Comecei por tentar dominar a linguagem da pintura. Como
um domador de cavalos, fui rapidamente ao chão. Tentei dominar a linguagem da
música e fracassei. Depois apliquei-me no domínio da linguagem filosófica,
aprendendo ser coisa indómita. Parti para os domínios da poesia e acabei completamente
dominada. Acusaram-me de não dominar a linguagem teatral, mal sabendo quão
certos estavam. Acabo sempre por ser dominado e sem saber o que cada uma destas
linguagens é autonomamente. Uns dizem uma coisa, outros outra, e no labirinto
das coisas que se pensam, escrevem, dizem, somos ícaros no dedáleo labirinto de
Minotauro. Haverá sempre quem julgue dominar alguma coisa, dominadores
dominantes nunca faltaram neste mundo. Os dominadores das linguagens têm asas
de cera.
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quinta-feira, 16 de julho de 2026
terça-feira, 14 de julho de 2026
BESTIÁRIO VISIGODO
De focinho na ponta da cauda
o leopardus tigrinus asperge com urina
o próprio rastro
para não se perder de si mesmo
nas patéticas digressões empreendidas
no matagal daninho da memória
quinta-feira, 9 de julho de 2026
PANDEMÓNIO
Há décadas a lidar com a ideia peregrina de que ler e
escrever, duas actividades interdependentes, não são trabalho, vou escutando
cada vez mais frequentemente queixas quanto à iliteracia das gerações mais
novas. Vêm de directores disto e daquilo e daqueloutro, provavelmente muitos
deles também convencidos de que leitura e escrita são actividades recreativas.
Educados sob batuta tecnocrática, os mais novos são garantia de um futuro
burrocrático renovado pela inteligência artificial. O digital não combate a
burocracia, a burocracia está dentro de nós. O pandemónio está à vista de
todos, mas poucos estão disponíveis para atacá-lo na mais básica e fundamental
e elementar das soluções. Invista-se na leitura e, por consequência, na
escrita, que não sobrevive sem aquela. Dão trabalho e é por isso mesmo que há
quem fuja dos livros, mais do que da escrita (para nossa desgraça), como o
diabo da cruz. Se a opção for por insistir no menosprezo dessas ferramentas
essenciais, pois que podem esperar sentados por quem vos saiba endereçar uma
carta, escrever uma notícia, interpretar uma missiva.
quarta-feira, 8 de julho de 2026
PROJECTORES
Desviem a luz dos
meus olhos
cortem a electricidade
O meu lugar é na sombra
por detrás dos candeeiros
o mais distante dos holofotes
Que a noite me proteja
de luas e de sóis resplandecentes
Venham nuvens
levem-me convosco para refúgios
de paz e de silêncio
onde nem relâmpagos nem trovoadas
atraiam atenções indesejáveis
Devolvam-me ao útero sossegado
das casas sem nome
dos nomes sem efeito
da respiração anónima das moradas
mais remotas
Devolvam-me ao deserto dos anacoretas
onde aprendi a dizer: vida
cortem a electricidade
O meu lugar é na sombra
por detrás dos candeeiros
o mais distante dos holofotes
Que a noite me proteja
de luas e de sóis resplandecentes
Venham nuvens
levem-me convosco para refúgios
de paz e de silêncio
onde nem relâmpagos nem trovoadas
atraiam atenções indesejáveis
Devolvam-me ao útero sossegado
das casas sem nome
dos nomes sem efeito
da respiração anónima das moradas
mais remotas
Devolvam-me ao deserto dos anacoretas
onde aprendi a dizer: vida
segunda-feira, 6 de julho de 2026
ÁCIDO
Através do cinema, imaginámos uma Roma rendida ao circo,
hipnotizada por leões a devorar cristãos e gladiadores que lutavam até à morte.
