quarta-feira, 20 de março de 2024
QUE LUZ ESTARIAS A LER?
domingo, 31 de dezembro de 2023
ONDE É QUE ESTAMOS A COMER?
Em 1966, o Portugal retrógrado da ditadura recebeu a Merce Cunningham and Dance Company para uma digressão que andou pelo Tivoli, Teatro Gil Vicente, Cinema Império, etc. As reacções foram o que será hoje fácil de imaginar para quem tenha um mínimo de noção do atraso de vida em que estávamos mergulhados, não só pela total impreparação diante das coreografias de Cunningham e da música de John Cage, mas também por aspectos técnicos devidamente documentados num artigo de João dos Santos Martins que acompanha, à laia de posfácio, a edição deste “Onde é que estamos a comer? E o que é que estamos a comer” (Douda Correria, Novembro de 2023). Além do mais, era a primeira vez que o público nacional assistia a «um bailarino de cor» a partilhar o palco com pessoas brancas. Em plena Guerra Colonial, tanto O Comércio do Porto como o DN não deixaram escapa esse extraordinário acontecimento. Os textos de John Cage coligidos neste volume delicioso traduzido por Nuno Marques são uma espécie de apontamentos de digressão, prestando especial atenção aos comes e bebes que alimentavam a companhia. Na introdução, Cage coloca-nos a par dos seus tormentos pessoais provocados por uma alimentação desregulada: «Os bailarinos são fornalhas. Queimam tudo o que comem. Por seu lado os músicos não são fornalhas eficientes: passam muito tempo sentados.» Resultado: artrites, abcessos, dores, intoxicações, pulsos inchados e etc. Nada que uma mudança rigorosa de dieta não ajude a corrigir. Felizmente, os textos são anteriores à dieta. Oferecem-nos excelentes ideias para petiscos, mesmo quando documentam as conjugações mais inusitadas. Pelo meio, percorrendo gastronomias muito diversas em cidades muito distantes umas das outras, também assomam curiosidades: «Em casa comendo uma galinha ao jantar, / o Victor Hamburguer contou o trabalho que fazia / com as galinhas. Altera-lhes os embriões / para que quando os pintos nasçam tenham / mais ou menos penas ou olhos, por exemplo, / e que os tenham em sítios diferentes / do que as galinhas normais» (p. 12) Não fiquem chocados, é apenas poesia. Uma dimensão especialmente interessante neste livro, para lá da curiosidade documental sobre uma digressão e um dos seus aspectos (o regime alimentar é fulcral para a produção artística), é o receituário que oferece ao leitor e o modo como o faz acompanhar de sugestivos elementos para a organização de almoços, jantares, piqueniques. Não é um manual, mas podia ser: «A preparar um piquenique no quarto de hotel. / Frango, marinado em limão e sake, / embrulhado em alumínio, deixado durante a noite, / no dia seguinte mergulhado em óleo de sésamo e grelhado no cavão. / Os brócolos, fatiados, foram distribuídos / por vinte e cinco caixas com gengibre, o milho / ainda nas espigas mas sem folhas, / envolvido em manteiga e embrulhado. / Vendo que a banheira estava cheia de salada, / o David disse, “Não quero cabelos na minha comida.” / Para além da carne assada e queijo em pão de centeio, / o Robert comeu uns biscoitos integrais, uma laranja / amarga de Jaffa, uma banana e tarte de maçã. / O sumo fermentado e pegajoso de maracujá do David / rebentou como um géiser a caminho de Grenoble. / Limpou-se o chão do autocarro e as malas e abriram-se as / janelas. E o sumo rebentou outra vez» (p. 22). Lamentavelmente, a passagem por Portugal aparece referida de um modo bastante lacónico. Ficamos na curiosidade acerca dos acepipes com que foram brindados os senhores Cunningham, Cage e companhia. Talvez com cozido à portuguesa ou uma das 1001 maneiras de fazer bacalhau, pão e vinho sobre a mesa, pastéis de nata a rematar. Inclinamo-nos menos para os coentros e os rabanetes, a sardinha para três, broa de milho com azeitonas, tendo em conta a bela mesa que o Jornal de Letras não deixou de divulgar em Novembro de 1967. Lá estão sentados Manuel de Lima, John Cage, Ana Hatherly, Merce Cunningham, Nelson di Maggio, Máio Cesariny, Ricarte-Dácio, David Tudor, Rui Mário Gonçalves. Não se informa quem pagou a conta, mas metemos as fixas no malogrado Ricarte-Dácio.
