A mando de um ministro acossado, os cães de fila são atiçados e atiram-se às presas indefesas. Há gente detida, há feridos, mas, ao contrário do que vemos por essa Europa fora, não por incendiarem as ruas, saquearem lojas ou atirarem pedras. Em Portugal, os detidos cantam, dançam, dormem, rezam, fazem uso de um direito que a Constituição da República Portuguesa consagra. Mas como ninguém quer saber da Constituição para nada, nomeadamente o inócuo Presidente da República e os seus sucessivos pedidos de esclarecimento, a polícia avança a mando de um ministro suspeito de várias práticas, essas sim, merecedoras de bastonadas. As televisões por ali andam com seus directos, sempre na ânsia do confronto que garante audiências, porque em casa e nos cafés há muita gente a salivar colada aos televisores. O sensacionalismo afoga bocas atónitas. Este governo acabou, já nada justifica que se mantenha. As acções policiais dos últimos dias e a política que as vem legitimando não têm qualquer justificação sustentável. A partir daqui, será sempre a crescer. O povo vai encher praças e ruas, vejamos até quando quedará sereno. É que provocações não têm faltado, na AR, nas redacções por onde passeiam os mesmos da AR, a ânsia pelo cheiro a napalm pela manhã é evidente. Há imensa gente desejosa de confrontos sérios que permitam depois justificar o injustificável, cargas policiais sobre manifestantes indefesos. Vimos isso há uns anos valentes nos protestos na ponte 25 de Abril, com consequências em 1994 que não queremos ver repetidas em 2026. Até quando o povo resistirá? Até quando?
antologia do esquecimento
domingo, 1 de novembro de 2026
ATÉ QUANDO?
A mando de um ministro acossado, os cães de fila são atiçados e atiram-se às presas indefesas. Há gente detida, há feridos, mas, ao contrário do que vemos por essa Europa fora, não por incendiarem as ruas, saquearem lojas ou atirarem pedras. Em Portugal, os detidos cantam, dançam, dormem, rezam, fazem uso de um direito que a Constituição da República Portuguesa consagra. Mas como ninguém quer saber da Constituição para nada, nomeadamente o inócuo Presidente da República e os seus sucessivos pedidos de esclarecimento, a polícia avança a mando de um ministro suspeito de várias práticas, essas sim, merecedoras de bastonadas. As televisões por ali andam com seus directos, sempre na ânsia do confronto que garante audiências, porque em casa e nos cafés há muita gente a salivar colada aos televisores. O sensacionalismo afoga bocas atónitas. Este governo acabou, já nada justifica que se mantenha. As acções policiais dos últimos dias e a política que as vem legitimando não têm qualquer justificação sustentável. A partir daqui, será sempre a crescer. O povo vai encher praças e ruas, vejamos até quando quedará sereno. É que provocações não têm faltado, na AR, nas redacções por onde passeiam os mesmos da AR, a ânsia pelo cheiro a napalm pela manhã é evidente. Há imensa gente desejosa de confrontos sérios que permitam depois justificar o injustificável, cargas policiais sobre manifestantes indefesos. Vimos isso há uns anos valentes nos protestos na ponte 25 de Abril, com consequências em 1994 que não queremos ver repetidas em 2026. Até quando o povo resistirá? Até quando?
terça-feira, 27 de outubro de 2026
ORIGINAL: ESQUECER
Terminada a tertúlia, um amigo aproximou-se e devolveu-me
um original escrito há 27 anos. Confiei-lho então, e agora, passados estes
anos, regressou às minhas mãos repleto de notas e sublinhados. Já não me
lembrava sequer de o ter escrito, o que apenas vem reforçar esta ideia antiga
de que é para isso mesmo que escrevo: esquecer.
