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domingo, 30 de maio de 2021

POEMAS AO SACRO

 
I
(canal sacral)
 
Em silêncio a dor insinua
a postura incorrecta
do descrente
 
Prostrando-o de joelhos
no chão frio
para que aprenda
à força da tortura sem algoz
o poder da fé
 
Na homeopatia
 
 
II
(forames sacrais dorsais)
 
O mal começa quando 
nos querem de pé 
 
De quatro seriam outras
as dores talvez
como as de quem sonha 
quando deitado acorda
arfando horizontalmente 
 
A verticalidade só 
traz desconforto 
o horizonte mente
a curva desmente
 
E o homem é
um quadrúpede de fé 
com deslocamento 
do sacro
 
O que resta do rabo símio
não é passado
de que me orgulhe
 
 
III 
(forames sacrais pelvinos)
 
Galardoado pela arte sacra
na base da coluna esculpida 
o homem gritou de raiva
ou de dor
 
Não dá para perceber 
 
A doença é uma humilhação 
incapacitante 
que tudo confunde
 
Só quem habita o corpo 
conhece os enigmas do templo
 
 
IV
(promontório)
 
Em vista de mim mesmo 
uma maré de dores vagas
que arrastam o sono
e inundam a paciência
com os detritos da escrita
 
Em vista de mim mesmo
nem uma nota de conforto
 
Tudo corpo
 
Tudo torto
 
 
V
(face articular lombossacral)
 
O sofrimento assoma ao rosto
fazendo-te engolir as palavras
 
Ficas com a barriga cheia
de vocábulos impronunciáveis
 
Cada letra é uma vértebra fora do lugar
 
Caligrafia desalinhada
que só fora das margens
adquire sentido
 
 
VI
(processos articulares superiores)
 
Deite-se de barriga para baixo
Expire fundo
 
Já não moro no meu corpo 
Terei vendido a alma? 
 
Coloque-se de lado
Do outro
 
Estou do avesso dentro de mim
 
Sacramente inflamado 
Espiritualmente extinto
 
Sacrílego?
Deus não é dado a pormenores
 
 
VII
(crista sacral mediana)
 
Tive um galo que cantava
canto gregoriano 
Da sua crista cristã sacral
evolavam padecimentos 
 
E agora sobra-me esta mediania
acamada num silêncio 
pesaroso 
 
Nem galo nem fortuna
apenas uma dor que percorre a coluna
do sacro à cabeça
 
 
VIII
(faces auriculares do sacro)
 
Quantos rostos são os teus Senhor 
que em nenhum encontro conforto? 
 
Perdoa-me o ouvido interno surdo
a mesmidade do si-mesmo repetida
como alarme que a hora incerta
indica ao corpo as vias do alívio 
 
Poderá a tua face Senhor ser redonda
e branca e lisa como a do comprimido?
 
 
IX
(ápice do sacro cóccix)
 
Lá fora as asas dos pássaros
enxotam o vento
Vejo-os daqui pela janela
que dá para o fim do mundo
E escuto os motores
em movimento
as nuvens que passam
como o tempo 
lentamente
e tropeçam nas sombras dos astros
e caem por terra como cometas
 
Lá fora o movimento mudo
da Terra
coberta pelo sal dos oceanos
e pelo sangue dos homens
 
Estou deitado e escuto e vejo
e tento não pensar na demora
desta existência convalescente
num ápice aparecida
de súbito esquecida
enquanto lá fora até as árvores
parecem caminhar sobre raízes
e as rochas me surgem felizes
em torno de um eixo
fixo
deslocado
 
 
X
(processos transversos do cóccix) 
 
Sorriam-lhe as lágrimas
pelas faces pálidas
li por lapso numa história
do século XIX
e logo me ocorreu cevar
nesta raiva
uns versos travestidos de dor
 
São transversos o que escrevo
para não gritar
 
Em silêncio ninguém me ouve
só a mim a dor perturba
e nestes versos que ninguém lerá
sobra o consolo que por lapso
a doença inventa
para se fingir saudável
 
 
XI
(cornos do cóccix) 
 
O mais fácil seria dizer
há que pegar o cóccix pelos cornos
ou elaborar trocadilhos 
entre cornos e corpos 
Mas eu não estou para piadas 
falta-me riso à paciência 
 
Lá está 
o quão espirituosa logra ser
a ciência das palavras 
a doença que nos atinge 
como Deus a marrar-nos por dentro
e o corpo feito arena
sem público 
 
Isto é sobre a dor incapacitante
que atinge a coluna
esse pilar da consciência
que mantém de pé um corpo
diante da adversidade
 
Nada disto tem graça alguma
 
A piada estará em haver quem por acaso
compreenda a chama
que excita o pirómano
a falta de ar que agita
o peixe fora de água
o corno que perfura
o bandarilheiro
 
Não há nobreza na dor
mesmo quando disfarçada de prazer
exalta o submisso
ou provoca o martírio
a dor é uma ruptura
uma fractura
 
Nobre é o músculo que inquieta o osso
e faz caminhar na direcção do outro
não isto que nos prende dentro de nós
como se nada mais houvesse
além do corpo que sentimos
sofrer
 
Levanta-te e anda
 
Quem nunca perdoou
que fracture a primeira vértebra

segunda-feira, 17 de maio de 2021

TERRA NATAL

 


(Mais informações: aqui)

