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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

QUANDO SE AFASTA A IDEIA DO EU




Do que vai à frente
e do que segue atrás,
do que dura e do que perece,
me desfaço,
liberto fico
do sopro forte,
do vento suave,
e quieto, apoiado nas mãos
com as costas dobradas até acima,
apoio no solo,
coração
renunciando armas, faltas,
orações com que debelar as faltas,
brando organismo, entidade
que ignora como dizer: «Eu sou»
e na doença e na morte,
nascimento e velhice,
já não encontrará lugar,
como não o encontraria o tigre
para meter as garras,
o rinoceronte o corno,
a espada seu gume.

Antes fazia, agora compreendo.

Alberto Girri, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 118.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O PASCAL QUE EXISTE EM TI




Não se deixa estar
numa rede, mexendo-se
nesse supremo abandono que é
suprema atenção, invocação
à vertigem,
e mexendo-se
com a notícia de que Jesus
permanecerá na agonia
até ao fim do mundo,
e que entretanto
impõe-se que ninguém feche os olhos.

Ele prefere
— já que sua vigília disporá
de todo o tempo do mundo —
que a espera, prazo indicado,
não redunde em escalafrios
e resignação, passiva
qualificação da vida, a baixar e subir
através de orações e incertezas,
sendo antes actividade de minudências
elevadas a cumeeiras, mudando-se
por quartos e pátios, pela repetição,
rotina, concentrada e calmante,
de varrer, regar, cozinhar,
murmurar com passos arrastados
o próprio nome;
e prefere, enquanto projecto,
reclamar o que nunca conseguiu,
que o considerem
o louco da família, o extravagante
obcecado por portas
(espaço que os mortos
da casa atravessam,
acesso dos justos),
disseminando, sagaz,
suas chocantes conclusões:
as portas
não têm que ser tocadas, serão apenas
portas enquanto permanecerem fechadas,
caso contrário não repararemos nelas como portas,
não existirão portas, o abismo revelar-se-á
aguardando do outro lado do umbral.

Alberto Girri, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 106-107.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

OFÍCIO DE AMOR





Da intimidade que agora nos assusta
Surde o passado,
Surde a nostalgia esplêndida,
Calado exercício do ocaso;
Da valoração de Deus em súplica,
Para que não estejamos um fora do outro,
Surdirá a ameaça,
Ciosa corrosão dos gestos
Interrompendo nosso abraço.

Ó manipulados sentimentos!
Mais e melhor serei eu mesmo
Quando guardar da tua boca a ideia
E ainda que não passe do existir à presença
Igualmente me verás diante da tua boca
Vigiando a mudança dos dias
Até que, sendo como eu relíquia,
Me ajudes a evitar esta agonia.

Alberto Girri, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 105.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

ALBERTO GIRRI



TESTEMUNHA

Com o rosto enlodado, num rasgo de fúria ciosa
lavro a acta da minha pele.
Esta minha pele, fantasmal e tensa,
que envelhece sozinha.
Há respostas, condenações, há nascimentos
e marcas de unhas que significam qualquer coisa.
Mas nem isso, nem o cálice elevado pela
morte e a morte do homem pelo homem,
anunciam paz.
Como se pode ver,
no hospital terreno as normas são cruéis
e a mais cruel, a mais extensa,
manda converter o grito em injúria desolada.
Contudo, e sem os subterfúgios usuais
confesso que estou morto. Feliz Senhor!
Pois me tomas por um doente evangélico,
um paralítico,
cujo sangue indeciso derramado pelo caminho
é um olho indeciso e fumegante.
Eu nada substituí,
pois em rigor a minha permanência foi obscura.
Logo,
quando passo e queda macularam realmente minha pele,
não questionei se o beijo infalível
foi de um anjo vingativo ou de um simples louco.

Fiz questão de dizer
que o ocidente está doente de matéria e ironia.


Alberto Girri nasceu e morreu em Buenos Aires. Estudou na Faculdade de Filosofia e Letras, onde conheceu várias personalidades dos movimentos literários da sua época. Colaborou com a revista Sur, de Victoria Ocampo, onde também publicou Jorge Luis Borges. Embrião da editora com o mesmo nome, que acabaria por revelar Julio Cortázar. Mas Girri era figura discreta, não encaixava em nenhum movimento, optou por uma existência isolada traduzindo poetas de língua inglesa tais como William Carlos Williams, T. S. Eliot e Robert Lowell. O seu primeiro livro foi Playa Sola (1946). O próprio definiu a sua poesia como uma investigação acerca da realidade, na linha do que fizeram alguns poetas norte-americanos por ele traduzidos. Reflexivos, os seus poemas afastam-se de um lirismo subjectivo centrado nas emoções do sujeito poético. Preferem pensar o mundo e a realidade, assumindo claramente uma inclinação para o filosófico. Daí que frequentemente surja apelidado de "intelectual" e "frio". O poema acima transcrito é uma versão de HMBF, a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 101-102.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

UM POEMA DE ALBERTO GIRRI



O POEMA ENQUANTO IDEIA DE POESIA

   Que a finalidade
seja provocar o sentimento
das palavras,
      e alcançar
o desafio da expressão,
perseguir temas
que se ajustem ao sentimento,
afundar-se nos temas
até à emoção adequada,
       está provado,
e tanto, experimentado e testado,
como não está
que nesses trânsitos
a tendência mãe seja
por onde vai a inspiração,
       «se fria ou quente»,
e não está
que tenhamos de seguir Homero
entre as Musas, rogando que o ajudem,
        e Platão
saudando belos versos
mais que medíocres mas iluminados
sagazes e hábeis exclusivamente
para proveito de suas próprias forças,
        e Dante, reclamando
a intervenção de deuses
porventura sem neles acreditar:
         O buono Apollo, all’ultimo lavoro
fammi del tuo valor…
Mas também nenhuma
prova categórica garante o oposto,
          que o poema
seja conduzido na mente como uma
experiência das ciências naturais
          e que a aptidão
combinatória da mente seja
a única inspiração reconhecível.


Alberto Girri (n. Buenos Aires, Argentina, 27 de Novembro de 1919 - m. idem, 16 de Novembro de 1991), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 112-113.