antologia do esquecimento
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
FUNERAL
sábado, 7 de fevereiro de 2026
PÂNTANO
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
CONCÍLIO
Vinte anos depois, conheço pessoalmente o autor desses livros que me chegavam pelo correio com simpáticas dedicatórias. Conversa animada. Ao termo da noite, ele foi pelo chocolate quente. Eu preferi a aguardente. Falou-se do passado, do presente e dos futuros possíveis. Feliz coincidência entre duas pessoas, esta de ambas apreciarem cada vez mais a solidão e o isolamento fugindo do que nessa noite fizeram. Concílio de solidões, portanto. Vila Real.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
ACERCA DO TEATRO QUOTIDIANO
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
CRISTINA
Cristina, creio, assim se chamava a do bar artístico no
Pátio dos Escuteiros. Fechou a porta e colocou um cinzeiro no centro da mesa.
Continuámos a beber Guiness e a trincar amendoins, a conversa fluía. Depois
alguém abriu um piano, depois alguém me passou uma guitarra, depois Cristina
agradeceu as canções dos génios do seu tempo. O tempo dela não era diferente do
meu, mas desconfio que ambos sintamos já o passado encurtar-se. Lembrou-me a
irmã de um amigo da adolescência com quem ouvia The Doors e fumei os primeiros
charros. Covilhã.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
LIVRARIA PÚBLICA
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
S/T
Talvez o Teatro Impossível seja um teatro sem corpo. Beckett ter-se-á aproximado dessa possibilidade em Not I (1972), peça que levou a actriz Billie Whitelaw a afirmar depois de a representar: «I felt I had no body.» Por outro lado, sentimo-nos tentados a supor no Teatro Impossível um teste de resistência ao cogito, ergo sum. Existimos porque pensamos ou pensamos porque existimos? A teoria dos jogos de linguagem explorada por Ludwig Wittgenstein inscreve a linguagem e, por conseguinte, o pensamento, no contexto das práticas humanas: «uma palavra tem sentido pelo uso particular que dela fazemos.» Mas qual é o sentido da palavra sentido? A linguagem é indissociável do corpo, a linguagem teatral é indissociável do gesto, talvez o Teatro Impossível seja um jogo de linguagem. Num texto anfíbio como s/t (blablalab, 2006), que, a despeito da brevidade, pode ser entendido como poema, ensaio ou dramatículo, a relação entre o acto de escrita, o acto de fala e o acto de pensar é ponto de partida para um encadeamento ao mesmo tempo lógico e lúdico da relação entre o pensamento e os gestos de falar e de escrever. O cogito, ergo sum converte-se num cogito, ergo scribe, transmutação de tipo poético que aproxima o texto de outros autores para quem o ofício de escrever se confunde com o ofício de viver. Ocorre-nos o tempo que medeia entre o acto de pensar, o acto de dizer e o acto de escrever. Piensa al hablar, escreve Álvaro García de Zúñiga antes de dizer o que pensa enquanto fala. E entre o que a escrita fixa, cristaliza, tenta-se uma reprodução fiel do pensamento. A dúvida é: será tal possível? O pensamento é acto puro, movimento ininterrupto, fluxo, corrente continuada que a fala materializa. Deixamos de pensar quando morremos. A fala solta o pensamento, mas a escrita parece oferecer-lhe outro tipo de materialização. A escrita como que tende para uma interrupção do fluxo, isto é, mesmo na sua vertente mais automática a escrita fixa o pensamento e, ao fixá-lo, pode silenciar a fala ou servir-lhe de suporte (quando lemos em voz alta, por exemplo). Ao pensarmos este drama para três personagens ̶ pensamento, fala, escrita ̶ não necessitamos de mais do que de um corpo, mas o corpo manifesta-se também aqui imprescindível. Dizemos por vezes que falámos sem