Terá sido assim? Pouco importa hoje sabê-lo quando verificamos, mesmo diante de
nós, um povo rendido ao futebol, mais empenhado nos resultados de uma pandilha
de multimilionários do que nos seus próprios direitos em matérias de saúde,
educação, segurança, habitação, trabalho, justiça. O Império pode ter caído,
mas o ácido desoxirribonucleico do Império permanece entre nós.
domingo, 5 de julho de 2026
EPÍSTOLA
Escrevo-te para que saibas
quanto a noite continua noite
de madrugada há quem recolha o lixo
pela manhã passeiam-se os cães
no escuro as gaivotas dão descanso ao céu
por vezes chove
o vento nada traz de novo
e o sol repete-se por entre nuvens instáveis
e eu entretenho-me a fazer abecedários
de cidades por visitar
de pintores obscuros
de canções antigas
repito os nomes que não quero esquecer
recolho-me em silêncio a desenhar baratas
passo a mão pelo pêlo doméstico das horas vagas
em que escapamos a nós próprios
o cemitério d' eus perfilados de génio
as ruas com nome de gente a fazer número
a água que ainda cambaleia entre comas
tu aí deste lado
eu aqui desse lado
a lembrar Inventários de ossos
constelações de pó
o bendito esquecimento que nos abrirá os olhos
a paz
o que importa
cão a lamber caldo entornado
sopas de nódoas na camisa engomada dos dias
ainda há vaga no espectáculo da morte
sábado, 4 de julho de 2026
VIVA A MORTE
É imperioso que se morra, são muitas bocas a comer e a
máquina de guerra não pode parar. Se parar, o que fazer com tanta ciência? São
muitos milhões investidos na tecnologia da morte, na tanatologia mais
sofisticada. Há que comandar à distância o drone de alta precisão. Sem ruínas,
como garantiremos o futuro da construção civil? E o turismo? O turismo carece
de ruínas, a guerra é amiga do turismo, o nosso ganha-pão. Temos de reduzir
drasticamente a população mundial. Caso contrário, ninguém sobreviverá.
Façamos, portanto, a apologia da morte, da guerra, da ciência a ela associada,
a bem do turismo, da construção civil e da medicina avançada. Sem ruína, não há
fotografia que nos valha, a arte alimenta-se da ruína. Sem fome, não há
desespero. A bem do consolo espiritual, a insatisfação na terra. A tristeza, a
melancolia, a aflição são artisticamente inspiradores. E não só. Graças a eles,
toda uma indústria farmacológica prospera e as clínicas de psicologia e de
psiquiatria crescem como cogumelos para bem da humanidade. A guerra é favorável
à humanidade, aos medos que alimentam os mercados, às aflições que dão
audiência, os media requerem desastres, não há notícias sem acidentes,
provoquemos os acidentes a bem das notícias. Precisamos de mais miséria neste
mundo, sem miséria ninguém progride, a miséria é altamente lucrativa a todos os
níveis, o êxito vive da miséria como de água vive um corpo, um corpo vivo, um
corpo à morte, um corpo cheio de sede, um corpo a atravessar o deserto. Viva a
miséria, viva a guerra, viva a morte, viva a ruína. Sem elas, nada feito. É o
caos, a estagnação, a pobreza generalizada, o fim do progresso.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
O MAESTRO
In memoriam
A.B.W.
dirige com o mindinho
tem pé de atleta chato
tropeça amiúde nas micoses
e por isso teme sobretudo
a folha cadente do velho plátano
o pó na passadeira vermelha
dos mosquitos ziguezagueantes
é maestro de mau estro
atonal do pensamento
e bufa pelas narinas
enquanto dirige as próprias gralhas
que em bando esvoaçam alegremente
sobre coros e ensembles
segunda-feira, 29 de junho de 2026
UMA CRIA
Entalado entre as tiras dum tapete de alumínio
a cria caída do ninho bate insistentemente as asas
tentando sobreviver no hostil universo dos homens
Fico a olhar para aquele ser frágil e inofensivo
sem saber qual o melhor procedimento
Devolvo-a ao ninho ou deixo que a natureza se cumpra?
