sexta-feira, 17 de abril de 2026

MURMÚRIO CICIANTE

 
Quitéria, na pastelaria Infante: «Falam em conversa de bastidores e intriga palaciana, mas nos corredores do poder nada bate o murmúrio ciciante dos tachos na cozinha.»

quinta-feira, 16 de abril de 2026

CRISTINAS

 
Há anos, vi-me envolvido numa polémica de lana-caprina por ter declarado ódio à Dona Cristina. Dizia, e repito, que representa tudo o que mais odeio no mundo, a saber o culto da estupidez que tanto leva à veneração de ídolos de pechisbeque como à reverência a líderes alarves. Vide Trump e seu séquito de imbecis. O histerismo da Dona Cristina deu-lhe popularidade num país de histéricos, de que os pulos do Baião com o macaco foram precursores e as parolices do Goucha fizeram escola. A programação matinal das televisões é uma panela em que se confecciona todo o tipo de imbecilidades, as quais entram pela tarde e se instalam nas casas dos segredos e big brothers. É assim há anos porque o nível desceu, a fasquia ficou tão baixa que só importa a audiência, a sala cheia. E os senhores políticos, sem excepção, aproveitam o embalo aceitando convite para a conversa fiada em período eleitoral. Isto é o que temos um pouco por todo o país, a televisão contamina e retrata o resto, esta indigente rendição aos formatos do sucesso, os quais, para nossa desgraça, revelam sempre valores negativos no termómetro da inteligência. Fizeram da Dona Cristina uma estrela ao ombro da qual adoram pousar para a fotografia, indiferentes às alarvices que a senhora profira e as suzanas garcias de serviço corroborem. Não se admirem, depois, da teia em que foram apanhados, ela aí está com trumps, chegas e afins. Se julgam que isto não está tudo ligado, desenganem-se. Sempre que somos complacentes com a merda, o mais certo é acabarmos cagados.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

INSEMINADOR

 
De palito na boca, atravessa a cena a ranger os dentes na direcção dos bastidores. Tivesse sido eu a criar o mundo, palestrou, onde está um círculo estaria um triângulo, onde está um quadrado estaria um rectângulo, onde está um hexágono estaria um paralelograma. E assim sucessivamente. Atentos como discípulos a ouvir mestres, secretários a concordar com ministros, acólitos persignados em bicha para o beija-mão, todos os vigilantes emprenhavam pelos ouvidos as teses e as teorias do palitado palestrante. Depois, seguiam eles mesmos pelos corredores a cochichar por cima dos ombros, não fossem as paredes ouvir comentários inconvenientes, recolhendo-se a cozinhar esquemas e estratégias para disseminarem a palavra do inseminador de tímpanos.
 
Nota: Segundo o Governo da Nação, inseminador é um técnico qualificado responsável por realizar a inseminação artificial em animais, utilizando um aplicador para introduzir o sémen no útero, sendo que por útero podemos entender diversas reentrâncias na fisionomia humana. Este profissional manipula o aparelho reprodutivo para promover o melhoramento genético do rebanho.

terça-feira, 14 de abril de 2026

ERÍSTICA

Há mais de dois mil anos, um senhor chamado Aristóteles dedicou alguma atenção aos paralogismos, ou seja, argumentos que parecem sê-lo, por oposição aos silogismos. Pretendia ele refutar os sofistas que negociavam uma sabedoria aparente preferindo parecer sábios a sê-lo de facto. Enumerou argumentos, dividindo-os segundo a espécie, desmontou os propósitos de quem polemiza, denunciou falácias, "erros que acompanham a opinião fundada na percepção", enfim, as tretas dos sofistas. Assim mesmo, tretas. Isto foi antes de a sociedade do espectáculo impor as suas regras, as quais já nada têm que ver com a busca da verdade. Parte integrante desta tragédia deprimente, os polígrafos procuram desmentir fake news partindo de uma perspectiva equívoca sobre a realidade: a de que os factos resultam de um jogo com regras claras. Ontem, um homem quis fazer de polígrafo e acabou a fazer a figura triste que sempre fazem os velhos que teimam em não aceitar as novas regras do jogo. O jovem sofista, exímio na exibição de uma sabedoria aparente, lucrou. A razão é óbvia, não lhe interessa minimamente a verdade. Só tem em vista a vitória, seja lá por que meios for. Assim temos, mais uma vez, o espectáculo garantido num canal televisivo cujos investidores esfregam hoje as mãos de contentamento e brindam com Moët & Chandon.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