pensar, consideração que acarreta um certo peso moral. Falar sem pensar ou falar da boca para fora é não reflectir aquilo que se diz. O assim dito, por carecer de reflexão (pensamento sobre pensamento), pode ser equivocamente interpretado. Tais equívocos geram discussões, imprimem na vida de quem fala uma espécie de autocensura que o poupa a diagnósticos pouco saudáveis. A fala exercita a censura do pensamento, mesmo quando, seguindo os bons conselhos de Alceu de Mitilene ou de Plínio, o Velho, oferecemos ao corpo doses de vinho favoráveis à libertação da verdade. In vino veritas, eram as regras do banquete. Por sua vez, procuramos não impor à escrita nenhum tipo de constrangimento. A escrita facilmente se embriaga a si mesma, soltando-se, libertando-se, como desejavam as vanguardas do início do século XX, com assinaláveis repercussões na História da Literatura mais recente. O texto sem título de Zúñiga coloca-nos esse problema: foi escrito sem pensar, foi pensado a escrever, foi falado e pensar que se escrevia, foi pensado a falar para ser escrito, etc? «Parece pensar en lo que escribe.» O mais interessante neste jogo a três é a dinâmica, o ritmo que conecta o pensamento à escrita, a escrita à fala, a fala ao pensamento e assim sucessivamente. A dado momento coloca-se uma hipótese, abre-se a cortina das possibilidades: «como le parece que diría si se hablara por escrito.» Falar por escrito. Pensar por escrito. Dizer a si mesmo que pensa por escrito. O processo em causa é, portanto, o de um monólogo que faz incluir o pensamento num corpo, um corpo que sangra, logo, um corpo vivo. O Teatro do Pensamento que é, por sua vez, materializado na escrita e na fala, não prescinde do corpo, o corpo é a conditio sine qua non há Teatro. Então alguém sangra enquanto escreve, a escrita corresponde a um sangramento, o sangramento do pensamento. É uma bela imagem: a escrita enquanto sangramento do pensamento. O processo desloca-nos da lógica para a poética, da norma que determina o jogo de linguagem para uma linguagem que se cria a si mesma, cria e recria como o solo que medeia entre a repetição de um riff. Esta é uma escrita altamente musical, na medida em que se deixa embalar pelo ritmo do pensamento para proporcionar à fala, no dizer do escrito, esse movimento que tende para a suspensão, para a interrupção, para o momento em que o pensamento pare de se escrever dizendo-se. E nisto poderíamos ver, quem sabe, mais uma dessas inclinações para o silêncio de que falava Alberto Pimenta.
DEMASIADOS PERFIS
Órfãos, uma peça para um espelho, um cavalinho de embalar
e uma jarra com flores. Também há uma vela e um bengaleiro, um sofá e livros
infantis. Falhou a água, que não se ouve. Quem terá entendido esta conjugação
de objectos enquanto contorno nos perfis das personagens?
domingo, 1 de fevereiro de 2026
AMADORES
Amo os amadores. O pior que pode acontecer a um profissional é deixar de amar, passar a fazer tudo por obrigação, dever, cumprindo regras, respeitando rigorosamente as convenções. O amador aventura-se, questiona, quando ama verdadeiramente ele é um autêntico filósofo, um amante do conhecimento. A não ser que seja tonto e em vez de amar o outro ama-se apenas a si mesmo, fechando-se no reflexo da sua vanitas. Esses não entendem sequer a efemeridade que os condena, que nos condena a todos. Sempre que regresso à História da Literatura lembro-me disto, tantos sãos os nomes com que me cruzo que hoje nem chegam a meras curiosidades. Afundaram-se no esquecimento como se nunca tivessem existido. Mas existiram, fizeram coisas, algumas delas até valerá a pena desenterrar, ao contrário de outras que por aí se vão fazendo, ocupando páginas e páginas de jornais, que melhor seria enterrar quanto antes.
