sábado, 31 de maio de 2014

POEMA DO ALEGRE DESESPERO


Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de um certo Fernão Barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios do Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, e o Artaxerxes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Epiro, e conquistavam o Epiro e perdiam o Lácio,
e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Incrível Armada,
e as Campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

António Gedeão (n. 1906 - m. 1997), in Linhas de Força (1967). «O recurso à terminologia científica é reconhecidamente uma das características desta poesia. Por vezes António Gedeão parece recear não ser, por esse facto, acessível e então traduz: "Desfez-se em azuis rosados, tinturas de tornesol". Normalmente, o discurso organiza-se em orações correctas do ponto de vista gramatical mas aqui e ali, principalmente nos finais de poema, a enumeração tudo pulveriza, ora pelo recurso insistente ao verbo ser, à cópula - "isto é aquilo" - ora pela sucessão pura e simples de designações, de atributos, de epítetos. (...) Lá muito de longe em longe, mas apesar de tudo visível, talvez se note certas sobrevivências decadentistas, como "bebedeiras de azul" e o verso "e o seu canto, no ar, é uma flecha embandeirada" a recordar possivelmente o Fernando Pessoa de, por exemplo, O Opiário. Jorge de Sena observa o classicismo e o barroquismo de Gedeão no desenvolvimento dos poemas ou na escolha dos títulos e eles são também visíveis por exemplo na adjectivação, que chega a parecer redundante, como em "doce brisa", "verde seara" ou na explosão em epítetos já por nós denunciada e que ocorre especialmente para o final de certos poemas» (Ruy Belo, in Na Senda da Poesia).

DOUDA CORRERIA

Baptizada com a água benta da loucura pré-modernista, a Douda Correria respigou o nome nos versos de Ângelo de Lima: «Pára-me de repente o Pensamento… / — Como se de repente sofreado / Na Douda Correria… em que, levado… / — Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento». Fazendo justiça ao “poeta de Rilhafoles”, este projecto editorial "vem-se" encarregando de nos lembrar que são múltiplos e intrincados os caminhos da poesia. Neles transitamos com espanto e incauta erudição, predispostos a aceitar tanto as pedras que se metem no sapato da hermenêutica como os trilhos ínvios da linguagem simbólica/metafórica. O segredo está em aventurarmo-nos no texto como quem desbrava caminho numa floresta virgem (ou de todo violada, que vai dar ao mesmo), rumo a um fim que tanto pode ser o da experiência encerrada nesse simples acto de caminhar como o de uma percepção subjectiva de sentidos. Tomemos de exemplo os tomos segundo e terceiro de uma aventura ainda fresca. Pleno Emprego (Dezembro de 2013), de Miguel Cardoso (n. ?), e Comida (Janeiro de 2014), de Miguel Castro Caldas (n. 1972), são textos que tiveram na sua origem propósitos concretos. O primeiro, foi escrito para uma instalação sonora; o segundo, foi composto para ser representado. De resto, convém esclarecer que Comida viu uma primeira publicação na excelente colecção Livrinhos de Teatro, da Livros Cotovia, em conjunto com as peças Casas e Repartição. Há, pois, uma dimensão dramática em ambas as prosas que não pode ser negligenciada. São escrita que nasce de uma intenção performativa inicial, palavras que reclamam uma representação, mais que não seja simplesmente vocal, imagens que exigem uma voz que as transfigure de corpo inteiro. Dão belas peças radiofónicas, tal o poder sugestivo que ambos os textos encerram. Pleno Emprego pode também ser lido enquanto poema-manifesto, uma espécie de discurso, sem princípio nem fim, para orador transgénico e plateia indefinida. Como o próprio título indica, o âmbito em que se desenvolve é social e político. Não obstante, seria demasiado redutor encafuá-lo nessas duas dimensões. Há um automatismo e um caos aparentes que elevam a condição aludida de “ciência económica” à condição explícita de “poesia enfurecida”. O lugar do comício é uma casa de banho (que melhor lugar para se dissertar sobre o pleno emprego?), partindo o tribuno de uma caracterização do status quo para a manifestação retórica de todo um programa: «Sou pelo pleno emprego do fogo-de-artifício, sobretudo para despistar helicópteros». A verve satírica que condimenta o discurso, repleta de jogos de linguagem e de gestos derisórios, surrealiza a atmosfera, mina o sentido inclusive do termo emprego, utilizado enquanto verbo ou substantivamente. Esta ambiguidade é também detonadora do coloquialismo vigente, sendo as expressões populares empregues retorcidas e usurpadas do seu significado comum, pois «o essencial, o essencial mesmo, é ter nomes para dar às coisas, e ter coisas que dêem com os nomes».
Numa mesma linha absurdizante, Comida faz-se valer de um narrador indefinido. Ou nem tanto. Fala-nos Zé, um Zé ninguém que pode ser alguém. Será. Se o texto de Miguel Cardoso tinha a limitá-lo um referencial geográfico lisboeta, neste caso a prosa universaliza-se. Trata-se de um monólogo inscrito na mesma linha descomprometida da intervenção social, aqui concentrada na génese trinitária da tragédia humana: fome/trabalho/comida. Uma confissão pessoal: o peixe da capa enviou-me para o universo vieirino do Sermão aos Peixes, tendo experimentado uma primeira leitura, delirante, por certo, em que o Zé que nos fala podia ser um peixe enclausurado no seu aquário. Aí, o papel dos intervenientes no sermão inverter-se-ia. Teríamos um espinhoso sermão dos peixes a Santo António, ou, pelo menos, o sermão de um peixe a Santo António, inflexão porventura mais consentânea com a libertação de estereótipos que estes textos inculcam. O texto de Miguel Castro Caldas presta-se, antes, a uma ilógica identitária da qual irrompe, com especial vigor, um julgamento da normalidade e das convenções que castram a existência humana: «o homem um bate na minha mãe enquanto o dois controla por trás a cabeça da minha mãe vai rodando como se estivesse a assistir a um jogo de pingue-pongue e eu não faço nada obedeço não faças nada obedeço não faças nada obedeço por isso quando me perguntam eu digo tudo bem não me posso queixar aquilo era tudo gente do tipo normal de manhã para o trabalho a tecto não ao relento tecto de abrir fechado gente que também come». Tanto Pleno Emprego como Comida revelam uma atenção social largamente arredada do lirismo que contamina a maioria da poesia portuguesa, quase sempre circunscrita ao ego e às suas fraquezas, dores, lamentações pessoais. A vertente dramática que os subsidia pode desviar as atenções da sua natureza fundadora: são, apesar de tudo, representações poéticas do mundo em que vivemos, são uma “poesia” cujo primeiro palco é, precisamente, o da vida comunitária. Têm, por isso, um alcance tremendo, um alcance que extravasa as fronteiras da lírica e nos coloca perante o rosto transfronteiriço do poético.  

PARTIDO SOCIALITE

É comovente, e ficará certamente para a história, a forma como os socialistas rebaixam um seu secretário-geral. Para quê? Para o substituírem por um eterno desejado, que tantas vezes voltou as costas aos anseios do seu eleitorado, com medo ou por cobardia face à possibilidade de perder internamente a sagração final. Atentemo-nos, porém, a dois aspectos fundamentais desta novela: 1.º o secretário-geral rebaixado vê-se ao abandono após duas vitórias eleitorais (ainda que uma delas tenha sabido a pouco, não deixa de ser inédito); 2.º a opção Costa é “perfilática”, ou seja, nada tem que ver com políticas, que no essencial são as mesmas entre um e outro, tendo tudo que ver com imagem e capacidades retóricas. Imagem, imagem, imagem, disto vive o PS há décadas. 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O MEIO LITERÁRIO

Comprimidos, velas pecas
pelo ranço acesas
pelas conas negras

monas, tentações
frontispícios babados
de bonecas e socas

insossas, infelizes
com amor de varizes
e patos frios aos molhos

gonzos de promessas
e beijos pendurados
de críticos plos artelhos

e o zelo a inchar
de nojo e powerpoint
congressos


Rui Costa, in Big Ode n.º 7, Julho de 2009.