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
TERRORISMO OFICIAL
Foi detido o rapaz que numa manifestação apontou a residência de Montenegro como bom alvo para um tijolo. Na AR, um deputado com cara de pólipo no cu, apelou à violência policial sobre manifestantes, discriminados, no discurso do pólipo, como "feios, porcos e maus" por não vestirem segundo os parâmetros do senhor deputado, por não cheirarem como o senhor deputado gosta, por não usarem um rego anal na cabeça como o senhor deputado usa. O rapazola do tijolo é detido, o rapazola deputado que discrimina e apela ao ódio sobre seres humanos é aplaudido pelos energúmenos do costume. Para a direita, a protecção da propriedade privada sempre se sobrepôs à protecção dos seres humanos. Há coisas que nunca mudam.
domingo, 25 de outubro de 2026
UNS E OS OUTROS
Tó Zé está a pensar na melhor forma de incluir a palavra
robótica numa intervenção sobre os acontecimentos da noite passada. Montenegro
não viu nada, estava com a família no Casino de Espinho a assistir ao
espectáculo do Baião. Adorou. As noras também. Ventura discute com o staff as
próximas produções para o TikTok, talvez de pernas e braços abertos, à laia de
Van Damme, entre polícias e manifestantes. Tresandando a álcool, Tânia Laranjo
queixa-se do cheiro a ganza no Rossio. Rita Maria exige fraldários para meninos
e para meninas. Leitão Amaro está a fazer um reel com as mãos na cabeça. Luís
Neves vai transformar em jacuzzi a piscina que já foi tanque para que os
portugueses finalmente percebam o que é um elevador social. Carlos Abreu Amorim
devora croissants de chocolate barrados com manteiga enquanto assiste ao relato
da partida entre PSP e arruaceiros. Paulo Núncio juntou-se numa picaria àquele
rapaz do Chega com cara de fiambre. Pedro Pinto fez de boi. Nuno Melo lamenta
as lamentáveis lamentações dos jovens lamechas que não se alistam no exército
para recuperar Olivença. Há casamatas para todos. Nas televisões, os
comentadores comentam. Na rua, os sem-abrigo passam frio. No escritório, a
banca lucra, as seguradoras lucram, as gasolineiras lucram, a especulação
imobiliária lucra.
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
A FALTA QUE NOS FAZEM OS FRANCESES
A malta que anda na rua de microfone em riste e câmara de filmar ao ombro tem dado provas suficientes do ridículo a que submeteu a sua profissão. Dos terríveis tremores de terra que afugentam gatos à procissão do refluxo gastroesofágico, do CR7 em debandada ao contentor a arder, são inúmeros os exemplos recentes desta ânsia pelo espectacular, da ávida busca do epifenómeno sensacionalista que mete toda a gente e mais um par de periquitos a debater o sexo dos anjos. Uma pessoa desprevenida que olhe para as televisões julgará que o sismo de 1755 foi brincadeira de crianças quando comparado com o que está a acontecer neste país das helenas matos e dos zé manéis fernandes. Eu cá tenho opinião diferente, acho que devíamos ser mais espanhóis e menos osórios, acho que devíamos ser mais franceses e menos tinocos, acho que somos mesmo um país de poetas... da cidade. E que falta nos fazem Brites de Almeida, mondadeiras e povinhos para quem o respeitinho não fosse esta porra triste de conchinhas no Rossio e fiambres no Parlamento e botas-de-elástico nas televisões.
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
PRECONCEITO
Chamavam-lhe preconceituoso, mas ele sempre dizia: «onde há padres
não se pode ter fé, onde há polícia ninguém está seguro.»
terça-feira, 20 de outubro de 2026
PAREDES DA ALMA
Está visto que o bicho tricéfalo já comeu a cabeça do artista estelar, com sua musa melancólica a dar calinadas no português poético. Todos tão ágeis a censurar a falta de competências técnicas, revelam-se à vez pobres de espírito sem lugar no reino dos céus. Lá não se curtem epidermes, lê-se nas entrelinhas, o que não sabem fazer por falta de concentração. Observamos, no entanto, a condescendência para com o lixo reciclado da linguagem, tudo tão medianamente à medida de uns e de outros, todos por igual, sem excepção. Que fazer quando o génio autoproclamado dos imbecis cresceu sem espelhos nas paredes da alma?
