terça-feira, 3 de março de 2026
SENSAÇÃO
domingo, 14 de dezembro de 2025
DENTE POR DENTE
domingo, 17 de agosto de 2025
ANA AMAYA MOLINA
terça-feira, 15 de abril de 2025
ESTRUTURA MÓVEL
sábado, 12 de abril de 2025
UM POEMA DE YANNIS RITSOS
domingo, 16 de fevereiro de 2025
SOFRER DE INFINITO
domingo, 17 de novembro de 2024
JOSEF, NORUEGUÊS, CIGANO

É aqui que encontramos Josef e a sua história ao longo de
16 páginas. Quando a mãe de Josef morreu de parto, o rapaz, nascido em 1900,
foi dado pelas organizações religiosas para adopção a uma família de
acolhimento. Tinha sete anos. Cresceu, como qualquer adolescente, só que sob
suspeição e vigilância das missões sempre suspeitosas das criançãs da sua etnia
("tinham no sangue" o nomadismo, a pouca vocação para o trabalho e a
inquietude, quando não a propensão para a vigarice e criminalidade, segundo as
crenças da época) e no final da adolescência já tinha sido marcado pela
comunidade local como problemático. Quando não como delinquente. Jovem adulto,
os seus crimes montavam já a ter roubado de uma barrica ou balde (em
ajuntadilha com outro) uns arenques, ter escavacado um ancinho e ter feito um
corte numa mochila. Tais delitos, mais o defeito de ser respondão e irreverente,
foram suficientes para o enviar para a prisão no início dos anos vinte. E da
prisão para o asilo, porque agora na prisão juntava-se ao anterior estigma dos
zelotas religiosos a ciência dos zelotas da higiene racial. O diagnóstico
médico dava-o como atrasado mental. E aí, no asilo, passou grande parte
(segunda metade) da década de 1920, com tratos de animal irracional.
Libertado, voltou às imediações de Dokka, à paróquia de
Østsinni, onde se tornou trabalhador florestal. Como era hábito na época, os
trabalhadores viviam em pequenas cabanas provisórias, de reduzida dimensão,
aquando dos cortes de madeira. Josef, não tendo a quem voltar e suspeitoso da
sociedade (com boas razões, já que a sua etnia foi perseguida, as crianças
retiradas aos pais, os adultos enviados para campos de trabalho, acabando a
última humilhação na proibição de ter cavalos - quando ao longo de séculos
tinham sido os melhores fornecedores de cuidados veterinários, a ponto de o
exército não passar sem eles especialmente nos séculos XVII e XVIII) foi
ficando. E encontrou nos pequenos abrigos a sua casa. Passou a viver isolado,
de cabana em cabana, em espaços diminutos 10, 15 metros quadrados (coisa que
pode ter as suas conveniências quando no inverno os termómetros passam dos 20 negativos)
numa vida espartana, a partir de dado momento subsistindo de caça e pesca,
visitado apenas por amigos fiéis de forma esporádica.
O que é curioso na história de um homem com este tipo de
vida e neste tipo de isolamento em que passou a viver durante as décadas de 30,
40 e 50, é que Thor Gotaas o descreve, intitulando até com essa característica
um sub-capítulo, como leitor voraz = cavalo de leitura = lesehest. Lia de tudo
o que apanhava. Jornais, poesia, romances, monografias sobre natureza. Os seus
autores preferidos, Hans Børli, o poeta norueguês que melhor cantou as
florestas e Mikkjel Fønhus* romancista que tinha na natureza selvagem e nos
cenários das florestas os seus temas favoritos. Viveu anónimo, mas imagino que
os seus autores favoritos não teriam desdenhado saber que tinham um leitor
assim (…). Olhando a história de Josef no livro de Gotaas, ilustrado pelas
belíssimas fotografias que lhe tirou Arne Rignes, o título do subcapítulo
(lesehest - cavalo de leitura) e os testemunhos de amigos fiéis que o
descreveram como homem inteligente e sensível, dou comigo a pensar que os
leitores ideais destas páginas teriam sido os zelotas da religião e da higiene
racial que o classificaram de atrasado mental e que o privaram de liberdade
durante quase uma década. Já é tarde. Mas servem de exemplo a outros. E aqui
fica.»
segunda-feira, 5 de agosto de 2024
UM CONTO DE ANTÓNIO AMARAL TAVARES
Passos errantes e ciganos, como uma cortina que se abre. Música cigana encontra o tom proibido da pele, mulheres bonitas de longos vestidos e saltos altos. Uma tão bela, que a seu lado dois homens parecem disputá-la no volume crescente da voz. Uma outra bancada de cassetes, mais música. T-shirts, gangas e sapatos. Estes o que eu procuro. Olho atentamente os exemplares e, a um sinal transmitido por fios invisíveis, da bancada ao lado desaparecem relógios e ténis. Tão rapidamente que quando olho para ela já só vejo a madeira de um sonho que acorda. Dois polícias passam devagar. Um, de meia-idade, seguro pela experiência e pela farda, o outro, mais magro e novo, que olha em volta como se visse mais do que a razão que o põe ali. Nada mais se ouve, senão a música com raça, tão apaixonada como os dois homens. Uma espera.
