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quinta-feira, 26 de março de 2026

DAQUI NINGUÉM SAI MORTO

Não há como escapar a “Daqui Ninguém Sai Vivo”, segundo volume da colecção Rei Lagarto, da Assírio & Alvim, onde pela primeira vez dei com os nomes de Friedrich Nietzsche, Arthur Rimbaud, Kerouac, Ginsberg, Ferlinghetti, Gregory Corso, James Joyce, Molière, Whitman, Baudelaire, Dylan Thomas... “Aurora”, de Nietzsche, numa edição manhosa da RÉS, haveria de mudar-me a vida tornando evidentes as potencialidades do aforismo, a força dessa escrita que acompanha o ritmo do pensamento na denúncia de uma pobre humanidade espartilhada pela moral cristã. A descoberta de Nietzsche foi não só a descoberta de um pensador, mas também a descoberta de um músico e, com isso, a de alguém que pensava a música, que pensava o mundo a partir da arte, da música, da tragédia.
   The Doors introduziram-me no universo do jovem James Douglas Morrison e, através dele, cheguei à filosofia do alemão que me pôs a ouvir Wagner e a ler tragédia grega: Ésquilo, Sófocles, Eurípedes. Mas também se abriram as portas para outros universos, como o da Geração Beat que os The The lembraram e popularizaram numa extraordinária letra sobre jovens massacrados por políticas retrógradas: “The Beat(en) Generation” (1989), «open your eyes, open your imagination.» Tão actual. Cabe aqui Kerouac, claro, o jazz das décadas de 40-50, o bebop e o hard bop mais tarde dedicadamente coleccionados, todo aquele ambiente de fusão entre a música e a palavra em recitais anárquicos, a dedicatória de Corso a Miles Davis: «O teu som é impecável...»
   As primeiras pedras estavam inauguradas, do rock ao jazz, do jazz à música clássica, através de um cantor que era poeta e de um filósofo que foi músico. Se a música me transportou até ao planeta dos livros, e já atravessaremos outras pontes, também desde cedo os livros me levaram à música proporcionando descobertas e aguçando a curiosidade. “Arte de Música” (1968), de Jorge de Sena, que comecei a ler bem cedo numa antologia que havia lá por casa, transformou-se numa espécie de catálogo. Lá pelo meio, as Variações Goldberg, que me acompanharam em repeat depois de as adquirir numa interpretação de Glenn Gould, pianista canadiano que murmurava enquanto tocava. “Genius Within: The Inner Life of Glenn Gould”, documentário dirigido por Peter Raymont e Michèle Hozer, dá-nos conta da personalidade excêntrica dessa figura mítica.
   Tanto a ficção como a poesia ofereceram-me muita música, mais esta, talvez, pelo que concentrarei a revisitação apoiado na pulsação rítmica dos versos. Casos há, como nos escritores de canções, em que essa ancestral tradição de proporcionar encontros entre a palavra e o som nutriram a alma como poucos outros alimentos. Sempre fui fã de escritores de canções e muitos deles deram-me a conhecer livros, autores, literaturas, mas noutros encontrei uma espécie de balança equilibradíssima entre as artes literária e musical. Casos de Tom Waits, Leonard Cohen, Chico Buarque, Nick Cave... Ah, o poder inspirador das murder ballads. Mas também o trabalho de Angélique Ionatos sobre a poesia de Odysséas Elýtis, a exploração de Rimbaud através de Hector Zazou, a poesia de Giórgos Seféris pelos Sigmatropic.
  No caso português, o exemplo mais flagrante é José Afonso. Ainda hoje estou para perceber o que seria desse extraordinário poema “Era um Redondo Vocábulo”, escrito na prisão de Caxias, sem a melodia que o acompanha e, na mesma medida, o que seria da melodia sem aquelas palavras. Depois Sérgio Godinho, também ele tocado por Rimbaud, José Mário Branco a musicar Natália, Bertolt Brecht na voz de Jorge Palma, a magnífica Peregrinação de Fernão Mendes Pinto em “Por Este Rio Acima”, de Fausto. Não fui dos que estranharam a atribuição de um Nobel da Literatura a Bob Dylan, autor de canções pejadas de referências literárias. Pecou por tardio, este reconhecimento da canção como peça literária. Não começámos todos pelos cancioneiros?
   Nas suas crónicas, nomeadamente quando se refere à estadia nova-iorquina em casa de Ray Gooch e Chloe Kiel, Dylan fala-nos de livros, dos poetas que leu, das histórias de aventuras que apreciava. Edgar Rice Burroughs, o de Tarzan, chegou-nos pela sua mão, mas também os românticos ingleses, Byron, Shelley, e, claro está, Poe. Daí a Mary Shelley foi um pequeno passo. Ouvir Bob Dylan com atenção, identificar-lhe as referências, perscrutar as letras, procurar os livros, eis um exercício frutuoso.
   Mais recentemente, poetas como Levi Condinho, Joaquim M. Palma, Amadeu Baptista e José Ricardo Nunes, dedicaram especial atenção à música em livros tais como “Pequeno Roteiro Cego” (2019), “Vox Humana” (2024), “O Bosque Cintilante” (2008) e “Compositores do Período Barroco” (2013), desbravando caminho para diversas sonoridades com as quais os poemas mantêm relações dissemelhantes. Seja enquanto motivo, seja como ambiente, seja também através da desconstrução biográfica ou por outros dispositivos e metodologias, a paisagem sonora emerge nestes livros como uma companhia inalienável das palavras.  Em Al Berto, as evocações musicais eram tanto uma espécie de marca geracional como a declarada e exibida adopção de uma rota desviante, a da contra-cultura, como bem notou Manuel de Freitas no ensaio “A Noite dos Espelhos” - outro poeta em que as referências musicais são constantes.
   Muito mais haveria a dizer sobre esta trajectória que nos desloca das palavras para os sons, da literatura para a música, da música para a literatura, mas o trajecto inverso merece igualmente desenvolvimentos para além dos atalhos acima mencionados. Em 1988, uma canção de Leonard Cohen deu-me a conhecer o nome de Federico Garcia Lorca. “Take This Waltz” é a versão inglesa, musicada, do poema “Pequeño Vals Vienés”. E talvez o primeiro contacto com o nome Antonin Artaud se tenha dado através da canção dos Bauhaus com o mesmo nome. Por cá, merecem referência especial os Mão Morta, a mais literária das bandas portuguesas. “Müller no Hotel Hessischer Hof” (1997) levou o nome de Heiner Müller, poeta e dramaturgo alemão, onde ele nunca fora ouvido. “Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável” (1998) reavivou os nomes de Guy Debord, Raoul Vaneigem, entre outros situacionistas, a que devemos acrescentar as referências ao Conde de Lautréamont, de seu nome Isidore Lucien Ducasse, que percorrem a obra da banda nortenha.
   Deixando de lado discos, álbuns, peças musicais baseados ou escritos sobre obras literárias, que são inúmeros – alguns já aqui referidos -, poderíamos ainda sublinhar como nos domínios da Ópera o literário vai para a cama com o musical. Caso curioso é “Carmina Burana”, de Carl Orff, que nos deu a conhecer extraordinárias poesias medievais com uma componente satírica que levou à redescoberta dos domínios do escárnio e do maldizer, da pornografia e do cómico, relegados para segundíssimo plano pelo Index, mas altamente presentes e de uma riqueza incomparável na história de literatura europeia.
  Para o fim, fica propositadamente “Chatterton”, de Serge Gainsbourg”, um inventário que escolhi para epígrafe de “Suicidas”, livro publicado em 2013. Thomas Chatterton, poeta britânico, que se suicidou com apenas 17 anos por não aguentar o insucesso dos seus versos, deu nome à canção de Gainsbourg que introduz o meu périplo pelos escritores suicidas. Um livro polvilhado de referências musicais, diga-se de passagem, desde logo pelo modo como os ambientes sonoros serviram de fertilizante aos textos. «Contra a doença, prescrevo música», escrevo no texto patrocinado por Ángel Escobar Varela. A música como refúgio num mundo que nos agride.  Mas também em “Call Center” a música teve um papel fundamental, o que se nota, desde logo, nos títulos de algumas histórias: “Afterglow” (Loop), “Changes” (Black Sabbath), “Freak Sceane” (Dinosaur Jr.), “Guayaquil City” (Mano Negra), etc. Qual o papel da música nestes textos? Foi, talvez, a água lançada sobre a terra para que a semente do desespero brotasse e desse frutos. Creio que a música sempre teve esse papel na minha vida, não como um medicamento, não como um lenitivo, mas mesmo como água imprescindível à sobrevivência. Não sei se sobreviveria sem música. Se me imagino no deserto a morrer de sede, começo a trautear qualquer coisa para que pelo menos a lama não morra de sede. Não falem de deuses, nem dos que dancem, falem-me de música. E basta. 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

