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terça-feira, 3 de março de 2026

SENSAÇÃO

Por atalhos irei, nas noites de Verão,
Picado pelo trigo, pisar a erva fresca:
Os meus pés sentirão a frescura do chão.
Sonhador, erguerei ao vento a minha testa.

Não direi palavra, não pensarei em nada:
Mas o amor infinito virá ao meu ser,
E, como um cigano, lançar-me-ei à estrada,
Feliz como em companhia de uma mulher.

20 de Abril de 1870

Arthur Rimbaud, traduzido por João Moita.

domingo, 14 de dezembro de 2025

DENTE POR DENTE

 


DUQUE (após um momento de reflexão): Quem é esse Bernardino a que se alude na carta?
MEIRINHO: Um cigano que vivia nesta cidade e há nove anos está a apodrecer na cadeia.
DUQUE: Como se explica então que o Duque não o tivesse posto em liberdade ou mandado executar? Assim costumava fazer, segundo me disseram.
MEIRINHO: Com efeito; mas devido à influência dos seus amigos, beneficiou de sucessivos adiamentos.
DUQUE: E há provas bastantes da sua culpa?
MEIRINHO: Absolutamente; de resto, ele próprio confessa.
DUQUE: Como se tem comportado na cadeia? Mostra-se arrependido?
MEIRINHO: É um homem a quem a morte não aflige mais do que o sono da embriaguês; o futuro é-lhe tão indiferente como o passado ou o presente; a ameaça da morte não o atemoriza, e contudo encontra-se em estado de pecado mortal.
DUQUE: Precisa de ser aconselhado.
MEIRINHO: Seria inútil. Nega-se a ouvir quaisquer conselhos. Passa às vezes horas e até dias inteiros embriagado; outras vezes acordam-no e dizem-lhe que vai ser executada a sentença. Pois nem mesmo assim manifesta a mais ligeira emoção!

William Shakespeare, in Dente por Dente, repertório para um teatro actual 2, tradução de Luiz Francisco Rebello, Prelo, Novembro de 1964, pp. 72-73.

domingo, 17 de agosto de 2025

ANA AMAYA MOLINA

 


No caminho para os Baños Árabes, em Ronda, dou com Ana Amaya Molina, la Reina de los gitanos. Uma coisa é certa, nenhum pulha do Chega algum dia será assim lembrado.

terça-feira, 15 de abril de 2025

ESTRUTURA MÓVEL

 


Os judeus são um distúrbio para o tempo. Esse distúrbio tem um efeito sobre os Estados, as fortificações, os assentamentos populacionais. É uma ameaça, no fim de contas, à estrutura do Estado. O único povo que ainda conserva esta estrutura móvel e sem Estado são os ciganos. A sua mera presença é uma provocação. Como expoentes da estrutura móvel, põem em causa tudo aquilo em que um Estado se baseia. A verdadeira tragédia é a criação do Estado de Israel. É uma reacção ao anti-semitismo e aos pogroms, mas é uma armadilha. Israel transformou os judeus num povo promotor do Estado e levou-os a abandonarem a sua verdadeira estrutura, que é anti-Estado. Afinal, acabou por ser Hitler a transformar os judeus em romanos. Roma é o núcleo do Estado e as suas estruturas imperiais.
 
Heiner Müller, in O Futuro é o Mal, organização e tradução de Fernando Ramalho, Língua Morta, Janeiro de 2025, pp. 164-165.

sábado, 12 de abril de 2025

UM POEMA DE YANNIS RITSOS

 


19 de Maio

Multiplicam-se os loucos e os estropiados,
precisamente agora
que o grande sofrimento terminou.

De noite conseguimos ouvir
o grito do louco vindo do telhado
amplificado sobre o mar.

Os olhos alargam-se
negros tão negros
como duas tendas ciganas nos limites de uma cidade.

E lá dentro dos ciganos semi-nus
malham no ferro.

O som desse bater
torna difícil a escrita de uma carta
e ainda mais difícil a escrita de uma poema.

Aqui tudo foi escrito com sangue.

Yannis Ritsos, in Diários do Exílio, tradução de José Luís Costa e Rui Miguel Ribeiro, posfácio de Claudio Russello, Edições do Saguão, Setembro de 2022, p. 129.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

SOFRER DE INFINITO

 


Enquanto atravessava a praça, Antero ouviu uma música. Parou e voltou-se. Na esquina oposta, à sombra de um plátano, estava um vagabundo a tocar um realejo. O vagabundo fez-lhe sinal e Antero dirigiu-se para ele. Era um cigano magro e tinha um macaco ao ombro. Era um pequeno ser de focinho irónico e triste e vestia uma farda vermelha com botões dourados. Antero reconheceu o macaco do seu sonho e compreendeu quem era. O animal estendeu-lhe a minúscula mão negra e Antero deixou cair nela uma moeda. Em troca o animal tirou à sorte um papelinho colorido entre os muitos que o cigano tinha enfiados no chapéu e deu-lho. Antero pegou nele e leu-o. Atravessou a praça e sentou-se num banco junto do fresco muro do convento da Esperança, onde havia uma âncora azul pintada na parede. Tirou o revólver do bolso, levou-o à boca e puxou o gatilho. Teve um momento de espanto ao continuar a ver a praça, as árvores, o cintilar do mar e o cigano que tocava o realejo. Sentiu um frio morno que lhe escorria pelo pescoço. Accionou o mecanismo do revólver e fez fogo pela segunda vez. Então o cigano desapareceu e os sinos da Matriz começaram a bater o meio-dia.
 