ODE RIMBAUD


eu sou absolutamente moderna, Rimbaud.
sei que nunca pensaste que uma rapariga de Portugal
se tornasse absolutamente moderna.
o caso é que nunca deitei o amor pela janela
mas a janela deitou-se pelo amor dentro.
não toco piano, não falo francês, nem faço fru-fru.
sou absolutamente moderna, Rimbaud.
tenho telemóvel, tenho blog, tenho carro
e até uma paixão que já não é platónica
agora para se ser absolutamente moderno
diz-se virtual, Rimbaud.
perdoa-me
dou-te a minha perna
um prato com bolinhos de canela
para te lembrares do tempo dela.
perdoa-me o sarcasmo, Rimbaud
o fatalismo azedo de rapariga absolutamente moderna
constructo humano, já não ser.
perdoa as minhas pernas a engordar de noite para noite
o fumo da chaminé comum do prédio
a minha imensa falta de árvores
a minha necessidade que devora um poema para o deitar fora.
perdoa-me não ter entendido uma única coisa que disseste
mesmo na tradução do Cesariny que é livre e bela
como uma rosa francesa desgrenhada em solo português.
perdoa-me escrever telegraficamente 
ter deixado de respirar para todo o sempre
e continuar a pintar os lábios de vermelho
como se isso fosse possível num deserto sem beijos.
perdoa-me não ter conseguido manter a tua palavra
perdoa-me ter falhado e ser erro.

p.s. - se quiseres regressar a terra
como o Cristo da literatura do não
tomas café comigo?

Ana Salomé (n. 1982), in Odes. Um primeiro volume de poemas maioritariamente em prosa – Anáfora (2006) – anunciou a voz de Ana Salomé, que cuidadosamente definiu o conjunto como “narrativas poéticas”. Este pendor narrativo pressagia, porém, alguns dos sinais desenvolvidos nos versos de Odes (2008). Imagens cuidadosamente resgatas de um ideário lírico amoroso transparecem uma delicadeza no tratamento da linguagem que não pode ser confundida com o sentimentalismo e a candura de muita poesia congénere. Na realidade, o pathos que anima esta poesia tem origem em situações diversas: sobressaem a condição feminina do sujeito poético, a reclamação de uma maturidade porventura irreconhecível, um desfasamento geracional, a unidade na dispersão, ao mesmo tempo que se ensaiam envios de destinatário mais ou menos objectivo. O amor enunciado é tão passional quão enfeitiçado pelos prazeres da vida, invocados em breves gestos, cintilações, alguns objectos de valor sentimental, não se permitindo falsos êxtases que a ironia e a prática comedida da metáfora precavidamente impedem. É uma poesia emotiva, na medida em que se constrói a partir de muitas formas de sentir mais do que de uma única forma de pensar.

DA POESIA DIURÉTICA À POLÍTICA LATRINÁRIA

aqui pudemos constatar como uma anomalia fisiológica, no caso a incontinência urinária, pode estar na origem de um pensamento filosófico humanista e oferecer fundamentos para uma ontologia baseada em dados da experiência física que, por via da reflexão, adquirem uma estrutura metafísica. Sabemos como a matéria excrementícia fundamenta muita experiência ontológica, não sendo novidade para ninguém a possibilidade do homem encontrar a sua essência nos actos de defecar e de urinar (assim como se voltar para o sagrado, nostálgico de uma pureza longínqua, a partir de meditações proporcionadas pela constatação do seu fétido interior). Na poesia portuguesa, temos de boa memória a introdução de Luís Adriano Carlos ao livro A Alegria do Mal – Obra Poética I 1979-2004, de José Emílio-Nelson. Seria interessante reler um livro heterodoxo como Penis, Penis (Bendita seja! A merda. Ânus.), não fosse ainda mais interessante recordar a leitura que do mesmo foi feita pelo insigne ensaísta:

Em divergência com as mitologias literárias, a cosmogonia de Emílio-Nelson começa na urina, a água da vida segundo a tradição medicinal. «Por mim bebo o meu vaso de urina», eis a uroterapia de Penis, Penis, no poema «O Festim».

Deixando de lado as funções terapêuticas do divino líquido, cabe ressaltar o salto epistemológico aqui anunciado. Da ontologia para a cosmogonia, da natureza do ser para a fundação do universo, numa torrente mictória que faz do mijo uma espécie de átomo universal. O excremento é, desta forma, o sexto elemento fundador de todas as coisas, já que o quinto era o éter e os restantes quatro são sobejamente conhecidos: terra, água, ar e fogo. E toda uma nova concepção da poesia nasce:

Com inteira evidência, as excreções renais constituem a matéria do riso nesta poesia diurética, tal como as lágrimas são a matéria do desespero na poesia sentimental.

O sublinhado é nosso. Portanto, ao versejar lacrimejante do poeta-carpideira propõe-se a alternativa do poeta-mijão.

Mas convém desconstruir a aparência: as imagens urológicas não exprimem senão a alegria do mal, evocando as lágrimas de urina como matéria do riso desesperado que conhecemos da Histoire de l’Oeil de Bataille. Assim, ao incorporar a matéria aquática do riso, a satiríase burlesca perfuma a atmosfera com a catarse das suas substâncias tóxicas…

Cabe evocar a expressão popular “mijar a rir” ou, na sua vertente porventura mais traumática, “mijar a chorar”, sobre a qual não se pode ter a mesma imagem depois de ler Penis, Penis e a leitura proposta sobre parte do seu referencial de sentido. Trata-se de uma problemática compexa, originariamente formulada a partir do espanto do homem perante as suas próprias capacidades. Xixi, cocó, mênstruo, langonha, ranho, baba, existem para ser cantados como cantadas foram desde sempre as águas do olhar. Se dificilmente encontramos poemas onde a versos do género “correm lágrimas sobre o meu rosto” se sobreponham imagens do tipo “escorre-me o ranho do nariz” (ambos péssimos) isso dever-se-á a uma expurgação estética, operada ao longo de muitos anos, que tem que ver com a repulsa que o homem sente de si próprio quando confrontado com as suas debilidades. Apesar de tudo, há nas lágrimas uma transparência, uma saúde, que o catarro, espontaneamente associado à doença, não tem. Idealizada enquanto transfiguração do belo, a arte só logrou representar o mundo quando aceitou no canastro das suas construções a presença do feio. Porque isso que dizemos feio, o assimétrico, o repulsivo, não só é parte integrante do mundo como é parte integrante do próprio belo. Sobre a lisa pele das musas forma o tempo as suas rugas. A estética da rugosidade foi muito bem trabalhada, por exemplo, por um cineasta como João César Monteiro. Chamo-o à liça por ser nele que iremos encontrar uma capitalização do abjecto (lembram-se da personagem que coleccionava pentelhos?) elevado a representação satírica da criação do mundo (o título A Comédia de Deus devia ficar para a história do cinema como A Divina Comédia ficou na história da literatura). Recordemos o que escreve no seu diário parisiense a 9 de Agosto:

Acordo tarde (passa das 10) e cago cedo. Não estava à espera que um cagalhão de cordeiro se avolumasse durante a noite, até ganhar as dimensões de um cagalhão de bode. Difícil e espremida expiação, a deste ciclo digestivo. À laia de último retoque, e para que seja maior o inesperado, deposito uma minúscula caganita no fundo da sanita, após o que dou a tarefa por concluída. Passo de seguida à habitual lavagem do cu, este aliás levemente dorido pelo esforço de o esgarçar. / Começar um dia em que o nosso próprio cu nos dá vontade de rir (e uma vontade de rir ligada à vontade de cagar) é, no mínimo, auspicioso.