ANÓDINO

 
Despertado pelo raiar dos motores, Dr. Anódino sentou-se na cama, calçou as pantufas, ergueu-se, correu os estores, mirou o clima e, ao soltar um bocejo involuntário, apressou-se a tapar a boca não fosse alguém vê-lo naqueles modos impróprios de opinião instintiva. Dirigiu-se à casa de banho, baixou as calças, sentou-se na sanita e afrouxou uma bufa contraindo o esfíncter antes de libertar a primeira bolota de fezes. Contraiu bastante, não fosse alguém ouvi-lo naqueles preparos escatológicos. Apesar de viver sem companhia, sempre lhe pareciam as paredes demasiado permeáveis a todo o tipo de sonoridades. Há que estar precavido contra a indiscrição das paredes, pensava. E, depois de pensar, higienizava o sulco interglúteo, antes de se erguer, puxar as calças acima do umbigo, descarregar o autoclismo e aclarar a bacia com o piaçaba. Tinha agora o primeiro dilema do dia a carecer de resolução. Limpada a bacia, reparara em restos de porcaria na escova do piaçaba. O Dr. Anódino cogitou a melhor solução para o seu problema. Esperou que o autoclismo voltasse a encher e descarregou-o uma segunda vez, esperançado que uma segunda descarga expurgasse a escova conspurcada. Infelizmente tal não sucedeu, pelo que não restou ao Dr. Anódino outra hipótese senão ligar o chuveiro e higienizar o piaçaba após consistentes borrifadelas com detergente lava-tudo. Resolvido o dilema, espalhou do mesmo detergente pela base do duche e ligou o chuveiro no máximo para que a base ficasse impecavelmente desinfectada. Finalmente podia lavar os dentes, o que fez antes de entrar no duche e ensaboar o corpo, esfregando bem sovacos, virilhas e espaços interdigitais podais. Aplicou menos intensidade na glande, não fosse alguém entrar de rompante dando com ele a esfregar o pénis. Uma pessoa nunca sabe e o Dr. Anódino era adepto do mais vale prevenir do que remediar. Terminado o duche, secou-se com um toalhão turco, perfumou-se com desodorizante, vestiu-se, calçou-se e só não se penteou porque era careca. Pegou na carteira, no porta-chaves, correu os estores, saiu de casa, não sem antes se certificar de que todas as luzes haviam sido apagadas. O Dr. Anódino preferia o adjectivo plural feminino apagadas ao congénere desligadas. Há que poupar energia, repetia tantas vezes o Dr. Anódino de si para consigo. Ao abandonar o lar, isto é, ao sair de casa, que o lar era parte integrante do Dr. Anódino, nunca o abandonava, cumprimentou com acenos e deu deferentes bons dias a todos os vizinhos com quem se cruzou. Incluindo o gato Trivilhão do vizinhe três cabeças. Repetiu a mesma cordialidade ao entrar no café, ao dirigir-se ao balcão, ao afastar um pires com migalhas e guardanapos de papel amarrotados, ao solicitar um abatanado e meia torrada, ao pagar a conta, ao afastar-se a caminho do trabalho. Fez todo o percurso dividindo o olhar entre o que lhe aparecia pela frente e o chão que pisava, minado de armadilhas diversas tais como restos de lixo humano e dejectos animais. Serviu-se da ponta do nariz adunco como quem se serve de uma bússola. Já uma vez lhe acontecera pisar bosta de cão, foi uma aventura que não pretendia repetir. Até porque não tinha feitio aventureiro. Felizmente, desta feita, nada de inusitado aconteceu. Chegou ao local de trabalho e continuou a distribuir simpatia até ao fim de turno, com pausa para almoço na companhia de um pão sem sal. Foi cumpridor, exemplar, o preferido do patrão com quem nunca ousava a mais pequena discordância. E nestes sucessivos cumprimentos japoneses, a vida corria-lhe como leitos inócuos na direcção de marés inofensivas. A rotina repetia-se e cada novo dia era uma mudança, uma transformação, uma deslocação, uma modificação, uma alteração, uma trasladação para mais do mesmo.

domingo, 12 de abril de 2026

KAMA SUTRA

 