Antonio Tabucchi, in Mulher de Porto Pim, Difel, 1983, pp. 48-49.

domingo, 17 de novembro de 2024

JOSEF, NORUEGUÊS, CIGANO

 

«Um dos livros mais bonitos que apareceram na Noruega nos últimos anos é sem dúvida o Livro das cabanas-abrigos (koie) termo que designa cabanas ou abrigos primitivos usados normalmente como sítio de pernoita temporária. Ainda hoje existem uma série delas que são propriedade pública e que podem ser usadas gratuitamente por turistas ou viandantes. Neste livro, uma edição luxuosa com belíssimas fotografias (da Gyldendal), o historiador-etnógrafo Thor Gotaas em parceria com M. N. Pettersen, traça a história das pequenas e rudimentares cabanas ao longo dos tempos; utilização que tiveram, e a sua localização geográfica. Como é hábito nos livros de Thor Gotaas, a propósito de um tópico ou assunto historiado, aparecem sempre histórias de indivíduos. É um dos encantos dos seus livros. A forma como resgata do esquecimento seres anónimos e já esquecidos reconstruindo-lhes a dignidade ao apresentá-los ao público.

É aqui que encontramos Josef e a sua história ao longo de 16 páginas. Quando a mãe de Josef morreu de parto, o rapaz, nascido em 1900, foi dado pelas organizações religiosas para adopção a uma família de acolhimento. Tinha sete anos. Cresceu, como qualquer adolescente, só que sob suspeição e vigilância das missões sempre suspeitosas das criançãs da sua etnia ("tinham no sangue" o nomadismo, a pouca vocação para o trabalho e a inquietude, quando não a propensão para a vigarice e criminalidade, segundo as crenças da época) e no final da adolescência já tinha sido marcado pela comunidade local como problemático. Quando não como delinquente. Jovem adulto, os seus crimes montavam já a ter roubado de uma barrica ou balde (em ajuntadilha com outro) uns arenques, ter escavacado um ancinho e ter feito um corte numa mochila. Tais delitos, mais o defeito de ser respondão e irreverente, foram suficientes para o enviar para a prisão no início dos anos vinte. E da prisão para o asilo, porque agora na prisão juntava-se ao anterior estigma dos zelotas religiosos a ciência dos zelotas da higiene racial. O diagnóstico médico dava-o como atrasado mental. E aí, no asilo, passou grande parte (segunda metade) da década de 1920, com tratos de animal irracional.

Libertado, voltou às imediações de Dokka, à paróquia de Østsinni, onde se tornou trabalhador florestal. Como era hábito na época, os trabalhadores viviam em pequenas cabanas provisórias, de reduzida dimensão, aquando dos cortes de madeira. Josef, não tendo a quem voltar e suspeitoso da sociedade (com boas razões, já que a sua etnia foi perseguida, as crianças retiradas aos pais, os adultos enviados para campos de trabalho, acabando a última humilhação na proibição de ter cavalos - quando ao longo de séculos tinham sido os melhores fornecedores de cuidados veterinários, a ponto de o exército não passar sem eles especialmente nos séculos XVII e XVIII) foi ficando. E encontrou nos pequenos abrigos a sua casa. Passou a viver isolado, de cabana em cabana, em espaços diminutos 10, 15 metros quadrados (coisa que pode ter as suas conveniências quando no inverno os termómetros passam dos 20 negativos) numa vida espartana, a partir de dado momento subsistindo de caça e pesca, visitado apenas por amigos fiéis de forma esporádica.

O que é curioso na história de um homem com este tipo de vida e neste tipo de isolamento em que passou a viver durante as décadas de 30, 40 e 50, é que Thor Gotaas o descreve, intitulando até com essa característica um sub-capítulo, como leitor voraz = cavalo de leitura = lesehest. Lia de tudo o que apanhava. Jornais, poesia, romances, monografias sobre natureza. Os seus autores preferidos, Hans Børli, o poeta norueguês que melhor cantou as florestas e Mikkjel Fønhus* romancista que tinha na natureza selvagem e nos cenários das florestas os seus temas favoritos. Viveu anónimo, mas imagino que os seus autores favoritos não teriam desdenhado saber que tinham um leitor assim (…). Olhando a história de Josef no livro de Gotaas, ilustrado pelas belíssimas fotografias que lhe tirou Arne Rignes, o título do subcapítulo (lesehest - cavalo de leitura) e os testemunhos de amigos fiéis que o descreveram como homem inteligente e sensível, dou comigo a pensar que os leitores ideais destas páginas teriam sido os zelotas da religião e da higiene racial que o classificaram de atrasado mental e que o privaram de liberdade durante quase uma década. Já é tarde. Mas servem de exemplo a outros. E aqui fica.»