Admito o preconceito, mas certos aspectos na biografia de um autor contribuem para reforçar ou atenuar o interesse gerado pela obra. Seduz-me a tentação de supor uma existência por detrás das palavras, imaginar que são o sangue vertido por um corpo a cicatrizar. Não sinto qualquer desconforto quando o anonimato quebra a corrente, mas como negar o fascínio exercido pelo desvio e pela errância? Já não tenho idade para me deslumbrar com ideias feitas acerca da grande aventura que é estar vivo, sendo-me facilmente perceptível quão misteriosa, angustiante e tremendamente dolorosa pode ser a existência de um gorila no interior de uma jaula. Esta clausura da natureza, o selvagem domesticado, é porventura a mais repisada das formas de viver na contemporaneidade, a qual tem as suas contradições e os seus paradoxos como qualquer outra, mas precisamente por me parecer tão vulgar e nela me encontrar tão imerso é que me espanta quem a contraria aventurando-se no interior de florestas desconhecidas, atravessando o deserto, experimentando adversidades, superando contrariedades, para tombar exausto no cume da montanha acabada de escalar. Ou quedando simplesmente a meio caminho, ainda assim caminhando. Quanto ao tédio e à monotonia do ramerrão doméstico vejo-os como ao desafio colocado a alguém atirado para dentro de um labirinto, convencendo-me de que em muitos casos aquele a quem fosse dado o mérito de encontrar a saída sentir-se-ia tão perdido do lado de fora que desejaria regressar imediatamente ao interior de onde saiu.

Há pormenores na biografia do dramaturgo Daniel Keene (Melbourne, Austrália, 1955) que permitem compreender quanto destas duas dimensões terá contribuído para a arquitectura de uma obra onde vislumbramos tanto o quotidiano trágico da vida doméstica como a errância daquele que parte à aventura. É um autor, como se costuma dizer, que terá passado as passas do Algarve antes de obter reconhecimento. Sabemos que chegou a quase mendigar na Nova Iorque dos anos 80, a dos yuppies capturados pelo grande sonho americano. Familiarizado com os movimentos de contracultura preponderantes no núcleo de resistência à massificação uniformizada do espectáculo, Keene optou por um teatro ao mesmo tempo realista e estranhamente poético no modo como aborda a história. As duas pequenas peças montadas pelo encenador Luís Varela no Teatro da Rainha ajudam-nos a equacionar mais esses mecanismos de aproximação à realidade do que a formular ideias feitas e generalizações sobre a forma como o quotidiano e a experiência vivida se imiscuem na linguagem poética e teatral. Desde logo, são duas peças muito diferentes uma da outra. A Chuva foi escrita como um monólogo, Terra Natal é um encadeamento de sketches fugazes. A primeira desloca-nos para o campo indefinido da memória, a segunda confronta-nos como um reflexo num espelho. O que ambas liga é do domínio da subjectividade, embora possamos encontrar nos dois textos a força de um passado que vem à tona através de memórias e de recordações que são também um questionamento sobre as raízes das personagens.

A Chuva remete-nos para o holocausto nazi, mas fá-lo a partir de um conjunto de alusões e não propriamente de enunciações claras e inequívocas. A velha interpretada pela actriz Isabel Lopes desdobra-se na voz manipulada e na presença física de duas outras actrizes, oferecendo ao discurso a profundidade e o intimismo de uma história enraizada em memórias particulares de um acontecimento universal. Olha-se aqui para a História tendo como ponto de partida uma experiência singular. Onerosas são as memórias que advêm ao rosto de Isabel Lopes e se prolongam nas vozes de Lavínia Moreira e Sara Delgado, elegia pelas vítimas de um extermínio que o tempo parece querer apagar como o faz à matéria transformada em pó ao longo dos anos. É também a esta transformação operada pelo tempo que assistimos, uma transformação projectada do eco fantasmagórico da infância ao rosto envelhecido à boca de cena. Já em Terra Natal este elemento ameaçador do esquecimento surge, precisamente, na personagem igualmente interpretada por Isabel Lopes, uma divertida mas ao mesmo tempo angustiada avó empenhada em transmitir ao neto o conhecimento das suas raízes. É uma peça social, se assim podemos dizê-lo, de forte consciência cívica e com a clara intenção de dar voz aos desafortunados, gente dilacerada pela rotina, pela monotonia, pela tal domesticação do selvagem no início deste texto aludida. A ameaça de desemprego que recai sobre o pai, vigorosa interpretação de Nuno Machado, produz efeitos nefastos no seio de uma família em crise. E essa pode ser uma das temáticas do texto, ou seja, o modo como a vida íntima acaba por ser afectada, condicionada, para não dizer determinada por golpes exteriores, pelo ambiente social e cultural em que o indivíduo se encontra. De sublinhar, porém, que o princípio e o fim da peça estão marcados pelo aniversário do filho adolescente, interpretado por Carlos Batista, o qual se vê no contexto muito mais ambíguo e ambivalente de entrada na vida adulta, até porque nesse contexto repercute a tragédia dos adultos em cena — como se ao vermos o jovem casal estivéssemos a ver o que o pai e a mãe foram, como se ao olharmos para o pai e a mãe estivéssemos a assistir ao que o futuro reserva para o jovem casal. Há uma espécie de herança processada entre as personagens que estabelece um jogo de intercâmbios: a solidão da avó, a ausência de perspectivas da mãe, a frustração do pai, parecem estar a ser transferidos para um casal de adolescentes em alegre vertigem passional mas prestes a descobrir, em bom português, o que a vida custa. E essa é a verdadeira tragédia, perceber que não há saída. Ou, em havendo, regressar ao labirinto.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

SÓ NÓS SABEMOS

 


Pai & Filha


Só nós sabemos porque.. esperamos 19 anos e vamos das Caldas para o Marquês ver passar um autocarro às 4 da manhã.

domingo, 2 de maio de 2021

ÚTERO

 
Um vidro separa-nos
uma grade transparente
tu agora num mundo
que me é estranho
mais ainda por ser presença funda
de um corpo ausente
 
Uma mão furtiva
escapando por entre as grades
para dar uma orquídea?
para dizer quanta falta nos fazes?
 