AS AVENTURAS PERDIDAS

 

Estes gestos dantes eram mais frequentes, correspondiam a uma espécie de reconhecimento entre pares cujo principal valor se caracterizava, creio, pelo desinteresse absoluto da distinção. Não conheço o Pedro Correia, como nunca conheci a maioria dos pastores de weblogs com quem fui ou venho interagindo vai fazer 23 anos. Migrados para redes sociais menos insulares e mais ruidosas, os “blogonautas”, para citar o Pedro, metamorfosearam-se com o tempo em perfis, produtores de conteúdos, selfie brothers (ocorreu-me esta agora). Continuo fiel ao weblog, é uma ferramenta de trabalho, para dizer a verdade, um laboratório diário de que não prescindirei enquanto for à borla. É também um arquivo onde vou reencontrando, por via de visitas em massa provocadas por ligações algures situadas, poemas como este Árbol de Diana que verti para português em 2011 e teve na última semana centenas de visualizações:

23

uma olhadela a partir do esgoto
pode ser uma visão do mundo

a revolução consiste em olhar uma rosa
até que os olhos sejam pulverizados

37

para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência


Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)
Versão de HMBF


sábado, 10 de janeiro de 2026

O PALHINHAS &CA, N.º 91

 


Nas centrais de O Palhinas &ca. (n.º 91, Dezembro de 2025 – Março de 2026) com Uma carta para as minhas filhas. Neste número que ensina a Viver, colaboram Rui Fonseca, Pedro Silva, Pedro Nuno Pinto, Pedro Biscaia, Paula Delecave, Nuno Meireles, José de Matos-Cruz, Henrique Manuel Bento Fialho, Filipa Sotto-Mayor, Cláudia Mestre, BAP, Augusto Baptista, António Augusto Menano, António Amargo, André Ruivo, Ana Biscaia, Álvaro Biscaia, Alice Mano Carbonnier, AFMFF. Coordenação de Ana Biscaia.
 