Vítor Rodrigues (no Facebook)

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

UM CONTO DE ANTÓNIO AMARAL TAVARES

 


FEIRA DO RELÓGIO
 
   Furo a densidade de gente como uma visitação à largura da vida. Música africana de gosto duvidoso faz arder o espaço e os rostos que passam, que procuram e se expõem num lugar que se declara seu. Alguns parecem procurar apenas uma voz, um murmúrio, as cores, a gente, olhos que se penduram nos cabelos. Uma feira concreta e presente, sem teias na sombra, faz-me gostar mais da música. Aquele lugar não é o lugar onde passo os dias mais honrados. Uma bancada de venda de cassetes  e duas enormes colunas de som emitem música. Dois negros dançam vagamente ritmos sincronizados de ombros e de mãos. Avanço subindo vagarosamente por entre os corpos, a mesma música acompanha-me e cruza-se com a de um aparelho. Uma toada semelhante, que outro negro, jovem, segura ao ombro, como se abraçasse um país distante, uma poeira ocre sobre o alcatrão, grandes distâncias povoadas de embondeiros que nunca conheceu. Uma mulher branca, o cabelo grisalho e despenteado, vende peúgas em molhos. Tão sentada e calada como um pequeno enclave, sem vida nem ritmo, duas mãos caídas no colo. Um negro alto passa pela apertada turba que parece abrir-se à altura e ao orgulho intocável de um fato e chapéu de cor bege. Razões nobres, da cor da pele, uma nação vencedora, vestida de mistérios e rumores próprios e antigos. Noites quentes de amores e cheiros. Em grupo, jovens já presos às fronteiras pouco seguras do olhar que lhes resta, o muro da lei de um país pequeno demais.
   Passos errantes e ciganos, como uma cortina que se abre. Música cigana encontra o tom proibido da pele, mulheres bonitas de longos vestidos e saltos altos. Uma tão bela, que a seu lado dois homens parecem disputá-la no volume crescente da voz. Uma outra bancada de cassetes, mais música. T-shirts, gangas e sapatos. Estes o que eu procuro. Olho atentamente os exemplares e, a um sinal transmitido por fios invisíveis, da bancada ao lado desaparecem relógios e ténis. Tão rapidamente que quando olho para ela já só vejo a madeira de um sonho que acorda. Dois polícias passam devagar. Um, de meia-idade, seguro pela experiência e pela farda, o outro, mais magro e novo, que olha em volta como se visse mais do que a razão que o põe ali. Nada mais se ouve, senão a música com raça, tão apaixonada como os dois homens. Uma espera.
   Depois os relógios e os ténis reaparecem na teimosia da viola no coração dos ciganos. Eu escolho um par de sapatos, pago com a vergonha sem raça do dinheiro e continuo a subir. À vista do bairro da pantera cor-de-rosa, a beleza de um rosto nobre riscada pelo esquecimento, um homem de ombros largos apregoa lençóis, a voz eléctrica de um microfone abotoado à boca das ilusões que se repetem de terra em terra. Desço a mesma encosta para a saída da feira, a entrada de um país que a custo me envolve.
   Foram baratos os sapatos. E partiram pela sola antes que deixassem de me magoar os pés. Encontrei, num outro dia, numa outra nação, uns sapatos semelhantes numa montra, tão iguais quanto possível. Pelo dobro orgulhoso do preço.

 
António Amaral Tavares, in Um Dia, Um Homem, Medula, Maio de 2024, pp. 15-16.


sexta-feira, 5 de abril de 2024

EXISTENCIALISTAS A SÉRIO

Águeda, 22 de Dezembro de 1948 - Um grupo de ciganos a quem Sartre deveria dar carta de alforria na sua doutrina. Estes, sim, é que são existencialistas verdadeiros, desde a guedelha e a barba por fazer, ao porco desenterrado e comido!
Miguel Torga, Diário IV.

sábado, 23 de março de 2024

UM POEMA DE JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

 


NA NOITE DO PEQUENO BAR INFAME

«O leitinho na cama quer o gato.
Mas não tires comida do meu prato.
Até os cães fornicam com mais ética

o corpo de outros cães, se necessitam.»
Isso foi da primeira. Não bastou
esse aviso. Outra vez tentou a sorte

— o réptil que julgavas teu amigo.
Na noite do pequeno bar infame,
tencionou a fortuna desse amor

roubar-te. Porém, erro cometeste:
era cobra, não viste a língua bífida.
Mas depois — deixa lá — nem conseguiu

por artimanha vil obter o outro.
O homem por inveja cobiçado
revelou do vilão toda a mentira

— e mais amor e prémio o tempo trouxe.
Desdémona — feliz — com negro Otelo:
um cigano romeno de passagem

— de etária diferença, vinte e cinco
sem qualquer dano ou défice na cama.
Invertido o triunfo da perfídia

— tanto quanto, na vila, as circunstâncias
consentiram ditosos esses meses.
E calada — de vez — a velha hiena.

José António Almeida, in O Sermão de Noé Dentro da Arca e Outros Poemas, não (edições), Outubro de 2023, pp. 37-38.

domingo, 14 de janeiro de 2024

VÊM QUATRO CIGANOS

 


(...)

Vêm quatro Ciganos cujos nomes são: Liberto, Cláudio, Carmélio, Aurício. E diz Cláudio:

CLÁUDIO
Cual de vuz otroz, siñurez,
trocará un rocín mío,
rocín que huve d'un judío
ahora en pascoa de florez?
Y tiengo dos especialez
cavallos buenos que talez.

AURÍCIO
Ceñurez, yo trocaré un potro
que tiengo, por cualquer otro,
si me bolvéis mil realez.