sábado, 31 de janeiro de 2026
VOZ HUMANA
Peça de tipo neo-romântico com banda sonora de
Durutti Column e Dead Can Dance. Uma mulher, de seu nome Júlia, é assaltada por
pensamentos suicidas. Um amor falhado abre-lhe a porta da desilusão. Um
barqueiro, evocação de Caronte, tenta seduzi-la para o seu mundo. Se o amor não
faz parte do seu vocabulário no início, acaba no fim por lhe servir de
argumento: «serei eu, o teu novo amor...» Numa espécie de diálogo desprovido de
argumentação retórica, Júlia e o Barqueiro oferecem-nos retratos de dois mundos
paralelos. Estão ambos num limbo, cada um no seu, talvez se encontrem na morte.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
TEMPOS DE INDIGÊNCIA
Vamos aos solavancos. No Renascimento, ainda houve quem nos lembrasse: a natureza somos nós. Os do Romantismo perguntaram: que é feito dos Deuses gregos? Agora estamos nesta era deserdada, a das tecnologias que fazem parecer tudo tão fácil até se tornar óbvia a fragilidade de que somos feitos e nunca ultrapassámos. Se aprendêssemos alguma coisa com isto. Mas nada, dentro em breve repetiremos os mesmos erros, voltaremos a comportar-nos como se não houvesse História. Quem era o autor que mais descria da humanidade?
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
JOÃO CANIJO (1957-2026)
Realizador de Mal Viver e Viver Mal, ambos de 2023, arriscou uma espécie de western à portuguesa com a série Alentejo Sem Lei (1991). Sapatos Pretos (1998) surpreendeu, é talvez o meu filme preferido de João Canijo.
KRISTIN
Árvores arrancadas ao chão, troncos partidos, casas destelhadas, cheias, zonas balneares atapetadas de areia, montras quebradas, postes de alta tensão dobrados, publicidade espalhada pelo chão, lixo, muito lixo, campos de cultivo destruídos, um cenário de quilómetros e quilómetros de destruição. Sem água, sem luz, sem telecomunicações, as pessoas lembram-se de que são pessoas. «Sejam férteis e cresçam; encham a terra e dominem-na; dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» Assim fizemos, esquecendo de que mais do que dominar a terra seria importante preservá-la, prestar-lhe culto, protegê-la, porque, feitas as contas, concluímos que somos parte integrante da terra. Não estamos separados, estamos dentro. Deus que se foda.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
A HORA AZUL
Cristina Ferreira Parente, in A Hora Azul, com ilustração de Ana Vasco, Menção Honrosa Prémio Literário José Luís Peixoto, 2019.
UM SONHO
Um sonho: tento colocar um bebé numa dessas cadeiras auto que me parecem bastante confortáveis. Só que a cadeira está repleta de fios, um emaranhado de fios eléctricos, cabos que eu tenho de descobrir onde encaixam e não consigo. O bebé tomba, cai, curva-se como um boneco de trapos. A certa altura ameaço-o com um murro, olha-me enraivecido. E eu embrulho-me nos fios, nos cabos, naquele emaranhado indecifrável de fibras e filamentos.
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
77
Fui ver o debate. André Ventura proferiu 77 vezes o nome do seu adversário nas respostas às perguntas que lhe eram feitas. António José Seguro proferiu 20 vezes, sendo que 9 foram a pedir para que Ventura não o interrompesse. Seguro tentou falar do país, Ventura passou o tempo a falar de Seguro chamando-lhe rainha de Inglaterra, miss Portugal, arrogante, entre outros epítetos fundamentais para o nosso futuro. Ventura engoliu em seco quando Seguro expôs o seu exemplo pessoal em matéria de subvenções, nas propostas que no passado fez para combate à corrupção. E à pergunta sobre quantos desempregados há no país, Ventura respondeu: "Eu respondo a seguir." Ainda estamos à espera. Em matéria de imigração, face ao exemplo espanhol de legalizar 500 mil imigrantes, André Ventura confundiu deixar entrar mais imigrantes com regularizar a situação dos imigrantes que já estão no país. Em matéria de política internacional, disse, sem se rir nem ter nenhuma crise esofágica, que devemos ser amigos de democracias como Israel e EUA. São, não haja dúvidas, óptimos exemplos de democracia na actualidade. Ventura diz esta coisa extraordinária: "Portugal não se deve vergar