Podem adquirir O Palhinhas na Flagrantetítulo (Rua da República, 114, 1.º, sala 5, 3080 – 036, Figueira da Foz) ou através de email: flagrantetitulo@gmail.com.

sábado, 19 de julho de 2025

POETAS POUCO ORIGINAIS DO MEDO

 


ANFITEATRO
 
Durante a sessão solene
lembrou-se a coragem
a determinação dos heróis
 
Os discursos incidiram
sobre ameaças à democracia
o ódio e o medo que invadiram
as autoestradas da informação
 
Falou-se de cravos
contaram-se histórias
recordaram-se
muitíssimos amigos
tombados além-mar
 
Houve até quem cuspisse
no prato que comeu
dando corda ao relógio
parado pela inquisição
 
No final houve aplausos
cantorias
desfiles
jardins abertos
limpezas
 
No hemiciclo
um batalhão de mulheres
lustrou carteiras de nogueira
trabalhada ao estilo inglês
 
Um batalhão de mulheres
Todas negras
 
Henrique Manuel Bento Fialho, in “Poetas Pouco Originais do Medo – Homenagem a Alexandre O’Neill”, coordenação de Renato Filipe Cardoso, Texto Sentido, Julho de 2025, p. 59. Colaborações de Afonso Cruz, Alexandra Malheiro, Ana Bessa Carvalho, Ana Paula Inácio, Ana Pessoa, Ana Rita Domingos, Ana Zorrinho, André Domingues, António Amaral Tavares, Bernardo Machado, Carla Mühlhaus, Catarina Costa, Cláudia Lucas Chéu, Daniel Jonas, Diana V. Almeida, Fernando Pinto do Amaral, Filipa Leal, Filipe Homem Fonseca, Francisca Camelo, Francisco Duarte Mangas, Gisela Gracias Ramos Rosa, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Fonseca Santos, Inês Lourenço, Isabel Peixeiro, Jaime Rocha, João Pedro Azul, João Rios, João Silveira, José Anjos, José Carlos Barros, José Fanha, José Mário Silva, José Pedro Leite, Leonardo Sousa, Luca Argel, Lúcia Vicente, Manuel A. Domingos, Margarida Azevedo, Maria Vale de Gato, Maria Antónia Bastos, Maria Sousa, Marta Bernardes, Miguel Marques, Miguel Martins, Minês Castanheira, Nuno Brito, Nuno Costa Santos, Nuno F. Silva, Paulo Campos dos Reis, Pedro Teixeira Neves, Raquel Patriarca, Raquel Serejo Martins, Renato Filipe Cardoso, Ricardo Fonseca Mota, Rita Taborda Duarte, Rita Tormenta, Rosa Alice Branco, Samuel F. Pimenta, Sara Duarte Brandão, Sara F. Costa, Solange Freitas, Valter Hugo Mãe, Yara Nakahanda Monteiro.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

FILIPE GUERRA (1948-2025)

 


 
Soube através da Maria João Lopes Fernandes que o Filipe Guerra faleceu. Nunca nos conhecemos pessoalmente, mas trocámos vários emails, discutimos, foi um estímulo frequente. A certa altura, sabendo-me desempregado, tentou arranjar-me trabalho. Sem nos conhecermos pessoalmente. Talvez isto queira dizer alguma coisa da pessoa que era. Ofereceu-me livros, como esse que chegou com dedicatória: “A Velha e Outras Histórias”, de Daniil Harms. Devo-lhe a vontade de colocar em livro um conjunto de posts sobre poesia que reuni sob o título “O Meu Cinzeiro Azul”, publicado pela extinta Canto Escuro nos idos de 2007. Foi ele que, comentando amiudamente o que ia escrevendo, deu aquele incentivo de que sempre precisamos para tais empreitadas. O Filipe está na “Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa” seleccionada e organizada pelo saudoso amigo Rui Costa e pelo André Sebastião, posteriormente editada em Marrocos com tradução de Said Benabdelouahed. Aqui fica o primeiro dos textos do Filipe, autor do weblog O Vermelho e o Negro:
 
   Eu morria. Morrer é incómodo, até desagradável. Gravam-nos o nome numa zona intermédia (entre a Praia das Maçãs e o Cassiopeia Bar), em bom destaque, aureolado de luzinhas, mas quem o lê? Acho que só o morto.
   Noutra noite ressuscitava. Não é agradável. Regressamos, abrimos os braços, tomamos o pequeno-almoço na pastelaria, queremos falar mas a voz não sai da garganta, como nos sonhos. Passamos despercebidos.

terça-feira, 27 de maio de 2025

eSTUPIDa

 


eSTUPIDa
n. 11, 25 de Abril de 2025
Director: António S. Oliveira
Edições Mortas

António S. Oliveira, António Varas, Constança Hinening, Serafim Barbosa, Madame de Merteuil, Humberto Rocha, MdP, João Barbosa, Pedro Águas, Sal Nunkachov, António Piolho, Henrique Manuel Bento Fialho, Carlos Oliveira Santos, César Figueiredo, Rodolfo Lentilha, Raúl Simões Pinto, António Pedro Ribeiro, Rodrigo esCaldas, Cláudio Mur, Odete Espelhos Ínvios, Miguel Sá-Marques, Luís Ferreira, Luís Figueiredo, António Cabrita, António Amaral Tavares, Bernardo Sá, A. DaSilva O., Carlos César Pacheco, José Dias de Souza, Fernando Aguiar, Ana Rodrigues, Feliciano de Mira, João Vasco Henriques, Mário Augusto...