Um reflexo nas águas
de um rosto para sempre nosso
porque nem tudo o tempo apaga
mesmo que num eco silencioso
chegue a tua voz
perguntando quanto de sonho
há nesta realidade
ocultada
 
2/Maio/2021

quarta-feira, 28 de abril de 2021

UM POEMA DE JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA

 21

(de edifico esse lugar)

Agradeço às ilusões
toda a verdade que escondem
agradeço a esta porta
pela angústia dos meus passos.
Também agradeço ao tecto
pelo céu que se abrirá;
às paredes, agradeço
a paciência com que prendem
o silêncio, dentro e fora;
agradeço às aparências
só o verbo aparecer;
agradeço as que sabem
porque almoçar é preciso,
e agradeço aos que ignoram
por tudo o que hei-de aprender.

João Paulo Esteves da Silva, in Notas à Margem, Amores Perfeitos, Maio de 2002, p. 29.

domingo, 18 de abril de 2021

DEZOITO

 


18 é um número místico, dobro de 9. E 9 é o triplo de 3 e 3 é a conta que deus fez. 8 + 1 = 9. Ora, 9 é 3 x 3, a santíssima trindade elevada ao cubo, o que perfaz três pais, três filhos e três espíritos santos. Um buraco negro nas contas do estado, portanto. Mas como tudo tem face e reverso, os buracos negros são fixes. Neles repousa a origem do mundo, como exemplarmente representou Gustave Coubert. Daí que 18 seja essencialmente feminino, no que tem de reprodutivo e criativo e germinativo. Por onde quer que o abordemos, iremos sempre deparar com a mística do 3 (trindade) ou a do 2 (dualidade). Porque 18 é duas vezes nove, isto é, noite e dia, terra e céu, branco e preto, sol e lua, mas com um imenso universo de estrelas brilhantes a subdividirem zenãomente o infinito. 18 também é 7, porque 8 – 1 = 7. Ora, 7 são os dias da semana, as cores do arco-íris, as notas musicais, o que faz de 18 um número musical num palco de cores vivas. Há uma enigmática aporia na raiz do 18, já que 8 é o símbolo do infinito. Mas de pé. 18 é o infinito de pé, abraçado à unidade, de mão dada com a unidade, apoiado na unidade. Mas o que verdadeiramente faz de 18 um número especial é a Matilde ter nascido a 18. E fazer hoje 18. E a mensagem se conservar viva:
 
MATILDE
 
Chegará o dia em que confundirás
as horas com o tempo
a medida com o espaço
em que farás do céu uma casa escarrapachada
e para ti o amor se definirá assim:
viver dentro de um coração
 
Farás do cão o país das pulgas
tomarás banhos de água cheia
com singulares noções anatómicas:
o joelho também tem cotovelo
 
Não cresças nunca, por favor
mantém o sono na cama
não o levantes do peito
e deixa as escadas penduradas no tecto
 
A mãe há-de regressar
com um saco cheio de cansadeira
 
O pai há-de embelezar-se
com um terço: o colar da missa
Mas não cresças nunca, por favor
 
E em crescendo faz por manter
nos olhos a alegria desmedida
de tudo o que é ambíguo, ilógico, natural
 


Parabéns Matilde. Obrigado Ana. Mais do que um corpo em chamas, a centelha que incendeia. Saúde.

terça-feira, 30 de março de 2021

LAB'BEL - 10 ANS (2010-2020)

 



A página (https://www.lab-bel.com/en/) informa que Lab’Bel é um laboratório artístico do Grupo Bel. O décimo aniversário foi comemorado com a publicação de um catálogo onde encontramos inventariadas as variadíssimas exposições e diversos eventos levados a cabo, pela Europa fora, mas com sede em França, no contexto da actividade do laboratório. Um dos projectos tem o nome de “Metaphoria” e esteve por cá quando Guimarães foi capital europeia da cultura. As palavras de dois amigos poetas, o Rui Costa e a Joana Serrado, eram parte integrante desse projecto, que entretanto também esteve em Atenas e Paris. Eu estive em Guimarães, e quis o acaso que me encontrasse por lá com o pai do Rui (António Costa, o bom). No regresso, escrevi umas coisas sobre o que vi. A Sílvia Guerra, Directora Artística do Lab’Bel desde 2010, pediu-me entretanto que voltasse ao tema. O resultado integra o dito catálogo. A versão rosa é em inglês, a amarela em francês. Chegou-me ontem, finalmente, com a permissão de uma pandemia que tudo atrasa. Deixo aqui o texto original, para o caso de terem interesse:

 

APARAS DE UMA VISITA A METAPHORIA

Guimarães, 22 de Outubro de 2012

 

 

1. Numa das entradas dos seus diários, Cesare Pavese escreve que A poesia começa quando um idiota diz, a respeito do mar: «Parece azeite.» Eis uma possível noção de poema, senão de toda a criação artística, enquanto discurso que se distancia do território da descrição para se arriscar no campo minado das semelhanças, das explosões de nexos, da teia de elos entre real e irreal. O poeta não estará tão interessado em comunicar como parece estar em desconstruir e subverter o processo comunicacional, fazendo incluir entre emissor e receptor um terceiro elemento, imaterial, invisível, mas sólido, ameaçador, dilacerante. A este terceiro elemento damos o nome de metáfora.

 

2. As metáforas têm vida própria. Os homens são meros veículos para a coisificação das metáforas. A relação que estabelecemos com a metáfora é inalienável da tentação para a submeter às leis do mundo, essa é a nossa fraqueza. Sempre que alguém diz “parece azeite” nós tentamos encontrar correspondência entre dois sujeitos no enunciado (um explícito, outro implícito), sendo difícil de aceitar a inexistência de uma correlação entre ambos. São estas as regras do jogo, como se o que parece não pudesse ser apenas e tão-somente uma aparência, uma sombra.