perante os nossos antigos palops". Os nossos antigos palops, diz ele, acrescentando que não temos de pedir desculpa pelo nosso passado e que prefere enganar-se a deixar tudo na mesma, entre outros chavões costumeiros. Ventura acha que o socialismo mata, mas quando um jornalista lhe diz que o que está a defender podia ser dito por um socialista não só não discorda, como anui. E lá vai dizendo que está de acordo com Seguro em algumas matérias de lei de bases da saúde, legislação laboral, entre outras. Portanto, Ventura está por vezes de acordo com Seguro ao mesmo tempo que o acusa de não ter ideias nenhumas e querer que tudo fique na mesma. Já Ventura tem ideias muito boas, como entregar a nomeação do Procurador-Geral da República, sei lá, tipo a uma corporação de procuradores, ó isso. Gostei do debate, ouvir André Ventura dizer 77 vezes António José Seguro deixou-me confortável quanto ao meu sentido de voto.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
CHICO-ESPERTO
O chico-esperto tem sempre histórias para contar e é, invariavelmente, o herói das histórias que conta. Vinga-se, assim, dos pés chatos, da marreca, da saliva em excesso numa boca incapaz de se calar. Faz-se esquecido nas contas que não salda, toma os outros por parvos, ironiza. Ele não te diz que está mal ou que está bem, diz aos outros e espera que esbarres para, vendo-te caído, dar-te a mão. Depois cobra. O chico-esperto não é parvo nenhum, por isso inspira cautela e distância. Creio que finará afogado na própria saliva.
domingo, 25 de janeiro de 2026
SEIS HISTÓRIAS PARALELAS
Em Seis Histórias Paralelas (Companhia das Ilhas, Setembro de 2023), Nuno Dempster (1944-2026) ocupou-se das sobras de uma ruralidade que já não merece olhares contemplativos. Seja através da enjeitada de Vasconha, nome de aldeia no sopé da Serra do Caramulo, seja através das visões em Nave dos Sobreiros, nome de aldeia desconhecida, as seis histórias introduzidas por epígrafes de Plutarco (duas), Catulo, Homero, Ovídio e Sófocles, não opõem os vícios da vida urbana às virtudes da ruralidade, antes preferem abordar esta a partir de um prisma crítico que vai muito melhor com a mudança dos tempos. Agradou-me particularmente O Caminho, uma história de vindima com os explorados da imigração em pano de fundo. A vida no campo está longe de ser um paraíso e tanto os vícios como as virtudes são humanos, não escolhem geografias.
TODOS CONTRA MIM, DIZ O BULLY
Ventura acha que está no caminho certo porque estão todos contra ele. Na verdade, não estão todos contra ele. Mais de 1 milhão de palermas votaram nele. Ele próprio, nas eleições anteriores em que foi candidato, todas e mais algumas, tem vindo a gabar-se de arrasar com este e com aquele porque os portugueses estão do seu lado. Ora, há nesta lógica propagandística uma contradição que não é de admirar. Ventura diz e desdiz a cada hora que passa. O que me parece interessante, desde já, sublinhar é a importância de estarmos todos contra as pragas de ratos, independentemente do caminho que elas sigam. O discurso dos estão todos contra mim é ainda interessante por vir de um bully que passa a vida a estar contra tudo e todos, nomeadamente o PSD e PS, que ele faz equivaler em cartazes sobre corrupção, ou os ciganos, assim generalizados como se no interior da comunidade não houvesse tanta gente diferente. Ventura está constantemente a pôr-se no centro do mundo, as televisões ajudam. Também por isto é tão importante ir votar contra ele, para que finalmente ele perceba que os que estão com ele não são assim tantos como ele apregoa. O que está em causa nas próximas eleições não é a direita versus a esquerda, é indecência versus a decência, não é o socialismo versus as democracias liberais, é o respeito pela Constituição da República versus o desrespeito por uma Constituição que se pretende mudar para favorecer elites contra os direitos de todos, o que está em causa não é 52 anos de corrupção versus três Salazares para acabar com a mama, é a possibilidade de o país continuar a progredir versus um cheque em branco aos pardais das mamadas.
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