As cabeças de alfinete, pp. 28-31.

sábado, 3 de maio de 2025

DOMESTICADORA DE GIRASSÓIS

 


Os 14 contos de Domesticadora de Girassóis, mais extensos do que é habitual neste autor, exploram universos fantasmagóricos com personagens que tentam equilibrar-se entre o real e o imaginário. O que há de anómalo e de paradoxal nas situações recriadas encontra na multiplicidade formal, que vai da ficção narrativa ao poético, da crónica ao drama, do relato autobiográfico à prosa ensaística e ao diário, vias de expressão para seres cuja existência está em permanente conflito com um mundo onde a separação entre caos e ordem perdeu qualquer sentido.

236 páginas
Maio de 2024
 

Venda directa – pedidos para: companhiadasilhas.lda@gmail.com
 
Também disponível 

na Snob: https://www.livrariasnob.pt/product/domesticadora-de-girassois ;





terça-feira, 29 de abril de 2025

DE MÁ CONDIÇÃO

 


Calhou assim, não foi propositado. Chegou-nos ontem, Dia Mundial da Árvore e da Poesia, este segundo volume da Colecção Insónia. O primeiro foi "A Dança das Feridas". Esperámos 13 anos por ele, eu, a Maria João Lopes Fernandes e o Pedro Serpa.
 
Tal como aconteceu no passado, também deste volume não farei apresentações públicas nem distribuição pelas livrarias. Trata-se de uma edição única, minha e da Maria João - autora das pinturas na capa e no interior, originais concebidos para este efeito -, que em nenhuma circunstância deverá ser objecto de qualquer reedição.
 
Quem tiver interesse num exemplar, poderá contactar-nos, a mim ou à Maria João, por Messenger (Facebook, Instagram) ou email. O meu email é fialho.henrique@gmail.com. O valor de capa, com portes incluídos, é 10€. São 78 poemas e 9 reproduções de pinturas da Maria João Lopes Fernandes. O design e a composição é do Pedro Serpa.
 
Em memória de minha mãe, Clarisse Maria Tavares Bento.
 
Saúde.

segunda-feira, 31 de março de 2025

ENSAIOS DE TEATRO

 


Ensaios de Teatro, 13
Editor: Pedro Estorninho
TEatroensaio - Teatreia Associação Cultural
Março de 2025

Textos de Inês Leite, Pedro Estorninho e Eduardo Baltar Soares, Xavier Castiñeira, Bárbara Soares, Henrique Manuel Bento Fialho, Júlio Roldão, Pedro Ferreira, Paulo Alves Pereira.

Poesia no teatro, p. 62.


quinta-feira, 6 de março de 2025

A MULHER DO ROSTO DESFOCADO

 


AMINA

Esta chuva desovada
que nos ensopa a sombra
e deixa o corpo alagado
sem espírito nem alma

Este vento polvilhado
que semeia nostalgia
sob a copa das árvores

E os pássaros que insistem
em insultar a humanidade
cerzida nas datas de uma laje

E o mundo que nos chega
em destroços
por caudais de cinza
onde a vida ainda arde



Nota: Fotografia de Paulo Nuno Silva para o espectáculo "Quem está aí?", Teatro da Rainha, Março de 2025. Na imagem, a actriz Mafalda Taveira e o actor Tiago Moreira.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

QUEM ESTÁ AÍ?

 


QUEM ESTÁ AÍ?
6 a 22 de Março na Sala Estúdio do Teatro da Rainha
Caldas da Rainha
M/14
 
Autores | Cecília Ferreira, Elisabete Marques, Henrique Manuel Bento Fialho, Manuel Portela
Direcção e dispositivo cénico | Henrique Fialho
Desenho de Luz | Hâmbar de Sousa
Som e vídeo | Raquel Capitão
Guarda-roupa | Acervo do Teatro da Rainha
Interpretação | Tiago Moreira (Homem, Vigilante), Mafalda Taveira (Jornalista, Amina) e Nuno Machado (Repórter de Imagem, Vigilante, Voz)
Música | Henrique Fialho, Miguel Costa e Nuno Machado
Vozes dos vultos | Participantes na Oficina de Iniciação ao Teatro para Adolescentes (Carlos Filipe, Cerys Pickles, Daniela Cruz, Elisabeth Verstraete, Kamilly Rocha, Miguel Bettencourt, Nika, Paula Rego e Sofia Paixão), Inês Barros, Henrique Fialho e Nuno Machado
 
Direcção técnica | Hâmbar de Sousa
Produção | Rebeca Vendrell
Montagem de luz e som | Hâmbar de Sousa, Raquel Capitão e Inês Silva*
Construção da Torre | Hâmbar de Sousa
 
Criação de imagem e design gráfico | José Serrão
Spot TV e rádio | Raquel Capitão
Comunicação e públicos | Inês Pereira e Nuno Machado
Programa | Henrique Manuel Bento Fialho
Secretariado | Teresa Almeida
 
*Estágio profissional do IEFP
 
Agradecimentos | Catarina Neves, Leonor Bento Fialho, Manuela Bento Fialho, Manuel Domingos Alexandre, Margarida Araújo, Mário Galego, Patrícia Faustino, JP Caldeano

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O DESEMBARQUE DAS ONDAS

 


O Desembarque das Ondas. Antologia para Ingmar Bergman.
Coord. Raquel Nobre Guerra
Prefácio de Luís Miguel Oliveira
Posfácio de Joana Matos Frias
Livraria Linha de Sombra Editora
Novembro de 2024