Depois os relógios e os ténis reaparecem na teimosia da viola no coração dos ciganos. Eu escolho um par de sapatos, pago com a vergonha sem raça do dinheiro e continuo a subir. À vista do bairro da pantera cor-de-rosa, a beleza de um rosto nobre riscada pelo esquecimento, um homem de ombros largos apregoa lençóis, a voz eléctrica de um microfone abotoado à boca das ilusões que se repetem de terra em terra. Desço a mesma encosta para a saída da feira, a entrada de um país que a custo me envolve.
Foram baratos os sapatos. E partiram pela sola antes que deixassem de me magoar os pés. Encontrei, num outro dia, numa outra nação, uns sapatos semelhantes numa montra, tão iguais quanto possível. Pelo dobro orgulhoso do preço.
sexta-feira, 5 de abril de 2024
EXISTENCIALISTAS A SÉRIO
sábado, 23 de março de 2024
UM POEMA DE JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA
domingo, 14 de janeiro de 2024
VÊM QUATRO CIGANOS
terça-feira, 26 de setembro de 2023
PORTUGUESES DE BEM, IMIGRANTES BONS, CIGANOS EXEMPLARES
Desci do táxi e disse ao homem para ficar à minha espera. O largo estava deserto e os ciganos dormiam estendidos no chão. Aproximei-me da banca de uma velha cigana vestida de preto com um lenço amarelo na cabeça. Na banca dela estava um monte de camisolas Lacoste impecáveis, só não tinham o crocodilo no seu lugar. Cigana, chamei, quero fazer compras. O que é que tu tens, meu filho?, perguntou a Velha Cigana ao ver a minha camisa, estás com sezões ou quê? Não sei o que é que tenho, cigana, respondi, tenho estado a suar como um cavalo, preciso de uma camisa limpa, talvez de duas. Depois eu digo-te o que é que tu tens, disse a Velha Cigana, depois eu digo-te, mas agora compra as camisas, meu filho, não podes ficar nestas condições, o suor que seca nas costas faz adoecer. O que é que me aconselhas, perguntei, uma camisa ou uma camisola? A Velha Cigana pareceu reflectir um instante. Aconselho-te uma camisola Lacoste, disse depois, são as mais fresquinhas, se queres uma Lacoste falsa custa quinhentos escudos, uma autêntica custa quinhentos e vinte. Caramba, disse eu, uma Lacoste por quinhentos e vinte escudos parece-me muito barata, mas qual é a diferença entre a falsa e a autêntica? Para teres uma Lacoste autêntica é simples, disse a Velha Cigana, primeiro compras a falsa, que custa quinhentos escudos, depois compras o crocodilo, que custa vinte escudos e que é autocolante, colas o crocodilo no seu lugar e aí tens uma camisola autêntica. Indicou-me um saquinho cheio de crocodilos. Aliás, disse, por vinte escudos dou-te quatro crocodilos, meu filho, assim ficas com três de reserva, que muitas vezes estes autocolantes são chatos porque se descolam.
sábado, 2 de setembro de 2023
CIGANOS
sexta-feira, 1 de setembro de 2023
CIGANOS
quinta-feira, 31 de agosto de 2023
A CIGANA
quarta-feira, 27 de abril de 2022
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #37
quarta-feira, 28 de julho de 2021
JOHN CLARE
domingo, 11 de abril de 2021
UM POEMA DE RUI BAIÃO
quinta-feira, 25 de junho de 2020
PORTUGAL NÃO É RACISTA
Está prestes a realizar-se uma manifestação subordinada ao tema ilustrado pelo título desta prosa. É difícil discordar de premissa tão axiomática. De facto, como pode ser racista um país? Em si mesmo, um país não é racista a não ser que na sua Constituição existam artigos discriminatórios de etnias. O racismo, de resto, surge de um erro de análise que já devia ter sido ultrapassado mas ainda não foi: o de que existem raças entre seres humanos. Tem sentido falar de etnias, não faz sentido algum falar de racismo. Entre os bichos há raças, entre os homens só há bestas. Devíamos ficar por aqui. No entanto, o instinto das bestas determina a que não fiquemos por aqui.
Se Portugal não é racista, e a nossa Constituição leva a crer que o não seja, há portugueses que o são. Alguns até pretendem mudar a Constituição da República, são exactamente os mesmos que propõem confinamentos especiais para determinadas etnias. Isto é um bocado racista. Mas se não devemos reduzir Portugal à existência desta gente, também não podemos ficar serenos com a forma como buscam desagravar o que os próprios agravam. É que entre as bestas que se preparam para nos lembrar de que Portugal não é racista existem delas que até já foram condenadas por actos racistas ou aguardam julgamento sob acusação de racismo.