CARMÉLIO
Que doz borricoz compré
murizcoz, prietoz, garridoz;
ya loz huviera vendidoz,
mas antez loz trocaré.

CLÁUDIO
Oh, ceñurez cavalleros,
mi rocín tuerto os alabo
porque es calçado n'el rabo,
zambro de loz piez trazeroz;
tiene el pecho muy hidalgo,
y cocea al cavalgar.

AURÍCIO
Ciñurez, queréis trocar
mi burra vieja a un galgo?

MARTINA
No nos curemuz deçaz franduraz.

CLÁUDIO
Pues, qué quereis, Martina, que hagamoz?

MARTINA
Cantemoz la fiesta antez que noz vamoz
a buscar luz ciñuz a essaz ciñuraz.

(...)

Gil Vicente, in Auto das Ciganas, 1521. 

terça-feira, 26 de setembro de 2023

PORTUGUESES DE BEM, IMIGRANTES BONS, CIGANOS EXEMPLARES

 


   Os ciganos estavam mesmo à entrada do cemitério, tinham arranjado um pequeno mercado com bancas de madeira e mantas estendidas no chão.
   Desci do táxi e disse ao homem para ficar à minha espera. O largo estava deserto e os ciganos dormiam estendidos no chão. Aproximei-me da banca de uma velha cigana vestida de preto com um lenço amarelo na cabeça. Na banca dela estava um monte de camisolas Lacoste impecáveis, só não tinham o crocodilo no seu lugar. Cigana, chamei, quero fazer compras. O que é que tu tens, meu filho?, perguntou a Velha Cigana ao ver a minha camisa, estás com sezões ou quê? Não sei o que é que tenho, cigana, respondi, tenho estado a suar como um cavalo, preciso de uma camisa limpa, talvez de duas. Depois eu digo-te o que é que tu tens, disse a Velha Cigana, depois eu digo-te, mas agora compra as camisas, meu filho, não podes ficar nestas condições, o suor que seca nas costas faz adoecer. O que é que me aconselhas, perguntei, uma camisa ou uma camisola? A Velha Cigana pareceu reflectir um instante. Aconselho-te uma camisola Lacoste, disse depois, são as mais fresquinhas, se queres uma Lacoste falsa custa quinhentos escudos, uma autêntica custa quinhentos e vinte. Caramba, disse eu, uma Lacoste por quinhentos e vinte escudos parece-me muito barata, mas qual é a diferença entre a falsa e a autêntica? Para teres uma Lacoste autêntica é simples, disse a Velha Cigana, primeiro compras a falsa, que custa quinhentos escudos, depois compras o crocodilo, que custa vinte escudos e que é autocolante, colas o crocodilo no seu lugar e aí tens uma camisola autêntica. Indicou-me um saquinho cheio de crocodilos. Aliás, disse, por vinte escudos dou-te quatro crocodilos, meu filho, assim ficas com três de reserva, que muitas vezes estes autocolantes são chatos porque se descolam.
 
Antonio Tabucchi, in “Requiem – Uma alucinação”, 1.ª edição na Dom Quixote, Abril de 2007, 6.ª edição, Fevereiro de 2023, pp. 25-26.

sábado, 2 de setembro de 2023

CIGANOS

Ciganos pelas estradas,
tristes, sujos, andrajosos...
Ai meus passos desejosos
de seguir vossas passadas,

De ir convosco na distância
Sem rumo, ou lar ou saudade...

É maior a minha ânsia
do que a vossa liberdade!

Armando Côrtes-Rosrigues, Um Poeta Rodeado de Mar, Companhia das Ilhas, 2021.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

CIGANOS

Tudo o que voa é ave.
Desta janela aberta 
A pena que se eleva é mais suave
E a folha que planta é mais liberta.

Nos seus braços azuis o céu aquece
Todo o alado movimento.
É no chão que arrefece
O que não pode andar no firmamento.

Outro levante, pois, ciganos!
Outra tenda sem pátria mais além!
Desumanos
São os sonhos também.

Miguel Torga, in Libertação, 1944.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

A CIGANA

Lia a sina a cada um
Na palma de cada mão;
Não desgraçava nenhum,
Nem lhe tirava a ilusão.

Toda a donzela paria,
Todo o homem navegava;
E nem a moça sofria,
Nem o rapaz naufragava.

Um amigo em cada linha,
Um triunfo em cada dedo;
Nos seus lábios ia e vinha
A reserva dum segredo.

Não se mostra uma paixão
Tal e qual, à luz do dia:
Cobre-se-lhe o coração
Da rede duma ironia.

Mas quem tem penas no peito,
Entende acenos discretos;
Sabe ficar satisfeito
Com afagos indirectos.

E em toda a grande praça
A multidão que a enchia
Vivia daquela graça
E do bem que repartia.

Porque nascera cigana,
Sem fronteiras no sorriso
A sua palavra humana
Conhecia o paraíso.

E ali, mulher, o mostrava
A quem, faminto, o pedia:
A quem, crédulo, o comprava
Pelo preço que valia.

