Órfãos, uma peça para um espelho, um cavalinho de embalar
e uma jarra com flores. Também há uma vela e um bengaleiro, um sofá e livros
infantis. Falhou a água, que não se ouve. Quem terá entendido esta conjugação
de objectos enquanto contorno nos perfis das personagens?
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
DEMASIADOS PERFIS
sexta-feira, 7 de novembro de 2025
ÓRFÃOS
ÓRFÃOS
de Dennis Kelly
20 de novembro a 13 de dezembro
Sala Estúdio do Teatro da Rainha
Helen (Inês Barros) e Danny (Tiago Moreira) estão a desfrutar de um momento apaixonado na vida de casal quando são surpreendidos pela chegada abrupta de Liam (Fábio Costa), irmão de Helen, manchado de sangue do tronco para cima. À dúvida sobre o que terá acontecido, seguem-se incertezas sobre como proceder face às explicações contraditórias de Liam. Com diálogos impressionantemente bem concebidos, a trama desenrola-se através de uma sucessão de argumentos, lapsos e falácias, típica dos thrillers psicológicos cuja marca essencial é o suspense que garante tensão do princípio até ao fim.
A entrada em cena de Liam é o motor de arranque de uma discussão sobre a volatilidade dos laços familiares, as fracturas sociais, a criminalidade, o aborto, os efeitos da imigração, o racismo, a tortura, a alienação da consciência moral e dos valores que a sustentam. Tal como o título indica, estamos perante um objecto em que o desamparo e o abandono são marcas essenciais, ainda que não devam ser lidas de modo literal. A orfandade aludida na peça dá-se tanto no plano familiar como no plano social. Disse o próprio Dennis Kelly, em entrevista a Lyle Brennan (The Skinny), que o título «se refere a uma sensação de nos sentirmos órfãos dentro da sociedade.» (2009).
Uma das dimensões mais interessantes neste trabalho do dramaturgo inglês é precisamente o modo como nele se processa o encontro entre uma sociedade corrompida pela violência, pela cultura do ódio, e uma família num momento de disrupção motivado pelo confronto com a realidade. Em Órfãos não vislumbramos nenhuma tentativa de nos convencer do que quer que seja. A situação abordada é antes exemplo de como nenhuma pessoa está a salvo da barbárie e da crueldade.
Com tradução e encenação de Henrique Fialho, Órfãos conta com a interpretação de Fábio Costa, Inês Barros e Tiago Moreira, cenografia de José Carlos Faria e desenho de luz de Hâmbar de Sousa. Mais informações em teatrodarainha.pt.
terça-feira, 4 de novembro de 2025
ESPELHO
Imagina que te vias ao espelho
e em vez da beleza de narciso
ou da ausência de reflexo do vampiro
encontravas um corpo frágil e efémero
como qualquer corpo, mero composto
de carne e alma, com raízes no que foi
e previsões do que já não é. Por quem
espera o espelho? Quem espera o
espelho reflectir no desamparo
da superfície vitrificada? Talvez
ao te encontrares assim desprotegido
percebas por fim o sentido da mesa vazia
que nos aguarda quando, consumidas,
as velas emitirem apenas escuridão.
E então tudo será mais claro, nós
sozinhos num corpo que nos foge.
Nota: instantâneo pré-ensaio, com a Inês Barros a pensar,
por certo, numa Helen que poderão descobrir a partir do próximo dia 20 na Sala
Estúdio do Teatro da Rainha. "Órfãos", de Dennis Kelly, foi mais um
desafio do Fernando num laboratório que se tornou escola para se transformar em
casa. Sempre a aprender, até o corpo me fugir. Espero pela vossa visita. Saúde.
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
TEMAS
Temas que surgem durante os ensaios: Markham Street,
Shackleton, basmati crocante, feiras de máquinas a vapor, Petrocelli, Lynx,
sofás John Lewis, I’m alright Jack, o movimento graffiti de Philadelphia nos
anos 80, eagle-star, trip-hop, Nietzsche para além do bem e do mal, Pinter e o
problema da verdade... Qual a melhor forma de arrumar o desarrumado? “Órfãos”,
de Dennis Kelly, estreia dia 20 de Novembro.
