segunda-feira, 13 de julho de 2026
COME PALHA
domingo, 12 de julho de 2026
NARCISISMO PÓS-MODERNO
Esta noite sonhei que estava a fazer um vídeo de mim próprio enquanto tirava uma selfie a ver-me a um espelho reflectido nas águas paradas de um rio. Acordei com uma fortíssima sensação de enjoo.
sábado, 11 de julho de 2026
DESCOBERTA
terça-feira, 7 de julho de 2026
FUNERAL
Esta noite sonhei que estava num funeral. Ao contrário do costume, fui espreitar as trombas do morto. Digo trombas por ter sido tal como o sonhei, o defunto fora mesmo trombudo em vida, aquele tipo de gente que atravessa o paraíso apontando defeitos à perfeição. Para meu espanto, o trombudo estava sorridente dentro do caixão. E os olhos dele falavam. Finalmente a rir em morto, sozinho, encerrado no interior mais fundo de si mesmo, sem nada nem ninguém que lhe lamentasse a partida, para ali abandonado como animal na berma da estrada, só comigo por perto para lhe espreitar as trombas, o cadáver dizia: aqui é que se está bem. Repetia isto incessantemente: aqui é que se está bem, aqui é que se está bem, aqui é que se está bem. Respondi-lhe “bom proveito” e voltei-lhe as costas, isto é, acordei.
domingo, 28 de junho de 2026
AGÊNCIA FUNERÁRIA
Esta noite sonhei que tinha sido contratado para fazer um anúncio da Agência Funerária Tarzan. Era assim: um velório, sala vazia, o morto dentro do caixão. De respente, o morto erguia o tronco e fazia o grito do Tarzan: "Aaah -eeh- aaah- eeh- aaah" (pedi ao ChatGPT ajuda para reproduzir isto). Começavam a aparecer animais de todo o lado. Voz-off: "Com agência funerária Tarzan ninguém fica esquecido". Depois morri, isto é, acordei.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
CORRIDA DE GALGOS
segunda-feira, 15 de junho de 2026
CONGROSSOS
quinta-feira, 4 de junho de 2026
ESPECTÁCULO
domingo, 24 de maio de 2026
GALETO
bate asas no meu peito
Com toldos nos olhos
levanta voo o desejo
Do lado direito rodopiam
pernas escancaradas
sob sedas serpenteadas
Um croquete preliminar
e fico-me pela bifana
quinta-feira, 14 de maio de 2026
RAZÕES QUE A RAZÃO DESCONHECE
quarta-feira, 13 de maio de 2026
PESSOBOTS
A noite passada sonhei que tive uma eurovisão. Numa azinheira plantada na Quinta da Atalaia, apareceu-me Nossa Senhora. Só que tinha a cara da Zita Seabra. A princípio senti a coisa como um pesadelo, isto é, na agitação sonolenta o sonho revolucionário formou-se-me sob essa forma aflitiva, mas logo a seguir veio a pacificação: Nossa Senhora comia um corneto de framboesas colhidas nas estufas da Costa Vicentina por imigrantes nepaleses vergastados por gêèneérres ao serviço de patrões de bem. Portanto, era um sonho. Bichas intermináveis de peregrinos atravessavam a pé as pontes Salazar que Abril abriu e a vau o Tejo que Ormuz fechou, neste caso apoiados em andas gigantescas made in China. O mais estranho é que todos os peregrinos vinham da Soeiro Pereira Gomes, eram uma espécie de exército de robots como aqueles nos filmes de ficção científica, uniformizados com coletes reflectores que encandeavam veículos em trânsito. Estávamos no século XXIV, Zita era Nossa Senhora, e a ela obravam os peregrinos. Também oravam, em toada cante alentejano, mas com temperos de Cantão, dizendo coisas do tipo: Avé Zita que estais na Atalaia, santificada seja a vossa alfaia, etc. Já não havia jornais nem televisões, mas cada pessoa - passara a dizer-se pessobot - recebia instantâneos noticiosos através de um sistema de conexão WiFi dos cérebros individuais com o PC central. Não se falava de outra coisa senão das aparições de Santa Zita na Quinta da Atalaia, cujo nome, muito provavelmente, passaria a ser, a breve trecho, Quinta da Azinheira. Acordei com Nala, a cadela, a lamber-me a ponta do nariz e quase posso garantir que a ouvi dizer-me: calma dono, calma, leva-me à rua que isso passa.