Miguel Torga, Coimbra, 19 de Junho de 1946.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #37

 


Alguém que desconheço escreve no Twitter algo como isto: «Engraçado ver as pessoas entrarem na Padaria Portuguesa para beberem um copo antes de descerem a Avenida. Revolucionários ma non troppo.» É o tipo de sentença que deve inspirar arrependimentos… ma non troppo. Como fomos dos que passaram pela Padaria para beber uma mini e comer uma empada, talvez devêssemos autoflagelar-nos e pedir perdão pelo revolucionarismo aburguesado. Não somos puros, queridas filhas. Sucede que a sentença foi proferida no Twitter, essa ferramenta revolucionária criada pelos americanos a favor da união do proletariado. Quem decretou o veredicto não o fez, por certo, dando uso a um gadget qualquer. Só pode tê-lo feito num smartphone ecológico, com ecrã táctil em vidro da Marinha Grande e bateria de pilhas recarregáveis. No corpo, nem uma peça de roupa proveniente do Bangladesh, garantia absoluta de que nenhum trabalho infantil foi explorado na confecção das cuecas ou das meias ou do sutiã ou de outra treta qualquer. Ao contrário, como sabeis, das tretas que vimos expostas em montras luxuosas ao longo da Avenida.
 
Estamos em Abril de 2022, é difícil ser revolucionário sem o ser ma non troppo. De repente damos connosco a lutar contra o imperialismo usando ferramentas imperialistas ou a criticar as fábricas de cretinos digitais colados ao smartphone durante uma mesa redonda onde se abordam essas e outras matérias como essas. Estamos sempre a cair em contradição, sobretudo quando dizemos: olhem para nós, que bem estamos em comparação com os outros. É uma tentação adorarmo-nos. Eu há muito meti na cabeça que a revolução começa na autocrítica, nessa capacidade de desconfiar das nossas próprias certezas. Não se trata de vacilar nas convicções. Trata-se, antes pelo contrário, de não as trair prescindindo de fundamentá-las no confronto com o tempo e com o outro. Trata-se de uma convicção inabalável: é na dúvida e no contraditório que aprendemos e, aprendendo, nos fazemos humanos. Um homem que seja sempre a mesma coisa é uma pedra. Nem uma pedra é, que também essa está sujeita à erosão. É um fóssil.
 
Nada que nos abrevie a alegria de havermos visto um mar de gente gritando loas à liberdade em allegro vivace. Antes de descermos, uma delegação da Techari – Associação Nacional e Internacional Cigana encheu-nos de contentamento revolucionário. Serão eles, esses, aqueles, os outros, suficientemente revolucionários para descer a Avenida reivindicando justiça para todos independentemente da etnia, fim ao racismo e à xenofobia, mais oportunidades e menos precariedade? Quem é mais revolucionário, o deputado obediente às regras do parlamentarismo ou o precário que desobedece ao patrão? Não sei, minhas filhas, sei que sobre os ombros aqueles carregam uma história mais onerosa do que qualquer um de nós poderá sequer imaginar. É por isso que vos lego este livro, “Homo Sacer e os Ciganos” (Antígona, Abril de 2014), um conjunto de considerações sobre anticiganismo organizadas em volume pela alemã Roswitha Scholz.
 
Que nos diz ela que valha a pena sublinhar? Que há muito, no fundo desde que nos sedentarizámos e organizámos as nossas sociedades em torno do trabalho e da produção e do consumo, pelo menos desde esses tempos que o estigma sobre o povo cigano foi marcado a ferros. Incivilizados, preguiçosos, marginais, selvagens, fora-da-lei, bandidos, primitivos, bruxos e ladrões, parasitas, batoteiros, cidadãos de segunda e de terceira, párias, porque, na raiz, ameaçavam com o nomadismo os pilares de uma civilização assente na fixação dos povos, na exploração do trabalho, no pagamento de impostos, na submissão e na subserviência e na servidão. Foram objecto tanto de um ódio abjecto e discriminatório, que os arrumou em guetos e exterminou em fornos, como de uma romantização que neles celebra o resquício do selvagem resistente às mordaças do capitalismo. Para alguns, representam tudo quanto adoraríamos ser não fôssemos revolucionários ma non troppo.
 
Começaram a ser perseguidos na transição para a Modernidade, informa Roswitha Scholz, ou seja, quando o trabalho se tornou o símbolo da máxima virtude no mundo civilizado e a preguiça, que já era um pecado capital, se transformou num vício execrável à luz dos civilizados padrões ocidentais. «A partir desse momento opera-se uma etnicização do estereótipo: de ora em diante, os ciganos são vistos como uma raça primitiva.» Associais, «lumpemproletariado avesso ao trabalho», foram perseguidos por leis racistas ainda antes dos judeus na Alemanha nazi. Porajmos é o nome que se dá ao holocausto cigano, ainda hoje menos falado do que a Shoa. Porquê? Talvez por razões de empatia. Talvez por serem humanos como nós, ma non troppo. Será? Serão os índios de cá, talvez. E no entanto foram submetidos a esterilização forçada, classificados como imbecis e incapazes, foram proibidos de casar com pessoas de sangue puro, internados em campos de concentração, deportados, também para eles inventaram reservas especiais: «Até as pessoas com um bisavô considerado cigano eram classificadas mestiças de ciganos.» Logo, eram ciganas. Logo, segregadas, exterminadas.
 