terça-feira, 21 de outubro de 2025
CENOGRAFIA
Estamos a pouco menos de um mês de estrear “Órfãos”, de
Dennis Kelly. Apresentada pela primeira vez em 2009, no Traverse Theatre de
Edimburgo, esta é uma das peças mais bem-sucedidas do dramaturgo inglês. Desde
a estreia, “Órfãos” nunca mais deixou de ser encenada um pouco por todo o
mundo. Um jantar romântico é subitamente interrompido pela chegada de um
familiar coberto de sangue. O que terá acontecido? Esta inesperada perturbação
no núcleo doméstico descontinua o ambiente de bem-estar, deslocando para o
interior do lar o sobressalto das ruas. Daqui em diante, o que teremos entre as
três personagens em cena é um jogo triangular entre paredes marcado pelas
referências ao exterior, um triângulo numa geometria diagonal que sugere, na
cenografia assinada por José Carlos Faria, uma desordem que se ajusta à
situação representada.
HELEN: Liam, quero que olhes para mim.
LIAM: Sim.
HELEN: Olha para mim.
LIAM: Estou a olhar para ti.
HELEN: Olha para mim.
LIAM: Certo.
HELEN: Quero que penses. E quero que me digas. De quem é
esse sangue.
“Órfãos”, de Dennis Kelly, estreia dia 20 de Novembro na
Sala Estúdio do Teatro da Rainha com tradução e encenação de Henrique Fialho,
desenho de luz de Hâmbar de Sousa e interpretação de Fábio Costa, Inês Barros e
Tiago Moreira. Mais informações em breve.
quarta-feira, 8 de outubro de 2025
ACTO 4 – Os monólogos
Se há elemento diferenciador do Acto 4 para os restantes na peça “Órfãos”, esse elemento manifesta-se claramente nos longos monólogos distribuídos pelas três personagens. Às dúvidas sobre o que aconteceu a Liam, seguiram-se dúvidas sobre como proceder face ao sucedido. Este sucedido só é verdadeiramente esclarecido no monólogo final de Danny diante de Helen. Kelly oferece-nos vários elementos que ajudam à compreensão do estado em que se encontra este pai de família sobre o qual se exerce, ao longo da peça, uma profunda transformação. Opera-se nele uma metamorfose negativa, se assim podemos dizer, na medida em que descobre em si mesmo o lugar do mal, da barbárie, da crueldade, do horror. Neste sentido, podemos dizer que a consciência moral de Danny e os valores por si apregoados nos Actos anteriores foram pelo esgoto anunciado por Liam, o de uma cidade entregue à marginalidade.
O Danny corrompido é um homem que chega a casa e olha o seu espaço «como se não entendesse», «abre a boca para falar, mas não saem palavras», rejeita os abraços oferecidos pela mulher e não sente o corpo: «o meu corpo inteiro sente-se assim, a minha mão o meu braço, as minhas pernas os meus pés pescoço os meus lábios os meus olhos, tudo, tudo, tudo se sente…» um membro fantasma. Sentir o corpo como um membro fantasma é senti-lo como se ele já não existisse, o que induz uma dificuldade de reconhecimento de si mesmo marcada por um estado de torpor e de indolência consequente da experiência traumática de tortura para a qual foi impelido por Helen ao longo de toda a peça. Ele descobriu que é capaz do pior? E, por isso, não se reconhece.
Na relação de Danny com Helen opera-se uma cisão radical que resulta também de uma revelação: Helen não é, definitivamente, o que ele pensava. Lemos em Harold Pinter - autor com quem Kelly é por vezes comparado -, no ensaio “Escrever para Teatro”: «Revelar aos outros a pobreza que temos dentro é uma possibilidade mais do que temível.» O que Danny descobre em Helen é toda essa pobreza moral que a leva a defender intransigentemente o irmão ao mesmo tempo que empurra o marido para os abismos daquele, sem qualquer tipo de escrúpulo relativamente ao rapaz ferido que, afinal, era um homem torturado.
Mas não nos precipitemos no julgamento de Helen, também ela sofrerá as consequências de uma orfandade que é tanto filial como social (sugestão do próprio Dennis Kelly) e, em última análise, religiosa. Deus é o grande ausente nesta história toda que, a espaços, se aproxima na sua estrutura narrativa do que conhecemos da tragédia grega: família vs. Lei (a das ruas, neste caso, corresponde a uma degenerescência da ideia de cidade). O monólogo de Liam, o segundo que encontramos neste quarto Acto, é todo um tratado acerca dessa degenerescência.