Um dos aspectos interessantes no Kama Sutra, curioso livro de instruções que o Ocidente reduziu ao ilustrativo fetichista, é o modo como "a arte de amar" também não prescinde da táctica e da estratégia. Os termos surgem ocasionalmente, explícita ou implicitamente, sendo magistralmente tratados nos capítulos dedicados aos eunucos e às cortesãs, neste caso com especial clarividência nos processos de ganhar dinheiro com um amante. Nos antípodas da ética kantiana, o Kama Sutra é mais honesto ao propor acções por dever interesseiro, isto é, as que assumem o lucro enquanto fim. Em vez de um amor desinteressado - porventura idealista -, temos todo um conjunto de meios ao serviço do prazer sexual. Se te queres desembaraçar de um amante, toma lá 28 artimanhas. Usa uma ou todas à vez. O dever é, deste modo, acompanhado pelas conveniências, o que faz desta uma filosofia verdadeiramente "humana, demasiado humana", genuína, protegendo-nos pela clareza da hipocrisia a que estamos condenados quando sacrificamos as acções a um ideal de pureza que em lado nenhum se vislumbra.

sábado, 11 de abril de 2026

MÉTODO ÚTIL À REFUTAÇÃO


Um método útil à refutação é em primeiro lugar a prolixidade da argumentação, pois é difícil abarcar de uma só vez muitos temas ao mesmo tempo e, para conseguir esta prolixidade, cumpre recorrer aos elementos já anteriormente indicados. Outro método é a celeridade do discurso, dado que os que se deixam atrasar vêem com menos clareza o que lhes é posto diante. Também há a ira e a paixão da controvérsia, pois, sempre que nos perturbamos, somos menos hábeis na defesa. As regras elementares para provocar a ira consistem em se dizer abertamente a vontade de proceder na injustiça e sem vergonha. Outro método consiste em propor as interrogações alterando a respectiva ordem, quer haja vários argumentos tendentes à mesma conclusão, quer haja argumentos para demonstrar simultaneamente que algo é assim e não é assim, pois daí resulta que o opositor tem de se defender simultaneamente de vários argumentos, ou, até, dos seus contrários. Todos os métodos atrás descritos são de um modo geral úteis para ocultar o pensamento, e também para os argumentos contrários, uma vez que se oculta o pensamento com vista a evitar que o opositor veja onde queremos chegar, e não queremos que assim veja, para o enganarmos.

Aristóteles, in Organon, VI, Elencos Sofísticos, tradução de Pinharanda Gomes, Guimarães Editores, 1986, pp. 62-63.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

SHIJING - CANCIONEIRO CHINÊS

 


   «As obras deste Cancioneiro eram produzidas numa região consideravelmente vasta, que se estendia desde os vales do Rio Amarelo até ao Rio Yangtsé e Han. Os seus autores pertenciam a camadas sociais diferentes: fidalgos, povo trabalhador e os escravos. A maioria destas obras são anónimas. Segundo os registos antigos, as canções de folclore eram coleccionadas por pessoal especializado, indivíduos que andavam no meio do povoe eram enviados pela Corte da dinastia Zhou. Estas canções tinham por objectivo não apenas o entretenimento da nobreza, mas também dar a conhecer os hábitos e os costumes do povo, pondo a descoberto os resultados positivos e negativos da política e, ao mesmo tempo, servia para a auto-avaliação.
   O Shijing debruça-se sobre a realidade social de há três mil a dois mil e quinhentos anos, em várias perspectivas diferentes, sendo um material muito precioso para o estudo da antiga sociedade chinesa. Através da temática dos seus poemas, podemos reconstruir a vida social, o sistema económico e produtivo, assim como alguns acontecimentos históricos importantes. Os seus temas, muito diversos, falavam do trabalho do povo, amor, sofrimento, fome, jornadas longe de casa ao serviço do estado, guerra, queixas e lutas contra a exploração, vida desafortunada das mulheres abandonadas pelo seu namorado, sátiras políticas, críticas e descontentamento face à injustiça e corrupção.»

Shijing - Cancioneiro Chinês, visto numa perspectiva ocidental, tradução e comentários dos alunos do Curso de Chinês I, coordenação de Zhang Weimin, com desenhos de João Lemos, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Junho de 2000, p. 11.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

CARTA BRANCA

 
Israel tem carta branca para matar. A Organização das Nações Unidas nada consegue contra, a União Europeia nem pia, os Estados Unidos da América apoiam, os países árabes olham sobre o ombro dos Estados Unidos da América, África e América do Sul não contam, Coreia do Norte cala-se, China cala-se, Federação Russa mata na Ucrânia, o Japão cala-se, o mundo de joelhos legitima Benjamin Netanyahu como um inimputável que pode cometer os crimes que lhe apetecer. Israel tem carta branca para matar. Nem a Palestina nem o Líbano interessam, podem desaparecer, milhares e milhares de pessoas a morrer, outras a sofrer, o mundo a assistir. Israel a matar.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

CONTAGEM DECRESCENTE

 
Diz Manuel Cardoso no Expresso:

