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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

JEREZ DE LA FRONTERA

 


Mais do que o Alcazar de Jerez, mais do que as bodegas e homenagens ao Tio Pepe, mais do que a catedral e o belíssimo Zurbarán exposto numa das suas paredes, mais do que as praças e Lola Flores e o flamenco, atraiu-me a atenção um papel tosco, escrito à mão, colado na montra da velha Librería de 2.ª Mano Planeta ZOCAr. Nesse papel estava escrito o seguinte: «Todas las personas tenemos algo que contar.» Talvez venha a ser epígrafe do meu próximo livro de contos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

NERJA

 


PLAYA BURRIANA
 
No Verão Azul de 1982
tinha eu 8 anos
Pancho García correu pela praia
ao som de uma guitarra flamenca
que chorava a morte de Chanquete
 
Não me recordava das palmeiras
nem das ruas percorridas por cafés
restaurantes e bares
que hoje invadem a praia aos gritos
 
Era tudo menos humano
isto é, menos desenhado à medida dos homens
e por isso a tristeza
tinha outro encanto nos planos e sequências
filmados junto à orla marítima
 
Agora os telemóveis
registam a multidão poluente
numa alegria sem chama
a despeito do mar
que continua fiel às marés
e capaz de dizer não
com ondas revoltas de raiva
 
O tempo é isto
barcos atracados nas docas turísticas
e pescadores à volta da grelha
nos restaurantes que saciam a fome aos actores
de uma série sem terra à vista.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

EL ACEBUCHAL

 


 

"El Acebuchal nasceu em meados do século XVII, embora tenham sido encontrados vestígios da cultura ibérica de mil anos antes de Cristo assim como moedas romanas e árabes, o que indica ter havido presença humana no lugar muito antes do século XVII. A vida em El Acebuchal girava em torno da pastorícia, produção de cal e carvão e do transporte de mercadorias que iam e vinham com povos próximos das povoações de Granada. Desde Torrox, Nerja e Frigiliana, os burros carregavam fruta, peixe e verduras até Fornes e Jallena, onde os arrieiros os vendiam ou trocavam por farinha. El Acebuchal era ponto de encontro e pousada onde os animais descansavam enquanto os homens comiam alguma coisa, bebiam um copo de anis e falavam sobre a viagem. El Acebuchal foi abandonado em 1949 devido às lutas que durante a Guerra Civil opunham a gente da terra e a resistência republicana à Guarda Civil no controle estratégico da região. Os combates e represálias sofridos pelos habitantes do lugar fizeram com que uns fossem deslocados para Cómpeta e outros para Frigiliana, ainda que todos tenham levado El Acebuchal no coração, sobretudo as crianças que viram como as suas famílias foram obrigadas a abandonar o lugar que havia sido lar e sítio de brincadeiras. Cada família refez a vida o melhor que pôde, mas regressavam de vez em quando e contemplavam com tristeza como a povoação se ia transformando num monte de ruínas, numa terra fantasma. Aquelas crianças que um dia partiram em lágrimas sonhavam com o regresso para de novo verem a povoação como nos seus melhores dias. Graças aos vizinhos e ao Município de Cómpeta, no ano de 1998 a primeira casa foi reabilitada e em 2003 chegou a rede eléctrica à aldeia. No ano de 2005, as ruas foram arranjadas e a 25 do mesmo ano El Acebuchal renasceu com a primeira missa 50 anos depois."

terça-feira, 19 de agosto de 2025

GRANADA, ALHAMBRA

 


23 anos depois, regresso ao Alhambra com estadia em Granada. A mesma sensação de tempo parado, os azulejos que imitam as cores das especiarias, ruas cheias de gente porventura equivocada nos mapas. Há razões para isso, os mercados, os bazares, as lojas, a fauna, os cheiros, as vozes e os reflexos que remetem para o norte de África, a presença árabe numa península rendida ao catolicismo de Roma depois de haver combatido o imperialismo romano. No Alhambra, quedo mais tempo do que o normal a olhar uma edição em coro do Dalā’il al-Jairāt, recolha de litanias de paz e de bendições sobre o Profeta Maomé. Artigo de museu, ali, onde uma cultura viva vem sendo cada vez mais reduzida ao exotismo dos animais selvagens exibidos num zoológico.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

FUENTE VAQUEROS

 


(...)
 