 

3. Além de poeta, Rui Costa foi romancista. No romance “A Resistência dos Materiais” (2008) ele subverteu a alegoria idealista de Platão para nos propor um universo onde entre verdade e sombras deixava de haver qualquer clivagem. “Nós é que somos a sombra do que as nossas sombras são”, diz. A esta subversão do sentido corresponde tanto uma desconfiança dos mecanismos racionais que levam à verdade como a necessidade de uma linguagem libertadora. O leitor de poesia sabe que a beleza, a força, a vivacidade das metáforas residem, precisamente, na capacidade que têm de oferecer uma outra dimensão, deslocando-nos de um campo semântico paradigmático, onde o leitor de poesia não faz questão de estar, para um campo semântico metafórico. Daí que as metáforas sejam libertadoras, desviam-nos da rota asfixiante do real, ampliam as coordenadas da lógica, libertando-nos das amarras do normal, levando-nos a saltar o muro que separa a ordem do caos.

 

4. O caos é ao mesmo tempo sedutor e ameaçador. Estamos sempre a tentar pôr ordem no caos. O mundo à nossa volta é caótico, o universo surge-nos caótico, o desconhecido é caótico, pelo que a grande tarefa humana tem sido descobrir leis que façam acreditar haver organização no caos. Esta dinâmica que leva do caos à ordem, até que a ordem se revele insuficiente para a explicação do caos, é um movimento incessante que só pela metáfora pode ser dito. Metáfora é movimento, é trânsito, é deslocação.

 

5. Desloquei-me a Guimarães, em Outubro de 2012, para ver a exposição com curadoria de Sílvia Guerra. Entreguei-me ao regaço de “Metaphoria” e deixei-me embalar pelos diferentes trabalhos onde pude reencontrar-me, também, com as metáforas de dois amigos poetas: o Rui Costa e a Joana Serrado. Partilho agora convosco o que então escrevi numa página dos meus diários (inéditos):

 

Hoje pinto largos contornos nas coisas que vejo, desenho-os como quem sente preguiça na elaboração de um pensamento delineado, de fronteiras quase invisíveis ou, pelo menos, indistintas. Rouault aflora ao pensamento, vá-se lá saber porquê, nos braços dos homens que trabalham nas obras, nas roupas tingidas de tinta e cimento, nas mulheres carregadas com sacos de plástico, nos rostos carregados das viúvas e nas crianças que transformam lixo em brinquedos, nos veículos freneticamente estacionados e nas lajes inscritas ao balcão dos cafés. Sempre que a temperatura muda, dá-me para isto. Regresso depois de mergulhar a cabeça num barril de metáforas. Debaixo de água ouviam-se vozes, música, poemas, viagem subaquática com pés na terra. Deve haver algo orgânico na linguagem das metáforas, nas sombras, deve haver algo de sublime neste corpo sem órgãos do pensamento. Invejo, por vezes, a subtileza dos acólitos da palavra para poder dizer, sem contornos nas palavras, o que penso e quanto vejo. Não sendo possível, limito-me a agarrar no que vejo com as mãos desajeitadas do discurso poético. Ainda bem que há pessoas de contornos finos, quase invisíveis, ainda bem que existem com mãos limpas e firmes, unhas exemplarmente arranjadas, dedos esguios, ainda bem que há pessoas sem calos nas mãos. Eu conspurco tudo aquilo em que toco. Se soubesse passar com as limas nas unhas dos dedos que vêem, se soubesse afastar o texto do pretexto e ficar a sós com os pés na terra, a cabeça debaixo de água a ouvir sombras, por certo não quedaria estático nesta incerteza. Vale a pena trazer à liça as palavras de Youcenar: “Nenhuma vista que não se apodera de todo o espírito é visão; nenhum pensamento, por válido que seja, é outra coisa que um fruto ou um subproduto passageiro, desprovido do sentido de eternidade no instante, de extensão ao interior de um ponto nem sequer fixo, que a intervalos muito longos a visão do espírito por vezes confere e se torna em alguns casos possível ressuscitar pela recordação.” Com que visão terão sido pintadas as coisas que vejo no regresso a casa? Com a visão do espírito, a visão dos olhos ou a visão total? Fixo a vista nas coisas para nelas encontrar o quê?

 

6. Passados estes anos, folheio o catálogo do que me foi dado ver reencontrando-me com o que então não vi. Se o mar parece azeite, talvez a lua possa ser uma lâmpada. Acesa na noite, a lâmpada-lua de Katie Paterson remete-me, na problematização que encena da luz, para a Visio intelectuallis referida por Yourcenar. Já não são apenas os olhos a participar da visão, a qual se nos apresenta tão limitada sempre que confrontamos o mesmo objecto a olho nu e a olho revestido por um qualquer instrumento que permita ver para lá do visível. Este instrumento não tem de ser físico, técnico. A metáfora é um instrumento que permite ver onde a vista não alcança, daí o arrebatamento que provoca. Podíamos citar o êxtase dos místicos e o delírio dos loucos, Margarida Maria Alacoque e Antonin Artaud.

 

7. Num belíssimo ensaio dedicado à poesia de Paul Celan, George Steiner refere a dificuldade sentida por mentes treinadas para a visão empírica quando colocadas perante a força de um discurso simbólico e metafórico. Não estranhamos tais dificuldades, ainda que julguemos estar a elas associado tanto de medo quanto de preguiça. Medo do desconhecido e preguiça para ir mais além. A metáfora desloca-nos, coloca-nos em trânsito, é, tal como os veículos pesados oportunamente fotografados por François Prodromidès, um meio de transporte entre dois pontos, sendo que apenas o ponto de partida surge óbvio e determinado. Desconhecemos o ponto de chegada.