Podemos interrogar-nos sobre a pertinência do primeiro parágrafo. Que interessará ao leitor o ciclo digestivo de César Monteiro? Num diário com Paris em pano de fundo, o cineasta resolve partilhar com o leitor a sua organização intestinal. A resposta está no segundo parágrafo, aquele auspicioso é revelador de um desprezo pelas convenções culturais que marca a imagem de uma obra herética. É o poder da imagem convertido em palavra escrita. A vontade de rir associa-se à vontade de cagar à laia de ars poetica, num enquadramento que nos remete, por exemplo, para a mais emblemática das personagens de James Joyce logo no início de Ulisses:

Abriu a pontapé a porta da casinha. Melhor tomar cuidado para não sujar as calças por causa do enterro. Entrou, inclinando a cabeça por sob o lintel baixo. Deixando a porta escancarada, em meio ao fedor da caiação mofada e das teias poeirentas baixou os suspensórios. Antes de sentar-se espiou por uma fresta a janela do vizinho. O rei estava em seu tesouro. Ninguém.
Refestelado no trono desdobrou o jornal virando as páginas sobre os joelhos nus. Algo novo e fácil. Não há grande pressa. Demorar-se um pouco. Nossa novidade premiada. O golpe-de-mestre de Matcham. Escrito pelo senhor Philip Beaufoy, Clube dos Playgoers, Londres. Pagamento à razão de um guinéu por coluna foi feito ao autor. Três e meia. Três libras e três. Três libras treze e seis.
Calmamente ele lia, dominando-se, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio, uma última resistência cedendo, permitiu que os seus intestinos se aliviassem de todo enquanto lia, lendo ainda pacientemente, toda ida aquela ligeira prisão de ventre de ontem. Espero não seja demasiado grosso e provocar hemorróidas de novo. Não, está exacto. Assim. Ah! Constipado, uma tablete de cascara sagrada. Vida podia ser assim. Aquilo nem o agitava nem o comovia, mas era algo rápido e limpo. Imprime-se qualquer coisa hoje em dia. Época idiota. Lia adiante sentado calmo sobre o próprio odor montante.

Portanto, uma ida à casa de banho para aliviar a tripa permite à personagem oferecer um palco ideal à constatação: «Imprime-se qualquer coisa hoje em dia». Desconheço o original, mas podia ser Imprime-se qualquer merda hoje em dia - versão que consistiria numa pertinente comparação entre o mundo editorial e o acto de defecar, entrevendo-se no hemorroidal da personagem as dores do Autor (o cagão) açoitado pelos tempos. Charles Bukowski foi pródigo nestas comparações, disfarçando com a sua escrita directa uma dimensão metafórica que se lhe reconhece quando lido mais atentamente. Em Bukowski, o objectivo ilude o abstracto. O conto Todos os Merdas do Mundo e a Merda do Meu Cu é uma cosmogonia de inspiração cínica onde o cu aparece enquanto microcosmo universal. Não é por acaso que a prosa faz-se acompanhar de diversas alusões religiosas ao mesmo tempo que uma operação às hemorróides, pautada por dores insuportáveis, o leva a caracterizar com aforismos pungentes as dores do mundo que, a uma escala escatológica, são também as do seu cu:

O tubo do clister estava sempre a sair e o quarto de banho ficou todo molhado e estava frio e doía-me a barriga e já estava a afogar-me em lodo e merda. Era assim que acabava o Mundo, não era com a bomba atómica, era com merda, merda, merda.

E, mais adiante,

Não admira que as pessoas se virem para os deuses. Era muito difícil aguentar aquilo como deve ser.

Não sabemos se foi o hemorroidal que levou valter hugo mãe a escrever o derradeiro poema do seu livro Útero «e sei que um dia / deus virá e entrará, / como se / me entrasse pelo cu adentro // eu a voar pelos pássaros / para os amanhecer» - mas dispensando o sentimentalismo enviesado dos dois últimos versos, a verdade é que Deus é como a água: infiltra-se por qualquer frecha. Se a dor o reclama, se a tristeza o apela, se a morte o produz (como queria Nietzsche), a verdade é que ele pode muito bem entrar-nos pelo cu, estando este esgarçado, ou pelo pénis, estando este açoitado pela infecção, ou por outro orifício qualquer onde a excrementícia careça de purificação. Assim se constata como facilmente a urina ou a merda nos levam à poesia e à filosofia, e como de ambas logo chegamos a Deus: última estação de todas as derivas do pensamento. Mas a religiosidade sustentada pela relação do homem com a sua face abjecta também encontra paralelo na identidade cultural e na política que nela se fundamenta. Terminemos, pois, com parte do prefácio de Slavoj Žižek à edição francesa de Elogio da Intolerância:

Numa célebre cena de O Fantasma da Liberdade, de Buñuel, as relações entre o acto de comer e o de defecar são invertidas: as pessoas estão sentadas em sanitas de casa de banho à volta de uma mesa, discutindo amenamente, e quando querem comer, perguntam discretamente à dona de casa: «Onde fica o sítio que bem sabe?», e escapam-se furtivamente a caminho de uma pequena divisão das traseiras. É, portanto, tentador, à laia de complemento a Lévi-Strauss, propor que a merda possa servir igualmente de matière à penser — ou não formarão os três tipos básicos de casa de banho uma espécie de contraponto/correlativo excrementício ao triângulo lévi-straussiano da cozinha? Nas casas de banho alemãs tradicionais, o buraco onde o cocó desaparece depois de se puxar o autoclismo é lateral, de tal maneira que o cocó começa por ser exibido aos nossos olhos para melhor poder ser farejado e inspeccionado em vista da eventual detecção de alguns indícios de má saúde; no modelo francês, pelo contrário, o buraco fica bem ao meio e em baixo, o que significa que a merda deve desaparecer o mais rapidamente possível; finalmente, a casa de banho americana (anglo-saxónica) apresenta uma espécie de síntese entre as duas outras, uma mediação entre esses dois pólos opostos — a sanita está cheia de água, de tal maneira que o cocó flutua à superfície bem visível, sem que por isso deva ser examinado… (…) É evidente que nenhum destes modelos pode ser explicado em termos estritamente utilitários: podemos distinguir claramente em cada um deles uma certa percepção ideológica da maneira como o sujeito deverá relacionar-se com o desagradável excremento que provém do interior do seu corpo. / Hegel contou-se entre os primeiros a interpretar o triângulo geográfico Alemanha-França-Inglaterra como expressão de três atitudes existenciais diferentes — a minúcia reflectida alemã, a irreflexão revolucionária francesa e o pragmatismo utilitarista moderado inglês; podemos ler do seguinte modo o triângulo em termos de atitude política: o conservadorismo alemão, o radicalismo revolucionário francês e o liberalismo moderado inglês (…). A referência às sanitas permite-nos não só discernir o mesmo triângulo no domínio íntimo que é o da função caca, mas também determinar o mecanismo subjacente do triângulo em causa nas três diferentes atitudes perante o excesso excrementício: o fascínio contemplativo ambíguo; a tentativa precipitada de se desembaraçar do desagradável excesso da maneira mais rápida; a abordagem pragmática que consiste em encarar o excesso como um objecto comum a suprimir de maneira apropriada.