Quando se abre pela manhã
a rosa como sangue está;
o orvalho não a toca
com medo de se queimar.
Aberta ao meio-dia
é dura como um coral,
o sol assoma aos vidros
para vê-la brilhar.
Quando nos ramos começam
os pássaros a cantar
e a tarde desmaia
nas violetas do mar,
põe-se branca, branco
de uma face de sal;
e quando a noite toca
o suave corno de metal
e as estrelas avançam
enquanto os ares se vão,
na raia da escuridão
começa a desfolhar.

 
Federico García Lorca , in Doña Rosita la Soltera o el linguaje de las flores, Huerta de San Vicente, Editorial Comares, Fundación Federico García Lorca, 1998. Versão de HMBF.


IZNÁJAR

 

«No ano de 1010, Habus ben Maksan estabeleceu a capital do seu reino taifa nesta fortaleza de Hins Ashar, que no ano de 1025 foi mudada para a cidade de Granada». Assim se conta num pequeno painel de azulejos à entrada de Iznájar, pueblo blanco banhado pelo rio Genil na província de Córdoba. Não são apenas vasos azuis a adornar as paredes, a poesia lê-se um pouco por todo o lado. Aqui Guillermo de Torre, acolá o busto de Ibn al-Jatib, além Antonio Quintana, logo a seguir Rafael Alberti, etc, etc, etc… Bustos, azulejos, vinis, lonas, exibem versos no espaço público com uma naturalidade de fazer envergonhar qualquer parque de poetas. É que ali os versos andam pelas ruas devolvidos à sua natureza, são parte integrante da paisagem, não são aberrações num gueto nem gorilas enjaulados no zoológico das feiras de vaidades.

domingo, 17 de agosto de 2025

SETENIL DE LAS BODEGAS


 

Setenil de las Bodegas sussúrrame al oido: para onde quer que vás, lá estão eles. Estão na língua, na comida, nos nomes das localidades, nos alcáçares, nas pedras, na poesia, no canto, na música, na água que corre, nos banhos. Lá estão eles, esses nossos antepassados de cultura outra que é também a nossa. Com que eles guerreámos, aprendemos, deles herdámos mais do que queremos hoje reconhecer. Os árabes. Lá estão eles, por todo o lado. Onde os vejo eu aqui?

ANA AMAYA MOLINA

 


No caminho para os Baños Árabes, em Ronda, dou com Ana Amaya Molina, la Reina de los gitanos. Uma coisa é certa, nenhum pulha do Chega algum dia será assim lembrado.

sábado, 16 de agosto de 2025

CUEVA DEL GATO

 

Em busca da Cueva del Gato, na Sierra de Grazalema, enganados pelo GPS e cansados das pernas. Ao alto, pássaros de porte considerável observam-nos em voo circular. Águias? Abutres? Mais mortos do que vivos, queira Deus que não sejam abutres. Há paraísos que merecem o esforço, ainda que não estejamos como Adão e Eva. Nestas circunstâncias, o pior que há de sermos turistas é não podermos reclamar do turismo. Ainda assim, só se ouvem por ali vozes latinas em toada de contentamento. Valeu a pena por ter refrescado o corpo, dispensável por não refrescar a alma. Que coisa essa de querermos só para nós o que é bom?!

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

ALCÁCERES REAIS DE SEVILHA

 


Uma magnífica peça exposta nos Alcáceres Reais de Sevilha, edifício complexo de arquitectura essencialmente árabe. O que há de especial neste simples objecto de cerâmica é a confluência de elementos provenientes do Islão, do gótico europeu e da Itália renascentista. Esta fusão de culturas e de tradições é a maior riqueza da Península Ibérica, por de mais evidente em Sevilha numa Catedral paredes meias com o Alcácer em torno do qual encontramos a judiaria com epígrafe de Luís Cernuda. Podia ser tudo mais descomplicado se ainda fôssemos barro. Se calhar até somos, só que raramente nos apercebemos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

LA DESPENSA DE ECOLOP

 