 

8. Pascal Quignard dizia dos fragmentos que eram rasgões, interrupções na continuidade de um discurso, aparas, farrapos, um cancro que corrompe a unidade de um corpo, desagregando-o, exercendo sobre esse corpo uma violência que o transforma em “100 biliões de sóis”. Olhamos a noite estrelada e vemos em cada estrela um fragmento do mundo, contemplamos o deserto e aceitamos cada grão de areia como um fragmento do mundo. Partir, romper, despedaçar, deixar em pedaços, em pó, em migalhas, reduzir a nada, eis o significado etimológico de fragmen, fragmentum. “Em grego o fragmento é klasma, o apoklasma, o apospasma, o pedaço separado por fractura, o extracto, alguma coisa arrancada, violentamente puxada.” A metáfora tem esta função de fragmentar, interrompe o sentido, instaura a descontinuidade, para ampliar a linguagem estilhaçando-a. Num certo sentido, podemos dizer que toda a metáfora é fragmento.

 

9. Estas aparas sobre uma visita a Guimarães são metáforas de um pensamento em trânsito. A Terra move-se em torno de um sol que há-de um dia explodir, não tanto para morrer, como para interromper as fases da lua. O universo é uma imensa metáfora. Com o passar dos anos, uma mesma imagem inspira-nos sensações, reflexões, emoções diversos. Hoje em dia, os contentores e as nuvens de Prodromidès adquiririam uma simbólica porventura mais trágica e obscura do que a que tinham em 2012. Há toda uma metáfora da clandestinidade que está por fazer, para a qual contribuem com a própria vida refugiados e imigrantes deslocando-se sobre a terra como na metáfora se desloca o pensamento.

 

10. A História ainda não terminou.

 

Henrique Manuel Bento Fialho

29/05/2020

sábado, 27 de março de 2021

27 DE MARÇO - DIA MUNDIAL DO TEATRO

 


MEMORIAL DOS RESSUSCITÁVEIS 
PARA UMA POLÍTICA DOS SEMPRE VIVOS
 
Djá i dju nibá u
Rufem os tambores
A dança do sol vai começar
 
Salve ó tu, Amon-Ré
A mim pertence o ontem e eu conheço o amanhã
 
Ditirambo canto coral corifeu
Dioniso nos proteja da ordem
A terra estremeceu
 
Vistam as máscaras de Téspis
A tragédia é uma comédia
A odisseia é uma catarse
Ajax Agamémnon La farse
Antígona Aquiles
Ésquilo Electra
Édipo Medeia
Doze apóstolos na última ceia
 
Sófocles Eurípedes Prometeu
Bacantes Vespas Suplicantes
Aristófanes Orestes Pílades
 
Pirgopolinices, o soldado
Elvipedes Trigeu
 
«Que esperança teria Andrómeda, presa ao rochedo, menos do que poderem as suas lágrimas encantar alguém?»
 
Djá i dju nibá u
Salve ó tu
Escaravelho fanfarrão
Pathelin, la farce de maître
Commedia dell’arte, Pantaleão
Embarcai no auto da barca do Ruzante
Betia Nhua Alma D. Duardos
São Martinho Índia Farelos
Rubena Vicente
Seleuco Anfitriões
Filodemo Camões
 
Misantropo Tartufo Avarento
Molière Berenice
Casado à força
Como disse?
 
O Velho Ciumento
 
«Ó desgraçada mãe, para que me geraste, se havia de ser tão difícil manter a minha vida!?»
 
Fedra Racine
Rodogune Cid
Ilusão Cómica
Corneille
Ilhas — dos Escravos da Razão Colonial —
 
Macbeth Pantalão
Doutor Capitão
 
Enamorados
Columbina Arlequim
Romeu Julieta
Hamlet Ofélia
Pedro Inês
 
Estalajadeira Rústicos A Praceta
O Sonho de uma noite de verão
Guerras de Alecrim e Manjerona
Shakespeare Cornucópia
Sombras kabuki Japão
 
António José da Silva
 
A Tempestade Otelo
Ricardo III
 
Vilegiatura Goldoni Algazarra
Fausto, o primeiro
Valentin, A Fanfarra
 
Seis personagens à procura de… Henrique IV
Que esta manhã improvisamos à tarde
Esta tarde improvisamos à noite
Esta noite improvisa-se
Inácia Sampogneta
Gigantes
Pirandello
Lorca Ionesco
A cantora careca
 
Strindberg
Dança da Morte
Hedda Ibsen Menina
Inimigo Macha Irina
Olga Vânia Lopákhin
Arkádina
Tréplev Gaivota Tchékhov
A sombra de um franco-atirador
O’Casey Rosas vermelhas
A charrua e as estrelas
 
Winnie Willie Clov
Uma fala do doutor Hinkfuss
Hamm
Pozzo Lucky
Beckett Rockaby
Not I Not I
 
What Where Godot
 
Mãe Coragem e os seus filhos
A coragem da minha mãe
E passo a citar de cor:
 
«Atravessando o muro vão aqueles
Que, não detendo nada,
Tão-pouco um muro havia de deter.
E o seu fardo depõem
Ante o supremo tribunal das sombras:
O friso e as suas cenas triunfais.
Reparai bem, jurados de além-túmulo:
Há um rei aprisionado de olhar triste,
Uma rainha de olhos delicados
E coxas provocantes,
Um homem com uma cerejeira na mão
E uma cereja na boca,
Um deus gordo e dourado conduzido
Por dois escravos,
Duas virgens com uma tabuleta
E nela os nomes de cinquenta e três cidades,
Um legionário moribundo e erecto
Em saudação ao seu general.
E um cozinheiro segurando um peixe.»
 