Eternos aliados dos ingleses, herdeiros da Revolução Francesa, títeres actuais da Alemanha, os portugueses encontram aqui a representação perfeita da encruzilhada onde se encontram. É certo que as nossas casas de banho tendem a replicar o modelo de sanita francês, mas a verdade é que, há pouco habituados a coisas de higiene, os portugueses mantêm com a moita (exemplo de chico-espertismo) e com o tradicional “cá vai disto” (noção particular de espaço comum) um elo cultural bastante forte. Assim sendo, não nos admiremos da política latrinária que nos conduz. Entendê-la, levar-nos-á a respeitá-la no que tem de filosófico, poético, literário, cosmogónico, enfim artístico.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

HÁ NOMES QUE FICAM


Há nomes que ficam, sem préstimo, nas agendas,
transitam de ano para ano por inerência
ou desleixo, por vezes o nome próprio
é uma referência obscura, e nunca houve apelido.
Os números, em poucos anos,
passam de mnemónicas a criptogramas,
indicam sem dúvida que nos cruzámos
com gente que se cruza connosco,
que trocámos telefones como se
trocássemos alguma coisa,
mas tudo muda, os conhecidos
tornam-se amigos e depois desconhecidos.
Estes nomes, posso riscá-los
como se fosse velho e eles mortos,
mas os números, como uma praga,
acumulam-se, escritos
com tintas diferentes
e por vezes nas letras erradas.
Não posso desfazer-me das agendas
nem começar uma todos os anos,
mas já não sou o mesmo:
os números observaram as minhas idades
e talvez pudesse agora marcar este
que não me diz nada
e contar tudo
a alguém que não se lembra de mim.


Pedro Mexia (n. 1972), in Duplo Império. «Os seus méritos foram justamente destacados por Eduardo Prado Coelho, afirmando que "Pedro Mexia instituiu um hábito, um conjunto de expectativas, uma autoridade, um tipo de escrita e de atenção, uma orientação literária, um gosto, que merecem ser reconhecidos e debatidos" (2000). (...) A apreensão da realidade, de onde parte esta poesia, é posta em causa por via da denúncia do ardil dos sentidos e do questionamento do sentido dos vocábulos ou dos símbolos utilizados para dizer essa mesma realidade. (...) Mas também podemos realçar a sua forte componente cinematográfica (as sequências de planos, em que alternam o grande plano, o plano de pormenor ou o plano de conjunto, a utilização dos raccords ou de diferentes ângulos de visão ou perspectivas) e ficar perante ela como perante um filme a que se assiste, um filme que nos assiste (...). Pedro Mexia propõe "abstracções biográficas" , em vez de factos, o que conduz ao apagamento ou diluição do sujeito na massa textual. Os factos tornam-se exemplos, o sujeito impessoaliza-se, os versos ganham um carácter objectivo em consonância,aliás, com a simplicidade e desejo de partilha reclamados como terreno da poesia, ao ponto de a memória se poder tornar, ao abrigo de uma espécie de "usucapião, pertença de outro." (...) Torna-se visível o facto de o Autor instituir como que um horizonte de segundo grau para os seus textos. Poesia como memória ou memória como exercício poético - não importa tanto decidir a ordem desses factores, afinal arbitrária, quanto assinalar que, logo à partida, Pedro Mexia situa os seus textos no domínio do poético e pratica uma certa nostalgia da poesia e da memória, como se fossem artes perdidas no tempo e os textos fossem a memória ou em memória de ambos» (José Ricardo Nunes, in 9 Poetas Para o Século XXI).

OUTRO SEBASTIÃO

Anda muita gente empolgada com a disponibilidade de António Costa. O que me espanta nestes sobressaltos é a candura dos excitados. Costa nasceu em 1961, fez a carreira natural dos políticos profissionais que o Marinho e Pinto detesta. Juventude partidária, associativismo académico, deputado, Ministro de Estado e da Administração Interna, Ministro da Justiça, Ministro dos Assuntos Parlamentares, Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, actual Presidente de Câmara, não tem feito outra coisa senão percorrer os corredores do poder político. Estão à espera que resolva o quê? Que mude o quê? Há fenómenos difíceis de entender, esta tendência para a palermice messiânica do reformismo pseudo-socialista é um deles.   

P.S.: já agora, um excelente texto de João Lopes sobre a miséria cultural que nos envolve e os seus efeitos. Aqui.