Liam chega a casa como sempre chega: a porta bate com estrondo. A primeira pergunta que faz é dirigida a Danny: «Tudo bem?» Como pode esta pergunta ser feita por alguém que acabou de fazer o que fez? Só há uma explicação: insensibilidade. Se Danny não sente o corpo, Liam não sente qualquer peso na consciência. Isto não quer dizer que não a tenha, pois o próprio afirma que há uma parte de si que gostaria de amputar com uma faca. Que parte é essa? O que ele revela no seu discurso ao contrapor o «lindo mundo» do sofá IKEA à realidade conspurcada das ruas, a sua, é já indutor do que se segue, a revelação de um rancor, de um ódio secreto e profundo fundamentado na ideia de que as oportunidades fazem os indivíduos. Ora, ele não teve as mesmas oportunidades que Danny. A sua atitude de autovitimização mantém-se do princípio ao fim, ainda que no final sem qualquer tipo de tremor ou capacidade de manipulação, a ponto de se descontrolar de tal maneira que tenta agredir a irmã. O «pedestal de merda» em que ele coloca Danny é, no fundo, a justificação de que se serve para explicar a sua aversão e repulsa pelo abandono de que é vítima desde a infância, abandono dos pais, orfandade filial, e abando do estado, orfandade social. «Fomos abandonados», volta ele a declarar, «é como se tivessem sido todos teletransportados para outro planeta e nos tivessem deixado sozinhos com os monstros.»
O monólogo de Helen, o último, segue-se a estas declarações de Liam, pelo que não pode ser entendido sem essa conexão. É esta raiva desenfreada de Liam que a leva a confissão: «Eu ia partir com aquela família.» A partir daqui, torna-se evidente para Liam algo que lhe é insuportável: a ideia de que também a irmã, a sua única âncora num mundo tempestuoso, o podia ter abandonado. Não creio que Helen diga isto com o intuito de ferir o irmão, estou mais convencido que o faz porque não pode deixar de o fazer, de trazer a sua verdade e os seus ressentimentos recalcados à tona. O que emerge na narrativa nostálgica de Helen, a tal família com quem podia ter sido feliz, a tal família perfeita, tão diferente da que tinham os dois irmãos, é uma mágoa profunda pelo que podia ter sido e não foi. Não há alegria nem romantismo algum nesta nostalgia, há antes uma profunda amargura, a necessidade de finalmente tornar claro que foi forçada a ficar com o irmão de sangue: «Implorei-lhe que me deixassem ir com eles. (…) Supliquei e supliquei e supliquei.» A revelação é suficientemente dolorosa para que seja feita como arma de arremesso, o que seria redundante. O que ali se revela é antes um nojo pela oportunidade perdida, esse tipo de amargura que embrutece as pessoas ao longo da vida, as pessoas que sentem que podiam ter tido uma vida que não têm, uma vida melhor que lhes escapou. Para Helen é claro que os comportamentos impulsivos e violentos de Liam são a razão de ser da vida que não teve, o irmão é a cruz que ele tem carregado ao longo da vida. Está na altura de se libertar dessa cruz, de dizer acabou: «Deixa a chave.»
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
O LOCAL DO CRIME
HELEN: Onde é que foi isso?
LIAM: Markham Street. Ou seja, junto à esquina.
DANNY: Esfaquearam-no literalmente na Markham Street e deixaram-no inconsciente.
In "Órfãos", de Dennis Kelly, tradução de HMBF.
Estreia dia 20 de Novembro no Teatro da Rainha, o livro também estará
disponível em breve.
Entretanto, dei com este outro de um tal Ronnie Williams:
"Markham Street: The Haunting Truth Behind the Murder of My Brother,
Marvin Leonard Williams" (2022). Na Amazon, o primeiro parágrafo da
descrição informa o seguinte: «"Markham Street" is more than a story
about systemic racism, police violence, or brutal murder, although it is all of
those. Above all, it is the story of one man's enduring love for his lost
brother and his devotion to his grieving parents, who kept silent for two and
half decades to protect their seven surviving children.»
De Londres à Califórnia, isto anda tudo ligado.
LIAM: Markham Street. Ou seja, junto à esquina.