É da natureza das crias caírem dos ninhos
mas será natural ficarem entaladas entre tiras de alumínio
como criminosos condenados por crime nenhum?
Que crime cometeu aquela criatura? Tentar voar?
E enquanto rastejo em cogitações inúteis
a desafortunada ave perece sem ninho nem voo
(Vila Real.)
sábado, 27 de junho de 2026
BESTIÁRIO VISIGODO
Em movimentos
sinuosos
rastejante
a vipera berus
aspis
enrola-se com a
própria sombra
matando a sede com
peçonha
Presta culto a si
mesma
em trono solitário
Dá pena vê-la
envelhecer
com pele tão
descuidada
A morte espera-nos
a todos
mas nela é já
consumada
Autor anónimo do
século V, Septem Provinciæ.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
MÃE DO OUTRO LADO DO ESPELHO
Escuro. A luz sobe muito lentamente sobre uma figura central. A pouco e pouco, apercebemo-nos de uma mulher idosa em cena, sentada numa poltrona grená, a segurar um búzio junto a um dos ouvidos. Ao lado da poltrona, repousa uma cana de pesca.
Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
26 de Janeiro de 2021. Não recordo há quanto longe minha mãe morreu.
Esqueci-me do som da sua voz. Guardas a voz de minha mãe?
Mal a compreendo no reflexo das águas do meu tempo, parece-me tudo tão vago, não há um único contorno definido, definitivo.
A mulher pousa o búzio no chão. Pega na cana de pesca e lança o fio na direcção do público.
Mãe, onde estavas quando eu morri?
Ouviste-me gritar enquanto me vestiam aquelas roupas idiotas e pediam que posasse para a fotografia com um crucifixo nas mãos? Terás escutado as minhas preces?
O padre Armando dizia: com dois pais nossos e três avé-marias isso passa.
Ajoelhei-me logo ali, à saída do confessionário, e rezei na esperança de que me ouvisses. Mas tu não ouviste, estavas demasiado atenta aos pormenores para que pudesses ouvir-me.
O fio da cana de pesca treme.
O quê?
Quem és tu que mordeste o isco invisível das minhas dores?
Desculpa, mãe, tu não tens culpa pelas minhas culpas.
És tu, peixe da minha infância?
A mulher gira a manivela, olha o anzol, sorri.
Vês mãe, continuas sob o reflexo das águas, invisível como sempre. Não há meio de morderes o isco.
Seremos o isco do tempo, mãe?
Eu rezo, eu oro, suplico, imploro: olha para mim.
Volta a lançar o fio na direcção do público.
Só queria que olhasses para mim, não que olhasses por mim, bastava-me que olhasses para mim. E que visses, que dissesses qualquer coisa, que por um momento te aproximasses medindo as bainhas das avé-marias e dos pais-nossos com que era suposto limparmos o corpo.
Ouves-me no reflexo das águas?
Vês-me no silêncio dos búzios?
Voltei-me para o mar à espera de ser salva por um naufrágio, de uma baleia que me engolisse e vomitasse, de um silêncio que me calasse. Agora estou velha, não digo coisa com coisa, não penso coisa com coisa, não faço coisa com coisa. Tenho a tua ausência dentro de mim e o homem de saias continua a dizer-me: reza que isso passa.
E eu rezo, mas não passa, não há meio de passar.
O fio da cana de pesca treme. A mulher gira a manivela, observa o anzol, sorri.
Nada.
Ninguém.
A mulher morde o isco, gira a manivela, tenta pescar-se a si mesma. Gira a manivela sem parar, luta consigo própria, puxa-se, resiste a si mesma, cospe o isco, larga a cana, senta-se exausta. Acalma a respiração. Passa algum tempo em silêncio. Volta a pegar no búzio, retomando a posição inicial.
Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
Já não me recordo há quanto longe morri.