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
IDADES
Velhos que se comportam como crianças mimadas,
cinquentões com atitudes adolescentes, jovens que nascem já velhos. Qual a
idade mais adequada para sermos quem somos?
domingo, 18 de outubro de 2026
O FIM DO MUNDO
O fim do mundo será
a nossa salvação
nenhuma fome
restará para comer
nenhuma doença,
nenhuma dor
nem uma palavra
para contar pelos dedos
o alfabeto
irrespirável dos mortos
Apenas um pássaro
de asas partidas
cantará pousado num
galho de ferro
adejando com o pio
terras devastadas
cordilheiras d'
ossos à sombra dos abutres
sábado, 17 de outubro de 2026
BOTAS-DE-ELÁSTICO
Vou usar uma expressão que não aprecio particularmente para
descrever um sonho que tive esta noite, a expressão bota-de-elástico. O sonho é
simples, sonhei com uma manada de botas-de-elástico a pastarem num vasto campo
de golf. É verdade, em vez de prado tínhamos um golf course, em vez de gado
tínhamos botas-de-elástico. Acontece que a tudo isto assistia eu como se
estivesse a ver televisão, ou seja, a televisão era um golf course onde
apascentava uma manada de botas-de-elástico. O mais impressionante é que eu
sabia o nome das cabeças de gado, isto é, das botas-de-elástico, e chamava-as
pelo nome como se fosse pastor ou coisa que o valha. Ali, a vaca Helena
Matagal, acolá, o cabrão Miguel Morgadinho, além, a cabra Helena Ferro
Enferrujado de Gouveia, adiante, o boi Josué Manuel Fernandes, uma manada
diversa de botas-de-elástico a pastarem num campo de golf chamado TV.
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
BOLSA DE FINADOS
Quando tudo é campeonato, quando tudo é submetido à
lógica competitiva, dos números de seguidores aos concursos de casados, dos
campeonatos de poesia às maratonas festivaleiras, damos conta do calcanhar de
Aquiles em que a humanidade inteira se transformou. A vida enquanto game show,
jogo de azar, concurso público, tabuleiro sem peças, a vida raspadinha aí está
diante de nós com seus rankings de mérito e felicidade. O Império capitalista
ganhou, não há refúgio que nos valha, a toxicidade concorrencial infiltrou-se
até onde a julgávamos abolida, no amor, na amizade, na liberdade. É para aí um
ver se te avias de campeões, de heróis e giovannis, que uma pessoa até tem
medo, tal o gigantismo dos egos exacerbados e a proliferação de génio. Vamos
todos finar burros que nem portas, mas só alguns carregados de medalhas e
condecorações e taças e bicicletas. Pobres goghs, kafkas, pessoas, pobres de
todos esses que em vida passaram ao lado dos pódios atravessando em último as
metas do sucesso. Está para breve a substituição do baptismo pelo chip dos
campeões. Se é para nascer, que seja para os primeiros lugares na bolsa de
finados.
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
O HOMEM DA FLOR NA BOCA
(...)
E era isto que era de demonstrar, está a ver? Com provas e exemplos contínuos, a nós próprios, implacavelmente. Porque, caro senhor, nós não sabemos de que coisa é feito, mas é que, é que, todos o sentimos aqui, como um nó na garganta, o sabor da vida, sempre insatisfeita, que nunca se pode satisfazer, porque a vida, no próprio acto de a vivermos, é assim, sempre ávida de si mesma, não se deixa saborear. O saber está no passado, que permanece vivo cá dentro. O gosto da vida vem-nos daí, das recordações que nos têm amarrados. Mas amarrados a quê? A esta sensaboria aqui... a este tédio... a tantas estúpidas ilusões... insípidas ocupações... Sim, sim. Isto que agora, aqui, é uma sensaboria... isto que agora é para nós uma desventura, uma verdadeira desventura... sim senhor, à distância de quatro, cinco, dez anos, quem sabe que sabor terá tomado... que gosto, estas lágrimas... E a vida, santo Deus, só o pensar em perdê-la... especialmente quando se sabe que é uma questão de dias...