terça-feira, 27 de maio de 2014

PORTUGAL, A FLOR E A FOICE


Escrito entre Abril de 1974 e Outubro de 1975, Portugal, a Flor e a Foice (Quetzal, Março de 2014) foi finalmente editado em Portugal. J. Rentes de Carvalho (n. 1930), fixado em Amesterdão desde 1956, diz que escreveu o livro para o público holandês. A verdade é que passados quase 40 anos sobre a edição holandesa, muito faria bem ao público português ler esta “colectânea de factos e acontecimentos”. A pergunta que se impõe é: como ler um livro destes? Não sendo história, está longe de ser ficção; a evidente preocupação com a verdade não suprime o olhar subjectivo do autor; enquanto análise de uma actualidade distante, parece por vezes profético; retrato do que somos (fomos?), aproxima-se da crónica de Fernão Lopes com o olhar desencantado que a distância permite. Talvez a forma mais justa de leitura seja também essa, a de uma distância que a passagem do tempo, todavia, não amadureceu. Porque o retrato é amiúde impiedoso, crítico quanto baste, fascinado por vezes, mas, sobretudo, perspicaz na análise do seu tempo, convirá manter uma certa precaução não vá fazer dói-dói a leitura. 
Elucubrações sobre a natureza lusitana, meditações sobre desígnios nacionais, reflexões sobre matrizes e destinos não nos faltam, sendo outra aqui a história. O esforço de análise política da situação então vigente proporciona ao leitor um testemunho quase jornalístico, pese embora a afectação crítica, repleta de dúvidas e de desconfianças inegáveis, testemunho tanto mais válido quanto o seu autor optou por ser fiel a si mesmo opondo-se a concessões de circunstância que porventura lhe teriam sido mais vantajosas. Isso explica o silêncio tombado sobre a obra durante tanto tempo. O resumo da história de Portugal que abre o livro, sentenciando os mitos propagados pelo Estado Novo (uma raça que nunca existiu, putativos heróis que eram facínoras, gloriosas épocas reduzidas a tempos de pirataria, uma monarquia basbaque e displicente, o caos republicano, etc.), estaria em linha com o período revolucionário não tivesse sido este, mais uma vez, favorável à imagem de “república bananeira” que tão bem nos promove lá fora. Impossível discordar da corrupção endémica, da subserviência internacional, da mesquinhez das elites, do conservadorismo católico, da insularidade de carácter que imprime nos portugueses uma obsessão de partir, uma necessidade de fugir que faz de nós povo de emigrantes com capital «cabeçorra desproporcionada, [que] desde há séculos anemia o país, sugando-lhe as energias, chamando tudo a si» (p. 43). 
Se é verdade que alguma coisa mudou desde 1975, nomeadamente o nível de vida da população em geral, também não deixa de ser verdade que, apesar das transformações, nos mantivemos grosso modo uma população sem nível, para não falar dos retrocessos em marcha que começam a colocar o país, nalguns aspectos, à altura do que era aquando da revolução. Não obstante, mesmo para a época, J. Rentes de Carvalho mantém para com o povo (ininteligível, indefinível, simplesmente nomeável) - então desprotegido pelo analfabetismo generalizado, pelo medo ainda esvoaçante, pela influência castradora do catolicismo - uma complacência que o isenta de responsabilidade. Facilmente manipulável, obedece cega e religiosamente. Mas que pensar hoje desse mesmo povo, acomodado na indiferença e letargicamente desinteressado? Seja qual for a resposta, tristemente se constata serem ainda tão actuais estas palavras de 1975: «De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravidão que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta» (p. 57). 
Os ódios de estimação de J. Rentes de Carvalho são outros, como não podia deixar de ser face à sua própria condição: a Igreja oportunista e manipuladora, as elites cobardes e demagógicas, personalidades políticas como Spínola e Soares, muito pela incoerência e também pelo oligarquismo burguês que representam, intelectuais de pacotilha. As páginas sobre a oposição ao regime e a luta clandestina são especialmente relevantes e reveladoras, tão trágicas como cómico é o capítulo dedicado à corrida ao volfrâmio durante a Segunda Grande Guerra (apenas comparável à corrida ao ouro no antigo Oeste): «Em vários sentidos a literatura portuguesa é decepcionante: na temática, no estilo, nas reacções de muitos dos seus escritores perante a realidade do país. A nenhum dos que viveram ou morreram durante a ditadura, e a nenhum dos vivos se pode aplicar a frase de Soljenítsin: «Um grande escritor é um segundo governo». / Os escritores portugueses contemporâneos todos juntos serão, quando muito, uma junta de freguesia» (p. 137). Talvez exista aqui um certo excesso de zelo, tendo em conta as próprias limitações que então se impunham. Não falo da censura, que essa existia para censurar. Falo da inexistência de um público que lesse, que era escasso e, por isso, retirava à própria literatura muito do seu potencial agitador. 
Já sobre oposição ao regime a conclusão é sintomática: «é dramático constatar que, enquanto noutros países, condições de opressão idênticas tiveram como consequência um fortalecimento da oposição, em Portugal, os oponentes ao regime caíram, regra geral, numa verborreia ineficaz, num republicanismo bolorento, em sentimentalismos democráticos» (p. 73). Em suma, os comunistas «foram os únicos adversários activos, consequentes e permanentes de Salazar» (p. 75). Não faltam dados, historietas, anedotas, aspectos picarescos e hilariantes para apimentar a prosa, embora o tom predominante seja sério e, em certa medida, deprimente. Em decomposição desde 1961, com a implosão das guerras ultramarinas, o regime fascista foi perdurando sobre a inoperância da oposição democrática e o patrocínio dos “príncipes” da nação: Melos, Champalimaud, Espírito Santo, entre outros apelidos ainda hoje assaz familiares a qualquer português. A passividade geral não foi fortemente abalada pelo Movimento de Capitães que, saturados da guerra, fez a revolução de um dia para o outro (ou nem tanto) sem mossa de maior. 
Os últimos oito capítulos ocupam-se dos heróis que então emergiram, incapazes de apagar velhos fantasmas, insistindo no terror comunista, cedendo aqui e acolá no oportunismo de circunstância, apertando a mão a antigos traidores, protegendo inimigos, cultivando amizades profícuas, títeres de interesses maiores e multinacionais. «Para o povo analfabeto, submisso à Igreja, a aparição dos que sempre foram apontados como parceiros de Belzebu causa um princípio de terror» (p. 166). O Belzebu era o comunismo, que se aprontava para confiscar panelas de pressão (sic). A dimensão hilariante da vida política portuguesa à época fica bem explícita nesta caricatura: «Nalgumas aldeias os comunistas são recebidos a tiro. Em Macedo de Cavaleiros os ricos da terra cotizam-se para pagar a mais de mil pessoas um dia de salário para que assaltem a permanência que o PCP lá mantém. Não ficou um pé de cadeira por quebrar. / Há comícios do CDS que os comunistas fazem dispersar às pauladas. Os socialistas batem nos do PPD, e estes nos socialistas. Depois, fraternizando, ambos os grupos atacam os maoistas. E os maoistas, juntamente com os marxistas-leninistas e os trotskistas, batem nos monárquicos. Os monárquicos, por sua vez, juntos aos democratas-cristãos, surram os socialistas, e os comunistas, e os sociais-democratas e os maoistas» (p. 177). Pluralidade democrática em versão caceteira, com um povo miserável em pano de fundo.
Ficaram a rir os que sempre riem destas coisas, os tais Melos e Espírito Santo que, mais viagem menos viagem, haveriam de continuar o seu progresso pessoal à sombra da chamada frágil democracia portuguesa. Vai longa a prosa porque estimulante é o livro. Muito teríamos a dizer sobre os erros do PCP (demasiados, segundo o autor), a ascensão da marca Soares, a obesidade do MFA, a influência externa, etc. Chegámos aqui. Apreensivos? Acomodados? Quiçá ingratos. Apesar de tudo, como escuto amiúde à vizinhança, temos paz. A paz podre dos pequenos assaltos e das grandes vigarices. Mas paz.

ANTIPARTIDARITE

É óbvio que a eleição do ex-bastonário da Ordem dos Advogados se deve ao seu mediatismo, granjeando através da exposição pública a simpatia de todos aqueles que estão saturados da trica política e se deixam seduzir pelo mais simplista dos discursos. Esvaziado de ideologia, o advogado chuta contra a corrupção do sistema com uma ênfase justicialista que agrada a muitos que o ouçam. Tem a retórica ao nível da demagogia. Safa-se. Não restem dúvidas, porém, do que ali há para oferecer, porque a regeneração da política não se faz com verve mas sim com ideais. Batava Paulo de Morais candidatar-se, por exemplo, pelo Partido Humanista e a expressão do Movimento Partido da Terra diluía. E se Camilo Lourenço se candidatasse pelo Partido da Nova Democracia? Alguém duvida da eleição? Imaginemos também, por absurdo, que Medina Carreira aceitava convite do Partido Liberal-Democrata. Eleição garantida. Outros exemplos podiam ser dados, fiquemo-nos por estes. Os media fazem políticos, não por lhes vincularem as ideias mas por fazerem chegar a um grande número de pessoas toda a mensagem, mais ou menos fundamentada, que se aproxime da antipartidarite aguda. Metidos os partidos todos no mesmo saco, resta o culto da personalidade. Bem sabemos como o povo português é propenso ao culto da personalidade. E também sabemos bem o quão perigoso é esse culto.

JOHN WAYNE (n. 26 DE MAIO DE 1907)


É o rosto do ideal norte-americano. Anticomunista, conservador, nacionalista, apoiou a Guerra do Vietname e proferiu declarações como esta: «I believe in white supremacy, until the blacks are educated to a point of responsibility. I don't believe giving authority and positions of leadership and judgment to irresponsible people... I don't feel we did wrong in taking this great country away from [the Native Americans]... Our so-called stealing of this country from them was just a matter of survival. There were great numbers of people who needed new land, and the Indians were selfishly trying to keep it for themselves». Compreendê-lo ajuda a compreender igualmente os fundamentos da nação mais poderosa do mundo, assim como ver o legado cinematográfico que alimenta o mito: Tall in the Saddle (1944), Red River (1948), Fort Apache (1948), She Wore a Yellow Ribbon (1949), Rio Grande (1950), The Searchers (1956), Rio Bravo (1959), The Man Who Shot Liberty Valance (1962), The Sons of Katie Elder (1965), El Dorado (1966), True Grit (1969), The Cowboys (1972).