sábado, 30 de dezembro de 2023
A FESTA ACABOU
serão folhas sonhadas
caindo em vão?
me tornar num espírito —
A festa acabou.
por cima do lótus brilha
a lua perfeita.
um céu claro de verão:
penas de pássaros, flores.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2023
TEMPO DE ERROS
Nesse “Tempo de Erros” (Antígona, Julho de 2023) que foi o do marroquino Muhammad Chukri (1935-2003) as coisas eram ligeiramente diferentes. Depois de haver relatado a infância e a entrada na adolescência em “Pão Seco”, ele prossegue neste livro uma autobiografia que é também um retrato da água bebida em fontes de «água pura-túrbida da miséria». O que agora dá a ver é a chegada ao mundo da literatura de um homem que começou a alfabetizar-se aos vinte anos, rodeado de miséria e de crueldade, vindo «de um clã de chulos, ladrões, contrabandistas e putas».
A prosa de Chukri é seca como um deserto, mas não nos priva dos seus oásis de humanidade e de ternura (os capítulos dedicados à mãe, por exemplo). Em três frases consegue sintetizar-nos o seu universo com a clareza de quem esbofeteia o sono ao leitor: «A pobreza conspurcou-nos os rostos. Não nos deixou nada, só o que permitia sermos identificados como seres humanos» (p. 26). Pela tradução de Hugo Maia apercebemo-nos do desafio que deve ser colocar estas páginas numa língua que não a daquele que viveu o que é relatado, ainda que possa parecer fácil pelo discurso literal sintetizado em frases curtas como cuspidelas de memórias sobrepondo-se umas às outras.
Assistimos à transformação do Autor acompanhada pela transformação de uma realidade social, a de Tânger — «cidade maldita, mas minha, por mais que fujamos um do outro» (p. 38) —, num país que só em 1956 foi declarado independente. Os factos reportam a esses primeiros anos da independência, uma independência nacional representada por metonímia na independência de um homem que corta o cordão umbilical com a família, aprende a ler e a escrever, dedica-se à literatura e redescobre a sua liberdade entre aqueles com quem sempre conviveu: bêbados e prostitutas.
Em capítulos geralmente curtos, reunidos como numa colectânea de contos, fala-nos das amantes, dos loucos com quem se cruzou, do alcoolismo, dos internamentos, das leituras, do «demónio da literatura», da busca de consolo nos livros, das pequenas vitórias, da derrota garantida, dos jogos imundos do amor, da indigência que só sobrevive gerando mais indigência, das ruas, do liceu, da vida no internato, da experiência falhada como professor, dos cheiros, da doença, e fá-lo com a urgência de quem precisa mesmo de nos contar o que está a ser contado. Leia-se este excerto, a páginas 90, para ser mais perceptível como se apresenta já tão longínquo o futuro:
— No teu livro, descreves este tanque, e o que há em seu redor, com muita beleza, apesar de ele não ser belo nem parecer ter sido.
Respondi-lhe com a mesma amabilidade.
— Essa é a missão da arte: embelezar a vida até nas suas formas mais horríveis. Este tanque ficou-me impresso na memória de infância como sendo belo, por isso devo recordá-lo com a mesma impressão, mesmo que fosse um tanque cheio de lama. Além disso, estava afastado daqui, tanto em termos espaciais como temporais, quando o descrevi.»
quinta-feira, 28 de dezembro de 2023
A FERIDA ABERTA
esta ferida aberta
em pleno ar.
esta ferida aberta
em bocas infinitas.
esta ferida aberta
para lá das minhas entranhas.
ditadas pelos canalhas.
Não jogo o mesmo jogo
de quem baralha as cartas.
dos barcos na baía,
e em qualquer um deles
contigo me perderia,
a caminho do horizonte
a tua sorte à minha uniria.