Esqueci-me da cor da minha voz. Esqueci-me do som da minha pele.
Guardas a pele de minha mãe?
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
Podes repetir?
Eu rezo e não passa.
quinta-feira, 25 de junho de 2026
AMOR BABÉLICO
Camões, escuta, amor aos livros são salas de espectáculos
cheias. Ouviste, Pessoa? Amor aos livros é lotação esgotada. Kafka, aprende o
que é amor aos livros: fes-ti-val. Estão a ver, seus otários? E tu também, Van
Gogh, amor à pintura é bicha para te ver em espectáculo imersivo. Deixem-se de
merdas, amor aos livros é: bilhete para sócios, gamebox, pão e circo, o Coliseu
à pinha. E o resto que se quilhe, quem quiser que os leia.
quarta-feira, 24 de junho de 2026
FASCISTAS DE ESQUERDA
Os fascistas de esquerda estão preocupados
com a cor dos sapatos
com o tamanho da fonte
com a hierarquia dos apelidos
com abreviaturas e extensões
com acrónimos e títulos
com o número da reserva
com a posição na bicha
com o posicionamento central
com a justificação das margens
com a fotografia de perfil
com convites e dedicatórias
com a sensível selecção de prioridades
com o tratamento
com a ordem do serviço
com o cocktail de fim de tarde
com o número de estrelas
com as unidades de medida
com o rigoroso cumprimento dos protocolos
com a mosca na sopa
e também com as assimetrias neste mundo
cada vez mais inadmissivelmente desigual
terça-feira, 23 de junho de 2026
segunda-feira, 22 de junho de 2026
AOS QUE PARTIRAM
Hoje é em vós que penso
Vem não sei d'onde nem porquê
esta nostalgia dos corpos desaparecidos
esgares envoltos em neblina
vozes que por vezes 'inda ouço
mas chegam-me agora sem rosto
mas é mesmo num leito de melancolia
que mergulho em busca de vestígios
memórias vagas de momentos passados
e então a tristeza muda de cor
como um réptil à passagem do tempo
imagens projectam-se no escuro
e há corpos a caminhar sobre as águas
tornando presente o último abraço
a mensagem derradeira
falhas irredimíveis à espera de silêncio
sábado, 20 de junho de 2026
SÍSIFO
B observa A a dormir. A acorda.
B: Pareceu-me que estavas a dormir.
A: Nada, absolutamente nada.
B: Nem um bocadinho?
A: Nada.
B: Nem um segundo?
A: Nada.
B: Nem uma fracção de segundo?
A: Nada.
B: Pareceu-me que estavas a dormir.
A: Estava só de olhos fechados.
B: Sim, estavas de olhos fechados. Só.
A: A tentar adormecer. Só.
B: Estive a observar-te. Estiveste longas horas de olhos fechados.
A: Só a tentar adormecer.
B: Nem pestanejaste.
A: Estava à espera.
B: À espera de quê?
A: À espera de adormecer.
B: Esperaste longas horas pelo sono.
A: Esperei?
B: Eu vi-te à espera. Estive a observar-te.
A: Não foi pelo sono que eu esperei, o sono chegou. Não consegui foi adormecer.
B: Entendo. Estavas com sono, mas não conseguiste adormecer.
A: Isso mesmo.
B: E então esperaste de olhos fechados.
A: Esperei de olhos fechados para me libertar do sono. Só queria dormir para me libertar do sono.
B: Mas não conseguiste.
A: Não, continuo a carregar o sono.
B: Como um fardo.
A: Isso, como um fardo.
B: E o sono pesa muito?
A: Sim, sonhei que o sono pesava muito.
B: Sonhaste?
A: Sonhei.
B: Se não dormiste como é que sonhaste?
A: Sonhei acordado, mas de olhos fechados.
B: Deliraste?
A: Não, sonhei acordado.
B: Imaginaste?
A: Não, sonhei acordado que sono pesava muito.
B: E depois?