DANNY: Esfaquearam-no literalmente na Markham Street e deixaram-no inconsciente.
terça-feira, 30 de setembro de 2025
PENSAR AS PERSONAGENS
Talvez esta história comece em Shackleton, no orfanato a que Liam, ansioso, se refere no início da terceira parte para lembrar um passado que a irmã se encarrega prontamente de desmentir. Apesar das três personagens em cena, “Órfãos”, de Dennis Kelly, concentra na sala onde decorre a acção um número impressionante de gente que, a despeito da ausência física, está claramente presente nas memórias e na consciência das personagens. Desde logo Shane, filho de Helen e Danny, que surge ensonado apenas na quarta parte. Não é despiciendo que apareça sonolento, sem proferir uma única palavra, pois esse estado crepuscular confere-lhe uma dimensão fantasmagórica semelhante à daqueles que vivem apenas nas memórias de Helen e Liam ou a terceiros que vêm à baila, por assim dizer, enquanto marcos de vidas cujos traços vão sendo traçados também pelo modo como se referem aos outros. Shane tem cinco anos, sabemo-lo através de Helen, e foi deixado ao cuidado da mãe de Danny, uma senhora com excelente sentido de humor, diz Liam. Danny tem, portanto, uma mãe que cuida do neto, ao contrário de Helen e Liam que terão perdido cedo os pais e, por isso, foram educados num orfanato. Isto marca uma diferença substancial entre os três, o passado familiar de Danny é, aparentemente, menos volátil do que o de Helem e Liam. Desses tempos remotos, Liam recorda o único miúdo da escola que falava com ele, Brian Hargreaves, o puto cigano que comia paus e que terá sido espancado pelo próprio Liam depois de, supostamente, contar mentiras acerca de Helen. Liam lembra também Hilson, «o conas do Hilson», director do orfanato que pretendia separar Helen de Liam. Há ainda Jeanie, a rapariga que Liam visita no cemitério, a mesma que lhe ofereceu pelo Natal a t-shirt agora ensanguentada. Tanto Shane como Jeanie são referências que conferem humanidade a Liam, resgatando-o desse lugar monstruoso em que nos sentimos tentados a arrumar quem pratica acções cruéis, bárbaras, desumanas. Liam é humano, demasiado humano, não é um monstro, e talvez Kelly pretenda lembra-nos isso mesmo ao conferir-lhe uma dimensão sensível, tal como Nietzsche nos lembrou, em “Humano, Demasiado Humano”, a relevância das «circunstâncias motivadoras» no julgamento que fazemos dos homens. Ninguém é o último culpado por aquilo em que se torna, há os educadores, os pais, as companhias, cada homem é também produto do contexto em que se desenvolve. Neste sentido, o último monólogo de Liam, na quarta parte, quando se dirige a Danny para lhe dizer algo como “eu só queria que tivesses passado por aquilo que eu passei”, ou, dito de outra forma, “try walking in my shoes”, pode inspirar várias leituras, sendo que nenhuma delas, pelo esforço de compreensão que exija da personagem, será minimamente desculpabilizadora dos actos perpetrados que estão no centro da acção. Será de ter em atenção, por isso mesmo, outra presença-ausente: Ian, o amigo de Liam que colecciona todo o tipo de cenas nazis. Helen, que tem uma atitude protectora do irmão, refere-se a Ian sempre negativamente, tal como uma mãe que tentasse demover um filho de andar com más companhias. Enquanto irmã, Helen é também a mãe que faltou a Liam e Liam, na sua forma desastrosa de actuar, tenta ser o protector, a figura paterna, de Helen, Danny e Shane num bairro problemático em que a irmã é insultada na rua e o cunhado vítima de agressões. Mais do que a orfandade familiar aludida no título, há que contemplar igualmente a orfandade social dos cidadãos. A grande ironia está em que seja Liam a lembrá-lo quando, a certa altura, diz: «o estado abandonou-nos.»
quarta-feira, 10 de setembro de 2025
FIGURINOS
“O Que Vemos Quando Lemos” é o título de um belo livro de Peter Mendelsund. O esforço do autor nessa obra é, no contexto do seu trabalho de designer gráfico na área da edição, explicar-nos como chega a algumas soluções através da leitura de um livro, do encontro com as personagens do livro através da leitura. Ele podia interrogar-se sobre como é Helen? Qual a cor dos olhos? E Liam, é baixo ou alto? E Danny, gordo ou magro. No teatro, estes aspectos estão ponderados, desde logo, na escolha dos actores, a qual pode ser feita mediante vários critérios mas deverá ser sempre fundamentada em elementos básicos fornecidos pela leitura. A idade, por exemplo, é determinante.