Fim de citação
Brecht
 
Salve ó tu, Amon-Ré, o mais antigo na Terra
A mim pertence o ontem e eu conheço o amanhã
Look Back in… Hunger
 
Tabori
 
Djá i dju nibá u
Djá i dju nibá u
Djá i dju nibá u
Rufem os tambores na noite
 
Um Homem é Um Homem
Mais Nada Autor Anónimo
Arturo Ui Shen Té Shui Ta
Salve ó tu, Amon-Ra
 
O Círculo de Giz Na República da Felicidade
Crimp Playhouse Bahamas
Combate de negro e de cães
Teatro impossível
Alemães:
Deutsches Theater
Berliner Ensemble
Gorki Theater
Wintergarten
 
Uma noite na biblioteca
Ubu antes do abate:
 
«Nada a dizer
E é este o ritmo da loucura»
 
Não é Artaud?
Não é Sarah Kane?
Não é Maiakovski?
 
Bernard-Marie Koltès foi um dramaturgo française
 
Alboury Cal Menino
Max Frisch Heiner Müller
Espaço vazio
Pobre Louise Fuller
 
Também Sarrazac sonhava com o Eldorado
Lázaro O fim das possibilidades
 
E rufem os tambores
Djá e dju nibá i djá ê nê ná
Jojo
O Reincidente
Danan
 
Dorst
Eu, Feuerbach
Eu, Antonin
Eu, Sarah Kane
Eu, Maiakovski
 
E para breve A Chuva
Terra Natal Daniel Keene
Às 19h
 
Eis-me vindo
Eis que me encontro na barca de Ré
Percorro o lago da Caixa Negra do lado do céu do Norte
Escuto a palavra dos Autores
Ajo de acordo com aquilo que eles fazem
Jubilo quando eles jubilam pelo meu Teatro
Vivo daquilo que eles vivem
 
Djá i dju nibá u
A dança do sol vai começar
 
 
Nota: texto de Henrique Manuel Bento Fialho a partir de uma ideia de Fernando Mora Ramos. Foram usados excertos de “As Magias” (Herberto Helder, Índios Comanches, EUA), “O Livro dos Mortos do Antigo Egipto”, “Arte de Amar” (Ovídeo), “As Vespas” (Aristófanes), “O Julgamento de Lúculo” (Bertolt Brecht), “4:48 Psicose” (Sarah Kane).

domingo, 14 de março de 2021

SOBRE "ESTALAGEM" (MEDULA, 2019)

 