A: Sonhei que carregava com o sono, que o sono pesava, era um fardo, era só um fardo, e eu ora fechava os olhos, ora abria os olhos, mas não me libertava do sono, carregava com ele às costas, os ombros pesavam-me, carregava com ele aos ombros, e o sono pesava, os ombros pesavam-me, o sono pesava cada vez mais e eu carregava.
B: Quanto pesa o sono?
A: Pesa muito, pesa imenso.
B: Talvez possas libertar-te dele.
A: Como?
B: Largando-o num lugar qualquer.
A: E como é que eu poderei largar o sono num lugar qualquer?
B: Varrê-lo dos ombros, largá-lo das costas.
A: O sono pesa dentro de mim.
B: Então esvazia-te.
A: Está na minha alma.
B: Desfaz-te da alma.
A: Está na minha cabeça.
B: Corta a cabeça.
A: Corto a cabeça?
B: Sim, corta a cabeça.
A: Entendo. Se me decapitar, então perderei a cabeça. Logo, decapitarei o sono.
B: Isso, liberta-te do sono, liberta-te da tua cabeça.
A: Não sei se será boa ideia.
B: Mas afinal o que preferes, continuar a carregar o sono?
A: E depois?
B: E depois o quê?
A: Depois de cortar a cabeça seria o fim, nem sono, nem cabeça, nem ombros nem costas, seria o meu fim.
B: Seria uma leveza.
A: A ausência de peso.
B: Finalmente adormecerias, finalmente o sono iria à vida dele.
A: E eu à minha.
B: E tu à tua.
A: Acho que vou fazer isso.
B: O quê?
A: Cortar a cabeça.
B: Eu continuarei a observar-te, continuarei aqui a observar-te, não te preocupes, logo te direi coisas.
A acena com os braços.
B: Sim ou não?
A acena com os braços, percebe-se que a resposta é negativa.
B: Caramba, nem sem cabeça conseguiste adormecer?
A acena com os braços, percebe-se que a resposta é afirmativa.
B: Nesse caso, talvez possas livrar-te dos braços.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Seria complicado?
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Pois claro, estou a ver, com dois braços só conseguirias desfazer-te de um.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Absolutamente, tens toda a razão, só com um braço não é certo que conseguisses adormecer.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Queres que eu te corte os braços?
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Só um braço?
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Mas eu não posso fazer isso.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Nem pensar, isso não.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B: Porra, que pesadelo, não, já disse que não, nem pensar, isso é que era bom, eu não vou cortar-te os braços.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
A acena com os braços sem se perceber o que pretende dizer.
B vai-se afastando sorrateiramente.
A acena com os braços, não pára de acenar com os braços, continua a acenar com os braços.
B desaparece.
A acena com os braços.
sexta-feira, 19 de junho de 2026
SILÊNCIO
A que preço está o silêncio? Andamos nas ruas envoltos em
ruído, sentamo-nos numa esplanada e levamos com ruído, os jardins ficaram
ruidosos, estão sempre em festa, nas praias já não há sossego, há colunas e
partys, o ruído persegue-nos, até em casa levamos com o ruído dos arraiais,
públicos e domésticos, o ruído impõe-se por todo o lado. Portanto, se quisermos
silêncio teremos de pagá-lo numas termas, num centro de spa, no hotel cinco
estrelas. O silêncio está caro. Queres silêncio? Paga. Ou atira-te ao mar, mas
cuidado com as motas de água.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
POR DETRÁS
Por detrás da acção
esconde-se o motivo
por detrás do
motivo esconde-se a intenção
por detrás da
intenção espreitam as palavras
Por vezes as
palavras são acção
Noutras ocasiões as
palavras são refúgios
Muitas vezes as
palavras são esconderijos
onde as acções se
recolhem
os motivos se
ocultam
as intenções se