Vindos das termas Alange, aportámos em Castilleja de la Cuesta sob calor imenso. A cadela ofegava, nós transpirávamos, o estômago reclamava tanto quanto a boca seca. Calhou pararmos em La Despensa de Ecolop, lugar de excelente preço e melhor acolhimento. Aconteceu-me uma vez, no Redondo, ter o empregado de um restaurante prontamente providenciado lugar ao fresco para recolhimento nosso e, então, do Basquiat. Agora ali, com a Nala, onde até estava afixada uma placa proibindo a entrada a cães. Há nestes gestos o que de melhor o ser humano tem, algo que não tem preço nem nome que o descreva. É a simplicidade dos braços abertos e das mãos estendidas, sem palavras proferidas, pura hospitalidade.


quarta-feira, 13 de agosto de 2025

TEATRO ROMANO DE MÉRIDA

 


Informam as legendas que o Imperador Augusto, sob cujo governo foi construído o teatro romano de Mérida, terá promovido a representação dos grandes clássicos gregos. Ovídio dizia: «Ao teatro, vai-se para ver e ser visto, pouco importam os versos que se estão a representar.» Ao que parece, os romanos não apreciavam Sófocles, Eurípedes, Ésquilo… Preferiam mímica e pantomima, dança e música, putas e vinho verde, legado deixado a uma posteridade ainda hoje entretida a pão e circo. Representadas durante o dia, gratuitas para quem quisesse assistir, as peças não teriam o mesmo sucesso que os jogos com gladiadores ali ao lado no Anfiteatro de que restam ruínas, pedras, um chão seco  que já não cheira a sangue. Apenas pó.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

PLAZA MAYOR DE TRUJILLO

 


Na Plaza Mayor de Trujillo há uma estátua de Francisco Pizarro, que ali nasceu bastardo e foi abandonado nas escadarias de uma igreja. Monta um cavalo em pose imponente, à laia do monumento equestre de Cosimo I em Florença sobre o qual escreveu Onfray. Mas aqui é de Pascal Quignard e dos seus “Desarçonados” que me lembro. Esta estátua, de Charles Cary Rumsey, data de 1927, foi apresentada em Paris e posteriormente colocada junto à Igreja de São Martinho. Há mais uma em Buffalo e outra em Lima. Pizarro lutou contra os incas, conquistou o Peru, fundou Lima. Diz-se que foi assassinado à traição por gente fiel a Diego de Almagro, filho de Diego de Almagro, o Velho, com uma indígena. O Velho combateu ao lado de Pizarro e fundou no Peru uma cidade precisamente chamada Trujillo. Pormenores que as estátuas não contam, traições, vinganças, frustrações, quedas.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

CASA MUSEU YUSUF AL BURCH

 


Provérbio árabe numa das janelas da casa museu Yusuf al Burch, em Cáceres:
 
não digas tudo o que sabes
não faças tudo o que podes
não acredites em tudo o que ouves
não gaste tudo o que tens
 
porque:
aquele que diz tudo o que sabe
aquele que faz tudo o que pode
aquele que acredita em tudo o que ouve
aquele que gasta tudo o que tem
 
muitas vezes:
diz o que não convém
faz o que não deve
julga o que não vê
gasta o que não pode.


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

VERDELHOS

 


Num café à entrada de Verdelhos, junto à ponte desta pequena mas bela povoação atravessada por um canal onde no Verão os emigrantes, de visita à terra, se refrescam do calor intenso, fomos servidos por um casal ali aterrado vindos de Sintra. Ela, chamemos-lhe a Rapariga de Verdelhos, era magra e frágil, tinha olheiras cavadas que faziam lembrar noites bem passadas e falava de um modo simpático, aparentemente débil, com sofisticação incomum naquelas bandas. Gostava de teatro, mas não sabia se poderia assistir ao espectáculo por causa do trabalho. O cenário era belo, mas o público grosseiro falava alto, aproximou-.se de cerveja na mão, alguns claramente embriagados, outros e outras replicando num francês com sotaque das beiras, tudo algo abrutalhado e a destempo. Faltou ali a sensibilidade da Rapariga de Verdelhos, que, na verdade, seria de Sintra, e da qual me despedi com um olhar furtivo ao vê-la sentada junto ao rio a contemplar as águas que seguiam seu rumo. Adivinho a tragédia por detrás daqueles olhos, mas evitarei especulações. Não sei porquê nem de onde vem esta tendência para me apaixonar pela tristeza. Se a tristeza dela tivesse assistido à representação, por certo tudo teria sido muito mais alegre.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