Henrique Manuel Bento Fialho
ESTALAGEM
S.l., Medula / 2019
 
É Fernando Pessoa, pela voz de Bernardo Soares, quem nos recebe à entrada de Estalagem, o mais recente livro de poemas de Henrique Manuel Bento Fialho: «Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo.» A epígrafe cumpre a função de anunciar um sentido, fornecer coordenadas e perspectivas de leitura. Neste caso aponta para um sujeito autoral configurado como hóspede, alguém que assume em pleno o carácter transitório da vida. Essa é igualmente a condição do leitor perante os textos. A demora, apresentada como imperativo, constitui algo de inevitável — é condenação — mas, ao mesmo tempo, abre um infinito de possibilidades, transforma a vida num território por explorar. Tanto ao sujeito autoral, face à realidade, quanto ao leitor, perante o real dos textos, é atribuída a missão de recolher testemunhos, organizar uma leitura, exige-se presença activa, compromisso. Ainda que com a consciência de que entre ambos existe uma distância intransponível que talvez apenas a morte seja capaz de vencer: «A morte / talvez chegue para nos unir, quem pode / sabe-lo?» (7).
   Se considerarmos que, publicada em 2003, Antologia do Esquecimento (edição do Autor) se trata efectivamente da primeira obra poética de Henrique Manuel Bento Fialho — na medida em que, a par de inéditos, integra, com bastas emendas, alguns poemas de dois volumes anteriormente publicados —, Estalagem é o seu sétimo livro de poesia. O percurso literário do Autor abrange também a ficção, sendo a recolha mais recente, de 2018, o volume de contos A Festa dos Caçadores (Abysmo), e o ensaio e a crítica literária — veja-se o blogue universosdesfeitos-insonia.blogspot.com e o volume O Meu Cinzeiro Azul (Canto Escuro, 2007).
   Estalagem reúne 36 poemas, quase todos compostos por estrofes de quatro versos e, maioritariamente, constituídos por três estrofes. Esta regularidade, longe de ser absoluta, é acompanhada pelo tendencial recurso ao decassílabo, embora também esta medida surja apenas como referência, sendo frequentemente desrespeitada. Estamos aqui, talvez, perante uma provocação, em que uma norma (uma possibilidade, uma aparência de norma) é apresentada para poder ser desrespeitada e subvertida num exercício que não é ostensivo mas se alimenta de pequenas infracções e rupturas que minam o discurso poético e tornam num exercício de pluralidade, impossível de reduzir. A norma torna-se o desprezo pela norma, afirma-se a virtualidade do plural e do divergente. Neste sentido, o último verso do livro, que o interrompe abruptamente — excepcional pela mais curta medida — concretiza o programa enunciado na epígrafe e dá consumação a esta estratégia. Ficamos repentinamente como que sem solo sob os pés. Mais do que ensinar a cair, o poema conduz efectivamente à queda, proporciona-nos a experiência da queda, empurra-nos para o abismo, aponta ao vazio da sua própria destruição.
   A recusa da fixação e da imobilidade é patente no poema «Estátua» (18): «De nada me arrependo que implique / andar de um lado para o outro, a pé / ou à boleia de ossos generosos». Também em Estalagem se revela a alma andarilha que caracteriza Henrique Manuel Bento Fialho e a sua escrita. O propósito pode ser vaguear sem destino à procura do novo, do diverso, do que nos resgata, mesmo que — ou sobretudo — tal constante deambulação se afirme contra uma vontade dominante, contra a regra: «Ofensa é passar a vida feito estátua.» Na mesma linha, afirma num outro poema: «e estação nenhuma me detém. Olho / a paisagem ao fundo dos meus dias, // cordilheira de mentiras, logros, e / regresso sempre pelos mesmos trilhos» (21). Neste movimento incessante são afastadas todas as referências, todos os possíveis constrangimentos, não sendo necessários «mapas, cábulas, tabelas, bússolas, // apenas um tapete de folhas caídas» (30).
   A poesia de Henrique Manuel Bento Fialho alimenta-se do propósito de lutar contra as convenções, desmontar ideias feitas, denunciar preconceitos, expor as perversidades da organização social, manter permanentemente «santas /causas» (7). Mas não se veja aqui espírito missionário nem ingenuidade. A função da poesia não é negociar  uma qualquer paz interior ou ceder à sensatez, pelo contrário, cabe-lhe agitar e desfigurar-se: «Poesia imprópria, buscar sensatez // no contorcionismo de guerras parvas» (7). Obstinada e irreverente, esta poesia incorpora uma intensa dimensão ética, os versos são críticos, recusa-se com teimosia a «aderir ao cartão de cliente» (11) que normaliza e retira identidade e dignidade.
   Pequenas coisas aparentemente sem importância revelam verdades incómodas: o vazio de quem se encontra «a contar pelos dedos as mãos dadas // de namorados que passeiam no Parque» e se apercebe «de como amputadas eram as pessoas» (41) é indicador de uma sociedade em que a proximidade e os afectos são valores esquecidos. Perpassa nestes versos uma atitude geral de desconfiança perante o andamento do mundo, a iniquidade, a injustiça: «e leio no jornal que há escravos na Líbia / tal como outrora em negreiros lusitanos. / Outrora? Outrora é sempre agora, nesta / hora da Terra a derrapar em lodo humano» (30). É uma poesia dos dilemas da existência, de vocação social, da afirmação do primado da dignidade humana, que não hesita em ser incómoda: «Sou porém a mosca no rosto que não aceita / teres sido complacente para com o patrão» (26). Não há, contudo, no reverso desta crítica generalizada, a proclamação de uma verdade única ou a defesa de uma posição de superioridade.
   A ironia e o humor são instrumentos ao serviço desta estratégia, mas sem que os versos se transformem em linhas ácidas. O Autor conhece os «efeitos persuasivos da gargalhada» (15) mas não a utiliza para contagiar uma ideologia, apenas para desencadear um estado de rebelião permanente. O sujeito não se leva a sério, é alvo da sua própria troça, tem tantos defeitos quanto os que aponta aos outros e aos mecanismos reguladores da vida social. Não se acantona numa torre de marfim nem fica imune à desgraça e ao desvario; no documentário a que assiste na televisão torna-se simultaneamente actor: «touros e cavalos pastam nos montados, / como eu em casa, estendido no sofá, / a ver documentários exibidos na TV» (17). Quando se detém nele próprio, o sujeito destes versos exprime descrença e até desprezo. O poema mais emblemático é «Glória» (20), no qual se considera um «Glorioso fracasso». Esta conclusão retira à vida qualquer intenção competitiva, todos os destinos são banais, não há outro prémio para além de cumprir uma existência honesta, anónima, sem outro brilho que não seja o interior: «Em tudo o mais sou banal, até no modo / como driblo adversários inesperados» (20). A comparação com o desperdício ou o lixo, o que é residual ou insignificante, é outra forma de dar corpo a uma estratégia de desvalorização do sujeito: «lixo a trazer felicidade, ilhas de lixo, // em alto mar, os pulsos a sangrar para / dentro famílias inteiras, eu calado a / embrulhar-me no lixo para me dar de / presente a quem queira esbanjar-me» (16). A acumulação de bens materiais, absolutamente irrelevantes, torna-se lixo na hora da morte: «Para mim, nessora morto, tudo será lixo. / Tal como a vida o é para um cadáver» (24). A morte, tão presente nestes versos, é a grande niveladora. Tudo se cumpre de passagem, nesta vida, sujeito ao tempo.
   Ao poeta cabe — como se, também ele, de um chef se tratasse — o papel de «cruel desmistificador» (40). Nesta linha, como preceitos ou regras de conduta que deve adoptar, o poeta não deixa de apresentar, em dois poemas, as suas receitas (35 e 36). Sublinhe-se a conclusão de «Receita II»: «E se por azar alguma dor / te interromper o sorriso / ao azar daremos o nome / de uma prometedora  oportunidade» (36), por ser esta atitude de abertura à possibilidade de deslumbramento que me parece constituir, digamos, o princípio poético destes versos. Denuncia-se a coerção do real e os mecanismos reguladores da vida em sociedade, mas mesmo perante opções de vida redutoras a hipótese do deslumbramento continua a ser a única que se mostra válida, capaz de irmanar todos num mesmo exercício de compaixão, que desencadeia e legitima o processo poético. E por isso, em vez do desastre, apesar do desastre e da tristeza que o provoca, não obstante o vazio, o imperativo do canto: «Perante tão clara tristeza posso / declarar desastrosa esta vida. / Prefiro o canto transparente, solto, / na folha absoluta deste vazio» (10).
 
José Ricardo Nunes
Colóquio Letras
Fundação Calouste Gulbenkian
Setembro/Dezembro 2020
pp. 241-243.

segunda-feira, 1 de março de 2021

O PALHINHAS & CA.