Em “Órfãos” há algumas indicações que são fornecidas e não podemos perder de vista, nomeadamente sobre o estatuto social das personagens. Nada é ostensivo, mas muito pode ser deduzido. Vivem num bairro problemático? Logo, não têm dinheiro para viver num bairro que não seja problemático. Estão numa zona urbana. Que bairros não são problemáticos hoje em dia nas zonas urbanas? Que bairros não eram problemáticos em 2009, quando a peça estreou, nas zonas urbanas? O que se me afigura mais credível é estarmos na presença de um casal, Danny e Helen, remediado, pura classe média. Ambos trabalham, têm um filho, podem vir a ter um segundo. Não é para qualquer um. Liam será o elemento que foge ao padrão, ele tem a chave da casa (pormenor relevante: tem mesmo de ter uma chave), mas não é necessariamente da casa. Ele é da família, mas como alguém que foi acolhido simplesmente por ser irmão de Helen. Os laços familiares entre estes três são altamente voláteis. Pensando mais concretamente nos figurinos, algumas questões práticas que se impõem:
1. O que significa “vestidos com elegância” no casal Helen e Danny? Um vestido no caso dela, certamente, mas que fuja aos clichés vermelhão ou preto. Qualquer coisa em tons térreos que jogue com o papel de parede, um vestido elegante que possa ser usado num jantar romântico na própria casa, esse ar arranjadinho que as pessoas em busca de uma vida normal oferecem a momentos excepcionais que confiram uma suposta normalidade da vida. Sapatos? Nada de saltos altos, fica foleiro dentro de casa. Talvez umas sabrinas. Há uma mudança em Helen, no entanto, da cena um para a quatro. Na quatro é sugerido que estava deitada na cama. Deverá apresentar-se mais confortável, talvez num pijama, o tipo de roupa que usamos para dormir, uns chinelos de quarto. Uma hipótese também a marcar a passagem do tempo, o resfriamento do jantar romântico interrompido, o frio que Liam traz para dentro de casa: a certa altura vestir um casaco de malha. Porventura da cena um para a dois possa já ter colocado o casaco e mudado de calçado em busca de um aconchego no corpo que a chegada do irmão dissipou.
2. A elegância em Danny é diferente. É ele quem cozinha, vem da cozinha com a comida para a mesa. Talvez uma camisa em mangas arregaçadas. Agrada-me essa ideia, revejo-me no papel em noite de jantar romântico caseiro ou ano novo a dois. Calças mais claras, camisa escura. Um azulão será bem-vindo, sabemos que gosta da t-shirt azul, poderá ser essa a sua cor. Sapatos de tipo mocassins ou algo clássico que combine, porém, com a calça clara (bege?) e a camisa escura. Precisa de um casaco na cena quatro, casaco de alguém que anda na rua à chuva, casaco grosso que o proteja do frio. E de uma balaclava.
3. Liam é a rua, é a rua a entrar dentro de casa, é o bairro a invadir a sala de jantar. Calças de ganga pretas justas, ténis, a t-shirt manchada de sangue - branca lisa ou com alguma coisa estampada, foi-lhe oferecida pela Jeanie, pode ter uma marca distintiva sob o sangue que deverá ser o mais real possível, nada de pinturas elaboradas, manchas de sangue real, salpicos. Por cima da t-shirt, um casaco de algodão, tipo desportivo, com capuz. Ter em atenção que ele vem da rua, não podia ter sido denunciado pelas manchas de sangue, só fica exposto ao entrar em casa. Precisamos ainda da t-shirt azul que Danny não quer que Helen lhe dê e da verde, a t-shirt suada com a águia-estrela estampada. Um verde-tropa seria ideal. E não esquecer a chave, o telemóvel com o toque foleiro. Nada de cabelos rapados. Liam não é skinhead, ainda que pudesse sê-lo.
terça-feira, 9 de setembro de 2025
DO ROMANTISMO À TORTURA
Desde
a estreia em 2009 no Traverse Theatre, em Edimburgo, que a peça Órfãos,
de Dennis Kelly, nunca mais deixou de ser encenada um pouco por todo o mundo. A
recepção crítica favorável e um Herald Angel Award no festival Fringe explicam,
em parte, o interesse, mas não encerram a multiplicidade de abordagens que o
texto conheceu. Talvez a universalidade, no espaço e no tempo, dos temas
abordados contribua para uma compreensão mais efectiva do interesse suscitado.