E o que um ao outro dizemos
logo o olvidamos.
digo-te eu sem maldade,
que entre ti e mim está a faltar
um pouco de igualdade.
mil vezes, sempre novas
graças ao canto.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
DOIS POETAS ESPANHÓIS
Ao longo de 150 páginas (edição bilingue), Gamoneda dialoga com vários pintores, escritores, escultores, cineastas, esculpindo uma poesia muito menos ecfrástica do que intimista, no sentido de uma reflexão íntima acerca do sentimento de efemeridade que nos torna conscientes da precariedade da vida. Os autores convocados são uma espécie de interlocutores com quem Gamoneda estabelece uma relação desinteressada nos labirintos do pensamento, dramática faculdade que impele o poeta para a armadilha da contradição. O paradoxo está na busca incessante dessa luz do relâmpago que sempre escapa a quem pretenda fixá-la. Sabemos que assim é. E, no entanto, não desistimos. Insistimos no impossível.
Memória e esquecimento debatem-se na poesia do Prémio Cervantes 2006 enquanto forças oponentes no campo de batalha da meditação, batalha íntima pela conquista de uma putativa verdade derradeira, aquela certeza que não podemos sequer saber se existe, absoluto cuja constância nos libertaria do medo da morte anunciada pela efemeridade de tudo quanto medra. Do combate parece antes resultar a noção de uma impossibilidade do conhecimento, a vida como acidente indefinível, frustração instauradora de um cansaço desenhado em pequenos poemas desarmantes: «Luz. / Há-de ser / a última luz. / Estou / muito cansado. / Não / recordo os meus passos. / Já / cheguei. / Não sei / aonde. / Estou / muito cansado» (p. 35).
Se a morte é tema central na poesia de Gamoneda, o mesmo não se aplica a “Animal Aberto” (Medula, Abril de 2023), antologia seleccionada pelo autor e traduzida por Ana Catarina M. Martins. Aqui se reúnem poemas escritos entre 1977 e 2021, sendo que o poeta se estreou em 1980 com a colectânea intitulada “Árgoma” (1980). Irazoki integrou um grupo de escritores surrealistas, influência detectável, sobretudo, nos seus poemas iniciais, concebidos em versos povoados por imagens alucinadas de proveniência onírica: «Passam dois homens numa bicicleta apodrecida / quando o ar, esse adeus que se respira, / enrola a sua seda no chão» (p. 24). Crítico de música, desloca para o interior dos poemas esse labor com múltiplas referências. Logo no poema inicial “A Música”, deparamos com Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jack Kerouac, o flower power e o Maio de 68.
Podemos dizer que a partir da publicação do livro “Os Homens Intermitentes” (2006), com poemas escritores entre 1999 e 2003, operou-se uma inflexão nesta poesia. O verso deu lugar à prosa, em poemas que se aproximam do relato com memórias da infância, evocações familiares, num tom intimista, por vezes prosaico, noutras ocasiões erótico, mas quase sempre com uma vocação narrativa deveras sedutora. É disso exemplo este brevíssimo “Morte Transitável”: «Todas as manhãs, antes de começar as tarefas do dia, observo durante alguns minutos as flores plantadas à frente da minha porta. Aos pés das dálias, formigas vasculham o tapete de pétalas caídas. Com as derrotas que o tempo impõe, construíram o seu caminho» (p. 46). A componente contemplativa, acompanhada de traços autobiográficos, é porventura a face mais atraente de um poeta que me era inteiramente desconhecido e cuja descoberta levará, por certo, a um aprofundamento que esta inesperada antologia vem estimular.
domingo, 24 de dezembro de 2023
DEUS DE REVÓLVER
O nome de Ricard não será estranho a quem esteja familiarizado com o universo warholiano e toda aquela gente que gravitava em torno do pai da Pop Art, entre os quais, a partir de certa altura, um tal de Jean-Michel Basquiat (1960-1988) que Ricard, enquanto crítico de arte, tornou famoso com o artigo «The Radiant Child», publicado em Dezembro de 1981 no Artforum. Vem nos livros, o de Leonard Emmerling, por exemplo, onde a páginas tantas de lê isto: «Conhecido de Andy Warhol, Ricard tinha representado Warhol num filme de 1966, «The Andy Warhol Story», mas mais tarde escreveu algumas críticas com a missão imposta a si próprio de fazer reviver um mundo artístico que ele acreditava estar moribundo. Ricard colocou o trabalho de Basquiat numa tradição maior da história de arte, fazendo paralelismos com Twombly e Jean Dubuffet».