"A CNN, a SIC Notícias e a NOW, durante toda a emissão de terça-feira, optaram por exibir um cronómetro em contagem decrescente que culminava no fim do prazo que Trump tinha dado ao Irão para reabrir o estreito de Ormuz. Aparentemente, o conflito atual em que se tomam decisões mais destrutivas é a guerra de audiências. Para competir com uma noite de Champions, os diretores de informação decidiram pôr no ar um contrarrelógio para o momento em que podiam ser lançadas armas nucleares. O telespectador ficou indeciso entre ver o Arsenal e ver o arsenal. Apesar de tudo, o canal de notícias da Media Livre perdeu a oportunidade de reforçar ainda mais o dramatismo: podia ter alterado, durante 24 horas, o seu nome para Apocalipse NOW."

O Manuel é humorista e isto não tem piada, é mero relato do que se passou, não é caricatural, é verdadeiro, é um retrato fiel da absoluta miséria em que estamos atolados. Felizmente, entre teatro, exposições, instalações e performances, escapei do pântano e passei ao lado do fim do mundo. Que já foi, porque o mundo era composto de seres humanos. Restam simulacros.

PARALELISMO

 
António José Seguro é a versão José Tolentino Mendonça do socialismo. Filosofia política da Quitéria.

terça-feira, 7 de abril de 2026

FÁBULA ZEN

 
O homem mordido pelo cão passou a odiar cães. Não percebeu que o animal só lhe ferrou o dente porque se sentiu legitimado pelo dono. Em vez de temer cães, o homem devia temer os donos dos cães. São eles quem deveras ferram o dente por interposto animal. O cão é o testa-de-ferro do dono, o cão é a figura de fachada do dono, o dono é cão que não ladra, mas morde.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

DESISTIR

 
Desistir não é necessariamente mau. Há quem desista de lutar para ter paz, há quem desista de odiar em favor do amor. Desistir pode ser recomeçar. Desistir de fazer uma coisa para fazer outras, mais prazerosas, desistir da vida social para não ter de fazer sala, desistir das máscaras. Desistir de correr atrás de nada, pois, afinal, é para o nada que tudo tende. Desistir de viver, a priori, pode parecer mau, mas a posteriori, isto é, depois de passar por uma certa experiência de vida, desistir de viver pode ser um descanso, será certamente um alívio. Há quem ambicione a fama neste mundo, quem deseje ser desejado, quem esteja convencido de não ter o reconhecimento que mereceria fosse o mundo justo, e, perante isto, há quem desista disto, o que não é mau. O sucesso entre bestas e bárbaros deve inspirar desconfiança. Desistir de nadar contra a corrente pode levar-nos a ilhas bem mais agradáveis do que a nascente. Desistir não é necessariamente mau, se desistir significar liberdade, autonomia, emancipação, e, de facto, pode significar tudo isso, tal como ensinavam os velhos mestres para quem a abnegação, uma renúncia que, de certo modo, se confunde com desistência, era o caminho de uma vida mais justa, pois implicava o altruísmo contra o egoísmo. O capitalismo promove o individualismo, que é, em si mesmo, egoísta, é o oposto da generosidade que exime, pelo desapego, da inveja e dessa competitividade estúpida que é o motor da soberba, da avidez, da ganância, da cobiça e, sobretudo, da vanitas por detrás de venalidade. O desprendimento protege-nos da manipulação, da subserviência, da servidão, tal como nos defende dos manipuladores. Desistir não é necessariamente mau, pode até ser muito bom, desde que não soframos com a ideia de derrota incutida por uma sociedade que confunde sucesso com ser melhor do que os outros. O sucesso, numa sociedade assim, pode ser um rotundo fracasso. Para as pessoas muito competitivas, desistir será sempre uma forma de fracasso. Pois que não desistam, continuem a despender as suas energias nas lutas que bem entenderem serem as mais proveitosas (são quase invariavelmente, para essas pessoas, as que lhes trazem benefícios particulares), e desejamos muito que atinjam todos os seus objectivos antes de irem desta para melhor. A expressão é boa, pois o melhor é a morte, o nada para que tudo tende, o que deve fazer pensar. Porque será "nada" o "melhor"? Porque aí já não há correrias, as ambições foram respondidas com um lugar no esquecimento. Para as pessoas que não são competitivas, desistir pode ser um sucesso na medida em que antecipa o fim, o descanso, a paz, e lhes traz aquela liberdade de poderem estar bem com o mundo sem estarem mal consigo próprias, ou seja, sem se verem obrigadas à hipocrisia para alcançarem este ou aquele objectivo, para atingirem esta ou aquela meta. Há sempre uma meta para lá da meta, há sempre um horizonte para lá do horizonte, é isto que o capitalismo incute, logo, a frustração alia-se à ambição porque nunca ninguém estará satisfeito, haverá sempre algo mais a conquistar. Conquistar. Eis o verbo. Em vez de conhece-te a ti mesmo podíamos dizer conquista-te a ti mesmo, o que significaria sê livre. Ou talvez: desiste.