Alexandre Sarrazola, Ana Paula Inácio, André Tecedeiro, Andreia C. Faria, António Amaral Tavares, António Cabrita, António Gregório, Bruno Béu, Bruno M. Silva, Catarina Santiago Costa, Cláudia Lucas Chéu, Cláudia R. Sampaio, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Daniel Jonas, Eduarda Chiote, Elisabete Marques, Francisca Camelo, Golgona Anghel, Helga Moreira, Hélia Correia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Dias, Inês Fonseca Santos, Inês Francisco Jacob, Inês Lourenço, Joana Jacinto, João Bosco da Silva, João Paulo Esteves da Silva, Luís Manuel Gaspar, Luís Pedroso, Manuel A. Domingos, Maria Brás Ferreira, Maria Sousa, Margarida Vale de Gato, Mariano Tomasovic Ribeiro, Miguel Cardoso, Miguel Filipe Mochila, Paola D'Agostino, Paulo José Miranda, Pedro Eiras, Pedro Jordão, Pedro Mexia, Renata Correia Botelho, Ricardo Marques, Rosa Oliveira, Rosalina Marshall, Rui Cascais, Rui Miguel Ribeiro, Tiago Araújo, Alda Rodrigues, António Poppe, Ana Salomé, Bénédicte Houart, Cristina Carvalho, Cristina Fernandes, Emanuel Cameira, Jorge Roque, José Miguel Braga, Luís Quintais, Manuel de Freitas, Maria Quintans, Miguel-Manso, Miguel Martins, Nunes da Rocha, Nuno Brito, Nuno Moura, Patrícia Lino, Regina Guimarães, Ricardo Tiago Moura, Sónia Baptista, Tatiana Faia, Valério Romão.

Uma lição de amor, p. 53.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

QUEM ESTÁ AÍ?

 


Quem está aí?
Cecília Ferreira, Elisabete Marques, Henrique Manuel Bento Fialho e Manuel Portela

Colecção Azul Cobalto | Teatro
Companhia das Ilhas e Teatro da Rainha
Março de 2025

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

REVISTA TRÊS TRÊS

 


Revista Três Três
Edição de Fausto Vicente, Gonçalo Fonseca, Pedro Xavier Mendonça
N.º 10, Tempo, Setembro de 2024
 
Participantes: Afonso Figueiredo, Ana Trigo, Deolinda Leão, Fausto Vicente, Gonçalo Fonseca, Henrique Manuel Bento Fialho, José Ricardo Nunes, Maria Teresa Duarte Martinho, Nélio Conceição, Nuno Fragata, Patrícia Faustino, Pedro Xavier Mendonça e Ricardo Norte.

O Tempo Castrado, pp. 26-28.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

sábado, 1 de fevereiro de 2025

"DOMESTICADORA DE GIRASSÓIS", POR AGRIPINA CARRIÇO VIEIRA

 

No mais recente número da revista COLÓQUIO/Letras, o 218 (Janeiro/Abril de 2025), Agripina Carriço Vieira escreve sobre “Domesticadora de Girassóis” (Companhia das Ilhas, 2024). Deixo o primeiro parágrafo de um texto bem mais longo que revela uma leitura atenta e perspicaz:

«São múltiplas as sensações que nos visitam aquando da leitura de “Domesticadora de Girassóis”, o último livro de Henrique Manuel Bento Fialho, entremeando-se a inquietação, o desassossego e uma cúmplice envolvência. Desde o primeiro momento, no contacto com o aparelho paratextual, o leitor é interpelado por um livro que o desafia. Antes de mais porque se esquiva a qualquer classificação de género, deixando a quem o lê a possibilidade da livre descoberta de um conjunto de catorze textos, que se apresentam como se uma colectânea de contos fossem, mas a que dificilmente podemos atribuir essa designação. São de dimensão muito variável (ao lado de narrativas de quatro páginas, outras há mais extensas, a maior das quais com cinquenta e nove páginas) e de género indefinido, que oscilam entre os registos do conto, do ensaio, do guião, do diário ou da autobiografia, sem nunca se submeterem às convenções de cada um dos diferentes géneros. O fundamento deste movimento subversivo dos códigos literários é-nos dado pela voz que se faz ouvir no último e mais longo texto do livro, intitulado «Sobre o Autor». Aliando as dimensões autobiográfica (do ponto de vista do conteúdo) e diarística (em termos de organização), o leitor é surpreendido por entradas numeradas, que apresentam 51 marcações temporais, uma por cada ano de vida (a que, com maior propriedade, devemos designar por anuário), acompanhadas em ocasiões pontuais por siglas, que intuímos remeterem para locais. É na entrada do ano de 1999 que a voz autoral confidencia: «Gosto de textos que desrespeitem o estilo, rasurem a identidade, nada me agrada mais num livro do que não conseguir classificá-lo quanto ao género e forma» (205). São o gosto e a predilecção pela subversão das normas, tão desassombradamente enunciados, que moldam, para deleite dos leitores, este seu “Domesticadora de Girassóis”.»

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

A IDEIA # 104/105/106

 


A Ideia
revista de cultura libertária
II.ª série – ano XL – vol. XXVII
números 104/105/106 – Outono de 2024
Fundador e proprietário: João Freire
Director e editor: António Cândido Franco

Quatro pneus furados, pp. 165-167.

domingo, 19 de janeiro de 2025

sábado, 30 de novembro de 2024

69 NOTAS SOBRE 69 APONTAMENTOS

 


1. Se Carl Theodor Dreyer não tivesse filmado “A Palavra” (1955), eu não teria conhecido a Maria João Lopes Fernandes. Agradeço publicamente a Carl Theodor Dreyer haver filmado “A Palavra”.