Cito: «Desde 1989, a situação dos roma piorou de forma dramática, nomeadamente nos antigos Estados do bloco de Leste. As expulsões e os progroms estão na ordem do dia, o que provoca movimentos migratórios. No entanto, estas realidades são menos noticiadas na Alemanha do que os pedidos de asilo, alegadamente injustificados, furtos em lojas e crianças a mendigar. De um modo geral é possível detectar desde 1989 um recrudescimento dos estereótipos anticiganistas junto das instituições estatais, dos média, etc.: chamam-lhes criminosos, dizem que mendigam e procriam «que nem coelhos», que são sujos, supersticiosos, primitivos e por aí adiante.» Tantos são os defeitos, que fica difícil perceber as virtudes. Podemos começar, quem sabe, pelos males que não lhes devemos, nem progroms, nem porajmos, nem shoas, nem atómicas, nem mães de todas as bombas, nem aculturações de crucifixo em riste. Já é qualquer coisa, esta mania de não pretender governar para fora mais do que interessa governar para dentro. Talvez pudéssemos começar a revolução por aí, quero dizer: por de uma vez por todas metermos na cabeça e no coração e no estômago e onde mais caiba essa resistência à tentação de pretender impor ao outro o que nós somos e pensamos, permitindo que cada ser se faça e construa na descoberta e no intercâmbio de, mais do que opiniões, exemplos fortalecidos por acções concretas. Sem fascínio nem desprezo, saber dizer liberdade sem esperar que rime mais com igualdade do que rima com fraternidade.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

JOHN CLARE


 

   Nasceu em Helpston, este The Northamptonshire Peasant Poet. Começou a trabalhar na agricultura ainda em criança, depois foi garçon no bar Blue Bell. Também trabalhou como jardineiro, acampou com ciganos, foi queimador de cal. De saúde precária, mal alimentado, socorreu-se nas paróquias locais. A leitura de The Seasons, de James Thomson, levou-o a escrever os primeiros poemas. Em 1820, sai o seu primeiro livro: Poems Descriptive of Rural Life and Scenery. Não podia ter um título mais adequado. É precisamente isso o que caracteriza grande parte da poesia do primeiro dos três bardos antologiados e traduzidos por Ricardo Marques em Três Bucólicos Ingleses (Elysium, Setembro de 2020), uma poesia descritiva da vida rural, com suas cenas, paisagens, lugares, pessoas, trabalhadores, com sua fauna e flora, as Lebres a brincar, A raposa, a Névoa nos prados, os Estudantes no Inverno.
   Clare foi muito elogiado pelos seus poemas iniciais. Casou-se nesse mesmo ano de 1820. Dividido entre os saraus literários londrinos e o analfabetismo da vizinhança, passou por graves momentos de depressão. Perdeu a aura inicial, afogou-se em álcool, procurou refúgio num asilo para doentes mentais. Dizia-se Lord Byron, dedicando-se a reescrever os poemas deste. Também dizia ser Shakespeare, o génio da Renascença, mas no magnífico poema Eu sou!, incluído na antologia de Marques, é perceptível a frustração: «Eu sou o que se consome com os seus problemas». Sentia-se desprezado e abandonado pelos amigos. Fugiu do asilo em 1841, caminhando 130 km na direcção de casa. Voltou a ser internado num hospital psiquiátrico: «To the enquiry "Was the insanity preceded by any severe or long-continued mental emotion or exertion?", Dr Skrimshire entered: "After years of poetical prosing."» Eu sou!, o poema, foi escrito nesta altura, em pleno internamento.
   Morreu com um acidente vascular cerebral no dia 20 de Maio de 1864. Do bucolismo inicial à soturnidade espiritual no termo da vida, John Clare revela-se um poeta mais complexo do que possa parecer à primeira vista. Entre os poemas traduzidos por Ricardo Marques, há vários que merecem ser lidos com atenção. Deixo um:
 
Humores de Verão
 
Eu adoro andar sozinho ao lusco-fusco
pelas ruas estreitas, cheias de espinhos orvalhados
onde debaixo da erva crescida o caracol
azeviche se arrasta e faz sair as tímidas antenas
Gosto de meditar sobre outros prados recém-cortados
onde a erva caída o ar abafado incensa
onde as abelhas buscam com ar triste e cansado
em vão flores recém-nascidas, acabadas de florescer,
enquanto no milho sumarento, a codorniz escondida
grita “eu eu eu” e, se oculta, como pensamentos invisíveis,
A feérica e raramente vista galinha d’água
Repete “crique crique” como vozes subterrâneas
feliz por encontrar o véu orvalhado da noite
e ver a luz desaparecer em trevas ao redor
 
Nota: a transcrição respeita a versão publicada em livro, apesar das vírgulas me parecerem escusadas.

domingo, 11 de abril de 2021

UM POEMA DE RUI BAIÃO

 


[Contactless]

Cuidado, ainda as pisam,
Às células cegas,
e às filhas delas também.
Se dispostas a morrer
por amor, estivessem
com um pé no estribo,
& o outro no cigano.
Fossem além do tempo,
tenda & azáfama.
Em ombros, sem alças
— um vestido negro

Era cego um surdo-mudo,
e o filho dele também. Cúmplice
até, dava jeito. O derradeiro desdém


Rui Baião, in balabela, edição do autor, Abril de 2019, p. 74.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

PORTUGAL NÃO É RACISTA

Está prestes a realizar-se uma manifestação subordinada ao tema ilustrado pelo título desta prosa. É difícil discordar de premissa tão axiomática. De facto, como pode ser racista um país? Em si mesmo, um país não é racista a não ser que na sua Constituição existam artigos discriminatórios de etnias. O racismo, de resto, surge de um erro de análise que já devia ter sido ultrapassado mas ainda não foi: o de que existem raças entre seres humanos. Tem sentido falar de etnias, não faz sentido algum falar de racismo. Entre os bichos há raças, entre os homens só há bestas. Devíamos ficar por aqui. No entanto, o instinto das bestas determina a que não fiquemos por aqui.