(...)
Luigi Pirandello, in O Homem da Flor na Boca seguido de Sonho (mas talvez não), tradução e prefácio de Isabel Lopes e Fernando Mora Ramos, Cotovia/Teatro Nacional S. João, 1998, p. 29.
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
UM POEMA DE JOSÉ EMÍLIO-NELSON
Um HOMEM DE PORLOCK bateu à porta de estrofes sonhadas.
E a pluma de Coleridge não mais abriu-se ao sonho <de que
antes, febrilmente, se lembrava>. [Plot]
(Ai! Cinza de versos! Quem me chama?)
José Emílio-Nelson, in O Homem de Porlock - Film, posfácio de Tiago Cfer, insert de Marcelo Ariel, fotografias de Sebastião Resende, Edições Esgotadas, Setembro de 2026, p. 74.
terça-feira, 13 de outubro de 2026
DAR NAS VISTAS
As pessoas que gostam de dar nas vistas podiam começar
por beliscar as próprias retinas. Ia dizer esbofetear, mas não é preciso tanto.
Em vez de darem chapadas nas vistas, belisquem as vistas. É que estão muito em
sintonia com estes tempos, com as práticas mais bem sucedidas do exibicionismo
reinante e do narcisismo metódico. Nem precisamos de ligar a televisão para ver
o telejornal, povoado de gente a fazer tudo para dar nas vistas. Até o pino.
Começando pelos próprios jornalistas, que ora fazem o pino, ora denotam
impressionantes competências contorcionistas. Malabarismos também há, ser
discreto é que não rende, não produz efeitos, a discrição deixa-te na penumbra,
ali esquecido e ignorado, pobre de ti, pelo que o melhor é começares por
beliscar as próprias retinas. Imagina-te a ser entrevistado na rua por um
jornalista que pretende saber porque estás numa manifestação. Não tentes sequer
responder com discrição, dá logo nas vistas, belisca as retinas de imediato.
Caso contrário, ele vai antecipar-se com perguntas que nada têm que ver com o
início da conversa. Perguntas para dar nas vistas. A antecipação é o segredo de
quem procura dar nas vistas com sucesso. Mais do que qualquer outra táctica, a
antecipação é assaz refrescante para os egos inflamados e agigantados que não
se têm em si de tanto desejarem dar nas vistas. Objectivo: ser o centro das
atenções, o ponto em torno do qual o mundo gira, e desse modo impor as suas
perspectivas esbofeteadas de darem nas vistas. Reparem como há tantos
jornalistas que pretendem ser o centro das atenções, é típico nas sociedades
rendidas ao espectáculo. Quanto mais no centro das atenções, mais no topo da
carreira. O centro das atenções é um potente elevador social que faz quem quer
dar nas vistas ascender à condição de estrela, por vezes até à condição de
alpha ursae minoris. Minoris, mas grandis, enormis, gigantesquis, porque quando
ocupamos o lugar polar todas as atenções se viram para nós. E então já nem
precisaremos de dar nas vistas, beliscar retinas, bastará abrir a pestana. E o
ego baterá asas.
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
O TEATRO É PURO CINEMA
(...)
- Quando eu era pequeno queria ser actor. E agora que sou actor, o que eu queria era voltar a ser pequeno, porque o teatro é uma traição. O teatro é uma verdadeira mentira. Não é mais do que um sonho feito de palavras débeis inábeis habilitadas e vestidas para se esconderem por detrás do vestuário extraordinário (e) da decoração.
- Quando eu era novo era um verdadeiro imbecil. Pergunto-me se terei aprendido alguma coisa.
(...)
Alvaro García de Zúñiga, in O Teatro é Puro Cinema, trad. Jorge Melícias (a partir da versão espanhola), Blablalab / Teresa Albuquerque, Abril de 2024, p. 9.
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