2. No dia 25 de Outubro de 2004 recebi correspondência da Maria João, o primeiro de muitos envelopes. Na altura a Maria João tratava-me por você.

3. Sobre o conteúdo do primeiro envelope, posso revelar que continha uma sebenta académica, labirintos em diferentes tipos de papel, um pequeno livro, outro “maiorzinho” numa edição de 35 exemplares numerados, fotografias de babilónias e de "babéis" em barro, paisagens recortadas por palavras… Não sei o que pensei quando me deparei com tal conteúdo, mas sei que fiquei satisfeito. Pareceu-me poético.

4. Isto foi antes de ter conhecido pessoalmente a Maria João, antes do encontro junto ao Palácio das Galveias, antes do jantar no Bairro Alto. À época, a Maria João era mais forte e eu era mais fraco.

5. Em Maio de 2005, criei um weblog chamado Insónia e convidei pessoas para se juntarem a mim. A Maria João chegou ao Insónia em Julho de 2005. Os posts da Maria João eram-me enviados pelos CTT.

6. Dentro dos envelopes vinham folhas A4 com indicações precisas sobre a composição dos posts. Alguns envelopes continham várias folhas que davam para um mês inteiro de publicações. 

7. Na Mesopotâmia, o “Épico de Gilgamesh” foi escrito em tábuas de argila. Foram necessários muitos anos de evolução para chegarmos aos posts escritos em papéis enviados por Correio Verde e Azul.

8. Os 69 apontamentos a que a Maria João chama “bloco verbo-visual”, agora coligidos em livro editado pela Maquete da Sara Rocio, têm essa origem. Há origens piores.

9. Este não é o único livro que conheceu no weblog Insónia um primeiro suporte de publicação. Antes deste, outros ali foram sendo semeados. Peço-vos desculpa por isso.

10. O primeiro destes 69 apontamentos foi publicado a 17 de Março de 2006. Não teve comentários.

11. O primeiro apontamento a ser comentado foi o terceiro. O Rui Costa comentou: «que bonito».

12. O mais comentado dos apontamentos foi o 55. Vítor Leal Barros achou graça a uma referência à drástica, a “banda drástica”. Espero que agora estes apontamentos tenham melhor sorte.

13. Em 2008, eu e a Maria João conversávamos no chat do Gmail. A 19 de Maio ela perguntou-me se eu ia ao lançamento do livro do Vítor. Eu respondi-lhe que ia jantar.

14. Também descobri uma troca de emails de 2006 em que a Maria João me dá conta de que já é quase metade, estava a diminuir. Eu respondi-lhe, e passo a citar: «Estou triste. Fui a Lisboa, vi dois filmes, vim-me embora.»

15. Isto que acabei de contar nada tem que ver com os apontamentos. Ou talvez tenha. Não sei.

16. Os apontamentos são comentários aforísticos em que o trabalho plástico da artista Maria João se conjuga com a existência quotidiana da pessoa Maria João.   

17. A pessoa Maria João e a artista Maria João são uma e a mesma entidade, sendo que só a primeira sobreviveria sem a segunda. Mas não seria a mesma cosia.

18. O primeiro apontamento é sobre uma cidade labiríntica. Os labirintos estão muito presentes no percurso da Maria João. A cabeça de cada um de nós é um labirinto do qual não se sai. Isso é uma chatice.

19. Outra chatice é ocuparmos espaços que são eles mesmos emaranhados de vozes, como as cidades que habitamos. 

20. As cidades da Maria João são compostas por letras que compõem palavras que compõem frases. As próprias imagens, creio, podem decompor-se em frases compostas de palavras compostas por letras.

21. O silêncio é o melhor que as palavras têm.

22. A música é o melhor que as palavras fazem.

23. «Sempre me senti estrangeira no mundo», escreve a Maria João no apontamento 4. Somos dois. Talvez possamos fundar um país, o país dos que se sentem estrangeiros do mundo.

24. Será que nos sentiríamos estrangeiros no país dos que se sentem estrangeiros no mundo?

25. Há imagens que me perseguem quando penso no trabalho da Maria João. A de uma cor a ser rasgada é talvez a mais forte de todas. Dediquei-lhe um conto, não vou repetir-me.

26. Prefiro ler-vos um apontamento, o sétimo: «Voltei para partir pedra nas palavras; para o verão amarelo terracota; calor de fornos e a argila nas mãos, feridas nas unhas ao lado das pedras distantes; terra que já foi pedra no tempo a tratar disso. A natureza em solos de xistos por camadas nas minhas mãos a escrever. Cidades invisíveis na terra templo das pedras escrevendo no tempo. E a escrita a percorrer o labirinto das ruas.»

27. Creio já ter referido que o “Épico de Gilgamesh” foi escrito em cuneiforme numas tábuas de argila há coisa de 4000 mil anos. Desde então, foi sempre a descer.

28. Os apontamentos, que são 69, dão-nos a ver um pouco do que se esconde sob o solo fértil da Maria João. A Maria João é solo fértil.