 


O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 68
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
Fevereiro e um bocadinho de Março de 2021

 
 
Este ano não tivemos Carnaval, p. 4.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

CAIXA PRETA

 


Por detrás da cortina o actor espreita o futuro
vê um auditório de rostos despidos
e mãos sujas de barro cristalino
 
Vê o primeiro homem escarvar
lorcas onde guardar tesouros
esmerando a técnica animal
de buscar toca, covil
onde proteger-se dos outros
 
vê um segundo homem surpreendido
pelo que à superfície aflora:
água que o terceiro bebe
e um quarto e um quinto cobiçam
 
e então ao ver-se reflectido
o actor confunde-se com o que vê
e diz:
esta água é nossa
 
porque muito antes da Terra haver sido gerada
foram os buracos negros inventados
para que o universo os fecundasse
com o sémen das estrelas
 
só depois vieram as chuvas
ventanias de pólen
semeando no solo
árvores de fruto
 
e da podridão dos frutos brotaram homens
como dos ovos das ovas nascem peixes
 
O actor vê um planeta inteiro formar-se à sua frente
rizoma de pensamento em brasa
útero de magma em ebulição
memórias, fantasias, palavras
 
Eis o palco, a dança, a caixa, o coro
venham as máquinas
remexer a lura do sonho
uma casa é um buraco aberto no espaço
ergam-se as paredes para ocar metros quadrados
de alegria
no abdómen da esperança
 
Um sexto homem reclama
é preciso escavar mais fundo
chegar ao centro da Terra
recuperar o tesouro há muito escondido
onde o chão deixa de ser chão
para ser cenário de guerra
sem feridos nem mortos de verdade
apenas lama, lava
e um gás de contradanças invadindo a atmosfera
a que o actor ascende
porque voa
não rasteja
anima
 
O actor escuta
a comédia trágica do mundo
o motor da máquina lavra o movimento
para que a máscara seja desenterrada
e o espectáculo recomece
 
Henrique Manuel Bento Fialho
Caldas da Rainha, 20/Fev/2021

domingo, 31 de janeiro de 2021

O PALHINHAS & CA.

 


O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 67
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
Janeiro de 2021
 
 
Tenho dúvidas, p. 11.


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

RYŪNOSUKE AKUTAGAWA

 


Nada como um morto para denunciar que não vivíamos, vê-lo desinsuflado de dor como um objecto acolhendo pó. Alguém diz que já não está entre nós, e a gente acredita na esperança de que em não estando se acabe o sofrimento. Um pouco menos de imprevidência e seríamos sábios. Regamos a tristeza com palavras doces, contemos as lágrimas, somos por lágrimas contidos, trememos de um frio que faz o corpo suar e encolhidos a um canto esperamos que passe depressa a hora deste inferno medíocre. Já não é um corpo o que ali está, é um lençol de carne dobrada, lavada, vestida, decorada, embelezada ao serviço de condolências e pêsames e sentimentos. Quem será toda esta gente carregada de flores? Terão nome? De onde vêm? Para onde vão? Por que dão ao morto braçados de uma beleza que ele não pode ver nem cheirar? Dai ao morto o espaço que merece, na memória. / Nunca no coração porque ele toma-o todo. Instala-se na aorta e por aí queda a bombear sangue por nós, um sangue negro e espesso composto por 45% de nostalgia e 55% de memórias sem rosto. Não temas o esquecimento, ó sangue, aceita-o como a um trombócito. Venerai o morto com silêncio, serenai-o com sementeiras e pomares. Estávamos ali tão metidos na nossa inexistência e veio ele lembrar-nos do que somos. Para quê? Para que apressemos os dias? As luzes tremem à passagem do morto, as lâmpadas fundem-se, uma casa afunda-se na ausência, há sons que lhe faltam e aromas extintos. As casas precisam dos seus mortos. Abrimos as janelas dos mortos e as casas saltam à procura de mariposas. Pareceu-me ver um sorriso na sombra branca do teu rosto, talvez um canteiro de estrofes amargas. O que mais custa é escutar as orações e acompanhar com os lábios um pai-nosso dito para dentro, as sobras fechadas no caixão, o corpo fechado nas sobras, a terra fechada no corpo. Com tudo isto se fez uma lágrima. Que sistema / económico nos desculparia se a chorássemos? Que vêem os nossos olhos que não deva ser visto? Um amigo que chega e te oferece uma laranja, a vida liquefeita num suco doce que se mistura com o sangue trazendo luz à boca. Na boca mirrada dos mortos saboreia-se o vento, o pólen, as primeiras chuvas, o mundo inteiro num grão de terra. Alguma paz há-de chegar deste silêncio, expressão vigorosa de um rosto ameno velando por nós, que estamos vivos, supondo ausente a forma última de um nome: raiz.

 

Os itálicos pertencem a João Pedro Grabato Dias.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O PALHINHAS & CA.

 


O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 66
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
Dezembro de 2020
 
 
Aquilo que aparenta ser mais do que realmente é, p. 12.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

PARA A MINHA IRMÃ LEONOR NO DIA DOS SEUS 50 ANOS


 
 
A gente mordia amigos imaginários
no pátio da casa antiga
à sombra de uma pereira
que eu trepava para fingir que voava
E no carro montado com cadeiras de praia
John e Jenny seguiam viagem
até ao paraíso dos sonhos
 
A gente escondia-se no sótão
a perseguir fantasmas
Isto foi antes de os mendigos
trilharem os caminhos da liberdade
e dos fantasmas ganharem rosto
para que finalmente percebêssemos
quão real era o medo de falhar
 
Não estar à altura significava
descer à terra para ser perseguido
por gente que não era a gente
gente corrosiva como larva na fruta
Deixa lá isso, um dia serás Jenny
e eu estarei lá para estender
a passadeira vermelha dos sonhos
 
Se bem me recordo o futuro
vem sendo um campo fértil
em glossolalias de coração aberto
e a liberdade demora-se no horizonte
Mesmo quando na cidade atropelávamos
o silêncio das salas de cinema
com o espanto de uma descoberta
 
que mal sabíamos estar para durar
onde dentro de cada um de nós
relutam as feridas do saber
Um pouco como esta dor no braço
que inda hoje sinto ao pensar-te
por me haverem dito ter sido
o teu primeiro cumprimento
 
Ao que parece é comum entre irmãos
o mais velho morder o mais novo
quando ambos mal nascidos
desconhecem os caminhos
que poderão levar ao paraíso dos sonhos
Esta dor é a felicidade que sorri
enquanto a viagem perdura