Acerca desse mundo artístico moribundo leia-se o hino à pintura intitulado «O Juramento de Bandeira», incluído neste “Deus de Revólver” (Barco Bêbado, Setembro de 2023) traduzido por Luís Lima. O prefácio de Raymond Foye (1957) dá-nos conta, no entanto, de uma figura com altos (muito altos) e baixos (do mais baixo que possa imaginar-se), a ponto de, no final da década de 1980, se encontrar «num estado lastimável. Depois de ter ateado fogo ao seu apartamento, andava a dormir no metro, sujo, subnutrido, com problemas de pele» (p. 8). A fotógrafa Rita Barros (Lisboa, 1957), autora das fotografias de capa e contracapa desta edição, capturadas no Lux-Frágil, foi uma das almas que lhe deu a mão.
Mas vamos aos poemas, dispersos desde a década de 1960 por várias revistas e antologias independentes, posteriormente reunidos nos volumes “Rene Ricard 1979-1980” (1979), “God With Revolver: Poems 1979-1982” (1989), “Trusty Sarcophagus Co.” (1990) e “Love Poems” (1999). Diz Raymond Foye, responsável pela sua segunda colectânea, aquela que agora nos chega em versão portuguesa: «Os poemas da Antologia Grega foram o seu modelo primário e ideal, e os versos de “Deus de Revólver” são, como esses, satíricos, elegíacos, homo-eróticos, epigramáticos e, simultaneamente, elegantes e rudes» (p. 11). Subscreveria com a excepção do satírico, adjectivo que me parece inadequado numa poesia essencialmente autobiográfica, por vezes autocrítica à laia de autoflagelação: «Tornei-me tão corrupto» (p. 22).
O que une os dois volumes coligidos neste livro é o elogio de uma juventude eterna, entendida nesse sentido de efervescência das paixões e vontade de transformação, a juventude que se revolta descontinuadamente para continuadamente percorrer os labirintos críticos da experiência, da aventura, do desejo. O tema central, a raiz mais profunda, talvez seja o amor, título da colectânea de 1999, mas um amor carnal, movido pela paixão e atacado por traições e infidelidades. Não é o amor contemplativo dos românticos, é um amor homoerótico assumidamente desviante, campo minado de todas as convenções da lírica amorosa: «Estivemos juntos / três anos / Parecia um bocado / mas nesse / instante / ele disse-me / que eu era / velho / que o meu corpo não / valia nada / e que o meu / caralho era / nojento / eu daria / ainda / inteira / a minha vida / pelo seu» (p. 62). Outro exemplo deveras elucidativo desta disrupção lírica é o pequeno poema intitulado «Carta de Amor»: «Seu malvado filho da puta / Não vês o quão doente / me deixas. Porque não te afastas / de mim odeio-te» (p. 37).