A COERÊNCIA EM PESSOA

Ontem, no Prós & Contras, Marinho e Pinto também estava muito preocupado com a abstenção. Confrontado por João Ferreira com as posições abstencionistas que outrora defendeu, lá procurou escapar à verdade como sabe e pode: "é mentira, é mentira, é mentira. O que eu disse é que não ia votar", o que, para o caso, faz toda a diferença. Vê-se e escuta-se: 



Perante isto, não me espanta os duzentos e tal mil votos no MPT. É a tradicional legitimação da chico-espertice, que Manuel António Pina enquadrou muito bem numa crónica de boa memória:

Tempos de calamidade como os presentes suscitam sempre o aparecimento de demagogos e oportunistas e de projectos salvíficos de todo o género.
Ainda o país digeria, estupefacto (ou, se calhar, não), o modo como, apenas com a expectativa de um penacho prometedor, foi fácil encher o vazio das ideias de "cidadania" e "participação" em torno de que Fernando Nobre fez a campanha à Presidência da República, já estava a pular para o palco o omnipresente bastonário dos advogados atirando-se, também ele, a políticos e partidos e propondo uma "greve" abstencionista às próximas eleições para os "envergonhar publicamente perante a Europa e o Mundo".
Marinho e Pinto merece a nossa compreensão, mesmo que esgote a nossa paciência. É um "junky" de protagonismo, quando está muito tempo longe dos holofotes entra em carência, afligem-no dores musculares insuportáveis no sistema vocal e as palavras acumulam-se-lhe, ansiosas, na garganta, sufocando-o e forçando-o a correr em desespero para as redacções em busca de um "dealer" de manchetes ou, ao menos, de títulos a duas colunas ou rodapés de noticiários televisivos para "meter para a veia".
É um caso diferente do de Fernando Nobre. O de Marinho e Pinto resolve-se, tudo o indica, com adequada terapia de substituição. O de Fernando Nobre é obviamente incurável, é um cancro terminal dos valores morais; mesmo o cargo de presidente da AR será só um paliativo.


Cargos, cargos, cargos. Fernando Nobre não teve o que pretendia depois de se curvar ao inimigo. Esfumou-se. O advogado, por ora, está bem serviço. Com a comunicação social a satisfazer-lhe o vício, aguardemos pela exibição da overdose.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

TÃO AO GOSTO POPULAR



Pudéssemos nós compreender
porque é que o outro raramente
é uma preocupação sincera
em nossas vidas

mas que são raras as vezes
em que não o queremos foder,
então alcançaríamos o significado
da existência que levamos,

seríamos o próprio deus
que nos fez à sua imagem.
Passado e futuro seriam o mesmo
e o presente ninguém.

E o vinho que um homem bebe
(enquanto observa o seu filho
a brincar às existências,
como uma garrafa que nunca vaza)

haveria de ser tão vão
quanto uma oportunidade
perdida em que a memória não sabe onde.
O filho seria o seu

próprio cadáver rejuvenescido.
Pudéssemos nós compreender,
assim como se faz um filho,
tão ao gosto popular.

Paulo José Miranda (n. 1965), in O Tabaco de Deus. «A poesia de Paulo José Miranda tem uma espécie de opacidade que a torna distante, impermeável, e lhe confere uma monotonia que não seduz. Se estivermos dispostos a aceitar o seu jogo, iremos descobrir que há virtudes nesta sobriedade. (...) Por outro lado, esta poesia precisa de ser apreendida no seu modo de relação com o conhecimento e com uma saber que lhe fornece matéria de elaboração. Por outras palavras: ela procura, mesmo na referência imediata e na contingência, uma origem que não é histórica, um saber intemporal, como é o das narrativas míticas» (António Guerreiro, in Expresso). «Sena e Fernandes Jorge afirmam-se, deste modo, como elos de uma tradição de realismo e circunstancialidade, onde Paulo José Miranda vem inscrever a sua poesia, "voltada para a banalidade do quotidiano, das suas vozes enganadoramente tranquilizantes" (Guimarães, 1998) e marcada pelo "insistente recurso a um tom melancólico a acenar para o vazio do quotidiano urbano depressivo" (Bastos, 1998). (...) Dando expressão a este conflito entre literatura e vida, na poesia de Paulo José Miranda é ainda detectável a desconfiança face à "palavra impostora", a qual se estende ao literário no que este tem de menor. É que, se por um lado a literatura pode ser um "vício atroz", por outro lado deve ter-se presente que para a literatura conta sempre muito mais a vida do que a própria literatura, conforme se pode inferir de um poema acerca dos protocolos devidos na leitura onde se afrima, por exemplo, que "para um critério do poema não bastam os argumentos do poema"» (José Ricardo Nunes, in 9 Poetas para o Século XXI).

NEVOEIRO

No rescaldo das europeias, as análises amontoam-se polvilhadas de lugares comuns. O primeiro assunto é um não-assunto. A abstenção, que em Portugal andou pelos 65%, chega à boca dos intervenientes em tom de preocupação. É tudo hipocrisia. Não há preocupação alguma, porque estes resultados já não são sintoma. São uma doença que os partidos do chamado arco do poder, realmente um arco-da-velha, não estão interessados em combater. Na abstenção tudo se mistura: desencanto e indiferença, comodismo e resignação, raiva e nojo. E tudo isto nasce e cresce de uma desavergonhada transformação do palco político numa pocilga, para usar uma metáfora comum, onde parte da classe política engorda à custa do bem comum e se serve do Estado para estagiar a caminho dos mundos financeiro e empresarial. 
A este fenómeno está associado o segundo tema da noite: a eleição do advogado Marinho e Pinto. Populista, demagógico e, pior que tudo, incapaz de discutir o que quer que seja sem resvalar num berreiro insuportável, este outro herói popular lembra o Bonami-Rei da peça de Natália Correia O Encoberto: «Vejo-me na difícil situação de um actor em que o público acredita». Convencido das boas intenções do embusteiro, o povo deixou-se ir na cantiga oportunista da personagem. O fim de Bonami-Rei sabemos qual foi. Veremos o fim do advogado, que por ora beneficia do descrédito em que caiu o sistema e de um discurso inflamado que replica a conversa de café e o argumentário taxista da nação. Talvez venha a ser na Europa o que Manuel Sérgio foi na AR quando eleito pelo Partido da Solidariedade Nacional, um epifenómeno cuja maior ou menor inconveniência residirá na capacidade do sistema para o integrar na sua mecânica com propostas aliciantes. A comunicação social fará o resto, beneficiando do berreiro. 
Depois há a derrota dos partidos da governação, a qual não encontra inversa proporcional na vitória do maior partido da oposição (ou coisa que o valha). Na realidade, PS, PSD e CDS bem podem fazer contas à vida: são o espelho decadente de uma democracia ameaçada pelos seus próprios vícios. O PS não se liberta do fantasma Sócrates, consegue reintegrar um oportunista como Jorge Coelho e esvai-se na imagem de um Seguro melífluo, inconsistente, perdido algures na dimensão sidérea da banalidade política. Com o país de pantanas, não consegue impor-se convincentemente aos partidos da governação. Saindo fortemente derrotados, PSD e CDS conseguem respirar de alívio porque o PS não sai fortemente vencedor. Carlos César e António Costa já vieram deitar mais achas para a fogueira onde Seguro tem queimado as orelhas. 
Descrentes do chamado projecto europeu, que mais não tem sido senão uma germanização da Europa, fartos de medidas “austeritárias” que têm feito a cama aos grandes grupos económicos e oferecido paz e descanso à banca, uma larga maioria dos eleitores mostrou, não votando ou votando em projectos críticos do europeísmo cego, estar farta e cansada de políticas da subjugação. Ouçamos, pois, o Licenciado Belchior do Amaral:

LICENCIADO
Ouçam-me! Sou o Licenciado Belchior do Amaral. Em Montpelier aprendi que a Terra anda à volta do sol. Esta descoberta revolucionária prova-nos que tudo se move para sobreviver. Ela anuncia a era dos levantamentos populares. Em marcha! Em nome da razão, pegai em armas! Enquanto aguardais o fantasma da vossa demência, sois a besta de carga dos tiranos.