Se Portugal não é racista, e a nossa Constituição leva a crer que o não seja, há portugueses que o são. Alguns até pretendem mudar a Constituição da República, são exactamente os mesmos que propõem confinamentos especiais para determinadas etnias. Isto é um bocado racista. Mas se não devemos reduzir Portugal à existência desta gente, também não podemos ficar serenos com a forma como buscam desagravar o que os próprios agravam. É que entre as bestas que se preparam para nos lembrar de que Portugal não é racista existem delas que até já foram condenadas por actos racistas ou aguardam julgamento sob acusação de racismo. 

Pois que Portugal não é racista, não como declaradamente o era a África do Sul do apartheid, mas, infelizmente, há racismo em Portugal. Há racismo em todo o lado, é por isso que convém combatê-lo. Deixem-me dar-vos um exemplo prático, claro, objectivo e esclarecedor de racismo à portuguesa:

 

Este comentário foi-me dirigido há dias, após um desmentido oficial relacionado com o acesso ao Rendimento Social de Inserção por parte de pessoas de etnia cigana. Repare-se na confissão: «não confio em ciganos, não os queria ter como vizinhos nem que frequentassem a escola do meu filho». A conclusão é objectiva: «Sou racista, para qualquer um que não saiba viver em sociedade, seja branco, preto ou às riscas…» Pobres zebras. Temos aqui, portanto, uma cidadã porventura exemplar de um país que não é racista, mas onde incontestavelmente existe racismo. Não só existe, como surge declarado sem qualquer tipo de pudor por essas redes fora. 

Não vou perder tempo a contrapor os preconceitos e os estereótipos de quem assim fala, embora julgue fazer falta a esta senhora alguma criatividade. Quero só reforçar que os dados por mim apresentados a que o interlocutor se refere incluíam campos de concentração, gulags, bombas atómicas, realidades históricas que, para a pessoa em causa, «são insignificantes comparando com os atropelos cometidos pelos ciganos na sociedade». O que foi Auschwitz ao pé da Quinta da Fonte? Uma ninharia. 

Com este exemplo, pretendia eu provar que Portugal não é racista… à condição, dado ser factual a existência de racistas em Portugal. A gravidade não está apenas em existir gente que pensa assim, está também nas acções concretizadas. Desde há alguns anos que vêm sendo cada vez mais frequentes as notícias sobre actividades dos movimentos neonazis portugueses, especialmente violentos na manifestação do racismo que os move. A Europol avisa, o SIS avisa, mas, para certa gente, o que é relevante é descer a avenida gritando que Portugal não é racista. Recentemente, o Ministério Público acusou 27 pessoas «de discriminação racial, ofensa à integridade física qualificada, tentativa de homicídio e tráfico de armas», gente que pertencia a um grupo que exaltava a superioridade da “raça branca”. Perseguem, insultam, agridem, matam. Serão racistas ou simplesmente não gostarão de pretos e de ciganos?

A medrança destes movimentos deve ser uma preocupação, o alerta acerca da sua existência está lançado, a necessidade de combater aquilo que defendem é uma obrigação cívica de todos quantos não se revejam num país com cidadãos de primeira, de segunda e de terceira. Mais preocupante se torna notar como este tipo de pensamento tem vindo a infiltrar-se no interior de forças nas quais depositamos a confiança da nossa protecção e segurança. Neste sentido, passo a partilhar um post de um militar que, na sua página de Facebook, diz não ser de esquerda, nem de direita nem de centro, mas do que vem de dentro. O que vem de dentro pode ser muita coisa, sangue, cocó, chichi. E pode ser nada, se o dentro estiver vazio. É quando se torna mais perigoso. A declaração de não pertença “ao rebanho” é, de resto, muito comum entre o rebanho de populistas que faz da oposição ao sistema (qual?) uma bandeira de agremiação. Cliquem na imagem para ver melhor:

 

A postura intimidatória do militar seminu não me incomoda particularmente, mas não posso dizer o mesmo do discurso que acompanha a selfie e das declarações de amor manifestadas com likes e comentários diversos. Este camarada dirige-se com texto copiado (de quem? de onde?) a um grupo concreto que nem sequer tem especial relevância por terras lusas, os “meninos antifas”. Parte do princípio peregrino de que o vandalismo exercido sobre os símbolos e monumentos da Nação (maiúsculas do autor do texto) tem origem unívoca e unilateral, certos indivíduos que se servem de tais gestos para combater a disseminação do fascismo no mundo. Ora, o que não falta por aí são exemplos de atentados contra símbolos e monumentos públicos perpetrados por gente aparentemente ligada à extrema-direita ou claques de futebol. A pichagem não é um exclusivo de ninguém em particular.