sábado, 2 de maio de 2026
RAÇÃO
O Dr. Ventoinha alimenta o bicho covilhão com ração à base de promessas e expectativas, um granulado de elogios fúnebres composto por consideráveis doses de tanga. Ingénuo, mas não tanto, o bicho covilhão papa e digere com sofrimento, distribuindo pelas três cabeças a intensidade da frustração. A cabeça feminina come e cala, vaidosa que é. A trans, exibicionista, come a caga para todos verem. A cabeça macho mastiga com amargura e não digere, regurgita para depois voltar a comer até conseguir engolir em seco.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
FLDC
quinta-feira, 30 de abril de 2026
FADO MIADO
terça-feira, 28 de abril de 2026
DR. VENTOINHA E O BICHO COVILHÃO
O Dr. Ventoinha detestava bichos de sete cabeças, pelo que adoptou um com três. O bicho Covilhão só lhe trazia vantagens. Apesar das três cabeças, e ainda que não pensassem exactamente da mesma maneira, isto é, que não fizessem clara e inequivocamente as mesmas leituras sobre o mesmo objecto de análise, estavam sempre de acordo umas com as outras, mormente com a do Dr. Ventoinha. Se uma dizia mata, a outra dizia esfola, ao que a terceira sublinhava arrasa. Se esta dizia fantástico, aquela acrescentava magnífico e a terceira rematava genial. Cada cabeça tinha um género, as das pontas masculino e feminino, a do meio era trans. Também esta característica particular do bicho de estimação agradava deveras ao Dr. Ventoinha, que podia passar a mão por cada cabeça conforme os apetites lho ordenavam. O Dr. Ventoinha era de apetites diversos, distintos, aleatórios, contingentes, expelia o ar em múltiplas direcções, a sua cabeça rodava da esquerda para a direita e da direita para a esquerda enquanto predicava sobre os males do mundo e os vícios dos outros, sempre satisfeitíssimo consigo mesmo e com as virtudes que o bicho Covilhão não lhe negava, antes anuía reforçando de uma ponta à outra: de facto, sem dúvida, precisamente. O Dr. Ventoinha adorava o seu bicho de estimação. Tinha o Dr. Ventoinha, no entanto, esta singularidade de espalhar brasas por onde andava, como quem semeia perdigotos enquanto fala, predica, prelecta, se bem que não fossem brasas o que ele espalhava, eram mesmo excrementos que o seu bicho de estimação evacuava depois de haver ingerido uma fartura de teses e de teorias do Dr. Ventoinha. O bicho Covilhão alimentava-se desses teoremas, dessas estratégias, dos ardis, das tácticas que o penetravam pelas seis orelhas e três bocas, faziam o percurso normal do sistema digestivo e eram expelidas sob a forma de gás ou outra matéria mais consistente cuja potência ventiladora do Dr. Ventoinha se encarregava posteriormente de disseminar. Nada disto era com ele, e, de facto, sem dúvida, precisamente não era com ele. O incólume Dr. Ventoinha simplesmente soprava, era da sua natural condição soprar, o que se lhe punha à frente do sopro não era da sua responsabilidade. Nunca é. Ninguém pode acusar o vento de trovar desgraças, pois isso seria condenar o mensageiro pela notícia que transporta. E o Dr. Ventoinha era apenas um mensageiro, e o seu bicho Covilhão era apenas um animal de estimação com três cabeças. E esta história tem de terminar aqui, não vá aparecer por aí o Dr. Ventoinha com o bicho Covilhão pela trela.
sábado, 25 de abril de 2026
VESTIDOS
Quitéria comenta os vestidos. O da Carla: com um vestido preto nunca me comprometo. O da Margarida: de vermelho e de cravo, mando às favas o pato-bravo.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
MURMÚRIO CICIANTE
quarta-feira, 15 de abril de 2026
INSEMINADOR
De palito na boca, atravessa a cena a ranger os dentes na direcção dos bastidores. Tivesse sido eu a criar o mundo, palestrou, onde está um círculo estaria um triângulo, onde está um quadrado estaria um rectângulo, onde está um hexágono estaria um paralelograma. E assim sucessivamente. Atentos como discípulos a ouvir mestres, secretários a concordar com ministros, acólitos persignados em bicha para o beija-mão, todos os vigilantes emprenhavam pelos ouvidos as teses e as teorias do palitado palestrante. Depois, seguiam eles mesmos pelos corredores a cochichar por cima dos ombros, não fossem as paredes ouvir comentários inconvenientes, recolhendo-se a cozinhar esquemas e estratégias para disseminarem a palavra do inseminador de tímpanos.