Paulo da Costa Domingos (n. 1953) é autor de
obra vasta e complexa, a qual sofreu inflexões formais ao longo dos anos mas
manteve, do início até ao presente, uma admirável consistência enquanto processo
desmistificador da historiografia dominante, quer como testemunho crítico de um
mundo com o qual se mistura, isto é, que não observa a partir do conforto de gabinetes
que tendem a reduzir a realidade a um algoritmo e as relações entre os homens a
estatísticas de Excel, quer como construtor de um edifício poético persistentemente
desenquadrado das convenções académicas do seu tempo. «A nossa tecnologia de
ponta / foi sempre respira e ri», declara a dado passo como quem desvela um dos
axiomas (est)éticos por que se orienta. Atentemo-nos aos três títulos mais
recentes, posteriores à reunião da obra anterior a que deu o título Carmes,
1971-2018 (Companhia das Ilhas, 2019).
Enquanto lia o poema Ilícito (Averno, Maio de 2020) ocorreu-me, por razões porventura relacionadas com o tipo de discurso esotérico plasmado nos versos, a imagem d’ O Velho da Montanha, fundador da seita conhecida como Ordem dos Assassinos. Também Haçan Saba (ou, se preferirem, Hassan-i Sabbāh) foi símbolo de uma força subversiva com técnicas de combate particulares. Uma delas consistia em misturar os guerreiros da seita entre mendigos e vagabundos para, disfarçados no meio da escória do poder, minarem e sabotarem o funcionamento das cidades onde actuavam. Tudo isto parece altamente inspirador enquanto representação de um dos papéis possíveis para o poeta desempenhar no seu tempo e no seu espaço de actuação, ainda que a epígrafe final da plaquete em causa me desminta quanto à fonte do poema. Esta foi, antes, o enigmático «The Book of J», traduzido do hebraico por David Rosenberg e comentado por Harold Bloom. Trata-se de um texto supostamente redigido pela altura do Génesis (ou talvez lhe seja anterior). Bloom sugere que pode ter sido escrito por uma mulher, sem qualquer intenção religiosa.
Ilícito é, portanto, uma ironizarão do texto esotérico, não para ter gracinha, como por vezes se julga ser o propósito da ironia, mas precisamente para lhe desconstruir o conteúdo laudatório e esperançoso. O Mestre a que se dirige é o Mestre dum mundo falhado, duma criação fracassada, que não infunde qualquer tipo de fé em paraísos vindouros: «Todavia depois do dia, a noite: / a descida ao fosso da vigília, / ao não-sonho. E depois da noite / o dia, todavia. A seiva que sobre / nos dedos. Mestre, mestre, / esta máquina pós-moderna / ceifa os doze indomáveis na hora / primeira, o homem da montanha / na hora terceira. Fende o dique, / para que o dia anoiteça em óleo / e lama: a lama dúbia da noite» (p. 9). O princípio é, como se disse, desmistificador e, mais do que isso, assumidamente heterodoxo no propósito final de denunciar um mundo em colapso: «E aqui eu pude, por fim, descalçar-me: / nem idolatria nem religião. / Na fresca escuridão, uno» (p. 21).
Outro aspecto estimulante nesta poesia é o modo como a insubordinação manifesta no discurso se edifica a partir do tratamento dado à língua. «Agora o plano é outro: // tentamos fixar a língua» (p. 44), diz-se num dos poemas de caligrafia orográfica à decifração angélica (viúva frenesi, Outubro de 2020). Curiosamente, mais uma vez as montanhas. Esta “caligrafia das montanhas”, lugar de abrigo dos guerrilheiros, observa-se particularmente nos domínios da acentuação e da pontuação, mas também em termos sintácticos e semânticos. O uso frequente de tremas e de apóstrofos, pontos de exclamação e de interrogação invertidos, hífens inesperados (b-arca, a-deus), confere aos poemas uma aparência imprevista e autónoma, contribuindo para uma singularidade que a exila no contexto de um panorama onde só raramente os poetas arriscam para lá do respeito reverencial à norma instituída. Neste livro reúnem-se dois conjuntos onde tais procedimentos, que não excluem a revisitação de poemas anteriores (vide o soneto da p. 50), ficam esclarecidos: «No dia do entendimento, afinal / tudo fica simples, humilde, acobardado: / um eco que fenece / do lado do frio da travessia / de que os poetas se despojaram, / porque lhes basta / o horizonte. // Enqüanto outros constroem / varandas / para tais e tantos fóruns, / onde se negoceia / a vida inteligente / do trigo. // Antes de aqui chegarmos: / à derrogatória do sentido, / num real afinal infecto» (p. 43).
Assumidamente registada ao longo dos anos como «Um livro. De bordo.» (idem, p. 19), a poesia de Paulo da Costa Domingos conhece, porém, no seu mais recente livro, intitulado neve sobre a roseira (Barco Bêbado, Fevereiro de 2021), um episódio algo intimista como é raro encontrarmos no seu trabalho poético. Se a desmontagem dos pilares que suportam os paradigmas historiográficos se exerce fazendo uso dum olhar acutilante sobre o passado e duma perspectiva crítica sobre o presente, é verdade que estes poemas nunca deixaram de reflectir, em doses homeopáticas, aspectos emotivos da vivência pessoal e das experiências colectivas. Não sendo excepção, neste mais recente livro abrem-se, no entanto, as persianas a uma paisagem peculiarmente testamentária que encontra na oração fúnebre final um dos seus momentos mais elevados.
«neve sobre a roseira na torre de heidelberg» é um longo poema-testamento em que o exame de consciência a que o sujeito se submete o expõe eticamente, sem prescindir de elencar as influências em que alicerçou o seu edifício cívico: «¿Crê?... / Mais do que isso: acredita / na pura inutilidade produtiva, / esse é, pois, o trunfo dele: cometas / que rebobinam a trajectória, caravelas / sem destino de volta à superfície cheias / de significantes e veneno» (p. 60). Mais à frente: «Repare-se: / os demónios que a si vieram, / falinhas mansas a esconder o quão grosseiras / mas ele prossegue na estrada larga / de amoras e silvas e piteiras: / assobia toscamente (ruído e facas) / os farrapos rítmicos d’ uma bandeira // (silenciosa) / de medidas desesperadas, como seja: / o baldio de Eliot, a usura de Ezra, / o ofício cantante, o opiário, a revolução / electrónica, a estilística da língua, / o livro de J, o pão e a culpa, a cidade / queimada… — a sociedade do espectáculo» (p. 61). Escusado será expor as referências elencadas.
Escritos entre 22 de Outubro e 27 de Dezembro de 2020, os poemas deste livro registam já uma Lisboa confinada, assaltada pela pandemia sanitária e outras entretanto agravadas e disseminadas. Há um tom existencial que o atravessa, motivado pelo confronto diário com a morte e com a amargura fundada por uma sociedade destituída de afectos, composta de gente voluntariamente fechada em casa ou circulando a medo em ruas onde o distanciamento é preventivo, dever e obrigação: «3 ratos de bufaria e blandícia / escutam denúncias em take away / e processam a raiz da vida —» (p. 17). Acresce que se trata de um volume muito bonito enquanto objecto visual, enriquecido pelos desenhos de Patrícia Guimarães e com um cuidado que começa na sobrecapa em papel vegetal e se estende por diversos pormenores que levam a pensar no livro não só como «um saco de letras impressas à procura / de significação na vida quotidiana / do Universo conhecido» (p. 48), mas como um refúgio ao qual o poeta em causa se dedicou a vida inteira. É esta beleza da criação que contrasta com o conteúdo ferido pelo «Perplexo / espectáculo na sociedade recreativa dos grunhos» (p. 29). O acento acusatório, que é uma constante nesta poesia, não surge, deste modo, completamente isolado e desprovido de sentido. A verrina tem os seus escapes, através dos quais penetram «ternura, angústia, perplexidade, luz» (p. 58). Nem tudo está perdido. A poesia admite momentos de suspensão. É, de certo modo, a avaria que provoca interrupções na programação.
Enquanto lia o poema Ilícito (Averno, Maio de 2020) ocorreu-me, por razões porventura relacionadas com o tipo de discurso esotérico plasmado nos versos, a imagem d’ O Velho da Montanha, fundador da seita conhecida como Ordem dos Assassinos. Também Haçan Saba (ou, se preferirem, Hassan-i Sabbāh) foi símbolo de uma força subversiva com técnicas de combate particulares. Uma delas consistia em misturar os guerreiros da seita entre mendigos e vagabundos para, disfarçados no meio da escória do poder, minarem e sabotarem o funcionamento das cidades onde actuavam. Tudo isto parece altamente inspirador enquanto representação de um dos papéis possíveis para o poeta desempenhar no seu tempo e no seu espaço de actuação, ainda que a epígrafe final da plaquete em causa me desminta quanto à fonte do poema. Esta foi, antes, o enigmático «The Book of J», traduzido do hebraico por David Rosenberg e comentado por Harold Bloom. Trata-se de um texto supostamente redigido pela altura do Génesis (ou talvez lhe seja anterior). Bloom sugere que pode ter sido escrito por uma mulher, sem qualquer intenção religiosa.
Ilícito é, portanto, uma ironizarão do texto esotérico, não para ter gracinha, como por vezes se julga ser o propósito da ironia, mas precisamente para lhe desconstruir o conteúdo laudatório e esperançoso. O Mestre a que se dirige é o Mestre dum mundo falhado, duma criação fracassada, que não infunde qualquer tipo de fé em paraísos vindouros: «Todavia depois do dia, a noite: / a descida ao fosso da vigília, / ao não-sonho. E depois da noite / o dia, todavia. A seiva que sobre / nos dedos. Mestre, mestre, / esta máquina pós-moderna / ceifa os doze indomáveis na hora / primeira, o homem da montanha / na hora terceira. Fende o dique, / para que o dia anoiteça em óleo / e lama: a lama dúbia da noite» (p. 9). O princípio é, como se disse, desmistificador e, mais do que isso, assumidamente heterodoxo no propósito final de denunciar um mundo em colapso: «E aqui eu pude, por fim, descalçar-me: / nem idolatria nem religião. / Na fresca escuridão, uno» (p. 21).
Outro aspecto estimulante nesta poesia é o modo como a insubordinação manifesta no discurso se edifica a partir do tratamento dado à língua. «Agora o plano é outro: // tentamos fixar a língua» (p. 44), diz-se num dos poemas de caligrafia orográfica à decifração angélica (viúva frenesi, Outubro de 2020). Curiosamente, mais uma vez as montanhas. Esta “caligrafia das montanhas”, lugar de abrigo dos guerrilheiros, observa-se particularmente nos domínios da acentuação e da pontuação, mas também em termos sintácticos e semânticos. O uso frequente de tremas e de apóstrofos, pontos de exclamação e de interrogação invertidos, hífens inesperados (b-arca, a-deus), confere aos poemas uma aparência imprevista e autónoma, contribuindo para uma singularidade que a exila no contexto de um panorama onde só raramente os poetas arriscam para lá do respeito reverencial à norma instituída. Neste livro reúnem-se dois conjuntos onde tais procedimentos, que não excluem a revisitação de poemas anteriores (vide o soneto da p. 50), ficam esclarecidos: «No dia do entendimento, afinal / tudo fica simples, humilde, acobardado: / um eco que fenece / do lado do frio da travessia / de que os poetas se despojaram, / porque lhes basta / o horizonte. // Enqüanto outros constroem / varandas / para tais e tantos fóruns, / onde se negoceia / a vida inteligente / do trigo. // Antes de aqui chegarmos: / à derrogatória do sentido, / num real afinal infecto» (p. 43).
Assumidamente registada ao longo dos anos como «Um livro. De bordo.» (idem, p. 19), a poesia de Paulo da Costa Domingos conhece, porém, no seu mais recente livro, intitulado neve sobre a roseira (Barco Bêbado, Fevereiro de 2021), um episódio algo intimista como é raro encontrarmos no seu trabalho poético. Se a desmontagem dos pilares que suportam os paradigmas historiográficos se exerce fazendo uso dum olhar acutilante sobre o passado e duma perspectiva crítica sobre o presente, é verdade que estes poemas nunca deixaram de reflectir, em doses homeopáticas, aspectos emotivos da vivência pessoal e das experiências colectivas. Não sendo excepção, neste mais recente livro abrem-se, no entanto, as persianas a uma paisagem peculiarmente testamentária que encontra na oração fúnebre final um dos seus momentos mais elevados.
«neve sobre a roseira na torre de heidelberg» é um longo poema-testamento em que o exame de consciência a que o sujeito se submete o expõe eticamente, sem prescindir de elencar as influências em que alicerçou o seu edifício cívico: «¿Crê?... / Mais do que isso: acredita / na pura inutilidade produtiva, / esse é, pois, o trunfo dele: cometas / que rebobinam a trajectória, caravelas / sem destino de volta à superfície cheias / de significantes e veneno» (p. 60). Mais à frente: «Repare-se: / os demónios que a si vieram, / falinhas mansas a esconder o quão grosseiras / mas ele prossegue na estrada larga / de amoras e silvas e piteiras: / assobia toscamente (ruído e facas) / os farrapos rítmicos d’ uma bandeira // (silenciosa) / de medidas desesperadas, como seja: / o baldio de Eliot, a usura de Ezra, / o ofício cantante, o opiário, a revolução / electrónica, a estilística da língua, / o livro de J, o pão e a culpa, a cidade / queimada… — a sociedade do espectáculo» (p. 61). Escusado será expor as referências elencadas.
Escritos entre 22 de Outubro e 27 de Dezembro de 2020, os poemas deste livro registam já uma Lisboa confinada, assaltada pela pandemia sanitária e outras entretanto agravadas e disseminadas. Há um tom existencial que o atravessa, motivado pelo confronto diário com a morte e com a amargura fundada por uma sociedade destituída de afectos, composta de gente voluntariamente fechada em casa ou circulando a medo em ruas onde o distanciamento é preventivo, dever e obrigação: «3 ratos de bufaria e blandícia / escutam denúncias em take away / e processam a raiz da vida —» (p. 17). Acresce que se trata de um volume muito bonito enquanto objecto visual, enriquecido pelos desenhos de Patrícia Guimarães e com um cuidado que começa na sobrecapa em papel vegetal e se estende por diversos pormenores que levam a pensar no livro não só como «um saco de letras impressas à procura / de significação na vida quotidiana / do Universo conhecido» (p. 48), mas como um refúgio ao qual o poeta em causa se dedicou a vida inteira. É esta beleza da criação que contrasta com o conteúdo ferido pelo «Perplexo / espectáculo na sociedade recreativa dos grunhos» (p. 29). O acento acusatório, que é uma constante nesta poesia, não surge, deste modo, completamente isolado e desprovido de sentido. A verrina tem os seus escapes, através dos quais penetram «ternura, angústia, perplexidade, luz» (p. 58). Nem tudo está perdido. A poesia admite momentos de suspensão. É, de certo modo, a avaria que provoca interrupções na programação.



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