Pois que Portugal não é racista, não como declaradamente o era a África do Sul do apartheid, mas, infelizmente, há racismo em Portugal. Há racismo em todo o lado, é por isso que convém combatê-lo. Deixem-me dar-vos um exemplo prático, claro, objectivo e esclarecedor de racismo à portuguesa:
Este comentário foi-me dirigido há dias, após um desmentido oficial relacionado com o acesso ao Rendimento Social de Inserção por parte de pessoas de etnia cigana. Repare-se na confissão: «não confio em ciganos, não os queria ter como vizinhos nem que frequentassem a escola do meu filho». A conclusão é objectiva: «Sou racista, para qualquer um que não saiba viver em sociedade, seja branco, preto ou às riscas…» Pobres zebras. Temos aqui, portanto, uma cidadã porventura exemplar de um país que não é racista, mas onde incontestavelmente existe racismo. Não só existe, como surge declarado sem qualquer tipo de pudor por essas redes fora.
Não vou perder tempo a contrapor os preconceitos e os estereótipos de quem assim fala, embora julgue fazer falta a esta senhora alguma criatividade. Quero só reforçar que os dados por mim apresentados a que o interlocutor se refere incluíam campos de concentração, gulags, bombas atómicas, realidades históricas que, para a pessoa em causa, «são insignificantes comparando com os atropelos cometidos pelos ciganos na sociedade». O que foi Auschwitz ao pé da Quinta da Fonte? Uma ninharia.
Com este exemplo, pretendia eu provar que Portugal não é racista… à condição, dado ser factual a existência de racistas em Portugal. A gravidade não está apenas em existir gente que pensa assim, está também nas acções concretizadas. Desde há alguns anos que vêm sendo cada vez mais frequentes as notícias sobre actividades dos movimentos neonazis portugueses, especialmente violentos na manifestação do racismo que os move. A Europol avisa, o SIS avisa, mas, para certa gente, o que é relevante é descer a avenida gritando que Portugal não é racista. Recentemente, o Ministério Público acusou 27 pessoas «de discriminação racial, ofensa à integridade física qualificada, tentativa de homicídio e tráfico de armas», gente que pertencia a um grupo que exaltava a superioridade da “raça branca”. Perseguem, insultam, agridem, matam. Serão racistas ou simplesmente não gostarão de pretos e de ciganos?
A medrança destes
movimentos deve ser uma preocupação, o alerta acerca da sua existência está
lançado, a necessidade de combater aquilo que defendem é uma obrigação cívica
de todos quantos não se revejam num país com cidadãos de primeira, de segunda e
de terceira. Mais preocupante se torna notar como este tipo de pensamento tem
vindo a infiltrar-se no interior de forças nas quais depositamos a confiança da
nossa protecção e segurança. Neste sentido, passo a partilhar um post de
um militar que, na sua página de Facebook, diz não ser de esquerda, nem de
direita nem de centro, mas do que vem de dentro. O que vem de dentro pode ser muita coisa, sangue, cocó, chichi. E pode ser nada, se o dentro estiver vazio. É quando se torna mais perigoso. A declaração de não pertença “ao rebanho” é,
de resto, muito comum entre o rebanho de populistas que faz da oposição ao
sistema (qual?) uma bandeira de agremiação. Cliquem na imagem para ver melhor:
A postura intimidatória do militar seminu não me incomoda particularmente, mas não posso dizer o mesmo do discurso que acompanha a selfie e das declarações de amor manifestadas com likes e comentários diversos. Este camarada dirige-se com texto copiado (de quem? de onde?) a um grupo concreto que nem sequer tem especial relevância por terras lusas, os “meninos antifas”. Parte do princípio peregrino de que o vandalismo exercido sobre os símbolos e monumentos da Nação (maiúsculas do autor do texto) tem origem unívoca e unilateral, certos indivíduos que se servem de tais gestos para combater a disseminação do fascismo no mundo. Ora, o que não falta por aí são exemplos de atentados contra símbolos e monumentos públicos perpetrados por gente aparentemente ligada à extrema-direita ou claques de futebol. A pichagem não é um exclusivo de ninguém em particular.
Deverão o aviso ameaçador e a mensagem agremiadora final ser objecto de alguma denúncia no Ministério Público, tal como foi um cartaz recentemente empunhado durante uma manifestação anti-racista? Por que é que os latidos do caniche na manifestação anti-racista não incomodam tanto quanto as ameaças deste cão de fila nas redes sociais? Há uma razão para que assim seja, Portugal não é racista… à condição. Se for um “antifa” a pichar, prepare-se para ter à perna “o exército português”. Se for um skinhead, não sabemos, talvez acabe como convidado da Tânia Ribas de Oliveira ou do Manuel Luís Goucha num programa da manhã.
A polarização está ao rubro, o crescimento que se avizinha do desemprego e da miséria vão tornar ainda mais aliciante o discurso exacerbador dos bodes expiatórios. Eu já não penso que a tempestade esteja perfeita, neste momento estou convencido de que chegámos ao olho do furacão.