O amor sagrado na poesia de Rene Ricard é a pintura, não os artistas, não a arte e os seus mecanismos comerciais, mas a pintura ela mesma, cantada nesse hino a que já fiz referência e em poemas evocativos de artistas com quem Ricard colaborou, como o da página 48 sobre uma litografia de Robert Hawkins. Estes poemas ligam-se a uma outra face relevante desta poesia, a reiteração de memórias traumáticas, libertadas de um modo mais ou menos expressionista para desacreditação da bondade humana, como essa que surge a páginas 24 e reaparece a páginas 78, no primeiro caso apoiada também pela imagem de uma pintura que servirá agora como remate:
Os Dois Irmãos o mais velho
carrega o mais novo nos
ombros. Agora
Louie e o seu irmão mais velho
estão a tentar matar-me
Nunca tive ninguém para
me proteger
Quando eu tinha 12 anos
O meu irmão mais velho
fez-me chupar
um carro cheio de gajos.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
O QUARTEL OU AS BOCHECHAS DO GENERAL
O confronto nuclear nesta história surge representado nas figuras do mancebo Benjamim da Silva Boavida, «um pobre soldado em prova de sentinela», e do sargento Cipriano Arrobas, alcunha Arromba: «Sim, eu sei que há quem goste disso: poetas, gente inútil, que não faz a mínima ideia de como se desmonta e volta a montar uma simples carabina Heimat» (p. 41). O confronto é entre a pacatez de um camponês do norte que gosta de ouvir rouxinóis e a turbulência de um sargento que prefere a música das armas, é entre as liberdades individuais e os regimes tirânicos, é entre a ineficácia e a eficácia, é entre um rouxinol e um Arromba. O pormenor das alcunhas não é despiciendo numa narrativa que oferece um tratado acerca da arte de nomear. Digamos que tal como uma alcunha se refere a um indivíduo privilegiando a imaginação em detrimento da realidade, também neste romance, que nasceu como peça de teatro, evoluiu para conto e acabou numa história de quase 300 páginas, assim sucede.
Pelo meio há uma revolta em curso que dará em revolução, mas não é a dos cravos nem a dos capitães nem a de Abril nem a da liberdade. Afinal estamos em 1972, data em que anacronicamente já passam na televisão o Big Brother, Acorrentados e um tal Uma Câmara na Sanita. Não vale a pena buscar comparações e paralelismos onde se tira maior riqueza do relatado sem recurso a referências ou alusões. O divertimento está, precisamente, na inverosimilhança do que nos é contado para problematização, seja essa a vontade do leitor, de um conflito escondido por detrás das aparências: o da bota esquerda que aperta o pé da sentinela como o dever de obediência nos aperta a liberdade individual, essa que está sempre a ser testada por uma consciência que não se compadece com a mera observância da lei dos burocratas castrados pela solidariedade corporativa.
quinta-feira, 21 de dezembro de 2023
DOIS POEMAS DE MARIANO PEYROU
terça-feira, 19 de dezembro de 2023
A BARRIGA NO AR
Inédito até 1953, “Lifting Belly” apareceu finalmente no volume “Bee Time Vine and Other Pieces (1913 to 1927)”, reunião de composições primitivas que revelam já uma Autora no pleno domínio de estratégias com o propósito de minar as convenções da poesia lírica celebrando a liberdade de um erotismo cantado nas suas múltiplas possibilidades: «A barriga no ar é uma carícia permanente. / A barriga no ar está aborrecida. / Não me digas. / Barriga no ar agora. / Vaca. / A barriga no ar é exata. / Vim-me muitas vezes com esta coisa. / A barriga no ar é necessariamente aventureira» (p. 54). Dividido em três partes, o poema apresenta um léxico bastante acessível, apesar do discurso tender para uma confusão de sentidos que coloca as interlocutoras do poema num plano intimista, aparentemente doméstico, falando a esmo sobre as suas vidas e o mundo. «“Lifting Belly” é o casal, mas também a linguagem e o acto de compor o texto que virá a definir o casal», argumenta a poeta Christine Scanlon no ensaio “Lifting Belly: The Language of (In)Visibility” (2013).
Quem conheça minimamente a biografia do casal Stein-Toklas facilmente identificará algumas evocações, os lugares mencionados, podendo assim descodificar um pouco do que se apresenta como peças dispersas de um puzzle. O diálogo mantido ao longo do poema oferece dados com os quais o leitor é chamado a jogar um jogo que é também o da tentativa de compressão dessa estranheza que repousa sobre o próprio título da composição. Quem fala quando fala? «Diz-me como a fodes. A quem. A mulher judia. Como a fodes. Ela é minha esposa» (p. 56). As alterações constantes de sujeito podem dificultar a vida a quem esteja mais preocupado com decifrações do que com o gozo de um texto que, ao desviar-se da norma, fala-nos igualmente na sua forma de um desejo à época considerado desviante. No fundo, talvez tudo seja mais simples do que aparenta. Afinal, «Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa» (p. 50). E “A Barriga no Ar”, nas suas variadas e diversas acepções, jamais deixará de ser aquilo que é plenamente sob o manto da linguagem: “Lifting Belly”.