Tal como o título indica, estamos perante um objecto em que o desamparo e o
abandono são marcas essenciais, ainda que não devam ser lidas de um modo
literal. A orfandade aludida na peça dá-se tanto no plano familiar como no
plano social. Disse o próprio Dennis Kelly, em entrevista a Lyle Brennan (The
Skinny), que o título «se refere a uma sensação de nos sentirmos órfãos dentro
da sociedade. Sentimo-nos um pouco como se tivéssemos sido abandonados pelas
pessoas que deveriam cuidar de nós» (2009).
Uma das dimensões mais interessantes neste trabalho do dramaturgo inglês é precisamente a de um encontro entre uma sociedade corrompida pela violência, pela cultura do ódio, e uma família num momento de disrupção total motivado pelo confronto com a realidade fora do aconchego do lar. O jantar romântico de Helen e Danny abruptamente interrompido pela entrada em cena de Liam, irmão de Helen, é o mote para uma discussão sobre a volatilidade dos laços familiares, as fracturas sociais nas democracias liberais, a criminalidade, o aborto, os efeitos da imigração, o racismo, a tortura, a alienação da consciência moral e dos valores que a sustentaram até o individualismo ter definitivamente tomado conta dos cidadãos. «Então é nisto que o mundo agora se tornou?», pergunta Danny no termo da primeira parte, «Quem conhecemos e quem não conhecemos?»
A lógica do “nós ou eles”, das “pessoas de bem vs. pessoas de mal”, é aqui desmontada através de um dilema moral clássico: se alguém que amamos cometer um crime, o que devemos fazer? Denunciar ou proteger? O mal deixa de ser exclusivo de uma das partes, pode surgir em qualquer lugar, em qualquer classe social ou etnia ou grupo, quando menos esperamos bate-nos à porta, entra pela nossa casa, invade-nos o espaço e toma conta de nós.
Comparado amiúde com Harold Pinter no modo como nos apresenta uma domesticidade enganadora, o trabalho de Dennis Kelly parece alicerçar-se igualmente na máxima: «Uma peça não é um ensaio» (Pinter, Escrever para Teatro, 1962). E, de facto, em Órfãos não vislumbramos nenhuma tentativa de nos convencer do que quer que seja. A situação abordada serve antes de exemplo para demonstrar como nenhuma pessoa está a salvo de cometer os actos mais bárbaros, a crueldade emerge onde menos se espera, os instintos animalescos são inerentes ao ser humano, a maldade não é exclusiva dos monstros, é humana, demasiado humana.
Se a violência está no cerne desta peça, ela está enquanto ignição de um dilema moral clássico e universal. E isso é desenvolvido através de diálogos impressionantemente bem concebidos, num desenrolar sucessivo de argumentos, lapsos e falácias, típico dos thrillers cuja marca principal é o suspense que garante tensão do princípio até ao fim. A incredulidade de Danny, a manipulação de Helen, a autocomplacência de Liam, são apenas aspectos caracterizadores de personagens muito mais complexas que não aceitam juízos morais de nenhuma espécie. O que em todas elas se revela, de um modo mais ou menos acentuado, é como um jantar romântico pode transformar-se numa terrível cena de tortura em que o amor entre uns contrasta com o ódio entre outros.
Uma das dimensões mais interessantes neste trabalho do dramaturgo inglês é precisamente a de um encontro entre uma sociedade corrompida pela violência, pela cultura do ódio, e uma família num momento de disrupção total motivado pelo confronto com a realidade fora do aconchego do lar. O jantar romântico de Helen e Danny abruptamente interrompido pela entrada em cena de Liam, irmão de Helen, é o mote para uma discussão sobre a volatilidade dos laços familiares, as fracturas sociais nas democracias liberais, a criminalidade, o aborto, os efeitos da imigração, o racismo, a tortura, a alienação da consciência moral e dos valores que a sustentaram até o individualismo ter definitivamente tomado conta dos cidadãos. «Então é nisto que o mundo agora se tornou?», pergunta Danny no termo da primeira parte, «Quem conhecemos e quem não conhecemos?»
A lógica do “nós ou eles”, das “pessoas de bem vs. pessoas de mal”, é aqui desmontada através de um dilema moral clássico: se alguém que amamos cometer um crime, o que devemos fazer? Denunciar ou proteger? O mal deixa de ser exclusivo de uma das partes, pode surgir em qualquer lugar, em qualquer classe social ou etnia ou grupo, quando menos esperamos bate-nos à porta, entra pela nossa casa, invade-nos o espaço e toma conta de nós.