ERADA

 
Montado o palco no adro da igreja, a escadaria serviu de bancada ao público que foi chegando por todas as artérias. Um de cada lado, dois gigantescos santos de pedra assistiram ao espectáculo. No final, o público fugiu do chamamento à dança. Mas as estátuas pareciam bater palmas.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

COUTADA

 


Vi o índio chegar de tractor. Estacionado nas traseiras da igreja, limpava os bancos de jardim salpicados de caca do passaredo. Meti conversa. Sabe de quem é o Dacia estacionado ao pé da junta? Demorou a responder, sem largar o cigarro no canto da boca. Dacia? Sim. De que cor? Vermelho. E a gama? Sandero. Não sei. Achegado lentamente ao problema, o índio da Coutada sacou do telemóvel como que de uma flecha e disparou na direcção do Presidente da Junta: isto aqui já há sarilho, os homens querem trabalhar e não os deixam. Do veículo ninguém sabia, seria do emigrante de além, do brasileiro de aquém, de quem seria? Isto aqui agora é tudo brasileiros, reclamava o índio da Coutada enquanto afinava a pontaria contra o senhor presidente. Este, alterado, sugeria que assim e assado. Aquele, na sua impecável calmaria indígena, prontificava-se a prontificar. E por ali quedámos breves minutos num para cá e para lá de o que é que vamos fazer. O teatro estava montado, a peça era aquela. E pronto. Um carro mal estacionado impediu que se fizesse Peter Weiss. O povo de Coutada não levantou ondas que se notassem. Excepto o índio, que para dentro e para fora prosseguiu no redemoinho de queixas: o homem tem razão, era isolar isto tudo não é com um, é com seis dias de antecedência. Ele é que sabia.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

SÃO JORGE DA BEIRA

 


No princípio era o átrio torneado de tendas cerradas, palco erguido ao fundo e um balcão de serviço aos refrescos. O que se aprende nesta escola? Depois começaram a chegar as vendedeiras, as tendas ficaram a descoberto e havia bordados, cristais, vinhos e doces, artesanatos, sacos para o pão, bolsas com padrões florais. Ateou-se o lume, fizeram-se as brasas, chegou Felismina em ardências inconsumíveis. Fez-se música e o povo, atrelado à festa, foi aportando às mãos cheias até não sobrar filhós. Rimou bem com queijo de cabra e aguardente de Senhor Jorge, outro com ligações ao Oeste por via de filha migrada. Aquilo ali era outra coisa, o teatro seria sempre remate, jamais epígrafe, de uma função em que estrelou também o coro de braguesas e cavaquinhos e violas beiroas e outras cordas que tais. Um fotografo desajeitado, um DJ azeiteira em salto agulha sobre calçada à portuguesa, tudo dignificante de um povo acolhedor que resiste isoladamente sobre os buracos fundos das minas. Fui feliz naquela terra, entretanto rodeada de fogo.

terça-feira, 29 de julho de 2025

CORTES DO MEIO

 


Pedras d' água
atapetadas de luz
à cabeleira d' ervas
não chega a chama
que traz a cinza
à corrente.
 
Refrescada a carne
seja também de luz
a alma qu' é pedra
qu' é água
qu' é erva
e cinza que nos traduz.


sábado, 26 de julho de 2025

CASTELO BRANCO

 


Há uma zona de lazer em Castelo Branco que se chama Monte do Índio. Foi lá que me sentei a descansar um pouco de trabalhos à esturra, sob 40º de calor. Um homem aproximou-se. Era velho, vestia uma blusa de alças, calçava chinelos que lhe salientavam as garras dos pés em camarão e usava uns boxers largos que escancararam a tomatada quando se sentou. Queria conversar, sob os óculos escuros de velho solitário. Primeiro, o que estava eu e os meus por ali a fazer? Depois, o rol de doenças, privações, maleitas, receitas, contra-indicações, heranças da guerra no Ultramar e coisas assim. Felizmente, não cheirava mal. Também não cheirava bem. Simplesmente não cheirava. Pelo que fui ouvindo como uma espécie de confidente momentâneo. A certa altura, reparei que tinha um traço geometricamente desenhado no braço direito. Talvez reparando no que eu tinha reparado, apressou-se a esclarecer-me: é para medir a tensão. Assim, sei o lugar exacto onde devo colocar o aparelho. E nisto levantei-me, estendi-lhe a mão, desejei-lhe as melhores e regressei ao trabalho.