29. Lembrei-me agora de um texto do Alcides, que também escreveu no Insónia: Dizia assim:

Fui dar à passerelle mas só queria a sandes de courato da moda, que tem uma fina placa de borracha estufada chamada tofu. Engasguei-me logo e entrei no primeiro sítio que vi, que foi lá, e plo enjoo da tesúndia viram logo que eu é que era o máfio das pitoskas. Sentei-me na primeira cadeira e quase espetei um fémur na troncha porque havia lá uma dama que fugiu a correr e ao segundo passo levantou voo e ficou atarraxada no tecto, mas ninguém a viu porque devem-na ter confundido com um andaime. Começaram as raimundas a sair pró corredor, e eu a ronhar que difícil é a profissão onde não se ganha pra comer. Senti a sensibilidade e comecei a chorar, e aproximaram-se logo duas a dizer que eu era um lauriano sensível e eu disse-lhes que não era verdade, que no bairro como a carne crua e que me atravanco mais com o tofu, e confessaram-me que devia só haver paz e não haver maldade no mundo e carregaram a chorar e eu disse-lhes que não se chora com a boca cheia. A que estava pendurada no tecto começou a descer e era o meu ossudo que partia, mas não partiu, porque aterrou de fronha e devia ter adormecido porque vinha a ressonar com a tesaurinda a parecer um pão-de-ló todo feito de tofu. E eu choranguei um pouco mais porque me lembrei dos jogos de mikado que a maltoska jogava a comandar o capiléu pra não escangalhar a palitada. Foi a minha sensibilidade que as surpreendeu porque o mundo é muito mau e os adultos não são sensíveis e meigos como as crianças e os bobis, que é o nome dos canitos delas porque tá na moda retrós, que é como maria ou mesmo melaurinda, que era a que me arrastava já para o meio da passerelle, onde ficamos até ao fim do evento numa metáfora viva de sensibilidade, e poesia, e fôdasse.

30. A Maria João comentou este texto. Disse: «fôdasse bobi».

31. O Alcides é o Rui Costa.

32. Lembrei-me deste texto, suponho, porque era assim o ambiente em que nos cruzávamos online. Uns queriam textos a cores em negrito, outros enviavam-nos em croqui pelos CTT.

33. E no fim éramos mais ou menos felizes porque nos estimulávamos, isto é, despertávamos os ânimos e íamos à procura e partilhávamos e provocávamos e não tínhamos a mania que sabíamos mais do que os outros e entendíamos que entre as tábuas de argila de há 4000 anos e o mundo a acontecer é tudo relativo porque ainda há sítios onde uma pessoa pode sentar-se a olhar o céu e a escutar a água a cantar.

34. «A propósito, já alguma vez experimentaram partir pedra?» Pergunta a Maria João no apontamento 16.

35. Quem já experimentou partir pedra que não atire a primeira pedra, limite-se a pôr o dedo no ar.

36. Eu já parti pedras, eu já reparti pedras, eu já cortei pedras, eu já queimei pedras, eu já fumei pedras. Eu já fui um pedrado. Falta-me ser empedrado. Queira Deus que tal não suceda.

37. Eu nunca parti pedra em sentido literal. Só parti pedra em sentido metafórico.

38. Em certo sentido, ler um livro é como partir pedra. A cabeça transforma-se em maço e cinzel.

39. Agora a sério, eu não estou a brincar.

40. Estes apontamentos falam de música, de alfabetos, de betos alfa, de Évora, de gatos, das Belas Artes, e fazem contas: «Dois mil escudos correspondem a dez euros, e cinco euros a mil paus. O dinheiro antigamente era paus ou contos…»

41. Paro aqui, estou convencido de que há poesia numa frase como esta. Repito: «O dinheiro antigamente era paus ou contos».

42. E acrescento um ponto aos contos: o dinheiro também era em pedra. E era mesmo. Por vezes, a literalidade mis estúpida encontra-se inusitadamente com a poesia.

43. Gosto muito dos apontamentos 19 e 20. Depois leiam-nos.

44. Vou tentar dizer-vos uma coisa daquelas que se dizem nas apresentações de livros. Por exemplo: neste livro as palavras dialogam com as imagens, as imagens dialogam com o silêncio, o silêncio dialoga com o papel manchado de tinta, o papel manchado de tinta dialoga com o leitor, o leitor dialoga com o contemplador, o contemplador mantém-se calado, não dialoga com ninguém, é eremita, é o mais sábio de todos.

45. Acho que falhei no propósito de dizer-vos uma coisa daquelas que se dizem nas apresentações de livros.

46. Estou como a Maria João do apontamento 21: «aprendi a vomitar só quando estritamente necessário».

47. Reparo, no entanto, como nestes trabalhos está já o gérmen das obras que mais aprecio da Maria João: as naturezas mortas sociais.

48. As naturezas mortas sociais fundem fotografia e pintura, há nelas um jogo de sobreposição de cenas quotidianas com naturezas mortas eivadas de ironia. Por exemplo, um pequeno-almoço burguês com a polícia de choque em pano de fundo.

49. Gosto de pessoas que dizem coisas sérias a brincar. Parecem-me inteligentes.

50. Vou fazer uma sugestão à Maria João: pinta uma pilha de mendigos, de sem-abrigo, a dormirem debaixo das árvores de Natal gigantescas que fazem reluzir os olhos dos nossos concidadãos por esta época. Depois envia pelos CTT aos presidentes de Câmara que, de Norte a Sul, investem nos festejos de Natal como se estivessem a combater a fome no mundo.

51. Agora podia ler o apontamento 24, mas não vou fazê-lo. Leiam-no vocês, por favor.

52. Prefiro ler-vos o 26: «Uma reencarnação de Sócrates passou na minha rua esta madrugada: reconheci-o pelo andar peculiar e pela barba prateada; ele trazia a miserável condição humana dentro de um saco plástico, pendurado na mão esquerda.»