Talvez o povo prefira continuar a acreditar no regresso de D. Sebastião, talvez os métodos do Licenciado Belchior do Amaral não sejam sedutores numa democracia, enfim, adulta e abstencionista. Mas quando acordarmos do sonho e verificarmos que a Europa Unida morreu, porque dentro dela um vírus xenófobo novamente medrou, que faremos? Usaremos o raciocínio ou escudar-nos-emos “cobardemente na legitimidade de um espectro coroado”? Ainda temos uma arma: votar numa verdadeira mudança. Porque a verdade se impõe com clareza perante a dúvida: que união é esta onde a assimetria governa? Que união é esta adormecida sobre os seus próprios fantasmas? Que união é esta:


Este Parlamento Europeu vai ser tomado de assalto por uma multidão de deputados eurocépticos, mas entre eles há um subgrupo de eleitos cujas ideias podem ser descritas como fascistas e racistas e, sobretudo entre os que são provenientes da Europa de Leste, anti-semitas. É o caso do Jobbik húngaro, um partido de extrema-direita que tanto no discurso como em acções é anti-judeus e anti-ciganos. Com 14,7%, o Jobbik elegeu 12 eurodeputados, apesar de pouco tempo antes das eleições de 25 de Maio, um deputado desta formação ter sido acusado de espiar no Parlamento Europeu a favor da Rússia. Mas a grande surpresa veio da Alemanha, em que os neonazis do Partido Democrata Nacional, que concorreram com um programa anti-imigração, mas são classificados como racistas e anti-semitas, elegeram pela primeira vez um eurodeputado. Os seus líderes dizem coisas como “a Europa é um continente branco” e têm cartazes com frases como “dá-lhe gás”. O partido eurocéptico Alternativa para a Alemanha obteve também sete deputados para o Parlamento Europeu. Na Grécia, o Aurora Dourada, partido de clara inspiração nazi, elegeu três eurodeputados, apesar de o seu líder, Nikos Michaloliakos, e vários deputados, estarem presos. Estes partidos não estão aliados com a Frente Nacional ou o Partido da Liberdade de Geert Wilders e não se sabe se conseguirão formar um grupo parlamentar à parte. No entanto, a onda eurocéptica acabou por retirar votos a algumas das forças mais extremistas e violentas de extrema-direita que perderam os seus eurodeputados, segundo uma tabela feita pelo centro de investigação britânico Counterpoint, como o Attaka búlgaro, o Partido Nacional Britânico ou até mesmo o Partido Nacional Eslovaco.

domingo, 25 de maio de 2014

REGENERAR A PÁTRIA


Conforme o próprio Luz de Almeida reconheceu, a estrutura da Carbonária Portuguesa (CP) não passava de uma cópia do modelo italiano. A unidade básica era um canteiro de cinco homens. Quatro chefes de canteiro constituíam uma choça, quatro chefes de choça uma barraca, quatro chefes de barraca uma venda, e, por fim, os chefes de venda elegiam uma única Alta Venda, de três membros, que dirigia a Floresta inteira. Os membros da Sociedade tratavam-se por primos e aos estranhos pagãos. Havia quatro categorias hierárquicas: rachadores, carvoeiros, mestres e mestres sublimes. Só os mestres acediam às barracas e às vendas e só os mestres sublimes à Alta Venda. Ao contrário do que sucedia na Carbonária de Mazzini, o ritual de iniciação decorria geralmente dentro de casa. Cinco «primos» mascarados sentavam-se a uma mesa: os primos Presidente, Olmo, Carvalho, Choupo e Vigia. O candidato entrava com um lenço a tapar-lhe os olhos, conduzido pelo primo Choupo. O Presidente começava por lhe perguntar o nome, a filiação, a idade, a morada, o ofício e o número e situação das pessoas a seu cargo. Depois inquiria da respectiva religião e o neófito devia responder «nenhuma». A seguir, levantava-se e interpelava-o nos seguintes e melodramáticos termos: «Estás, tu, disposto a pegar numa arma – carabina, revólver, punhal ou bomba – e a esperar, onde quer que seja, um tirano do povo para executares nele justiça sumária?» Se o candidato se confessava nesta feroz disposição, pedia-se-lhe que jurasse «guardar absoluto segredo» dos objectivos e existência da Floresta, «derramar o seu sangue pela regeneração da Pátria» e «obedecer aos seus superiores». Acabado o juramento, o primo Carvalho lia o severo estatuto da Sociedade, que exortava cada carbonário a ser «astucioso, perseverante, intrépido, corajoso, solidário, destemido e valente». Então o Presidente voltava-se para o primo Olmo e dizia: «O que é que se faz a um traidor?» «Mata-se», prometia solenemente o primo Olmo. «E se fugir?» «Procura-se… até que o fulmine a nossa mão vingadora», ameaçava o primo Olmo e, ao mesmo tempo, descobria pela primeira vez os olhos do candidato, enquanto os outros primos lhe apontavam, à cabeça e ao peito, punhais, pistolas e machados. O Presidente tornava a prevenir o neófito de que, se faltasse à palavra dada, a Floresta o puniria «sem dó, nem piedade», e obrigava-o a assinar uma folha de papel em branco, onde, caso necessário, se lavraria a sua sentença de morte. Com isto, a cerimónia terminava e mais um autêntico carbonário se lançava ao ingente trabalho de «regenerar a Pátria».


Vasco Pulido Valente, in O Poder e o Povo – A Revolução de 1910, 6.ª edição, Alêtheia, Setembro de 2010, pp. 93-94.

EUROPA 2014

A Frente Nacional de Marine Le Pen venceu as eleições francesas com cerca de 26% dos votos...

O partido de extrema-direita na Áustria (FPO) deve conseguir 20% dos votos nas eleições europeias...

Aurora Dourada (neonazi) que alcança um resultado entre os oito e os 10% e a possibilidade de eleger dois eurodeputados...


Já na Inglaterra a vitória sorriu aos eurocépticos do UKIP, que quer a saída da União Europeia e controlos mais apertados da imigração...

DERROTADOS

A tendência, básica e previsível, será para considerar BE e LIVRE os grandes derrotados da noite. Por cá, tudo bem. Mas na realidade só há um grande derrotado nestas eleições: o projecto europeu (dos alemães e respectivos séquitos). Os resultados em França, com a vitória da xenofobia e do racismo, tornam a tragédia ainda mais evidente.

PROJECÇÕES

Pendurado num movimento de origem simpática, o populista advogado Marinho e Pinto (também conhecido como Marinho Pinho e simplesmente Marinho Pinto) é o grande vencedor destas eleições, ao almejar aquilo em que os portugueses mais se revêem: um tacho.

P.S.: Ironia das ironias, vem na Wiki: Marinho e Pinto nunca divulgou os anos que esteve efectivamente inscrito na licenciatura em Direito nem o tempo lectivo que demorou a conclui-la. Desconhecida é também a média final obtida. Talvez seja assunto para o Correio da Manhã vir a investigar.

FUTEBOL E POLÍTICA

A CNE é a FIFA da democracia portuguesa.

CANDIDATO FANTASMA

Discute-se a abstenção. Mesmo descontando a emigração e cadernos eleitorais desactualizados, prevê-se mais uma enorme manifestação de desinteresse e alheamento. Uns dizem que é resultado da insatisfação geral, outros que não é possível retirar consequências da previsão. Paulo Rangel ainda não falou sobre o assunto, mas é quase certo que irá atribuir a responsabilidade a José Sócrates e à asfixia democrática. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

INFANTILISMO 3.0

Por favor, parem: 

Agentes de patrulhamento da PSP de Lisboa vão estar empenhados, até 10 de junho, a juntar 15 toneladas de tampinhas plásticas para fazer uma superbandeira nacional, para apoiar a seleção nacional de futebol e bater um recorde do Guinness.

