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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

CREIO NO MEU PAÍS


meu país cheio de fluxo de silêncio e absurdo
meu país de horror de cautela de medo em partes iguais
meu país em que tudo fracassa e se dilui
meu país impossível sem canto sem desejo
meu país queimando morto
meu país de nada nada
meu país de tormentos e papoilas
de assassinos bufões e monstros desvelados

deste puro gritar deste verão insone
desta sombra em que nada adquire qualquer sentido
deste asco deste horror desta madeira
surgirá por fim a luz que incendei a nossa rua
a estrela que nos guie
a estância clara e a memória em chamas?

sim
surgirá por fim a luz que incendeia a nossa rua
a estrela que nos guia
a estância clara
e a memória em chamas
sim

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 132. Versão de HMBF

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

UM SOL




Não há uma laranja perfeitamente redonda
Não há um dia perfeito
Há um sol para os que lutaram
contra as sombras
jamais se rendendo
de noite
de dia
nas margens do lago
sob o sicómoro e o salgueiro
entre rochas e anémonas
Para esses há — haverá — um sol
porque lutaram contra as sombras
contra sua própria obscuridade
sua lâmpada turva
sua ignorante relutância
Para eles
sim
haverá um sol
mas não há
não haverá nunca um dia perfeito
uma laranja perfeitamente redonda.

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 131. Versão de HMBF

sábado, 12 de janeiro de 2019

UM POEMA DE EDGAR BAYLEY


UM HOMEM TREPA PELAS PAREDES E SOBE AO CÉU

Suspenso por um cabo
o homem que escala as paredes
tem botas resistentes com pitons
Escala as paredes
porque se esqueceu das chaves de casa
e enquanto escala as paredes
até chegar ao piso treze
pára por instantes
nas varandas de cada piso
onde inspira o aroma dos gerânios
das madressilvas
das hortênsias
das sardinheiras
Há sol
galhardetes
vendedores ambulantes
e mais além está o rio
e mais além as pontes
por onde se vai aos pampas
Em baixo estão os meninos
que saem das escolas
e pelo céu passam aviões e pássaros
e chapéus de abas largas
que o vento roubou aos desprevenidos
O cabo foi atado à viga
que sobressai no telhado
Um homem atou-o à cintura
e sobe agarrado ao cabo
com as mãos enluvadas
Usa um colete floreado e um boné aos quadrados
Deve chegar ao piso treze
onde tem de regar uns cravos
pisar milho
escrever umas cartas
e preparar um guisado
Sobe lentamente
e em cada piso pára um pouco para descansar
Entra na varanda de cada piso
e senta-se num cadeirão
ou estende-se numa espreguiçadeira
e conversa com a vizinha ou os vizinhos
e aceita um café ou um chimarrão
ou deixa cair um jorro de um odre de vinho
na sua garganta
ou joga às cartas
ou escuta confidências e dá conselhos
e conta algum episódio da sua vida
até que se despede com uma saudação
e continua a trepar pelas paredes
suspenso por um cabo
É o homem tem botas resistentes com pitons
o homem que escala paredes
e um colete floreado e um boné aos quadrados
que se esqueceu das chaves de casa
e inspira o aroma dos gerânios
e deve chegar ao piso treze
antes que apareçam as corujas
e se iluminem as janelas
Os pássaros e o rio estão longe
e a relva do parque
e os cavalos que galopam pela planície
e esta cadeira decomposta
e a banheira
sem uso
cheia de terra e de flores
e o mar e o navio que se aproxima
e a lagartixa que desaparece entre as rochas
e o vendedor de diários que lá de baixo
grita conselhos e advertências
enquanto o homem voa
ascende
conquista com esforço cada piso
e olha sempre para cima
a terra está longe
o céu está longe
O homem que trepa pelas paredes
suspenso num cabo
quando entra numa casa pela varanda
é bem recebido pelos vizinhos
e trata de lhes ser útil
mas num dos pisos
uma mulher inesperada
que é apenas uma
e ao mesmo tempo
todas as mulheres da sua vida
pede-lhe que a leve com ele
Então também ela se ata ao cabo
e sobe com o homem
para lá do piso treze
até às nuvens
ao ar livre
ao céu
ao vento
entre os gerânios
as sombrinhas as espreguiçadeiras
sobre pontes e quiosques
e mastros
e videiras
e algumas gotas
e sementes
e sonhos
com seu boné aos quadrados
com seu colete floreado
com o seu amor de sempre


Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, pp. 127-130. Versão de HMBF. 

domingo, 6 de janeiro de 2019

A PROGRAMAÇÃO PROSSEGUE COM EDGAR BAYLEY


DIFICULDADES DA TRADUÇÃO

além de vegetações
e palavras
meu único argumento é esta árvore
sob a sua sombra
estou comigo

a folhagem
o fulgor
agitaram-se
e não podem ser traduzidos

tal como nós
árvore terra
ida volta
contigo estou
é o meu argumento
não pode ser traduzido

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 126. Versão de HMBF. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

OS DESERTOS REAIS


os desertos reais
os mares imaginários:
não há palavras para elogiar esta magnólia
tampouco há forma de destruir as palavras
ou o ofício de florista

(guardem compostura:
na corda de pendurar agita-se a flor branca)
uma tez de flores de cerejeira
a última gota de sangue
os desertos reais
os mares imaginários
não são comparáveis a esta magnólia

Edgar Bayley nasceu em Buenos Aires no ano de 1919. Dramaturgo, contista, tradutor, foi ainda ensaísta empenhado na defesa das vanguardas. Fez parte da redacção da revista Arturo, órgão fundamental do movimento concreto argentino. Redigiu manifestos opondo-se ao realismo, ao expressionismo, ao simbolismo, defendendo a corrente emergente do invencionismo. Publicou os primeiros poemas na revista Arte Concreto-Invención. Estreou-se em livro com En común (1949). Em 1977, foi-lhe atribuído o Gran Premio de Honor de la Fundación Argentina para la Poesía. O poema acima transcrito foi copiado da Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 125. Versão de HMBF. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

MAIS UM POEMA DE EDGAR BAYLEY



NÃO POSSO DIZÊ-LO DE OUTRO MODO

virá um dia um dia virá um dia
haverá um dia
uma manhã
e teremos o que fomos somos
houve um dia
um boto
um escabelo um pâmpano no ar
não posso dizê-lo de outro modo

quando me ponho a falar destas coisas
a minha intenção é ser muito claro e muito resoluto
não posso dizê-lo de outro modo
virá um dia um dia virá um dia
uma manhã
e tudo será muito claro e muito desperto

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 124. Versão de HMBF. 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

OUTRO POEMA DE EDGAR BAYLEY



O HOMEM MODERNO

o homem moderno disse:
tive vontade de morrer a 26 de Outubro
enquanto viajava de autocarro
às três da manhã
sei que há coisas mais importantes
na vida do mundo
na vida de milhões de homens
mas falo
conhecendo a causa
daquele que passa por ser um entre milhões
falo de um que a 26 de Outubro
tinha vontade de morrer
enquanto viajava de autocarro
às três da manhã
e nomeio o mundo inteiro
os milhões que a essa hora
morriam de verdade nasciam
esperavam
regressavam a suas casas
ou podiam morrer como estavam
se Pompeia (outra vez) o mundo inteiro
apagasse devido à guerra e à loucura
ou por uma informação equivocada.

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 123. Versão de HMBF. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

UM POEMA DE EDGAR BAYLEY



É INFINITA ESTA RIQUEZA ABANDONADA

É infinita esta riqueza abandonada
esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
ao fundo das ruas encontras sempre outro céu
após o céu há sempre outra erva praias distintas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca julgues que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
após a marcha do teu amante há outra marcha
após o canto um novo toque se prolonga
e as madrugadas escondem abecedários inauditos ilhas remotas
sempre assim será
por vezes o sonho crê ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos para os corações de todos
de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros conhecem a palavra tu ignora-la
outros sabem esquecer os feitos desnecessários
e levantam o polegar esqueceram
tu hás-de regressar não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre o riso derradeiro a dor e os começos
encontrará o vento acre e as estrelas vencidas
uma máscara de bétula pressagia a visão
quiseste ver
no fundo do dia algumas vezes o conseguiste
o rio chega aos deuses
murmúrios distantes erguem-se à claridade do sol
ameaças
frio resplendor

nada esperas
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada


Edgar Bayley (n. Buenos Aires, Argentina, 1919 - idem, 1990), in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, pp. 121-122. Versão de HMBF.