum. Existimos porque pensamos ou pensamos porque existimos? A teoria dos jogos de linguagem explorada por Ludwig Wittgenstein inscreve a linguagem e, por conseguinte, o pensamento, no contexto das práticas humanas: «uma palavra tem sentido pelo uso particular que dela fazemos.» Mas qual é o sentido da palavra sentido? A linguagem é indissociável do corpo, a linguagem teatral é indissociável do gesto, talvez o Teatro Impossível seja um jogo de linguagem. Num texto anfíbio como s/t (blablalab, 2006), que, a despeito da brevidade, pode ser entendido como poema, ensaio ou dramatículo, a relação entre o acto de escrita, o acto de fala e o acto de pensar é ponto de partida para um encadeamento ao mesmo tempo lógico e lúdico da relação entre o pensamento e os gestos de falar e de escrever. O cogito, ergo sum converte-se num cogito, ergo scribe, transmutação de tipo poético que aproxima o texto de outros autores para quem o ofício de escrever se confunde com o ofício de viver. Ocorre-nos o tempo que medeia entre o acto de pensar, o acto de dizer e o acto de escrever. Piensa al hablar, escreve Álvaro García de Zúñiga antes de dizer o que pensa enquanto fala. E entre o que a escrita fixa, cristaliza, tenta-se uma reprodução fiel do pensamento. A dúvida é: será tal possível? O pensamento é acto puro, movimento ininterrupto, fluxo, corrente continuada que a fala materializa. Deixamos de pensar quando morremos. A fala solta o pensamento, mas a escrita parece oferecer-lhe outro tipo de materialização. A escrita como que tende para uma interrupção do fluxo, isto é, mesmo na sua vertente mais automática a escrita fixa o pensamento e, ao fixá-lo, pode silenciar a fala ou servir-lhe de suporte (quando lemos em voz alta, por exemplo). Ao pensarmos este drama para três personagens  ̶ pensamento, fala, escrita  ̶ não necessitamos de mais do que de um corpo, mas o corpo manifesta-se também aqui imprescindível. Dizemos por vezes que falámos sem pensar, consideração que acarreta um certo peso moral. Falar sem pensar ou falar da boca para fora é não reflectir aquilo que se diz. O assim dito, por carecer de reflexão (pensamento sobre pensamento), pode ser equivocamente interpretado. Tais equívocos geram discussões, imprimem na vida de quem fala uma espécie de autocensura que o poupa a diagnósticos pouco saudáveis. A fala exercita a censura do pensamento, mesmo quando, seguindo os bons conselhos de Alceu de Mitilene ou de Plínio, o Velho, oferecemos ao corpo doses de vinho favoráveis à libertação da verdade. In vino veritas, eram as regras do banquete. Por sua vez, procuramos não impor à escrita nenhum tipo de constrangimento. A escrita facilmente se embriaga a si mesma, soltando-se, libertando-se, como desejavam as vanguardas do início do século XX, com assinaláveis repercussões na História da Literatura mais recente. O texto sem título de Zúñiga coloca-nos esse problema: foi escrito sem pensar, foi pensado a escrever, foi falado e pensar que se escrevia, foi pensado a falar para ser escrito, etc? «Parece pensar en lo que escribe.» O mais interessante neste jogo a três é a dinâmica, o ritmo que conecta o pensamento à escrita, a escrita à fala, a fala ao pensamento e assim sucessivamente. A dado momento coloca-se uma hipótese, abre-se a cortina das possibilidades: «como le parece que diría si se hablara por escrito.»  Falar por escrito. Pensar por escrito. Dizer a si mesmo que pensa por escrito. O processo em causa é, portanto, o de um monólogo que faz incluir o pensamento num corpo, um corpo que sangra, logo, um corpo vivo. O Teatro do Pensamento que é, por sua vez, materializado na escrita e na fala, não prescinde do corpo, o corpo é a conditio sine qua non há Teatro. Então alguém sangra enquanto escreve, a escrita corresponde a um sangramento, o sangramento do pensamento. É uma bela imagem: a escrita enquanto sangramento do pensamento. O processo desloca-nos da lógica para a poética, da norma que determina o jogo de linguagem para uma linguagem que se cria a si mesma, cria e recria como o solo que medeia entre a repetição de um riff. Esta é uma escrita altamente musical, na medida em que se deixa embalar pelo ritmo do pensamento para proporcionar à fala, no dizer do escrito, esse movimento que tende para a suspensão, para a interrupção, para o momento em que o pensamento pare de se escrever dizendo-se. E nisto poderíamos ver, quem sabe, mais uma dessas inclinações para o silêncio de que falava Alberto Pimenta.

DEMASIADOS PERFIS

Órfãos, uma peça para um espelho, um cavalinho de embalar e uma jarra com flores. Também há uma vela e um bengaleiro, um sofá e livros infantis. Falhou a água, que não se ouve. Quem terá entendido esta conjugação de objectos enquanto contorno nos perfis das personagens?


domingo, 1 de fevereiro de 2026

AMADORES

 
Amo os amadores. O pior que pode acontecer a um profissional é deixar de amar, passar a fazer tudo por obrigação, dever, cumprindo regras, respeitando rigorosamente as convenções. O amador aventura-se, questiona, quando ama verdadeiramente ele é um autêntico filósofo, um amante do conhecimento. A não ser que seja tonto e em vez de amar o outro ama-se apenas a si mesmo, fechando-se no reflexo da sua vanitas. Esses não entendem sequer a efemeridade que os condena, que nos condena a todos. Sempre que regresso à História da Literatura lembro-me disto, tantos sãos os nomes com que me cruzo que hoje nem chegam a meras curiosidades. Afundaram-se no esquecimento como se nunca tivessem existido. Mas existiram, fizeram coisas, algumas delas até valerá a pena desenterrar, ao contrário de outras que por aí se vão fazendo, ocupando páginas e páginas de jornais, que melhor seria enterrar quanto antes.