Comparado amiúde com Harold Pinter no modo como nos apresenta uma domesticidade enganadora, o trabalho de Dennis Kelly parece alicerçar-se igualmente na máxima: «Uma peça não é um ensaio» (Pinter, Escrever para Teatro, 1962). E, de facto, em Órfãos não vislumbramos nenhuma tentativa de nos convencer do que quer que seja. A situação abordada serve antes de exemplo para demonstrar como nenhuma pessoa está a salvo de cometer os actos mais bárbaros, a crueldade emerge onde menos se espera, os instintos animalescos são inerentes ao ser humano, a maldade não é exclusiva dos monstros, é humana, demasiado humana.
Se a violência está no cerne desta peça, ela está enquanto ignição de um dilema moral clássico e universal. E isso é desenvolvido através de diálogos impressionantemente bem concebidos, num desenrolar sucessivo de argumentos, lapsos e falácias, típico dos thrillers cuja marca principal é o suspense que garante tensão do princípio até ao fim. A incredulidade de Danny, a manipulação de Helen, a autocomplacência de Liam, são apenas aspectos caracterizadores de personagens muito mais complexas que não aceitam juízos morais de nenhuma espécie. O que em todas elas se revela, de um modo mais ou menos acentuado, é como um jantar romântico pode transformar-se numa terrível cena de tortura em que o amor entre uns contrasta com o ódio entre outros.
segunda-feira, 8 de setembro de 2025
CENOGRAFIA
A acção de Órfãos passa-se toda no interior de um apartamento, mormente na sala onde decorre o jantar. Há referências à cozinha, ao quarto e, sobretudo, ao exterior. Na verdade, logo no início, com a inesperada chegada de Liam, o exterior como que invade o espaço interior. É o inferno da rua que ali se instala no conforto do lar, para o destruir.
Que lar é aquele?
Que apartamento é aquele?
Imagens de múltiplas encenações um pouco por todo o mundo produzidas desde a estreia em 2009, colocam-nos perante um leque de opções muito dissemelhantes. Do apartamento de luxo ao contentor com linhas geométricas definidas, de espaços absolutamente minimais à casinha confortável, há de tudo um pouco. Basta olhar para as soluções cenográficas nas encenações de Leonard Beck (Bochum, Alemanha, 2016), com paredes formadas por molduras acopladas (lembrei-me da pintura de Piet Mondrian), ou a de Florian Thiel (Bremerhaven, Alemanha, 2024), uma sala luxuosa com candelabro, mesa suspensa e cadeiras transparentes, para percebermos a diversidade de leituras que o texto permite, a despeito das indicações claras em múltiplas didascálias e do realismo inerente aos diálogos.
Que casa é, então, aquela?
Sabemos que fica num bairro problemático, as referências das personagens ao ambiente social nas imediações assim o indicam. Sabemos que entre esse ambiente social problemático e a casa enquanto refúgio há uma espécie de fronteira que se vai esbatendo. Tudo temos a ganhar, creio, com a instalação de um ambiente acolhedor no início, um ambiente verdadeiramente romântico e familiar, o momento do jantar à luz das velas. Liam faz referência a um sofá, há comida na mesa. Temos, portanto, uma mesa de jantar, um sofá para recolhimento, mas também a criança de cinco anos que ali habita não pode ser ignorada. Algum elemento infantil deverá indicar a sua existência. Um cavalinho? Um triciclo? Brinquedos espalhados pelo chão? As velas terão de estar presentes, talvez baste uma a servir de centro de mesa.
Que outros elementos podemos acrescentar ao espaço que sirvam às personagens?
Agrada-me a ideia de uma jarra com flores que passe da mesa de jantar para uma mesa de apoio ao lado do sofá e à mesa de jntar retorne na última parte, a quarta. As flores podem não ser um mero objecto decorativo, enviam-me também para o cemitério onde estão enterrados Jeanie e os pais de Helen e Liam. Tudo no interior deve, de algum modo, remeter para o exterior, como se por momentos aquela família pudesse ser a dos cartazes na feira de máquinas a vapor. O que se pretende é mostrar como no berço das convenções, num ambiente convencional, o mal emerge com a maior das facilidades, transformando um espaço acolhedor num espaço inóspito.