53. Não me parece por acaso que o saco esteja pendurado na mão esquerda.

54. Não vou maçar-vos com política.

55. No entanto, tudo isto é político. O homem é uma besta política que, por acaso, faz coisas bonitas. A maior parte das vezes mais valia ficar quieto.

56. «…tenho a língua presa, a minha língua prendeu-me. Um dia destes ainda a corto.» Escreve a Maria João no apontamento 28, ao lado de uma fotografia muito curiosa de calçada portuguesa e peças de um puzzle espalhado sobre a calçada.

57. A calçada portuguesa já me ia partindo uma perna. O calçado português faz-me bolhas nos pés.

58. Perdoem-me a indiscrição. Se calhar, estou a ser inconveniente.

59. Que se lixe. Há pessoas muito mais inconvenientes do que eu que não vos incomodam nada.

60. Agora vou ler-vos um apontamento só por causa das coisas. É sobre árvores de Natal. Leio-o directamente do bloco.

61. A Maria João também cita Camões. Ao que parece, fez 500 anos este ano. Camões. Mas ninguém sabe ao certo quando ele nasceu. Acontece aos melhores.

62. Estou quase a terminar. Não me apetecia nada falar de Camões. Agora já falei. Pronto.

63. Que mais posso eu dizer-vos? Que o nosso corpo é uma casa desarrumada? Que a nossa cabeça é um espaço vazio? Que não vale a pena sonhar com mundos perfeitos quando podemos cultivar amores-perfeitos no jardim ou em vasos?

64. Agora apetecia-me cantar. Fiquem descansados. Apetecia-me cantar quando estava a escrever isto, que já foi há uns dias. Agora já não apetece. Ou será que apetece? Como posso eu saber agora se quando estiver aí convosco a ler isto me vai apetecer cantar ou não? O futuro é uma incerteza.

65. E se isto fosse uma escultura? Olha lá, Maria João, pode um texto ser uma escultura? Partimos pedra a escrever?

66. Estes apontamentos também estão cheios de pessoas, às vezes dirigem-se directamente a segundas e terceiras pessoas. São como esculturas a olhar para nós, ali paradas a olhar para nós.

67. Tomem lá o apontamento 53: «Os amigos mortos visitam-me em sonhos, e nem sempre me lembro das suas mensagens; ao despertar destes sonhos, sinto que não estou sozinha e as minhas mãos param durante o dia; tenho dívidas a pagar com a vida, ainda não posso ir para lá, porque há muito a fazer.»

68. Pois há.

69. Gosto do número 69. Dizem ser erótico, mas a mim lembra-me equilíbrio. O yin yang. Sou uma pessoa muito espiritual.

Henrique Manuel Bento Fialho
Livraria Snob, Lisboa, 30 de Novembro de 2024.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

O DESEMBARQUE DAS ONDAS

 


UMA LIÇÃO DE AMOR
 
Algumas pessoas
têm janelas nos olhos
onde apetece bater suavemente
com os nós dos dedos
para que venham à janela
como amantes a quem jóia alguma
aditaria beleza e formusura
 
Perdida a aposta
o marido seria a má influência
que a altas horas atira pedrinhas
aos olhos da mulher
na esperança de que deles ela salte
para que possam continuar
a pisar o risco da paixão
 
Henrique Manuel Bento Fialho, in “O Desembarque das Ondas – Antologia para Ingmar Bergman”, coordenação de Raquel Nobre Guerra, prefácio de Luís Miguel Oliveira, posfácio de Joana de Matos Frias, Livraria Linha de Sombra Editora, Novembro de 2024, p. 53. Poemas de Alexandre Sarrazola, Ana Paula Inácio, André Tecedeiro, Andreia C. Faria, António Amaral Tavares, António Cabrita, António Gregório, Bruno Béu, Bruno M. Silva, Catarina Santiago Costa, Cláudia Lucas Chéu, Cláudia R. Sampaio, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Daniel Jonas, Eduarda Chiote, Elisabete Marques, Francisca Camelo, Golgona Anghel, Helga Moreira, Hélia Correia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Dias, Inês Fonseca Santos, Inês Francisco Jacob, Inês Lourenço, Joana Jacinto, João Bosco da Silva, João Paulo Esteves da Silva, Luís Manuel Gaspar, Luís Pedroso, Manuel A. Domingos, Maria Brás Ferreira, Maria Sousa, Margarida Vale de Gato, Mariano Tomasovic Ribeiro, Miguel Cardoso, Miguel Filipe Mochia, Paola D’Agostino,  Paulo José Miranda, Pedro Eiras, Pedro Jordão, Pedro Mexia, Renata Correia Botelho, Ricardo Marques, Rosa Oliveira, Rosalina Marshall, Rui Cascais, Rui Miguel Ribeiro, Tiago Araújo, Alda Rodrigues, António Poppe, Ana Salomé, Bénédicte Houart, Cristina Carvalho, Cristina Fernandes, Emanuel Cameira, Jorge Roque, José Miguel Braga, Luís Quintais, Manuel de Freitas, Maria Quintans, Miguel-Manso, Miguel Martins, Nunes da Rocha, Nuno Brito, Nuno Moura, Patrícia Lino, Regina Guimarães, Ricardo Tiago Moura, Sónia Baptista, Tatiana Faia, Valério Romão.