LIBERTAR O FUTURO

 


Indiferentes*

   Odeio os indiferentes. Creio, como Friedrich Hebbel, que «viver significa participar». Não podem existir os apenas homens, os estranhos à cidade. Quem vive verdadeiramente não pode deixar de ser cidadão e participante. Indiferença é abulia, é parasitismo, é cobardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
   A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam quase sempre os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que cerca a velha cidade e a protege melhor do que os muros mais sólidos, do que o peito dos seus guerreiros, porque devora nas suas águas limosas os assaltantes, os dizima e desencoraja, e os faz desistir da empresa heróica.
   A indiferença opera poderosamente na história. Opera passivamente mas opera. É a fatalidade; é aquilo sobre o que não se pode contar; é o que perturba os programas, que destrói os planos, mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a destroça. O que sucede, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um acto heróico (de valor universal) pode gerar; não é tanto devido à iniciativa dos poucos que operam como da indiferença, do absentismo de muitos.
   O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça, mas porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer; deixa agrupar os nós que depois só a espada poderá derrubar. A fatalidade que parece dominar a história não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Os factos maturam na sombra; poucas mãos são vigiadas por nenhum controle, tecem a teia da vida colectiva, e a massa ignora porque não se preocupa. Os destinos de uma época são manipulados conforme as visões restritas, as finalidades imediatas, as ambições e paixões pessoais dos pequenos grupos activos, e a massa dos homens ignora-os porque não se preocupa. Mas os factos amadurecidos acabam por desaguar; mas a teia tecida na sombra acaba por se cumprir; e então parece que é a fatalidade a derrotar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um enorme fenómeno natural, uma erupção, um terramoto de que todos são vítimas, quem quis ou não quis, quem sabia ou não sabia, quem tinha estado activo ou indiferente. E este último irrita-se, desejaria subtrair-se às consequências, desejaria que se tornasse claro que ele não contribuiu em nada, que não é responsável. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos se interrogam: se tivesse feito o meu dever; se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu conselho, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos se autocriticam pela sua indiferença, pelo seu cepticismo, por não terem emprestado os eu braço e a sua actividade aos grupos de cidadãos que combatiam para evitar tal mal e se propunham conquistar tal bem.
   A maior parte deles, pelo contrário, perante os acontecimentos consumados, prefere falar de falências ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a sua ausência de qualquer responsabilidade. E não é porque não vejam as coisas claras e que, algumas vezes, não sejam capazes de prospectar belíssimas soluções para problemas mais urgentes ou para que os que, embora requerendo ampla preparação e tempo, são de igual modo urgentes. Mas estas soluções permanecem belissimamente infecundas, mas este contributo à vida colectiva não é animado por nenhuma luz moral, é produto de curiosidade intelectual, não de pungente sentido de responsabilidade histórica que implica uma vitalidade total na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de qualquer género.
   Odeio os indiferentes, também porque me aborrece a sua lamuria de eternos inocentes. Peço contas a cada um deles sobre o modo como desenvolveu a função que a vida lhe pôs e lhe põe quotidianamente, do que faz e especialmente do que não faz. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha piedade, que não devo repartir com eles as minhas lágrimas. Sou partidário, vivo, sinto já pulsar nas consciências viris da minha gente a actividade da cidade futura que a minha gente está construindo. E nela a cadeia social não pesa sobre poucos, para ela cada coisa que sucede não se deve ao acaso, à fatalidade, mas é inteligente obra dos cidadãos. Não há nela ninguém que esteja à janela, enquanto os poucos se sacrificam, se esgotam no sacrifício; e aquele que está à janela, de atalaia, quer usufruir do pouco bem que a actividade de uns poucos consegue e desafoga a sua desilusão vituperando o sacrifício, o esgotado, porque não conseguiu o seu intento.
   Vivo, sou partidário. Por isso odeio o que não participa, odeio os indiferentes.

Antonio Gramsci, in Libertar o Futuro. Textos Políticos (1916-1926), selecção e introdução de Bruno Monteiro, notas finais de Franco Tomassoni, Fora de Jogo e Seara Nova, 2.ª edição, Abril de 2024,  *Não assinado, La Città futura, 11 de Fevereiro de 1917.

sábado, 31 de janeiro de 2026

VOZ HUMANA

 


Peça de tipo neo-romântico com banda sonora de Durutti Column e Dead Can Dance. Uma mulher, de seu nome Júlia, é assaltada por pensamentos suicidas. Um amor falhado abre-lhe a porta da desilusão. Um barqueiro, evocação de Caronte, tenta seduzi-la para o seu mundo. Se o amor não faz parte do seu vocabulário no início, acaba no fim por lhe servir de argumento: «serei eu, o teu novo amor...» Numa espécie de diálogo desprovido de argumentação retórica, Júlia e o Barqueiro oferecem-nos retratos de dois mundos paralelos. Estão ambos num limbo, cada um no seu, talvez se encontrem na morte.

Reinaldo M. Fonseca, Voz Humana, Edições Matrioska, 2022.