domingo, 5 de abril de 2026

UMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS (EMANCIPADAS) DE PEDRO OOM

 


AS 20 HISTÓRIAS DA AVOZINHA

   O menino Zeca gostava muito de ouvir as histórias que a avozinha lhe contava.
   Mas chegou um dia em que, quando a avó tinha começado a contar uma das suas histórias, o Zequinha interrompeu-a e disse:
   «Esse conto não, avozinha, já ouvi, é o do Lobo Mau.»
   A avozinha começou a contar outra história mas o Zequinha voltou a interromper:
   «Essa também já conheço, avozinha, é a do macaco sem rabo.»
   E a avozinha foi começando a contar outras histórias mas sempre o Zequinha ia dizendo:
   «Essa não, já conheço, avozinha, conte outra.»
   A avozinha, que era analfabeta e só tinha aprendido a contar pelos dedos, contou dez dedos das mãos e dez dedos dos pés e nessa altura viu que já tinha contado ao netinho todas as histórias que sabia.
   Então a avozinha disse ao netinho:
   «Olha, Zequinha, já não sei mais nenhuma história, pede ao teu pai que tas conte.»
   Mas o pai do Zequinha não sabia nenhuma história porque era uma vítima de «Talidomida» que tinha nascido sem braços e sem pernas.
   E as histórias do Zequinha ficaram por aqui.


NOTA DO AUTOR: Nós que somos do tempo em que a «Escola era risonha e franca» e não existia ainda o Ensino Básico obrigatório, e que igualmente só aprendemos a contar pelos dedos, nunca tendo conseguir preencher por completo os dedos das mãos e dos pés com qualquer espécie de contos (de Reis ou de Fadas), também resolvemos ficar por aqui.
   Até porque acreditamos não existir, sequer, meia-dúzia de crianças verdadeiramente emancipadas no mundo inteiro.

Pedro Oom, in Actuação Escrita 1, &etc, 1980, p. 103.

sábado, 4 de abril de 2026

ENJEITADOS

 
"Filhos de todos... Filhos de quem?", exposição na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa dedicada aos enjeitados, bebés deixados na roda por razões várias. Os sinais impressionam, objectos simples de uma singularidade comovente, um sapatinho, uma pulseira, um casaco de malha, fitinhas com nomes e datas de nascimento, a identidade revelada como uma raiz cerceada pela miséria que levava ao abandono. Uma fotografia comovente de um tal Joaquim, rebaptizado Esdras pelo Hospital dos Expostos. Cresceu com uma outra menina nas mesmas condições, acabando ambos por casar. Sabina, de seu nome, morreu jovem, mas Esdras nunca mais se deixou fotografar sem ter junto a si a fotografia da mulher com quem iniciou a vida na roda dos enjeitados. Talvez fosse filho do Visconde de Alcobaça ou do Rei D. Luís I, portugueses de bem. Enjeitados, expostos, na roda.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

SANTA-RITA

 
Os jornais informam que Artemis II completa o primeiro dia da sua missão lunar da NASA. Ao lado, uma fotografia de Gaza em cinzas. Na Terra. Visito o Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, seguido de uma cerveja àCapela. Lugar curioso, este requintado complexo de obras de arte onde fui dar com um Santa-Rita. A tuberculose levou-o deste mundo ainda não tinha completado 29 primaveras. Colaborou nas revistas Orpheu e Portugal Futurista, órgãos da vanguarda que desbravou o caminho do Modernismo português. Antes de morrer, Guilherme de Santa-Rita, conhecido por Santa-Rita Pintor, ordenou que todos os seus quadros fossem queimados. Acabou este numa galeria de um Hotel de cinco estrelas. Chama-se "Orfeu nos infernos" (1909). Nem de propósito. Noutra galeria, um trabalho em vídeo do espanhol Carlos Aires. Dois agentes do corpo de intervenção dançam tango num salão aristocrático. Depois de “Color is Dangerous”, da Pipilotti Rist, deve ser das coisas mais marcantes em vídeo que vi até hoje. Entre missões lunares, galerias de arte em hotéis de luxo, capelas convertidas em bares, as cinzas de Gaza não me saem da cabeça.