HERÓI POPULAR


Manuel Baltazar, mais conhecido por Manuel “Palito”, andava fugido das autoridades há 34 dias. Separado da mulher devido a problemas de violência doméstica, perseguiu-a todos os dias durante cinco anos. Acabou por assassinar a ex-sogra, uma tia e ferido a ex-mulher e a filha de ambos. Eis como reagiram algumas pessoas à sua captura:

Apesar de ser considerado perigoso pelas autoridades e estar fortemente indiciado pelos crimes, o homem também conhecido como Manuel “Palito”, que esteve fugido 34 dias foi recebido como uma espécie de herói popular. À sua chegada, foi aclamado por mais de 200 habitantes locais, que o esperavam. Tiraram fotos com os telemóveis, bateram palmas e também assobiaram, mas numa manifestação de apoio. Ninguém o criticava e alguns até o elogiavam.

Partamos do princípio optimista de que aqueles 200 habitantes locais não reflectem o país de Cavaco, Isaltino Morais, Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres, Valentim Loureiro, Duarte Lima, Alberto João Jardim, Dias Loureiro, Ricardo Salgado, Jardim Gonçalves, entre outras ilustres personalidade da sociedade portuguesa. São apenas 200 pessoas que simpatizam com um criminoso vulgar, um entre muitos que o implacável ministério de Paula Teixeira da Cruz não deixará impune. A questão que me coloco neste momento é de outra ordem. Tomando de princípio certos discursos que não consigo deixar de julgar xenófobos e etnocêntricos, quando não racistas, voltados contra árabes, ciganos, africanos, pergunto-me sobre qual o raciocínio que as pessoas com esse tipo de discurso adoptarão face a este novo herói português. Vejamos mais um pouco da sua história:

A partir de Fevereiro de 2009, altura em que o casal se separou, o alegado homicida passou a levantar-se de madrugada para ver por onde a ex-mulher andava e para exercer coacção sobre ela, de acordo com o processo relativo aos episódios de violência doméstica ao qual o PÚBLICO teve acesso. Neste processo fica ainda claro que a pulseira electrónica, através da qual Manuel Baltazar era vigiado pelos serviços prisionais, visava impedi-lo de se aproximar da ex-mulher. Sem êxito, como se viu. (…) Ainda de acordo com o processo, muitas vezes o arguido começava a perseguir a mulher logo pelas 6h de quase todos os dias. Depois de o divórcio ter sido decretado, passou a persegui-la “na rua e nos locais” onde a ex-mulher trabalhava, para a “ameaçar e amedrontar”. Chegava mesmo a ameaçar quem dava trabalho à ex-mulher, para a privar de meios de subsistência e a controlar. Por essa altura, Fevereiro de 2009, a ex-mulher estava numa casa abrigo da APAV, em Vila Real. Porém, teve de fugir dessa casa, onde esteve oito meses, até Agosto, quando Manuel Baltazar descobriu a sua localização. Foi, então, morar para uma casa de Peso da Régua, onde se achava mais segura. Certo é que, por esses dias, foi também localizada junto de uma paragem de autocarro onde aguardava transporte para o trabalho. Voltou a ser agredida e ameaçada de morte, o que não lhe era de todo novidade. Ainda quando morava com o ex-companheiro foi ameaçada com uma arma para voltar a dormir no quarto do casal. Antes disso, a 5 de Dezembro de 2011, foi o filho de ambos, de 30 anos, quem Manuel Baltazar ameaçou com uma arma, apontada ao peito, durante uma apanha de azeitona em Valongo dos Azeites. “Se queres matar, mata-me a mim”, disse a ex-mulher que intercedeu pelo filho. Esta actuação do arguido poderá explicar a circunstância de vários advogados terem sucessivamente recusado defender Manuel Baltazar em tribunal, como consta no processo. De acordo com a mesma fonte documental, Manuel Baltazar, que chegou a ter quatro espingardas e inúmeras munições em casa, ameaçava todos os familiares da ex-mulher e amigos que a defendessem. Não abria qualquer excepção, nem para os próprios filhos e incompatibilizou-se com dois dos quatro irmãos com quem deixou de falar.

Portanto, é este o homem agora aplaudido por “200 habitantes locais”. Imaginem se a sua ira se tivesse voltado contra algumas das ilustres personalidade acima aludidas. É só uma hipótese. Seja como for, a pergunta que deixo em aberto é: devemos falar dos portugueses aceitando Manuel “Palito” e os 200 cidadãos que o aplaudem como referências culturais e étnicas? Podem estas pessoas ser representativas de um povo e de uma etnia? Assim como por vezes se diz que os ciganos são todos ladrões e os árabes machistas, devemos considerar os portugueses “manueis palitos” ou, não sendo “manueis palitos”, simpatizantes de?

quinta-feira, 22 de maio de 2014

EUROPEIAS

Há uma perversidade congénita na acção política: ao adoptar a retórica enquanto ferramenta persuasiva, o político descurou o exemplo. Conquistado o poder, a retórica inflecte no sentido da perpetuação desse poder. A quem um dia possa usar botões de punho, nada mais interessará senão manter botões de punho. Nenhum político deveria almejar cargos de chefia sem ser na base do exemplo, premissa geradora de um problema básico: em democracia é raríssimo o político que não chegue ao poder na base da retórica (geralmente demagógica, interesseira, pretensiosa). Ora, os eleitores desinteressam-se da política quando se apercebem de que esta é o palco falacioso onde uma elite se debate por cargos e interesses meramente pessoais. Os partidos do chamado "arco do poder" transformaram-se em estágios profissionalizantes, assentando o seu método num afastamento dos pretendentes ao trono das massas governáveis. É-lhes fundamental criar esta distância, pois ela garantirá a distinção entre governantes e governáveis. A própria transformação do político num actor, qual estrela de cinema, desvirtua um elo pré-existente entre aquele que elege e o eleito, elo esse cada vez mais debilitado pela desconfiança daqueles relativamente a estes. Até porque, manda a natureza humana, todo o eleito merece desconfiança. Caídos na teia da espectacularidade política, temos duas opções: ou mudamos de canal ou desligamos a televisão. Meros espectadores de uma novela degradante, vemo-nos, enquanto eleitores, perdidos num labirinto de contradições, ambiguidades, paradoxos que ninguém parece estar disponível para esclarecer. Até porque, na realidade, não convém. Esvaziados de conteúdo ideológico, os conceitos transformam-se em palavras de circunstância: servem para tudo menos para desbravar caminho no sentido de uma consciencialização política efectiva. São mera propaganda, slogan publicitário, vende-se um produto como banha da cobra. Logro. Quanto mais desinformado e desamparado estiver o cliente, melhor. É facilmente manipulável, vai na canção do bandido. Assim se agrada a gregos sem inquietar troianos. Eis a pasmaceira, a letargia hegemónica das democracias ocidentais comandada por políticos profissionais cuja primeira preocupação é disfarçar o seu profissionalismo (veja-se o actual PR), ou seja, adulterar o currículo negando a natureza política das suas práticas. Talvez se julguem dessa forma mais próximos dos verdadeiros poderes que trazem em mente (financeiro, económico), deixando à ralé a ingrata tarefa de separar o trigo do joio num contexto em que, à falta de trigo, tudo parece ser joio. Mas nem tudo é joio. Eu ainda acredito que no cenário degradante a que fomos expostos há quem procure fazer a diferença através de uma real proximidade entre eleitores e eleitos, ousando em propostas porventura impopulares que merecerão o seu julgamento conforme a capacidade de fazer chegar a mensagem a quem está desinteressado e alheio. O caminho parece difícil e exigente, mas cabe questionar, neste momento, se não será preferível fazê-lo (sozinho?) a continuar mal acompanhado. E por fazê-lo (sozinho?) não se entende ensimesmado, entende-se livre e autodeterminado. 

P.S.: é verdade, não nego nem apago, que em 2009 outras dúvidas me assaltavam (aqui). Mas a indiferença já não me chega, tanto foi o que perdemos nos últimos anos. Não deram por nada?  
P.S.2: leituras recomendadas: