Têm estado uns dias de sol primorosos, daqueles que atraem espíritos taciturnos para a rua e sugerem passeios por onde a natureza desponta primaveril. O meu despertador são as rolas. Corro os estores e lá estão elas, a pular de galho em galho nos pinheiros carregados de pinhas. Nunca os vi assim, com tantas pinhas. Às tantas não são rolas o que vejo, mas pinhas que cantam como rolas. Os vizinhos do rés-do-chão convocam bandos de pombos espargindo bagos de arroz pelo chão. A Nala gosta de correr na direcção dos pombos, fica de rabo tenso a vê-los levantar voo, ergue ligeiramente a cabeça e ladra. Levo-a a dar um passeio mais longo do que é costume. Atravessamos o baldio arborizado contíguo ao bairro e descemos na direcção do colégio. As crianças brincam calorosas no recreio, para excitação da cadelita desabituada do convívio com estranhos. O entusiasmo é contagiante. Contornamos o edifício escolar, ladeando as hortas urbanas, metemos pelo relvado junto ao complexo desportivo. Já se vêem miúdos nos treinos de râguebi e de futebol, poucos, separados. Ocorre-me filmar a cadelita compenetrada nos treinos com bola. Um indivíduo que passa por nós aborda-me em tom agressivo: «’Tá-me a filmar ó quê?». Respondo-lhe que não. «Mas não, o quê?», insiste. Segue-se uma mais longa do que desejável discussão sobre direitos à privacidade, captação de imagens em espaços públicos, Código Penal para aqui, crimes de devassa para acolá. Às tantas, o interlocutor saca do argumentum magister dixit: distintivo da PSP. Expliquei-lhe que não me intimidava, até porque o argumento era uma falácia lógica devidamente denunciada por Aristóteles no volume VI do Organon. Não estando certo do tema haver sido abordado nos Elencos Sofísticos, requeri ao senhor agente à paisana que colocasse máscara se pretendesse dar seguimento ao diálogo. Pareceu-me desmotivado. Algo assarapantado, desculpou-se. Que não me tinha reconhecido. «Eu conheço-o, você é boa pessoa», concluiu antes de prosseguir marcha. Já tinha saudades da interacção social, confesso, mas chateou-me um bocado interromper a composição de Ralph Burns para a orquestra de Woody Herman que vinha a ouvir. Ademais a IV parte, a minha preferida.

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