dissimulam
para que por detrás
das palavras
permaneçam as
feridas
que fragilizam egos
escondidos nos corpos
Por detrás dos
corpos escondem-se histórias
Só as palavras
revelam as histórias
Pelo que por vezes
não há palavras
Noutras ocasiões as
palavras não são as certas
e quando são as
certas quase sempre escondem silêncios
Por detrás das
histórias escondem-se os silêncios
Por detrás dos
silêncios crescem os vícios
Vícios e virtudes
são palavras
mas só as acções
revelam os vícios e as virtudes
porque por detrás
dos vícios e das virtudes repousam escondidos os motivos e as intenções das
palavras em acção
Por detrás da morte
esconde-se o esquecimento
O esquecimento fala
muito
O esquecimento é
ruidoso
Não há silêncio no
esquecimento
Por detrás do
esquecimento esconde-se um dicionário inteiro
de palavras
adormecidas
Há muito sono por
detrás do esquecimento
Por detrás da
memória só há insónia
domingo, 14 de junho de 2026
PRAIA DOS SUPERTUBOS
Como tornar claro junto de alguém a ignorância que impede ver para lá do que se julga certo? Pessoas cheias de certezas são, geralmente, as menos informadas ou, pelo menos, as menos predispostas a aprender, isto é, a pôr em causa o que se supõe inequívoco. É um esforço tremendamente ingrato tentar demonstrar a alguém a fragilidade das suas convicções inabaláveis, pois acabarão por te julgar pretensioso, tomar-te-ão por arrogante ou convencido quando, na verdade, só pretendes dizer: desconfia de ti, tal como eu desconfio de mim. À desconfiança, preferem verdadeS coladas com cuspo, certezas fundamentadas em percepções subjectivas, historietas. Esses que demonstram ter pânico do silêncio e, por isso, não se calam com o relato das suas experiências pessoais, convencidos de que a verdade se alicerça nessas experiências, reduzindo o mundo ao que experienciaram, recusando ver para lá da ponta do próprio nariz.
sábado, 13 de junho de 2026
O ARTISTA
O artista, a artista, o espectáculo, puta de palavra que
me irrita cada vez mais, a pose, a fotografia, a entrevista, o nome, em gordas,
please, li no Pontalis que os livros deviam ser todos publicados sem nome de
autor, cita alguém, não me lembro de quem, fica ideia sem nome, são as
melhores, porque, ai, o autor, os autores, páginas e mais páginas cheias deles,
com fotografias, muitas, imensas, inúmeras fotografias, e letras garrafais, e
lantejoulas, e néones, e palmas, claro, muitas palmas, bravos e bravíssimos
lançados com perdigotos na direcção do proscénio, da mesa redonda, nunca
esquecer que o bravo vem acompanhado de cuspo, a matéria sensível do escarro,
bravos são escarretas, portanto aplausos, luzes, muitas luzes, cartazes,
currículos, olhem para mim aqui, tão genial entre génios, ao pé de mim Homero
nem homem foi, foi um erro, foi um homem erro, homerro, por corrupção ficou Homero,
percebem, agora eu, eu assino, eu autografo, eu cá sou bom, tenho penas,
levanto voo nas festas, nas feiras, nos festivais, sou um tapete voador com
aladinos de pés chatos, pés de atleta comidos por vermes, sou um tapete voador
onde limpar os pés, sou um colchão, alguém se deita em cima de mim e faz o amor
ao ritmo das penas, são de pavão, de galaró, de capão, amor capão é que é, e eu
a ler sozinho mais um Rimbaud Rembrandt enquanto van grogo girassóis
domesticados, nunca ninguém perceberá que aquilo vem dos índios, foram os
selvagens que domesticaram os girassóis, é preciso dizê-lo para que percebam e,
em percebendo, fazem-se entendidos, mas ó miséria, nem a ponta do nariz
conseguem tocar com a língua que dizem pátria, limpam os pés, descalçam-se à entrada,
é triste, um desconsolo, valha-nos o silêncio da garrafa vazia que olha para
nós no umbral da janela.
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