Agrada-me igualmente a possibilidade de um espelho, esse elemento reflexivo que surge no discurso de Liam sobre Danny, de Danny sobre si mesmo, de Helen sobre o passado com o irmão num orfanato. Helen fala da família que esteve para a adoptar como se estivesse a projectar uma hipótese de vida, a que não foi. É curioso como o que mais íntimo nela se reflecte surja quando fala dos outros.
O papel de parede será a maquilhagem do interior, no final escurecido com a iluminação do fundo grafitado. Além do papel de parede, um tapete sob a mesa de jantar, esse tapete que Liam terá cuidado em não sujar a ponto de escovar as solas dos sapatos. Nada de luxos. O ambiente da peça é middle class, gente à procura de se orientar, gente que trabalha e tem filhos e constrói família. O órfão Liam é a face inadaptada e inadaptável deste ambiente progressivamente disfuncional, ele está de fora estando dentro, é a fenda na parede.
quinta-feira, 4 de setembro de 2025
4 de Setembro
A vantagem de poder ver o que os outros fizeram está, antes de mais, em perceber o que não queremos que seja feito. Na produção da Neuroni in movimento o histriónico e o melodramático desequilibram o que nas personagens temos de calculista, cínico, manipulador, reduzindo os gestos ao sublinhado sentimental, emotivo, por vezes até gratuito quando a violência espreita pela janela da agressividade mais instintiva. Há um gene predador nestas personagens que deve ser conservado, é muito mais consciente, porque individualista, do que involuntário ou espontâneo. Muito importante: respeitar a pontuação, as pausas, os silêncios, os momentos de ansiedade e incómodo interrompidos por desbloqueadores de conversa.
terça-feira, 2 de setembro de 2025
1 de Setembro
A tradução de uma peça de
teatro nunca está terminada. Mudado o texto da língua de origem para a língua
de destino, ele será apenas a base a partir da qual a linguagem dos corpos fará
a verdadeira tradução. E os corpos nunca são os mesmos de dia para dia,
são matéria orgânica susceptível, mutável, instável.
domingo, 31 de agosto de 2025
AINDA COM HAROLD PINTER
Se tiver que falar, prefiro falar de maneira prática sobre assuntos práticos, mas isto não passa de um desejo ingénuo visto que, quase sem dar por isso, acabamos sempre por nos pôr a teorizar. E eu desconfio da teoria. Em nenhum dos ramos do teatro em que tenho trabalhado, e para além de escrever trabalhei bastante como actor e um pouco como encenador, achei que a teoria me fosse, enquanto tal, de algum auxílio; quer para mim quer, reparei, para alguns dos meus colegas. O melhor tipo de relação de trabalho em conjunto no teatro consiste, a meu ver, numa espécie de estenografia errática e cambaleante, pela qual os factos se perdem, através da qual se esbarra neles, são procurados às apalpadelas e de novo encontrados. Conheço um excelente encenador que, segundo consta, nunca disse uma frase completa. Possui uma tal segurança instintiva e um tal poder, quase subliminal, de comunicação, que os actores reagem às suas palavras mesmo antes de ele as ter dito.
Harold Pinter, Várias Vozes, tradução de João Paulo Esteves da Silva, Quasi Edições, Maio de 2006, p. 46.
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
DISSE HAROLD PINTER
Uma peça não é um ensaio, nem deve um dramaturgo sob qualquer exortação prejudicar a consistência das suas personagens injectando um remédio ou uma justificação pelas suas acções no último acto, simplesmente porque fomos ensinados a esperar, faça chuva ou faça sol, pela «resolução» do último acto. Fornecer uma etiqueta moral explícita a uma imagem dramática em inevitável evolução parece-me ser fácil, impertinente e desonesto. Quando isto acontece, não existe teatro mas palavras cruzadas. O público segura no papel. A peça preenche os espaços em branco. Toda a gente fica contente. // (...) Se tivesse de afirmar um preceito moral, seria qualquer coisa como: cuidado com o escritor que expõe a sua causa para que a abracem, que não vos deixa dúvidas sobre o seu valor, a sua utilidade, o seu altruísmo, que declara que o seu coração está no sítio certo e se assegura de que pode ser clara e totalmente visto, uma massa pulsante no sítio onde deviam estar as suas personagens. O que é apresentado, a maior parte das vezes, enquanto corpo de pensamento activo e positivo é de facto um corpo perdido numa prisão de definição vazia e lugar-comum.
Harold Pinter, in Várias Vozes, trad. Francisco Frazão, Quasi Edições, Maio de 2006, pp. 27-28.
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