UM POEMA DE ANTÓNIO FERRA
que nasceu a 19 de Dezembro de 1947 e gosta de rir.
sábado, 16 de dezembro de 2023
O TEMPO DA VIDA QUOTIDIANA
terça-feira, 12 de dezembro de 2023
ANTOLOGIA DE POESIA PORTUGUESA ERÓTICA E SATÍRICA
De Fernão da Silveira a Dom Rodrigo de Castro que beijou uma dama, e ela meteu-lhe a língua na boca
a sua língua com a vossa,
dizei-nos que é mais grossa,
se a vossa, se a sua.
até onde foi metida,
e qual era a mais comprida
mais solta no remexer.
Se veio tal falcatrua
por sua parte ou por vossa,
nos dizei qual é mais grossa,
se a vossa, se a sua.
achei a sua que a minha
porque toda a campainha
me deixou escalavrada.
E fez-se tão grande brigas
nos queixais,
que mos não fizera tais
um grande molho de urtigas.
não metais assim de ponta
a língua, que tanto monta
como ós da boca em terra,
fazei de conta».
Dizia: «Mano deixai-me
Enquanto tenho lugar».
E eu bradava: «Soltai-me,
deixai-me resfolegar,
que me quereis afogar.»
sábado, 9 de dezembro de 2023
DOIS POEMAS DE LUCI ROMERO
instalam-se na planície, profanando
o estado de sítio.
Acumulam fortunas
cultivando a fera que repousa na selva,
por outros é agora queimada a terra morta.
os gritos soltos que protegem o arrojo
do desconhecido — esse poema da exploração —.
estão envoltos em névoa. A planície, pedra fria
que não permite que lhe toquem nas costas.
a fera
que protege a casa, a que restaura a ordem,
a que beija os pés aos imperadores
de inverno,
será berço e vento,
esqueleto e guarida,
voz e morte.
serão fronteira móvel, mito em viagem
e multidão
sedenta, que virá a esvaziar as fontes,
a encher os sulcos e a limpar detritos.
desconhecem os verdadeiros limites da fronteira.
como era — como modo
de enobrecer a história —.
Onde se refugiaram os heróis
da nossa infância?
— Migram de estado em estado. Na verdade,
escondem-se debaixo do tapete.
pensar onde estivemos, ainda que
tudo seja parte de um acordo. Algo
acordado nos nossos pesadelos.
— Não existe limpeza no futuro, porque
não a há na história que o alimenta.
uma parte daquele animal selvagem.
quinta-feira, 30 de novembro de 2023
UM POEMA DE ALBERTO PIMENTA
terça-feira, 21 de novembro de 2023
TRÊS POEMAS DE OLALLA CASTRO
ergueram os copos no ar
com o júbilo de todos os banquetes.
Celebraram o fim da contenda,
os árduos frutos do saque
— mulheres, gado, vinho, tudo por igual abundava —
Eram homens de bem:
antes da comida e depois do sangue,
rezavam.
Em festa, na oração, na batalha,
a sua língua era a mesma gritaria.
ao falar de batalhas, vitórias, conquistas,
domínios, impérios, colónias,
submissões, execuções, purgas.
Brilha, aponta o inimigo
com um sorriso rasgado
e faz soar a flauta dos nomes,
a sua doce música, já limpa de sangue.
que nunca se volta para si mesmo.
as mortes anteriores,
forma um único corpo
que cresce a cada vez.
Matriosca de olhos abertos,
traz um pranto velho no ventre
e com o de agora se mistura,
se mistura, se mistura.
Os quartos de hospital confundem-se
como se confundem as conversas,
as mãos, os conta-gotas;
todas as vezes que já disseste adeus.
terça-feira, 31 de outubro de 2023
WORD PLAY
Sal Nunkachov, in "Word Play", C'est mon dada, collection for visual poetry, experimental texts and works influenced by Dada and Fluxus, Redfoxpress, Ireland, October 2023.
UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS
domingo, 29 de outubro de 2023
UM POEMA DE JOSÉ ANJOS E UMA ILUSTRAÇÃO DE MANTRASTE


