Deverão o aviso ameaçador e a mensagem agremiadora final ser objecto de alguma denúncia no Ministério Público, tal como foi um cartaz recentemente empunhado durante uma manifestação anti-racista? Por que é que os latidos do caniche na manifestação anti-racista não incomodam tanto quanto as ameaças deste cão de fila nas redes sociais? Há uma razão para que assim seja, Portugal não é racista… à condição. Se for um “antifa” a pichar, prepare-se para ter à perna “o exército português”. Se for um skinhead, não sabemos, talvez acabe como convidado da Tânia Ribas de Oliveira ou do Manuel Luís Goucha num programa da manhã. 

A polarização está ao rubro, o crescimento que se avizinha do desemprego e da miséria vão tornar ainda mais aliciante o discurso exacerbador dos bodes expiatórios. Eu já não penso que a tempestade esteja perfeita, neste momento estou convencido de que chegámos ao olho do furacão.

domingo, 12 de janeiro de 2020

EU CIGANO ME CONFESSO


Portugal tem um problema com as minorias étnicas, apregoa-se aos quatro ventos e eu não discordo. A minoria étnica dos arrivistas, a minoria étnica dos oligarcas, entre outras minorias étnicas congéneres, são não apenas um, mas vários problemas com os quais a nossa ilustre nação se depara na actualidade. Penso, por exemplo, em Duarte Lima, o bom Domingos para os amigos, arrancado ao seio humilde de nove irmãos, algures em Miranda do Douro, rumando à capital sob alto patrocínio de gente capaz de sustentar estudos na Universidade Católica e nas melhores universidades italianas. Duarte, esse de quem se diz ter acabado a assassinar uma velhinha para lhe sacar o guito, é um problema para o país. Desconfio que haja nele algo de cigano que possa ser apontado e criticado e vilipendiado, assim como o há em José Sócrates, Zé dos Cofres para os amigos, nascido em Vilar de Maçada. Quem nasce numa terra com tal nome só pode trazer ruindade dentro de si, uma ruindade gitana como sói ser a de quem chega a primeiro-ministro e abandona o cargo cheio de bons samaritanos amigos de seu amigo. Eu, que sou cigano do lado da mãe e sarraceno do lado do pai, o mais que consegui na vida em matéria de esmolas foi uns trocos do Sousa Lara, que, como é sabido, faz parte dessa minoria étnica de políticos bafejados pela sorte das subvenções vitalícias. Fita-se o 4.º Marquês de Lara, 2.º Conde de Guedes, e o que se topa? Um cigano sob capa monárquica, só para disfarçar. É um problema para o país. De resto, esta gente tem-se organizado com o passar dos anos, já não são os dançarinos e cantadeiros ilustrados por Youssef Chahine no filme “O Destino”, muito menos os romanis atabalhoados e castiços de Emir Kusturica. Não, esta gente tem hoje ao seu serviço autênticas Mossad, com infiltrações em inúmeros serviços de informação de segurança, tentáculos espalhados pelo mundo com perfis falsos nas redes sociais, uma autêntica NSA, dita Agência de Segurança Nacional, supostamente americana, zíngara de verdade, que nos ludibria, manipula, marioneta. Cuidado com esta raça altamente sofisticada, capaz de se fazer passar por ilustres banqueiros nas pessoas de José de Oliveira e Costa, o do BPN, fiel amigo de seu amigo Cavaco, muito provavelmente também este etnicamente obscuro, ou João Rendeiro, o do BPP, o tal que é capaz de passar entre os pingos da chuva sem se molhar ou queimar ou lá o que é. São coisas que aprendem na escola de ciganos, magias. Depois iludem-nos com ricardos Quaresma e djangos Reinhardt, aquele a quem faltavam dedos, como leitoras de sina na Feira do Relógio. Sim, caros concidadãos, temos um grave problema a resolver com as nossas minorias étnicas. Eu, na qualidade de cigano, isto é, na falta de qualidades, quero aqui deixar o meu testemunho garantindo que nunca me cruzei com Ricardo Salgado, o Dono Disto Tudo (só a sigla já cheira a pesticida), excepto daquela vez, no Mercado de Santana, em que a minha senhora lhe tentou vender um jogo de lençóis bancos (sic) em sacos azuis, para que o cigano da Lapa pudesse ir amealhando trocos antes de se ver vilmente espoliado por uma justiça tão cega e lenta como as lemas. O Pedro Dias, esse bom homem, português de raça, é que a sabe toda, ele e o Manuel Palito e o Rei Ghob e a mulher do triatleta, mais uns quantos finos exemplares de puros lusitanos, denegridos por uma sociedade doentia que teima em não ver as coisas como elas são. E como são as coisas? São em forma de assim, já dizia o poeta e eu não discordo. Abaixo, pois então, os ciganos e todas as minorias étnicas que conspurcam a nossa nação com vis acções, cotadas na bolsa e nos paraísos fiscais da Madeira, paraíso onde os ciganos não chegam. Abaixo eu próprio, mim mesmo, que cigano me confesso. Abaixo toda essa gente minoritária, excepto os que expiam pecados na missa ao beijarem as mãos de padres pedófilos (não digo em Portugal, que os não há). A propósito, é impressão minha ou o Bibi tinha uma tez aciganada? Estou desconfiado de que o era.